A Doutrina Reformada da Predestinação

por

Loraine Boettner D.D.a
Copyright 1932
by
Loraine Boettner

 

Capítulo 11

Eleição Incondicional

 


 

1. Apresentação da Doutrina 2. Prova da Bíblia 3. Prova da Razão 4. Fé e Boas Obras são os Frutos e a Prova, não as Bases, da Eleição 5. Rejeição 6. Infralapsarianismo e Supralapsarianismo 7. Muitos são Escolhidos 8. Uma Raça ou Mundo Redimido 9. Vastidão da Multidão de Redimidos 10. O Mundo está Ficando Melhor 11. Salvação Infantil 12. Sumário


1. APRESENTAÇÃO DA DOUTRINA

A doutrina da Eleição deve ser encarada somente sob uma aplicação particular da doutrina geral da Predestinação ou Pré Ordenação conforme relaciona-se com a salvação de pecadores; e desde que as Escrituras estão preocupadas mais com a redenção de pecadores, esta parte da doutrina é naturalmente colocada em um lugar de proeminência especial. Ela compartilha todos os elementos da doutrina geral; e desde que é o ato de uma Pessoa moral infinita, é representada como sendo a determinação eterna, absoluta, imutável efetiva da Sua vontade, dos objetos de Suas operações salvíficas. E nenhum aspecto desta escolha eletiva é mais constantemente enfatizado do que o da sua absoluta soberania.

A Fé Reformada tem se apegado à existência de um decreto eterno, divino, o qual, antecedentemente a qualquer diferença ou excelência nos próprios homens, separa a raça humana em duas porções e ordena uma para a vida eterna e a outra para a morte eterna. Tanto quanto tal decreto é relacionado aos homens e designa o conselho de Deus referente àqueles que tiveram uma chance supremamente favorável em Adão para ganhar a salvação, mas que perderam tal chance. Como resultado da queda eles são culpados e corruptos, seus motivos são errados e eles não podem operar a sua própria salvação. Eles perderam todas causas ente a misericórdia de Deus, e podem simplesmente terem sido deixados para sofrer o castigo da sua desobediência como todos os anjos caídos também o foram. Mas ao contrário, os membros eleitos desta raça são resgatados deste estado de culpa e pecado e são trazidos a um estado de santidade e bênçãos. Os não eleitos são simplesmente deixados em seu estado prévio de ruína, e estão condenados pelos seus pecados. Eles não sofrem nenhum tipo de castigo não merecido, pois Deus está tratando-os não meramente como homens, mas como pecadores.

A Confissão de Fé de Westminster apresenta a doutrina desta forma [Capítulo III - Dos Eternos Decretos de Deus]: "Pelo decreto de Deus e para manifestação da sua glória, alguns homens e alguns anjos são predestinados para a vida eterna e outros preordenados para a morte eterna."[ Ref. I Tim.5:21; Mar. 5:38; Jud. 6; Mat. 25:31, 41; Prov. 16:4; Rom. 9:22-23; Ef. 1:5-6.]

"Esses homens e esses anjos, assim predestinados e preordenados, são particular e imutavelmente designados; o seu número é tão certo e definido, que não pode ser nem aumentado nem diminuído." [Ref. João 10: 14-16, 27-28; 13:18; II Tim. 2:19]

"Segundo o seu eterno e imutável propósito e segundo o santo conselho e beneplácito da sua vontade, Deus antes que fosse o mundo criado, escolheu em Cristo para a glória eterna os homens que são predestinados para a vida; para o louvor da sua gloriosa graça, ele os escolheu de sua mera e livre graça e amor, e não por previsão de fé, ou de boas obras e perseverança nelas, ou de qualquer outra coisa na criatura que a isso o movesse, como condição ou causa."[Ref. Ef. 1:4, 9, 11; Rom. 8:30; II Tim. 1:9; I Tess, 5:9; Rom. 9:11-16; Ef. 1: 19: e 2:8-9.]

"Assim como Deus destinou os eleitos para a glória, assim também, pelo eterno e mui livre propósito da sua vontade, preordenou todos os meios conducentes a esse fim; os que, portanto, são eleitos, achando-se caídos em Adão, são remidos por Cristo, são eficazmente chamados para a fé em Cristo pelo seu Espírito, que opera no tempo devido, são justificados, adotados, santificados e guardados pelo seu poder por meio da fé salvadora. Além dos eleitos não há nenhum outro que seja remido por Cristo, eficazmente chamado, justificado, adotado, santificado e salvo."[Ref. I Pedro 1:2; Ef. 1:4 e 2: 10; II Tess. 2:13; I Tess. 5:9-10; Tito 2:14; Rom. 8:30; Ef.1:5; I Pedro 1:5; João 6:64-65 e 17:9; Rom. 8:28; I João 2:19.]

"Segundo o inescrutável conselho da sua própria vontade, pela qual ele concede ou recusa misericórdia, como lhe apraz, para a glória do seu soberano poder sobre as suas criaturas, o resto dos homens, para louvor da sua gloriosa justiça, foi Deus servido não contemplar e ordená-los para a desonra e ira por causa dos seus pecados."[Ref. Mat. 11:25-26; Rom. 9:17-22; II Tim. 2:20; Jud. 4; I Pedro 2:8.]"

É importante que tenhamos uma clara compreensão desta doutrina da Eleição divina, pois a nossa visão relacionada a ela é o que determina a nossa visão de Deus, o homem, o mundo, e a redenção. Como Calvino corretamente disse, "Nós nunca estaremos tão claramente convencidos como deveríamos, de que a nossa salvação provém da fonte da gratuita misericórdia de Deus, até que estejamos familiarizados com esta eleição eterna, que ilustra a graça de Deus por esta comparação, que Ele não adota todos indiscriminadamente para a esperança de salvação, mas a alguns dá o que recusa a outros. Ignorância deste princípio evidentemente desvia da glória divina, e diminui a real humildade." 2 Calvino admite que esta doutrina levantou questões muito perplexas nas mentes de alguns, pois, diz ele, "eles não consideram nada mais irracional do que, da massa comum da raça humana, alguns deverial estar predestinados à salvação; e outros à destruição."

Os teólogos Reformados consistentemente aplicaram este princípio à experiência real do fenômeno espiritual, o qual eles mesmos sentiram e viram nos outros ao seu redor. O propósito divino, ou Predestinação, sozinho poderia explicar a distinção entre bem e mal, entre o santo e o pecador.


2. PROVA DA BÍBLIA

A primeira questão que devemos perguntarmo-nos então, é, "Encontramos esta doutrina ensinada nas Sagradas Escrituras?" Voltemo-nos então para a Epístola de Paulo aos Efésios. Lá podemos ler: "[4] como também nos elegeu nele antes da fundação do mundo, para sermos santos e irrepreensíveis diante dele em amor; [5] e nos predestinou para sermos filhos de adoção por Jesus Cristo, para si mesmo, segundo o beneplácito de sua vontade,"[Efésios 1:4,5]. Na carta aos Romanos lemos que a corrente dourada da redenção estende-se desde a eternidade já passada até a eternidade ainda porvir -- "Porque os que dantes conheceu, também os predestinou para serem conformes à imagem de seu Filho, a fim de que ele seja o primogênito entre muitos irmãos; [30] e aos que predestinou, a estes também chamou; e aos que chamou, a estes também justificou; e aos que justificou, a estes também glorificou."[Romanos 8:29,30]. Pré-sabido, preordenados, chamados, justificados, glorificados, sempre com as mesmas pessoas incluídas em cada grupo, e onde um desses fatores estiver presente, todos os demais estarão em princípio, também presentes.

Paulo redigiu o versículo conjugando os verbos no tempo passado porque com Deus o propósito é em princípio executado quando formado, tão certamente é o seu cumprimento. "Estes cinco elos dourados", diz o Dr. Warfield, "são todos unidos em uma corrente inquebrável, de modo que todos os que estão sob a graciosa vista diferenciadora de Deus são carregados por Sua graça somente, passo a passo, até a grande consumação da glorificação que completa a prometida conformidade à imagem do próprio Filho de Deus. Veja, é a 'eleição' que faz tudo isso; a 'quem Ele justificou, . . . . . eles também glorificou'." 3

As Escrituras Sagradas representam a eleição como um acontecimento no passado, sem relacionamento com o mérito pessoal, e totalmente soberana, -- "[11] (pois não tendo os gêmeos ainda nascido, nem tendo praticado bem ou mal, para que o propósito de Deus segundo a eleição permanecesse firme, não por causa das obras, mas por aquele que chama), [12] foi-lhe dito: O maior servirá o menor. [13] Como está escrito: Amei a Jacó, e aborreci a Esaú."[Romanos 9:11-13]. Agora, se a doutrina da eleição não for verdadeira, podemos seguramente desafiar qualquer homem a dizer-nos o que o apóstolo Paulo quis dizer com tal tipo de linguagem. "Nos é ilustrada a soberana aceitação de Isaque e a rejeição de Ismael, e a escolha de Jacó e não a de Esaú antes mesmo dos seus nascimentos e portanto antes que tivessem praticado qualquer bem ou mal; nos é explicitamente dito que no que tange à salvação não de um que quer ou de outro que corre, mas de Deus que mostra misericórdia, e que Ele tem misericórdia para com quem Ele quer e a quem Ele confirma; somos pertinentemente direcionados a observar em Cristo, o oleiro que faz os vasos que procedem de Sua mão, um para cada finalidade que Ele aponta, para que Ele possa operar a Sua vontade através deles. É seguro dizer que não se pode escolher linguagem melhor adaptada para ensinar Predestinação no seu ápice." 4

Mesmo se não tivéssemos quaisquer outros testemunhos inspirado que aqueles escritos por Paulo, tão claros e precisos são aqueles mesmos que seríamos constrangidos a admitir que a doutrina da Eleição encontra lugar na Bíblia. Em se olhando às referências Bíblicas na Confissão de Fé, vemos que a mesma é abundantemente sustentada pela Bíblia. Se admitimos a inspiração da Bíblia; se admitimos que os escritos dos profetas e apóstolos foram soprados pelo Espírito de Deus, e são assim infalíveis, então o que lá encontrarmos será suficiente; e assim no testemunho irrefutável das Escrituras devemos reconhecer que a Eleição, ou a Predestinação são uma verdade estabelecida, e que devemos receber se tomamos posse do conselho de Deus. Cada Cristão deve crer em alguma forma de eleição; pois enquanto as Escrituras deixam muitas coisas inexplicadas a respeito da doutrina da Eleição, elas deixam muito claro o FATO de que houve uma eleição.
Cristo declarou abertamente aos Seus discípulos, "Vós não me escolhestes a mim mas eu vos escolhi a vós, e vos designei, para que vades e deis frutos, ..."[João 15:16], pelo que Ele fez primária a escolha de Deus e a do homem somente secundária, como resultado dO que escolheu primeiro. Os Arminianos, contudo, em fazendo com que a salvação dependa da escolha do homem em usar ou abusar da graça proferida inverte esta ordem, fazendo com que a escolha do homem seja a primária e a decisiva. Não há lugar nas Escrituras para uma eleição que esteja cuidadosamente ajustada às pré-vistas atitudes da criatura. A vontade divina nunca é feita dependente da vontade da criatura para as suas determinações.

Novamente a soberania desta escolha é claramente ensinada quando Paulo declara que Deus provou o Seu amor para conosco pelo fato de haver Cristo morrido por nós enquanto éramos ainda pecadores (Romanos 5:8), e que Cristo morreu pelos ímpios (Romanos 5:6). Aqui vemos que o Seu amor não foi estendido até nós porque éramos bons, mas apesar do fato de que nós éramos maus. É Deus quem escolhe a pessoa e faz com que ele se aproxime dEle (Salmo 65:4). O Arminianismo tira tal escolha das mãos de Deus e a coloca nas mãos do homem. Qualquer sistema teológico que substitua a eleição feita pelo homem cai sob o ensino Bíblico deste assunto.

Nos dias mais negros da apostasia de Israel, como em qualquer outra época, foi este princípio de eleição que fez diferença ente a raça humana e manteve seguro um remanescente. "Todavia deixarei em Israel sete mil: todos os joelhos que não se dobraram a Baal, e toda boca que não o beijou." [I Reis 19:18]. Aqueles sete mil não permaneceram por sua própria força e poder; está expressamente dito que Deus reservou-os para Si mesmo, que eles pudessem ser um remanescente.

É para o bem dos eleitos que Deus governa o curso de toda a história (Marcos 13:20 = "Se o Senhor não abreviasse aqueles dias, ninguém se salvaria mas ele, por causa dos eleitos que escolheu, abreviou aqueles dias."). Ele são o "sal da terra", e a "luz do mundo"; e até agora pelo menos na história do mundo eles são os poucos através de quem os muitos são abençoados, -- Deus abençoa a casa de Potifar para o bem de José; e dez justos teriam salvo a cidade de Sodoma. Sua eleição, é claro, inclui a oportunidade de ouvir o Evangelho e receber os dons da graça, pois sem estes grandes meios o fim grandioso que é a eleição não seria alcançado. Eles são, de fato, eleitos para tudo o que está incluído na idéia de vida eterna.

À parte da eleição de indivíduos para a vida, tem havido o que poderíamos chamar de uma eleição natural, ou a divina predestinação de nações e de comunidades a um conhecimento da verdadeira religião e aos privilégios externos do Evangelho. Deus indubitavelmente escolhe algumas nações para receber bênçãos temporais e espirituais maiores que outras. Esta forma de eleição sem sido bem ilustrada na nação Judia, em certas nações e comunidades Européias, e na América. O contraste é violento, quando comparamos estas com outras nações tais como China, Japão, Índia, etc.

Em todo o Velho Testamento, é repetidamente mostrado que os Judeus eram um povo escolhido. "De todas as famílias da terra só a vós vos tenho conhecido; ..."[Amós 3:2]. "Não fez assim a nenhuma das outras nações; ..."[Salmo 147:20]. "Porque tu és povo santo ao Senhor teu Deus; o Senhor teu Deus te escolheu, a fim de lhe seres o seu próprio povo, acima de todos os povos que há sobre a terra."[Deuteronômio 7:6]. Porém, é igualmente feito certo que Deus não encontrou nenhum mérito ou dignidade nos próprios Judeus, que O fizessem escolhe-los em detrimento de outros povos. "[7] - O Senhor não tomou prazer em vós nem vos escolheu porque fôsseis mais numerosos do que todos os outros povos, pois éreis menos em número do que qualquer povo; [8] - mas, porque o Senhor vos amou, e porque quis guardar o juramento que fizera a vossos pais, foi que vos tirou com mão forte e vos resgatou da casa da servidão, da mão de Faraó, rei do Egito."[Deuteronômio 7:7,8]. E de novo, "Entretanto o Senhor se afeiçoou a teus pais para os amar; e escolheu a sua descendência depois deles, isto é, a vós, dentre todos os povos, como hoje se vê."[Deuteronômio 10:15]. Nesta passagem é cuidadosamente explicado, que Israel foi honrado com a escolha divina, em contraste com o tratamento dispensado a todos os demais povos da terra, que a escolha proveio só e unicamente do amor imerecido de Deus; e que não havia base nenhuma em Israel para tanto.

Quando Paulo foi proibido pelo Espírito Santo de pregar o Evangelho na província da Ásia, e lhe foi dada a visão de um homem na Europa clamando através das águas, "Venha até a Macedônia e ajude-nos", uma seção do mundo foi soberanamente excluída dos privilégios do Evangelho, enquanto que a outra seção os mesmos privilégios foram soberanamente dados. Tivesse a chamada divinamente direcionada sido feita mais para a Índia, a Europa e a América poderiam ser hoje menos civilizadas que os nativos do Tibete. Foi a escolha soberana de Deus que trouxe o Evangelho aos povos da Europa e mais tarde da América, enquanto que os povos do leste, e norte, e sul foram deixados em trevas. Nós não podemos assinalar razão alguma, por exemplo, por que deveriam ter sido escolhidos os povos da semente de Abraão, e não a semente dos Egípcios ou dos Assírios; ou por que a Grã Bretanha e a América, que à época do aparecimento de Cristo na Terra encontravam-se num estado de tão completa ignorância, deveriam atualmente possuir tão abundantemente para si mesmas, e disseminarem tão grandemente para outros, tão importantes privilégios espirituais. As diversificações relacionadas aos privilégios religiosos em diferentes nações não podem ser atribuídas a nada mais que o prazer de Deus.

Uma terceira forma de eleição ensinada na Bíblia é a de indivíduos no sentido externo da graça, tais como a audição e a leitura do Evangelho, associação com o povo de Deus, e compartilhar os benefícios da civilização que floresceu onde esteve o Evangelho. Ninguém jamais teve a chance de dizer em que época em particular na história do mundo, ou em que país, alguém teria nascido, se seria ou não um membro da raça branca, ou alguma outra. Uma criança nasce com saúde, abundância, e honra num lugar favorecido, num lar Cristão, e cresce com todas as bênçãos que acompanham a plenitude do Evangelho. Uma outra criança nasce na pobreza e na desonra de pais separados e cheios de pecado, e destituída das influências Cristãs. Todas estas coisas são soberanamente decididas por elas (as crianças). Certamente nenhum insistiria que a criança favorecida tenha qualquer mérito que pudesse ser motivo para tal diferença. Além do mais, não foi de Deus próprio a escolha da criação de seres humanos, à Sua própria imagem, quando Ele poderia haver criado-nos gado, ou cavalos, ou cachorros? Ou quem permitiria aos idiotas blasfemar contra Deus por sua condição de vida, como se a distinção fosse injusta? Todas estas coisas são devidas à providência de Deus, que prevalece. "Os Arminianos têm batalhado para reconciliar tudo isto, na verdade, com seus pontos de vista errôneos e defeituosos quanto a soberania Divina, e com suas doutrinas não Bíblicas da graça universal e da redenção universal; mas eles usualmente não se satisfazem com suas próprias tentativas de explicar, e têm comumente no mínimo admitido, que houve mistérios neste assunto, os quais não poderiam ser explicados, e os quais devem ser resolvidos na soberania de Deus e na inescrutabilidade dos Seus conselhos." 5

Talvez nós possamos mencionar um quarto tipo de eleição, a de indivíduos com certas vocações, -- os dons de talentos especiais que fazem com que uma pessoa venha a tornar-se um estadista, que outra venha a ser um doutor, ou advogado, ou fazendeiro, ou músico, ou artesão; dons de beleza pessoal, inteligência, disposição, etc. Estes quatro tipos de eleição são, em princípio, o mesmo. Os Arminianos não têm dificuldade em admitir o segundo, o terceiro e o quarto tipo de eleição, enquanto que negam o primeiro. Em cada instância Deus dá a alguns o que ele retém de outros. Tanto nossa experiência na vida diária como condições amiúde no mundo nos mostram que as bênçãos dispensadas são soberanas e incondicionais, sem qualquer relação com o mérito ou a ação por parte daqueles que são escolhidos. Se somos altamente favorecidos, podemos somente ser gratos por Suas bênçãos; se não altamente favorecidos, não temos razão nenhuma para reclamar. Por que precisamente este ou aquele é colocado em circunstâncias que levam à fé salvadora, enquanto que outros não são também colocados, é de fato um mistério. Não podemos explicar as obras da Providência; mas sabemos que o Juiz de toda a terra fará o certo, e que quando nos ativermos ao perfeito conhecimento, veremos que ele tem razões suficientes para todos os Seus atos.

Ademais, pode ser dito que em geral as condições exteriores que cercam o indivíduo determinam o seu destino, -- pelo menos neste ponto, que aqueles de quem o Evangelho é suprimido não têm chance alguma de salvação. Cunningham escreveu isto muito bem no seguinte parágrafo: -- "Há uma conexão invariável estabelecida no governo de Deus sobre o mundo, entre o prazer de privilégios exteriores, ou os meios da graça, por um lado; e fé e salvação por outro, nesse sentido e neste ponto, que a negação do primeiro implica na negação do segundo. O significado de toda a Bíblia nos assegura que onde Deus, em Sua soberania, deixa de proporcionar aos homens o prazer dos meios da graça, -- uma oportunidade de familiarizarem-se com o único meio de salvação, -- Ele ao mesmo tempo, e através dos mesmos métodos, em ordenação, retém deles a oportunidade e o poder de crerem e de serem salvos." 6

Os Calvinistas mantêm que Deus lida não somente com a massa da raça humana, mas também com os indivíduos que são realmente salvos, que Ele elegeu pessoas em particular para a vida eterna e para todos os meios necessários para que aquela vida eterna seja alcançada. Eles admitem que algumas das passagens nas quais a eleição é mencionada ensinam somente uma eleição de nações, ou uma eleição para os privilégios externos, mas mantêm que muitas outras passagens ensinam exclusiva e somente uma eleição de indivíduos para a vida eterna.

Há alguns, é claro, que negam ter havido algo como eleição. Segundo eles, a começar pelo próprio vocábulo, como se fosse um espectro que de repente aparecesse das trevas, sem nunca antes ter sido visto. Todavia, somente no Novo Testamento, as palavras 'eklektos', 'ekloga', e 'eklego'; eleito, eleição, escolhido, são encontrados quarenta e sete ou quarenta e oito vezes (referência para a lista completa é a "Young's Analytical Concordance). Outros aceitam o vocábulo mas tentam minimizar a importância do assunto com explicações vagas. Eles professam crer em uma "eleição condicional", baseada, como supõem, numa fé prevista e na obediência evangélica dos seus objetos. Isto, é claro, destrói a eleição em qualquer senso inteligível do termo, e a reduz a um mero reconhecimento ou profecia que em algum tempo futuro algumas pessoas serão possuídas por aquelas qualidades. Se baseado na fé e obediência evangélica, então, como tem sido cinicamente fraseado, Deus é cuidadoso ao escolher somente aqueles a quem Ele prevê que se elegerão a si próprios. No sistema teológico Arminiano, a eleição é reduzida a um mero vocábulo ou nome, do qual o uso somente tende a envolver o sujeito numa maior obscuridade e confusão. Um mero reconhecimento que aquelas qualidades estarão presentes em algum tempo futuro é, claro, algo falsamente chamado de "eleição", ou simplesmente nenhuma eleição qualquer que seja. E alguns Arminianos, consistentemente levando a cabo as suas próprias doutrinas que o ser humano pode ou não aceitar, e se ele efetivamente aceitar ele pode cair novamente, identificam o tempo deste decreto da eleição com a morte do crente, como se somente então a sua salvação viesse a ser certa.

A Eleição aplica-se não somente aos homens mas também e igualmente aos anjos, desde que eles também fazem parte da criação de Deus e estão sob o Seu governo. Alguns destes são santos e felizes, outros são cheios de pecado e miseráveis. As mesmas razões que levam-nos a crer numa predestinação de homens também nos fazem crer numa predestinação de anjos. As Escrituras confirmam este ponto de vista através de referências a "anjos eleitos"[I Timóteo 5:21], e "anjos santos" [Marcos 8:38], os quais contrastam com "anjos maus" ou "demônios". Lemos que Deus "... não poupou a anjos quando pecaram, mas lançou-os no inferno, e os entregou aos abismos da escuridão, reservando-os para o juízo;"[II Pedro 2:4]; lemos também acerca do "... fogo eterno, preparado para o Diabo e seus anjos;"[Mateus 25:41]; e de "... anjos que não guardaram o seu principado, mas deixaram a sua própria habitação, ele os tem reservado em prisões eternas na escuridão para o juízo do grande dia"[Judas 6]; e da "... guerra no céu: Miguel e os seus anjos batalhavam contra o dragão. E o dragão e os seus anjos batalhavam,"[Apocalipse 12:7]. Um estudo dessas passagens nos mostra que, conforme Dabney diz, "há dois tipos de espíritos, nesta ordem; santos e pecadores - os anjos, servos de Cristo e os servos de Satã; que foram criados num estado de santidade e de felicidade, e habitavam na região chamada Céu (a bondade e a santidade de Deus são prova suficiente de que Ele não os criaria de outra forma); que os anjos maus volutariamente perderam seu estado [de santidade e felicidade] ao pecarem, e foram excluídos para sempre do Céu e da santidade; que aqueles que mantiveram seu estado [de santidade e felicidade] foram doravante eleitos por Deus, e que o seu estado de santidade e beatitude é agora assegurado para sempre." 7

Paulo não faz nenhuma tentativa de explicar como Deus pode ser justo ao mostrar misericórdia e passa-la a quem Ele quiser. Em resposta à pergunta do opositor, "Por que se queixa ele ainda?" (com aqueles a quem Ele não estendeu a misericórdia salvadora), ele (Paulo) resolve a questão toda simplesmente evocando a soberania de Deus, ao replicar, "Mas, ó homem, quem és tu, que a Deus replicas? Porventura a coisa formada dirá ao que a formou: Por que me fizeste assim? 21 - Ou não tem o oleiro poder sobre o barro, para da mesma massa fazer um vaso para uso honroso e outro para uso desonroso?"[vide Romanos 9:19-21] (e note-se que Paulo aqui diz os vasos não são feitos de diferentes espécies ou tipos de barro, mas que é "da mesma massa", que Deus, o oleiro, faz um vaso para honra e outro para a desonra.) Paulo não tira Deus do Seu trono e O coloca perante a nossa razão humana para ser questionado e examinado. Estes Seus conselhos secretos, os quais mesmo aos anjos, que adoram com tremor e desejo de conhecer, não são explicados; exceto que são ordenados a ser conforme o Seu próprio prazer. E depois que Paulo assim afirma, ele como se colocando sua mão à frente, nos proíbe de ir adiante. Fosse verdadeira a hipótese assumida pelos Arminianos, nominalmente, que a todos os homens é dada suficiente graça e que cada um é recompensado ou punido, castigado conforme o seu próprio uso ou abuso de tal graça, não teria havido nenhuma dificuldade a que fazer conta.

MAIS PROVAS NAS ESCRITURAS

-- II Tessalonicenses 2:13 : "... porque Deus vos escolheu desde o princípio para a santificação do espírito e a fé na verdade,"
-- Mateus 24:24 : "porque hão de surgir falsos cristos e falsos profetas, e farão grandes sinais e prodígios; de modo que, se possível fora, enganariam até os escolhidos."
-- Mateus 24:31 : "E ele enviará os seus anjos com grande clangor de trombeta, os quais lhe ajuntarão os escolhidos desde os quatro ventos, de uma à outra extremidade dos céus."
-- Marcos 13:20 : "Se o Senhor não abreviasse aqueles dias, ninguém se salvaria mas ele, por causa dos eleitos que escolheu, abreviou aqueles dias." (quando da destruição de Jerusalém).
-- I Tessalonicenses 1:4 : "conhecendo, irmãos, amados de Deus, a vossa eleição;"
-- Romanos 11:7 : "... mas os eleitos alcançaram; e os outros foram endurecidos,"
-- I Timóteo 5:21 : "Conjuro-te diante de Deus, e de Cristo Jesus, e dos anjos eleitos ..."
-- Romanos 8:33 : "Quem intentará acusação contra os escolhidos de Deus? É Deus quem os justifica;"
-- Romanos 11:5 : "Assim, pois, também no tempo presente ficou um remanescente segundo a eleição da graça."
-- II Timóteo 2:10 : "... tudo suporto por amor dos eleitos."
-- Tito 1:1 : "Paulo, servo de Deus, e apóstolo de Jesus Cristo, segundo a fé dos eleitos de Deus..."
-- I Pedro 1:1 : "Pedro, apóstolo de Jesus Cristo, aos peregrinos ..." (algumas traduções como "eleitos"
-- I Pedro 5:13 : "A vossa co-eleita em Babilônia vos saúda, como também meu filho Marcos."
-- I Pedro 2:9 : "Mas vós sois a geração eleita, o sacerdócio real, a nação santa, o povo adquirido, para que anuncieis as grandezas daquele que vos chamou das trevas para a sua maravilhosa luz;"
-- I Tessalonicenses 5:9 : "porque Deus não nos destinou para a ira, mas para alcançarmos a salvação por nosso Senhor Jesus Cristo,
-- Atos 13:48 : "Os gentios, ouvindo isto, alegravam-se e glorificavam a palavra do Senhor; e creram todos quantos haviam sido destinados para a vida eterna."
-- João 17:9 : "Eu {Jesus Cristo} rogo por eles; não rogo pelo mundo, mas por aqueles que me tens dado, porque são teus;"
-- João 6:37 : "Todo o que o Pai me dá virá a mim ..."
-- João 6:65 : "... ninguém pode vir a mim, se pelo Pai lhe não for concedido."
-- João 13:18 : "Não falo de todos vós; eu conheço aqueles que escolhi ..."
-- João 15:16 : "Vós não me escolhestes a mim mas eu vos escolhi a vós ..."
-- Salmo 105:6 : "vós, descendência de Abraão, seu servo, vós, filhos de Jacó, seus escolhidos."
-- Romanos 9:23 : "... vasos de misericórdia, que de antemão preparou para a glória,"
(Veja também referências mencionadas no capítulo: Efésios 1:4, 5, 11; Romanos 9:11-13, 8:29, 30 e etc).


3. PROVAS DA RAZÃO

Se a doutrina da Depravação Total (Incapacidade Total) ou Pecado Original for admitida, a doutrina da Eleição Incondicional segue a mais inescapável lógica. Se, como as Escrituras e a experiência nos dizem, todos os homens estão por natureza num estado de culpa e depravação do qual eles são totalmente incapazes de livrarem-se a si mesmos e não têm nenhum direito, qualquer que seja, para que Deus os resgate, segue-se então que se qualquer um for salvo Deus deve então escolher aqueles que deverão ser objeto da Sua graça. O Seu amor para com os homens caídos expressa-se na escolha de uma multidão inumerável deles para a salvação, e na provisão de um redentor, quem, agindo como seu cabeça e representante, assumiu a sua culpa, sofreu o seu castigo, e ganhou para eles a salvação. É sempre ao amor de Deus que a Bíblia atribui o decreto eletivo, e ela nunca se cansa de elevar nossos olhos do decreto em si, para o motivo e razão que encontra-se por trás dele. A doutrina de que os homens são salvos somente através do imerecido amor e da imerecida graça de Deus encontra sua honesta e completa expressão somente nas doutrinas do Calvinismo.

Através da eleição de indivíduos o caráter verdadeiramente gracioso da salvação é mostrado de forma mais clara. Aqueles que declaram que a salvação é inteiramente obra da graça de Deus, e todavia negam a doutrina da eleição, adotam uma posição inconsistente. Os escritores inspirados utilizam-se de todos meios para guiar-nos ao fato de que a eleição dos homens por Deus é uma eleição absolutamente soberana, alicerçada unicamente no Seu amor que é imerecido pelo homem, e destinada a mostrar aos homens e aos anjos a Sua graça e misericórdia salvadoras.

Como Juiz e Soberano, Deus tem a liberdade de lidar com um mundo de pecadores conforme o Seu beneplácito. Ele tem todo o direito perdoar alguns e condenar outros; tem todo o direito de dar a Sua graça salvadora a um e não dá-la a outro. Desde que todos pecaram estão destituídos da Sua glória, Ele é livre para ter misericórdia de quem Ele quiser ter misericórdia. Não é pela vontade do homem, nem pelas obras do homem, mas por Deus, que mostrou misericórdia, e o motivo pelo qual um é salvo, e a razão pela qual um é salvo enquanto que outro não é, podem ser encontrados somente no beneplácito dEle, que ordenou todas as coisas após o conselho da Sua própria vontade. É por esta razão que antes que Deus criasse o mundo Ele escolheu todos aqueles a quem Ele daria gratuitamente a herança das bênçãos eternas, e os escritores Bíblicos tomam cuidados especiais para dar a cada crente na enorme multidão dos salvos a segurança de que desde toda a eternidade ele mesmo tem sido objeto peculiar da escolha divina, e que ele somente agora está atingindo o alto destino preparado para ele desde a fundação do mundo.

Esta doutrina da eleição eterna e incondicional tem algumas sido chamada algumas vezes de "o coração" da Fé Reformada. Ela enfatiza a soberania e a graça de Deus na salvação, enquanto que o ponto de vista Arminiano enfatiza a obra da fé e da obediência do homem, que decide aceitar a graça oferecida. No sistema teológico Calvinista, é somente Deus quem escolhe aqueles que serão os herdeiros do céu, aquels com quem Ele compartilhará as Suas riquezas na glória; enquanto que no sistema Arminiano é, em última análise, o homem quem determina tanto, -- um princípio no qual, de alguma forma falta humildade, para dizer o mínimo.

Pode ser questionado, "Por que Deus salva a alguns e a outros não?" Mas a resposta pertence aos Seus conselhos secretos, somente. Precisamente por que este homem recebe a salvação, e aquele homem não a recebe, quando nenhum dos dois merecia recebê-la, nós não sabemos. Que Deus ficou satisfeito em estabelecer sobre nós a Sua graça eletiva, deve ser-nos para sempre um tema de adorável maravilha. Certamente nada havia em nós, seja qualidade ou feito (obra), que pudesse atrair Sua atenção favoravelmente ou faze-LO parcial a nós; pois estávamos mortos nos nossos delitos e pecados e filhos da ira, como também os demais (vide Efésios 2:1-3). Podemos somente admirar, e maravilharmo-nos, e exclamar em coro com Paulo, "Ó profundidade das riquezas, tanto da sabedoria, como da ciência de Deus! Quão insondáveis são os seus juízos, e quão inescrutáveis os seus caminhos!"[Romanos 11:33]. A maravilha das maravilhas não é que Deus, nos Seus infinitos amor e justiça, não tenha elegido para a salvação a todos desta raça culpada, mas que Ele tenha elegido a alguns. Quando consideramos, por um lado, quão abominável é o pecado, junto com o merecimento de punição; e por outro lado, o que a santidade é, junto com a perfeita aversão de Deus pelo pecado; a maravilha é como Deus poderia ter o consentimento da Sua natureza santa para salvar um único pecador. Mais ainda, o motivo pelo qual Deus não escolheu a todos para a vida eterna não foi porque Ele não desejasse salvar a todos, mas que por razões as quais nós não conseguimos explicar totalmente, uma escolha universal teria sido inconsistente com a Sua perfeita retidão.

Nem ninguém pode fazer objeção que este ponto de vista represente Deus agindo arbitrariamente e sem razão. Postular tal seria afirmar mais do que qualquer homem sabe. As Suas razões, os Seus motivos para salvar uns em particular enquanto deixando outros de lado não nos são revelados. "... e segundo a sua vontade ele opera no exército do céu e entre os moradores da terra;"[Daniel 4:35]. Alguns são preordenados como filhos, "... segundo o beneplácito de sua vontade"[Efésios 1:5]. Quando um regimento é dizimado por insubordinação, o fato de cada décimo homem ser escolhido para a morte tem suas razões, mas as razões não estão nos homens.

Indubitavelmente Deus tem os melhores motivos para escolher um e rejeitar outro, embora Ele não nos tenha dito quais são.

"May not the Sov'reign Lord on high
Dispense His favors as He will;
Choose some to life, while others die,
And yet be just and gracious still?

"Não pode o Soberano Senhor nas alturas
Dispensar Seus favores como quiser;
Escolher alguns para a vida, enquanto outros morrem,
E todavia ainda ser justo e gracioso?
Shall man reply against the Lord,
And call his Maker's ways unjust?
The thunder whose dread word
Can crush a thousand worlds to dust.
Pode o homem replicar contra Deus,
E chamar os caminhos de Seu Criador de injustos?
O trovão cujo bramido
Pode transformar mil mundos em pó.

But, O my soul, if truths so bright
Should dazzle and confound thy sight,
'Yet still His written will obey,
And wait the great decisive day!"8

Mas minha alma, se a verdade tão brilhante
Ofusca e confunde tua visão,
Ainda assim, a Sua palavra obedecerás,
e o grande e decisivo dia aguardarás!" 8

 

4. FÉ E BOAS OBRAS SÃO OS FRUTOS E AS PROVAS, NÃO A BASE, DA ELEIÇÃO

Nem a predestinação em geral, ou a eleição daqueles que serão salvos, está baseada na previsão de Deus de qualquer ação da criatura. Este princípio da Fé Reformada foi bem apresentado na Confissão de Westminster, onde lemos: "Ainda que Deus sabe tudo quanto pode ou há de acontecer em todas as circunstâncias imagináveis, ele não decreta coisa alguma por havê-la previsto como futura, ou como coisa que havia de acontecer em tais e tais condições."[Capítulo III - 'Dos Eternos Decretos de Deus' - parágrafo II (Referências At. 15:18; Prov.16:33; I Sam. 23:11-12; Mat. 11:21-23; Rom. 9:11-18.)] e ainda, "Estas boas obras, feitas em obediência aos mandamentos de Deus, são o fruto e as evidências de uma fé viva e verdadeira; por elas os crentes manifestam a sua gratidão, robustecem a sua confiança, edificam os seus irmãos, adornam a profissão do Evangelho, tapam a boca aos adversários e glorificam a Deus, cuja feitura são, criados em Jesus Cristo para isso mesmo, a fim de que, tendo o seu fruto em santificação, tenham no fim a vida eterna."[Capítulo XVI - 'Das Boas Obras' - parágrafo II (Referências Tiago 2:18, 22; Sal. 116-12-13; I Ped. 2:9; I João 2:3,5; II Ped. 1:5-10; II Cor. 9:2; Mat. 5:16; I Tim. 4:12; Tito 2:5, 912; I Tim. 6:1; I Pedr. 2:12, 15; Fil. 1,11; João 15:8; Ef. 2:10; Rom. 6:22.)]; "O poder de fazer boas obras não é de modo algum dos próprios fiéis, mas provém inteiramente do Espírito de Cristo. A fim de que sejam para isso habilitados, é necessário, além da graça que já receberam, uma influência positiva do mesmo Espírito Santo para obrar neles o querer e o perfazer segundo o seu beneplácito; contudo, não devem por isso tornar-se negligentes, como se não fossem obrigados a cumprir qualquer dever senão quando movidos especialmente pelo Espírito, mas devem esforçar-se por estimular a graça de Deus que há neles."[Capítulo XVI - 'Das Boas Obras' - parágrafo III (Referências João I5:4-6; Luc. 11:13; Fil. 2:13, e 4:13; II Cor. 3:5; Ef. 3:16; Fil. 2:12; Heb. 6:11-12; Isa. 64:7.)]
Fé prevista e boas obras não podem, então, nunca serem vistas como sendo a cauda da eleição Divina. Elas são mais os frutos e a prova da mesma. Elas mostram que a pessoa foi escolhida e regenerada. Fazer delas a base da eleição nos envolve novamente num pacto de obras, e coloca os propósitos de Deus no sentido temporal, ao invés de eterno. Não seria pré-destinação, mas sim pós-destinação, uma inversão do que a Bíblia apresenta, a qual faz a fé e a santidade serem o resultado, e não a causa da eleição (conforme Efésios 1:4; João 15:16; Tito 3:5). A declaração de que nós fomos escolhidos em Cristo "antes da fundação do mundo" exclui qualquer consideração de mérito nosso; pois no idioma Hebraico, algo feito "antes da fundação do mundo" quer dizer "algo feito na eternidade". E quando à declaração de Paulo que "... não por causa das obras, mas por aquele que chama", o Arminiano responde que trata-se de obras futuras, ele simplesmente contradiz-se com as palavras do próprio apóstolo.

Que o decreto da eleição fosse de qualquer forma baseado na pré ciência é refutado por Paulo quando ele diz que o propósito era "...para sermos santos..."[Efésios 1:4]. Ele insiste que a salvação é "não vem das obras, para que ninguém se glorie." Em II Timóteo 1:9 lemos que é Deus "que nos salvou, e chamou com uma santa vocação, não segundo as nossas obras, mas segundo o seu próprio propósito e a graça que nos foi dada em Cristo Jesus antes dos tempos eternos,". Os Calvinistas portanto sustentam que a eleição precede, e não é baseada em nenhuma boa obra que a pessoa faça. A própria essência da doutrina é que na obra da redenção Deus não é movido por nenhuma consideração de mérito ou de bondade da parte dos objetos de sua misericórdia salvadora. "Que não é porque o homem corra, ou porque ele intente, mas é de Deus, que demonstra misericórdia, que o pecador obtém a salvação, é a testemunha confiável de toda a Bíblia, demandado tão reiteradamente e em conexões tão variadas que excluem a possibilidade de que possa esconder-se por trás do ato da eleição qualquer consideração de caracteres, atos ou circunstâncias previstos -- todos os quais aparecem como resultado da eleição." 10

Preordenação em geral não pode apoiar-se na pré ciência; pois somente aquilo que é certo pode ser pré sabido, e só o que é predeterminado pode ser certo. O Todo-Poderoso e Onipotente Rei do universo não governa a Si próprio embasado numa pré ciência das coisas que podem graciosamente virem a acontecer. Nas Escrituras Sagradas, a pré ciência divina é sempre considerada como dependente do propósito divino, e Deus sabe somente porque Ele predeterminou. Seu conhecimento é somente a transcrição da Sua vontade quanto ao que existirá no futuro; e o rumo que o mundo toma sob o Seu providencial controle é somente a execução do Seu plano todo abrangente. Sua pré ciência do que ainda será, seja relacionado ao mundo como um todo ou relacionado aos detalhes da vida de cada indivíduo, baseia-se no Seu plano pré organizado (vide Jeremias ':5; Salmo 139:14-16; Jó 23:13, 14: 28:26, 27; Amós 3:7).

Voltemos agora a nossa atenção para uma passagem na Bíblia que é comumente mostrada como ensinamento de que geralmente a eleição ou mesmo a pre-ordenação são baseadas na pré ciência. Em Romanos 8:29, 30, lemos: "[29] Porque os que dantes conheceu, também os predestinou para serem conformes à imagem de seu Filho, a fim de que ele seja o primogênito entre muitos irmãos; [30] e aos que predestinou, a estes também chamou; e aos que chamou, a estes também justificou; e aos que justificou, a estes também glorificou." A palavra "conhecer" é usada algumas vezes num sentido diferente do que simplesmente ter uma percepção intelectual de algo mencionado. Ocasionalmente pode significar que as pessoas "conhecidas" são os objetos especiais e peculiares do favor de Deus, como foi escrito a respeito dos Judeus: "De todas as famílias da terra só a vós vos tenho conhecido ..."[Amós 3:2]. Paulo escreveu, "Mas, se alguém ama a Deus, esse é conhecido dele."[I Coríntios 8:3]. Jesus, está escrito, "conhece" o Seu rebanho [João 10:14, 27]; e aos perversos Ele dirá, "... Nunca vos conheci..."[Mateus 7:23]. No primeiro capítulo do livro dos Salmos, lemos: "...o Senhor conhece o caminho dos justos, mas o caminho dos ímpios conduz à ruína."[Salmo 1:6]

Mais que uma percepção ou um reconhecimento mental estão envolvidos nestas passagens, pois Deus os tem tanto do perverso como do justo. É um tipo de conhecimento, de ciência, que tem como objeto e está conectado só com os eleitos, ou em outras palavras é o mesmo que amor, favor e aprovação. Aqueles em Romanos 8:29 são pré conhecidos no sentido de que eles foram pré designados a serem os objetos especiais do Seu favor. Tal é mostrado mais claramente em Romanos 11:2.5, onde lemos: "Deus não rejeitou ao seu povo que antes conheceu." (uma comparação é feita com a época de Elias, quando Deus "separou para Si" os sete mil que não dobraram seus joelhos a Baal) e no verso [5] ele complementa: "Assim, pois, também no tempo presente ficou um remanescente segundo a eleição da graça." Aqueles que 'antes foram conhecidos' como no versículo [2] e aqueles que são segundo a eleição da graça são o mesmo povo; assim é que eles foram pré conhecidos no sentido de haverem sido pré apontados, pré designados para serem objetos dos Seus graciosos propósitos. Note especialmente que em Romanos 8:29 não diz que eles foram pré conhecidos como perpetradores de boas obras, mas que eles foram pré conhecidos como indivíduos a quem Deus estenderia a graça da eleição. E seja notado também que se Paulo tivesse aqui usado o termo "pré conhecer" no sentido de que a eleição estava baseada meramente na pré ciência, sua afirmação seria contraditória com todas as demais passagens, que afirmam que a eleição é segundo o beneplácito de Deus.

O ponto de vista Arminiano tira a eleição das mãos de Deus e a coloca nas mãos do homem. Isto faz com que os propósitos do Deus Onipotente sejam condicionados às precárias vontades de homens apóstatas e transforma eventos temporais em motivos para os Seus atos eternos. Significa ainda mais que Ele criou um conjunto de seres soberanos de quem até certo ponto dependem a Sua vontade e os Seus atos. Deus é assim apresentado como um velho Pai, que procura fazer com que seus filhos façam o que é certo, mas que é usualmente derrotado pela vontade perversa deles; ou pior, Deus é apresentado como tendo evoluído um plano que, através dos tempos, tem sido tão geralmente derrotado que já mandou inumeravelmente mais pessoas para o inferno que para o céu. Uma doutrina que leve à tais absurdos como conclusão não somente é não Bíblica como também irracional e desonrosa para com Deus. Contrastando com tudo isto, o Calvinismo oferece um grande Deus que é infinito em Suas perfeições, que dispensa misericórdia e justiça como melhor Lhe convém, e quem realmente detém o governo sobre todos os assuntos na vida dos homens.

A Bíblia e a experiência Cristã nos ensinam que a própria fé e o arrependimento através dos quais nós somos salvos, são eles próprios dádivas de Deus. "Porque pela graça sois salvos, por meio da fé, e isto não vem de vós, é dom de Deus;"[Efésios 2:8]. Os Cristãos em Acaia "... pela graça haviam crido."[Atos 18:27]. Um homem não está salvo por crer em Cristo, ele crê em Cristo porque está salvo. Mesmo o princípio da fé, a disposição para procurar salvação, é obra da graça dádiva de Deus. Paulo costumeiramente diz que somos salvos "através", "por meio" da fé (ou seja, como a causa instrumental), mas nenhuma vez ele diz que somos salvos "por conta" da fé (como sendo a causa meritória). E no mesmo sentido nós podemos dizer que os redimidos serão recompensados em proporção às suas boas obras, mas não em razão delas. E de acordo com isto, Agostinho diz que "Os eleitos de Deus são escolhidos por Ele para serem Seus filhos, de maneira que possam vir a crer, não porque Ele pré viu que eles creriam."

Quanto ao arrependimento, é igualmente declarado ser uma dádiva. "Ouvindo eles estas coisas, apaziguaram-se e glorificaram a Deus, dizendo: Assim, pois, Deus concedeu também aos gentios o arrependimento para a vida."[Atos 11:18]; "sim, Deus, com a sua destra, o elevou a Príncipe e Salvador, para dar a Israel o arreendimento e remissão de pecados;"[Atos 5:31]. Paulo criticou aqueles que não se deram conta de que era a benignidade de Deus que os levou ao arrependimento [veja Romanos 2:4]. Jeremias clamou "... restaura-me, para que eu seja restaurado, pois tu és o Senhor meu Deus ...... arrependi-me; e depois que fui instruído,"[Jeremias 31:18, 19]. O que, por exemplo, tinha João Batista a ver com o fato de estar "cheio do Espírito Santo já desde o ventre de sua mãe"[Lucas 1:15] ? Jesus disse aos Seus discípulos que para eles havia sido dado conhecer os mistérios do reino do céu, mas que a outros o mesmo não havia sido dado (veja Mateus 13:11). Basear a eleição em fé prevista é o mesmo que dizer que nós somos ordenados para a vida eterna porque nós cremos, enquanto que as Escrituras declaram o contrário: "...e creram todos quantos haviam sido destinados para a vida eterna."[Atos 13:48]

Nossa salvação é "não em virtude de obras de justiça que nós houvéssemos feito, mas segundo a Sua misericórdia, nos salvou mediante o lavar da regeneração e renovação pelo Espírito Santo,"[Tito 3:5]. Nós somos encorajados a efetuar a nossa própria salvação com temor e tremor, pois é Deus quem operou em nós tanto o querer como o efetuar da Sua boa vontade. E simplesmente porque Deus opera em nós, é que buscamos desenvolver e efetuar a nossa própria salvação (vide Filipenses 2:12,13). O Salmista nos diz que o povo do Senhor oferece-se voluntariamente no dia do Seu poder (vide Salmo 110:3). Assim é que a conversão é uma dádiva peculiar e soberana de Deus. O pecador não tem poder para voltar-se a Deus, mas é voltado ou renovado pela graça divina antes que ele possa fazer qualquer coisa espiritualmente boa. De acordo com esta premissa Paulo nos ensina que o amor, o gozo, a paz, a longanimidade, domínio próprio, etc., não são as bases meritórias da salvação, mas antes "os frutos do Espírito," (veja Gálatas 5:22, 23). O próprio Paulo foi escolhido de forma que viesse a conhecer e fazer a vontade de Deus, não porque houvesse sido previsto que ele o faria (veja Atos 22:14, 15). Agostinho nos diz que, "A graça de Deus não encontra homens para serem eleitos, mas faz com que sejam"; e novamente, "A natureza da bondade Divina não é somente para abrir àqueles que batem, mas também para faze-los bater e pedir." Lutero expressou a mesma verdade quando disse, "Somente Deus pelo seu Espírito opera em nós o mérito e a recompensa." João nos diz que, "Nós amamos, porque ele nos amou primeiro."[I João 4:19]. Estas passagens ensinam-nos sem margem para erros que a fé e as boas obras são os frutos da obra de Deus em nós. Não somos escolhidos porque somos bons, mas para que possamos vir a tornarmo-nos bons.

Mas enquanto boas obras não são o terreno da salvação, elas são absolutamente essenciais para tanto, como sendo os seus frutos e as suas evidências. Elas são produzidas pela fé tão naturalmente como as uvas são produzidas pela parreira. E todavia não nos façam justos perante Deus, elas são tão ligadas à fé que a verdadeira fé não pode ser encontrada sem elas. Nem podem as boas obras, no sentido estrito, serem encontradas em lugar algum sem a fé. Nossa salvação não provém "de obras", mas "para boas obras" (veja Efésios 2:9, 10); e o Cristão genuinamente salvo ver-se-á em seu elemento natural somente quando produzindo boas obras. Este é o mesmo princípio que Jesus estabeleceu quando Ele declarou que o caráter de uma árvore é mostrado por seus frutos, e que uma boa árvore não pode dar frutos maus. As boas obras são tão naturais para o Cristão quanto o é respirar; ele não respira para ter vida; ele respira porque ele tem vida, e por esta mesma razão ele não pode evitar respirar. Boas obras são a sua glória, por isso é que Jesus diz, "Assim resplandeça a vossa luz diante dos homens, para que vejam as vossas boas obras, e glorifiquem a vosso Pai, que está nos céus."[Mateus 5:16], a quem verdadeiramente todo o crédito é devido.

A visão Calvinista é a única lógica, se aceitarmos a declaração Bíblica de que a salvação é pela graça. Qualquer outra nos envolve num caos de pontos de vista sem saída, que são contraditórios às Escrituras. Há, é claro, mistérios conectados com esta visão Calvinista, e certamente não é a visão que o homem natural teria, tivesse ele sido chamado para sugerir um plano. Mas jogar fora a doutrina Bíblica da Predestinação, simplesmente porque ela não se adequa aos nossos preconceitos e noções pré concebidas, é agir tolamente. Faze-lo é colocar o Criador no banco dos réus no tribunal da razão humana, é negar a sabedoria e a retidão dos Seus atos só porque não podemos sondá-Los, e então declarar que a Sua revelação é falsa e enganosa.

"É uma atitude perigosa para os homens tomarem sobre si mesmos, ignorantemente, desvendar os profundos mistérios de Deus com sua razão carnal, onde o grande apóstolo posta-se clamando em assombro, 'Ó profundidade das riquezas, tanto da sabedoria, como da ciência de Deus! Quão insondáveis são os seus juízos, e quão inescrutáveis os seus caminhos!'[Romanos 11:33]. Tivesse Paulo sido da persuasão Arminiana, ele teria continuado, 'Aqueles que estão eleitos são os que foram pré vistos acreditar e perseverar' "11. E não haveria mistério algum, se a salvação fosse baseada naquelas palavras.

Então, temos um sistema teológico do qual todo discurso vanglorioso é excluído, e no qual salvação em todos as suas partes é vista como o produto de pura graça, que resulta em boas obras, sem contudo estar centrado nelas.


5. REJEIÇÃO

Proposição -- Comentários de Calvino, Lutero e Warfield -- Prova da Bíblia -- Baseada na Doutrina do Pecado Original -- Nenhuma Injustiça é Imputada aos Não-Eleitos -- Estado de Ateísmo -- Propósitos do Decreto da Rejeição -- Arminianos de Centro Atacam esta Doutrina -- Sem Nenhuma Obrigação de Explicar todas Estas Coisas.

Logicamente, é claro que a doutrina da Predestinação absoluta sustenta que alguns são preordenados à morte tão certamente quanto outros são preordenados à vida. Os termos "eleitos" e "eleição" correspondem aos termos "não eleitos" e "rejeição". Quando alguns são escolhidos outros não o são. Os altos privilégios e o destino glorioso daqueles escolhidos não são compartilhados com os outros que não o foram. Cremos que desde toda a eternidade Deus decidiu que parte da posteridade de Adão permaneceria no seu pecado, e que o fator decisivo na vida de cada um é deve ser encontrado somente na vontade de Deus. Como Mozley disse, a raça humana inteira, depois da queda, era uma "massa de perdição", e "pareceu bem a Deus em Sua soberana misericórdia resgatar alguns e deixar outros onde encontravam-se; elevar alguns para a glória, dando-lhes tal graça quanto os qualificou para recebe-la, abandonando o resto, de quem ele reteve aquela mesma graça, para o castigo eterno." 12

A maior dificuldade com a doutrina da Eleição, claro, emerge com relação aos não salvos; e as Escrituras não nos dão explicação detalhada para a condição e o estado deles. Uma vez que a missão de Jesus no mundo foi salvar o mundo ao invés de julgá-lo, este aspecto do assunto é chamado menos à atenção.

Em todos os credos Reformados que chegam a lidar com a doutrina da Rejeição, o tema é tratado como uma parte essencial da doutrina da Predestinação. A Confissão de Westminster, depois de apresentar a doutrina da eleição, acrescenta: "Segundo o inescrutável conselho da sua própria vontade, pela qual ele concede ou recusa misericórdia, como lhe apraz, para a glória do seu soberano poder sobre as suas criaturas, o resto dos homens, para louvor da sua gloriosa justiça, foi Deus servido não contemplar e ordená-los para a desonra e ira por causa dos seus pecados."[Capítulo III - Dos Eternos Decretos de Deus - parágrafo VII (referências Mat. 11:25-26; Rom. 9:17-22; II Tim. 2:20; Jud. 4; I Pedro 2:8)]." 13

Aqueles que adotam e sustentam a doutrina da Eleição mas negam a doutrina da Rejeição não podem alegar consistência. Afirmar a primeira e ao mesmo tempo negar a segunda faz do decreto da predestinação um decreto ilógico e sem qualquer simetria. O credo que apresenta a Eleição e no entanto nega a Rejeição se parecerá como uma ave ferida tentando levantar vôo com somente uma asa. No interesse de um "Calvinismo moderado" alguns tem-se inclinado a abandonar a doutrina da Rejeição, e este termo (em si mesmo um termo muito inocente) tem sido usado como cunha para ataques injuriosos contra o Calvinismo puro e simples. "Calvinismo Moderado" é sinônimo Calvinismo doente, e doença, se não curada, é o princípio do fim.

Comentários de Calvino, Lutero, e Warfield

Calvino não hesitou em basear a rejeição dos perdidos, assim como a eleição dos salvos, no propósito eterno de Deus. Temos já mencionado-o no sentido de que "nem todos homens são criados com um destino similar mas a vida eterna é preordenada para alguns, e a danação eterna para outros. Cada homem, portando, criado para um ou outro destes fins, dizemos, é predestinado seja para a vida ou para a morte." 14. Que a segunda alternativa levante problemas que não são fáceis de serem resolvidos, ele prontamente admite, mas advoga tal como a única explicação inteligente e Bíblica dos fatos.

Lutero também, tão certamente quanto Calvino, atribui a perdição eterna dos perversos, assim como a salvação eterna dos justos, ao plano de Deus. "Pode muito bem ofender a nossa natureza racional, que Deus, de Sua própria e imparcial vontade, deixasse alguns homens entregues a si próprios, endurecesse-os e os condenasse; mas Ele demonstra abundante e continuamente, que este é realmente o caso; quer dizer, que a única razão pela qual alguns são salvos e outros perecem, procede da Sua vontade a salvação de alguns e a perdição de outros, conforme o que escreveu Paulo, Ele 'Portanto, tem misericórdia de quem quer, e a quem quer endurece.'[Romanos 9:18] " E de novo, "Pode parecer absurdo à sabedoria humana que Deus devesse endurecer, cegar e entregar alguns homens a um senso corrupto; que Ele primeiramente os deixasse à mercê do mal, e depois os condenasse por aquele mesmo mal; mas o crente, o homem espiritual não vê absurdo em tudo isso; sabendo que Deus não seria um mínimo menos bom, mesmo que Ele destruísse todos os homens." Lutero segue, então, dizendo que isto não deve ser compreendido como se Deus encontra homens bons, sábios, obedientes e os transforma em homens maus, tolos e obtusos, mas que tais homens já são depravados e caídos e que aqueles homens que não são regenerados, ao invés de tornarem-se melhores sob os comandos e as influências divinos, sua reação é somente a de piorarem. Referindo-se aos capítulos IX, X e IX da Epístola de Paulo aos Romanos, Lutero diz que "Absolutamente todas as coisas acontecem a partir da e dependem do comando Divino; por onde foi préordenado quem deveria receber a palavra da vida e quem deveria não aceitá-la; quem deveria ser livrado dos seus pecados e quem deveria ser endurecido neles, quem seria justificado e quem seria condenado." 15

"Os escritores Bíblicos," diz o Dr. Warfield, "estão tão longe quanto possível de obscurecer a doutrina da eleição por causa de quaisquer idéias ou proposições aparentemente desagradáveis que advém dela. Ao contrário, eles expressamente separam tais idéias ou proposições as quais freqüentemente são assim designadas, e as fazem uma porção do seus estudos explícitos. Sua doutrina da eleição, eles nos dizem livremente, por exemplo, certamente envolve uma correspondente doutrina da preterição. O próprio termo adotado no Novo Testamento assim o expressa -- eklegomai, que como Meyer diz com justiça (Efésios 1:4), 'sempre tem, e deve ter por uma necessidade lógica, uma referência a outros a quem os eleitos, sem a 'ekloga', ainda pertenceriam' -- encorpando uma declaração do fato que na sua eleição outros são passados e deixados sem a dádiva da salvação; a apresentação inteira da doutrina é tal que ou ela implica ou ela abertamente declara, na sua própria emergência, a remoção dos eleitos pela pura graça de Deus, não só e meramente de um estado de condenação, mas também da companhia dos condenados -- uma companhia em quem a graça de Deus não tem nenhum efeito salvador, e que são portanto deixados sem esperança em seus pecados; e a positiva e justa condenação dos impenitentes por seus pecados é explícita e repetidamente ensinada em acentuado contraste com a salvação gratuita dos eleitos apesar dos seus pecados." 16

E novamente ele diz: "A dificuldade que é sentida por alguns quanto a seguir o argumento do apóstolo (vide Romanos 11 f), podemos suspeitar, tem raízes em parte num resumo do que lhes parece um desígnio arbitrário de homens para destinos diversos sem qualquer consideração do seu merecimento. Certamente Paulo afirma explicitamente tanto a soberania da rejeição quanto da eleição, -- se estas idéias gêmeas forem, de fato, separáveis mesmo que seja em pensamento; se ele representar a Deus como soberanamente amando a Jacó, ele igualmente O representará como soberanamente odiando a Esaú; se declarar que Ele tem misericórdia de quem Ele quer, ele também declarará, igualmente, que Ele endurece a quem Ele quer. Sem dúvida a dificuldade normalmente sentida é, em parte, conseqüência de uma realização insuficiente da concepção fundamental de Paulo quanto ao estado do homem, em muito como pecadores condenados perante um Deus irado. Ele apresenta Deus lidando com um mundo cheio de pecadores, e a partir daquele mesmo mundo, a construção de um Reino de Graça. Não fossem todos os homens pecadores, talvez ainda existisse uma eleição, tão soberana como agora, e em havendo uma eleição, ainda haveria uma rejeição também soberana; mas a rejeição não seria uma rejeição para castigo, para destruição, para morte eterna, mas para algum outro destino consoante com o estado daqueles não eleitos, onde eles devessem ser deixados. Não é, de fato, porque os homens são pecadores que eles são deixados 'não eleitos'; a eleição é livre, e em assim sendo a rejeição também deve ser igualmente livre; mas é somente porque os homens são pecadores que o que é deixado aos não eleitos é a destruição. E é nesse universalismo de ruína, ao invés de em um universalismo de salvação, que Paulo realmente tem as raízes da sua defesa da bondade e onipotência de Deus. Quando todos merecem a morte, é uma maravilha de pura graça que alguém receba a vida; e quem poderia negar o direito dAquele que mostra misericórdia tão miraculosa, de ter misericórdia de quem Ele quer, e endurecer a quem Ele quer?" 17

Prova das Escrituras

Esta é, admitidamente, uma doutrina desagradável. Ela não é ensinada com o propósito de ganhar o favor dos homens, mas o é somente o pleno ensino das Escrituras e a contrapartida lógica da doutrina da Eleição. Nós veremos que algumas passagem ensinam esta doutrina com uma clareza incontestável. Tais passagens deveriam ser suficientes para qualquer um que aceite a Bíblia como a palavra de Deus. "O Senhor fez tudo para um fim; sim, até o ímpio para o dia do mal"[Provérbios 16:4]. A respeito de Cristo, é dito quanto ao ímpio: "...Como uma pedra de tropeço e rocha de escândalo; porque tropeçam na palavra, sendo desobedientes; para o que também foram destinados"[I Pedro 2:8]. "Porque se introduziram furtivamente certos homens, que já desde há muito estavam destinados para este juízo, homens ímpios, que convertem em dissolução a graça de nosso Deus, e negam o nosso único Soberano e Senhor, Jesus Cristo."[Judas 4]. "Mas estes, como criaturas irracionais, por natureza feitas para serem presas e mortas, blasfemando do que não entendem, perecerão na sua corrupção"[II Pedro 2:12]. "Porque Deus lhes pôs nos corações o executarem o intento dele, chegarem a um acordo, e entregarem à besta o seu reino, até que se cumpram as palavras de Deus."[Apocalipse 17:17]. Com relação à besta da visão de João, é dito, "E adora-la-ão todos os que habitam sobre a terra, esses cujos nomes não estão escritos no livro do Cordeiro que foi morto desde a fundação do mundo."[Apocalipse 13:8]. E podemos ainda contrastar estas passagens com os discípulos a quem Jesus disse: "Contudo, não vos alegreis porque se vos submetem os espíritos; alegrai-vos antes por estarem os vossos nomes escritos nos céus."[Lucas 10:20], e com o que Paulo disse aos seus colaboradores: "E peço também a ti, meu verdadeiro companheiro, que as ajudes, porque trabalharam comigo no evangelho, e com Clemente, e com os outros meus cooperadores, cujos nomes estão no livro da vida"[Filipenses 4:3]

Paulo declara que os "vasos da ira" que pelo Senhor foram "preparados para a destruição," foram "suportou com muita paciência" de modo que Ele pudesse "mostrar a sua ira, e dar a conhecer o seu poder"; e estes vasos da ira contrastados com os "vasos de misericórdia, que de antemão preparou para a glória" de modo "que [Ele] também desse a conhecer as riquezas da sua glória", naqueles mesmos vasos {na Epístola aos Romanos, 9:22, 23}. Com relação aos ímpios, é dito que "Deus, por sua vez, os entregou a um sentimento depravado, para fazerem coisas que não convêm;"[Romanos 1:28]; e do perverso, "a tua dureza e teu coração impenitente, entesouras ira para ti no dia da ira e da revelação do justo juízo de Deus"[Romanos 2:5].

Com relação àqueles que perecem, Paulo diz que "...por isso Deus lhes envia a operação do erro, para que creiam na mentira;"[II Tessalonicenses 2:11]. Eles são chamados a sustentarem tais coisas (erro, mentira - n.t.) de um modo aparente, admirá-las e depois perecer nos seus pecados. Ouçam as palavras de Paulo na sinagoga em Antioquia em Psídia: "...porque realizo uma obra em vossos dias, obra em que de modo algum crereis, se alguém vo-la contar."[Atos 13:41]

O apóstolo João, depois de narrar que o povo ainda não cria, embora Jesus houvesse feito tantos sinais na sua frente, acrescenta, "[39] Por isso não podiam crer, porque, como disse ainda Isaías: [40] Cegou-lhes os olhos e endureceu-lhes o coração, para que não vejam com os olhos e entendam com o coração, e se convertam, e Eu os cure."[João 12:39, 40].

O mandamento de Cristo aos perversos no julgamento final, "...Apartai- vos de mim, malditos, para o fogo eterno, preparado para o Diabo e seus anjos;"[Mateus 25:41] é o decreto de rejeição mais forte possível; e é o mesmo em princípio, seja comandado no tempo ou na eternidade. O que é certo para Deus fazer no tempo, não é errado para que Ele inclua no Seu plano eternal.

Em uma ocasião, o próprio Jesus declarou: "...Eu vim a este mundo para juízo, a fim de que os que não vêem vejam, e os que vêem se tornem cegos."[João 9:39]. E em outra oportunidade, Ele disse, "...Graças te dou, ó Pai, Senhor do céu e da terra, porque ocultaste estas coisas aos sábios e entendidos, e as revelaste aos pequeninos."[Mateus 11:25]. É difícil para nós aceitar que o Redentor adorável e o único Salvador dos homens seja, para alguns, pedra de tropeço e rocha de ofensa; todavia é exatamente isto que a Bíblia O declara ser. Mesmo antes do Seu nascimento, foi dito que Ele estava designado (ou seja, apontado) para a queda, tanto quanto para o levantamento, de muitos em Israel {"E Simeão os abençoou, e disse a Maria, mãe do menino: Eis que este é posto para queda e para levantamento de muitos em Israel, e para ser alvo de contradição."[Lucas 2:34]}. E quando, em sua oração de intercessão no jardim do Getsêmane, Ele disse, "Eu rogo por eles; não rogo pelo mundo, mas por aqueles que me tens dado..."[João 17:9] , os não eleitos foram repudiados com todas as palavras.

Jesus Ele mesmo declarou que uma das razões porque ele falava em parábolas era porque a verdade poderia estar oculta daqueles para quem ela não era intencionada. Deixemos a história sagrada falar por si própria: "[10] E chegando-se a ele os discípulos, perguntaram-lhe: Por que lhes falas por parábolas? [11] Respondeu-lhes Jesus: Porque a vós é dado conhecer os mistérios do reino dos céus, mas a eles não lhes é dado; [12] pois ao que tem, dar-se-lhe-á, e terá em abundância; mas ao que não tem, até aquilo que tem lhe será tirado. [13] Por isso lhes falo por parábolas; porque eles, vendo, não vêem; e ouvindo, não ouvem nem entendem. [14] E neles se cumpre a profecia de Isaías, que diz..."[Mateus 13:10-14]:
"[9] ...Vai, e dize a este povo: Ouvis, de fato, e não entendeis, e vedes, em verdade, mas não percebeis. [10] Engorda o coração deste povo, e endurece-lhe os ouvidos, e fecha-lhe os olhos; para que ele não veja com os olhos, e ouça com os ouvidos, e entenda com o coração, e se converta, e seja sarado."[Isaías 6:9, 10]

Nessas palavras podemos ver uma aplicação das próprias palavras de Jesus, "Não deis aos cães o que é santo, nem lanceis aos porcos as vossas pérolas..."[Mateus 7:6]. Ele que afirma que Cristo designado para dar a Sua verdade salvadora para cada um contradiz em cheio ao próprio Cristo. Aos não eleitos, a Bíblia é um livro selado; e somente aos verdadeiros Cristãos é "dado" ver e entender todas essas coisas. Tão importante é esta verdade que o Espírito Santo se compraz em repetir por seis vezes no Novo Testamento o escrito pelo profeta Isaías (compare em Mateus 13:14, 15 ; Marcos 4:12 ; Lucas 8:10 ; João 12:40 ; Atos 28:27 , Romanos 11:9, 10). Paulo nos diz que pela graça a "eleição" recebeu salvação, e que o resto foi endurecido; então acrescenta, "...Deus lhes deu um espírito entorpecido, olhos para não verem, e ouvidos para não ouvirem..."[Romanos 11:8]. E mais adiante, lembra as palavras de Davi, para o mesmo propósito: "[9] E Davi diz: Torne-se-lhes a sua mesa em laço, e em armadilha, e em tropeço, e em retribuição; [10] escureçam-se-lhes os olhos para não verem, e tu encurva-lhes sempre as costas."[Romanos 11:9, 10].

Assim, com relação a alguns, as proclamações evangélicas foram designadas para ferir, e não para curar.

Esta mesma doutrina encontra expressão em muitas outras partes da Bíblia. Moisés disse às crianças de Israel, "Mas Siom, rei de Hesbom, não nos quis deixar passar por sua terra, porquanto o Senhor teu Deus lhe endurecera o espírito, e lhe fizera obstinado o coração, para to entregar nas mãos, como hoje se vê."[Deuteronômio 2:30]. Referindo-se às tribos Canaatitas que marcharam contra Josué, está escrito, "Porquanto do Senhor veio o endurecimento dos seus corações para saírem à guerra contra Israel, a fim de que fossem destruídos totalmente, e não achassem piedade alguma, mas fossem exterminados, como o Senhor tinha ordenado a Moisés."[Josué 11:20]. Hofni e Finéias, os filhos de eli, quando reprovados por sua perversidade, "...eles não ouviram a voz de seu pai, porque o Senhor os queria destruir."[I Samuel 2:25]. Embora o Faraó houvesse agido muito arrogante e perversamente para com os Israelitas, Paulo não assinala nenhuma outra razão senão a que ele era um dos rejeitados cujas más ações seriam sobrepassadas pelo bem: "Pois diz a Escritura a Faraó: Para isto mesmo te levantei: para em ti mostrar o meu poder, e para que seja anunciado o meu nome em toda a terra."{[Romanos 9:17] - veja também em [Êxodo 9:16 : "mas, na verdade, para isso te hei mantido com vida, para te mostrar o meu poder, e para que o meu nome seja anunciado em toda a terra."]}. Em todos os rejeitados há uma cegueira e um obstinado endurecimento de coração; e quando de algum, como o Faraó por exemplo, é dito ter sido endurecido por Deus, nós podemos estar certos de que eles já eram valorizados com tendo sido entregues a Satã. Os corações dos perversos são, é claro, nunca endurecidos através de uma influência direta de Deus -- Ele simplesmente permite que alguns homens sigam os impulsos de maldade que já estão nos seus corações, de modo que, como resultado das suas próprias escolhas, eles se tornem mais e mais "calejados" e obstinados. E enquanto é dito, por exemplo, que Deus endureceu o coração do Faraó, também é dito que o Faraó endureceu o seu próprio coração (compare em Êxodo 8:15; 8:32, 9:34). Uma descrição é dada a partir do ponto de vista divino, a outra é fornecida a partir do ponto de vista humano. Em última instância Deus é responsável pelo endurecimento do coração, tanto quanto Ele é quem permite que isto ocorra, e o escritor inspirado, em linguagem gráfica simplesmente diz que Deus o faz; mas nunca devemos nós entender que Deus seja a causa imediata e eficiente.

Embora esta doutrina seja difícil, ela é, não obstante, Bíblica. E desde que ela é tão plenamente ensinada nas Escrituras, nós não podemos assinalar nenhuma outra razão para a oposição que ela tem enfrentado, a não ser a pura ignorância e o preconceito irracional com que as mentes dos homens têm sido cheias quando eles se propõem a estudá-la. Quão aplicáveis aqui são as palavras de Rice: -- "Que felicidade seria para a Igreja de Cristo e para o mundo, se os ministros Cristãos e o povo Cristão se contentassem em serem discípulos, -- APRENDIZES; se, conscientes das suas faculdades limitadas, da sua ignorância quanto às coisas divinas, e da sua inclinação para o erro através da sua depravação e do seu preconceito, eles poderiam ser induzidos a sentarem-se aos pés de Jesus e aprender dEle. A Igreja tem sido corrompida e amaldiçoada em quase todas as eras pela indevida confiança dos homens no seu próprio poder de raciocínio. Eles têm se proposto a pronunciarem-se sobre a racionabilidade ou a irracionabilidade de doutrinas infinitamente acima da sua razão, as quais são necessariamente matéria de pura revelação. Na sua presunção eles têm tentado compreender 'as profundezas de Deus' e têm interpretado as Escrituras, não conforme o seu sentido óbvio, mas conforme as decisões da razão finita." E ele diz novamente, "Ninguém nunca estudou as obras da Natureza ou o Livro do Apocalipse sem encontrar-se rodeado por todos os lados por dificuldades, por enigmas que ele não poderia solucionar. O filósofo é obrigado a satisfazer-se com fatos; e o teólogo deve contentar-se com as declarações de Deus."18

É estranho afirmar que, muitos daqueles que insistem que quando o povo passa a estudar a doutrina da Trindade eles devem colocar de lado quaisquer noções pré concebidas e apoiar-se somente na razão humana, sem ajuda, para decidir o que pode e o que não pode ser verdade acerca de Deus, e quem insiste que as Escrituras devem ser aceitas aqui como guia autoritativo e inquestionável, não estão na realidade dispostos a seguir aqueles regras no estudo da doutrina da predestinação.


A doutrina da rejeição é Baseada na Doutrina do Pecado Original; Nenhuma Injustiça é Feita aos Não Eleitos.

É óbvio que esta parte da doutrina da Predestinação, que afirma que Deus tem, por um decreto eterno e soberano, escolhido uma porção da espécie humana para a salvação, enquanto deixando a outra porção destinada a destruição, nos atinge como sendo oposta às nossas idéias comuns de justiça, e assim precisa de defesa. A defesa da doutrina da Rejeição encontra-se na predecessora doutrina do Pecado Original ou da Depravação Total (Incapacidade Total). Este decreto encontra toda a raça humana caída. Ninguém tem qualquer direito à graça de Deus. Mas ao invés de deixar todos à sua justa punição, Deus gratuitamente confere felicidade imerecida para aquela porção da espécie humana, -- um ato de pura misericórdia e graça ao qual ninguém pode opor-se, -- enquanto a outra porção é simplesmente deixada de lado. Nenhuma miséria imerecida é direcionada sobre aquele grupo. Assim, ninguém tem qualquer direito de opor-se a esta parte do decreto. Se o decreto lida simplesmente com homens inocentes, seria injusto assinalar uma porção para a condenação; mas desde que ele lida com homens num estado particular, estado o qual é de culpa e de pecado, ele portanto não é injusto. "A concepção do mundo como um mundo que encontra-se no mal e portanto já julgado (veja João 3:18), de forma que sobre aqueles que não são removidos do mal do mundo a ira de Deus não é derramada, mas simplesmente sobre eles ela permanece (veja João 3:36; confirme com I João 3;14); é fundamental para esta apresentação. É por outro lado, portanto, que Jesus a Si próprio Se representa como tendo vindo não ára condenar o mundo, mas para que o mundo fosse salvo por Ele (veja em João 3:17 ; 8:12 ; 9:5 ; 12:47 , confirme com João 4:42); e tudo o quanto Ele faz, tendo por motivo a introdução da vida no mundo (veja João 6:33, 51); o mesmo mundo já condenado não precisa de mais condenação, precisa de salvação." 19

O homem culpado perdeu os seus direitos e cai sob a vontade de Deus. A soberania absoluta de Deus agora entra em cena e quando Ele em alguns casos demonstra misericórdia, não podemos opor-nos à sua justiça em outros, a não ser que estejamos questionando o Seu governo do universo. Visto sob este prisma, o decreto da Predestinação encontra na raça humana uma massa de perdição e permite que somente uma parte dela permaneça em tal estado. Quando todos, antecedentemente mereceram castigo, não era injusto para alguns serem antecedentemente consignados a tanto; caso contrário a execução de uma justa sentença seria injusta.

Quando o Arminiano diz que fé e obras constituem as bases da eleição nós discordamos," diz Clark. "mas se ele disser que crença prevista e desobediência constituem a base da rejeição nós assentimos bastante prontamente. Um homem não é salvo com base nas suas virtudes mas ele é condenado com base no seu pecado. Como Calvinistas convictos nós insistimos que enquanto alguns homens são salvos de sua descrença e desobediência, nas quais todos encontram-se envolvidos, e outros não o são, é ainda a pecaminosidade do pecador que constitui a base da sua rejeição. A eleição e a rejeição procedem de diferentes bases; uma é a graça de Deus, a outra é o pecado do homem. É uma caricatura do Calvinismo dizer que porque Deus elege um homem para a salvação independentemente de seu caráter ou merecimentos, que portanto Ele eleja outro homem para a danação independentemente de seu caráter ou merecimentos." 20

Esta rejeição ou "deixar de lado os não eleitos" não é fundamentada meramente numa previsão da sua continuidade no pecado; pois se a fé tivesse sido uma causa própria, rejeição teria sido a sina de todos os homens, pois todos foram pré vistos como pecadores. Nem poderia ser dito que aqueles que foram "deixados de lado" fossem em todo caso piores pecadores que aqueles trazidos à vida eterna. As Escrituras sempre atribuem a fé e o arrependimento ao beneplácito de Deus e a operação especialmente graciosa do Seu Espírito. Aqueles que concebem a raça humana como inocente e merecedora da salvação ficam escandalizados, naturalmente, quando a qualquer parte da raça seja antecedentemente consignado o castigo. Mas quando a doutrina do Pecado Original, que é ensinada tão clara e repetidamente na Bíblia, é vista e analisada em seu escopo adequado, as objeções à predestinação desaparecem e a condenação dos perversos parece nada mais que natural. Assim, a salvação procede somente do Senhor, e a danação procede inteiramente de nós. Os homens perecem por não virem a Cristo; todavia se eles tiverem a vontade de vir, é o Bem que opera tal vontade neles. A Graça, a graça que elege, promove ambas coisas, desperta a vontade e a mantém firme; e à graça seja todo o louvor.

Ademais, num mundo cheio de pecado e rebeldia, ninguém vale a pena ser salvo, por si mesmo. Deus graciosamente escolheu alguns quando ele poderia ter passado ao largo por todos, como ele fez com os anjos caídos (veja em II Pedro 2:4 ; Judas 6). Ele levou tudo sobre si para prover a redenção através da qual o Seu povo é salvo. A expiação, portanto, é Sua propriedade; e Ele certamente pode, como Ele muito certamente o fará, qualquer coisa que seja da Sua vontade, através da Sua própria Graça, dada para um e negada a outro, conforme melhor Lhe convenha. Deve ser notado que o fato de a não dispensação da Sua graça ao não eleito não se constitui a causa do perecer, tanto como a ausência do médico ao lado do enfermo é a ocasião, não a causa eficiente, da sua morte. "À vista de um Deus infinitamente bom e misericordioso," diz o Dr. Charles Hodge, "era necessário que alguns integrantes da rebelde raça humana devessem sofrer o castigo pela lei que todos em conjunto haviam quebrado. É uma prerrogativa de Deus determinar quais serão vasos de misericórdia e quais serão deixados à justa recompensa do seus pecados." 21

Desde que o homem levou-se a si mesmo até este estado de pecado, a sua condenação é justa, e cada demanda por justiça resultaria no seu castigo. A consciência nos diz que o homem perece justamente, desde que ele decida seguir a Satã ao invés de seguir a Deus. "mas não quereis vir a mim para terdes vida!"[João 5:40]. E neste sentido a palavras do Prof. F. E. Hamilton é muito apropriada: "Tudo o que Deus faz é deixá-lo só (o não regenerado) e permitir que ele trilhe o seu próprio caminho sem interferência. É da sua natureza ser mau, e Deus simplesmente pré ordenou deixar que aquela natureza permanecesse sem modificação. O quadro muitas vezes pintado por oponentes do Calvinismo, de um Deus cruel que recusa-Se a salvar aqueles que de há muito deveriam ser salvos, é uma caricatura grotesca. Deus salva todos quantos queiram ser salvos, mas ninguém cuja natureza não seja modificada quer ser salvo." Aqueles que estão perdidos, perdidos estão porque eles deliberadamente escolheram caminhar na senda do pecado; e isto será mesmo o inferno dos infernos, que os homens tenham destruído a si próprios.

Muita gente discute se a salvação é um direito inato do homem. E esquecidos do fato de que o homem perdeu a sua supremamente favorável chance em Adão, eles nos dizem que Deus seria injusto se ele não desse a todos os seres culpados uma oportunidade para serem salvos. Com relação à idéia de que a salvação é dada em retribuição a algo feito pela pessoa, Lutero diz, "Mas suponhamos, eu lhes rogo, que Deus devesse ser tal, que tivesse respeito para com o mérito naqueles que estão danados. Não deveríamos nós, semelhantemente, também requerer e acreditar que Ele também devesse ter respeito para com aqueles que serão salvos? Pois se vamos seguir a razão, é igualmente injusto, que os que não merecem devessem ser coroados, tanto quanto que os que merecem devessem ser condenados." 22

Ninguém com idéias próprias acerca de Deus supõe que Ele de repente faça algo sobre o que Ele não tenha pensado antes. Uma vez que os Seus propósitos são eternos, o que Ele faz no tempo é o que Ele propôs-Se a fazer desde a eternidade. Aqueles a quem Ele salva são aqueles a quem Ele propôs-Se a salvar desde a eternidade, e aqueles a quem Ele deixa a perecer são aqueles a quem Ele propôs-Se deixar desde a eternidade. Se é justo para Deus fazer uma determinada coisa no tempo, também é, pela paridade do argumento, justo para Ele resolver sobre determinado assunto e decretar como tal desde a eternidade, pois o princípio da ação é o mesmo em ambos casos. E se nós somos justificados em dizer que desde toda a eternidade Deus intencionou demonstrar a Sua misericórdia ao perdoar a vasta multidão de pecadores, por que algumas pessoas objetam tão estressadamente quando dizemos que desde toda a eternidade Deus intencionou demonstrar a Sua justiça ao castigar outros pecadores?

Assim é que, se é justo para Deus reter-Se de salvar algumas pessoas depois que elas nascem, foi também justo para Ele formar aquele propósito antes que elas nascessem, ou na eternidade. E desde que a vontade determinante de Deus é onipotente, ela não pode ser obstruída ou anulada. Em sendo verdade, segue-se que Ele nunca antes, nem mesmo agora, quis ou quer que cada indivíduo da raça humana seja salvo. Se Ele assim quisesse, nenhuma só alma, nunca, poderia ou teria se perdido, "...Pois, quem resiste à sua vontade?"[Romanos 9:19]. Se Ele quisesse que ninguém se perdesse, Ele teria certamente dado para todos os homens aqueles meios efetivos de salvação, sem os quais não podem tê-la. Agora, Deus poderia dar aqueles meios tão facilmente para toda a humanidade, como para somente alguns, mas a experiência prova que Ele não o faz. Assim é que, logicamente, não é nenhum propósito secreto de Deus ou um decreto da Sua vontade que todos devam ser salvos. De fato, as duas verdades, que o que Deus faz Ele o faz desde a eternidade, e que somente uma parte da raça humana é salva, são suficientes para completar as doutrinas da Eleição e da Rejeição.


O Estado dos Ateus

O fato de que, na obra providencial de Deus, alguns homens são deixados sem o Evangelho e os outros meios da graça, virtualmente envolve o princípio estabelecido na doutrina Calvinista da Predestinação. Nós vemos que em todas as épocas a grande parte da humanidade tem sido deixada destituída dos meios externos da graça. Por séculos os Judeus, cujo número era pequeno, foram o único povo a quem aprouve a Deus revelar-Se de maneira especial. Jesus restingiu o Seu ministério público quase que exclusivamente a eles e proibiu os Seus discípulos de andarem no meio de outros até passado o dia de Pentecostes (veja Mateus 10:5, 6; 28:19; Marcos 16:15; Atos 1:4). Multidões foram deixadas sem a oportunidade de ouvir o Evangelho, e consequentemente morreram em seus pecados. Se Deus tivesse a intenção de salvá-los, indubitavelmente Ele teria enviado a eles os meios de salvação. Se Ele tivesse escolhido cristianizar a Índia e a China há mil anos atrás, Ele mais que certamente poderia ter atingido o Seu propósito. Ao contrário, eles permaneceram em densas trevas e descrença. Para o estado passado e presente do mundo, com todo o seu pecado, miséria e morte, não pode haver outra explicação senão aquela que é dada na Bíblia, -- nominalmente, que a raça caiu em Adão e que em misericórdia Deus soberanamente escolheu trazer uma multidão inumerável à salvação através de uma redenção que Ele pessoalmente providenciou. É uma visão pervertida e desonrosa de Deus, imaginá-lo lutando e batalhando com homens desobedientes, fazendo o Seu melhor para converte-los, mas incapaz de atingir o Seu propósito.

Se a teoria Arminiana fosse verdadeira, nominalmente, que Cristo morreu por todos os homens e que os benefícios da Sua morte são realmente aplicados a todos homens, seria de se esperar que Deus tivesse provisionado para que o Evangelho fosse comunicado a todos os homens. O problema com os ateus, com aqueles povos que vivem e morrem sem o Evangelho, tem sido sempre um problema muito difícil para os Arminianos, que insistem que todos os homens têm graça suficiente se eles simplesmente quiserem fazer uso dela. Poucos negarão que a salvação está condicionada à pessoa que ouve e que aceita o Evangelho. A Igreja Cristã tem praticamente sido unânime ao declarar que os ateus como uma classe estão perdidos. Que isto seja um ensinamento claro na Bíblia, nós podemos facilmente mostrar: ---

"E em nenhum outro há salvação; porque debaixo do céu nenhum outro nome há, dado entre os homens, em que devamos ser salvos."[Atos 4:12]. "Porque todos os que sem lei pecaram, sem lei também perecerão; e todos os que sob a lei pecaram, pela lei serão julgados."[Romanos 2:12]. "Porque ninguém pode lançar outro fundamento, além do que já está posto, o qual é Jesus Cristo."[I Coríntios 3:11]. "Eu sou a videira; vós sois as varas. Quem permanece em mim e eu nele, esse dá muito fruto; porque sem mim nada podeis fazer."[João 15:5]. "...Eu sou o caminho, e a verdade, e a vida; ninguém vem ao Pai, senão por mim."[João 14:6]. "Quem crê no Filho tem a vida eterna; o que, porém, desobedece ao Filho não verá a vida, mas sobre ele permanece a ira de Deus."[João 3:36]. "Quem tem o Filho tem a vida; quem não tem o Filho de Deus não tem a vida."[I João 5:12]. "E a vida eterna é esta: que te conheçam a ti, como o único Deus verdadeiro, e a Jesus Cristo, aquele que tu enviaste."[João 17:3]. "Ora, sem fé é impossível agradar a Deus ..."[Hebreus 11:6]. "[13] Porque: Todo aquele que invocar o nome do Senhor será salvo. [14] Como pois invocarão aquele em quem não creram? e como crerão naquele de quem não ouviram falar? e como ouvirão, se não há quem pregue?"[Romanos 10:13, 14] (ou, em outras palavras, como podem os ateus possivelmente serem salvos quando eles nunca sequer ouviram falar de Cristo, que é o único caminho para a salvação?). "Disse-lhes Jesus: Em verdade, em verdade vos digo: Se não comerdes a carne do Filho do homem, e não beberdes o seu sangue, não tereis vida em vós mesmos."[João 6:53]. Quando aquele que vigia vê o perigo se aproximando mas não avisa, não alerta o povo e eles morrem na sua iniqüidade, {"Se eu disser ao ímpio: O ímpio, certamente morrerás; e tu não falares para dissuadir o ímpio do seu caminho, morrerá esse ímpio na sua iniqüidade, mas o seu sangue eu o requererei da tua mão."[Ezequiel 33:8]} -- verdade, seremos responsabilizados se não falarmos, se não avisarmos, todavia isto não muda a sorte do povo. Jesus declarou que mesmo os Samaritanos que tinham privilégios muito mais altos que as nações fora da Palestina, adoravam o que não conheciam, e que a salvação vinha dos Judeus. Veja também o primeiro e o segundo capítulos da Epístola de Paulo aos Romanos. As Escrituras, então, são plenas em declarar que sob condições ordinárias, normais, aqueles que não têm a Cristo e o Evangelho estão perdidos.

E de acordo com isto, a Confissão de Fé de Westminster, depois de declarar que aqueles que rejeitam a Cristo não podem ser salvos, acrescenta: "...muito menos poderão ser salvos por qualquer outro meio os que não professam a religião cristã, por mais diligentes que sejam em conformar as suas vidas com a luz da natureza e com a lei da religião que professam ..." [parte da seção IV, Capítulo X, = referências Bíblicas: Mat. l3:14-15; At. 28:24; Mat. 22:14; Mat. 13:20-21, e 7:22; Heb. 6:4-5; João 6:64-66, e 8:24; At. 4:12; João 14:6 e 17:3; Ef. 2:12-13; II João 10: l 1; Gal. 1:8; I Cor. 16:22].

Na verdade, a crença de que os ateus, aqueles que vivem sem o Evangelho estão perdidos tem sido um dos mais fortes argumentos a favor da missões estrangeiras. Se crermos que as suas próprias religiões têm luz e verdade suficientes para salvá-los, a importância de pregar o Evangelho a eles é então diminuída consideravelmente. Nossa atitude quanto às missões estrangeiras é muito grandemente determinada pela resposta que damos àquela questão.

Não negamos que Deus pode salvar até mesmo alguns dos ateus adultos se Ele escolher fazê-lo, pois o Seu Espírito opera quando e onde e como Lhe apraz, com ou sem meios. Se qualquer um dos tais é salvo, contudo, é por um milagre de pura graça. Certamente o método normal de Deus é reunir, separar os Seus eleitos da parte evangelizada da humanidade, embora devemos admitir a possibilidade de, através de um método extraordinário, alguns dos Seus eleitos possam ser reunidos, separados da parte não evangelizada. (A sina, o destino daqueles que morrem na infância em terras pagãs é tema a ser discutido sob o tópico "Salvação Infantil", mais adiante).

É irracional supor que povos podem apropriar-se de alguma coisa da qual não sabem nada. Isto pode ser facilmente visto tanto quanto os ateus (os povos ainda não alcançados) são deixados de lado no que se refere a muitos prazeres, a alegrias e oportunidades relacionados com este mundo; e segundo o mesmo princípio, seria de se esperar que fossem também deixados de lado também no próximo. Aqueles que são providencialmente colocados nas trevas pagãs da China setentrional não podem aceitar a Cristo como Salvador mais do que podem aceitar o rádio, o avião ou o sistema Copérnico de astronomia, coisas a respeito das quais são totalmente ignorantes. Quando Deus coloca pessoas em tais condições, podemos estar certos de que Ele não tem intenção de que elas sejam salvas, mais do que ele teria intenção que o solo ao norte da Sibéria, que permanece congelado durante o ano inteiro, devesse produzir grãos de trigo. Tivesse Ele querido o contrário, Ele teria suprido os meios que levassem ao fim determinado. Há também multidões nas terras nominalmente Cristãs, a quem o Evangelho nunca foi apresentado de qualquer forma adequada, que não têm nem mesmo as condições externas para a salvação, sem mencionar o estado de indefesa dos seus corações.

É claro que isto não significa que todos os perdidos sofrerão o mesmo grau de castigo. Nós cremos que a partir de um 'ponto zero' em comum haverá todos graus de recompensas bem como todos os graus de punições; e que a recompensa ou o castigo de uma pessoa serão, até determinada extensão, baseados na oportunidade que ela tenha tido neste mundo. Jesus Ele próprio declarou que no dia do julgamento, seria mais tolerável para a cidade pagã de Sodoma que para aquelas cidades da Palestina, que ouviram a Sua mensagem mas a rejeitaram (veja em Lucas 10:12-14); e ele concluiu a parábola dos servos fiéis e infiéis com as palavras: "[47] O servo que soube a vontade do seu senhor, e não se aprontou, nem fez conforme a sua vontade, será castigado com muitos açoites; [48] mas o que não a soube, e fez coisas que mereciam castigo, com poucos açoites será castigado. Daquele a quem muito é dado, muito se lhe requererá; e a quem muito é confiado, mais ainda se lhe pedirá."[Lucas 12:47, 48]. Então, enquanto os ateus, os pagãos (enfim, povos não alcançados pelo Evangelho) estão perdidos, eles deverão sofrer relativamente menos que aqueles que ouviram o Evangelho e o rejeitaram.

Assim, com relação a esta questão das raças pagãs, os Arminianos estão, em muito, envolvidos em dificuldades que subvertem seu sistema por completo, dificuldades das quais eles nunca foram capazes de safarem-se. Eles admitem que somente em Cristo há salvação; todavia eles vêm que multidões morrem sem sequer haverem ouvido falar de Cristo ou do Evangelho. Ao sustentar que graça suficiente ou oportunidade devem ser proporcionadas a cada homem antes que ele seja condenado, muitos deles têm sido levados a postular uma provação futura, -- isto contudo não é o que a Bíblia advoga, mas é contrário às Sagradas Escrituras. Como Cunningham diz, "os Calvinistas têm sempre tido como um forte argumento contra as doutrinas Arminiadas da graça universal e da redenção universal, e em favor dos seus próprios pontos de vista dos soberanos propósitos de Deus; que, ponto pacífico, tão grande a porção da raça humana que tem sido sempre deixada em completa ignorância da misericórdia de Deus, e do caminho da salvação revelado no Evangelho; nem, em tais circunstâncias como, para todas as aparências, atirar obstáculos insuperáveis no seu caminho para alcançar aquele conhecimento de Deus e de Jesus Cristo, que é a vida eterna." 23

Somente no Calvinismo, com a sua doutrina da culpa e da corrupção de toda a humanidade através da queda, e sua doutrina da graça através da qual alguns são soberanamente resgatados e trazidos à salvação enquanto outros são deixados de lado, é que encontramos uma explicação adequada para o fenômeno do mundo pagão, do mundo ainda não alcançado pelo Evangelho.


Propósitos do Decreto da Rejeição

A condenação dos não eleitos é primariamente designada a fornecer uma exibição eterna, diante dos homens e dos anjos, da animosidade, do ódio de Deus com relação ao pecado, ou, em outras palavras, é uma manifestação eterna da justiça de Deus. (Deve ser recordado que a justiça de Deus tão certamente demanda o castigo do pecado, como demanda a recompensa da retidão.) Este decreto mostra um dos atributos divinos o qual, se separado daquele decreto, nunca seria apreciado adequadamente. A salvação de alguns através de um redentor destina-se a demonstrar os atributos do amor, da misericórdia e da santidade. Os atributos da sabedoria, do poder e da soberania são demonstrados no tratamento dispensado a ambos grupos. Assim é que a verdade do testemunho das Escrituras que, "O Senhor fez tudo para um fim; sim, até o ímpio para o dia do mal."[Provérbios 16:4]; como também o testemunho de Paulo que este arranjo estava intencionado por um lado "para que também desse a conhecer as riquezas da sua glória nos vasos de misericórdia, que de antemão preparou para a glória." por outro lado para "mostrar a sua ira, e dar a conhecer o seu poder, suportou com muita paciência os vasos da ira, preparados para a perdição"[Romanos 9:23, 22]

Este decreto da rejeição também serve para subordinar propósitos relacionados com os eleitos; pois, ao observar a rejeição e o estado final dos maus, (1) eles aprendem que eles também teriam sofrido, não tivesse a graça agido em seu cuidado; e eles entendem mais profundamente as riquezas do amor divino que os levantou do pecado e os trouxe para a vida eterna, enquanto outros não mais culpados um de valor menor que eles foram deixados para a destruição eterna. (2) Provê um motivo muito poderoso para estarem gratos por haverem recebido tão altas bênçãos. (3) São levados a uma confiança mais profunda no Pai celeste que supre todas as suas necessidades nesta vida e na próxima. (4) A consciência do que eles têm recebido resulta na razão mais forte possível para que eles amem seu Pai celeste, e vivam vidas tão puras quanto possível. (5) Leva-os a um maior horror ao pecado. (6) Leva-os a caminharem mais próximos com Deus e uns com os outros, especialmente com aqueles herdeiros escolhidos do reino dos céus. (7) Quanto ao argumento da soberana rejeição dos Judeus, Paulo aniquila na fonte qualquer acusação de que eles foram deixados de fora sem razão. "Logo, pergunto: Porventura tropeçaram de modo que caíssem? De maneira nenhuma, antes pelo seu tropeço veio a salvação aos gentios, para os incitar à emulação."[Romanos 11:11]. Assim, vemos que a rejeição por Deus, dos Judeus, teve um propósito mu