A Doutrina Reformada da Predestinação

por

Loraine Boettner D.D.a
Copyright 1932
by
Loraine Boettner

 

Capítulo 28

Calvinismo Na História

 


 

1. Antes da Reforma. 2. A Reforma. 3. Calvinismo na Inglaterra. 4. Calvinismo na Escócia. 5. Calvinismo na França. 6. Calvinismo na Holanda. 7. Calvinismo na América. 8. Calvinismo e Governo Representativo. 9. Calvinismo e Educação. 10. João Calvino. 11. Conclusão.


1. ANTES DA REFORMA.

Pode ocasionar alguma surpresa descobrir que a doutrina da Predestinação não foi objeto de estudo especial até próximo do final do século quarto. Os pais da igreja antiga punham grande ênfase em boas obras tais como fé, arrependimento, caridade, orações, submissão ao batismo e etc., como a base da salvação. Eles, é claro, ensinavam que a salvação é através de Cristo; ainda assim eles assumiam que o homem tinha todo poder para aceitar ou rejeitar o Evangelho. Alguns dos seus escritos contém passagens nas quais é reconhecida a soberania de Deus; todavia paralelamente a estas passagens há outras que ensinam a liberdade absoluta da vontade humana. Desde que não puderam reconciliar as duas, eles teriam negado a doutrina da Predestinação e talvez também a da absoluta Presciência de Deus. Eles ensinaram um tipo de sinergia na qual havia uma cooperação entre a graça e o livre arbítrio. Foi difícil para o homem desistir da idéia de que ele podia operar a sua própria salvação. Mas no fim, como resultado de um processo longo, demorado, o homem chegou à grande verdade de que a salvação é uma dádiva soberana que foi concedida não importando o mérito; que foi fixada na eternidade; e que Deus é o Autor da mesma, em todos os seus estágios. Esta verdade cardeal do Cristianismo foi vista claramente primeiro por Agostinho, o grande teólogo cheio do Espírito do Ocidente. Em suas doutrinas de graça e pecado, ele foi muito além do que os teólogos do passado, ensinou uma eleição de graça incondicional; e restringiu os propósitos de redenção ao círculo definido dos eleitos. Ninguém que conheça a História da Igreja poderá negar que Agostinho foi um bom homem, vulto eminentemente grande; e que as suas obras e escritos contribuíram mais para a promoção de sólida doutrina e do re-avivamento da religião verdadeira, do que qualquer outro homem entre Paulo e Lutero.

Anteriormente à época de Agostinho, o tempo havia sito grandemente empregado na correção de heresias dentro da Igreja e em refutar ataques do mundo pagão no qual ela se encontrava. Consequentemente muito pouca ênfase foi colocada no desenvolvimento sistemático da doutrina. E que a doutrina da Predestinação recebeu tão pouca atenção naquela época, foi sem dúvida devido em parte à tendência para confundi-la com a doutrina Pagã do Fatalismo, a qual era tão largamente aceita e praticada em todo o Império Romano. Mas no século quarto experimentou-se uma época um pouco mais calma, o amanhecer de uma nova era em teologia; e os teólogos passaram a enfatizar mais o conteúdo doutrinário da sua mensagem. Agostinho foi levado a desenvolver suas doutrinas do pecado e da graça em parte através da sua própria experiência de ter-se convertido ao Cristianismo após uma vida mundana; e em parte através da necessidade de refutar os ensinos de Pelágio, que ensinava que o homem em seu estado natural tinha total capacidade para operar a sua própria salvação, que a queda de Adão teve somente um pequeno efeito na raça, exceto no sentido de estabelecer um mau exemplo o qual é perpetuado, que a vida de Cristo tem valor para os homens principalmente como um exemplo, que na Sua morte Cristo foi pouco mais que o primeiro mártir Cristão; e que não nos encontramos sob nenhuma providência especial de Deus. Contra estes pontos de vista, Agostinho desenvolveu exatamente o oposto. Ele ensinou que a raça inteira caiu com Adão, que todos os homens são depravados e estão espiritualmente mortos por natureza, que a vontade é livre tanto quanto refere-se ao pecado mas não é livre com relação ao bem para com Deus, que Cristo enfrentou sofrimento vicário pelo Seu povo, que Deus elege aqueles a quem Lhe apraz sem qualquer relação com seus méritos; e que a graça salvadora é eficazmente aplicada aos eleitos pelo Espírito Santo. Assim ele tornou-se o primeiro intérprete verdadeiro de Paulo e alcançou sucesso em assegurar a aceitação da sua doutrina pela igreja.

Depois de Agostinho, houve retrocesso ao invés de progresso. Nuvens de ignorância cegaram os povos. A Igreja adotou mais e mais rituais e pensava-se que a salvação ocorria através da Igreja externa. O sistema de mérito cresceu até atingir o clímax, com as "indulgências". O papado passou a exercer poder enorme, tanto político como eclesiástico; e em toda a Europa Católica a situação da moral ficou quase que intolerável. Mesmo o clero tornou-se desesperadamente corrupto e em todo o catálogo de pecados e vícios humanos nenhum é mais corrupto ou mais ofensivo que aqueles desgraçaram as vidas de papas tais como João XXIII e Alexandre VI.

Desde a época de Agostinho até a da Reforma, muito pouca ênfase foi dada à doutrina da Predestinação. Mencionaremos somente dois nomes deste período: Gottschalk, que foi aprisionado e condenado por ensinar a Predestinação; e o Inglês Wycliffe, "A Estrela Matutina da Reforma". Ele foi um reformador do tipo Calvinista, proclamando a soberania absoluta de Deus e a Pré Ordenação de todas as coisas. Seu sistema de crença era muito similar àquele que mais tarde foi ensinado por Lutero e por Calvino. Os Waldesianos também devem ser mencionados, pois eles foram, num sentido, "Calvinistas" antes da Reforma, uma de sua doutrinas tendo sido a da Predestinação.


2. A REFORMA.

A Reforma foi essencialmente um reviver do Agostinianismo; e através dela o Cristianismo foi novamente Cristianismo. Deve ser lembrado que Lutero, o primeiro líder da Reforma, foi um monge Agostiniano e que foi a partir daquela teologia rigorosa que ele formulou seu grande princípio da justificação somente pela fé. Lutero, Calvino, Zuínglio e todos os outros reformadores notáveis daquele período eram adeptos e sustentavam por inteiro a predestinação. Em sua obra, "Da Vontade Cativa", Lutero apresentou a doutrina tão enfaticamente e numa forma bastante extrema como pode ser encontrado entre as obras de qualquer dos teólogos reformados. Melâncton, nos seus primeiros escritos designou o princípio da Predestinação como o princípio fundamental do Cristianismo. Mais tarde ele modificou sua posição, contudo, e trouxe um tipo de "sinergia" na qual Deus e o homem supostamente cooperavam no processo de salvação. A posição assumida pela antiga Igreja Luterana foi modificada gradualmente. Mais tarde os Luteranos deixaram a doutrina por completo, condenaram-na em sua forma Calvinista; e passaram a adotar uma doutrina de graça e expiação universais, doutrina esta que desde então passou a ser a doutrina aceita da Igreja Luterana. Com relação a esta doutrina, a posição de Lutero na Igreja Luterana é similar à de Agostinho na Igreja Católica Romana, -- isto é, um herege de tão inquestionável autoridade, que é mais admirado do que censurado.

Em grande parte, Calvino construiu sobre os alicerces assentados por Lutero. Sua visão mais clara dos princípios básicos da Reforma capacitaram-no a trabalhá-los mais completamente e aplicá-los mais extensamente. E pode ainda ser apontado que Lutero enfatizou a salvação pela fé e que o seu princípio fundamental era mais ou menos subjetivo e antropológico, enquanto que Calvino enfatizou o princípio da soberania de Deus; e desenvolveu um princípio que era mais objetivo e teológico. O Luteranismo era mais a religião de um homem que após uma busca longa e dolorosa tinha encontrado a salvação; e que contentava-se simplesmente em satisfazer-se na luz da presença de Deus, enquanto que o Calvinismo, não contente em ficar por ali, pressionava em questionar como e por que Deus salvou o homem.

"As congregações Luteranas", diz Froude, "eram só como que meio emancipadas da superstição; e hesitavam em levar o combate a extremos; e meia medidas significavam meio encorajamento, convicções que eram meio convicções; e verdade com uma mistura de falsidade. Meias medidas, no entanto, não poderiam extinguir as fogueiras de Philip da Espanha, ou levantar homens na França ou na Escócia que enfrentassem os príncipes da casa de Lorraine. Os Reformadores requeriam uma posição mais afiada e definida, e um líder mais rígido; e aquele líder eles encontraram em João Calvino . . . . Para tempos difíceis é preciso homens duros; e intelectos os quais possam penetrar até as raízes onde verdade e mentiras encontram-se. É muito ruim para com os soldados da religião quando 'o abominável' está em campo. E a respeito de Calvino deve ser dito, tanto quanto o estado de conhecimento permitia, nenhum olho poderia haver enxergado mais precisamente os pontos frágeis do credo da Igreja, nem em toda a Europa houve Reformador tão resoluto para identificar e destruir o que era distintamente falso -- tão resoluto para conduzir o que era verdadeiro ao seu devido lutar; e fazer da verdade, até a sua última fibra, regra de vida prática." 1

Este é o testemunho do famoso historiador da Universidade de Oxford. Os escritos de Froude deixam claro que ele não morria de amores pelo Calvinismo; e na verdade ele é muitas vezes chamado de crítico do Calvinismo. Aquelas suas palavras simplesmente expressam suas conclusões imparciais, as de um grande catedrático que estuda o sistema e o homem; do qual o sistema carrega o nome, a partir de uma base vantajosa, de investigação e de aprendizado.

Em outra ocasião, Froude disse: "Os Calvinistas têm sido chamados de intolerantes. A intolerância de um inimigo que tenta matar-lhe, parece-me um estado de espírito perdoável . . . . Os Católicos escolheram acrescentar ao seu já incrível credo um novo artigo; que eles tinham o direito de enforcar e de queimar aqueles que diferissem deles; e nesse ponto os Calvinistas, com suas Bíblias nas mãos, apelaram ao Deus das batalhas. Eles tornaram-se mais poderosos, mais ferrenhos, -- e se você quiser, mas fanáticos. Era extremamente natural que eles o fossem. Eles descansaram, como os homens piedosos são aptos a fazê-lo, em sofrimento e pesar, no poder todo envolvente da Providência. Seu fardo tornou-se mais leve na medida em que eles consideravam que Deus havia assim determinado que eles devessem carregá-lo. Mas eles atraíram para as suas divisões quase que todo homem na Europa Ocidental que 'odiasse uma mentira'. Eles foram massacrados, mas ergueram-se novamente. Eles foram pisados e feridos, mas nenhum poder poderia dobrá-los ou dissolvê-los. Eles aborreceram, como nenhum grupo de homens jamais aborreceu, toda a falsidade, toda impureza, todo tipo de faltas morais, tanto quanto pudessem reconhecê-los. Qualquer temor quanto à prática do mal que exista hoje em dia na Inglaterra e na Escócia, é resultado das convicções gravadas pelos Calvinistas nos corações das pessoas. Embora eles tivessem falhado em destruir o Romanismo, embora o Romanismo sobreviva e possa ainda sobreviver por muito tempo como uma opinião, eles o desmascararam; eles o forçaram a abandonar aquele princípio odiável, que era o de que ter o direito de assassinar aqueles que lhe fossem antagônicos. Tampouco pode ser afirmado que por haver posto o Romanismo em posição de vergonha, desmascarando sua corrupção prática, que os Calvinistas tenham-no capacitado a reviver." 2

Na época da Reforma a Igreja Luterana não rompeu completamente com a Igreja Católica, como o fizeram as Igrejas Reformadas. Na verdade, alguns Luteranos afirmam orgulhosamente que o Luteranismo foi uma "Reforma Moderada". Enquanto todos os protestantes apelavam à Bíblia como autoridade final, a tendência no Luteranismo era manter tanto do sistema antigo, quanto não tivesse de ser jogado fora, enquanto que a tendência na Igreja Reformada era de excluir, de jogar fora tudo o que não tivesse de ser mantido. E quanto ao relacionamento que existia entre a Igreja e o Estado, os Luteranos contentavam-se em permitir grande influência dos príncipes na Igreja ou mesmo permitir-lhes que determinassem a religião dentro dos seus domínios -- uma tendência que levaria ao estabelecimento de uma Igreja do Estado -- enquanto que os Reformados logo vieram a demandar uma completa separação entre Estado e Igreja.

Como já dito, a Reforma foi essencialmente um reviver do Agostinianismo. As primeiras Igrejas Luteranas e Reformadas tinham os mesmos pontos de vista com relação ao Pecado Original, à Eleição, à Graça Eficaz, à Perseverança e etc. Isto, então, era a verdadeira Predestinação. "O princípio da Predestinação Absoluta", diz Hastie, "era o próprio calcanhar de Aquiles da jovem Reforma, pelo qual na Alemanha, não menos que em qualquer outro lugar, estrangulou as serpentes da superstição e da idolatria, e quando perdeu força na sua própria casa, continuou sendo a própria espinha e medula da fé na Igreja Reformada, e o poder que a conduziu vitoriosamente através de todas as lutas e contendas." 3 "É um fato que fala alto pelo Calvinismo", diz Rice, que a revolução mais gloriosa já registrada na história da Igreja e do mundo, desde os dias dos Apóstolos, foi propiciado pelas bênçãos de Deus sobre as doutrinas daquela revolução." 4 Desnecessário é dizer que, o Arminianismo como um sistema era desconhecido nos dias da Reforma; e que não até 1784, 260 anos mais tarde, foi adotado e proclamado por uma igreja organizada. Como no século quinto haviam existido dois sistemas adversários, conhecidos como Agostinianismo e Pelagianismo, mais tarde com o surgimento do Semi-Pelagianismo, então na Reforma haviam dois sistemas, o Protestantismo o Catolicismo Romano, com o posterior surgimento do Arminianismo, ou o que podemos chamar de Semi-Protestantismo. Em cada caso haviam dois sistemas fortemente oponentes, com o subsequente aparecimento de um sistema comprometido.


3. O CALVINISMO NA INGLATERRA.

Uma olhadela na história da Inglaterra de imediato nos mostra que foi o Calvinismo que fez o Protestantismo triunfante naquela terra. Muitos dos líderes Protestantes que fugiram para Genebra durante o reinado da Rainha Mary, mais tarde conquistaram altas posições na Igreja, no reinado da Rainha Elizabeth. Entre eles estavam os tradutores da versão de Genebra da Bíblia, a qual deve muito a Calvino e a Beza; e a que foi a versão Inglesa mais popular até meados do século dezessete, quando foi ultrapassada pela versão King James. A influência de Calvino é demonstrada nos Trina e Nove Artigos da Igreja da Inglaterra, especialmente no Artigo XVII, que apresenta a doutrina da Predestinação. Cunningham mostrou que todos os grandes teólogos da Igreja Estabelecida, durante os reinados de Henry VIII, Edward VI e Elizabeth eram adeptos por completo da Predestinação; e que o Arminianismo de Laud e dos seus sucessores era um desvio daquela posição original.

Se buscarmos pelos verdadeiros heróis da Inglaterra, os encontraremos naquele nobre grupo de Calvinistas Ingleses cuja insistência por uma forma mais pura de culto bem como uma vida mais pura, conquistaram para si o apelido de "Puritanos", a quem Macaulay refere-se como "talvez o mais notável grupo de homens os quais o mundo jamais produziu." "Que o povo Inglês tenha se tornado Protestante", diz Bancroft, "foi devido aos Puritanos". Já Smith nos diz: "A importância deste fato está além da imaginação. O Protestantismo Inglês, com sua Bíblia aberta, sua liberdade intelectual e espiritual, significaram o Protestantismo não somente das colônias Americanas, mas da raça viril e multiplicadora, a qual durante três séculos tem levado o idioma , a religião e as instituições Anglo-Saxônicas a todo o mundo. 5

Cronwell, o grande líder Calvinista e membro da Câmara dos Comuns, plantou-se na sólida rocha do Calvinismo e chamou a si soldados que haviam se plantado naquela mesma rocha. O resultado foi um exército o qual, por pureza e heroísmo, sobrepujou qualquer coisa que o mundo jamais tivesse visto. "Nunca encontraram", diz Macaulay, "fosse nas Ilhas Britânicas ou no Continente, um inimigo que pudesse enfrentá-los. Na Inglaterra, na Escócia, na Irlanda, na Bélgica, os guerreiros Puritanos, muitas vezes cercados por dificuldades, algumas vezes batalhando contra grandes revezes, não somente nunca deixaram de conquistar, como também nunca deixaram de destruir e quebrar em partes quaisquer forças que se lhes opusessem. Ao final, passaram a referir-se ao dia de batalha como o dia de triunfo certo, e marchavam contra os mais renomados batalhões da Europa com destemida confiança. Mesmo os Cavaleiros banidos sentiam uma emoção de orgulho nacional quando viam uma brigada de seus compatriotas, em número muito menor que o inimigo e abandonados pelos amigos, avançar à sua frente, em linha direta contra a mais valente cavalaria da Espanha; e forçar caminho até a conquista de uma colina que era tida como inexpugnável pelos mais hábeis dos marechais da França." E novamente, "O que mais distinguia o exército de Cromwell dos outros exércitos, era a moralidade austera e o temor de Deus que existia em todas os níveis. É reconhecido pelos Roialistas mais zelosos que, naquele campo singular, não se ouvia nenhum impropério ou se presenciava nenhuma cena de aposta ou de embriaguez; e que, durante o longo domínio do exército, as propriedades dos cidadãos pacíficos e a honra das mulheres eram tidos como sagrados. Nenhuma serva reclamou de qualquer tipo de galanteio rude por parte dos 'casacos vermelhos'. Nem sequer uma grama de prata foi saqueada das lojas ou das joalherias." 6

O Prof. John Fiske, considerado um dos dois maiores historiadores Americanos, diz, "Não é demais dizer que no século dezessete todo o futuro político da humanidade foi posto em jogo sobre as questões levantadas na Inglaterra. Não tivesse sido pelos Puritanos, a liberdade política provavelmente teria desaparecido do mundo. Se houveram jamais homens dispostos a darem suas vidas pela causa de toda a humanidade, foram os Puritanos, cujas palavras de ordem eram textos da Bíblia Sagrada, cujos gritos de guerra eram hinos de louvor." 7

Quando os mártires Protestantes morriam nos vales de Piedmont, e o autocrata papal sentava-se no seu trono em luxúria, ajeitando suas vestes manchadas de sangue, foi o próprio Cromwell, o Puritano, suportado por um conselho e uma nação da mesma persuasão, quem escreveu demandando o fim das perseguições.

Em três diferentes ocasiões foi oferecido a Cromwell, e insistiu-se que aceitasse, a Coroa da Inglaterra, mas a cada vez ele recusou. Vemos que doutrinariamente os Puritanos eram os descendentes lineares e literais de João Calvino; e que somente eles mantiveram viva a preciosa centelha da liberdade dos Ingleses. À vista destes fatos, ninguém pode negar a justiça da conclusão de Fiske, que "Seria difícil dever mais do que a humanidade deve a João Calvino."

Em seu esplêndido livro "Calvinismo na História", McFetridge diz, "Se perguntarmos novamente, Quem trouxe a grande propiciação à liberdade Inglesa? a nos será dada pela história, O Ilustre Calvinista, William, Príncipe de Orange, quem, como diz Macaulay, encontrou na lógica forte e irrefutável da escola de Genebra algo que satisfez sua têmpera e seu intelecto; a chave da religião da doutrina da Predestinação; e quem, com sua visão aguçada e lógica, declarou que se abandonasse a doutrina da Predestinação, ele deveria também deixar totalmente de crer em uma Providência suprema, e deveria tornar-se um Epicureano. E ele estava certo, pois a Predestinação e uma Providência suprema são uma só e a mesma coisa. Se aceitamos uma, devemos - consistentemente - aceitar a outra," (p. 52).


4. CALVINISMO NA ESCÓCIA.

A melhor forma de descobrir os frutos práticos de um sistema de religião é examinar um povo ou uma nação onde, por gerações, tal sistema tenha mantido governo incontestado. Ao fazer tal teste com o Catolicismo Romano, voltamo-nos para alguns países como Espanha, Itália, Colômbia ou México. Lá, quer na vida política ou na religiosa das pessoas, vemos os efeitos do sistema. Aplicando o mesmo teste com relação ao Calvinismo, podemos referirmo-nos a um país no qual o Calvinismo foi durante muito tempo praticamente a única religião; e tal país é a Escócia. McFetridge nos diz que antes que o Calvinismo chegasse à Escócia, "trevas espessas cobriam a nação e pairava sobre os sentidos e faculdades do povo." 8 "Quando o Calvinismo alcançou o povo Escocês", diz Smith, "eles eram vassalos da igreja Romana, dominados por sacerdotes, ignorantes, miseráveis, degradados em corpo, mente e moral. Buckle os descreve como 'imundos tanto pessoalmente como em suas casas', pobres e miseráveis', 'excessivamente ignorantes e supersticiosos em excesso', -- 'com a superstição indelevelmente marcada nos seus caracteres'. Maravilhosa foi a transformação na Escócia, quando as grandes doutrinas, aprendidas por Knox da Bíblia e mais profundamente em Genebra, enquanto sentado aos pés de Calvino; iluminaram as mentes dos Escoceses. Foi como se o sol nascesse repentinamente, à meia noite . . . Knox fez do Calvinismo a religião da Escócia; e o Calvinismo fez da Escócia o padrão moral para o mundo. Trata-se de um fato certamente significante, que no país onde o Calvinismo é mais forte, também seja a nação com a criminalidade mais baixa; que de todos os povos do mundo hoje em dia, aquela nação que é confessadamente a de padrão moral mais elevado seja também a mais completamente Calvinista; que na terra onde o Calvinismo tem tido a supremacia no governo e na influência, a moralidade individual e nacional tenha alcançado seu nível mais elevado." 9 Já Carlyle diz, "O que Knox fez por seu país pode realmente ser chamado de ressurreição dos mortos." "John Knox", diz Froude, "foi o homem sem o qual a Escócia, como o mundo moderno a conhece, não existiria."

Num sentido bem real, a Igreja Presbiteriana da Escócia é filha da Igreja Reformada de Genebra. A Reforma na Escócia, embora tendo ocorrido algum tempo mais tarde, foi em muito mais consistente e radical que a na Inglaterra; e resultou no estabelecimento de um Presbiterianismo Calvinista no qual somente Cristo é reconhecido como o cabeça da Igreja.

Trata-se de tarefa fácil, é claro, identificar aquele homem que foi o principal instrumento, nas mãos da Providência, na reforma da Escócia. Aquele homem era João Knox. Foi ele quem plantou as sementes da liberdade civil e religiosa e quem revolucionou a sociedade. A ele o povo Escocês devem a sua existência nacional. "Knox foi o maior dentre os Escoceses, como Lutero foi o maior dos Alemães", disse Philip Schaff.

"O herói da Reforma Escocesa", diz Schaff, "embora quatro anos mais velho que Calvino, sentou-se humildemente aos seus pés e tornou-se mais Calvinista que o próprio Calvino. John Knox passou os cinco anos do seu exílio (entre 1554 até 1559), durante o reinado de 'Bloody Mary' (*), principalmente em Genebra, onde encontrou 'a mais perfeita escola de Cristo desde os dias dos apóstolos'. Depois daquele exemplo ele conduziu o povo Escocês, com energia e coragem sem iguais, de um semi barbarismo medieval até a luz da civilização moderna, e conquistou nome que, junto aos de Lutero, de Zuínglio e de Calvino, é o maior na história da Reforma Protestante." 10

[(*) (Mary I, filha de Henrique VIII e Catarina de Aragão, casada com Philip II da Espanha. Reinou na Grã Bretanha entre 1553 até 1558. Foi responsável por repelir a legislação protestante de seu irmão, Edward VI e atirou a Inglaterra numa fase de severa perseguição religiosa. Inteiramente comprometida com o intuito de restabelecer o Catolicismo, foi responsável pela morte de cerca de 300 pessoas, incluindo o antigo arcebispo de Canterbury e muitos dos mais proeminentes membros da sociedade; queimados na fogueira sob a acusação de heresia, o que lhe rendeu o apelido de 'Bloody Mary' ou 'Mary Sangrenta', literalmente). N. T.]

"Nenhum vulto maior que Knox", diz Froude, "pode ser encontrado em toda a história da Reforma nesta ilha . . . . O tempo é chegado, quando a história da Inglaterra pode fazer justiça àquele pelo qual a Reforma ocorreu entre nós; pois o espírito criado por Knox salvou a Escócia; e se a Escócia tivesse sido Católica novamente, nem a visão dos ministros da Rainha Elisabeth, ou os ensinamentos dos seus bispos, nem seus próprios subterfúgios, teriam preservado a Inglaterra de uma revolução. Ele foi a voz que ensinou o camponês dos 'Lothians" (N.T.: Regiões ao redor da cidade de Edinburgh, que eram, na época da Reforma, constituíam-se de muitos povoados pequenos, porém importantes centros de produção rural) que ele era um homem livre, à vista de Deus igual ao nobre mais orgulhoso ou ao prelado que pisoteara os seus antepassados. Ele o antagonista a quem a Rainha Mary Stuart não podia enfraquecer (N.T.: Mary Stuart, nascida em 08/12/1542, declarada Rainha da Escócia aos 6 dias de idade. Acusada de traição e assassinato, foi decapitada em 08/02/1587); e nem seus inimigos enganar; foi ele quem levantou a gente humildo do seu país e transformou-os num povo determinado e de forte caráter, que podia ser rude, de estreita visão, supersticioso e fanático, mas a quem - não obstante - nenhum homem, nem reis, nem nobres ou sacerdotes podiam forçar a novamente submeterem-se à tirania. E a sua recompensa foi a ingratidão daqueles que mais deveriam haver honrado a sua memória." 11

A teologia Escocesa reformada inicial era baseada no princípio da predestinação. Knox recebeu sua teologia diretamente de Calvino em Genebra; e sua obra teológica principal foi o tratado sobre a Predestinação, tratado forte, afiado e resolutamente polêmico contra pontos de vista desencontrados que começavam a espalhar-se na Inglaterra e em outros locais. Durante os séculos dezessete e dezoito, temas como predestinação, eleição, rejeição, a extensão e o valor da expiação, a perseverança dos santos, eram de absorvente interesse para a classe social humilde na Escócia. Daquelas terras as doutrinas espalharam-se em direção ao sul até partes da Inglaterra e Irlanda e através do Atlântico, para o oeste. Num sentido muito real, a Escócia pode ser chamada de "A Nação Mãe do Presbiterianismo moderno."


5. CALVINISMO NA FRANÇA.

A França também, naquela época, era toda calorosa para com o espírito livre, irrequieto e progressivo do Calvinismo. "Na França os Calvinistas eram chamados de Huguenotes. O mundo conhece o caráter dos Huguenotes. Seu heroísmo e pureza moral, seja quando perseguidos em sua pátria ou desterrados em exílio, eram admirados por todos, aliados ou inimigos." 12 "A sua história", consta na Enciclopédia Britânica, "é uma maravilha notável, ilustrando o resistente poder de uma forte convicção religiosa." Os Huguenotes formavam a classe de artesãos industriais da França; e ser "tão honesto quanto um Huguenote" tornou-se provérbio, denotando seu mais alto nível de integridade.

Num domingo, 24 de Agosto de 1572, dia de São Bartolomeu, muitos Protestantes foram perfidamente assassinados em Paris, e nos dias seguintes as cenas chocantes repetiram-se em outras partes da França. O número total dos que perderam suas vidas no massacre de São Bartolomeu foi estimado com variações, desde 10.000 até 50.000 pessoas. Schaff estimou o total em 30.000. Estas perseguições furiosas fizeram com que centenas de milhares de Protestantes Franceses fugissem para a Holanda, Alemanha, Inglaterra e América. A perda para a França foi irreparável. O historiador Inglês Macaulay, escreve o seguinte, quanto àqueles que estabeleceram-se na Inglaterra: "Os mais humildes dentre os refugiados eram moral e intelectualmente acima da média do povo comum, de qualquer reino na Europa." O grande historiador Lecky, ele mesmo um racionalista de sangue frio, escreveu: "A destruição dos Huguenotes pela revogação do Edito de Nantes foi a destruição do elemento mais sólido, mais modesto, mais virtuoso e geralmente mais iluminado da nação Francesa; e abriu caminho para a degradação inevitável do caráter nacional, e foi removida a última séria muralha que poderia proteger, que poderia ter quebrado a força da corrente do ceticismo e do vício, que, um século mais tarde, prostraram ao chão, em merecida ruína a ambos, o altar e o trono." 13

"Se você leu a sua história", diz Warburton, "você deve saber o quão cruéis e injustas foram as perseguições instigadas contra eles. O melhor sangue da França inundou o campo de batalha, o mais brilhante gênio da França sofreu a negligência e a fome na prisão; e os caracteres mais nobres que a França jamais possuiu foram caçados como feras selvagens na floresta, e abatidos sem piedade." E novamente, "Em todos aspectos eles eram imensuravelmente superiores a todo o restante dos seus compatriotas. A estrita sobriedade de suas vidas, a pureza dos seus atos morais, seus hábitos diligentes; e sua completa separação da sensualidade tola que corrompeu por completo a vida nacional da França naquele período, foram sempre maneiras efetivas de trair os princípios que eles sustentavam, e foram tão considerados pelos seus inimigos." 14

A orgia e dissipação dos soberanos descendeu através da aristocracia até o povo comum; a religião tornou-se uma massa de corrupção, consistente somente com a sua própria crueldade; os monastérios passaram a ser criadouros de iniqüidade; o celibato provou ser uma fonte revoltante de libertinagem e impureza; a imoralidade, a licenciosidade, o despotismo e a extorsão, tanto no Estado como na Igreja eram indescritíveis; o perdão dos pecados podia ser comprado por dinheiro; e um vergonhoso tráfico de indulgências ocorria sob a sanção do papa; alguns dos papas eram verdadeiros monstros de iniqüidade; a ignorância era terrível; a educação estava confinada ao clero e à nobreza; e até muitos dos sacerdotes eram incapazes de ler ou de escrever; e a sociedade em geral havia ruído em pedaços.

É uma descrição parcial, nublada, mas não exagerada. É verdadeira em todo sentido, e necessita somente ser complementada pelo lado mais claro; ou seja, de que muitos Católicos Romanos honestos trabalhavam diligentemente pela reforma dentro da Igreja. Esta, contudo, estava numa condição 'irreformável'. Qualquer mudança, caso viesse a acontecer, teria de vir de fora. As alternativas eram que, ou não haveria qualquer reforma, ou esta seria em oposição a Roma.

Mas, gradualmente as idéias Protestantes foram gradualmente se infiltrando na França, vindas da Alemanha. Calvino iniciou sua obra em Paris e logo foi reconhecido na França como um dos líderes do novo movimento. O seu zelo levantou a oposição às autoridades da Igreja e foi preciso que ele fugisse, para preservar sua vida. Em embora Calvino nunca retornasse à França, depois de haver se estabelecido em Genebra, ele continuou sendo o líder da Reforma Francesa e era consultado a cada passo. Ele deu aos Huguenotes o seu credo e forma de governo. Durante o período seguinte, conforme o testemunho unânime da história, foi o sistema de fé que chamamos de Calvinismo a inspiração dos Protestantes Franceses em sua luta com o papado e seus partidários na realeza.

O que os Puritanos eram na Inglaterra, os "Covenanters" (os 'Pactuantes') eram na Escócia; e os Huguenotes, na França. A prova mais notável do poder do Calvinismo na formação do caráter, é que ele desenvolveu o mesmo tipo de homens em cada um destes vários países.

O Calvinismo espalhou-se tão rapidamente por toda a França, que o historiador Fisher, no seu livro História da Reforma, escreveu que em 1561, os Calvinistas somavam a quarta parte de toda a população. Já McFetridge coloca um número ainda maior: "Em menos de meio século", diz ele, "esse sistema de crença considerado tão rude e desagradável, penetrou em cada região do país; e ganhou para suas fileiras quase que a metade da população e quase que todas mentes brilhantes da nação. Os que a ele aderiram se tornaram tão numerosos e poderosos que por um momento pareceu como se a nação inteira fosse aderir aos seus pontos de vista." 15 Smiles, no seu livro "Huguenotes na França", escreve: "É curioso refletir sobre a influência que a religião de Calvino, ele próprio um Francês, poderia ter exercido na história da França tanto no caráter individual do cidadão Francês, tivesse o balanço das forças levado a nação inteira para o Protestantismo, como por muito pouco aconteceu, próximo ao final do século dezesseis," (p. 100). Certamente que a história da nação teria sido muito diferente de como o foi.


6. CALVINISMO NA HOLANDA.

Na luta que libertou os Países Baixos do poder dominador do Papado e do jugo cruel da Espanha, temos outro capítulo glorioso da história do Calvinismo e da humanidade. As torturas da Inquisição ali também foram aplicadas, como o foram em alguns outros lugares. O Duque de Alva gabava-se de haver entregue 18.600 hereges para execução, no curto espaço de tempo de cinco anos.

"O patíbulo", diz Motley, "tinha as suas vítimas diárias, mas não converteu um só . . . . Houveram homens que ousaram e sofreram tanto quanto é possível aos homens sofrerem neste mundo; e pela causa mais nobre que pode inspirar a humanidade." Ele descreve a nós "o heroísmo com o qual os homens davam-se as mãos e caminhavam fogueira adentro, ou com o qual as mulheres entoavam hinos de vitória enquanto o coveiro jogava terra sobre seus rostos vivos." E em outra passagem ele diz: "O número de Holandeses que foram queimados, estrangulados, decapitados ou enterrados vivos, em obediência aos editos de Charles V, e pela ofensa de ler as Escrituras Sagradas, de olhar com desaprovação à uma imagem esculpida, ou ridicularizar a suposta presença real do corpo e do sangue de Cristo num biscoito; foi informado pelas autoridades distintas ser tão alto quanto cem mil; e nunca foi informado ser menor que cinqüenta mil." 16 Durante aquela batalha memorável de oito anos, mais Protestantes foram mortos pelos Espanhóis por causa de sua crença consciente; que Cristãos foram martirizados por imperadores Romanos nos primeiros séculos. A história certamente coroa o Calvinismo na Holanda como o credo dos mártires, dos santos e dos heróis.

Durante quase três gerações a Espanha, a mais forte nação na Europa àquela época, batalhou para excluir o Protestantismo e a liberdade política nos Países Baixos Calvinistas, mas falhou. Porque eles buscavam louvar a Deus de acordo com os ditames das suas consciências e não sob os vexadores grilhões de um clero corrupto seu país havia sido invadido; e o povo sujeitado às torturas mais cruéis que os Espanhóis podiam inventar. E se perguntado a quem o resgate havia de ser creditado, a resposta é, ao Calvinista Príncipe de Orange, conhecido na história como Guilherme o Silencioso (N.T.: "William The Silent" ou William de Orange à William I - 1533 / 1584, estadista Holandês, principal fundador da Independência da Holanda), junto com aqueles que partilhavam do mesmo credo. Diz o Dr. Abraham Kuyper, "Se o poder de Satã naquela época não houvesse sido quebrado pelo heroísmo do espírito Calvinista, a história da Holanda, da Europa e do mundo teria sido tão dolorosa, tão triste e tão negra como agora, graças ao Calvinismo, é brilhante e inspiradora." 17

Se o espírito do Calvinismo não tivesse surgido na Europa Ocidental em seguida à ocorrência da Reforma, o espírito do ateísmo teria ganho o dia na Inglaterra, na Escócia e na Holanda. O Protestantismo nesses países não poderia ter se mantido; e, através das medidas comprometedoras de um Protestantismo Romanizado, a Alemanha teria sido com toda probabilidade trazida novamente sob a influência da Igreja Católica Romana. Tivesse o Protestantismo falhado em qualquer um daqueles países, é muito provável que o resultado tivesse sido fatal também nos outros, tão intimamente estavam as suas sortes unidas umas às outras. Num sentido bem real, o destino futuro das nações dependia do resultado daquela batalha nos Países Baixos. Tivesse a Espanha saído vitoriosa na Holanda, é provável que a Igreja Católica se fortalecesse tanto que subjugasse o Protestantismo também na Inglaterra. E, mesmo como as coisas aconteceram, pareceu por um tempo como se a Inglaterra retornasse ao Romanismo. Nesse caso, o desenvolvimento da América seria automaticamente evitado e com toda probabilidade todo o continente Americano permaneceria sob o controle da Espanha.

Lembremo-nos ainda que praticamente todos os mártires naqueles vários países eram Calvinistas, os Luteranos e os Arminianos sendo somente um punhado, em comparação. Como o Professor Fruin aponta com justiça, "Na Suíça, na França, na Holanda, na Escócia e na Inglaterra, e onde quer que o Protestantismo tenha se estabelecido ao fio da espada, foi o Calvinismo que ganhou o dia." No entanto, o ponto a ser explicado é que é verdade que os Calvinistas foram os únicos combatentes Protestantes.

Há ainda o outro serviço prestado pela a Holanda, do qual não podemos nos esquivar. Os Peregrinos, depois de haverem sido expulsos da Inglaterra por perseguições religiosas e antes da sua vinda para a América, foram para a Holanda e lá entraram em contato com uma vida religiosa, que do ponto de vista Calvinista foi benéfica ao extremo. Seus líderes mais importantes foram Clyfton, Robinson e Brewster; três homens da Universidade de Cambridge, que formavam um trio tão nobre e heróico quanto se pode encontrar na história de qualquer nação. Eles eram Calvinistas fervorosos que sustentavam todos os pontos de vista fundamentais propostos pela Reforma de Genebra. O historiador Americano Bancroft está correto quando simplesmente os chama de 'Peregrinos-pais', "homens da mesma fé que Calvino."

J. C. Monsma, no seu livro "O Que O Calvinismo Fez Pela América", nos dá o seguinte sumário da vida dos peregrinos na Holanda: "Quando os Peregrinos deixaram Amsterdã com direção a Leyden, o Rev. Clyfton, seu líder, decidiu permanecer onde estava; e então o Rev. John Robinson, primeiro assistente de Clyfton foi assim eleito líder, ou pastor, pelo povo. Robinson era um Calvinista convencido e opunha-se aos ensinamentos de Armínio sempre quando surgia uma oportunidade. "Temos o inquestionável testemunho de Edward Winslow, de que Polyander, Festus Homilus e outros teólogos Holandeses solicitaram a Robinson, na época quando o Arminianismo ganhava terreno rapidamente na Holanda, que tomasse parte nas disputas com Episcopius, o novo líder dos Arminianos, disputas estas que diariamente aconteciam na academia de Leyden. Robinson aquiesceu e aceitou seu pedido e rapidamente foi conhecido como um dos maiores teólogos de Gomarian. Em 1624 o pastor Peregrino escreveu um tratado excepcional, intitulado "Uma Defesa da Doutrina Proposta Pelo Sínodo de Dort, etc." Como o Sínodo de Dordrecht, de fama internacional, foi caracterizado por um Calvinismo estrito em todas as suas decisões, nada mais precisa ser dito quanto às tendências religiosas de Robinson.

"Os Peregrinos estavam perfeitamente unidos com as igrejas Reformadas (Calvinistas) na Holanda e demais localidades. Na sua Apologia, publicada em 1619, um ano antes que os Peregrinos deixassem a Holanda, Robinson escreveu de maneira muito solene, 'Nós professamos perante Deus e perante os homens que tal é o nosso acordo, no caso de religião, com as Igrejas Holandesas Reformadas, que estamos prontos a subscrever a todos e cada artigo de fé na mesma Igreja, como estiverem apresentados na Harmonia das Confissões de Fé, publicadas naquele nome.' " (p. 72, 73)


7. CALVINISMO NA AMÉRICA

Quando passamos a estudar a influência do Calvinismo como uma força política na história dos Estados Unidos da América, deparamo-nos com uma das páginas mais brilhantes de toda a história Calvinista. O Calvinismo chegou à América no navio "Mayflower"; e Bancroft, o maior dos historiadores Americanos, proclama os Peregrinos Pais "Calvinistas na sua fé de acordo com o sistema mais reto." 18 John Endicott, o primeiro governador da Colônia da Baía de Massachusetts; John Winthrop, o segundo governador daquela Colônia; Thomas Hooker, o fundador de Connecticut; John Davenport, o fundador da Colônia de New Haven; e Roger Williams, o fundador da Colônia de Rhode Island, eram todos Calvinistas. William Pen era discípulo dos Huguenotes. Estima-se que dos três milhões de Americanos à época da Revolução Americana, novecentos mil deles eram de origem Escocesa ou Escocesa-Irlandesa, seiscentos mil eram Ingleses Puritanos; e quatrocentos mil eram Alemães ou Holandeses Reformados. Adicionalmente a este fato, os Episcopais tinham uma confissão Calvinista nos seus 'Trinta e Nove Artigos'; e muitos Franceses Huguenotes também tinham vindo para este mundo setentrional. Assim, vemos que aproximadamente dois terços da população colonial havia sido treinada na escola de Calvino. Nunca na história do mundo uma nação havia sido fundada por pessoas tais como estas. Ademais, esta gente veio para a América não primariamente em busca de ganhos ou vantagens comerciais, mas por causa de profundas convicções religiosas. Parece que as perseguições religiosas em vários países Europeus tinham sido providencialmente usadas para selecionar os mais instruídos e mais progressivos, para a colonização da América. Qualquer que seja a proporção, é geralmente admitido que os Ingleses, Escoceses, Alemães e Holandeses foram os povos mais dominantes na Europa. Lembre-se que os Puritanos, que formavam a grande maioria de colonizadores em New England, trouxeram consigo um Protestantismo Calvinista, que eram inteiramente devotados às doutrinas dos grandes Reformadores, que tinham aversão ao formalismo e à opressão na Igreja ou no Estado; e que naquela colônia o Calvinismo permaneceu como a teologia governante durante todo o período colonial.

Com este pano de fundo, não devemos nos surpreender ao ver que os Presbiterianos tomaram parte muito proeminente na Revolução Americana. Nosso historiador Bancroft diz: "A Revolução de 1776, tanto quanto foi afetada pela religião, foi uma medida Presbiteriana. Foi a conseqüência natural dos princípios legados pelo Presbiterianismo do Mundo Antigo aos seus filhos, os Ingleses Puritanos, os Escoceses Pactuantes, os Franceses Huguenotes, os Holandeses Calvinistas, e os Presbiterianos do Ulster." Tão intensos, universais e agressivos eram os Presbiterianos no seu zelo pela liberdade que falava-se da guerra na Inglaterra, como "A Rebelião Presbiteriana". Um colono, ardente partidário do Rei George III, escreveu a parentes na Inglaterra: "Eu ponho toda a culpa por estes procedimentos extraordinários nos Presbiterianos. Eles têm sido os chefes e os instrumentos principais de todos estes atos inflamatórios. Eles sempre agem e sempre agirão contra o governo, a partir daquele espírito incansável, turbulento e anti-monárquico o qual os tem distinguido em qualquer lugar." 19 Quando as novas "destes extraordinários procedimentos" alcançaram a Inglaterra, o Primeiro Ministro Horace Walpole discursou no Parlamento, "A prima América fugiu com um pastor Presbiteriano" (John Witherspoon, presidente de Princeton, signatário da Declaração da Independência).

A história é eloqüente ao declarar que a democracia Americana nasceu do Cristianismo; e que tal Cristianismo era o Calvinismo. O grande conflito Revolucionário que resultou na formação da nação Americana, foi levado a cabo principalmente por Calvinistas, muitos dos quais haviam sido treinados na rígida Faculdade Presbiteriana em Princeton, e que esta nação é o seu presente a todos os povos amantes da liberdade.

J. R. Sizoo nos diz: "Quando Cornwallis foi acossado à última batalha e rendição em Yorktown, todos os coronéis do Exército Colonial eram à uma anciãos Presbiterianos. Mais da metade de todos os soldados e oficiais do Exército Americano durante a Revolução eram Presbiterianos." 20

O testemunho de Emilio Castelar, o famoso estadista Espanhol, orador e catedrático, é valioso e interessante. Castelar havia sido professor de Filosofia na Universidade de Madri antes que enveredasse pela política; e foi feito presidente da república estabelecida pelos Liberais em 1873. Como Católico Romano, ele detestava Calvino e o Calvinismo. Diz ele: "Foi necessário para o movimento republicano que devesse existir um moralismo mais austera que o de Lutero, o moralismo de Calvino; e uma Igreja mais democrática que a Alemã, a Igreja de Genebra. A democracia Anglo-Saxônica tem, por sua ascendência, um livro de uma sociedade primitiva -- a Bíblia. É o produto de uma teologia severa, aprendida pelos poucos Cristãos fugitivos das obscuras cidades da Holanda e da Suíça, por onde ainda vagueia a sombra melancólica de Calvino . . . E ela permanece serenamente em sua magnificência, formando a porção mais iluminada e mais moral da raça humana." 21

Diz Motley: "Na Inglaterra, as sementes de liberdade, embaladas no Calvinismo e acumuladas através de muitos anos de tentativas, seguiram afinal, através de mar e terra; destinadas a propiciar as maiores ceifas de liberdade moderada para grandes comunidades que ainda não nascidas. 22 "Os Calvinistas fundaram as comunidades da Inglaterra, da Holanda e da América." E de novo, "Aos Calvinistas mais que a qualquer outra classe de homens, são devidas as liberdades políticas da Inglaterra, da Holanda e da América." 23

O testemunho de outro historiador famoso, o Francês Taine, que não professava nenhuma fé religiosa, é digno de consideração. Com relação aos Calvinistas ele disse: "Estes homens são verdadeiros heróis da Inglaterra. Eles fundaram a Inglaterra, apesar da corrupção dos Stuarts, pelo exercício da tarefa, pela prática da justiça, pelo trabalho obstinado, pela vindicação de direito, pela resistência à opressão , pela conquista da liberdade, pela repressão do vício. Eles fundaram a Escócia; eles fundaram os Estados Unidos; e hoje eles, através dos seus descendentes, estão fundando a Austrália e colonizando o mundo." 24

No seu livro "O Credo dos Presbiterianos", E. W. Smith questiona com relação aos colonos Americanos, "Onde eles aprenderam aqueles princípios imortais dos direitos do homem, da liberdade humana, da igualdade e do auto-governo, nos quais eles basearam a sua República; e os quais formam hoje a glória distintiva da nossa civilização americana ? Na escola de Calvino eles os aprenderam. Lá o mundo moderno os aprendeu. Assim a história ensina," (p.121).

Passaremos agora a considerar a influência que a Igreja Presbiteriana, como Igreja, exerceu na formação da República. "A Igreja Presbiteriana", diz o Dr. W. H. Roberts num discurso perante a Assembléia Geral, "foi por três quartos de um século, a única representante neste continente, de um governo republicano como agora organizado na nação." E ele então continua: "Desde 1706 até o início da luta revolucionária o único corpo existente que resistiu pela nossa presente organização política foi o Sínodo Geral da Igreja Presbiteriana Americana. Ela sozinha exerceu a autoridade entre as organizações eclesiásticas e político coloniais, derivada dos próprios colonos, sobre os corpos de Americanos espalhados em todas as colônias, desde Nova Inglaterra até a Geórgia. As colônias nos séculos dezessete e dezoito, deve ser lembrado, enquanto dependiam todas da Grã Bretanha, eram independentes umas das outras. Uma organização tal como o Congresso Continental não existiu até 1774. A condição religiosa do país era similar à condição política. As Igrejas Congregacionais da Nova Inglaterra não tinham nenhuma conexão entre si; e tinham poder algum, fora o do governo civil. A Igreja Episcopal não era organizada nas colônias, dependia da ajuda e de um ministro da Igreja Estabelecida da Inglaterra; e era cheia com uma lealdade intensa para com a monarquia Britânica. A Igreja Reformada Holandesa não se tornou uma organização independente antes de 1771; e a Igreja Reformada Alemã não alcançou tal condição antes de 1793. As Igrejas Batistas eram organizações separadas, os Metodistas eram praticamente desconhecidos; e os Quakers não eram combatentes."

Os delegados reuniam-se anualmente no Sínodo Geral; e como o Dr. Roberts nos diz, a Igreja tornou-se "um elo de união e de correspondência entre grandes elementos na população das colônias divididas". "É de se admirar", ele continua, "que sob uma influência incentivadora, os sentimentos de verdadeira liberdade, tanto quanto as doutrinas de um evangelho sólido, fossem pregados em todo o território desde Long Island até a Carolina do Sul; e que acima de tudo, um sentimento de unidade entre as Colônias começasse vagarosa mas certamente a estabelecer-se? Não se pode por muita ênfase, com relação à origem da nação, na influência daquela república eclesiástica, a qual desde 1706 e até 1774 era a única representante neste continente, de instituições republicanas federais inteiramente desenvolvidas. Os Estados Unidos da América devem muito àquelas Repúblicas Americanas mas antigas, a Igreja Presbiteriana." 25

É claro que não se alega que a Igreja Presbiteriana fosse a única fonte da qual verteram os princípios sobre os quais a república está fundamentada, mas é reclamado que os princípios fundados nos Padrões de Westminster foram a base principal para a república, e que "A Igreja Presbiteriana ensinou, praticou e manteve por inteiro, primeiro nesta terra, aquela forma de governo de acordo com a qual a República foi organizada." (Roberts).

A abertura da luta Revolucionária encontrou as igrejas e os ministros Presbiterianos solidamente alinhados do lado dos colonos; e Bancroft credita-lhes haverem feito o primeiro movimento importante em direção à independência. 26 O Sínodo que reuniu-se na Filadélfia em 1775 foi o primeiro organismo religioso a declarar aberta e publicamente por uma separação da Inglaterra. Aquele organismo urgiu o povo sob a sua jurisdição a não deixar de fazer nada que pudesse promover o objetivo em vista, e conclamou-os todos a orar pelo Congresso que estava, então, em sessão.

A Igreja Episcopal uniu-se então à Igreja da Inglaterra; e opôs-se à Revolução. Um número considerável de cidadãos dentro daquela Igreja, no entanto, labutaram com afinco pela independência e deram toda a sua riqueza e influência para assegurá-la. Deve ser lembrado também que o Comandante em Chefe dos Exércitos Americanos, "o pai do nosso país", era um membro daquela comunidade. O próprio Washington comparecia; e ordenava a todos os seus homens que comparecessem aos cultos celebrados pelos seus capelães, que eram clérigos de várias igrejas. Ele doou quarenta mil dólares para o estabelecimento de uma Faculdade Presbiteriana no seu estado natal, o qual levou o seu nome em honra à doação, tornando-se a Faculdade Washington.

N. S. McFetridge jogou luz sobre outro desenvolvimento maior do Período Revolucionário. De modo que permaneça acurado e completo, temos o privilégio de repetir suas palavras, de maneira tanto quanto extensa. "Um outro fator importante no movimento independente", diz ele, "foi o que é conhecido como a 'Declaração de Mecklenburg', proclamada pelos Presbiterianos Escoceses-Irlandeses da Carolina do Norte em 20 de maio de 1775, mais de um ano antes da Declaração (da Independência) do Congresso. Aquilo foi o cumprimento novo, de coração, dos Escoceses e Irlandeses aos seus irmãos combatentes no Norte, e seu desafio maior ao poder da Inglaterra. Eles haviam observado atentamente o progresso da luta entre as colônias e a Coroa; e quando eles ouviram sobre o discurso proferido pelo Congresso ao Rei, declarando que as colônias encontravam-se realmente em rebelião, eles consideraram chegada a hora de os patriotas falarem. De conformidade, eles convocaram em reunião um corpo de representantes em Charlotte, Carolina do Norte, o qual por resolução unânime declarou o povo livre e independente, e que todas as leis e comissionamentos do rei tornavam-se a partir de então nulos e cancelados. Na sua Declaração constavam resoluções tais como estas: 'A partir de agora nós dissolvemos os laços políticos que nos conectavam à pátria-mãe; e a partir de agora isentamo-nos de toda a obrigação de lealdade para com a coroa Britânica' ..... 'Nós doravante nos declaramos uma nação livre e independente; somos, e de direito devemos ser, uma associação soberana e auto-governante, sob o controle de poder algum a não ser o do nosso Deus e o do governo geral do Congresso; à manutenção do qual nós solenemente confiamos uns aos outros as nossas vidas e a nossa mútua cooperação, nossos bens e a nossa honra mais sagrada.' ..... Aquela assembléia foi composta de vinte e sete Calvinistas comprometidos, apenas um terço dos quais eram anciãos na ativa na Igreja Presbiteriana, incluindo o presidente e o secretário; e um era um clérigo Presbiteriano. O homem que redigiu aquele documento importante e famoso foi o secretário, Ephraim Brevard, um ancião na ativa na Igreja Presbiteriana e graduado na Faculdade Princeton. O historiador Bancroft diz que, 'com efeito, uma declaração tão completa quanto um sistema de governo.' (História dos EUA, volume VIII, 40). Aquele documento foi enviado através de mensageiro especial ao Congresso na Filadélfia; e publicado no 'Cape Fear Mercury' e largamente distribuído em todo o país. É claro que também foi rapidamente transmitido à Inglaterra, onde tornou-se motivo de excitação intensa.

"A identidade de sentimento e a similaridade de expressão entre esta Declaração e a grande Declaração escrita por Jefferson não poderia escapar aos olhos dos historiadores; assim foi que Tucker, em sua obra 'A Vida de Jefferson' diz: 'Cada um deve persuadir-se de que um desses papéis deve ter sido emprestado do outro'. Mas é certo que Brevard não poderia haver 'emprestado' de Jefferson, pois ele o escreveu mais de um ano antes de Jefferson; daí é que Jefferson, de acordo com o seu biógrafo, deve tê-lo 'emprestado' de Brevard. Mas foi um plágio feliz, pelo qual o mundo sinceramente o perdoará. Na correção do seu primeiro rascunho da Declaração, pode ser visto pelo menos em algumas partes, que Jefferson apagou as palavras originais e inseriu aquelas que ele havia primeiramente encontrado na Declaração de Mecklenberg. Ninguém pode duvidar que Jefferson tinha diante de si as resoluções escritas por Brevard enquanto escrevia a sua Declaração imortal." 27

Esta surpreendente similaridade entre os princípios apresentados na Forma de Governo da Igreja Presbiteriana e aqueles apresentados na Constituição dos Estados Unidos da América tem causado muito comentário. "Quando os pais da nossa República sentaram-se para preparar um sistema de governo representativo e popular", diz o Dr. E. W. Smith, "a sua tarefa não era tão difícil quanto alguém poderia imaginar. Eles tinham um modelo para seguir." 28

Se fosse perguntado a um cidadão Americano quem foi o fundador da América, o verdadeiro autor daquela grande República, poderia ser-lhe difícil para responder. Podemos imaginar sua surpresa ao ouvir a resposta desta questão, dada pelo famoso historiador Alemão, Ranke, um dos mais profundos catedráticos da atualidade. Diz Ranke, 'João Calvino foi o fundador virtual da América.' " 29

D'Aubigne, cuja história da Reforma é um clássico, escreve: "Calvino foi o fundador das maiores repúblicas. Os Peregrinos que deixaram o seu país no reinado de James I; e fincaram pé na terra barrenta da Nova Inglaterra, fundaram colônias populosas e poderosas, eram seus filhos, seus diretos e legítimos filhos; e aquela nação Americana que temos visto crescer tão rapidamente proclama como seu pai o humilde Reformador na praia do Lago Leman." 30

O Dr. E. W. Smith diz, "Estes princípios revolucionários de liberdade republicana e de auto governo, ensinados e incorporados no sistema de Calvino, foram trazidos para a América; e nestas novas terras onde eles frutificaram tão imensamente um cultivo foi plantado, pelas mãos de quem? -- as mãos dos Calvinistas. A relação vital de Calvino e do Calvinismo para com a fundação das instituições livres da América, conquanto estranha para alguns ouvidos possa ter parecido a declaração de Ranke, é reconhecida e afirmada por historiadores de todas as terras e de todos os credos." 31

Isso tudo foi inteiramente compreendido e candidamente reconhecido por historiadores e filosóficos tais como Bancroft, que embora estivesse tão longe de ser um Calvinista nas suas convicções pessoais, chama Calvino simplesmente de "o pai da América", e acrescenta: "Aquele que não honra a memória e respeita a influência de Calvino não conhece nada da origem da liberdade Americana."

Quando lembramos que dois terços da população à época da Revolução tinha sido treinada na escola de Calvino, e quando lembramos do quão unida e entusiasticamente os Calvinistas labutaram pela causa da independência, nós prontamente vemos o quão verdadeiros são os testemunhos acima.

Não havia praticamente Metodista algum na América à época da Revolução; e, na verdade, a Igreja Metodista não foi organizada oficialmente como tal, na Inglaterra, até o ano de 1784, o que foi três anos após a Revolução Americana. John Wesley, embora fosse um grande vulto e bom homem, era um "Tory" [N.T.: (a) membro do Partido Conservador Inglês. (b) designação de quaisquer Americanos que, durante o período da Revolução, estivessem do lado Britânico. Também chamados de 'Lealistas'] e cria na não resistência política. Ele escreveu contra a "rebelião" Americana, mas aceitou o resultado providencial. McFetridge nos diz: "Os Metodistas dificilmente tinham um pé nas colônias, quando a guerra começou. Em 1773 eles somavam aproximadamente cento e sessenta membros. Seus ministros eram quase que todos, senão todos, da Inglaterra; e eram ferrenhos partidários da Coroa contra a Independência Americana. Assim é que, quando a guerra estourou eles foram compelidos a saírem do país. Seus pontos de vista políticos estavam naturalmente de acordo com aqueles do seu grande líder, John Wesley, que habilmente exercia todo o poder da sua eloqüência e influência contra a independência das colônias. (Bancroft, História dos E.U.A., Vol. VII, p. 261). Ele não previu que a América independente era para ser o terreno no qual sua nobre Igreja ceifaria suas maiores colheitas; e que naquela Declaração à qual ele se opôs tão bravamente se encontrasse a segurança das liberdades dos seus seguidores." 32

Na Inglaterra tanto quanto na América, os conflitos pela liberdade civil e religiosa nasceram no Calvinismo, foram inspirados pelo Calvinismo; e largamente levados a cabo por homens que eram Calvinistas. E porque a maioria dos historiadores nunca estudaram o Calvinismo seriamente, eles nunca foram capazes de dar-nos conta, de maneira completa e verdadeira, do que foi feito nesses países. É somente necessária a luz da investigação histórica para mostrar-nos como os nossos bisavós criam no Calvinismo e eram por ele controlados. Hoje vivemos numa época em que os serviços dos Calvinistas na fundação deste país têm sido em muito esquecidos; e dificilmente alguém pode tratar deste assunto sem parecer ser um mero elogiador do Calvinismo. Nós bem podemos honrar aquele credo que rendeu frutos tão doces e ao qual a América tanto deve.


8. CALVINISMO E GOVERNO REPRESENTATIVO.

Enquanto a liberdade religiosa e a liberdade civil não têm nenhuma conexão orgânica, elas não obstante têm uma afinidade muito forte entre si; e onde falta uma, a outra não sobreviverá por muito. A história é eloqüente ao declarar que a religião de um povo depende sempre da sua liberdade ou do seu jugo. É uma questão de suprema importância em que doutrinas eles crêem, que princípios eles adotam: pois estes devem servir como a base sobre a qual encontra-se a super estrutura das suas vidas e do seu governo. O Calvinismo foi revolucionário. Ele ensinou a igualdade natural entre os homens; e a sua tendência natural era acabar com todas as distinções de classe e todas as alegações de superioridade as quais apoiavam-se em riqueza ou privilégios adquiridos. A alma do Calvinista, amante da liberdade, fez dele um guerreiro numa cruzada contra aquelas distinções artificiais as quais elevavam alguns homens sobre os demais.

Politicamente, o Calvinismo tem sido a principal fonte de governo republicano moderno. O Calvinismo e o republicanismo são tão relacionados um com o outro como causa e efeito; e onde um povo esteja possuído pelo primeiro, o segundo cedo se desenvolverá. O próprio Calvino sustentava que a Igreja, sob Deus, era uma república espiritual; e ele certamente era um republicano em teoria. James I estava bem ciente dos efeitos quando disse: "O Presbitério concorda tanto com a monarquia, como Deus concorda com o Diabo." Bancroft fala do "caráter político do Calvinismo, que conjunta e instintivamente os monarcas daquele tempo temiam como republicanismo." Um outro historiador Americano, John Fiske, escreveu, "Seria difícil ultrapassar o débito que a humanidade tem para com Calvino. O pai espiritual de Coligny, de William The Silent e de Cromwell, deve ocupar o mais alto posto entre os campeões da democracia moderna . . . . A promulgação desta teologia foi um dos mais largos passos que a humanidade já deu em direção à liberdade pessoal." 33 Emilio Castelar, o líder dos Liberais Espanhóis, diz que "A democracia Anglo-Saxônica é o produto de uma teologia severa, aprendida nas cidades da Holanda e da Suíça." Buckle, na sua obra "História da Civilização" diz, "O Calvinismo é essencialmente democrático," (I, 669). E do hábil escritor político Alexis de Tocqueville, chama o Calvinismo de "Uma religião democrática e republicana." 34

O sistema não somente imbuiu seus convertidos com o espírito de liberdade, mas deu-lhes treinamento prático nos direitos e deveres como homens livres. Cada congregação elegia os seus próprios oficiais e conduzia sua própria administração. Fiske refere-se a ele como "uma das escolas mais efetivas que jamais existiram, para treinar homens em assuntos de governo local de base." 35 A liberdade espiritual é a fonte e a força de todas as demais liberdades; e não precisamos surpreendermo-nos quando nos é dito que os princípios pelos quais eram governados em assuntos eclesiásticos moldaram seus pontos de vista políticos. Eles instintivamente preferiam um governo representativo e obstinadamente ofereciam resistência a todos governantes injustos. Depois que o despotismo religioso é deposto, o despotismo civil não mais pode continuar.

Podemos dizer que a república espiritual fundada por Calvino encontra-se baseada em quatro princípios básicos. Estes foram sumariados por um eminente estadista e jurista Inglês, Sir James Stephen, no seguinte: "Estes princípios eram, primeiramente que a vontade do povo era a fonte legítima de poder dos governantes; em segundo, que o poder era mais apropriadamente delegado pelo povo, aos seus governantes, através de eleições, nas quais cada homem adulto pode exercer seu direito de sufrágio; em terceiro, que um governo eclesiástico, a classe clerical e a classe de membros tinham ambas o direito a uma autoridade igual e coordenada; e em quarto, que entre a Igreja e o Estado, nenhuma aliança, ou dependência mútua, ou outra relação definida, existia necessária ou apropriadamente." 36
O princípio da soberania de Deus, quando aplicado aos assuntos relativos ao governo provaram ser muito importantes. Deus é o supremo Governante, foi investido com soberania, e qualquer que seja a soberania encontrada no homem, esta lhe foi graciosamente concedida. Tomamos as Escrituras Sagradas como autoridade final, uma vez que contém os princípios eternos que são reguladores para todas as idades e em todos os povos. Nas seguintes palavras, as Escrituras declaram o Estado como sendo uma instituição divinamente estabelecida: "(1) Toda alma esteja sujeita às autoridades superiores; porque não há autoridade que não venha de Deus; e as que existem foram ordenadas por Deus. (2) Por isso quem resiste à autoridade resiste à ordenação de Deus; e os que resistem trarão sobre si mesmos a condenação. (3) Porque os magistrados não são motivo de temor para os que fazem o bem, mas para os que fazem o mal. Queres tu, pois, não temer a autoridade? Faze o bem, e terás louvor dela; (4) porquanto ela é ministro de Deus para teu bem. Mas, se fizeres o mal, teme, pois não traz debalde a espada; porque é ministro de Deus, e vingador em ira contra aquele que pratica o mal. (5) Pelo que é necessário que lhe estejais sujeitos, não somente por causa da ira, mas também por causa da consciência. (6) Por esta razão também pagais tributo; porque são ministros de Deus, para atenderem a isso mesmo. (7) Dai a cada um o que lhe é devido: a quem tributo, tributo; a quem imposto, imposto; a quem temor, temor; a quem honra, honra."[Romanos 13:1-7].

No entanto, nenhum tipo de governo, seja ele uma democracia, uma república ou monarquia, foi imaginado haver sido divinamente ordenado para determinada época ou determinado povo, embora o Calvinismo mostrasse uma preferência pelo tipo republicano. "Qualquer que seja o sistema de governo", diz Meeter, "seja monarquia ou democracia ou qualquer outra forma; em cada caso o governante (ou governantes) devia agir como um representante de Deus; e administrar os assuntos do governo de conformidade com a lei de Deus. O princípio fundamental supria ao mesmo tempo o maior incentivo para a preservação da lei e da ordem entre os seus cidadãos, sujeitos que eram, para a glória de Deus, render obediência aos poderes mais altos, quaisquer que estes pudessem ser. Assim é que o Calvinismo foi feito para governos altamente estáveis.

"Por outro lado, este mesmo princípio da soberania de Deus operava como uma poderosa defesa das liberdades dos cidadãos contra governantes tirânicos. Sempre quando soberanos ignorassem a Vontade de Deus, pisoteassem os direitos dos governados e se tornassem tiranos, passava a ser o privilégio e o dever dos sujeitos, à vista da responsabilidade mais alta para com o Soberano supremo, Deus, recusar obediência e até mesmo, se necessário, depor o tirano, através da autoridades menores, apontadas por Deus para a defesa dos direitos dos governados." 37

As idéias Calvinistas com referência a governos e governantes foram habilmente expressas por J. C. Monsma no seguinte e muito lúcido parágrafo: "Governos são instituídos por Deus através da instrumentalidade do povo. Nenhum rei ou presidente tem qualquer poder inerente em si mesmo; qualquer poder que ele possua, qualquer soberania que ele exerça, é poder e é soberania que derivam da grande Fonte, do alto. Não força, mas direito; e direito fluindo da eterna Fonte de justiça. Para o Calvinista é extremamente fácil respeitar as leis e os estatutos do governo. Se o governo não fosse nada mais que um grupo de homens, unidos para concretizar os desejos de uma maioria popular, sua alma amante da liberdade se rebelaria. Mas agora, ao seu entendimento e em conformidade com a sua crença fixa, -- por trás do governo encontra-se Deus e ante Ele, ele se põe de joelhos na mais profunda reverência. Aqui também está a razão fundamental para aquele profundo e quase que fanático amor pela liberdade, também a liberdade política, a qual tem sempre sido uma característica do Calvinista genuíno. O governo é servo de Deus. Isto quer dizer que, COMO HOMENS, todos os oficiais do governo encontram-se em passo igual com os seus subordinados; não têm o direito de reclamar qualquer superioridade em qualquer que seja o sentido. Pela mesma razão, exatamente, o Calvinista prefere a forma de governo republicana, ante qualquer outra. Em nenhum outro tipo de governo a soberania de Deus, o caráter derivativo dos poderes do governo e a igualdade de homens como homens, encontram uma expressão mais clara e mais eloqüente." 38

A teologia dos Calvinistas exaltava um Soberano e humilhava todos outros soberanos perante a Sua maravilhosa majestade. O direito divino de reis e os decretos infalíveis de papas não mais podiam existir entre um povo que colocava a soberania somente em Deus. Mas enquanto esta teologia exaltava infinitamente a Deus como o Governante Todo-Poderoso do céu e da terra e colocava todos os homens em posição de humildade perante Ele, ela também engrandecia a dignidade do indivíduo e ensinava-lhe que todos os homens são iguais como homens. O Calvinista temia a Deus; e ao temer a Deus ele não temia a mais ninguém. Sabendo ter sido ele mesmo escolhido nos conselhos da eternidade e marcado para as glórias do céu, ele possuía algo que dissipava o sentimento de honrarias para com homens e que obscurecia o brilho de toda magnificência terrena. Se uma aristocracia traçasse sua linha de ascendência através de gerações de ancestrais nobres, os Calvinistas, com orgulho mais exaltado, invadiam o mundo invisível; e do livro da vida mostravam o registro da mais nobre cidadania, decretada deste a eternidade pelo Rei dos reis. Por uma linhagem genealógica mais alta que qualquer outra linhagem terrena, eles eram cidadãos da nobreza celeste porque eram filhos e sacerdotes de Deus, co-herdeiros com Cristo, reis e sacerdotes de Deus, por unção e consagração divinas. Coloque a verdade da soberania de Deus na mente e no coração de um homem; e estará colocando aço no seu sangue. A Fé Reformada prestou serviço mais valioso, ao ensinar ao indivíduo os seus direitos.

Em contraste gritante com estas tendências democráticas e republicanas que são vistas serem inerentes à Fé Reformada, vemos que o Arminianismo tem uma tendência muito pronunciadamente aristocrática. Nas Igrejas Presbiterianas e Reformadas, o presbítero vota no Presbitério ou Sínodo ou Assembléia Geral em completa igualdade com o seu pastor; mas nas igrejas Arminianas o poder encontra-se muito mais nas mãos do clérigo, enquanto que o leigo tem muito pouca autoridade real. O Episcopado enfatiza o governo pela hierarquia. O Arminianismo e o Catolicismo Romano (o qual é praticamente Arminiano) prospera sob monarquia, ao passo que ali o Calvinismo tem sua vida dificultada. Por outro lado, o Romanismo, especialmente, não progride numa república; que é onde o Calvinismo se encontra mais em casa. Uma forma aristocrática de governo de igreja tende para o lado da monarquia em assuntos civis, enquanto que uma forma republicana de governo de igreja tende mais para a democracia, nos mesmos assuntos. McFetridge diz, "O Arminianismo é desfavorável à liberdade civil; enquanto que o Calvinismo é desfavorável ao despotismo. Os governantes déspotas dos tempos passados eram rápidos ao observar a clareza dessas proposições; e, reclamando o divino direito de reis, temiam o Calvinismo como o próprio republicanismo." 39


9. CALVINISMO E EDUCAÇÃO.

Novamente, a história apresenta testemunho muito claro de que Calvinismo e educação têm sido intimamente associados. Onde quer que o Calvinismo tenha ido, levou consigo a escola e deu impulso poderoso à educação popular. É um sistema que demanda hombridade intelectual. Na verdade, podemos dizer que a própria existência do Calvinismo encontra-se unida à educação do povo. Treinamento mental é requerido para dominar o sistema e mapear tudo o quanto ele envolve. O Calvinismo apela da maneira mais forte possível à razão humana e insiste que o homem deve amar a Deus não somente com todo o seu coração, mas também com toda a sua mente. Calvino sustentava que "uma fé verdadeira deve ser uma fé inteligente"; e a experiência tem mostrado que a piedade sem o aprendizado é um longo caminho tão perigoso quanto o é o aprendizado sem piedade. Ele viu claramente que a aceitação e a difusão do seu esquema de doutrina era dependente não somente do treinamento dos homens que o deveriam apresentar, mas também na inteligência das grandes massas de humanidade que deveriam aceitá-lo. Calvino coroou seu trabalho em Genebra com o estabelecimento da Academia. Milhares de alunos peregrinos da Europa Continental e das Ilhas Britânicas sentaram-se aos seus pés e depois levaram as suas doutrinas a cada canto da Cristandade. Knox retornou de Genebra inteiramente convencido de que a educação das massas era a muralha mais forte do Protestantismo e a mais certa fundação do Estado. "Com o Romanismo vai o padre; com o Calvinismo vai o professor" é um ditado antigo, a verdade do qual não será negada por qualquer um que venha a examinar os fatos.

Este amor Calvinista pelo aprendizado, colocando a mente acima do dinheiro, inspirou um número incontável. de famílias Calvinistas na Escócia, na Inglaterra, na Holanda e na América, a sacrificarem-se para educar seus filhos. O famoso dito de Carlile, "Que qualquer ser com capacidade de aprendizado pereça ignorante, a isto eu chamo de tragédia," expressa uma idéia que é Calvinista até o cerne. Aonde quer que o Calvinismo tenha ido, lá o conhecimento e o aprendizado foram encorajados e lá uma raça vigorosa de pensadores foi treinada. Os Calvinistas não construíram grandes catedrais, mais foram construtores de escolas, de faculdades e de universidades. Quando os Puritanos da Inglaterra, os Pactuantes da Escócia e os Reformados da Holanda e da Alemanha vieram para a América, eles trouxeram consigo não somente a Bíblia e a Confissão de Fé de Westminster, mas também a escola. E é por isso que o Calvinismo Americano nunca

"Teme as fracas mãos dos céticos, ("Dreads the skeptic's puny hands,
Enquanto perto da escola estiver a torre da sua igreja, (While near her school the church spire stands
Nem teme a regra cega dos intolerantes, (Nor fears the blinded bigot's rule,
Enquanto perto da torre da igreja estiver uma escola." (While near her church spire stands a school."

Nossas três universidades Americanas de grande importância histórica, Harvard, Yale e Princeton, foram originalmente fundadas por Calvinistas, como escolas Calvinistas fortes, destinadas a proporcionar aos alunos uma base sólida em teologia tanto quanto em outros segmentos do aprendizado. Harvard, estabelecida em 1636, foi primariamente destinada a ser escola de treinamento para ministros; e mais da metade das suas primeiras classes a graduarem-se seguiram o caminho do ministério. Yale, algumas vezes chamada de "a mãe das Faculdades", foi por um período de tempo considerável uma rígida instituição Puritana. E Princeton, fundada pelos Presbiterianos Escoceses, estava alicerçada em bases inteiramente Calvinistas.

"Orgulhamo-nos", diz Bancroft, "das nossas escolas regulares; Calvino foi o pai da educação popular -- o inventor do sistema de escolas livres." 40 "Onde quer que o Calvinismo tenha ganhado domínio", ele diz novamente, "invocou a inteligência para as pessoas; e cada paróquia plantou uma escola regular." 41

"O nosso orgulhoso sistema escolar regular", diz Smith, está em débito por sua existência àquela corrente de influências que vieram da Genebra de Calvino, através da Escócia e da Holanda até a América; e, durante os duzentos primeiros anos da nossa história quase que cada colégio e seminário e quase que cada academia e escola regular foi construído e sustentado por Calvinistas." 42

A relação que existe entre o Calvinismo e a educação foi muito bem colocada nos próximos dois parágrafos, escritos pelo Prof. H. H. Meeter, da Faculdade Calvino: "A ciência e a arte foram dádivas da graça comum de Deus; e devem como tais serem desenvolvidos e utilizados. A natureza é obra das mãos de Deus; o incorporar das Suas ideias, na sua forma pura o reflexo das Suas virtudes. Deus foi o pensamento unificador de toda ciência, uma vez que tudo foi o desdobrar do Seu plano. Mas junto com tais razões teóricas, há razões muito práticas porque o Calvinista tem sempre estado intensamente interessado em educação; e porque escolas para iniciação escolar de crianças tanto quanto escolas para aprendizado mais alto aparecerem lado a lado com igrejas Calvinistas; e porque os Calvinistas foram em tão grande medida a vanguarda do movimento universal para a educação moderna. Estas razões práticas estão intimamente associadas com a sua religião. Os Católicos Romanos podem convenientemente passar sem a educação das massas. Para eles a classe clerical -- distintamente dos leigos -- eram os que decidiam sobre matérias relativas à doutrina e ao governo da igreja. Assim, os interesses não requeriam o treinamento das massas. Para a salvação, tudo de que o leigo precisava era uma fé implícita naquilo que a igreja acreditava. Não era necessário ser capaz de explicar de maneira inteligente as doutrinas da sua fé. Nos cultos, não o sermão, mas o sacramento era o importante portador das bênçãos da salvação; o sermão era menos necessário. E, novamente, o sacramento não requeria inteligência, uma vez que operava ex opere operato [N.T.: O ensinamento Católico de que a graça de um sacramento é sempre conferida pelo próprio sacramento. Literalmente quer dizer "da obra realizada"].

"Pois as matérias Calvinistas eram justamente o contrário. O governo da igreja era posto nas mãos dos presbíteros, homens leigos; e estes tinham de decidir sobre os assuntos de política da igreja e os assuntos de peso da doutrina. Ademais, o próprio leigo tinha o grave dever, sem a intermediação de uma ordem sacerdotal, de trabalhar na sua própria salvação; e não poderia faze-lo com uma fé implícita no que a igreja acreditava. Ele devia ler a sua Bíblia. Ele devia conhecer e saber o seu credo. E nisso era um intelectual altamente errado. Mesmo para o Luterano, a educação das massas não era tão urgente quanto para o Calvinista. É verdade que o Luterano também situava o homem diante da responsabilidade pessoal de trabalhar na própria salvação. Mas nos círculos Luteranos, os leigos eram excluídos do ofício do governo da igreja e destarte também da tarefa de decidir sobre assuntos de doutrina. A partir dessas considerações, fica evidente porque o Calvinista devia ser um ferrenho advogado da educação. Se por um lado a Deus era devida a soberania no campo da ciência; e se o sistema Calvinista, muito religioso exigia a educação das massas para a sua própria existência, não é de surpreender-nos que o Calvinista pressionasse o aprendizado ao limite. Para o Calvinista, a educação é uma questão de ser ou não ser." 43

Os padrões tradicionalmente altos das Igrejas Presbiteriana e Reformada, para o treinamento ministerial, são dignas de nota. Enquanto muitas outras igrejas ordenam homens como ministros e missionários e permitem que preguem com muito pouca educação; as Igrejas Presbiteriana e Reformada insistem que o candidato ao ministério seja graduado em uma faculdade e que tenha estudado por no mínimo dois anos, com um professor de teologia aprovado (vide Formas de Governo, cap. XIV, seções III e VI). Como resultado, uma grande proporção desses ministros têm sido capazes de administrar assuntos influentes das igrejas nas cidades. Isto pode significar um menor número de ministros, mas também significa ministros melhor preparados e melhor remunerados.


10. JOÃO CALVINO.

João Calvino nasceu em 10 de Julho de 1509, em Noyon, França; uma cidade com uma catedral antiga, aproximadamente 70 milhas (N.T. aproximadamente 110 Km) a nordeste de Paris. Seu pai, um homem de caráter tanto quanto duro e severo, mantinha a posição como secretário apostólico do bispo de Noyon; e era íntimo das melhores famílias da vizinhança. Sua mãe era notada por sua beleza e piedade, mas morreu ainda jovem.

Ele recebeu a melhor educação que a França da sua época podia proporcionar, estudando sucessivamente nas três universidades mais importantes de Orleans, Bourges e Paris, entre 1528 até 1533. Seu pai tencionava prepará-lo para a profissão legal, uma vez que do direito normalmente surgiam aqueles que galgariam posições de riqueza e influência. Mas não sentindo nenhuma vocação, nenhum chamado em particular para aquele rumo, Calvino voltou-se para o estudo da Teologia; e ali encontrou a esfera de labor para a qual ele estava particularmente preparado por uma habilidade, um dom natural, além de escolha pessoal. Ele foi descrito como sendo de natureza introspecta e tímida, muito estudioso e pontual nos seus trabalhos, animado por um rigoroso sentido de dever, e excessivamente religioso. Muito cedo ele mostrou-se possuído por um intelecto capaz de argumentos convincentes e claros, além de análise lógica. Através de excessivo treinamento ele armazenou sua mente com informação valiosa, mas que prejudicou a sua saúde. Ele avançou tão rapidamente que era, ocasionalmente, convidado a tomar o lugar dos mestres; e era considerado pelos outros estudantes mais como um doutor, do que como um auditor. Calvino era, na sua época, um Católico de carácter irrepreensível. Uma carreira brilhante como humanista, ou advogado, ou clérigo, estava aberta à sua frente, quando ele foi de repente convertido ao Protestantismo; e viu-se jogado à sua sorte, com o grupo dos pobres perseguidos.

Sem qualquer intenção de sua parte, e mesmo contra o seu próprio desejo, Calvino tornou-se o cabeça do partido evangélico em Paris, em menos de um ano após a sua conversão. Seu conhecimento profundo e sinceridade de discurso eram tais que ninguém podia ouvi-lo sem sentir-se fortemente impressionado. Pelo presente ele permaneceu na Igreja Católica, esperando que a sua reforma acontecesse no seu seio e se expandisse, ao invés de vir de fora para dentro. Shaff relembra-nos que "todos os Reformadores nasceram, foram batizados, confirmados e educados na histórica Igreja Católica, que os expulsou; como os Apóstolos foram circuncidados e treinados na Sinagoga, que os expulsou." 44

O zelo e a sinceridade do novo Reformador não ficaram por muito tempo sem serem desafiados; e logo tornou-se necessário que Calvino escapasse, fugindo por sua vida. O seguinte relato, da sua fuga é dado pelo historiador da Igreja, Philip Schaff: "Nicholas Cop, o filho de um distinto médico da corte (William Cop, da Basiléia), e um amigo de Calvino, foi eleito Reitor da Universidade em 10 de Outubro de 1533; e apresentou o discurso inaugural no dia de todos os santos, 01 de Novembro; perante uma grande assembléia na Igreja dos Mathurins. Este discurso, por solicitação do novo Reitor, havia sido preparado por Calvino. Era um pedido por uma reforma nas bases do Novo Testamento; e um ataque frontal aos teólogos escolásticos daquele tempo, que estavam representados como um conjunto de sofistas, ignorantes do Evangelho .... A Sorbonne e o Parlamento consideraram este discurso acadêmico como um manifesto de guerra contra a Igreja Católica, e o condenaram à fogueira. Cop foi avisado e fugiu para os seus parentes na Basiléia. (Trezentas coroas foram oferecidas por sua captura, vivo ou morto). Foi dito que Calvino, o verdadeiro autor do estrago, desceu de uma janela através de lençóis; e escapou de Paris com a capa de um podador de jardim, com uma enxada ao ombro. Seus aposentos foram vasculhados e seus livros e papéis foram apreendidos pela polícia .... Vinte e cinco Protestantes inocentes foram queimados vivos em lugares públicos da cidade, entre 10 de Novembro de 1534 até 05 de Maio de 1535 .... Muitos mais foram multados, aprisionados e torturados; e um considerável número, entre eles Calvino e Du Tillet, escaparam para Strassburg .... Durante quase três anos Calvino vagueou como evangelista fugitivo, usando nomes falsos, de lugar a lugar no sul da França, na Suíça e na Itália; até chegar a Genebra, seu destino final." 45

Pouco depois, senão antes, a primeira edição das suas Institutas aparecerem, em Março de 1536, Calvino e Louis Du Tillet cruzaram os Alpes até a Itália, onde a literatura e artes Renascentistas tiveram origem. Lá ele trabalhou como evangelista até que a Inquisição começou seu trabalho de destruir ambos, a Renascença e a Reforma, como se fossem duas serpentes da mesma espécie. Ele então divergiu seu caminho, provavelmente através de Asota e sobre o Grande São Bernardo, para a Suíça. De Basel ele fez uma última visita à sua cidade natal de Noyon, de forma a resolver de vez alguns assuntos familiares. Então, junto com seu irmão mais novo Antoine e sua irmã Marie, ele deixou a França para sempre, esperando fixar-se em Basel ou em Strassburg e de lá levar a pacata vida de catedrático e de autor. Devido ao fato de que um estado de guerra existia entre Charles V e Francis I, a rota direta através do Lorraine estava fechada, o que o obrigou a fazer uma jornada alternativa, através de Genebra.

Era intenção de Calvino parar somente por uma noite em Genebra, mas a Providência havia decretado o contrário. Sua presença foi sabida por Farel, o reformador Genebriano, que instintivamente sentiu que Calvino era o homem para completar e salvar a Reforma em Genebra. Uma fina descrição desta reunião entre Calvino e Farel é dada por Schaff. Diz ele: "Farel chamou Calvino imediatamente e segurou-o rápido, como se por comando divino. Calvino protestou, alegando sua juventude, sua inexperiência, sua necessidade de mais estudos, sua timidez natural e sua introversão, que não o qualificavam para a ação pública. Mas tudo em vão. Farel, 'que queimava de um zelo maravilhoso para avançar o Evangelho', ameaçou-o com a maldição do Deus Todo-Poderoso caso ele preferisse os estudos ao invés do trabalho do Senhor, e o seu próprio interesse ao invés da causa de Cristo. Calvino ficou aterrorizado e tremia com estas palavras do destemido evangelista; e sentiu 'como se Deus estendesse do alto a Sua mão'. Ele submeteu-se e aceitou a chamada para o ministério, como professor e pastor da Igreja Evangélica de Genebra." 46

Calvino era vinte e seis anos mais moço que Lutero e Zuínglio; e teve e a grande vantagem de construir sobre o alicerce que eles haviam preparado. Os primeiros dez anos da carreira pública de Calvino foram contemporâneos aos últimos dez anos da carreira de Lutero, embora os dois nunca tenham se encontrado pessoalmente. Calvino era íntimo de Melancton contudo, e eles trocaram correspondência até a sua morte.

À época em que Calvino apareceu em cena, não havia ainda sido determinado se Lutero seria o herói de um grande sucesso, ou a vítima de uma grande falha. Lutero havia produzido novas idéias; a obra de Calvino era trabalhá-las num sistema, preservar e desenvolver o que havia começado de maneira tão nobre. Ao movimento Protestante faltava unidade e corria o risco de afundar na areia movediça da disputa doutrinária, mas foi bravamente salvo daquela sina pelo novo impulso, que lhe foi proporcionado pelo Reformador em Genebra. A Igreja Católica trabalhou como uma unidade poderosa e buscava rotular, através de métodos justos ou não, os diferentes grupos Protestantes que haviam surgido no Norte. Zuínglio havia visto este perigo e tinha tentado unir os Protestantes contra seu inimigo comum. Em Marburg, depois de apelos e com lágrimas nos olhos, ele estendeu a Lutero a mão da amizade, a despeito das diferenças de opinião entre eles, quanto à maneira da presença de Cristo na Ceia do Senhor; mas Lutero recusou-a, inibido por uma estreita consciência dogmática. Calvino também, trabalhando na Suíça, com imensa oportunidade de realizar a união da Igreja Italiana, enxergou a necessidade de união e labutou para manter junto o Protestantismo. Para Cranmer, na Inglaterra, ele escreveu, "Eu anseio por uma santa comunhão entre os membros de Cristo. Quanto a mim, se puder ser útil, ficaria contente em cruzar dez oceanos de maneira a concretizar esta unidade." A sua influência, como exercida através de seus livros, cartas; e alunos, era poderosamente sentida nos vários países; e a afirmação de que ele salvou o movimento Protestante da destruição não parece ser exagero.

Durante trinta anos o interesse absorvente de Calvino era o avanço da Reforma. Reed diz, "Ele labutou exaustivamente para isso até o último limite de suas forças, lutou por isso com uma coragem que nunca esmoreceu, sofreu por isso com uma força de vontade inabalável; e estava pronto para morrer por isso a qualquer momento. Ele literalmente derramou cada gota da sua vida nisso, generosamente, sem hesitação. A história será dissecada em vão, na busca de um homem que tenha se entregado a um propósito definido com persistência mais inalterável, e com mais profusão de auto entrega que Calvino deu a si mesmo pela causa da Reforma do século dezesseis." 47

Provavelmente nenhum servo de Cristo desde os dias dos Apóstolos tenha sido ao mesmo tempo tão amado e tão odiado, admirado e aborrecido, exortado e condenado, abençoado e amaldiçoado, do que o fervoroso, destemido e imortal Calvino. Vivendo numa época forçosamente polêmica, e a postos na torre de vigia do movimento da reforma na Europa Ocidental, ele foi o observado de todos os observadores, e foi exposto a ataques de todos os lados. Paixões religiosas e sectárias são as mais fortes e mais profundas; e à vista do bem e do mal que sabidamente existe na natureza humana neste mundo, não deve nos surpreender a recepção dada aos escritos e aos ensinamentos de Calvino.

Calvino tinha apenas vinte e seis anos de idade, quando publicou em Latim as suas "Institutas da Religião Cristã". A primeira edição continha num breve enunciado todos os elementos essenciais do seus sistema, e, considerando a tenra idade do autor, tratava-se de uma maravilha de precocidade intelectual. Foi mais tarde aumentada para cinco vezes o tamanho do original e publicada em Francês, mas ele nunca se apartou radicalmente de quaisquer doutrinas apresentadas na primeira edição. Quase que imediatamente, as Institutas alcançaram o primeiro lugar, como a melhor exibição e melhor defesa da causa Protestante. Outros escritos mal lidaram com certas fases do movimento, mas aqui estava um que tratava dele como uma unidade. "O valor de tal presente para a Reforma", diz Reed, "não pode ser facilmente exagerado. Protestantes e Romanistas ambos igualmente testemunharam para a sua validade. Os primeiros exaltavam-no como uma bênção; os outros execravam-no com as maldições mais amargas. A obra foi queimada por ordem da Sorbonne em Paris e em outras localidades; e em todos lugares ela suscitava os mais violentos assaltos, de línguas e de canetas. Florimond de Raemond, um teólogo Católico Romano, chamou-a de 'o Alcorão, o Talmude da heresia, a causa mais importante da nossa queda'. Kampachulte, outro Católico Romano, testifica que 'foi o arsenal comum do qual os opositores da Igreja Antiga emprestaram suas armas mais poderosas', e que 'nenhum escrito da era da Reforma foi mais temido pelos Católicos Romanos, mais zelosamente combatido, e mais amargamente amaldiçoado do que as Institutas de Calvino'. A sua popularidade foi evidenciada pelo fato de que as edições foram seguindo, em rápida sucessão; foi traduzida para a maioria dos idiomas da Europa ocidental; tornou-se livro principal de textos nas escolas das Igrejas Reformadas, e supriu o material com o qual os seus credos foram feitos." 48

"De todos os serviços prestados por Calvino à humanidade", diz o Dr. Warfield, " -- e não foram nem poucos nem pequenos -- o maior deles foi indubitavelmente seu presente para o afresco deste sistema de pensamento religioso, acelerado numa nova vida pelas forças do seu gênio." 49

As Institutas foram de imediato aclamadas pelos Protestantes com exortações entusiásticas, como a mais clara, a mais lógica e a mais convincente defesa das doutrinas Cristãs desde os dias dos Apóstolos. Schaff caracteriza-as muito bem quando ele diz que nelas "Calvino proporcionou uma exposição sistemática da religião Cristã em geral, e em particular uma vindicação da fé evangélica, com o objetivo prático e apologético de defender os crentes Protestantes contra a calúnia e a perseguição às quais eles encontravam-se expostos, especialmente na França." 50 A obra é permeada por uma sinceridade intensa e por uma argumentação severa e destemida a qual apropriadamente subordina a razão e a tradição à suprema autoridade das Escrituras Sagradas. É admitidamente o maior livro do século, e através dela os princípios Calvinistas foram propagados numa escala imensa. Albrecht Ritschl chama-a de "a obra de arte da teologia Protestante". O Dr. Warfield nos diz que "depois de três séculos e meio ela mantém a sua preeminência inquestionada como o maior e mais influente de todos os tratados dogmáticos." E novamente ele diz, "Mesmo do ponto de vista de simples literatura, ela detém uma posição tão suprema na sua classe que todos que conhecessem os melhores livros do mundo, devem familiarizar-se com ela. O que os Thucydides é entre os Gregos, ou Gibbon entre os historiadores Ingleses do século dezoito, o que Platão é entre os filósofos, ou a Ilíada entre as obras épicas, ou Shakespeare entre os dramaturgos, é o que as Institutas de Calvino são entre os tratados teológicos." 51 A obra 'Institutas' consternou a Igreja Romana e foi uma poderosa força unificadora entre os Protestantes. Ela mostrou que ser Calvino o mais hábil controversialista no Protestantismo e como o mais formidável antagonista com o qual os Romanistas tiveram de contender. Na Inglaterra as Institutas desfrutaram de uma quase que indisputada popularidade; e foram usadas como um livro de textos nas universidades. Elas foram logo traduzidas para nove idiomas Europeus diferentes; e é simplesmente devido à séria falta na maioria das contas históricas que a sua importância não tem sido devidamente apreciada em anos recentes.

Umas poucas semanas depois da publicação das Institutas, Bucer, considerado como terceiro entre os Reformadores na Alemanha, escreveu a Calvino: "É evidente que o Senhor o elegeu como o Seu órgão para o conceder da mais rica e completa bênção sobre a Sua Igreja." Lutero não escreveu nenhuma teologia sistemática. Embora os seus escritos fossem volumosos, eles versavam sobre assuntos dispersos e muitos deles lidavam com os problemas práticos da sua época. Foi então deixado para Calvino, dar uma exibição sistemática da fé evangélica.

Calvino foi, primeiramente, um teólogo. Ele e Agostinho facilmente classificam-se como os dois mais notáveis expositores sistemáticos do Cristianismo desde Paulo. Melancton, quem era ele mesmo o príncipe dos teólogos luteranos, e quem, depois da morte de Lutero, foi reconhecido como o "Preceptor da Alemanha", chamou Calvino preeminentemente de "o teólogo".

Se o idioma das Institutas parece ser difícil em algumas passagens, devemos lembrar que esta foi a marca e a fraqueza da controvérsia teológica naquela época. Os tempos nos quais Calvino viveu eram polêmicos. Os Protestantes estavam engajados numa batalha de vida ou morte com Roma; e as provocações até a impaciência eram sérias e numerosas. No entanto, Calvino foi sobrepujado por Lutero na utilização de linguagem rude, como será prontamente visto num exame da última obra, "A Escravidão da Vontade", que foi uma polêmica escrita contra as idéias do livre arbítrio de Erasmo. E ademais, nenhum dos escritos Protestantes daquele período foram tão rudes e abusivos quanto o foram os decretos Católicos Romanos de excomunhão, de anátemas e etc., os quais foram dirigidos contra os Protestantes.

Adicionalmente às Institutas, Calvino escreveu comentários sobre aproximadamente todos os livros de ambos, o Antigo e o Novo Testamentos. Estes comentários, na tradução em Inglês, compreendem cinquenta e cinco grandes volumes, e, com relação às suas demais obras, são nada menos que maravilhosos. A qualidade desses escritos era tal que eles cedo chegaram ao primeiro lugar entre as obras de exegese sobre as Escrituras; e entre todos os antigos comentaristas, ninguém é mais frequentemente citado pelos melhores catedráticos modernos do que Calvino. Ele foi, além de qualquer questionamento, o maior exegeta do período da Reforma. Como Lutero foi o príncipe dos tradutores, também Calvino foi o príncipe dos comentaristas. [N.A.: Uma nova edição dos comentários de Calvino, em Inglês, foi recentemente publicada (1948), pela Wm. B. Eerdmans Publishing Co., Grand Rapids.]

E mais ainda, para que se possa estimar o verdadeiro valor dos comentários de Calvino, deve-se ter em mente que eles foram baseados nos princípios de exegese os quais eram raros no seu tempo. "Ele mostrou o caminho", diz R. C. Reed, "ao descartar o costume de fazer alegorias com as Escrituras, um costume que vinha desde os primeiros séculos do Cristianismo e o qual havia sido sancionado pelos maiores nomes da Igreja, de Orígenes a Lutero, um costume o qual converte a Bíblia num nariz de cera, e faz de sonhos ao vivo a qualificação primaz dum exegeta." 52 Calvino aderiu estritamente ao espírito e à carta do autor e assumiu que o escritor tinha um pensamento definido o qual estava expressado em linguagem natural e cotidiana. Ele expôs sem perdão as doutrinas e práticas corruptas da Igreja Católica Romana. Seus escritos inspiraram os amigos da reforma e supriram-nos com a mais mortal das munições. Podemos dificilmente sobrestimar a influência de Calvino no salvaguardar e no perpetuar da Reforma.

Calvino foi um mestre no aprendizado patrístico e escolástico. Tendo sido educado nas mais importantes universidades da sua época, ele possuía um conhecimento completo de Latim e de Francês; e um bom conhecimento de Grego e Hebraico. Seus comentários principais apareceram em ambas versões, em Francês e em Latim; e constituem-se obras de grande abrangência. Elas são eminentemente justas e francas; e mostram que o autor ter sido possuidor de singulares balanço e moderação de julgamento. As obras de Calvino tinham um efeito adicional, ao dar forma e permanência ao então instável idioma Francês, em muito da mesma forma em que a tradução da Bíblia por Lutero moldou o idioma Alemão.

Um outro testemunho, o qual não deveríamos omitir, é o de Armínio, o originador do sistema teológico rival. Certamente que temos aqui um testemunho que provém de uma fonte não tendenciosa. "Em seguida ao estudo das Escrituras", ele diz, "Eu exorto meus alunos a buscarem os comentários de Calvino, os quais eu exalto em termos mais elevados do que o próprio Helmick (N.A.: helmick era um teólogo Holandês); pois eu afirmo que ele excede além de comparação na interpretação das Escrituras; e que os seus comentários devem ser valorizados mais altamente do que tudo o que nos é entregue pela biblioteca dos pais; assim é que eu o reconheço como ter tido mais que muitos outros, ou ainda acima que todos outros homens, o que pode ser chamado de uma dádiva eminente de profecia." 53

A influência de Calvino foi ainda mais propalada através de volumosa correspondência que ele manteve com líderes de igrejas, príncipes e nobres, em toda a Cristandade Presbiteriana. Mais de trezentas dessas cartas estão ainda hoje preservadas; e como regra elas não tratam de breves trocas de amizade, mas de tratados longos e elaborados, apresentando de forma maestral os seus admiráveis pontos de vista sobre questões eclesiástico teológicas. Nesta forma, também foi profunda a sua influência ao guiar a Reforma em toda a Europa.

Devido a uma tentativa de Calvino e Farel, para forçar um sistema de disciplina muito severo em Genebra, veio a ser necessário que eles deixassem a cidade temporariamente. Isto ocorreu dois anos após a vinda de Calvino. Ele foi para Strassburg, no sudoeste da Alemanha, onde foi calorosamente recebido por Bucer e os líderes da Reforma Alemã. Ali ele passou os três anos seguintes, em trabalhos quietos e úteis, como professor, pastor e autor; e veio a estar em contato com o Luteranismo em primeira mão. Ele tina uma grande apreciação pelos líderes Luteranos e sentiu-se proximamente aliado à