Hebreus 6:6

por Dr. John Gill


 

"Se eles caírem, é impossível renová-los novamente para arrependimento; visto que eles para si mesmos de novo crucificam o Filho de Deus, e o expõem à vergonha pública". (Hebreus 6:6)

Se eles caírem,.... Isto não é para ser suposto dos verdadeiros crentes, como fica evidente a partir de Hebreus 6:9 ["Mas de vós, ó amados, esperamos coisas melhores, e coisas que acompanham a salvação, ainda que assim falamos]; nem é para ser suposto deles [dos verdadeiros crentes] que eles possam cair total e finalmente; deveras eles podem cair, não somente em aflições e tentações, mas também em pecado; e de um exercício cheio de vida e prazer da graça, e de um grau de estabilidade no Evangelho; mas não irrecuperavelmente: porque eles são mantidos e guardados por um cordão de três dobras, que nunca pode ser quebrado; por Deus o Pai, que os tem amado com um amor eterno, que os escolheu em Cristo, que os tem sustentado no pacto da graça, que os tem guardado pelo Seu poder e lhes dado a graça, e que irá lhes dar a glória; e pelo Filho, que Se responsabilizou por eles, que os redimiu e comprou, que ora e faz preparações no céu para eles, os quais são edificados nEle, que estão unidos a Ele e são as Suas jóias, as quais Ele preservará; e pelo Espírito Santo, cuja graça é incorruptível, cuja habitação particular é para sempre, sendo Ele mesmo o penhor e o selo da herança celestial, e que tendo começado, irá terminar a boa obra da graça: mas cair de forma a parecer pode ser suposto, e é verdade, dos muitos professos da religião; que podem cair da profissão do Evangelho que eles fizerem, e da verdade dele, e numa negação aberta dele; sim, num ódio e perseguição do que eles uma vez receberam o conhecimento externo; e assim, não alcançarão o céu, mas a condenação: pois,

renová-los novamente para arrependimento, é uma coisa impossível: por “arrependimento” não se quer dizer nem batismo de arrependimento; nem admissão à uma forma solene de arrependimento público na igreja; nem um arrependimento legal, mas um evangélico: e assim, ser “renovado” não é ser batizado novamente, mas ser restaurado novamente à igreja pelo arrependimento e absolvição; mas deve ser entendimento como sendo tanto uma renovação da alma, para o arrependimento; como também uma reforma da conversa exterior, como uma evidência dele; ou de uma renovação do exercício da graça do arrependimento; e serem renovados “novamente” ao arrependimento não supõe que estas pessoas possam ter possuído o verdadeiro arrependimento e o perdido; porque embora pessoas verdadeiramente penitentes possam perder o exercício desta graça por um tempo, todavia a graça por si mesma nunca pode ser perdida; além do mais, estes apóstatas antes descritos tiveram apenas uma demonstração exterior de arrependimento, ou seja, um arrependimento falsificado; tais como Caim, Faraó e Judas tiveram; e conseqüentemente, a renovação deles novamente para arrependimento, é para o que eles somente pareciam ter, e faziam pretensões; agora, renová-los para um arrependimento verdadeiro, do qual eles uma vez fizeram uma profissão, o apóstolo diz ser uma coisa “impossível”: o que significa que não somente é difícil; ou raro e incomum; ou inadequado e impróprio; mas é absolutamente impossível: é impossível para estes homens se renovarem para arrependimento; a renovação é a obra do Espírito Santo, e não do homem; e arrependimento é um dom de Deus, e não está no poder do homem; e é impossível para os ministros renová-los, restaurar e trazê-los de volta, pelo verdadeiro arrependimento; sim, é impossível ao próprio Deus, não através de qualquer impotência nEle, mas pela natureza do pecado que estes homens são culpados; de acordo com a descrição deles, o seu pecado é contra o Espírito Santo, pelo qual nenhum sacrifício pode ser oferecido, e para o qual não há nenhuma remissão e assim, nenhum arrependimento, porque estes dois andam juntos; e para o qual não deve ser feita oração; veja Mateus 12:32 [E, se qualquer disser alguma palavra contra o Filho do homem, ser-lhe-á perdoado; mas, se alguém falar contra o Espírito Santo, não lhe será perdoado, nem neste século nem no futuro]; e, principalmente porque renovar tais pessoas ao arrependimento é repugnante para a vontade determinada de Deus, a qual não pode ir contra Seus próprios propósitos e resoluções; e assim os judeus {1} falam do arrependimento sendo retido por Deus para Faraó, e, para o povo de Israel; do qual eles entendem Êxodo 9:16 ["Mas, deveras, para isto te mantive, para mostrar meu poder em ti, e para que o meu nome seja anunciado em toda a terra"] e dizem, que quando o santo e bendito Deus retêm o arrependimento para um pecador, bwvl lwky wnya, “ele não pode se arrepender”; mas deve morrer em sua impiedade que ele primeiro cometeu de sua própria vontade; e eles ainda observam {m} que aquele que profana o nome de Deus não depende de seu poder para o arrependimento, nem pode sua iniqüidade ser expiada no dia da expiação, ou ser removida pelo castigo severo:

visto que eles para si mesmos de novo crucificam o Filho de Deus; que é verdadeiramente e propriamente Deus, o primogênito do Pai, e de mesma natureza com Ele, em quem Ele grandemente Se deleita; este é o mais alto nome e título de Cristo; e foi por Ele mesmo asseverar que era o Filho de Deus que Ele foi crucificado; e o Seu ser põe, assim, uma virtude infinita em Seus sofrimentos e em Sua morte; e isto engrandece o pecado dos judeus, e destes apóstatas, em crucificá-Lo. Ele foi uma vez crucificado, e seria tanto impossível como desnecessário que Ele pudesse ser, propriamente falando, "crucificado de novo", ou "novamente"; é impossível porque Ele ressuscitou dos mortos, e nunca mais morrerá; é desnecessário porque Ele terminou e completou aquilo pelo que Ele sofreu a morte da cruz; mas pode-se dizer que os homens O crucificam novamente, quando, por negarem ser Ele o Filho de Deus, eles justificam a crucificação dEle por esta causa; e quando eles rebaixam e difamam a virtude do Seu sangue e sacrifício; e quando tanto pelos erros como pelas imoralidades fazem com que Ele seja blasfemado, e caluniado; e quando eles O perseguem em Seus membros: e isto pode ser dito como sendo feito "para si mesmos de novo"; não que Cristo tenha sido crucificado por eles antes, mas que eles agora O crucificam novamente; ou "com eles mesmos", em seus próprios seios e mentes, para a sua própria destruição. Agora sendo este o caso, a renovação para arrependimento se torna impossível; porque, como observado antes, o pecado que eles cometeram é imperdoável; é uma negação de Cristo, que dá o arrependimento; e aquele que assim peca deve ter chegado à uma dureza de coração na qual nenhum arrependimento é admitido; e é justo para Deus abandonar tal impenitente final, como aqueles, que conscientemente e por sua malícia e inveja crucificaram a Cristo, não recebendo nem o perdão, nem o arrependimento; e além disso, este pecado de negar que Cristo é o Filho de Deus, e o Salvador dos homens, após tanta luz e conhecimento, obstrui o caminho da salvação, a menos que Cristo seja crucificado novamente, o que é impossível; por isto a versão Síria conecta esta cláusula com a palavra "impossível", como uma precedente, ficando assim: "é impossível crucificar o Filho de Deus novamente, e O expor à vergonha"; e assim a versão Árabe. Cristo foi exposto à vergonha pública no tempo de Sua apreensão, perseguição e crucificação; e assim Ele é tratado por tais apóstatas da mesma forma como foi pelos judeus, quando Ele estava na terra; e que O caluniam como sendo um impostor e enganador, e mentem sobre as Suas doutrinas, e O expõem por suas vidas, e O perseguem em Seus santos.

{l} Maimon. Hilchot. Teshuba, c. 6. sect. 3.

{m} Vid. R. David Kimchi em Isaías xxii. 14.


Traduzido por: Felipe Sabino de Araújo Neto
23 de junho de 2004.
Cuiabá-MT