Doutrina/Teologia

27 de fevereiro de 2012
 

Deus Glorificado na Santificação

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Escrito por: Kim Riddlebarger
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A tradição reformada tem historicamente argumentado que Deus é glorificado transformando homens e mulheres pecadores “à imagem de Deus”, e também que pecadores “são cada vez mais habilitados a morrer para o pecado e viver para a retidão” (Breve Catecismo de Westminster, Questão 35).

A santificação dos pecadores é, de fato, o milagre dos milagres. Mas o milagre da ação de Deus ao santificar um pecador é completamente obscuro, se nos esquecermos que o fundamental nisso tudo é que homem e mulher pecadores são completamente incapazes de se transformarem de filhos de Adão a vasos glorificados dignos de trazer honras a Deus. Visto que, se deixado a nosso encargo, não temos nem vontade tampouco poder para realizar esse trabalho vital. Não podemos crescer em graça e produzir frutos do espírito. Árvores ruins não “tomam a decisão” de dar bons frutos. Nós somos incapazes de quebrar a influência sufocante do pecado e acabar com o seu domínio sobre cada parte da nossa vida. Como escravos, não podemos simplesmente decretar-nos livres e declarar nossa emancipação. A tirania e o poder do nosso opressor são enormes. Além disso, nunca viveremos à altura da perfeição absoluta que Deus requer de nós. Por natureza, não estamos nem aptos, nem dispostos a cooperar com Ele.

O milagre da glorificação de Deus na santificação não é visto com a grandeza que deveria até que consideremos quem é santificado e quem inicia o processo. Deste modo, o tema central subjacente à concepção reformada da santificação é a ideia de que ela, assim como nossa justificação e adoção, também é uma obra do dom gratuito da graça de Deus. Nas recentes discussões cristãs, tem-se tornado comum pensar na justificação em termos de fé e graça, e na santificação em relações opostas à obra e à nossa própria capacidade inata. E, claro, quando pensamos na nossa santificação relacionada à obra e à capacidade inerente, é o homem que recebe a glória da santificação. Uma vez que o pecador agora é visto como seu próprio santificador, e não Deus. Nessa visão, Deus meramente providencia incentivo (recompensas) e poder (através do Espírito Santo). Tudo o que precisamos fazer é adequar-nos ao que Deus tem nos oferecido e, por meio disso, de alguma forma alcançar a santificação por iniciativa própria, com Deus nos auxiliando apenas se o pedirmos.

A Confissão de Fé de Westminster apresenta a doutrina reformada da santificação com uma clareza sem igual. O capítulo 13 da Confissão, “Da Santificação”, é cuidadosamente posto por seu autor logo após os tratamentos da justificação (capítulo 11) e da adoção (capítulo 12). Esse é um ponto fácil de ignorar, ainda assim, ninguém pode entender completamente os ensinamentos da Confissão sobre a santificação sem observar seu cuidado em ligá-la com outros aspectos da ordo salutis, ou “ordem de salvação”. A santificação não ocorre isoladamente. Como a Confissão deixa claro, santificação segue perfeitamente a justificação e a adoção. Logo, mesmo que a santificação se diferencie da justificação, as duas são adjuntas. Isso significa que alguém justificado não permanece sem santificar-se, e ninguém será santificado sem uma prévia justificação. Assim como somos justificados pela graça através da fé, por causa de Cristo, assim também somos santificados pela graça, através da fé, devido à obra do Espírito Santo.

É fácil se enganar, como muitos de nossos contemporâneos, confundindo santificação com justificação (“morrerei justificado se atingir certo grau de santidade”); ou ao separar os dois como se não tivessem relação alguma (isto é, “Posso aceitar Jesus como meu Salvador sem confessá-lo Senhor de todas as áreas da minha vida”). Como a Confissão adverte, a santificação, um trabalho de Deus em nós, está intimamente ligada à Vocação Eficaz (Capítulo 10) e às Boas Obras (Capítulo 16), e segue como consequência, a causa disso sendo a justificação. Todo pecador que depositou sua confiança em Cristo e imputou a culpa do seu pecado nEle, que se regozija com isso e, em retorno, tem a perfeita retidão de Cristo como se fosse dele, é justificado. Essa mesma pessoa cresce inevitavelmente em santificação.

A Confissão é clara sobre o relacionamento entre a santificação e outras doutrinas. G. I. Williamson resumiu os pontos principais da Confissão sobre a santificação: o Capítulo 13 nos ensina que a natureza regenerada nos cristãos é, pela Palavra e Espírito de Deus, capaz de desenvolver; nesse desenvolvimento, o cristão morre cada vez mais para o pecado e vive cada vez mais para a retidão; esse trabalho de santificação impregna o homem por inteiro; a vitória completa sobre o pecado não é obtida nessa vida, mas o progresso genuíno é feito de modo que todo cristão verdadeiro se esforça para aperfeiçoar a santidade no temor de Deus.

Muitos cristãos, ao lerem a Confissão pela primeira vez, podem se surpreender ao perceberem a diferença no ensino da santificação nas igrejas bíblicas. O foco da Confissão é em Deus atuando sobre nós e em Deus atuando através de meios específicos. Não existe uma lista de coisas que devemos fazer para nos santificarmos, e não há uma lista correspondente proibindo o que os evangélicos americanos historicamente consideravam pecaminoso. Essa é uma forte evidência da discrepância dos atuais cristãos para com o protestantismo histórico e o ensinamento bíblico, e de porque cristãos tanto necessitam das históricas confissões protestantes. Muitos líderes cristãos tentam reinventar a roda teológica, mas não o fazem tão bem quanto seus antepassados teológicos. Ao contrário disso, o foco da Confissão é estritamente teológico.

A Confissão deixa claro, antes de tudo, que a santificação é uma continuidade da nossa regeneração. Deus não somente dá início à vida cristã com regeneração, Ele traz ao usufruto. “Os que são eficazmente chamados e regenerados, tendo criado em si um novo coração e um novo espírito, são, além disso, santificados real e pessoalmente, pela virtude da morte e ressurreição de Cristo, pela sua palavra e pelo seu Espírito, que neles habita (13.1). Uma vez que Deus inicia o processo no recém convertido, ele o traz à plenitude pela santificação. Como A. A. Hodge afirma, “a graça neles implantada se aperfeiçoa cada vez mais”. A santificação também está intimamente ligada à palavra de Deus e ao Espírito Santo que habita em nós. A Confissão também é cuidadosa ao associar a leitura da palavra ao poder divino que nos é confiado pelo Espírito Santo. Portanto, regras e técnicas humanas para aumentar a santidade pessoal não são apenas inúteis como forma de obter a santificação, mas também obstáculos para chegar-se a ela, pois confundem o principal meio de santificação: a palavra de Deus.

A Confissão define o que a santificação verdadeiramente provoca. “O domínio do corpo do pecado é neles todo destruído, as suas várias concupiscências são mais e mais enfraquecidas e mortificadas, e eles são mais e mais vivificados e fortalecidos em todas as graças salvadores, para a prática da verdadeira santidade, sem a qual ninguém verá a Deus” (13.1). Aqui, talvez de forma mais clara que em qualquer outra parte, a Confissão foca mais no significado da santificação, do que nas aplicações e práticas para alcançá-la. Alguns grupos afirmam que apenas alguns cristãos, elites espirituais, conseguem alcançar o grau de santidade esperado por Deus. Entretanto, a Confissão esclarece que a promessa de quebra do controle do pecado é para todos os cristãos. Nossa natureza pecaminosa é constantemente enfraquecida e diminuída, no que teólogos reformados chamam de santificação progressiva. Como o domínio do pecado é completamente destruído na conversão, todo cristão já é santificado de certo modo (I Co 6:11), e é por isso que a Bíblia chama expressamente a todos os Cristão de santos (Rm 1:7). Isso é conhecido por santificação definitiva.

A confissão apresenta um terceiro aspecto da santificação: ela se estende à pessoa por inteira. Não existe uma parte sequer que Deus não santifique. Ele não apenas santifica a alma, como também nossa mente, emoção e desejos. Não há uma dicotomia na santificação, como se Deus santificasse a área espiritual do cristão e deixasse o restante completamente corrompido pela queda do homem. Como Deus santifica a pessoa por inteira, então novo nascimento e santificação inevitavelmente se manifestam num esforço cooperativo com a graça de Deus.

A. A. Hodge deixa claro: “Precisamos lembrar que enquanto formos passivos quanto ao divino ato da graça pelo qual fomos regenerados, depois que somos regenerados, cooperamos com o Espírito Santo na obra da santificação. O Espírito Santo dá a graça, induz e direciona a alma ao seu exercício, e ela o pratica. Então, enquanto santificação é graça, é também dever; e a alma é, em dependência com o Espírito Santo, compelida e encorajada a usar com diligência todos os meios para sua renovação espiritual, e moldar tais hábitos resistindo ao pecado e agindo corretamente, conforme a base da santificação”. Os frutos da santificação são as boas obras, porque Deus nos mudou pela regeneração: de uma árvore ruim que produzia frutos ruins nos tornamos uma árvore boa, que pode render frutos bons. Eis uma mudança harmoniosa de uma pessoa completamente sem vontade e nem capacidade de cooperar, para uma regenerada. Santificando o cristão como um todo, Deus continuamente trabalha nele, para que “seja o trabalho de Deus, e o trabalho do homem, assistido pela graça sobrenatural”.

A Confissão discorre sobre um quarto aspecto da santificação: ela é imperfeita nessa vida. Isto é, não existe “perfeição cristã” como ensinado por John Wesley, ou “santificação completa” ensinada por Charles Finney. Seguindo o pensamento de Paulo em Romanos 7, a Confissão explica que “esta santificação é no homem todo, porém imperfeita nesta vida; ainda persistem em todas as partes dele restos da corrupção, e daí nasce uma guerra contínua e irreconciliável – a carne lutando contra o espírito e o espírito contra a carne”. (13.2)

Todo cristão é renovado e quer praticar o bem, mas ainda assim existe o mal, sobras altamente destrutivas do pecado que habita em nós, que se oporá a essa nova vida até a morte. Williamson descreve essa guerra contra nosso pecado interno. “A dominação do pecado é quebrada, mesmo sua presença não sendo completamente destruída. (…) O pecado já não comanda mais o coração. Os principais caminhos de comunicação foram eliminados. O controle central está nas mãos de Deus. Mas a influência do mal ainda carrega o tormento das mais variadas práticas, astúcias, e desespero do inimigo derrotado. (…) É um fato digno de ser notado que quanto maior o progresso feito pelo homem em santificação, maior será sua aflição para com o pecado que nele habita”. A natureza pecaminosa não é por completo erradicada. Apesar de derrotada e enfraquecida, ela permanece, e se torna fonte de mais luta e penúria na vida cristã. Mesmo com o fim da dominação pelo pecado, haverá uma guerra constante até que o cristão se una, finalmente, a Cristo. Alguns se questionam se sempre confiaram realmente em Deus, porque eles continuamente lutam com pecados específicos e difíceis. A luta por si própria é o próprio sinal de que Deus os está realmente santificando.

A Confissão enfatiza que todos os cristãos farão um progresso genuíno e crescerão em santidade. “Nesta guerra, embora prevaleçam por algum tempo as corrupções que ficam, contudo, pelo contínuo socorro da eficácia do santificador Espírito de Cristo, a parte regenerada do homem novo vence, e assim os santos crescem em graça, aperfeiçoando a santidade no temor de Deus” (13.3). Como é Deus quem nos regenera e nos santifica, Ele assegurará a vitória sobre o pecado. Certamente podemos sentir, no meio da luta, que nunca venceremos o pecado, mas é isso o que Deus promete no final: todo cristão será santificado. Paulo mesmo esclarece, “estou plenamente certo de que aquele que começou boa obra em vós há de completá-la até ao Dia de Cristo Jesus” (Fp 1:6). Quando vemos a santificação pela perspectiva da Confissão de Westminster, percebemos que é, de fato, o milagre dos milagres, visto que homens e mulheres pecadores são transformados de crianças maldosas para vasos de glória. Como Deus é o autor e aperfeiçoador desse processo, Ele recebe toda a glória. Deus é glorificado na santificação dos pecadores!

 

Fonte:  Monergism.com

Tradução: Sara de Cerqueira



Sobre o Autor

Kim Riddlebarger
Kim Riddlebarger
Dr. Kim Riddlebarger é pastor titular da Christ Reformed Church em Anaheim, Califórnia (www.christreformed.org), e co-apresentador do popular White Horse Inn, um talk show de rádio-internet que funciona desde 1990 e pode ser ouvido aqui:(http://www.whitehorseinn.org/).



 
 

 
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