A Obra do Espírito Santo

por

Abraham Kuyper, D.D., LL.D

 

VOLUME UM

A Obra do Espírito Santo na Igreja como um Todo

Capítulo Segundo - A Criação

 

 

V. O Princípio de Vida Na Criatura


"Pelo seu sopro ornou o céu; a sua mão traspassou a serpente veloz." Jó 26:13

Vimos que a obra do Espírito Santo consiste em guiar toda a criação ao seu destino, o propósito final do qual é a glória de Deus. Contudo, a glória de Deus na criação aparece em várias formas e graus. Um inseto e uma estrela, o mofo na parede e o cedro no Líbano, um trabalhador comum e um homem como Agostinho, são tudo criaturas de Deus; todavia quão dissimilares são eles entre si; e quão variados são as suas formas e os seus graus de adoração a Deus.

Ilustraremos, portanto, a declaração de que a glória de Deus é o fim definitivo de cada criatura. Comparando a glória de Deus com a de um rei terreal, é evidente de que nada pode ser indiferente àquela glória. O material da construção do seu palácio, a mobília, mesmo o pavimento defronte os portões, ou enaltece ou diminui o esplendor real. Muito mais, no entanto, é o rei honrado pelas pessoas que habitam no palácio, cada um no seu grau, desde o mestre de cerimônias até o primeiro ministro. Todavia a sua mais alta glória é a sua família, os seus filhos e filhas, crias do seu próprio sangue, educados através da sua sabedoria, incentivados pelos seus ideais, unidos a ele nos planos, propósitos; o espírito da sua vida. Aplicando este exemplo, com toda a reverência, à corte do Rei do céu, fica evidente de que cada flor e cada estrela enaltecem a Sua glória, as vidas dos anjos e dos homens são de muito maior significado para o Seu Reino; e novamente, enquanto aqueles últimos estão muito mais proximamente relacionados com a Sua glória, a quem Ele colocou em posições de autoridade, situam-se mais próximos do que tudo o mais, são os filhos procriados pelo Seu Espírito, e admitidos no secreto do Seu pavilhão. Concluímos, então, que a glória de Deus está refletida na maioria dos Seus filhos; e desde que nenhum homem pode ser Seu filho a menos que seja cria Sua, nós confessamos que a Sua glória é mais aparente nos Seus eleitos, ou na Sua Igreja.

No entanto, a Sua glória não está confinada a estes; pois eles relacionam-se com toda a raça, e vivem entre todos povos e nações, com quem eles compartilham a vida comum. Não nos é permitido e nem somos capazes de separar a sua vida espiritual da sua vida nacional, social e doméstica. E desde que todas as diferenças de vida doméstica, social e nacional são causadas por clima e atmosfera, por comida e bebida, por chuvas e secas, por insetos e plantas - resumindo, por toda a economia deste mundo material, incluindo cometas e meteoros, fica evidente de que todo eles afetam o resultado das coisas e estão relacionados com a glória de Deus. Assim é que, conectado com a tarefa de guiar a criação até o seu destino, o universo inteiro confronta a mente como uma unidade poderosa organicamente relacionada com a Igreja, como a concha relacionada está com o núcleo.

Na realização desta tarefa, a questão aparece, de que maneira a mais justa, a mais nobre e mais santa parte da criação deve alcançar seu destino, pois para faze-lo, todas as outras partes devem ser feitas subservientes.

Consequentemente, a resposta à questão "Como a multidão dos eleitos alcançará a sua perfeição final?" mostrará que é a ação do Espírito Santo sobre todas as demais criaturas.

A resposta não pode ser duvidosa. Os filhos de Deus nunca podem alcançar o seu fim glorioso a não ser que Deus habite neles como no Seu templo. É o amor de Deus que O leva a habitar nos Seus filhos, pelo seu amor para com Ele para amá-Lo; e ver o reflexo da Sua glória na consciência da obra das Sua própria mão. Este propósito glorioso será realizado somente quanto os eleitos conheçam como são conhecidos, estejam frente a frente com o seu Deus; e desfrutem da felicidade da comunhão mais íntima com o Senhor.

Desde que tudo isto pode ser operado neles somente mediante o Seu habitar nos seus corações; e desde que é a Terceira Pessoa na Trindade Santa quem adentra nos espíritos dos homens e dos anjos, é evidente que os mais altos propósitos de Deus são realizados quando o Espírito Santo faz do coração do homem o seu lugar de morada. Quem ou o que quer que sejamos através de educação ou de posição, não podemos alcançar o nosso destino a menos que o Espírito Santo faça morada em nós e opere no organismo mais interno, mais íntimo do nosso ser.

Se esta Sua mais alta obra não tivesse nenhuma influência sobre qualquer outra coisa que fosse, podemos ainda dizer que tal obra consiste simplesmente na terminação, no acabamento da perfeição da criatura. Mas não é assim. Cada crente sabe que há uma conexão muito íntima entre a sua vida antes e depois da conversão; não como se a vida antes da conversão determinasse a vida após a conversão, mas de maneira tal que a vida em pecado e a vida na beleza da santidade estão ambas condicionadas ao mesmo caráter e à mesma disposição, por influências e circunstâncias similares. Consequentemente, para fazer com que ocorra a nossa perfeição final, o Espírito Santo deve influenciar o desenvolvimento anterior, a formação do caráter e a disposição da pessoa por completo. E esta operação, embora menos marcada na vida natural, deve também ser analisada. No entanto, desde que a nossa vida pessoal é somente uma manifestação da vida humana em geral, segue-se que o Espírito Santo deve ter sido ativo também na criação do homem, embora num grau menos marcante. E, finalmente, como a disposição do homem em si está conectada com as multidões do céu e da terra, a Sua obra também deve inferir na formação destes, embora numa extensão muito menor. Assim é que a obra do Espírito vai tão longe quanto as influências que afetam o homem na obtenção, no alcançar do seu destino ou na falha em fazê-lo. E a medida das influências é o grau no qual elas afetam a sua perfeição. Na partida da alma redimida, cada um reconhece uma obra do Espírito Santo; mas quem pode identificar a Sua obra no movimento das estrelas? Todavia a Bíblia ensina não somente que nós nascemos de novo pelo poder do Espírito de Deus, mas que "Pela palavra do Senhor foram feitos os céus, e todo o exército deles pelo sopro (espírito) da Sua boca." [Salmos, 33:6]

Portanto a obra do Espírito no guiar a criatura ao seu destino, inclui a influência sobre toda a criação desde o início. E, se o pecado não tivesse entrado no munfo, poderíamos dizer que esta obra é conduzida em três estágios sucessivos: primeiro, impregnando a matéria inanimada; segundo, animando a alma racional; terceiro, fazendo Sua morada nos filhos eleitos de Deus.

Mas o pecado entrou no mundo, i.e. um poder apareceu para distanciar o homem e a natureza do seu destino. Assim é que o Espírito Santo deve antagonizar o pecado; o Seu chamado é para aniquilar o pecado; e apesar da oposição do pecado em evitar que os filhos eleitos de Deus bem como toda a criação alcancem o seu fim. A Redenção não é, portanto, uma nova obra acrescentada à obra do Espírito Santo, mas são sim idênticas. Ele tomou sobre si a responsabilidade de trazer todas as coisas até o seu destino, seja sem a interferência do pecado ou seja apesar dela; primeiro, por salvar os eleitos, e depois por restaurar todas as coisas no céu e na terra, quando do retorno do Senhor Jesus Cristo.
Coisas incidentais a isto, tais como a inspiração das Sagradas Escrituras, a preparação do Corpo de Cristo, a ministração extraordinária da graça para a Igreja, são somente elos, conectando o começo com o seu fim predeterminado; e apesar do distúrbio do pecado, o destino do universo para glorificar a Deus pode ser assegurado.

Condensando tudo numa declaração só, podemos dizer: Havendo o pecado entrado no mundo uma vez, um fator o qual deve ser levado em consideração, a obra do Espírito Santo brilha mais gloriosamente, no arrebanhar e no salvar os eleitos; antes do que as Suas operações estão na obra da redenção e na organização e condução dos recursos da vida natural. O mesmo Espírito que no início movia-se sobre as águas tem, na dispensação da graça nos dado as Sagradas Escrituras, a Pessoa de Cristo, e a Igreja Cristã; e é Ele quem, em conexão com a criação original e através desses meios de graça, agora nos regenera e nos santifica na condição de filhos de Deus.

Com relação a essas operações compreensíveis e poderosas, é de primeira importância ter em vista o fato de que em cada um, Ele efetua somente aquilo que é invisível e imperceptível. Isto marca todas as operações do Espírito Santo. Por detrás do mundo visível encontra-se um mundo espiritual e invisível, com cortes externas e recessos secretos; e sob estes últimos encontram-se as profundezas impenetráveis da alma, as quais o Espírito escolhe como o cenário do seu operar - o Seu templo, onde ele estabelece o Seu altar.

A obra redentora de Cristo também tem partes visíveis e invisíveis. A reconciliação no Seu sangue foi visível. A santificação do Seu corpo e o embelezar da Sua natureza humana com múltiplas graças foram invisíveis. Sempre quando esta obra, interna e oculta, é especificada, a Bíblia sempre a relaciona com o Espírito Santo. Gabriel diz a Maria: "...Virá sobre ti o Espírito Santo..."[Lucas 1:35]. E é dito que "Jesus, pois, cheio do Espírito Santo..."[Lucas 4:1]

Também observamos no exército do céu uma vida material, exterior, tangível, que em pensamento nunca associamos com o Espírito Santo. Mas, conquanto fraco e impalpável, o visível e tangível tem um segundo plano, um fundo invisível. Quão intangíveis são as forças da natureza, quão cheias de majestade as forças do magnetismo! Mas a vida dá sustentação a tudo. Mesmo num tronco aparentemente morto há um sopro imperceptível. Das profundezas impenetráveis de tudo, um princípio interno e oculto opera, trabalha em direção para fora e para o alto. Mostra-se na natureza, muito mais nos homens e nos anjos. E o que é este princípio que desperta e que anima, senão o Espírito Santo? "Escondes o teu rosto, e ficam perturbados; se lhes tiras a respiração, morrem, e voltam para o seu pó. Envias o teu fôlego, e são criados..."[Salmo 104:29, 30]

Este algo interior, invisível, é o toque direto de Deus. Existe em nós, e em toda criatura, um ponto onde o Deus vivo nos toca para sustentar-nos; pois nada existe sem que esteja sustentado pelo Deus Todo Poderoso, de momento a momento. Nos eleitos este ponto é a sua vida espiritual; a consciência racional na criatura racional; e em todas as criaturas, sejam racionais ou não, o seu princípio de vida. E como o Espírito Santo é a Pessoa na Trindade Santa cujo ofício é perpetrar este toque direto e a companhia com a criatura no mais íntimo do seu ser, é Ele quem habita no coração dos eleitos; que anima cada ser racional; que sustenta o princípio da vida em cada criatura.


VI. O Pão do Céu e da Terra.

"O Espírito de Deus me fez, e o sopro do Todo-Poderoso me dá vida." Jó 33:4

Compreendendo de alguma forma a nota característica da obra do Espírito Santo, vejamos o que esta obra foi e o que é e o que ainda será.
O Pai estabelece, o Filho dispõe e arranja, o Espírito Santo completa. Há um Deus e Pai, a quem pertencem todas as coisas; e um Senhor Jesus Cristo, através do qual são todas as coisas; mas o que a Bíblia diz da obra especial que o Espírito Santo perpetrou na criação; e continua a fazê-lo? Pelo bem da ordem, examinemos primeiro a questão da criação. Deus diz que: "A terra era sem forma e vazia; e havia trevas sobre a face do abismo, mas o Espírito de Deus pairava sobre a face das águas."[Gênesis 1:2]. Veja também em Jó 26:13: "Pelo seu sopro ornou o céu; a sua mão traspassou a serpente veloz [a constelação do Dragão, ou, de acordo com outros, a Via Láctea]." E ainda: "O Espírito de Deus me fez, e o sopro do Todo-Poderoso me dá vida."[Jó 33:4]. E novamente: "Pela palavra do Senhor foram feitos os céus, e todo o exército deles pelo sopro da Sua boca."[Salmo 33:6], assim como: "Envias o teu fôlego, e são criados; e assim renovas a face da terra."[Salmo 104:30]. E com importe diferente: "Quem guiou o Espírito do Senhor (na criação), ou, como seu conselheiro o ensinou?"[Isaías 40:13]

Estas declarações mostram que o Espírito Santo fez obra própria, na criação.

Elas mostram, também, que as Suas atividades são intimamente ligadas com aquelas do Pai e do Filho. O versículo 6 do Salmo 33 as apresenta como quase idênticas. Na primeira parte lemos: "Pela palavra do Senhor foram feitos os céus"; na segunda: "e todo o exército deles pelo sopro da Sua boca." É bem sabido que em Hebreu, sentenças poéticas paralelas expressam o mesmo pensamento de formas diferentes; pelo que desprende-se, a partir desta passagem, então, que a obra da Palavra e a do Espírito são a mesma, sendo que esta última acrescenta somente aquilo que é peculiarmente Seu.

Deveria ser notado que dificilmente alguma dessas passagens referem-se ao Espírito Santo pelo Seu próprio nome. Não o chamam de Espírito Santo, mas de o "Espírito da Sua boca", "Seu Espírito, "o Espírito do Senhor". Por conta disso, muitos sustentam que estas passagens não se referem ao Espírito Santo como a Terceira Pessoa na Trindade Santa, mas falam de Deus com Um, sem distinção pessoal; e que a representação de Deus como criador de qualquer coisa por Sua mão, dedos, palavra, sopro, ou Espírito é meramente uma figura de linguagem humana, somente significando que Deus estava assim engajado.

A Igreja sempre se opôs a esta interpretação, e muito certamente, embasada em que mesmo o Antigo Testamento, não simplesmente em poucos lugares, mas de forma completa e inteiramente, apresenta testemunho indubitável das três Pessoas divinas, co-iguais todavia em uma essência. É verdade que isto também tem sido negado, mas por intermédio de uma interpretação errada. E para replicar que "Mas a nossa interpretação é tão boa quanto a sua", nós respondemos que Jesus e os apóstolos são as nossas autoridades; a Igreja recebeu sua confissão dos próprios lábios deles.

Em segundo lugar, negamos que o termo "Seu Espírito" não se refira ao Espírito Santo, pela razão de que no Novo Testamento existem expressões similares que sem sombra de dúvida referem-se a Ele, e.g. "...Deus enviou aos nossos corações o Espírito de seu Filho, que clama: Aba, Pai."[Gálatas 4:6]; "...a quem o Senhor Jesus matará como o sopro de sua boca e destruirá com a manifestação da sua vinda."[II Tessalonissenses 2:8] e etc.

Em terceiro lugar, a julgar pelas seguintes passagens - "Pela palavra do Senhor foram feitos os céus"[Salmo 33:6]; "Disse Deus: haja luz. E houve luz."[Gênesis 1:3]; e "Todas as coisas foram feitas por intermédio dele, e sem ele nada do que foi feito se fez."[João 1:3]; - não pode haver dúvida de que o Salmo 33:6 refere-se à Segunda Pessoa da Trindade. Assim, também a segunda parte do mesmo verso, "e todo o exército deles pelo Sopro da Sua boca." deve referir-se à Terceira Pessoa.

Finalmente, falar de um Espírito de Deus que não seja o Espírito Santo é transferir para a Sagrada Escritura uma idéia puramente humana e Ocidental. Nós como homens falamos de um espírito errado que controla uma ação, um exército, ou uma escola, significando uma certa tendência, uma inclinação ou uma persuasão - um espírito que procede de um homem, distinto da sua pessoa e do seu ser. Mas tal não pode e não deve ser aplicado a Deus. Falando de Cristo na Sua humilhação, alguém poderia corretamente dizer , "Ter a mente de Cristo", ou "ter o espírito de Jesus", o que indica a Sua disposição. Mas distinguir o Ser divido de um espírito daquele Ser é o mesmo que conceber a Divindade de uma forma humana. A consciência divina difere integralmente da humana. Enquanto em nós existe uma diferença entre nossas pessoas e nossas consciências, com relação a Deus tais distinções desaparecem; e a distinção do Pai, do Filho e do Espírito Santo tomam seu lugar.

Mesmo naquelas passagens onde "o Sopro da Sua boca" é acrescentado para explicar "Seu Espírito", a mesma interpretação deve ser mantida. Pois todos idiomas mostram que o nosso respirar, que o nosso sopro, mesmo como o "sopro dos elementos" no vendo que sopra perante a face de Deus, corresponde ao ser do espírito. Quase tudo expressa as idéias de espírito, sopro e vento, por termos cognatos. Soprar (o vento) e soprar (respiração) é em toda a Bíblia o símbolo da comunicação do espírito. Jesus assoprou sobre eles e disse: "...Recebei o Espírito Santo."[João 20:22]. Assim, o sopro da Sua boca deve significar o Espírito Santo.

As interpretações antigas das Escrituras não deveriam ser abandonadas apressadamente. Aceitar o dictum (N.T. o posicionamento oficial) da moderna teologia, de que a distinção das três Pessoas divinas não é encontrada no Antigo Testamento; e alusões à obra do Espírito Santo em Gênesis, Jó, Salmos ou Isaías, estão fora de cogitação. Consequentemente, nada é mais natural para os que sustentam esta teologia moderna do que negar completamente o Espírito Santo nas passagens que a ele se referem.

Mas se de uma convicção íntima nós ainda confessamos que a distinção do Pai, do Filho e do Espírito Santo é claramente vista no Antigo Testamento, examinemos então estas passagens referentes ao Espírito do Senhor com discriminação; mantendo com gratidão a interpretação tradicional, a qual encontra pelo menos em muitos destas declarações referências à obra do Espírito Santo.

Estas passagens nos mostram que a Sua obra peculiar na criação foi: primeiro, o flutuar, suspenso, sobre o caos; segundo, a criação dos exércitos do céu e da terra; terceiro, a ordem dos céus; quarto, a animação da criação bruta, e o chamar o homem à existência; e por último, a operação através da qual cada criatura foi feita existente, de acordo com o conselho de Deus relativo a ela.

Assim é que as forças materiais do universo não procedem do Espírito Santo, nem tampouco Ele depositou na matéria as sementes latentes e germes da vida. Sua tarefa especial começa somente depois da criação da matéria, já com os germes da vida nela.

O texto Hebreu nos mostra que a obra do Espírito Santo ao mover-se sobre a face das águas era similar àquela do pássaro que com as asas abertas de par em par como que a flutuar sobre suas crias, acariciando-as e protegendo-as. A figura implica em que não somente a terra existia, mas também que os germes de vida estavam dentro dela; e que o Espírito Santo, impregnando estes germes fez com que a vida viesse à tona, de forma a guiá-la até o seu destino.

Não pelo Espírito Santo, mas pela Palavra foram criados os céus. E quando os céus criados iam receber os seus exércitos, somente então foi o momento para o exercício das funções peculiares do Espírito Santo. O que "o exército do céu" quer dizer não é decidido facilmente. Pode referir-se ao sol, lua e estrelas, ou ao exército de anjos. Talvez a passagem signifique não a criação dos corpos celestes, mas a sua recepção da glória celestial e do fogo do céu. Mas o versículo Salmo 33:6 refere-se, certamente, não à criação da matéria da qual o exército celestial é composto, mas à produção da sua glória.

A passagem em Gênesis 1:2 revela primeiro a criação da matéria e seus germes, então o seu despertar, seus primeiros sinais de vida; a passagem em Salmo 33:6 ensina primeiro a preparação do ser e a natureza dos céus, e então o nascimento dos seus exércitos, pelo Espírito Santo. A passagem em João 26:13 nos leva a uma conclusão similar. Aqui a mesma distinção entre os céus e a ordenação lógica deles, este último sendo apresentado como a obra especial do Espírito Santo. Este ordenar lógico é a mesma coisa do 'pairar' descrito em Gênesis 1:2 (N.T. veja acima, no penúltimo parágrafo), através do qual o que era sem forma foi formado, a vida oculta emergiu, e as coisas criadas foram guiadas ao seu destino. As passagens no Salmo 104:30 ("Envias o teu fôlego, e são criados; e assim renovas a face da terra.") e em Jó 33:4 ("O Espírito de Deus me fez, e o sopro do Todo-Poderoso me dá vida.") ilustram a obra do Espírito Santo na criação de maneira ainda mais clara. Jó nos informa que o Espírito Santo teve uma parte especial na criação do homem; e o Salmo 104:30 que ele desempenhou obra similar na criação dos animais, das aves e dos peixes; pois os dois versos precedentes implicam que o verso 30 "Envias o teu fôlego, e são criados..." - refere-se não ao homem, mas aos monstros que vivem nas profundezas.

Concorde que a matéria da qual Deus fez o homem já estivesse presente no pó da terra, que o tipo do seu corpo estivesse largamente presente no reino animal, e que a idéia do homem e a imagem após a qual ele seria criado já existisse; todavia a partir de Jó 33:4 fica evidente de que ele não veio a existir sem um operar especial do Espírito Santo. Então o Salmo 104:30 prova, que, embora a matéria existisse, a partir da qual a baleia e o unicórnio seriam feitos, e o plano ou o modelo estava já no conselho divino, ainda assim era preciso um ato especial do Espírito Santo para fazer com que existissem. Isto é ainda mais claro à vista do fato de que nenhuma das passagens refere-se à primeira criação, mas a homens e animais formados posteriormente. Pois Jó fala não de Adão e Eva, mas dele próprio. Ele diz: "O Espírito de Deus me fez, e o sopro do Todo-Poderoso me dá vida." No Salmo 104, Davi refere-se não aos monstros das profundezas criados no início, mas àqueles que passeavam nas correntes do mar enquanto ele cantava este salmo. Se, portanto, os corpos do homem existente e dos mamíferos não são criações imediatas, mas são tomados da carne e do sangue, a natureza e o tipo dos seres existentes, então é mais que evidente que o pairar do Espírito Santo sobre a matéria não formada é um ato presente; e que portanto a Sua obra criadora foi trazer à luz a vida já existente e oculta no caos, i.e., nos germes de vida.

Isto está de acordo com o que foi dito no início, quanto ao caráter geral da Sua obra. "Conduzir ao seu destino" é trazer à tona a vida oculta, fazer com que a beleza oculta revele-se, despertar para a atividade as energias latentes.

Somente não representemos tal como uma obra desenvolvida em estágios sucessivos-primeiro pelo Pai, cujo trabalho terminado foi assumido pelo filho, depois do qual o Espírito Santo completou a obra assim preparada. Tais representações são indignas de Deus. Há distribuição, não divisão, nas atividades divinas; pelo que Isaías declara que o Espírito do Senhor, i.e. o Espírito Santo, durante e através de toda a obra da criação, desde o início - sim, desde antes do início - direcionou tudo o que haveria de ser.


VII. O Homem Criatura.

"O Espírito de Deus me fez, e o sopro do Todo-Poderoso me dá vida." Jó 33:4

O Eterno e Sempre Bendito Deus veio a ter um contato vital com a criatura através de um ato precedente não do Pai nem do Filho, mas do Espírito Santo.

Trasladado pela soberana graça desde a morte para a vida, os filhos de Deus são cônscios desta irmandade divina; eles sabem que ela consiste não num acordo ou disposição ou inclinação sua própria, mas no toque misterioso de Deus sobre o seu ser espiritual. Mas eles também sabem que nem o Pai ou o filho, mas sim o Espírito Santo, é quem fez dos seus corações o Seu templo. É verdade que Cristo vem a nós através do Espírito Santo; e que através do Filho nós somos feitos co-herdeiros do Pai, de conformidade com a Sua palavra, "Respondeu-lhe Jesus: Se alguém me amar, guardará a minha palavra; e meu Pai o amará, e viremos a ele, e faremos nele morada."[João 14:23]; todavia qualquer estudante inteligente da Bíblia sabe que é mais especialmente o Espírito Santo que entra nesta pessoa e toca no mais íntimo do seu ser.

Que o Filho encarnado veio estar em contato mais próximo conosco não prova nada ao contrário. Cristo nunca entrou numa pessoa humana. Ele tomou sobre Sai a nossa natureza humana, com a qual Ele uniu-Se muito mais proximamente do que o faz o Espírito Santo; mas Ele não tocou no homem interior ou na sua personalidade oculta. Ao contrário, Ele disse que era conveniente para os discípulos que Ele partisse; "...pois se eu não for, o Ajudador não virá a vós; mas, se eu for, vo-lo enviarei."[João 16:7]. Mais ainda, a Encarnação não foi completada sem o Espírito Santo, quem veio sobre Maria; e as bênçãos que Cristo impetrava em todos ao Seu redor eram largamente devidas ao dom do Espírito Santo, o qual Lhe havia sido dado sem medida.

Assim, o pensamento principal permanece intacto: Quando Deus vem em contato direto com a criatura, é o operar do Espírito Santo que efetiva tal contato. No mundo invisível, este ato consiste acender, no incendiar e no propagar a centelha da vida; portanto é bem natural e está em perfeita harmonia com o tom geral dos ensinamentos das Escrituras Sagradas que o Espírito de Deus se move sobre a face das águas, que Ele traz em alinhamento os exércitos do céu e da terra, ordenados, animados e resplandecentes.

Além da criação visível, há também uma invisível, a qual, tanto quanto refere-se ao nosso mundo, concentra-se no coração do homem; destarte, em segundo lugar, devemos ver o quão longe a obra do Espírito Santo pode ser identificada na criação do homem.

Não falamos do mundo animal. Não como se o Espírito Santo tivesse nada a ver com a sua criação. Do Salmo 104:30 já havemos provado o contrário. Ademais, ninguém pode negar os traços admiráveis de perspicácia, amor, fidelidade e gratidão em muitos dos animais. Não que fôssemos tolos ao ponto de chamar um cão de meio humano; pois estas propriedades animais mais elevadas são evidentemente nada mais que preformações instintivas(¹); esboços do Espírito Santo, destinadas ao seu próprio destino somente no homem. E ainda assim, conquanto admiráveis possam ser esses traços, não é uma pessoa que encontramos no animal. O animal procede do mundo de matéria, e a ele retorna. É somente no homem que aparece aquilo que é novo, invisível e espiritual, justificando-nos na busca de uma obra especial do Espírito Santo na Sua criação.
(¹) (N.T. o termo utilizado pelo autor é 'instinctive preformations', provavelmente referindo-se à 'Teoria da Preformação', uma teoria popular no século XVIII, cujo preceito era de que todas as partes de um organismo existem completamente formadas na célula germinativa; e que desenvolvem-se somente conforme o aumento do tamanho do corpo.)

Acerca de si mesmo, i.e. de um homem, Jó declara: "O Espírito de Deus me fez, e o sopro do Todo-Poderoso me dá vida."[33:4]. 'O Espírito de Deus me fez'. Aquilo que sou como uma personalidade humana é a obra do Espírito Santo. A Ele eu devo o pessoal e o humano que constituem-se no ser que eu sou. Ele acrescenta: 'O sopro do Todo-Poderoso me dá vida'; o que evidentemente faz eco às palavras "...e soprou-lhe nas narinas o fôlego da vida; e o homem tornou-se alma vivente."[Gn 2:7].

Como Jó, nós devemos sentir e reconhecer que, em Adão, você e eu somos criados; quando Deus criou Adão Ele nos criou a nós; na natureza de Adão Ele chamou à vida a natureza na qual hoje vivemos. Os capítulos primeiro e segundo do livro de Gênesis não são um relato de aliens, mas o nosso próprio - com relação à carne e ao sangue os quais carregamos conosco, a natureza humana na qual nos sentamos e lemos a Palavra de Deus.

Aquele que lê a sua Bíblia sem esta aplicação pessoal o faz de forma errônea. Tal o deixa frio e indiferente. Pode encantar-lhe nos dias da sua infância, quando se é fã de contos e de estórias, mas não lhe é sustentação nos dias de conflito, quanto ele se vê frente a frente com os fatos duros e com as realidades da vida. Mas se nos acostumarmos a ver neste relato a história da nossa própria carne e do nosso próprio sangue, da nossa própria natureza e vida humanas, e reconhecer que por geração humana nós procedemos de Adão; e portanto estávamos em Adão quando ele foi criado - então nós também saberemos que quando Deus formou Adão do barro Ele também nos formou; que também nós nos encontrávamos no Paraíso; que a queda de Adão também foi a nossa. Numa palavra, a primeira página do livro de Gênesis relata a história não de um estranho, de um alien, mas dos nossos próprios "eus" reais. O sopro do Todo-Poderoso nos deu vida, quando o Senhor formou o homem do barro, e soprou-lhe nas narinas e fez dele uma alva viva. A raiz da nossa vida encontra-se nos nossos pais; a fibra tênue daquela raiz vai além deles e antes deles, através da longa linha de gerações, e tem o seu verdadeiro início quando Adão pela primeira vez respirou o puro ar de Deus no Paraíso.

E todavia, embora no Paraíso nós recebêssemos o primeiro começo do nosso ser, também há um segundo começo da nossa vida, em outras palavras, quando da raça, pela concepção e nascimento, cada um de nós foi chamado à vida individualmente. E disto Jó testifica: "O Espírito do Senhor me deu vida."

E novamente, na vida do homem pecador acontece um terceiro começo, quando apraz a Deus converter o ímpio; e disto, também a alma testifica dentro de nós: "O Espírito do Senhor me deu vida."

Deixando de lado este novo testamento, o testemunho de Jó nos mostra que ele tinha consciência do fato de que devia a Deus a sua existência como homem, como pessoa, como ego, por conseguinte sua criação em Adão tanto quanto o seu ser pessoal.

E o que as Sagradas Escrituras nos ensinam com relação à criação do homem? Isto: que o barro do qual Adão foi formado foi tão trabalhado, nele operou-se tanto, que tornou-se uma alma vivente, a qual indica o ser humano. O resultado não foi meramente uma criatura que se movia, que rastejava, que comia, bebia e dormia; mas uma alma viva, que veio a existir no momento quanto o fôlego da vida foi soprado no barro. Não foi primeiro o barro, e depois a vida humana dentro do barro, e depois disso a alma com todas as suas faculdades mais elevadas naquela vida humana; não mesmo, tão logo a vida entrou em Adão, ele era um homem, e todos os seus preciosos dons eram habilidades naturais.

O homem pecador, nascendo do alto recebe dons que são acima da natureza. Por esta razão, o Espírito Santo simplesmente faz morada no pecador revivido. Mas no céu nada disso será assim; pois na morte a natureza humana é tão completamente modificada que o impulso para o pecado desaparece por completo. Consequentemente, no céu o Espírito Santo operar-se-á na natureza humana para sempre e sempre. No presente estado de humilhação, a natureza do regenerado ainda é a natureza de Adão. O grande mistério da obra do Espírito Santo nele é este: que naquela e por aquela natureza corrupta Ele opera as obras santas de Deus. É como uma luz brilhando através dos painéis na janela, mas não de maneira idêntica como se fosse através do vidro.

No Paraíso, no entanto, a natureza do homem era completa, intacta, tudo a seu respeito era santo. Nós precisamos evitar o perigoso erro de que o homem recém criado tinha um grau inferior de santidade. Deus fez o homem correto, com nada de errado nele ou acerca dele. Todas as suas inclinações, e capacidades, e habilidades eram puras e santas. Deus satisfez-se com Adão, viu que ele era bom; certamente nada mais pode ser desejado. Nesse respeito, Adão diferia do filho de Deus pela graça em não ter a vida eterna; ele devia alcançá-la como a recompensa por obras santas. Por outro lado, Abraão, o pai da fé, começa com a vida eterna, da qual procederiam obras santas.

Assim um perfeito contraste. Adão deve alcançar a vida eterna pelas obras. Abraão tem a vida eterna através da qual ele obtém obras santas. Então para Adão não pode haver nenhum habitar do Espírito Santo. Não havia antagonismo entre ele e o Espírito. Então o Espírito podia preenche-lo, não meramente habitar nele. A natureza do homem pecador repele o Espírito Santo, mas a natureza de Adão O atraía, recebia-O livremente, e permitia que Ele inspirasse o seu ser.

As nossas faculdades e inclinações são ímpares, os nossos poderes desprovidos de vigor, as paixões dos nossos corações são corruptas; por conseguinte o Espírito Santo deve vir até nós de fora. Mas desde que as faculdades de Adão eram todas intactas, e a completa expressão da sua vida interior não disturbada; portando o Espírito Santo podia operar através dos poderes comuns e operações da sua natureza. Para Adão as coisas espirituais não eram um bem sobrenatural, mas natural - exceto a vida eterna, a qual ele devia merecer através do cumprimento da lei. A Escritura expressa essa unidade entre a vida natural de Adão e os poderes espirituais ao identificar as duas expressões-"Soprar o fôlego da vida", e "tornar-se uma alma viva."

Outras passagens mostram que este "sopro" indica especialmente a obra do Espírito. Jesus soprou sobre os Seus discípulos e disse: "...Recebei o Espírito Santo."[João, 20:22]. Ele compara o Espírito Santo com o vento. Em ambos idiomas Bíblicos, o Hebreu e o Grego, o vocábulo 'espírito' significa vendo, fôlego ou sopro. E como a Igreja confessa que o Filho é gerado eternamente pelo Pai, assim também ela confessa que o Espírito Santo procede do Pai e do Filho, como se pelo sopro, pelo fôlego. Destarte, concluímos que a passagem "...e soprou-lhe nas narinas o fôlego da vida..." em conexão com "...o Espírito de Deus pairava sobre a face das águas" e com a palavra de Jó, "...o sopro (o Espírito) do Todo-Poderoso me dá vida" - aponta para uma obra especial do Espírito Santo.

Antes de Deus soprasse o fôlego da vida no barro inerte, houve uma conferência no direcionamento do Ser divino: "Façamos o homem à nossa imagem, conforme a nossa semelhança..."[Gênesis 1:26]. Isto mostra --

Primeiro, que cada Pessoa divina teve, desempenhou obra distinta na criação do homem-"Façamos o homem" Antes dessa expressão, o singular é usado com relação a Deus-"Disse Deus", "Viu Deus"; mas agora o plural é utilizado, "Façamos o homem", o que implica que aqui, especialmente e mais claramente do que em qualquer passagem precedente, as atividades das Pessoas da Trindade Santa devem ser distintas.

Segundo, que o homem não foi criado vazio, para depois ser completado com poderes e faculdades espirituais mais elevadas, mas que o próprio ato da criação o fez conforme a semelhança de Deus, sem qualquer adição subseqüente ao seu ser. Pois nós lemos: "Façamos o homem à nossa imagem, conforme a nossa semelhança". Isto nos assegura que pela criação imediata, o homem recebeu a impressão da imagem divina; que na criação cada uma das Pessoas divinas executou uma obra distinta; e, por último, que a criação do homem com relação ao seu destino mais alto, foi efetuada pelo assoprar do fôlego de Deus.

Esta é a base da nossa declaração, de que a obra criativa do Espírito foi fazer todos os poderes e instrumentos de dons do homem para o Seu próprio uso, conectando-os vital e imediatamente com os poderes de Deus. Isto está de acordo com os ensinamentos Bíblicos relacionados com a obra regeneradora do Espírito Santo, a qual também, embora de maneira diferente, traz o poder e a santidade de Deus num contato imediato com os poderes humanos.

Negamos, portanto, a asserção freqüente de teólogos éticos, de que o Espírito Santo criou a personalidade do homem, desde que isto opõe-se a todo o sistema da Escritura. Pois, o que é a nossa personalidade senão a realização do plano de Deus com relação a nós? Tal como Deus, desde a eternidade pensou cada um de nós, como distintos dos demais seres humanos, com a nossa própria estampa, nossa história de vida, chamado e destino - assim também cada um deve desenvolver-se e mostrar-se haver se tornado uma pessoa. Então, cada um sozinho alcança o caráter; qualquer outra coisa é chamado de orgulho e de arbitrariedade.

Se a nossa personalidade é resultado direto do plano de Deus, então ela e tudo o mais que temos em comum com todas as outras criaturas não pode ser do Espírito Santo, mas sim do Pai; tal como todas as outras coisas, a nossa personalidade recebe a sua disposição do Filho; e o Espírito Santo age sobre ela como age sobre cada outra criatura, pelo acender a fagulha, revelando o calor da vida.


VIII. Dons e Talentos.

"Veio sobre ele o Espírito do Senhor ..." - Juízes 3:10

Nós agora consideraremos a obra do Espírito Santo na concessão de dons, talentos e habilidades para com artesãos e homens profissionais. A Bíblia declara que a motivação especial e a qualificação de pessoas para trabalhos designados a eles por Deus procede do Espírito Santo.

A construção do tabernáculo exigiu trabalhadores capazes, carpinteiros habilidosos: ourives e especialistas em trabalhos com prata, e mestres nas artes de tecelagem e bordado. Quem os providenciará para Moisés? O Espírito Santo. Pois lemos em Êxodo 31:2-5: "(2)Eis que eu tenho chamado por nome a Bezalel, filho de Uri, filho de Hur, da tribo de Judá, (3) e o enchi do espírito de Deus, no tocante à sabedoria, ao entendimento, à ciência e a todo ofício, (4)para inventar obras artísticas, e trabalhar em ouro, em prata e em bronze, (5) e em lavramento de pedras para engastar, e em entalhadura de madeira, enfim para trabalhar em todo ofício." O verso (6) mostra que esta atividade do Espírito Santo também incluía outros: "E eis que eu tenho designado com ele a Aoliabe, filho de Aisamaque, da tribo de Dã, e tenho dado sabedoria ao coração de todos os homens hábeis, para fazerem tudo o que te hei ordenado". E para iluminar ainda mais claramente este assunto, a Bíblia também diz: "a estes encheu de sabedoria do coração para exercerem todo ofício, seja de gravador, de desenhista, de bordador em azul, púrpura, carmesim e linho fino, de tecelão, enfim, dos que exercem qualquer ofício e dos que inventam obras artísticas."[Êxodo 35:35].

O operar do Espírito se nos mostra não somente em habilidades e trabalhos ordinários, mas também nas mais altas esferas do conhecimento humano e atividade mental; pois gênios militares, astúcia legal, política, e poder para inspirar as massas com entusiasmo são igualmente atribuídas àquele operar. Isto é de maneira geral expresso nas palavras: "E o Espírito do Senhor veio sobre" seja um herói, um juiz, um estadista, ou tribuno do povo, especialmente na época dos juizes, quando é dito de Josué, de Otoniel, de Baraque, de Gideão, de Sansão, de Samuel e de outros, que o Espírito do Senhor veio sobre eles. Também de Zorobabel, quando da reconstrução do templo, é dito: "...Não por força nem por poder, mas pelo meu Espírito, diz o Senhor dos exércitos."[Zacarias 4:6]. Mesmo com relação a Ciro, o rei ateu, nós lemos que Jeová o havia chamado para o Seu trabalho e o ungiu com o Espírito do Senhor ["Assim diz o Senhor ao Seu ungido, a Ciro..."(Isaías 45:1)].

Esta última instância introduz um outro aspecto do caso, ou seja, a operação do Espírito Santo na qualificação de homens para funções oficiais. Pois embora esta operação sobre e através do ofício receba a sua completa significação somente na dispensação da graça, ainda assim o caso do rei Ciro mostra que o Espírito Santo tem originalmente uma obra a desenvolver neste respeito, a qual não é somente o resultado da graça, mas pertence essencialmente à natureza da obra, mesmo que seja óbvio somente na história do lidar especial de Deus para com o Seu próprio povo.

É especialmente notável na contenda entre Saul e Davi. Não há razão para considerar Saul como um eleito de Deus. Depois da sua unção, o Espírito Santo vem sobre ele, habita nele, e opera nele durante todo o tempo em que ele permanece como rei escolhido do Senhor sobre o Seu povo. Mas tão logo ele perde aquele favor devido a sua determinada desobediência, o Espírito Santo o abandona e o Senhor permite que um espírito mau venha lhe aborrecer. Evidentemente, esta obra do Espírito Santo não tem nada a ver com regeneração. Por um tempo ele pode operar sobre um homem, e então abandoná-lo para sempre; enquanto que a operação salvífica do Espírito, mesmo que possa estar suspensa por um tempo, não pode nunca ser totalmente perdida. A tocante oração de Davi, "Não me lances fora da Tua presença, e não retire de mim o Teu Santo Espírito"[Salmo 51:11] deve, portanto, referir-se a dons que o qualificavam no ofício real. Davi tinha o terrível exemplo de Saul perante si. Ele tinha visto no que se transforma um homem a quem o Espírito Santo abandona à própria sorte; e o seu coração tremia ante a possibilidade de um espírito mau vir sobre ele, e de ter ele um fim igual ao de Saul. Como Judas, Saul suicidou-se.

Do ensino da Bíblia nós concluímos, portanto, que o Espírito Santo tem uma obra em conexão com artes mecânicas e funções oficiais - em cada talento especial através do qual alguns homens superam-se em tais artes e ofícios. Este ensinamento não é simplesmente que tais dons e talentos nãos sejam do homem da de Deus, tanto quanto todas as outras bênçãos, mas que eles não constituem-se na obra do Pai, nem do Filho, mas do Espírito Santo.

A distinção descoberta na criação pode ser aqui observada: dons e talentos provêm do Pai; são dispostos para cada personalidade pelo Filho; e são acesos em cada um pelo Espírito Santo, como se por uma centelha do alto.

Vamos distinguir a arte em si mesma, a vocação para ela e o talento para praticá-la.

A arte não é uma invenção do homem, mas uma criação de Deus. Em todas as nações e em todas as épocas os homens têm buscado as artes da tecelagem, do bordado, da costura, do lavrar e incrustar de metais preciosos, do corte e polimento de diamantes, do moldar o ferro e o bronze; e em todas essas terras e durante todas essas épocas, sem conhecer o esforço despendido por cada um em cada lugar, os homens têm aplicado as mesmas artes, as mesmas habilidades a todos aqueles materiais. É claro que existe uma diferença. A arte oriental carrega consigo uma estampa bem diferente daquela do Ocidente. Mesmo entre obras Francesas e Alemãs há diferenças. Mas sob as diferenças, o esforço, as técnicas aplicadas, o material, o ideal perseguido, são os mesmos. Da mesma forma, a arte não atingiu a perfeição em tudo de uma só vez; entre as nações, formas inicialmente cruas, e esquisitas, gradualmente desenvolveram-se em formas castas, refinadas, e lindas. Gerações sucessivas incrementaram sucessos alcançados anteriormente, até que dentre as várias nações uma perfeição comparativa da arte fosse alcançada. Assim é que a arte não é o resultado do propósito e do pensamento do homem; mas Deus é que colocou em vários materiais certas possibilidades de trabalho artístico; e através da aplicação desta habilidade artística o homem deve transformar cada material no que existe dentro de cada material, e não no que quer que seja a sua escolha.
Duas coisas devem cooperar para este efeito. Na criação do ouro, da prata, da madeira, do ferro, Deus deve ter colocado neles certas possibilidades, e ter criado poder inventivo na mente humana, perseverança na sua vontade, força nos seus músculos, visão acurada nos seus olhos, delicadeza de toque e ação nos seus dedos, assim qualificando-o para evoluir o que encontra-se latente naqueles materiais. Desde que este labor tem a mesma natureza dentre todas as nações, o progresso perpétuo da mesma grande obra sendo alcançado de conformidade com algum plano majestoso, sucessivamente através de gerações, toda capacidade artística e habilidade de execução deve ser operada no homem por um poder mais elevado e em obediência a um comando mais elevado. Observando os tesouros de uma exposição industrial à luz da Palavra revelada, veremos no seu desenvolvimento gradual e unidade genética o colapso do orgulho humano, e exclamaremos: "O que é toda esta arte e capacidade e habilidade, senão a manifestação das possibilidades que Deus colocou nestes materiais, e os poderes da mente e do olho e dos dedos, os quais Ele tem dado aos filhos dos homens ! "

Consideremos, agora, os talentos pessoais como total e completamente distintos da arte.

O ourives na sua arte e o juiz no seu ofício entram sob uma obra de Deus. Cada trabalho na sua divina vocação, e toda a habilidade, e toda a capacidade de julgamento que ele pode a partir dali desenvolver advém dos tesouros do Senhor.

Ainda, um artista difere de outro artista, em tudo e por tudo. Um copia o produto da geração anterior e o transfere para a próxima, sem aumentar nem desenvolver a capacidade artística. Ele começa como um aprendiz, e multiplica a sua habilidade entre outros aprendizes; mas a proficiência artística é a mesma. Já outro manifesta algo próxima à genialidade. Ele ultrapassa seu mestre rapidamente; ele vê, ele toca, ele descobre algo novo. Em suas mãos a arte é enriquecida. A ele é dado transferir dos tesouros da divina capacidade artística novas belezas para a capacidade humana.

Assim também de homens em ofício e profissão. Milhares de oficiais treinados nas nossas escolas militares tornam-se bons professores da ciência de táticas como até então praticada, mas não lhe acrescenta nada; enquanto que entre esses milhares pode haver dois ou três dotados de um gênio militar que, no evento de uma guerra surpreenderão o mundo com as suas brilhantes expedições.

Este talento, esta genialidade individual relacionada à personalidade humana, é um dom. nenhum poder no mundo pode criá-la no homem que não a possui. O ser humano nasce com ela ou sem ela; se sem, nenhuma educação ou severidade - nem mesmo ambição - pode torná-la ativa. Mas se o dom da graça é livremente concedido pelo Deus soberano, então o é também o dom da genialidade. Quando o povo ora, que não se esqueçam de rogar a Deus que levante entre eles homens de talento, heróis de arte e de ofício.

Quando em 1870 a Alemanha somente conhecia a vitória, e a França somente a derrota, foi a soberania de Deus que deu à primeira os generais talentosos, em desprazer negou-os à segunda.

Consideremos a vocação.

Homens - oficiais e mecânicos - têm um alto chamado. E não têm a mesma habilidade. Um é adaptado para o mar, um outro para o arado. Um é um desastre numa fundição, mas um mestre em entalhar madeira, enquanto que outro é o oposto. Isto depende da personalidade, da natureza e da inclinação. E desde que o Espírito Santo é quem acende a chama da personalidade, Ele também determina o chamado de cada indivíduo, para os negócios ou para as profissão. O mesmo aplica-se à vida das nações. Os Franceses superam-se em gosto tanto quanto em habilidades artísticas; enquanto que os Ingleses parecem haverem sido criados para o mar, nossos mestres em todos os mercados do mundo. O Espírito Santo concede até mesmo o talento e a habilidade artística para uma nação em uma ocasião, retirando-a noutra. Três séculos atrás, a Holanda ultrapassou toda a Europa na tecelagem, na produção de porcelana, na imprensa, na pintura e na escultura. Mas quão grande foi o declínio subsequente nesses aspectos - embora agora o progresso reapareça.

O que vemos em Israel é relacionado a isto. Essa própria sede e capacidade de conhecimento fez com que o homem caísse. O primeiro impulso foi dado à habilidade artística entre os descendentes de Caim: Jubal, Jabal e Tubal-Caim foram os primeiros artistas. E no entanto, todo esse desenvolvimento, embora alimentado dos tesouros de Deus, separou-se dEle mais e mais, enquanto que o Seu próprio povo via-se completamente sem. Nos dias de Samuel não havia nenhum ourives em toda a terra de Canaã. Assim é que o sobrevir do Espírito sobre Bezaleel e Aoliabe, sobre Otniel e Sansão, sobre Saul e Davi; significa algo mais que o simples multiplicar de talento e de capacidade artística; nominalmente, a restauração do que o pecado havia corrompido e violado. E assim a iluminação de Bezaleel liga a obra do Espírito Santo na criação material àquela na dispensação da graça.

 


Tradução livre: Eli Daniel da Silva
Belo Horizonte-MG, 05 de Fevereiro 2003.