A Obra do Espírito Santo

por

Abraham Kuyper, D.D., LL.D

 

VOLUME UM

A Obra do Espírito Santo na Igreja como um Todo

Introdução

 

 

". . .o que, porém, desobedece ao Filho não verá a vida, mas sobre ele permanece a ira de Deus." [Jo 3:36]; este deve ser o único ponto de vista verdadeiro.

Se subscrevermos esta terrível declaração; não havendo perdido nosso rumo no labirinto de uma tão chamada imortalidade condicional, a qual realmente aniquila o homem, então como podemos sonhar com um estado de felicidade perfeita para os eleitos, ao mesmo tempo em que os perdidos estão sendo atormentados pelos vermes que não morrem? Não há mais amor ou compaixão nos nossos corações? Podemos divertirmo-nos por um único momento, desfrutando da felicidade do céu, enquanto o fogo não é extinto e nenhuma tocha acesa é levada para iluminar a escuridão exterior?

Fazer da felicidade suprema dos eleitos o fim de todas as coisas, enquanto Satã ainda rosna no poço sem fim, é aniquilar o próprio pensamento de tal felicidade. O amor sofre não somente quando um ser humano sente dor, mas até mesmo quando um animal está sofrendo; quanto mais quando um anjo range seus dentes em tortura, e que anjo lindo e glorioso como Satã o era, antes da sua queda. E todavia a própria menção de Satã inconscientemente tira dos nossos corações o incômodo da identificação com a dor, com o sofrimento, e mesmo a compaixão; pois sentimos imediatamente que o conhecimento do sofrimento de Satã no inferno não faz o mínimo apelo para a nossa compaixão. Pelo contrário, acreditar que Satã existe não significaria, nem na mais absoluta desgraça, uma ferida no nosso profundo senso de justiça.

E este é o ponto: conceber a bem-aventurança de uma alma que não esteja em união absoluta com Cristo é loucura profana. Ninguém a não ser Cristo é abençoado; e homem nenhum pode ser abençoado a não ser aquele que é um, vitalmente, com Cristo - Cristo nele e ele em Cristo. De igual forma é profanamente louco imaginar um homem ou um anjo perdido no inferno a menos que ele identifique-se com Satã, tendo tornado-se moralmente um com ele. A concepção de uma alma no inferno, alma esta que não seja uma com Satã é a crueldade mais horrível, da qual cada coração nobre recua-se horrorizado.

Cada filho de Deus é furioso com Satã; ele lhe é simplesmente intolerável. No seu íntimo ser (conquanto infiel possa ser a sua natureza) há uma inimizade amarga, ódio implacável contra Satã. Daí que satisfaz a nossa consciência saber que Satã encontra-se no poço sem fundo. Encorajar no coração um apelo por ele, seria traição contra Deus. Agonia profunda pode traspassar, sua alma como uma adaga pela indizível profundidade da sua queda; não obstante Satã, como o autor de tudo o que é demoníaco e malicioso, que feriu o calcanhar do Filho de Deus, ele nunca pode mover os nossos corações. . . ."


I. Tratamento Cuidadoso é Requerido.

"...que vos dá o Seu Espírito Santo." - I Tessaolicenses 4:8.

A necessidade de direção divina nunca é mais profundamente sentida do que quando alguém se propões a instruir quanto à obra do Espírito Santo - indizivelmente suave é o tema, tocando os mais íntimos segredos de Deus e os mais profundos mistérios da alma.

Nós protegemos instintivamente a intimidade de parentes e amigos de observação intrusa, e nada fere mais o coração sensível do que a exposição rude daquilo que não deveria ser revelado, do que é lindo somente no retiro do seio familiar. Maior delicadeza é apropriada para nossa abordagem do santo mistério da intimidade da nossa alma com o Deus vivo. De fato, dificilmente podemos encontrar palavras para expressar, pois toca um território muito abaixo da vida social onde a linguagem é formada e a utilização determina o significado das palavras.

Vislumbres desta vida têm sido revelados, mas a parte maior tem sido oculta. É como a vida Dele que não clamou, nem levantou nem fez com que a Sua voz fosse ouvida na rua. E que o que foi ouvido de sua voz foi mais sussurrado que falado-um suspiro da alma, macio mas sem voz, ou antes uma irradiar do próprio calor abençoado da alma. Algumas vezes a quietude foi quebrada por um clamor ou mesmo um grito; mas houve principalmente um silencioso trabalhar, um firme ministrar de reprimenda ou um suave conforto por aquele Ser maravilhoso da Trindade Santa, a quem gaguejamos ao adorar como o Espírito Santo.

Experiência espiritual não provê base para instrução; pois tal experiência baseia-se no que ocorreu na nossa própria alma. Isto certamente tem valor, influência, no assunto. Mas o que garante a fidelidade e a exatidão na interpretação de tal experiência? E de novo, como podemos distinguir suas várias origens - de nós mesmos, do ambiente externo, ou do Espírito Santo? A dupla questão sempre existirá: A nossa experiência é compartilhada por outros, e não pode ser corrompida pelo que em nós é pecaminoso e espiritualmente anormal?

Embora não exista assunto no tratamento do qual a alma se incline mais a tirar conclusões baseadas na sua própria experiência, não há nenhum que demande mais que a nossa única fonte de conhecimento seja a Palavra dada a nós pelo Espírito Santo. Depois disso, a experiência humana pode ser ouvida, atestando o que os lábios confessaram; mesmo concedendo vislumbres dos mistérios gloriosos do Espírito, os quais são inenarráveis e acerca dos quais, portanto, não há narrativas nas Escrituras. Mas tal não pode constituir-se em base para instrução a outros.

A Igreja de Cristo, seguramente, apresenta abundante expressão espiritual em hinos e cânticos espirituais, em homilias de exortação e de consolação; em confissão sóbria de almas quase que perto de serem devastadas pelas inundações de perseguição e de martírio. Mas mesmo isto não pode ser o alicerce do conhecimento relativo à obra do Espírito Santo.

As razões a seguir o mostrarão:

Primeiro: A dificuldade de diferenciarmos entre homens e mulheres cuja experiência consideramos pura e saudável; e aqueles cujo testemunho colocamos de lado como forçados e corrompidos. Lutero falava freqüentemente da sua experiência, assim como Caspar Schwenkfeld, o perigoso fanático. Mas o que é a nossa garantia para aprovar os pronunciamentos do grande Reformador e alertar contra os pronunciamentos do nobre Silesiano? Pois que evidentemente, os testemunhos dos dois homens não podem ser igualmente verdadeiros. Lutero condenava como uma mentira o que Schwenkfeld recomendava como realização altamente espiritual.


Segundo: O testemunho de crentes apresenta somente os contornos difusos da obra do Espírito Santo. As suas vozes são fracas como se oriundas de uma região desconhecida; e o seu discurso irregular é inteligível somente quando nós, iniciados pelo Santo Espírito, podemos interpretá-lo a partir da nossa própria experiência. Do contrário escutamos, mas não conseguimos compreender; ouvimos, mas recebemos informação alguma. Somente aquele que tem ouvidos pode ouvir o que o Espírito tem falado secretamente a estes filhos de Deus.

Terceiro: Entre aqueles heróis Cristãos cujo testemunho recebemos, alguns falam claramente, verdadeiramente, vigorosamente; outros confusamente como se estivessem tateando no escuro. E de onde vem a diferença? Uma análise mais próxima mostra que os primeiros tomaram emprestado o seu estímulo, a sua ligeireza, da Palavra de Deus, enquanto que os outros tentaram acrescentar à ela algo novo, que prometia ser grande, mas que tratava-se somente de bolhas, que se dissolveram rapidamente sem deixar nenhum traço.

Último: quando, por outro lado, neste tesouro de testemunhos Cristão encontramos algumas verdades melhor desenvolvidas, mais claramente expressas, mais talentosamente ilustradas do que nas Escrituras; ou, em outras palavras, quando o minério da Escritura Sagrada foi fundido no cadinho da angústia da Igreja de Deus, e moldado em formas mais permanentes, nós então sempre descobrimos em tais formas certos tipos estáveis. A vida espiritual expressa-se diferentemente entre esquimós de alma sincera do que entre Franceses de coração leve. O Escocês exterioriza os sentimentos do seu seu coração transbordante de uma forma diferente da que faz o emotivo Alemão.

Sim, ainda mais impressionante, um pregador obteve uma influência marcada sobre as almas dos homens numa certa localidade; um exortador conquistou os corações do povo; ou uma mãe em Israel proclamou sua palavra entre os seus vizinhos; e o que descobrimos? Que em toda aquela região não encontramos outras expressões de vida espiritual senão aquelas cunhadas por aquele pregador, por aquele exortador, por aquela mãe em Israel. Isto nos mostra que a linguagem, as próprias palavras e formas nas quais a alma se expressa, são em muito emprestadas, e raramente brotam a partir da consciência espiritual de cada um; e destarte não asseguram a exatidão da interpretação que fazem da experiência da alma.

E quando heróis tais como Agostinho, Tomás, Lutero, Calvino e outros nos apresentam algo impressionantemente original, encontramos então dificuldade para entender seu testemunho forte e vigoroso. Pois a individualidade desses vasos escolhidos é tão marcada que, a menos que detidamente examinados e testados, não podemos compreende-los totalmente.

Tudo isto nos mostra que a fonte de conhecimento relativo à obra do Espírito Santo, que num julgamento superficial, deveria verter copiosamente desde os poços profundos da experiência Cristã, trata-se de não mais que poucas gotas.

Assim é que para o conhecimento do assunto nós devemos retornar à maravilhosa Palavra de Deus, a qual como um mistério dos mistérios permanece ainda incompreendida na Igreja, aparentemente morta como uma pedra, mas uma pedra que produz fogo. Quem não viu suas faíscas cintilantes? Onde está o filho de Deus cujo coração não foi inflamado pelo fogo da Palavra de Deus?

Mas a Bíblia direciona pouca luz para a obra do Espírito Santo. Como prova, veja o quanto é dito no Velho Testamento sobre o Messias e o quão comparativamente pouco sobre o Espírito Santo. O pequeno círculo de santos, Maria, Simeão, Ana, João, que, no vestíbulo do Novo Testamento, puderam perscrutar o horizonte do Antigo Testamento com um vislumbre - quanto eles sabiam da Pessoa do Salvador Prometido, e quão pouco da obra do Espírito Santo! Mesmo incluindo todos os ensinos do Novo Testamento, quão fraca e difusa é a luz jogada sobre a obra do Espírito Santo, comparada com aquela sobre a obra de Cristo!

E isto é muito natural; e não poderia ser diferente, pois Cristo é o Verbo feito Carne, tendo forma visível e bem definida, na qual reconhecemos a nossa própria, aquela de um homem, cujo perfil segue a direção do nosso próprio ser. Cristo pode ser visto e ouvido; uma vez as mãos dos homens puderam até mesmo tocar a Palavra da Vida. Mas o Espírito Santo é totalmente diferente. Dele nada aparece em forma visível; Ele nunca sai para fora do espaço intangível. Flutuando, indefinido, incompreensível, Ele permanece um mistério. Ele é como o vento! Ouvimos o seu som, mas não podemos dizer de onde vem nem para onde vai. O olho não pode vê-lo, o ouvido não pode ouvi-lo, muito menos a mão tocá-Lo. Há, na realidade, sinais simbólicos e aparições: uma pomba; línguas de fogo; o som de um vento forte, impetuoso; o respirar dos lábios santos de Jesus; afagar de mãos, um falar em língua estrangeira. Mas de tudo isto nada continua, nada perdura, nem mesmo o sinal de uma pegada. E depois de os sinais haverem desaparecido, o Seu ser permanece tão enigmático, misterioso e distante como nunca. Então quase toda a instrução divina relativa ao Espírito Santo é, da mesma forma, obscura, somente inteligível tanto quanto ele a faça clara aos olhos da alma favorecida.

Sabemos que o mesmo pode ser dito da obra de Cristo, cujo importe real é compreendido solenemente pelos espiritualmente iluminados, que percebem as maravilhas eternas da Cruz. E, ainda assim, que fascinação maravilhosa existe mesmo para uma criancinha, na estória da manjedoura em Belém, da Transfiguração, do Julgamento e do Gólgota. Quão facilmente podemos prender seu interesse falando-lhe do Pai celeste que enumera todos os fios de cabelo de sua cabeça, veste os lírios do campo, alimentas os pardais no telhado. Mas é possível prender a sua atenção na Pessoa do Espírito Santo? O mesmo é verdade quanto aos não regenerados: eles não se interessam muito para falar do Pai celeste; muitos falam sentimentalmente da Manjedoura e da Cruz. Mas falam eles alguma vez do Espírito Santo? Eles não podem; o assunto não tem nenhum significado para eles. O Espírito de Deus é tão santamente sensível que Ele se retira do olhar irreverente dos não iniciados.

Cristo revelou-Se inteiramente. Foi o amor e a compaixão divina do Filho. Mas o Espírito Santo não o fez. A Sua fidelidade salvadora, é encontrar-nos somente nos lugares secretos do Seu amor.

Isto nos traz outra dificuldade. Por causa do seu caráter não revelado a Igreja tem ensinado e estudado a obra do Espírito muito menos que a de Cristo; e tem obtido muito menos clareza na sua discussão teológica. Nós podemos dizer, desde que Ele deu a Palavra e iluminou a Igreja, que Ele falou muito mais do Pai e do Filho do que de Si próprio; não como se fosse egoísmo falar mais de Si mesmo-pois egoísmo pecaminoso é algo inconcebível para Ele-mas que ele deve revelar o Pai e o Filho antes que Ele pudesse levar-nos a um discipulado mais íntimo consigo.

Esta é a razão por que há tão pouca pregação sobre o assunto, que livros em Teologia Sistemática raramente o tratem separadamente; que o apelo e a animação do Pentecostes (a festa do Espírito Santo) às igrejas seja muito menor que o do Natal ou da Páscoa, que infelizmente muitos ministros, de outra forma fiéis, adiantem muitos pontos de vista errados sobre o assunto-um fato do qual tanto eles como as igrejas parecem não ter consciência.

Assim é que uma discussão especial deste tema merece atenção.

Desnecessário dizer que requer grande cautela e tratamento delicado. É a nossa oração, que a discussão possa revelar tão grande cuidado e cautela como exigido; e que os nossos leitores Cristãos possam receber nossos débeis esforços com aquele amor que muito sofreu.


II. Dois Pontos de Vista.

"Pela palavra do Senhor foram feitos os céus, e todo o exército deles pelo sopro da sua boca." Sl 33:6

A obra do Espírito santo que mais nos diz respeito é a renovação dos eleitos à imagem de Deus. E isto não é tudo. Cheira mesmo a egoísmo e irreverência dar tanta proeminência a este ponto, como se fosse a Sua única obra.

Os redimidos não são santificados sem Cristo, que foi feito para a santificação deles; assim é que a obra do Espírito deve incluir também a Encarnação do Verbo e a obra do Messias. Mas a obra do Messias envolve trabalho preparatório nos Patriarcas e Profetas de Israel; e mais tarde a atividade nos Apóstolos, i.e., o anunciar da Palavra Eterna na Escritura. Do mesmo modo, esta revelação envolve as condições da natureza do homem e do desenvolvimento histórico da raça; assim é diz respeito ao Espírito Santo a formação da mente humana e o desdobrar do espírito de humanidade. Por último, a condição do homem depende da condição da terra; as influências exercidas pelo sol, a lua e as estrelas; pelos movimentos elementares; e não menos pelas ações de espíritos, sejam eles anjos ou demônios de outras esferas. Portanto, a obra do Espírito deve compreender inteiramente as multidões do céu e da terra.

Para evitar uma idéia mecânica da obra do Espírito Santo, como se começasse e terminasse ao acaso, como uma tarefa numa fábrica; ela não pode ser limitada nem determinada, até abranger a todas as influências que afetam a santificação da Igreja. O Espírito Santo é Deus, portanto soberano; portanto Ele não pode depender destas influências, mas as controla completamente. Por isso Ele deve ser capas de operá-las; então a sua obra deve ser honrada por todas as multidões do céu, no homem e na sua história, na preparação da Escritura, na Encarnação do Verbo, na salvação dos eleitos.

Mas não é tudo. A salvação final dos eleitos não é o último elo na cadeia de eventos. A hora que completa a sua redenção será a hora do acerto de contas para toda a criação. A revelação Bíblica do retorno de Cristo não é mera cerimônia encerrando a dispensação preliminar, mas o evento grande e notável, a consumação de tudo o anterior, a catástrofe na qual tudo o que existe recebe o merecido.

Naquele grande e notável dia, com comoção e terrível mudança, os elementos serão combinados em um novo céu e uma nova terra, i.e., a glória e a beleza real do propósito original de Deus emergirão das chamas daqueles elementos. Então toda doença, toda miséria, toda praga, tudo o que não for santo, cada demônio, cada espírito voltado contra Deus serão malditos verdadeiramente. Isto é, tudo o que é pecaminoso receberá sua paga, i.e. um mundo no qual o pecado tem o controle absoluto. Pois o que é o inferno senão um território no qual a pecaminosidade opera sem qualquer restrição no corpo e na alma? Então a personalidade do homem recobrará a unidade destruida pela morte; e Deus proporcionará aos Seus redimidos a realização daquela santa esperança confessada na terra, em meio a conflitos e aflições, nas palavras: "Eu creio na ressurreição do corpo". Então Cristo triunfará sobre cada poder de Satã, do pecado e da morte; e receberá o que Lhe é devido como o Cristo. Então o joio será separado do trigo; a miscigenação acabará, e a enxada do povo de Deus será vista; o mártir estará arrebatado e o que o martirizou estará no inferno. Então, também, o véu será tirado da Jerusalém que está no alto. Desaparecerão as nuvens que impediam-nos de ver que Deus estava certo em todos os Seus julgamentos; então a sabedoria e a glória de todos os Seus conselhos serão justificadas em ambos, por Satã e nos seus, no poço; e por Cristo e pelos Seus redimidos na cidade do nosso Deus, e o Senhor será glorioso, em todas as Suas obras.

Assim, radiantes da santificação dos redimidos, nós veremos a obra do Espírito Santo envolvendo em eras passadas a Encarnação, a preparação das Escrituras, a formação do homem e do universo; e, estendendo-se eras adentro, o retorno do Senhor, o julgamento final e aquele último cataclisma que separará o céu do inferno para sempre.

Este ponto de vista nos impede visualizar a obra do Espírito Santo em separado da salvação dos redimidos. O nosso horizonte espiritual expande-se; pois a coisa mais importante não é que os eleitos sejam totalmente salvos, mas que Deus seja justificado em todas as Suas obras e glorificado através do julgamento. Para todos que reconhecem que "...o que, porém, desobedece ao Filho não verá a vida, mas sobre ele permanece a ira de Deus."[Jo 3:36], este deve ser o único ponto de vista verdadeiro.

Se subscrevermos esta terrível declaração; não havendo perdido nosso rumo no labirinto de uma tão chamada imortalidade condicional, a qual realmente aniquila o homem, então como podemos sonhar com um estado de felicidade perfeita para os eleitos, ao mesmo tempo em que os perdidos estão sendo atormentados pelos vermes que não morrem? Não há mais amor ou compaixão nos nossos corações? Podemos divertirmo-nos por um único momento, desfrutando da felicidade do céu, enquanto o fogo não é extinto e nenhuma tocha acesa é levada para iluminar a escuridão exterior?

Fazer da felicidade suprema dos eleitos o fim de todas as coisas, enquanto Satã ainda rosna no poço sem fim, é aniquilar o próprio pensamento de tal felicidade. O amor sofre não somente quando um ser humano sente dor, mas até mesmo quando um animal está sofrendo; quanto mais quando um anjo range seus dentes em tortura, e que anjo lindo e glorioso como Satã o era, antes da sua queda. E todavia a própria menção de Satã inconscientemente tira dos nossos corações o incômodo da identificação com a dor, com o sofrimento, e mesmo a compaixão; pois sentimos imediatamente que o conhecimento do sofrimento de Satã no inferno não faz o mínimo apelo para a nossa compaixão. Pelo contrário, acreditar que Satã existe não significaria, nem na mais absoluta desgraça, uma ferida no nosso profundo senso de justiça.

E este é o ponto: conceber a bem-aventurança de uma alma que não esteja em união absoluta com Cristo é loucura profana. Ninguém a não ser Cristo é abençoado; e homem nenhum pode ser abençoado a não ser aquele que é um, vitalmente, com Cristo - Cristo nele e ele em Cristo. De igual forma é profanamente louco imaginar um homem ou um anjo perdido no inferno a menos que ele identifique-se com Satã, tendo tornado-se moralmente um com ele. A concepção de uma alma no inferno, alma esta que não seja uma com Satã é a crueldade mais horrível, da qual cada coração nobre recua-se horrorizado.

Cada filho de Deus é furioso com Satã; ele lhe é simplesmente intolerável. No seu íntimo ser (conquanto infiel possa ser a sua natureza) há uma inimizade amarga, ódio implacável contra Satã. Daí que satisfaz a nossa consciência saber que Satã encontra-se no poço sem fundo. Encorajar no coração um apelo por ele, seria traição contra Deus. Agonia profunda pode traspassar, sua alma como uma adaga pela indizível profundidade da sua queda; não obstante Satã, como o autor de tudo o que é demoníaco e malicioso, que feriu o calcanhar do Filho de Deus, ele nunca pode mover os nossos corações.

Por que? Qual é a única, profunda razão porque com relação a Satã compaixão é morta, ódio profundo é correto, e amor seria vituperável? Não é porque nós nunca podemos olhar para Satã sem nos lembrarmos que ele é o adversário do nosso Deus, o inimigo mortal do nosso Cristo? Não fosse por isso, nós poderíamos chorar por ele. Mas agora a nossa devoção, a nossa lealdade, a nossa fidelidade a Deus nos ensinam que tal soluçar seria traição contra o nosso Rei.

Somente podemos situarmo-nos corretamente quanto a este assunto, se medirmos o fim de todas as coisas pelo que pertence a Deus. Nós podemos identificar a questão dos redimidos e dos perdidos a partir do ponto de vista correto, somente quando subordinamos ambos ao que é mais alto, i.e. a glória de Deus. Avaliados por Ele, nós podemos imaginar os redimidos num estado de êxtase, entronados, todavia não em perigo de orgulho; uma vez que tal assim o foi, e o é, e o há de ser somente por Sua graça soberana. Mas também avaliados por ele, nós podemos pensar naqueles identificados com Satã, infelizes e miseráveis, sem uma vez sequer ferir o senso de justiça no coração do que se mantém ereto; pois inclinação piedosa para com Satã é impossível para aquele que ama a Deus com profundo e sempiterno amor. E tal é o amor dos redimidos.

Considerada a partir deste ponto de vista tão mais superior, a obra do Espírito Santo assume necessariamente um aspecto diferente. Agora não mais podemos dizer que a Sua obra é a santificação dos eleitos, com tudo o que precede e o que se segue; mas confessamos que é a justificação do conselho de Deus com tudo o que lhe diz respeito, desde a criação e através das eras, até a vinda do Senhor Jesus Cristo, e adiante por toda a eternidade, ambos, no céu e no inferno.

A diferença entre estes dois pontos de vista pode ser facilmente compreendida. De acordo com o primeiro, a obra do Espírito Santo é somente subordinada. Infelizmente o homem está caído; daí que ele está doente, infetado. Desde que ele é impuro e profano, sujeito mesmo à própria morte, o Espírito Santo deve purificá-lo e santificá-lo. Isto implica, primeiro, que não tivesse o homem pecado o Espírito Santo não teria tido nenhuma obra. Segundo, que quando a obra da santificação está completa, Sua atividade cessará. De acordo com o ponto de vista correto, a obra do Espírito Santo é contínua e perpétua, iniciando-se com a criação, continuando por toda a eternidade, havendo começado mesmo antes que o primeiro pecado aparecesse.

Pode ser objetado que há algum tempo atrás o autor opôs-se de forma enfática à idéia que Cristo teria vindo ao mundo mesmo se o pecado não houvesse adentrado nele; e que agora ele afirma com igual ênfase que o Espírito Santo teria operado no mundo e no homem, mesmo se este último houvesse permanecido sem pecado.

A resposta é muito simples. Se Cristo não houvesse aparecido em Sua capacidade de Messias, Ele teria aparecido igualmente, como o Filho, como a Segunda Pessoa na Divindade, a Sua própria esfera divida de ação, vendo que todas as coisas consistem através dEle. Ao contrário, se a obra do Espírito Santo estivesse confinada à santificação dos redimidos, Ele seria absolutamente inativo se o pecado não houvesse adentrado no mundo. E desde que isto seria o mesmo que uma negação da Sua Divindade, não pode ser tolerado nem por um momento.

Por ocupar este ponto de vista superior, nós aplicamos à obra do Espírito Santo os princípios fundamentais das igrejas Reformadas: "Que todas as coisas devem ser medidas pela glória de Deus."


III. As Obras Interiores e Exteriores de Deus.

"...e todo o exército deles pelo sopro da sua boca." Salmo 33:6

Os teólogos mais completos esclarecidos dos períodos mais florescentes da Igreja costumavam distinguir entre as obras de Deus, interiores e exteriores.

A mesma distinção existe na natureza, até certo ponto. O leão vigiando sua presa difere em muito do leão descansando entre seus filhotes. Observe o olhar ardente, a cabeça erguida, os músculos retesados e a respiração acelerada. É possível notar que o leão, bote armado, está em atividade intensa. Ainda assim a ação agora é somente contemplação. O calor e a excitação, a tensão nervosa, estão todos dentro. Algo terrível está prestes ser feito, mas ainda encontra-se sob contenção, até que ele atire-se com rugido trovejante sobre sua vítima inocente, enterrando suas garras profundamente na carne trêmula.

Vemos a mesma distinção numa forma mais fina, entre os homens. Quando uma tempestade furiosamente ataca o mar, e a sorte dos barcos de pesca que não estão na praia, ainda esperados voltarem com a maré é, incerta, a mulher de um pescador, aflita senta-se no topo de uma duna na praia, esperando e observando em suspense mudo. Enquanto espera, o seu coração e a sua alma lutam em prece; seus nervos estão tensos, seu sangue corre rápido, e sua respiração quase que presa. Todavia não há nenhuma ação exterior; somente a luta interna. Mas quando do regresso intacto dos barcos, quando ela vê o seu, seu coração incomodado encontra alívio num pranto de alegria.

Ou, tirando exemplos dos caminhos mais simples da vida, compare o estudante, o acadêmico, o inventor idealizando sua nova invenção, o arquiteto formando os seus planos, o general avaliando suas oportunidades, o marinheiro resoluto escalando o mastro do seu navio, ou o ferreiro erguendo a marreta para bater no aço flamejante sobre a bigorna com força muscular concentrada. Julgando superficialmente, alguém poderia dizer que o ferreiro e o marinheiro trabalham, mas os homens do aprendizado são preguiçosos. Todavia aquele que olha por sob a superfície sabe melhor que isso. Pois aqueles homens aparentemente não desenvolvem nenhum trabalho manual, sua labuta é com o cérebro, nervos e sangue; todavia tais órgãos são mais delicados que a mão ou o pé, seu trabalho interno, invisível é muito mais exaustivo. Com o seu esforço o ferreiro e o marinheiro são retratos de saúde, enquanto que os homens de força mental, aparentemente ociosos entre os seus papéis e documentos, empalidecem-se de exaustão, sua vitalidade sendo quase que totalmente consumida pelo seu esforço intenso.

Aplicando esta distinção sem as suas limitações humanas às obras do Senhor, vemos que as obras exteriores de Deus têm o seu começo quando Deus criou os céus e a terra; e que antes daquele momento que marca o nascimento do tempo, nada existia exceto Deus operando em Si mesmo. Daí esta operação de duas fases: A primeira, externamente manifesta, conhecida por nós nos atos da criação, sustentação e direcionamento de todas as coisas-atos que, comparados com aqueles da eternidade, parecem ter começado somente ontem; pois o que são milhares de anos na presença das eras eternas? A segunda, mais profunda, mais rica, mais completa, ainda não manifestada, oculta nEle, a qual nós portanto designamos interiores.

Embora estas duas operações possam dificilmente serem separadas - pois nunca houve uma que fosse manifestada sem que primeiro não fosse completada interiormente - todavia a diferença é fortemente marcada e facilmente reconhecida. As obras interiores de Deus dizem respeito à eternidade; as obras exteriores de Deus dizem respeito ao tempo. A primeira precede, a última segue: A fundação do que torna-se visível encontra-se naquilo que permanece invisível. A luz em si mesma está oculta, é somente a radiação que aparece.

As Escrituras Sagradas, falando das obras interiores de Deus, dizem: "O conselho do Senhor permanece para sempre, e os intentos do seu coração por todas as gerações."[Salmo 33:11]. Desde que em Deus coração e pensamento (conselho, N.T.) não têm existência em separado, mas a Sua Essência única pensa, sente e determina; aprendemos desta significativa passagem que o Ser de Deus opera em Si mesmo desde toda a eternidade. Isto responde à pergunta tola e muitas vezes repetida, "O que fazia Deus antes que Ele criasse o universo?" a qual é tão irracional quanto perguntar o que o pensador fazia antes de expressar os seus pensamentos, ou o que fazia o arquiteto antes de construir a casa!

As obras interiores de Deus, as quais são de eternidade a eternidade, não são insignificantes, mas excedem as Suas obras exteriores em profundidade e força, como o pensamento do estudante e a angústia do sofredor excedem em intensidade as suas expressões, seus pronunciamentos. "Se pudesse ao menos chorar", diz o aflito, "quão mais facilmente poderia suportar minha amargura!" E o que são as lágrimas senão a expressão exterior da tristeza, aliviando a dor e a pressão do coração? Ou pense na mãe carregando seu filho no útero, antes do parto. É dito do decreto de que ele "produz efeito" (Sofonias 2:2), o que implica que o fenômeno é somente o resultado da preparação oculta aos olhos, mas mais real que a produção, e sem a qual não haveria nenhum efeito.

Assim a expressão dos nossos teólogos antigos é justificada, e é patente a diferença entre as obras interiores e as exteriores.

Semelhantemente as obras interiores de Deus são as atividades do Seu Ser, sem a distinção de Pessoas; enquanto as Suas obras exteriores admitem e até determinado ponto demandam esta distinção: por exemplo, a comum e bem conhecida distinção da obra do Pai como Criador, da obra do Filho como Redentor e da obra do Espírito como Santificador relacionam-se somente com as obras exteriores de Deus. Enquanto que estas operações-criação, redenção e santificação-estão ocultas nos pensamentos do Seu coração, no Seu conselho e Seu Ser; é o Pai, Filho e Espírito Santo quem cria, é o Pai, o Filho e o Espírito Santo quem redime e é o Pai, o Filho e o Espírito Santo quem santifica, sem qualquer divisão ou distinção de atividades. Os raios de luz ocultos no sol são invisíveis e indistintos até que se irradiem; também no Ser de Deus o operar interior é um e indivisível; Suas glórias pessoais permanecem invisíveis até que sejam reveladas nas Suas obras exteriores. Um regato é um até que despenque no precipício e divida-se em muitas gotas. Assim a vida de Deus uma é inteira enquanto oculta em Si mesmo, mas quando é derramada nas coisas criadas por Ele a sua matiz de cor é revelada. Como, portanto, as obras interiores do Espírito Santo são comum às três Pessoas da Deidade, não as discutimos, mas tratamos somente daquelas operações que trazem consigo as marcas pessoais das Suas obras exteriores.

Mas não pretendemos ensinar que a distinção dos atributos pessoais do Pai, do Filho e do Espírito Santo não existiam no Ser divino, mas que originaram-se somente nas Suas atividades exteriores.

A distinção do Pai, do Filho e do Espírito Santo é a característica divina do Ser Eterno, o Seu modo de subsistência, sua base mais profunda; pensar nEle sem aquela distinção seria absurdo. De fato, na economia eterna e divina do Pai, do Filho e do Espírito Santo, cada uma das Pessoas Divinas vive e ama e glorifica conforme as Suas próprias características pessoais, de forma que o Pai permanece como Pai para com o Filho; e o Filho permanece como Filho para com o Pai; e o Espírito Santo procede de ambos.

É certo questionar como isto está de acordo com a declaração feita anteriormente, de que as obras interiores de Deus pertencem, sem distinção de Pessoas, ao Pai, ao Filho e ao Espírito Santo; e são portanto as obras do Ser Divino. Encontramos a resposta na distinção cuidadosa da natureza dupla das obras interiores de Deus.

Algumas operações no Ser Divino estão destinadas a serem reveladas com o tempo; outras permanecerão incógnitas para sempre. As primeiras dizem respeito à criação; as últimas, somente as relações do Pai, do Filho e do Espírito Santo. Tome, por exemplo, a eleição e a geração eterna. Ambas são operações interiores de Deus, mas com diferença marcada. A geração eterna do Filho pelo Pai não pode nunca ser revelada, mas deve permanecer para sempre um mistério da Divindade; e enquanto que a eleição pertença como decreto às obras interiores de Deus, todavia está destinada na plenitude dos tempos a tornar-se manifesta na chamada dos eleitos.

Referindo-se às obras de Deus permanentemente interiores, que não se relacionam com a criatura, mas fluem da relação mútua do Pai, do Filho e do Espírito Santo, as características distintivas das três Pessoas devem ser mantidas à vista. Mas com aquelas que virão a tornar-se manifestas, relacionadas com a criatura, esta distinção desaparece. Aqui a regra aplica-se que todas as obras interiores são atividades do Ser divino sem distinção de Pessoas. Ilustrando: No lar há dois tipos de atividades, um fluindo do relacionamento mútuo entre pais e filhos, outro dizendo respeito à vida social. No primeiro a distinção entre pais e filhos nunca é ignorada; no último, se a relação for normal, nem os pais nem os filhos agem sozinhos, mas a família como um todo. Assim também no santo, misterioso sistema do Ser Divino, cada operação do Pai para com o filho, e de ambos para com o Espírito Santo é distinta, mas em cada ato exterior é sempre do Ser Divino Uno, os pensamentos e as vontades do Seu coração para com todas as Suas criaturas. Nessa perspectiva o homem natural não sabe mais do que ele tem de saber, que tenha a ver com Deus.

Os Unitarianos, negando a Trindade Santa, nunca alcançaram nada mais elevado do que aquilo que pode ser visto através da luz do entendimento humano obscurecido. Nós muitas vezes descobrimos que muitos batizados com água mas não com o Espírito Santo falam do Deus Triúno porque ouvem dizer. Pois por si mesmos eles somente sabem que Ele é Deus. É por isso que o conhecimento discriminativo do Deus Triúno não pode iluminar a alma até que o Astro-dia raie dentro do coração do homem e a luz da redenção brilhe dentro dele. Nossa Confissão expressa corretamente isto, ao dizer: "Sabemos tudo isso tanto do testemunho das Sagradas Escrituras como das suas operações, principalmente aquelas que sentimos em nós mesmos."(art ix) - [N.T. o autor cita a primeira frase do art ix à "A Prova do Artigo Anterior da Trindade de Pessoas em Um Deus" ("The Proof of the Foregoing Article of the Trinity of Persons in One God") = Confissão de Fé Belga ("Belgic Confession of Faith"), como consta na página http://www.rcus.org/standards/belgic_confession_of_faith.htm#art9]


IV. A Obra do Espirito Santo Distinguida.

"...o Espírito de Deus pairava sobre a face das águas." Gênesis 1:2

O que, em geral, é a obra do Espírito Santo de maneira distinta da obra do Pai e da obra do Filho?

Não que cada crente precise conhecer estas distinções em todos os seus particulares. A existência da fé não depende de distinções intelectuais. A questão principal não é se podemos distinguir o obra do Pai da obra do Filho e da obra do Espírito Santo, mas se temos experimentado as suas operações de graça: A raiz da matéria, e não o nome, é o que decide.

Devemos então dar valor mais brando a um entendimento claro das coisas sagradas? Devemos considerá-las supérfluas e chamar seus grandes assuntos de questões evasivas? De modo algum. A mente humana pesquisa cada segmento da vida. Os cientistas consideram uma honra gastar suas vidas analisando os mais diminutos insetos e plantas, descrevendo cada particular, nomeando cada membro do organismo dissecado. Seu trabalho nunca é chamado de "evasivo", mas é honrado como "pesquisa científica". E muito certamente, pois aqui, sem diferenciação não pode haver descobertas, e sem descobertas não pode haver um aprendizado completo do assunto. Então, por que chamar este mesmo desejo de inútil quando ele direciona a atenção não para a criatura, mas para o Senhor Deus nosso Criador?

Pode existir qualquer objeto que mereça mais aplicação mental que o Deus eterno? É certo e apropriado insistir numa discriminação correta em cada outra esfera do conhecimento, e ainda assim no que se refere ao conhecimento de Deus estar satisfeito com generalidades e pontos de vista confusos? Deus nos convidou para compartilhar do conhecimento intelectual do Seu Ser? Não nos deu Ele a Sua Palavra? E não ilumina, a Palavra, os mistérios do Seu Ser, os Seus atributos, as Suas perfeições, as Suas virtudes, e o modo da Sua subsistência? Se aspirássemos penetrar em coisas por demais elevadas para nós, ou descortinar o não revelado, a reverência exigiria que resistíssemos a tal audácia. Mas desde que pretendemos ouvir às Escrituras com reverente temor, e receber o conhecimento oferecido acerca das coisas profundas de Deus, não pode haver espaço para objeção. Àqueles que franzem as sombrancelhas em desdém ante tal esforço, diríamos: "Vocês podem discernir a face do céu, mas não podem discernir a face do seu Pai celeste."

Portanto a questão relativa à obra do Espírito Santo como distinta da obra do Pai e da obra do Filho é legítima e necessária.

É deplorável que muitos filhos de Deus tenham concepções confusas a esse respeito. Eles não podem distinguir entre as obras do Pai e do Filho e do Espírito Santo. Mesmo em oração eles usam os nomes divinos indiscriminadamente. Embora o Espírito Santo seja explicitamente chamado de Confortador, ainda assim eles buscam conforto muito mais do Pai ou do Filho, e são incapazes de dizer porque e em que sentido o Espírito Santo é especialmente chamado de Confortador.

A Igreja antiga já sentia a necessidade de distinções claras e precisas neste assunto; e os grandes pensadores e filósofos Cristãos que Deus deu à Igreja, especialmente os Pais Orientais, gastaram largamente os seus melhores poderes neste assunto. Eles viram muito claramente que a menos que a Igreja aprendesse a distinguir entre as obras do Pai, do Filho e do Espírito Santo, a sua confissão da Trindade Santa somente soaria como morta. Compelidos não pelo amor a sutilezas, mas pela necessidade da Igreja, eles comprometeram-se a estudar estas distinções. E Deus permitiu aos heréticos atormentar a Sua Igreja, de forma a estimular sua mente pelo conflito, e levá-la a buscar a Palavra de Deus.

Então, nós não somos pioneiros numa terra nova. A produção desses artigos pode muito impressionar somente aqueles que são ignorantes quanto aos tesouros históricos da Igreja. Nós propomos simplesmente fazer com que a luz, que por muitas eras projetou seus claros e confortadores raios sobre a Igreja, entre novamente pelas janelas e assim, através de um conhecimento mais profundo, aumente seu poder de iluminação.

Nós começamos com a distinção geral: Que em cada obra efetuada pelo Pai, pelo Filho e pelo Espírito Santo em comum, o poder para perpetrá-la provém do Pai; o poder para ordená-la provém do Filho; o poder para completá-la provem do Espírito Santo.

Na primeira carta aos Coríntios, no versículo sexto do oitavo capítulo, Paulo ensina que: "... há um só Deus, o Pai, de quem são todas as coisas e para quem nós vivemos; e um só Senhor, Jesus Cristo, pelo qual existem todas as coisas...". Mas no trigésimo sexto versículo do décimo primeiro capítulo, ele acrescenta: "Porque dEle, e por Ele, e para Ele, são todas as coisas..."

A operação aqui descrita é de três partes: primeira, que através do qual todas as coisas são originadas (dEle); segunda, que através do qual consistem todas as coisas (por Ele); terceira, que através do qual todas as coisas alcançam o seu destino final (para Ele). Em conexão com esta clara, apostólica distinção, os grandes mestres da Igreja, após o século quinto, costumavam distinguir as operações das Pessoas da Trindade dizendo que a operação através da qual todas as coisas originaram-se procede do Pai, que a operação através da todas as coisas receberam consistência procede do Filho; e que a operação através da qual todas as coisas foram guiadas, foram levadas até o seu destino final procede dou Espírito Santo.

Estes pensadores transparentes ensinaram que esta distinção estava em linha com aquela das Pessoas. Assim, o Pai é pai. Ele gera o Filho. E o Espírito Santo procede do Pai e do Filho: Portanto o atributo peculiar da Primeira Pessoa é evidentemente que Ele é a Fonte e a Origem não somente da criação material, mas de sua própria concepção, de tudo o que já foi e de tudo o que é e de tudo o que será. A peculiaridade da Segunda Pessoa reside evidentemente não no fato da geração, mas no fato de ser gerada. Alguém é filho por haver sido gerado. Assim é que desde que todas as coisas procedem do Pai, nada pode proceder do Filho. A fonte de todas as coisas não está no Filho. Todavia ele acrescenta uma obra de criação àquilo o que está vindo à existência; pois o Espírito Santo procede também dEle; mas não somente dEle, e sim do Pai e do Filho, e isto de tal forma que a emanação do Filho é devida à igualdade da sua essência com o Pai.

A Bíblia concorda com isto ao ensinar que o Pai criou todas as coisas por intermédio Filho, e que sem Ele nada do que foi feito se fez [João 1:3 - N.T.]. Para a diferença entre "criado por intermédio" e "criado a partir", referimo-nos a Colossenses 1:17: "...nele subsistem todas as coisas", i.e. todas as coisas sustentam-se juntas nEle. A passagem em Hebreus 1:3 é ainda mais clara, dizendo que o Filho sustenta todas as coisas pela Palavra do Seu poder. Isto nos mostra que como as coisas essenciais da existência da criatura procedem do Pai como Fonte de tudo, assim o formar, o colocar junto e o arranjar dos elementos, dos ingredientes; são a própria obra do Filho.

Se comparássemos reverentemente a obra de Deus com a do homem, diríamos: Um rei propõe-se a construir um palácio. Tal tarefa requer não somente material, mão de obra e projetos, mas também a disposição e o ajuntamento dos materiais de acordo com as plantas. O rei fornece os projetos e os materiais; o construtor constrói o palácio. Quem, então, erigiu o palácio? Nem o rei nem o construtor sozinhos o fizeram; mas sim, o construtor erige-o a partir do tesouro real.

Isto expressa a relação entre o Pai e o Filho nesse respeito, tanto quanto relações humanas podem ilustrar as divinas. Na construção do universo aparecem duas operações: primeira, a causadora, que produz os materiais, as forças e os planos; segunda, a construtiva, a qual com estas forças forma e ordena os materiais, de conformidade com o plano. E como a primeira procede do Pai, assim a segunda procede do Filho. O Pai é a Fonte Real dos poderes e dos materiais necessários; e o Filho como o Construtor constrói todas as coisas com tais poderes e materiais, de acordo com o conselho de Deus. Se o Pai e o Filho existissem independentemente, tal cooperação seria impossível. Mas desde que o Pai gera o Filho; e em virtude daquela geraçao o Filho contém o Ser Inteiro do Pai, não pode haver divisão de Seres, e somente permanece a distinção de Pessoas. Pois todo o poder e toda a sabedoria através dos quais o Filho dá consistência a tudo são gerados nEle pelo Pai; enquanto que o conselho o qual designou tudo é uma determinação pelo Pai daquela sabedoria divina a qual Ele, como Pai, gera no Filho. Pois o Filho é para sempre o esplendor da glória do Pai; e a imagem expressa da Sua Pessoa - Hebreus 1:3 = "sendo Ele o resplendor da Sua glória e a expressa imagem do Seu Ser..."

Isto não completa a obra da criação. A criatura é feita não somente para existir ou para adornar algum nicho no universo, como se fosse uma estátua. Antes, tudo foi criado com um propósito e um destino; e a nossa criação será completa somente quanto tivermos nos tornado no que Deus designou. Assim é que em Gênesis 2:3 diz: "Abençoou Deus o sétimo dia, e o santificou; porque nele descansou de toda a sua obra que criara e fizera" (N.T.: o autor cita a versão Holandesa: "Deus descansou de toda a sua obra que criara para faze-la perfeita."). Assim, para guiar a criatura ao seu destino, faze-la desenvolver-se de acordo com a sua natureza, faze-la perfeita, é a própria obra do Espírito Santo.


Tradução livre: Eli Daniel da Silva
Belo Horizonte-MG, 01 de Fevereiro 2003.