A Doutrina Reformada da Predestinação
por
Loraine Boettner D.D.a
Copyright 1932
by
Loraine Boettner
Capítulo 12
Expiação Limitada
1. ENUNCIADO DA DOUTRINA
A questão que nós discutiremos sobre o assunto da "Expiação
Limitada" é: Cristo ofereceu a Si mesmo como sacrifício por
toda raça humana, por cada indivíduo sem distinção
ou exceção; ou Sua morte teve especial referência aos eleitos
? Em outras palavras, foi o sacrifício de Cristo meramente tencionado
a fazer a salvação de todos homens possível, ou ela foi
pretendida a fazer certa a salvação daqueles que foram dados a
Ele pelo Pai ? Os Arminianos sustentam que Cristo morreu da mesma forma por
todos homens, enquanto que os Calvinistas sustentam que na intenção
e no secreto plano de Deus, Cristo morreu somente pelos eleitos, e que Sua morte
tem somente uma referência incidental para os outros até que eles
sejam participantes da graça comum. O sentido pode ser mais salientado
claramente se nós usarmos a frase "Redenção Limitada"
ao invés de "Expiação Limitada." A Expiação
é, com certeza, estritamente uma transação infinita; a
limitação vem, teologicamente, na aplicação dos
benefícios da expiação, que é na redenção.
Mas desde que a frase "Expiação Limitada" tem sido bem
estabelecida no uso teológico e seu significado é bem conhecido,
nós continuaremos usando-o.
Concernente esta doutrina a Confissão de Westminster diz: ". . .
Os que, portanto, são eleitos, achando-se caídos em Adão,
são redimidos por Cristo, são eficazmente chamados para a fé
em Cristo pelo Seu Espírito, que opera no tempo devido; são justificados,
adotados, santificados, e guardados pelo Seu poder por meio da fé salvadora.
Além dos eleitos não há nenhum outro que seja redimido
por Cristo, eficazmente chamado, justificado, adotado, santificado, e salvo."
1
Poderá ser entendido de imediato que esta doutrina necessariamente segue
a doutrina da eleição. Se desde a eternidade Deus tem planejado
salvar uma porção da raça humana e não outra, parece
ser uma contradição dizer que Sua obra [salvadora] tem igual referência
a ambas porções, ou que Ele enviou Seu Filho para morrer por aqueles
que Ele tem predestinado não salvar, como verdadeiramente e no mesmo
sentido que Ele foi enviado para morrer por aqueles que Ele tem escolhido para
salvação. Essas duas doutrinas [eleição e expiação
limitadas] devem permanecer ou cair juntamente. Nós não podemos
logicamente aceitar uma e rejeitar a outra. Se Deus tem eleito alguns e não
outros para vida eterna, então claramente o propósito primário
da obra de Cristo foi redimir os eleitos.
2. O INFINITO VALO DA EXPIAÇÃO DE CRISTO
Esta doutrina não significa que qualquer
limite pode ser ficado para o valor ou poder da expiação que Cristo
fez. O valor da expiação depende de, e é medida pela dignidade
da pessoa que a fez; e desde que Cristo sofreu como uma pessoa humana e Divina,
o valor de Seu sofrimento foi infinito. Os escritores da Escritura nos contam
claramente que o "Senhor da glória" foi crucificado (1 Coríntios
2:8); que homens ímpios "mataram o Príncipe da vida"
(Atos 3:15); e que Deus "comprou" a Igreja "com Seu próprio
sangue" (Atos 20:28). A expiação, então, foi infinitamente
meritória e poderia ter salvo cada membro da raça humana, tivesse
este sido o plano de Deus. Ela foi limitada somente no sentido que ela foi intentada
para, e é aplicada para pessoas particulares; em outras palavras, para
aqueles que são realmente salvos.
Alguns mal-entendidos ocasionalmente se levantam aqui, por causa da falsa suposição
de que os Calvinistas ensinam que Cristo sofreu tanto por uma alma, e tanto
por outra, e que Ele deveria ter sofrido mais se mais almas tivessem sido salvas.
Nós cremos, no entanto, que mesmo se muito menos dos da raça humana
tivessem sido perdoados e salvos, uma expiação de infinito valor
deveria ter sido necessária para fazer segura para eles aquelas bênçãos;
e mesmo que muito mais pessoas, ou mesmo que todos homens tivessem sido perdoados
e salvos, o sacrifício de Cristo teria sido amplamente suficiente como
o fundamento ou base da salvação deles.
Da mesma forma que é necessário que o sol emita tanto calor se
somente uma planta deva crescer sobre a terra como se a terra devesse ser coberta
com vegetação, assim era necessário Cristo sofrer tanto
quanto se somente uma alma devesse ser salva como se um largo número
ou mesmo toda humanidade devessem ser salvas. Visto que o pecador tem ofendido
uma Pessoa de infinita dignidade, e havia sido sentenciado para sofrer eternamente,
nada exceto um sacrifício de infinito valor poderá expiá-lo.
Ninguém supõe que, visto que o pecado de Adão foi o fundamento
da condenação da raça, ele pecou tanto por um homem e tanto
por outro, e que poderia ter pecado mais se houvesse existido mais pecadores
.Por que então eles devem fazer a suposição com respeito
ao sofrimento de Cristo ?
3. A EXPIAÇÃO É LIMITADA NO PROPÓSITO E APLICAÇÃO
Apesar do valor da expiação ter sido suficiente para salvar toda
humanidade, ela foi eficiente para salvar somente os eleitos. Ela está
indiferentemente bem adaptada à salvação de um homem como
de outro, assim fazendo a salvação de cada homem objetivamente
possível; todavia, por causa de dificuldades subjetivas, aparecendo por
causa da inabilidade dos pecadores para ver ou apreciar as coisas de Deus, somente
aqueles [os eleitos] são salvos, os quais são regenerados e santificados
pelo Espírito Santo. A razão porque Deus não aplica esta
graça a todos homem não tem sido revelada completamente. Quando
a expiação é feita universal, o seu valor inerente é
destruído. Se ela é aplicada a todos os homens, e se alguns se
perdem, a conclusão é que isto faz a salvação objetivamente
possível para todos os homens, porém que não salva realmente
a qualquer um.
Segundo a teoria Arminiana, a expiação tem simplesmente tornado
possível para todos os homens o cooperar com a divina graça e
assim, salvar a si mesmos - se eles assim quiserem. Porém, conte-nos
de um curado de enfermidade e todavia morto de câncer, e a história
será igualmente luminosa com a de um expiado do pecado, porém
que pereceu através da incredulidade. A natureza da expiação
determina sua extensão. Se ela meramente fez a salvação
possível, ela foi aplicada a todos os homens. Se ela efetivamente assegura
a salvação, ela teve referência somente aos eleitos. Como
o Dr. Warfield disse: "As coisas que tenho de escolher são entre
uma expiação de alto valor, ou uma expiação de larga
extensão. As duas coisas não podem andar juntas". A obra
de Cristo pode ser universalmente somente pela evaporação de sua
substância.
Não deixemos haver mal-entendido neste ponto. O Arminiano limita a expiação
tão certamente como o faz o Calvinista. O Calvinista limita a extensão
dela, ao dizer que ela não se aplica a todas pessoas (ainda que, como
se tem demonstrado já, ele creia que é eficaz para a salvação
de uma larga proporção da raça humana); enquanto o Arminiano
limita o poder dela, porque ele diz que ela em si mesma, não salva realmente
ninguém. O Calvinista a limita quantitativamente, mas não qualitativamente;
o Arminiano a limita qualitativamente, mas não quantitativamente. Para
o Calvinista ela é como uma ponte estreita que vai até o fim do
caminho acima da correnteza; para o Arminiano ela é como uma grande e
larga ponte que vai somente até a metade do caminho. Na verdade, o Arminiano
põe limitações mais severas na obra de Cristo do que o
Calvinista.
4. A OBRA DE CRISTO COMO UMA PERFEITA SATISFAÇÃO DA LEI
Se os benefícios da expiação
são universais e ilimitados, ela deve ter sido o que os Arminanos a representam
ter sido - meramente um sacrifício para apagar a maldição
que repousava sobre a raça humana através da queda de Adão,
um mero substituto da execução da lei que Deus em Sua soberania
achou certo aceitar em lugar do que o pecador era obrigado a render, e não
uma perfeita satisfação que cumpriu as demandas da justiça.
Significaria que Deus não mais demanda perfeita obediência como
Ele fez com Adão, porém que Ele agora oferece salvação
em termos inferiores. Deus, então, tirará obstáculos legais
e aceitará tal fé e obediência evangélica que a pessoa
com uma capacidade graciosamente restaurada pode render se assim escolher, o
Espírito Santo certamente ajudando em uma maneira geral. Dessa forma,
a graça seria estendida em que Deus oferece uma caminho fácil
de salvação - Ele aceita cinqüenta cents de dólar,
aparentemente, visto que o pecador inválido não pode pagar mais.
Por outro lado, os Calvinistas sustentam que a lei de perfeita obediência
que foi originalmente dada a Adão foi "permanente", que Deus
nunca tem feito qualquer coisa que conduziria a impressão que a lei era
rígida demais em seus requerimentos, ou severa demais em suas penalidades,
ou que tampouco ela estivesse em necessidade de abolição ou derrogação.
A Divina justiça demanda que o pecador seja punido, em si mesmo ou em
seu substituto. Nós sustentamos que Cristo atuou de uma maneira estritamente
substitutiva pelo Seu povo, que Ele fez uma completa satisfação
pelos pecados deles, dessa forma apagando a maldição de Adão
e todos pecados temporais deles; e que pela Sua vida inocente, Ele perfeitamente
guardou por eles a lei que Adão quebrou, deste modo adquirindo para o
Seu povo a recompensa da vida eterna. Nós cremos que o requerimento para
salvação agora como originalmente, é a perfeita obediência,
que os méritos de Cristo são imputados a Seu povo como o única
fundamento da salvação deles, e que eles entram no céu
vestidos somente com o manto de Sua perfeita justiça e absolutamente
destituídos de qualquer mérito propriamente deles. Assim graça,
pura graça, é estendida não em se reduzir os requerimentos
para salvação, mas na substituição de Cristo pelo
Seu povo. Ele tomou o lugar deles diante da lei, e fez por eles o que eles não
poderiam fazer por si mesmos. Este princípio Calvinista é adaptado
em cada caminho para impressionar sob nós a absoluta perfeição
e imutável obrigação da lei que foi originalmente dada
a Adão. Ela não foi afrouxada ou desprezada, porém é
apropriadamente honrada de forma que sua excelência é demonstrada.
Em benefício daqueles que são salvos, por quem Cristo atuou, e
em benefício daqueles que são submetidos ao castigo eterno, a
lei em sua majestade se executa e se faz cumprir.
Se a teoria Arminiana fosse verdadeira, ela compreenderia que milhões
daqueles por quem Cristo morreu são no final perdidos, e que a salvação
é dessa forma nunca aplicada a muitos daqueles por quem ela foi adquirida.
Que benefícios, por exemplo, nós podemos apontar para as vidas
dos pagãos e dizer que eles tem recebido da expiação ?
Isto pode também significar que os planos de Deus muitas vezes tem sido
frustados e desmoronados pelas Suas criaturas e que, enquanto Ele pode fazer
de acordo com Sua vontade com os exército dos céus, Ele não
faz assim entre os habitantes da terra.
"O pecado de Adão", disse Charles Hodge, "não fez
a condenação de todos os homens meramente possível; ele
foi o fundamento da real condenação deles. Assim, a justiça
de Cristo não fez a salvação dos homens meramente possível,
ela assegurou a real salvação daqueles por quem Ele morreu."
O grande pregador Batista Charles H. Spurgeon disse: "Se Cristo morreu
por você, você nunca poderá perecer. Deus não irá
punir duas vezes uma mesma coisa. Se Deus puniu a Cristo pelos seus pecados,
Ele não pode te punir. O pagamento da justiça de Deus não
pode ser demandado duas vezes; primeiro, da mão sangrenta do Salvador,
e então da minha. Como pode Deus ser justo se Ele puniu Cristo, o substituto,
e então o próprio homem mais tarde"?
5. UM RESGATE
Cristo é dito ter sido um resgate para Seu povo: "O Filho do homem não veio para ser servido, mas para servir, e para dar a sua vida em regaste de muitos", Mateus 20:28. Note, este verso não diz que Ele deu Sua vida em resgate de todos, mas por muitos. A natureza de um resgate é tal que quando paga e aceita, ela automaticamente liberta as pessoas por quem ela foi pretendida. De outra forma, ele não seria um verdadeiro resgate. A justiça demanda que aqueles por quem ela foi paga, sejam livres de qualquer obrigação adicional. Se o sofrimento e morte de Cristo foi um resgate para todos os homens antes que somente para os eleitos, então os méritos de Sua obra devem ser comunicados a todos igualmente e a penalidade do eterno castigo não pode ser justamente infligido em alguém. Deus seria injusto se Ele exigisse essa penalidade duas vezes, primeiramente do substituto e então das próprias pessoas. A conclusão é que a expiação de Cristo não estende a todos os homens, mas que ela é limitada àqueles por quem Ele pagou a fiança ; isto é, àqueles que compõem Sua verdadeira Igreja.
6. O PROPÓSITO DIVINO NO SACRIFÍCIO DE CRISTO
Se a morte de Cristo intencionou salvar a
todos os homens, eles devem dizer que Deus ou foi incapaz ou indisposto em realizar
os Seus planos. Mas, desde que a obra de Deus é sempre eficiente, aqueles
por quem a expiação foi feita e aqueles que são realmente
salvos devem ser as mesmas pessoas. Os Arminianos supõe que os propósitos
de Deus são mutáveis, e que Seus propósitos podem falhar.
Em afirmar que Ele enviou Seu Filho para redimir todos os homens, mas que depois
vendo que tal plano poderia não ser executado, Ele "elegeu"
aqueles que Ele previu que teriam fé e se arrependeriam, eles O representam
como querendo o que nunca ocorre, - como suspendendo Seus propósitos
e planos sob a volições e ações de criaturas que
são totalmente dependentes dEle. Nenhum ser racional que tenha a sabedoria
e poder para realizar seus planos, pretende o que Ele nunca realiza ou adota
planos para um fim que nunca será alcançado. Muito menos pode
Deus, cujo poder e sabedoria são infinitos, trabalhar desta maneira.
Nós podemos descansar assegurados que se alguns homens se perdem, Deus
nunca tencionou sua salvação, e nunca desenvolve e colocou em
operação meios determinados a efetuar este fim.
O próprio Jesus limitou o propósito de Sua morte quando Ele disse:
"Dou a minha vida pelas ovelhas." Se, então, Ele deu Sua vida
pelas ovelhas, o caráter expiatório de Sua obra não foi
universal. Em outra ocasião Ele disse aos Fariseus, "não
sois das minhas ovelhas;" e outra vez, "vós tendes por pai
ao diabo." Irá alguém manter que Ele deu Sua vida por estes,
vendo que Ele tão explicitamente os excluiu ? O anjo que apareceu a José
disse-lhe que o filho de Maria deveria ser chamado JESUS, porque Sua missão
no mundo era salvar Seu povo de seus pecados. Ele então não veio
meramente para fazer a salvação possível, mas para realmente
salvar o Seu povo; e o que Ele veio fazer, podemos confiadamente esperar que
Ele consumou.
Visto que a obra de Deus nunca é em vão, aqueles que são
escolhidos por Deus, aqueles que são redimidos pelo Filho, e aqueles
que são santificados pelo Espírito Santo, - ou em outras palavras,
eleição, redenção e santificação,
- devem incluir as mesmas pessoas. A doutrina Arminiana de uma expiação
universal faz estes desiguais e através disso destroi a perfeita harmonia
dentro da Trindade. A redenção universal significa salvação
universal.
Cristo declarou que os eleitos e os redimidos são as mesmas pessoas quando
na oração intercessória Ele disse: "Eram teus, e tu
mos deste", e "Eu rogo por eles: não rogo pelo mundo, mas por
aqueles que me deste, porque são teus. E todas as minhas coisas são
tuas, e as tuas coisas são minhas; e nisso sou glorificado." (João
17:6,9,10). E outra vez, "Eu sou o bom Pastor, e conheço as minhas
ovelhas, e das minhas sou conhecido. Assim como o Pai me conhece a mim, também
eu conheço o Pai, e dou a minha vida pelas ovelhas." (João
10:14,15). O mesmo ensino é encontrado quando somos ordenados a "apascentar
a igreja de Deus, que Ele resgatou com seu próprio sangue." (Atos
20:28) Somos informados que "Cristo amou a Igreja, e a si mesmo se entregou
por ela" (Efésios 5:25); e que Ele deu Sua vida pelos Seus amigos.
(João 15:13) Cristo morreu por Paulo assim como por João, e não
morreu por Faraó assim como não morreu por Judas, que eram bodes
e não ovelhas. Nós não podemos dizer que Sua morte foi
intencionada a todos, a menos que digamos que Faraó, Judas, etc., eram
das ovelhas, amigos, e Igrejas de Cristo.
Além do mais, quando é dito que Cristo deu Sua vida por Sua Igreja,
ou por Seu povo, nós encontramos impossível acreditar que Ele
Se Deu tanto quanto para os reprovados como para aqueles que Ele intencionou
salvar. A humanidade é dividida em duas classes e o que é distintamente
afirmada de uma é implicitamente negada de outra. Em cada caso algo é
dito daqueles que pertencem a um grupo que não é verdadeiro daqueles
que pertencem ao outro. Quando se diz que um homem trabalha e sacrifica a saúde
e força para suas crianças, através disso é negado
que o motivo que o controla é meramente filantropia, ou que o desígnio
que tem em vista é o bem da sociedade. E quando é dito que Cristo
morreu pelo Seu povo, é negado que Ele morreu igualmente por todos os
homens.
7. A EXCLUSÃO DOS NÃO-ELEITOS
Não era, então, um amor geral
e indiscriminado do qual todos os homens eram igualmente os objetos, mas um
peculiar, misterioso, e infinito amor por Seus eleitos, que fez Deus enviar
Seu Filho ao mundo para sofrer e morrer. Toda teoria que negar esta grande e
preciosa verdade, e que explicar este amor como benevolência meramente
indiscriminada ou filantrópica, a qual teve todos os homens por seus
objetos, muitos dos quais são permitidos perecer, deve ser anti-Escriturística.
Cristo não morreu para uma multidão desordenada, mar por Seu povo,
Sua noiva, Sua Igreja.
Um fazendeiro estima seu campo. Mas ninguém supõe que ele se importa
igualmente por cada planta que cresce ali, pelas "ervas daninhas"
assim como pelo "trigo". O campo de Deus é o mundo, Mateus
13:38, e Ele o ama com um olho exclusivo para sua "boa semente", as
crianças do reino, e não as crianças do maligno. Não
é todo da humanidade que é igualmente amado de Deus e confusamente
redimido por Cristo. Deus não é necessariamente comunicador de
Sua bondade, como o sol de sua luz, ou a árvore de sua sombra refrescante,
que não escolhe seus objetos, mas serve a todos indiferentemente sem
variação ou distinção. Isto seria fazer Deus de
não mais entendimento do que o sol, que brilha não onde lhe agrada,
mas onde deve. Ele é uma pessoa compreensiva, e tem um direito soberano
de escolher Seus próprios objetos.
Em Gênesis lemos que Deus "colocou inimizade" entre a semente
da mulher e a semente da serpente. Agora quem foram significados por semente
da mulher e semente da serpente ? No primeiro pensamento, podemos supor que
a semente da mulher significa a raça humana inteira descendente de Eva.
Mas em Gálatas 3:16 Paulo usa este termo "semente", e o aplica
a Cristo como um indivíduo. "Não diz: E às sementes,
como falando de muitas, mas como de uma só: E à tua semente, que
é Cristo."
Em uma investigação mais avançada, nós encontraremos
também que a semente da serpente não significa descendentes literais
do Diabo, mas aqueles membros não-eleitos da raça humana, que
participam de sua natureza pecaminosa. Jesus disse de Seus inimigos: "Vós
tendes por pai ao diabo, e quereis satisfazer os desejos de vosso pai"
(João 8:44). Paulo denunciou Elimas, o encantador, como um filho do Diabo
e um inimigo de toda justiça. Judas é até chamado de um
diabo (João 6:70). Então, a semente da mulher e a semente da serpente
são cada uma parte da raça humana. Em outras partes das Escrituras,
encontramos que Cristo e Seu povo são "um", que Ele habita
neles e é unido com eles assim como a videira e os ramos são unidos.
E desde que no extremo princípio Deus "colocou inimizade" entre
estes dois grupos, é claro que Ele nunca amou todos igualmente, nem intentou
redimir a todos igualmente. A redenção universal e a sentença
de Deus na serpente não podem nunca andar juntas.
Há também um paralelo para ser observado entre o sumo sacerdote
do antigo Israel e Cristo que é o nosso sumo sacerdote; porque o primeiro,
como sabemos, era um tipo do último. No grande dia da expiação,
o sumo sacerdote oferecia sacrifícios pelos pecados das doze tribos de
Israel. Ele intercedia por eles e por eles somente. Semelhantemente, Cristo
não orou pelo mundo, mas pelo Seu povo. A intercessão do sumo
sacerdote assegurava para os Israelitas bênçãos das quais
todos outros povos estavam excluídos; e a intercessão de Cristo,
que também é limitada porém de uma ordem muito maior, certamente
será eficaz em elevado sentido, porque Ele, o Pai sempre ouve. Além
do mais, não é necessário que a misericórdia de
Deus se estenda a todos os homens sem exceção para que possa ser
chamada verdadeiramente e propriamente infinita; porque todos homens tomados
juntos não constituíram uma multidão estritamente e propriamente
infinita. As Escrituras claramente nos ensina que o Diabo e os anjos caídos
foram deixados fora de Seus benevolentes propósitos. Mas Sua misericórdia
é infinita nisso: ela resgata a grande multidão de Seus eleitos
do indiscritível e eterno pecado e miséria para a indiscritível
e eterna bem-aventurança.
Enquanto os Arminianos sustentam que Cristo morreu igualmente por todos os homens
e que Ele obteve suficiente graça para capacitar todos os homens a arrepender-se,
crer, e perseverar, se eles conseguem somente cooperar com ela, eles também
sustentam que aqueles que recusam a cooperar, deverão prestar contas
e através de toda eternidade serem castigados mais severamente do que
se Cristo nunca tivesse morrido por eles de nenhuma maneira. Nós vemos
que até aqui, na história da raça humana, a larga proporção
da população adulta tem falhado em cooperar e tem dessa forma
sido permitido trazer para si mesmos grande miséria do que se Cristo
nunca tivesse vindo. Certamente, uma visão que permite a obra da redenção
de Deus ser lançada em semelhante falência, e que projeta tão
pequena glória na expiação de Cristo, não pode ser
verdadeira. Vastamente, mais do amor e misericórdia de Deus pelo Seu
povo é visto nas doutrinas Calvinistas da eleição incondicional
e expiação limitada do que é vista na doutrina Arminiana
da eleição condicional e expiação ilimitada.
8. O ARGUMENTO DA PRESCIÊNCIA DE DEUS
O argumento da presciência de Deus é em si mesmo, suficiente para
provar esta doutrina. Não é a mente de Deus infinita ? Não
são as suas percepções perfeitas ? Quem pode crer que Ele,
como um débil mortal, poderia "disparar no comboio sem perceber
os pássaros individuais ?" Visto que Ele conhece antes aqueles que
seriam salvos - e que a maioria dos Arminianos evangélicos admitem que
Deus tem uma presciência exata de todos eventos - Ele não teria
enviado a Cristo intentando salvar aqueles que Ele positivamente previu que
se perderiam. Porque, como Calvino adverte, "Onde estaria a consistência
de Deus para Si mesmo, assim como Ele sabe que nunca sucederá?".
Se um homem sabe que em uma sala há dez laranjas, sete das quais são
boas e três das quais são podres, ele não ira para a sala
esperando adquirir dez unidades boas. Ou se é conhecido de antemão
que dentre um grupo de cinqüenta homens que foram convidados para um banquete,
certo dez homens não virão, o anfitrião não enviará
convites esperando que aqueles dez assim como os outros o aceitem. Eles apenas
enganam a si mesmos, admitindo a presciência de Deus, dizendo que Cristo
morreu por todos os homens; porque que isso senão atribuir estupidez
a Ele, cujos caminhos são perfeitos ? Representar a Deus como aspirando
ardentemente acontecer o que Ele sabe que não acontecerá, é
representá-LO como agindo loucamente.
9. CERTOS BENEFÍCIOS QUE SE EXTENDEM A TODA HUMANIDADE EM GERAL
Em conclusão, permita ser dito que
os Calvinistas não negam que a humildade em geral recebem alguns importantes
benefícios da expiação de Cristo. Os Calvinistas admitem
que ela interrompe a punição que deveria Ter sido infligida sobre
toda a raça humana por causa do pecado de Adão; que ela forma
uma base para a pregação do Evangelho e assim introduz muitas
influências morais no mundo e restringe muitas influências perversas.
Paulo pode dizer ao povo pagão de Listra que Deus "não se
deixou a si mesmo sem testemunho, beneficiando-vos lá do céu,
dando-vos chuvas e tempos frutíferos, enchendo de mantimento e de alegria
os vossos corações," Atos 14:17. Deus faz Seu sol brilhar
sobre maus e bons, e envia chuva sobre justos e injustos. Muitas bênçãos
temporais se asseguram assim para todos os homens, ainda que estas não
cheguem a ser suficientes para garantir a salvação. Cunningham
expressou a crença do Calvinista mui claramente no seguinte parágrafo:
- "Não é negado pelos advogados da redenção
particular, ou da expiação limitada, que a humanidade em geral,
até mesmos aqueles que no final das contas perecem, desfrutam de algumas
vantagens ou benefícios da morte de Cristo; e nenhuma posição
que sustentam lhes requer negar isto. Eles crêem que importantes benefícios
se tem acrescentado à toda raça humana pela morte de Cristo, e
que nestes benefícios aqueles que são finalmente impenitentes
e incrédulos participam. O que eles negam é isto: que Cristo intentou
alcançar, ou procurou, para todos homens aquelas bênçãos
que são frutos próprios e peculiares de Sua morte, em seu caráter
específico como uma expiação, - que Ele procurou ou comprou
redenção - perdão e reconciliação - para
todos os homens. Muitas bênçãos fluem para a humanidade
amplamente pela morte de Cristo, colateralmente e incidentemente, na conseqüência
da relação na qual os homens, vistos coletivamente, permanecem
unidos um ao outro. Todos estes benefícios foram certamente previstos
por Deus, quando Ele resolveu enviar Seu Filho ao mundo; eles [os benefícios]
foram contemplados ou designados por Ele, em relação a como os
homens deveriam receber e gozá-los. Devem ser estimadas e recebidas como
concedidas por Ele, e como deste modo desvelando Sua glória, indicando
Seu caráter, e realmente cumprindo Seus propósitos; e devem ser
vistos como vindo aos homens através do canal da mediação
de Cristo, - de Seu sofrimento de morte." ." 2
Há, portanto, um certo sentido no qual Cristo morreu por todos, e não
contestamos ao dogma Arminiano com uma negativa desqualificada. Porém
que mantemos que a morte de Cristo teve especial referência aos eleitos
no que era eficaz para sua salvação, e que os efeitos que são
produzidos nos outros são somente incidentais [secundários] a
este único grande propósito.
Traduzido por:
Felipe Sabino de Araujo Neto
Cuiabá-MT, 06 de Outubro de 2002.
felipe.sabino@terra.com.br
http://planeta.terra.com.br/arte/spurgeon/