Pós-Milenismo
por
Loraine Boettner D.D.a
Introdução
Falando de modo
geral, há três sistemas gerais que professam expor os ensinos das
Escrituras com respeito à Segunda Vinda de Cristo e o futuro curso do
Reino. São eles: Pós-Milenismo, Amilenismo e Pré-Milenismo.
As pressuposições essenciais dos três
são similares. Cada um sustenta que as Escrituras são a Palavra
de Deus e autoritária. Cada um sustenta o mesmo conceito geral da morte
de Cristo, como um sacrifício para satisfazer a justiça Divina
e como o único fundamento para a salvação das almas. Cada
um sustenta que haverá uma futura, visível e pessoal Vinda de
Cristo. Cada um sustenta o tribunal de Cristo, que a justiça será
recompensada no céu, e que o ímpio será punido no inferno.
Cada um dos sistemas é, então, consistentemente evangélico,
e cada um tem sido apoiado por muitos homens capazes e sinceros. A diferença
levanta-se, não por causa de qualquer deslealdade consciente ou pretendida
das Escrituras, mas primariamente por causa de distintivos métodos empregados
por cada sistema em sua interpretação das Escrituras, e eles relacionam-se
primariamente ao tempo e propósito da vinda de Cristo, e a espécie
do reino que será fundado na Sua vinda.
Será útil ao princípio deste estudo definir cada um dos
sistemas tão claramente como possível. Definições
exatas não podem ser dadas, visto que numerosas variações
são encontradas dentro de cada sistema. Todavia, submetemos o que se
segue como essencialmente correto. O primeiro é o nosso próprio.
Os últimos três, incluindo até o Dispensacionalismo, que
é uma forma radical do Pré-Milenismo, são dados pelo Dr.
J. G. Vos, um recente escritor e filho do Dr. Geerhardus Vos, o qual por muitos
anos foi um professor no Seminário Teológico de Princeton. Essas
definições são apresentadas como as mais acuradas e compreensivas
que encontramos.
PÓS-MILENISMO
Pós-Milenismo é aquela visão
das últimas coisas que sustenta que o Reino de Deus está sendo
agora estendido no mundo através da pregação do Evangelho
e da obra salvadora do Espírito Santo; que o mundo será finalmente
Cristianizado, e que o retorno de Cristo ocorrerá no término de
um longo período de justiça e paz freqüentemente chamado
o Milênio.
Está visão é, certamente, distinta da otimista, porém
falsa visão do aperfeiçoamento e progresso humano sustentado pelos
Modernistas e Liberais, os quais ensinam que o Reino de Deus na terra será
alcançado através de um processo natural pelo qual a humanidade
será aprimorada e as instituições sociais serão
reformadas e trarão um alto nível de cultura e eficiência.
Esta ultima visão citada apresenta um espúrio ou pseudo Pós-Milenismo,
e considera o Reino de Deus como um produto de leis naturais em um processo
evolucionário, enquanto que o Pós-Milenismo ortodoxo considera
o Reino de Deus como um produto da obra sobrenatural do Espírito Santo
em conexão com a pregação do Evangelho.
AMILENISMO
"Amilenismo é aquela visão das últimas coisas que sustenta que a Bíblia não prediz um 'Milênio' ou período de paz e justiça na terra antes do fim do mundo. (O Amilenismo ensina que haverá um paralelo e contemporâneo desenvolvimento do bem e do mal - o Reino de Deus e o reino de Satanás - neste mundo, que continuará até a Segunda Vinda de Cristo. Na Segunda Vinda de Cristo a ressurreição e o julgamento ocorrerão, seguidos por uma eterna ordem das coisas - o absoluto e perfeito Reino de Deus, no qual não haverá pecado, sofrimento nem morte)".
PRÉ-MILENISMO
"Pré-Milenismo é aquele visão das últimas coisas que sustenta que a Segunda Vinda de Cristo será seguida por um período de paz e justiça universal, antes do fim do mundo, chamado 'o Milênio' ou 'o Reino de Deus', durante o qual Cristo reinará como Rei em pessoa nesta terra. (Os Pré-Milenistas são divididos em vários grupos por suas diferentes visões da ordem dos eventos associados com a Segunda Vinda de Cristo, mas todos eles concordam em sustentar que haverá um milênio na terra depois da Segunda Vinda de Cristo, porém antes do fim do mundo)".
DISPENSACIONALISMO
"O falso sistema de interpretação da Bíblia representado pelos escritos de J. N. Darby e pela Bíblia de Referência Scofield, que divide a história da humanidade em sete distintos períodos ou 'dispensações', e afirma que em cada período Deus trata com a raça humana sobre a base de alguns princípios específicos. ( O Dispensacionalismo nega a identidade espiritual de Israel e da Igreja, e tende a colocar 'graça' e 'lei' de encontro um ao outro como princípios mutuamente exclusivos)".
A palavra milênio é derivada
de duas palavras Latinas, mille, significando milênio, e annum, significando
ano. Portanto, o significado literal é mil anos. O termo é encontrado
somente seis vezes nas Escrituras, todas nos primeiros sete versículos
do vigésimo capítulo do Apocalipse, uma porção das
Escrituras reconhecidamente difícil e altamente simbólica. O prefixo
Pós-, A-. e Pré-, como usados com a palavra, designam a visão
particular sustentada com respeito aos mil anos. Os Pré-Milenistas tomam
a palavra literalmente, sustentando que Cristo instalará um Reino na
terra que continuará precisamente por este comprimento de tempo. Pós-Milenistas
e Amilenistas tomam a palavra figurativamente, como significando um indefinido
longo período, sustentado por alguns como sendo uma parte da era Cristã,
e por outros como sendo ela toda.
Similarmente, a palavra Chiliasm [Quiliasmo], mais comumente usada na história
da Igreja Primitiva do que na do tempo presente, vem da palavra Grega chilias,
também significando mil. Os Cristãos primitivos que criam que
Cristo em Sua vinda instalaria um Reino de mil anos, eram chamados de Chiliasts.
Em seu ambiente histórico, as palavras Chiliasm e Pré-Milenismo
tem sido usadas como sinônimos, e é comumente entendido que aqueles
que hoje usam o nome Pré-Milenistas são logicamente os mesmos
que anteriormente eram conhecidos como Chiliasts, embora seus sistemas difiram
em diversas considerações importantes.
Além disto, deve ser dito com respeito ao Dispensacionalismo que enquanto
o Pré-Milenismo histórico tem sustentado que a Igreja passará
pela Tribulação, o Dispensacionalismo sustenta que a Igreja será
raptada, e assim retirada do mundo antes daquele evento; e que seguindo o Rapto,
haverá um período de sete anos, durante a primeira metade do qual
os Judeus estarão em aliança com o Anti-Cristo e residiram na
Palestina, porém na última metade, eles sofreram terrível
perseguição sob o Anti-Cristo. No final do período de sete
anos Cristo retornará, aniquilará o Anti-Cristo, e estabelecerá
Seu Reino em Jerusalém. Os Judeus terão uma posição
de especial favor no Reino, e permanecerão como um corpo distinto dos
Gentios durante toda a eternidade. Os Dispensacionalistas são dessa forma
duplamente "pré-s" - Pré-tribulacionistas e Pré-Milenistas.
Esta distinção é de grande importância para os Dispensacionalistas,
porque isto lhes dá um período de sete anos, alegadamente a 70°
semana da profecia de Daniel (Daniel 9:24-27), durante qual período todos
os eventos profetizados em Apocalipse capítulo 4 a 19 serão cumpridos.
Que os Dispensacionalistas dão grande importância a esta distinção
é demonstrado pelo vigor com que eles atacam seus companheiros Pré-Milenistas
que são Pós-Tribulacionistas, isto é, que sustentam que
a Igreja atravessa a Tribulação.
Outra característica proeminente do Dispensacionalismo é sua doutrina
que, quando os Judeus rejeitaram a alegada oferta de Cristo para o Reino Davídico,
o Reino foi removido, e a Igreja foi então colocada como um substituto,
- esta presente era da igreja é então um período de interlúdio
ou parênteses, durante o qual período Deus trata com o homem através
da Igreja até o retorno de Cristo, quando a Igreja será tirada
e o Reino estabelecido.
O Dispensacionalismo é um desenvolvimento comparativamente recente. Essas
visões distintivas foram primeira e efetivamente apresentadas por John
N. Darby, um líder do grupo Irmãos Plymouth na Inglaterra, aproximadamente
em 1830, e ultimamente popularizado pela Bíblia de Referência Scofield.
A origem real deste sistema, todavia, era consideravelmente primitiva, como
podemos descobrir quando discutimos a história do movimento.
Primariamente através da influência da Bíblia de Referência
Scofield, com suas Notas explanatórias impressas na mesma página
com o texto, estas visões têm agora se tornado o prevalecente dogma
do Pré-Milenismo nos Estados Unidos. Elas nunca foram encontradas em
declarações de credos em qualquer uma das numerosas denominações
Protestantes, mas são sustentadas por indivíduos em todas as denominações,
e elas têm sido a regra de fé de vários grupos Pentecostais
e de Santidade, os quais normalmente não são conhecidos por escolaridade
ou pesquisa científica. Além do mais, eles têm sido popularizados
por institutos Bíblicos, muitos dos quais são dispensacionais
no seu ensino. Estas visões têm sido justamente como consistentemente
rejeitadas e confrontadas na maioria dos seminários teológicos,
onde à escolaridade e pesquisa são dadas mais proeminências,
e por uma larga maioria dos proeminentes teólogos.
Não pode haver dúvida porém que, o Pré-Milenismo
proporciona a si próprio mais um tipo emocional de pregação
e ensino do que o faz o Pós-Milenismo ou Amilenismo. Ele dá algo
definitivo para se procurar em um futuro imediato e para se carregar o presente
com possibilidades primorosas. Enquanto muitos dos que o sustentam não
o usam assim, ele freqüentemente tem sido usado naquela maneira por aqueles
que são menos refreados.
O Pré-Milenismo tende a fazer da Bíblia um compêndio de
pronta referência, mais do que um livro de origem do qual declarações
devem ser coletadas, comparadas, colocadas em suas relações lógicas,
e então organizadas em uma Teologia Sistemática. Eles professam
"tomar Deus em Sua palavra", e "aceitar a completa declaração
da verdade como Deus a tem revelado." Tal raciocínio tem seu lugar
quando dirigido contra os Modernistas que rejeitam a doutrina da completa inspiração
das Escrituras. Mas está fora de lugar quando dirigida contra aqueles
que, embora aceitando a doutrina da completa inspiração das Escrituras,
reconhecem que muita verdade está transportada com expressões
figuradas. O fato do assunto é que a revelação de Deus
como encontrada na Bíblia, contêm muitos mistérios profundos
e segredos que sempre têm e provavelmente sempre desafiará os intelectos,
até mesmo do mais sábio dos homens. As declarações
superficiais sobre tomar Deus em Sua Palavra e sobre a clara harmonia da Palavra
de Deus são ilusórias e devem ser suas próprias refutações.
Rejeitando tais soluções fáceis, somos profundamente agradecidos
à herança que os eruditos e as teologias da Igreja têm nos
entregado. A profunda compreensão das Escrituras e a correlação
destas doutrinas, não é algo que pode ser terminado em um dia,
ou até durante toda uma vida, mas é uma tarefa para a Igreja durante
todos os séculos. Dr. William H. Rutgers escrevendo sobre este assunto
disse muito bem: "Se homens têm se engajado em batalhas intelectuais
por séculos para resolver o problema Cristológico, e tantas outras
muitas questões teológicas, não deve se esperar que a escatologia,
o problema mais difícil da ciência teológica, seja esclarecida
diferentemente [dos outros]. A segurança e a certeza com que muitos destes
estudantes da Bíblia falam com respeito ao futuro programa de Deus, é
somente orgulho e arrogância. (Pré-Milenismo na América,
p. 42)
O Pré-Milenismo teve seu melhor sucesso e fez seus melhores ganhos no
tempo da guerra ou da crise nacional quando os povos estavam ansiosos e angustiados
sobre o futuro. Os clérigos Pré-Milenistas de todas as denominações
reuniram-se em "conferências proféticas" para discutir
eventos iminentes tais como o estabelecimento da nação de Israel
na Palestina, os futuros movimentos da Rússia ou Alemanha, sinais de
que a apostasia estava tomando seu curso, etc, como eles [os eventos] eram presumidos
terem sido profetizados na "oculta" sabedoria de Daniel, Ezequiel,
Zacarias, ou no Livro de Apocalipse.
As formas primitivas de Pré-Milenismo assim como as doutrinas dispensacionais
presentes tem sido sustentadas usualmente, se não sempre, por uma minoria
do povo Cristão. As distintivas doutrinas dispensacionais ocupam uma
posição muito menos proeminente na Europa do que na vida da igreja
Americana.
Há então, três principais visões concernente ao retorno
de Cristo: o Pós-Milenial, que sustenta que Ele retornará depois
do Milênio; o Pré-Milenial, que sustenta que Seu retorno precederá
o Milênio; e o Amilenial, que sustenta que não haverá um
Milênio de nenhuma maneira no sentido geralmente aceito do termo. O Dispensacionalismo,
às vezes enxergado como uma quinta visão, é na realidade
somente uma forma mais extrema de Pré-Milenismo.
Pouca pretensão pode ser dada à originalidade deste livro. A maioria
do que é dito aqui, foi dito antes por estudiosos muito superiores ao
presente escritor. O propósito primário da presente obra é
fazer disponível, em uma forma sumarizada e sistematizada, a informação
concernente a estes problemas escatológicos que tem sido produzidos através
das gerações, do cuidadoso estudo pelos melhores estudiosos que
a Igreja produziu, para separar a verdade do erro, e para expressar esta verdade
tão clara e convincente como possível. As citações
das Escrituras são da American Standard Version [Versão Americana
Padrão] de 1901 em preferência à King James, visto que a
anterior é a mais acurada tradução.
Traduzido por: Felipe
Sabino de Araújo Neto
Cuiabá-MT, 12 de Novembro de 2002.