O Glorioso Corpo de Cristo

por

R. B. Kuiper

 

Capítulo 02 - A IGREJA VISÍVEL E INVISÍVEL

 

Normalmente é feita uma distinção entre a igreja visível e a igreja invisível. Tal distinção é válida e às vezes valiosa, porém, não se deve supor que há duas igrejas cristãs, uma visível e outra invisível. Há uma só igreja de Jesus Cristo, porque Ele tem um só corpo. Contudo, esta única igreja tem diferentes aspectos, entre os quais geralmente se distingue estes dois: visível e invisível.


A MEMBRESIA DA IGREJA VISÍVEL

A igreja visível consiste de todos aqueles que estão inscritos como membros da igreja. Não é difícil determinar quem são, porque seus nomes aparecem nos registros das igrejas. Com pouco esforço, podem-se saber quantos são. É certo que a exatidão não tem sido sempre a norma. Algumas igrejas praticam o mau hábito de apresentar de forma enganosa o número de sua membresia, de tal modo que a fazem parecer muito maior que o que realmente é. Tal engano não é difícil de descobrir.

Falado de forma estrita, a membresia da igreja visível coincide com a da igreja invisível. E, visto que a igreja invisível consiste unicamente dos regenerados, somente eles têm o direito de serem contados como membros da igreja visível. Usando uma expressão bíblica, pode-se dizer que somente os regenerados são da igreja visível (1 João 2:19). É certo e inegável que pode haver, e de fato há, pessoas não regeneradas na igreja visível. Pode-se dizer, então, que a igreja é composta de ambos, crentes e incrédulos, alguns verdadeiros cristãos e outros cristãos nominais. O círculo íntimo dos doze apóstolos, que era o núcleo da igreja do Novo Testamento, incluía ao traidor Judas Iscariotes. A igreja de Jerusalém, sobre a qual tinha sido derramado recentemente o Espírito Santo, abrigou em seu seio Ananias e Safira, piedosos fraudulentos. Ser membro da igreja visível não garante a vida eterna. Há muita razão para temer, especialmente nestes dias de extrema frouxidão nos requisitos para ser membro da igreja, e a negligência quase total no exercício da disciplina eclesiástica, que os não salvos dentro da igreja visível não são poucos.

A MEMBRESIA E A GLÓRIA DA IGREJA INVISÍVEL

A igreja invisível, por outro lado, é composta exclusivamente daqueles que, pela graça do Espírito Santo, nasceram de novo. Não é difícil entender o porque este aspecto da igreja deve ser caracterizado como invisível. É impossível para nós afirmar com certeza quem são e quem não são regenerados. Somente o Deus onisciente pode fazer tal distinção. De vez em quando encontramos um pastor que diz poder indicar, sem equívoco, quem são "os que nasceram de novo" em sua congregação, porém, tal afirmação é arrogante e altiva. Lutero tinha razão quando afirmou que ao chegar ao céu esperava se deparar com duas grandes surpresas: primeira, que não veria muitos dos quais ele estava seguro que estariam ali e, segunda, que encontraria muitos que nunca teria imaginado ver ali. É bom recordar também o que ele adicionou, que a maior de todas as maravilhas seria que o indigno Martinho Lutero estaria ali.

O próprio fato de que a igreja invisível consiste exclusivamente de pessoas regeneradas, se deduz que este aspecto da igreja é certamente glorioso. Cada um dos membros dela foi "tirado da potestade das trevas, e transportado para o reino do seu Filho amado" (Colossenses 1:13). De todos seus membros pode-se dizer que "eram trevas, mas agora sois luz no Senhor" (Efésios 5:8). "Como pedras vivas", eles são "edificados como casa espiritual e sacerdócio santo..." (1 Pedro 2:5). Eles são lavados, são santificados, são justificados no nome do Senhor Jesus Cristo e pelo Espírito de Deus (1 Coríntios 6:11). Juntos constituem o corpo de Cristo (Colossenses 1:18). Certamente, eles não alcançaram a perfeição; contudo, eles têm agora a vitória sobre o pecado e o diabo através de Jesus Cristo, seu Senhor. Nele [Cristo] eles são perfeitos.


A GLÓRIA DA IGREJA VISÍVEL

Porém, o que se pode dizer da igreja visível? Ao estar composta, como já se explicou, de crentes e não crentes, sua glória é necessariamente menor que a da igreja invisível. Isto é muito triste. No curso da história isto tem sido um problema muito molesto. Os líderes da igreja têm tido longas e duras lutas para determinar quais medidas deveriam ou não ser aplicadas para remediar a impureza dentro da igreja visível. Nunca houve unanimidade de critério. Até hoje está muito longe de haver. Podem ser citados três critérios distintos:

O critério restrito. Através da história tem havido grupos dentro da igreja cristã que insistiram na idéia de uma "igreja pura". Sua característica era limitar a membresia da igreja unicamente àqueles que tinham consciência de terem nascido de novo e que podiam dar uma evidência clara de sua conversão. Estes mesmos julgaram necessário e possível excluir os não regenerados da igreja. Os novacianos do século III e seguintes, e os seguidores de John Nelson Darby em tempos recentes, pertencem a este grupo. Este ponto de vista teve considerável aceitação no noroeste dos Estados Unidos. É um ponto de vista extremo que beira o fanatismo. Põe uma ênfase indevida na experiência religiosa subjetiva. Ignora a incapacidade do homem para determinar quem são regenerados e quem não o são. Ao invés de resolver o problema ocasionado pela impureza da igreja visível, a destrói com outro problema.

O critério amplo. Outros têm ido para o outro extremo. Têm adotado o ponto de vista liberal conhecido como a política do "laissez-faire", ou "laissez-passer" (deixar fazer, deixar passar) e não se importam com o problema. Como conseqüência, não exercem nenhuma disciplina eclesiástica. Apelam freqüentemente à parábola do Trigo e do Joio (Mateus 13:24-30, 36-43) para apoiar sua posição. Interpretam - ou melhor, mal-interpretam - tal parábola para ensinar que a igreja não deve tentar separar o joio de entre o trigo. Os aderentes deste ponto de vista são excessivamente numerosos em nossos dias. Com efeito, deixariam desaparecer a pureza e, portanto, a glória da igreja visível por descuido. Mais tarde, nesta série de estudos, voltaremos a considerar a forma mais completa dos ensinamentos desta parábola. Por enquanto, basta dizer que repetidas vezes a Palavra de Deus ordena, sem equívoco, à igreja lançar fora os membros indignos, e é um princípio sadio de hermenêutica que uma determinada passagem da Escritura deva ser interpretada à luz da Escritura em sua totalidade.

O critério bíblico. Há um terceiro ponto de vista. Mostra um equilíbrio muito razoável e se encontra plenamente na infalível Palavra de Deus. Por um lado, admite que a igreja visível não pode se conservar completamente pura. Seus oficiais mais fiéis, mais piedosos e mais sábios, estão muito longe de serem infalíveis em seu afã de distinguir entre o trigo e o joio. Porém, por outro lado, insiste com firmeza que a igreja tem o sagrado dever de guardar-se tão pura como seja humanamente possível, e para conseguir este propósito deve exercer a disciplina e, se for necessário, até a ponto da excomunhão. Acaso não ordenou o Senhor que, se um irmão peca e recusa prestar atenção à admoestação da igreja, deve ser tido como "gentil e publicano" (Mateus 18:17)?

A conclusão desta parte do estudo é que a igreja visível é gloriosa à medida que reflete a igreja invisível. A visibilidade e a invisibilidade são dois aspectos da única igreja de Jesus Cristo. Por essa simples e determinante razão, a igreja visível deve ser uma manifestação da igreja invisível. Deve-se admitir, não obstante, que a semelhança de uma à outra nunca é perfeita. Porém, em algumas ocasiões, a igreja visível não é mais do que uma simples caricatura da igreja invisível; então, não é gloriosa. Em muitíssimas outras ocasiões, a igreja reflete de uma forma mui tênue a igreja invisível; então, sua glória é opaca. Pela graça de Deus há também ocasiões nas quais a igreja visível reflete com clareza a igreja invisível; tal igreja é certamente gloriosa.

Disto segue-se que a glória da igreja visível não consiste em coisas externas tais como edifícios suntuosos, janelas de vidros coloridos artisticamente decoradas, mobiliário finíssimo, vestimentas dignificadas e pregadores de muito talento. Uma igreja pode ter todas estas coisas e, todavia, não ser gloriosa, e, portanto, indigna de ser chamada igreja de Cristo. Uma grande membresia tampouco indica necessariamente uma igreja gloriosa. Tais coisas podem fazer patente sua vanglória.

A glória da igreja visível se reflete em seus membros, e consiste em sua lealdade a Jesus Cristo. Tal igreja é gloriosa quando reconhece e confessa a Cristo como seu Salvador e Cabeça, e se manifesta ser o corpo de Cristo.


Tradução livre: Felipe Sabino de Araújo Neto
Cuiabá-MT, 18 de Julho de 2004