A Obra do Espírito Santo
por
Abraham Kuyper, D.D., LL.D
VOLUME UM
A Obra do Espírito Santo na Igreja como um Todo
Capítulo Quarto - A Escritura Sagrada no Antigo Testamento
XII. A Escritura Sagrada
"Toda Escritura é divinamente inspirada e proveitosa para ensinar, para repreender, para corrigir, para instruir em justiça; para que o homem de Deus seja perfeito, e perfeitamente preparado para toda boa obra."[II Timóteo 3:16, 17]
A Escritura Sagrada encontra-se em primeiro lugar dentre as obras divinas de arte produzidas pelo Espírito Santo. Pode parecer incrível que as páginas impressas de um livro devessem superar a Sua obra nos corações humanos, todavia reputamos o lugar mais notório à Bíblia, sem hesitação.
Aqueles que fazem objeção nunca podiam ter considerado o que é este Livro santo, ou o que é qualquer outro livro, escrito ou linguagem, ou o que significa o transformar numa coletânea de Escrituras Sagradas um mundo de pensamentos. Nós negamos que um livro, especialmente um tal como a Bíblia, se oponha a um universo de pensamento divino, a corrente de vida, e experiência espiritual. Um livro não trata-se meramente de papel impresso com tinta, mas é como um retrato-um conjunto de linhas e características nas quais enxergamos a aparência de uma pessoa. De muito próximos, não vemos a pessoa, mas os pontos e linhas de tinta; mas à distância correta estas desaparecem e dão lugar à aparência de uma pessoa. Mesmo que agora não chame a nossa atenção, por se tratar da face de um estranho, podemos ser capazes de ter uma idéia do caráter do homem, ainda que ele não nos interesse. Mas deixe o seu filho dar uma olhada, e a imagem que nos pareceu fria lhe aparecerá instantaneamente, com calor e vida, os quais nos são invisíveis porque aos nossos corações falta o essencial. O que aparece para a criança não é a pintura, o retrato, mas na sua memória e imaginação; a cooperação das características na pintura e a imagem do pai no seu coração dão voz à imagem.
Esta comparação explicará o efeito misterioso da Bíblia. Guido de Bress falou disso nos seus debates com os Batistas: "Aquilo que chamamos de Santa Escritura não é papel com impressão em preto, mas é aquilo que dirige-se aos nossos espíritos através daquelas impressões." As letras nada mais são que símbolos de reconhecimento; as palavras são somente como os cliques de chaves telegráficas sinalizando pensamentos para os nossos espíritos através das linhas dos nossos nervos óticos e auditivos. E os pensamentos assim sinalizados não são isolados e incoerentes, mas partes de um sistema completo que é diretamente antagonista para com os pensamentos do homem, todavia penetram na esfera deles.
Ler a Bíblia traz às nossas mentes a esfera do pensamento divino, tanto quanto ele nos é necessário para nós enquanto pecadores, de forma a glorificar a Deus, amar o nosso próximo e salvar nossa alma. Tal não é uma simples coleção de idéias lindas e brilhantes, mas o reflexo da vida divina. Em Deus a vida e o pensamento estão unidos: não pode haver vida sem pensamento, nem pensamento sem o produto da vida. O mesmo não acontece conosco. A falsidade entrou em nós, i.e., nós podemos separar o pensamento da vida. Ou melhor, eles estão sempre separados, a menos que tenhamos voluntariamente estabelecido a unidade original. Assim é que as nossas abstrações frias; o nosso falar sem agir; as nossas palavras sem força; os nossos pensamentos e idéias sem o trabalhar; os nossos livros que, como plantas cortadas de suas raízes, secam antes que possam florescer, muito menos frutificar.
A diferença entre a vida divina e a vida humana dão à Bíblia a sua singularidade e eliminam o antagonismo entre as suas letras e o seu espírito, tal como uma exegese false de II Coríntios 3:6 possa sugerir. Se a Palavra de Deus estivesse dominada pela falsidade que tem tomado conta dos nossos corações, e em meio à nossa miséria continua a colocar palavra e vida em oposição, tanto quanto separação, então buscaríamos refúgio no ponto de vista dos nossos irmãos que discordam, com sua exaltação, da vida acima da Palavra. Mas não precisamos fazê-lo, pois a oposição e a separação não encontram-se na Bíblia. Por esta razão é que ela é a Santa Escritura; pois não se perdeu na separação ímpia de pensamento e vida, e é, portanto, distinta de escritos nos quais se abre o abismo entre as palavras e a realidade da vida. O que falta em outros escritos está neste Livro, concordância perfeita entre a vida refletida no pensamento divino e os pensamentos que a Palavra desperta em nossas mentes.
A Escritura Santa é como um diamante: na escuridão é como um pedaço de vidro, mas assim que a luz a atinge ela começa a brilhar, e a cintilação da vida nos brinda. Assim, a Palavra de Deus longe da vida divina não tem valor, é indigna mesmo do nome de Escritura Sagrada. Ela existe somente quando relacionada com esta vida divina, da qual ela impele os pensamentos doadores de vida até as nossas mentes. É como a fragrância de um jardim florido que nos refresca somente quando as flores e o nosso sentido do olfato se correspondem. Por isso é que é verdadeira a ilustração da criança e o retrato de seu pai.
Enquanto a Bíblia constantemente ilumina pensamentos nascidos da vida divina, ainda assim os efeitos não são os mesmos em todos que a lêem. Como um todo, ela é o retrato dAquele que é o esplendor da glória de Deus e a imagem expressa da Sua Pessoa, querendo ou mostrar-nos a Sua aparência ou servir-Lhe como pano de fundo.
Note a diferença, quando um filho de Deus e um estranho olham aquela imagem. Não como se ela não tenha nada a dizer para o não regenerado - este é um erro do Metodismo, que deveria ser corrigido(1). Ela dirigi-se a todos os homens como a Palavra do Rei, e cada um deve receber sua mensagem da sua própria maneira. Mas enquanto o estrangeiro vê somente a face de um estranho, que o perturba, que contradiz o seu mundo, e assim o repele; o filho de Deus A reconhece e A compreende. Ele está em santa comunhão com a vida do mundo do qual a imagem chega até ele. Assim, lendo o que o estrangeiro não poderia ler, ele sente que Deus está falando consigo, sussurrando paz à sua alma.
Nem como se as Escrituras fossem somente um sistema de sinais para disparar pensamentos alma adentro; antes, elas são o instrumento de Deus para despertar e para aumentar a vida espiritual, não como por mágica, dando uma espécie de atestado da genuinidade da nossa experiência - uma visão fanática a qual a Igreja sempre opôs-se e rejeitou - mas pelo Espírito Santo, através do uso da Palavra de Deus.
Ele nos regenera através da Palavra. A maneira desta operação será discutira mais tarde; basta-nos por ora dizer que as operações da Palavra e do Espírito nunca se opõem, mas, como Paulo declara enfaticamente, a Sagrada Escritura é preparada pelo Espírito de Deus e dada à Igreja como um instrumento para completar a obra de Deus no homem; como ele expressou: "para que o homem de Deus seja perfeito,..."[II Timóteo 3:17], i.e. um homem anteriormente do mundo, por um ato divino transformado em um homem de Deus, para ser aperfeiçoado pelo Espírito Santo, razão pela qual ele já é perfeito em Cristo através da Palavra. Por isso é que, como Paulo declara, a Bíblia foi inspirada por Deus. Por conseguinte, esta obra de arte foi preparada pelo Espírito Santo para guiar o homem nascido de novo até o seu alto ideal. E para enfatizar a idéia ele acrescenta, no mesmo versículo: ",...e perfeitamente preparado para toda boa obra."
Assim é que a Bíblia serve este propósito duplo:
Primeiro, como um instrumento do Espírito Santo na Sua obra para com o coração do homem.
Segundo, para perfeitamente qualificar o homem e equipá-lo para toda boa obra.
Consequentemente, o operar da Bíblia envolve não somente a motivação da fé, mas também o exercício dela. Portanto, ao invés de ser letra morta, não espiritual, mecanicamente opondo-se à vida espiritual, a Bíblia é a própria fonte de água viva, a qual, em sendo aberta, jorra até a vida eterna.
Por esta ração a preparação e a preservação da Bíblia pelo Espírito não está subordinada, mas sim proeminente com referência à vida de toda a Igreja. Ou colocando de forma mais clara: se profecia; e.g., com o objetivo de primeiro beneficiar as gerações contemporâneas, e segundo, ser parte das Sagradas Escrituras, isto é, ministrar conforto à Igreja em todas as gerações, esta última de importância infinitamente maior. Daí que o objetivo principal da profecia não era beneficiar o povo que vivia àquela época e através da Bíblia render frutos para nós de maneira indireta; mas através da Bíblia render frutos para a Igreja em todas as gerações, em todas as eras, e indiretamente beneficiar a Igreja dos antigos.
XIII. A Escritura, Uma Necessidade.
"Porquanto, tudo que dantes foi escrito, para nosso ensino foi escrito, para que, pela constância e pela consolação provenientes das Escrituras, tenhamos esperança." - Romanos 15:4
Que a Bíblia é o produto do Artista Mestre, o Espírito Santo; que Ele deu-a à Igreja e que na Igreja Ele a usa como Seu instrumento, não pode nunca ser super enfatizado.
Não como se Ele tivesse vivido na Igreja de todas as eras, e nos dado na Escritura o relato daquela vida, sua origem e história, como se a vida fosse a substância real e a Escritura o acidente; ao contrário, a Escritura foi o fim de tudo o quanto precedeu e o instrumento de tudo o quanto se seguiu.
Com a aurora do Dia dos dias o Volume Sagrado indubitavelmente desaparecerá. Como a Nova Jerusalém não necessitará de nenhum sol, lua ou templo, mas o Senhor Deus será a sua luz, assim também não haverá nenhuma necessidade da Escritura, pois a revelação de Deus alcançará os Seus eleitos através da Palavra revelada. Mas enquanto a Igreja estiver na terra, for mantida a comunhão face a face, e os nossos corações forem acessíveis somente através das avenidas da sua existência imperfeita, a Escritura deve permanecer como o instrumento indispensável através do qual o Deus Triúno prepara as almas dos homens para a glória maior.
A causa disto encontra-se na nossa personalidade. Nós pensamos, somos auto conscientes; e o nosso pensamento reflete o mundo tridimensional ao nosso redor e acima de nós. O homem de consciência confusa ou mal formada ou alguém insano não pode agir como um homem. Na verdade, existem profundezas nos nossos corações que a sonda do nosso pensamento não perscrutou; mas a influência que venha a nos afetar profunda e claramente, com efeito contínuo sobre a nossa personalidade, precisa ser trabalhada através da nossa auto consciência.
A história do pecado o prova. Como foi que o pecado entrou no mundo? Satã despejou o seu veneno na alma do homem enquanto ele dormia? De modo algum.
Enquanto Eva estava cheia de si mesma, Satã começou a discutir o assunto com ela. Ele trabalhou na sua consciência com palavras e representações, e ela, permitindo-o, sorveu do veneno, caiu, e levou consigo o seu marido. Não tinha Deus portanto antecipado isto? A queda do homem não era para ser conhecida seja por suas emoções reconhecidas ou não reconhecidas, mas pela árvore do conhecimento do bem e do mal. O conhecimento que resultou na sua queda não foi meramente abstrato, intelectual, mas vital. É claro que a causa motivadora foi externa, mas operou na sua consciência e tomou a forma de conhecimento.
E como ocorreu com a queda, também deve ser com a restauração. A redenção deve vir de fora para dentro, agir sobre a nossa consciência e tomar a forma de conhecimento. Para afetar-nos e ganhar-nos em nossa personalidade, devemos ser tocados no exato ponto onde o pecado nos feriu primeiro, ou seja, no nosso orgulho e na nossa auto consciência arrogante. E desde que a nossa consciência espelha-se num universo de idéias - pensamentos expressos em sons tão intimamente relacionados para formar, como se fosse, nada mais que uma palavra - era portanto da mais alta necessidade que um novo universo de idéias devesse falar à nossa consciência numa Palavra, i.e. numa Escritura. e esta é a obra da Bíblia Sagrada.
O mundo do nosso pensamento é repleto de falsidade, e assim também o é o mundo lá fora. Mas um universo de pensamento é absolutamente verdadeiro, e este é o mundo dos pensamentos de Deus. Neste mundo é que nós devemos ser levados, e ele em nós, com a vida que lhe pertence, como o brilho pertence à luz. Portanto, a redenção depende da fé. Crer é reconhecer que o mundo inteiro, que todo o universo de pensamentos e idéias dentro de nós e ao nosso redor é falso, e que somente o mundo do pensamento de Deus é verdadeiro e constante, permanente, e como tal aceitá-lo e confessá-lo. Então, é ainda a Árvore do conhecimento. Mas os seus frutos, agora apanhados e apreciados, crescem na árvore íntima, interna, do auto-esvaziamento e da auto-negação, através do que renunciamos ao nosso próprio universo de idéias, não mais julgando entre o bem e o mal, mas repetindo cheios de fé aquilo que Deus ensina, como pequeninos na Sua escola.
Mas isto não nos seria de proveito, de os pensamentos de Deus estivessem dispostos em palavras ininteligíveis, o que teria sido o caso, se o Espírito Santo tivesse utilizado meros vocábulos. Nós sabemos o quão inútil é tentar descrever as felicidades e o gozo do céu. Cada esforço até agora tem sido um fracasso. Tal glória ultrapassa a nossa imaginação. E a revelação Bíblica com relação a tal é apresentada em palavras de sentido vividamente figurado - como um Paraíso, uma Jerusalém, ou um banquete de bodas - os quais, lindos como possam ser, não deixam impressões claras. Nós sabemos que o céu deve ser lindo e extasiante, mas uma concepção concreta dele está fora de questão. Nem podemos ter idéias claras da relação na Trindade, do Filho glorificado do homem, Seu assentar-se à direita de Deus, a vida dos redimidos e a sua condição quando, passando pelas câmaras da morte, adentram ao palácio do grande Rei.
Assim, se o Espírito Santo houvesse
apresentado por escrito, diretamente do céu, o conjunto de pensamentos
divinos quanto à nossa salvação, seria impossível
uma concepção clara do mesmo assunto. A nossa concepção
teria sido vaga e figurativa, como aquela referente ao céu. Por isso
é que esses pensamentos não foram escritos diretamente, mas traduzidos
à vida deste mundo, a qual lhes proporcionou forma e contorno; e assim
eles chegaram até nós em linguagem humana, nas páginas
de um livro. Sem isto não poderia nem ter havido uma linguagem para incorporar
tais realidades sagradas e gloriosas. Paulo teve visões, i.e., ele estava
livre das limitações da consciência e capaz de contemplar
coisas celestes; mas havendo retornado às suas limitações,
não podia falar do que havia visto, como ele disse que são "inefáveis"[veja
II Coríntios 12:4]
E que as igualmente inefáveis coisas da salvação pudessem
ser feitas exprimíveis em palavras humanas, aprouve a Deus trazer a este
mundo a vida na qual tais palavras originaram-se, tornar tais palavras familiares
à nossa consciência humana, desta consciência suscitar vocábulos
para elas, e assim apresentá-las a cada ser humano.
Os pensamentos de Deus são inseparáveis da Sua vida; assim é que a Sua vida teve de entrar no mundo antes dos Seus pensamentos, ao menos no princípio; pois em seguida os pensamentos tornaram-se o veículo da vida.
Isto aparece na criação de Adão. O primeiro homem criado; pois depois dele todos os homens nascem. No princípio a vida humana surgiu de uma vez, em estatura plena; e daquela vida uma vez introduzida, novas vidas são nascidas. Primeiro, uma nova vida originou-se ao ser Eva formada a partir de uma costela de Adão; depois, pela união entre homem e mulher. Assim aqui também. No princípio Deus introduziu a vida espiritual no mundo, de forma completa, perfeita, por um milagre; e depois diferentemente, já que a idéia, o pensamento introduzido neste mundo como vida, nos é descrito, para enxerguemos. Doravante o Espírito Santo utiliza o produto desta vida para despertar nova vida.
Assim, a redenção não pode começar com a dádiva do Espírito Santo para a Igreja do Pacto Antigo. Tal Escritura não pode ser produzida até que o seu conteúdo seja operado em vida, e a redenção objetivamente consumada.
Mas os dois não podem ser separados. A redenção não foi primeiro consumada e depois gravada na Escritura. Tal concepção seria mecânica e não espiritual, diretamente contradita pela natureza da Escritura, que é viva e doadora de vida. A Bíblia foi produzida gradual e espontaneamente pela e a partir da redenção. A promessa no Paraíso já o antecipava. Pois embora a redenção preceda a Escritura, ainda assim na regeneração dos primeiros homens a Palavra não era vã; o Espírito Santo começou falando ao homem, agindo na sua consciência. Mesmo no Paraíso, e subseqüentemente, na medida em que flui a corrente de revelação, uma palavra Divina sempre precede a vida e é instrumento de vida; e uma idéia, um pensamento divino introduz a obra redentora. E quando a redenção é consumada em Cristo, Ele aparece primeiro como o Porta Voz, depois como o Operador. O Verbo, que era desde o princípio, revela-Se a Israel como o Selo da Profecia, dizendo: "...Hoje se cumpriu esta escritura aos vossos ouvidos."[Lucas 4:21].
Assim é que a obra do Espírito Santo nunca é puramente mágica nem mecânica. Mesmo no período preparatório Ele sempre agiu através do Verbo ao trazer uma alma da morte para a vida. Contudo, entre aquela época e agora, há uma diferença absoluta:
Em primeiro lugar, naqueles tempos, a Palavra vinha até a alma diretamente por inspiração ou pelo pronunciamento de um profeta. Agora, estes ambos cessaram, e em seu lugar veio a Palavra selada na Escritura Sagrada, interpretada pelo Espírito Santo nas pregações na Igreja.
Em segundo, naquela época, o suscitar da vida era confinado a Israel, expressado em palavras e relações desenvolvidas que separavam estritamente os servos do único Deus verdadeiro da vida do mundo. Atualmente, esta extraordinária dispensação preparatória é fechada; o Israel de Deus se constitui mais dos descendentes de Abraão, mas o espiritual; a corrente da Igreja flui em todos os povos e nações; não mais está separado da vida e dos progressos do mundo, mas antes, os governa.
E em terceiro, embora na Antiga Dispensação a redenção já parcialmente existisse na Escritura, e o Salmista mostra demonstra em todos lugares sua devoção a ela, ainda assim a Escritura podia ser usada só limitadamente, e necessitava de constante suplementação por meio de revelações e profecias. Mas, agora, a Escritura revela todo o conselho de Deus, e nada pode ser-lhe acrescentado. Ai daquele que ousar diminuir ou aumentar este Livro da Vida, o qual expõe o universo da vontade divina!
Mas não obstante as diferenças o fato perdura, de que o Espírito Santo solucionou o problema de trazer ao homem perdido no pecado, por intermédio de uma linguagem inteligível a todas as idades e a todas as nações, o universo das vontades divinas; de modo a utilizá-las como o instrumento da restauração do homem.
Isto não altera o fato de que a Escritura Sagrada mostra muitas fissuras e 'terrenos irregulares', e parece diferente do que esperaríamos. A grande virtude desta obra prima foi envolver os pensamentos de Deus na nossa vida pecaminosa de modo que a partir da nossa linguagem eles pudessem formar um discurso no qual proclamar através dos tempos, para todas as nações, as poderosas palavras de Deus. Esta obra prima está completa e se nos apresenta na Sagrada Escritura. e ao invés de perder-se na crítica a estes defeitos aparentes, a Igreja de todas as épocas recebeu-a com adoração e ações de graças; a tem preservado, tem provado dela, desfrutado-a, e sempre acreditado encontrar nela a vida eterna.
Não que exame histórico e crítico estivesse proibido. Tal empreendimento, para a glória de Deus, é altamente recomendável. Mas como a busca do fisiologista pela gênese da vida humana torna-se pecaminoso se procedida com arrogância ou se trazendo risco para a vida ainda não nascida, assim também cada crítica da Escritura Sagrada torna-se pecaminosa e culpável se feita de modo irreverente ou se buscando destruir a vida da Palavra de Deus na consciência da Igreja.
XIV. A Revelação à Qual a Escritura do Antigo Testamento
Deve Sua Existência.
"...ó Senhor ... mais forte foste do que eu, e prevaleceste..." - Jeremias 20:7
A compreensão da obra do Espírito Santo na Bíblia requer que distingamos a preparação, e a formação, que é a conseqüência da preparação. Discutiremos estas duas separadamente.
O Espírito Santo preparou para a Escritura através de operações que compreenderam de forma sobrenatural a vida pecaminosa desde mundo desde o Paraíso até Patmos, e assim levantou homens crentes que constituíram no desenvolvimento da Igreja.
Parecerá muitíssimo tolo se considerarmos a Bíblia como um mero livro, um objeto desprovido de vida; mas não se ouvirmos Deus falando através dela, diretamente à alma. Separada da vida divina, a Bíblia é inútil, uma carta que mata. Mas quando nos damos conta que ela irradia o amor e a misericórdia de Deus de tal forma a transformar a nossa vida e dirigir-se à nossa consciência, vemos que a revelação sobrenatural da vida de Deus deve preceder a irradiação. A revelação das doces misericórdias de Deus devem preceder a cintilação delas na consciência humana. Primeiro, a revelação do mistério Divino; e então, a irradiação dele na Escritura Sagrada, e daí para o coração da Igreja de Deus, é o caminho natural e ordenado.
Para este propósito o Espírito Santo primeiro escolheu indivíduos, depois umas poucas famílias, e por último uma nação inteira para ser a esfera das Suas atividades; e em cada estágio Ele iniciou a Sua obra com a Palavra, sempre seguindo a Palavra da Salvação com os Fatos da Salvação.
Ele começou esta obra ainda no Paraíso. Depois da queda, a morte e a condenação reinaram sobre o primeiro casal, e neles enterraram a raça. Tivesse o Espírito Santo deixado-os à sua própria sorte, com o germe da morte sempre se desenvolvendo dentro de si, nenhuma estrela de esperança jamais teria brilhado para a raça humana.
Portanto, o Espírito Santo introduz a Sua obra exatamente no começo, no início do desenvolvimento da raça. O primeiro germe, o primeiro broto do mistério Divino já estava implantado em Adão, e a primeira palavra-mãe, da qual a Escritura Sagrada nasceria foi sussurrada nos seus ouvidos.
Esta palavra foi seguida pela ação. A palavra de Deus não retorna vazia; ela não é simplesmente um som, mas sim um poder. É um disco, uma lâmina que revolve o terreno da alma. Por detrás da palavra está o poder propulsor do Espírito Santo, e é assim que ela torna-se efetiva, e muda toda a condição das coisas. Enxergamos isto em Adão e Eva; especialmente em Enoque; e "Pela fé Abel ... alcançou testemunho de que era justo, dando Deus testemunho das suas oferendas, e por meio dela depois de morto, ainda fala."[Hebreus 11:4].
Após estas operações em indivíduos, inicia-se a obra do Espírito Santo na família, parcialmente em Noé, mais especificamente em Abraão.
O julgamento do dilúvio havia modificado completamente as relações anteriores, tinha feito com que uma nova geração nascesse, e talvez tivesse mudado também as relações físicas entre a terra e a sua atmosfera. E então, pela primeira vez, o Espírito Santo começa a operar na família. O nosso Ritual de Batismo aponta enfaticamente aos oito de Noé, o que tem sido uma pedra de tropeço para a falta de espiritualidade inconsistente. E ainda que desnecessariamente, ao apontar a Noé os nossos pais quiseram indicar, naquela prece sacramental, que não é o batismo de indivíduos, mas do povo de Deus, i.e. da Igreja e da sua semente. E desde que a salvação de famílias emerge primeiro na história de Noé e da sua família após o dilúvio, era perfeitamente correto apontar para a salvação de Noé e da sua família como sendo a primeira revelação de Deus, de salvação para nós e para a nossa semente.
Mas a obra do Espírito Santo na família de Noé é somente preliminar. Noé e os seus filhos ainda pertencem ao mundo antigo. Eles formaram uma transição. Depois de Noé a linha santa desaparece, e de Sem até Tera, a obra do Espírito Santo permanece invisível. Mas com Tera ela aparece da forma mais clara, pois agora Abraão parte, não com filhos, mas sozinho. O filho prometido ainda encontrava-se nas mãos de Deus. E ele não poderia ganhá-lo a não ser pela fé; de forma que Deus pudesse verdadeiramente dizer, "...Eu sou o Deus Todo-Poderoso..."[Gênesis 17:1], i.e. um Deus que "...vivifica os mortos, e chama as coisas que não são, como se já fossem"[Romanos 4:17]. Por isso a família de Abraão é, quase que num sentido literal, o produto da obra do Espírito Santo, em não haver nada na sua vida senão pela fé. A obra de arte na história de Abraão não é a imagem de um rei pastor piedoso ou a de um patriarca virtuoso, mas a obra maravilhosa do Espírito Santo, operando num homem velho - quem de novo e de novo "recalcitra contra os aguilhões" (N.T.: vide Atos 26:14), quem traz adiante do seu próprio coração nada a não ser a descrença - operando nele uma fé sólida e imutável, trazendo-a em direta conexão com a vida da sua família. Abraão é chamado de "o Pai dos Fiéis", não no sentido superficial de uma conexão espiritual entre a nossa fé e a história de Abraão, mas porque a fé de Abraão estava entrelaçada com o fato do nascimento de Isaque, quem ele obteve pela fé, e de quem lhe foi dada a semente, como as estrelas do céu e os grãos de areia da praia.
A obra do Espírito Santo passa do indivíduo para a família, e depois para a nação. Assim nasce Israel.
Foi Israel, i.e. não uma das nações, mas um povo recém criado, acrescentado às nações, recebido entre os seus números, distinto perpetuamente de todas as demais nações em origem e em significado. E este povo também é nascido da fé. Para este fim, Deus jogou-os à morte: no monte Moriá; na fuga de Jacó, nos sofrimentos de José, e nos medos de Moisés; as provas severas de Pitom e Ramessés, quando os bebês dos Hebreus flutuaram no Nilo. E desta morte, é de novo e de novo a fé que livra e salva, e portanto o Espírito Santo é que continua a Sua obra gloriosa na geração e na regeneração deste povo emergente. Após este povo haver nascido, é novamente jogado à morte: primeiro, na imensidão do deserto; depois, durante a época dos juizes; finalmente, no Exílio. Todavia o povo não pode morrer, pois carregam em seu âmago a esperança da promessa. Conquanto sofrendo mutilações, pragas e indiscriminadamente dizimados, eles multiplicam-se vez após vez; pois a promessa do Senhor não falha, e apesar da apostasia e dos deslizes vergonhosos, Israel manifesta a gloria de um povo nascendo, vivendo e morrendo pela fé.
Assim, a obra do Espírito Santo manifesta-se nestes três estágios: Abel, Abraão, Moisés; o indivíduo, a família, a nação. O operar do Espírito Santo é visível em cada um desses três, na medida em que tudo é operado pela fé. E não é a fé operada pelo Espírito Santo? Muito bem; pela fé Abel obteve testemunho; pela fé Abraão recebeu o filho da promessa; e pela fé Israel atravessou o Mar Vermelho.
E qual é a relação entre a vida e a palavra de vida nestes três estágios? É, de acordo com as representações atuais, primeiro a vida, e então a palavra florescendo a partir dali, como um símbolo da vida consciente?
A história, evidentemente prova bem o oposto. No Paraíso a palavra precede e a vida se segue. Para Abraão, em Ur dos Caldeus, primeiro a palavra; "...Sai-te da tua terra, da tua parentela, e da casa de teu pai, para a terra que eu te mostrarei. . . . .por meio de ti e da tua descendência serão benditas todas as famílias da terra"[Gênesis 12:1 e 28:14]. No caso de Moisés, primeiro foi a palavra na sarça ardente e mais tarde a passagem pelo Mar Vermelho. Esta é a maneira mostrada pelo Senhor. Ele primeiro fala, então opera. Ou, mais corretamente, Ele fala, e através do Seu falar, Ele faz acontecer. Os dois encontram-se na mais íntima conexão. Não como se a palavra causasse vida; pois o Deus Triúno e Eterno é a única Causa, a única Origem e Fonte de vida. Mas a palavra é o instrumento com do qual Ele utiliza-se para completar a Sua obra nos nossos corações.
Nós não podemos parar aqui para tecer considerações sobre a obra do Pai e do Filho, a qual tanto precedeu como seguiu-se à obra do Espírito Santo, e a qual está inter relacionada com aquela. Dos milagres, falamos somente porque descobrimos neles uma obra dupla especial do Espírito Santo. O operar do milagre é do Pai e do Filho, e não tanto assim do Espírito Santo. Mas todas as vezes que aprouve a Deus usar homens como instrumentos na realização de milagres, é obra especial do Espírito qualificá-los através do Seu operar a fé nos seus corações. Ao ferir a rocha Moisés não acreditava, mas imaginava que em fazendo-o ele próprio, poderia produzir água da rocha; o que somente Deus pode fazer. Para aquele que crê é o mesmo, esteja ele a falar ou a ferir a rocha. Nem o cajado nem a língua são capazes do menor efeito. O poder procede somente de Deus. Daí a magnitude do pecado de Moisés. Ele pensava que seria ele o operador, e não Deus. E esta é a mesma obra do pecado no povo de Deus.
Assim é que vemos que quando Moisés atirava a sua vara, quando ele amaldiçoava o Nilo, quando Elias e outros homens de Deus operavam milagres, eles não faziam coisa alguma; eles somente criam. E pela virtude da sua fé eles vieram a tornar-se os espectadores do testemunho de Deus, mostrando-lhes as obras de Deus e não a sua própria. Isto é o que Pedro exclamou: "...por que vos admirais deste homem? Ou, por que fitais os olhos em nós, como se por nosso próprio poder ou piedade o tivéssemos feito andar?"[Atos 3:12].
Operar esta fé nos corações
dos homens que deviam executar esses milagres era a primeira tarefa do Espírito
Santo. A Sua segunda tarefa era despertar a fé nos corações
daqueles sobre os quais o milagre seria operado. A respeito de Cristo foi escrito,
que em Cafarnaum Ele não operar poderosamente por causa da sua incredulidade,
da sua falta de fé; e repetidamente lemos: "A tua fé te
salvou."
Mas o milagre sozinho não tem poder de convencer. O incrédulo
começa por negá-lo. Ele explica-o atribuindo-lhe causas naturais.
Ele não vê nem quer ver a mão de Deus no milagre. E quando
o milagre é tão convincente que ele não pode negá-lo,
ele diz: "É coisa do diabo", mas não aceitará
tratar-se do poder de Deus. Portanto, para fazer o milagre ser efetivo, o Espírito
Santo deve também abrir os olhos daqueles que o testemunham, para faze-los
ver o poder de Deus agindo ali. Todas as leituras que fizermos dos milagres
na nossa Bíblia são inúteis, a menos que o Espírito
Santo abra os nossos olhos, e então os veremos vivos, ouviremos seus
testemunhos, experimentaremos o seu poder, e glorificaremos a Deus pelos Seus
poderosos feitos.
XV. A Revelação Escrita do Antigo Testamento.
"Se eu disser: Não farei menção dele, e não falarei mais no seu nome, então há no meu coração um como fogo ardente, encerrado nos meus ossos, e estou fatigado de contê-lo, e não posso mais."-Jeremias 20:9
Embora os milagres realizados para e entre o povo de Israel criassem um glorioso centro de vida no meio do mundo ímpio, todavia eles não se constituíram numa Escritura Sagrada; pois esta não pode ser criada a não ser por Deus falar ao homem, mesmo ao Seu povo Israel. "(1) Havendo Deus antigamente falado muitas vezes, e de muitas maneiras, aos pais, pelos profetas, (2) nestes últimos dias a nós nos falou pelo Filho..."[Hebreus 1:1,2].
Este falar divino não está limitado à profecia. Deus falou também a outros que não profetas, e.g. falou a Eva, a Caim, a Hagar, etc. Receber uma revelação ou uma visão não faz de ninguém um profeta, a menos que seja acompanhado pelo comando de comunicar a revelação a outros. A palavra "nabi", o termo Escritural para profeta, não indica uma pessoa que recebe algo de Deus, mas alguém que traz alguma coisa para o povo. Por isso é que é um erro confinar a revelação divina ao ofício profético. Na realidade, ele estende-se à raça toda, em geral; a profecia é somente uma das suas características especiais. Quanto à revelação divina no seu âmbito mais amplo, é evidente a partir das Escrituras que Deus falou a homens desde Adão até o último dos profetas. Desde o Paraíso e até Patmos a revelação percorre como uma fita dourada, através de cada parte da História Sagrada.
Como regra, a Bíblia não trata este falar divino de maneira metafórica. Há exceções, e.g. "Falou, pois, o Senhor ao peixe..."[Jonas 2:10]; "(2) Um dia faz declaração a outro dia, e uma noite revela conhecimento a outra noite. (3) Não há fala, nem palavras; não se lhes ouve a voz."[Salmo 19:2, 3]. No entanto, pode ser provado, em mil passagens contra uma no contrário, que o padrão do falar do Senhor não pode ser considerado em nenhum outro sentido que não o literal. Isto é evidente no chamado de Deus a Samuel, o qual o menino confundiu como sendo Eli que o chamara. É evidente, também, nos nomes, números e localidades que são mencionadas neste falar divino; especialmente nos diálogos entre Deus e homem, como na história de Abraão no conflito da sua fé com relação à semente prometida, e na sua intercessão por Sodoma.
E, portanto, não podemos concordar com aqueles que tentam persuadir-nos que o Senhor na realidade não falou; que se assim se lê, não deve ser assim entendido; e que um vislumbre mais claro mostra que "uma certa influência de Deus afetou a vida íntima da pessoa, do destinatário. Em conexão com o caráter peculiar da pessoa e as influências do seu passado e presente, este operar proporcionou à sua consciência uma clareza especial, e operou nele convicção tal que, sem hesitação, ele declarou: 'Desde que eu desejo a vontade de Deus, eu sei então que o Senhor falou a mim'." Rejeitamos esta representação como sendo excessivamente perniciosa e danosa para a vida da Igreja. Nós a chamamos falsa, desde que ela desonra a verdade de Deus; e recusamo-nos a tolerar uma teologia que tenha tal premissa como ponto de partida. Ela aniquila a autoridade Bíblica. Embora recomendada pela ala da Ética, é excessivamente não ética, tanto quanto oponha-se diretamente à verdade da Palavra de Deus claramente expressa. Não, este falar divino, cuja transcrição é oferecida pela Bíblia, deve ser entendido como um falar real.
E o que é o falar? Falar pressupõe uma pessoa que tem um pensamento que ela deseje, queira transferir diretamente ao consciente de uma outra pessoa, sem a intervenção de um terceiro ou de escrita ou de gestos. Assim, quando Deus fala ao homem, este ato implica em três coisas:
Primeiro, que Deus tem um pensamento que Ele quer comunicar ao homem.
Segundo, que Ele executa o Seu desígnio de uma forma direta.
Terceiro, que a pessoa destinatária agora possui o pensamento divino com este resultado, que ele está cônscio da mesma idéia que, num momento atrás existia somente em Deus.
Concordaremos com cada explicação que faça total justiça a estes três pontos; rejeitamos quaisquer outras.
Quanto à questão se a fala é possível sem o som, respondemos: "Não, não entre homens". Certamente que o Senhor pode falar e tem falado de tempos em tempos utilizando-se de vibrações de ar; mas Ele pode falar ao homem sem utilizar-Se seja de som ou ouvido. Como homens, temos acesso à consciência uns dos outros somente através dos órgãos dos sentidos. Não podemos nos comunicar com o nosso próximo exceto se ele ouça, ou veja, ou sinta, ou toque. Os desafortunados que são privados destes sentidos não podem receber a menor informação de fonte externa. Mas o Senhor nosso Deus não é assim, limitado. Ele tem acesso direto, interno, ao coração do homem e à sua consciência. Ele pode imputar à nossa consciência o que quer que seja que Ele queira, de maneira direta, sem que se use o tímpano, o nervo auditivo, ou a vibração do ar. Embora um homem seja surdo como pedra, Deus pode faze-lo ouvir, falando direta e internamente à sua alma.
Contudo, para alcançar isto Deus precisa ser condescendente para com as nossas limitações. Pois a consciência está sujeita às condições mentais do mundo no qual ela vive. Uma pessoa na África, por exemplo, pode não ter nenhuma outra consciência a não ser aquela desenvolvida pelo meio ambiente em que vive e adquirida pelo seu idioma. Falando a um estrangeiro não familiarizado com a nossa língua, precisamos nos adaptar às suas limitações e endereçarmo-nos a ele no seu próprio idioma. Assim, de forma a fazer-Se inteligível, compreensível ao homem, Deus veste os Seus pensamentos numa linguagem humana e assim transportá-los até a consciência humana.
À pessoa então endereçada deve parecer, portanto, como se a ela tivesse sido falado de forma ordinária. Ele recebeu a impressão de ter ouvido palavras de linguagem humana transmitindo-lhe pensamentos divinos. Assim é que o falar divino é sempre adaptado às capacidades do destinatário. Porque em condescendência o Senhor Se adapta á consciência de cada homem, o Seu falar assume a forma peculiar da condição de cada homem. Que diferença, por exemplo, entre aquela palavra de Deus para Caim e aquela para Ezequiel! Isto explica como Deus podia mencionar nomes, datas e vários outros detalhes; como ele podia fazer uso do dialeto de um certo período; de derivação de palavras, como na mudança de nomes, como no caso de Abraão e Sara.
Isto também nos mostra que o falar de Deus não está limitado a pessoas pias e suscetíveis, preparadas para receber uma revelação. Adão era completamente despreparado, escondendo-se da presença de Deus. E assim também estavam Caim e Balaão. Mesmo Jeremias disse: "...Não farei menção dele, e não falarei mais no seu nome..."[20:9]. Assim, pois, a onipotência divina é ilimitada. O Senhor pode conceder o conhecimento da Sua vontade a quem Lhe aprouver. A questão por que Ele não tem falado por dezoito séculos não deve ser respondida com um "Porque Ele perdeu o poder"; mas "Porque não Lhe pareceu bem faze-lo." Havendo uma vez falado, e na Bíblia trazido a Sua palavra às nossas almas, Ele agora silencia-se para que possamos honrar as Escrituras.
No entanto, deve ser notado que neste falar divino desde o Paraíso até Patmos há uma certa ordem, unidade, e regularidade, pelo que portanto acrescentamos:
Primeiro, o falar divino não foi confinado a indivíduos, mas, tendo uma mensagem para todo o povo, Deus falou através dos Seus profetas escolhidos. Que Deus pode falar a uma nação inteira de uma só vez está provado pelos eventos no Sinai. Mas aprouve a Ele não faze-lo sempre desta forma. Ao contrário, Ele nunca mais falou a eles daquela forma, mas introduziu, ao invés, a profecia. Assim é que a missão peculiar da profecia é receber as palavras de Deus e imediatamente comunicá-las ao povo. Deus fala a Abraão o que dizia respeito só a Abraão; mas a Joel, a Amós e etc., uma mensagem não para eles mesmos, mas para outros, aos quais ela devia ser levada. Com relação a isto nós notamos o fato de que o profeta não encontra-se sozinho, mas relacionado com uma classe de homens entre os quais a sua mente foi gradualmente preparada para falar ao povo, e para receber o Oráculo divino. Pois a característica peculiar da profecia era a condição de êxtase, a qual difere grandemente da maneira pela qual Deus falou a Moisés.
Segundo, estas revelações divinas são mutuamente relacionadas e, em consideradas juntas, constituem-se num todo. Há primeiro a fundação, depois a sobre estrutura, até que finalmente o ilustre palácio da verdade e do conhecimento divinos esteja completo. A revelação como um todo mostra, portanto, um plano glorioso, no qual estão encaixadas as revelações especiais aos indivíduos.
Terceiro, o falar do Senhor, especialmente o da palavra íntima, interna, é peculiarmente a obra do Espírito Santo, a qual, como vimos anteriormente, aparece mais veementemente quando Deus vem a contato mais próximo com a criatura. E a consciência é a parte mais íntima do ser humano. Portanto, tão freqüente quanto o Senhor nosso Deus penetre a consciência humana para comunicar os Seus pensamentos, vestidos de palavras e pensamentos humanos, ali a Escritura Sagrada e o crente honram e adoram a operação confortadora do Espírito Santo.
XVI. Inspiração.
"Ao anjo da igreja em Sardes escreve: Isto diz aquele que tem os sete espíritos de Deus..."-Apocalipse 3:1
Não falamos aqui a respeito do Novo Testamento. Nada tem contribuído mais para falsificar e para minar a fé na Bíblia e na visão ortodoxa relativa a ela, do que a prática não histórica e não natural de considerar a Escritura do Antigo e do Novo Testamentos ao mesmo tempo.
O Antigo Testamento aparece primeiro; depois o Verbo se fez carne; e somente após é que houve a Escritura do Novo Testamento. No estudo da obra do Espírito Santo a mesma ordem deve ser observada. Antes nós falamos da Sua obra na Encarnação, a inspiração do Novo Testamento não pode nem mesmo ser mencionada. E até a Encarnação, não havia nenhuma outra Escritura senão o Antigo Testamento.
A questão agora é: Como a obra do Espírito Santo deve ser identificada na construção daquela Escritura?
Temos considerado a questão de como ela foi preparada. Através de obras maravilhosas Deus criou uma nova vida neste mundo; e, de forma a fazer com que os homens cressem nessas obras, Ele falou ao homem tanto direta como indiretamente, i.e. pelos profetas. Mas isto não criou a Escritura Sagrada. Se nada mais tivesse sido feito, não haveria tal Escritura; pois eventos acontecem e já pertencem ao passado; a palavra uma vez pronunciada morre com a emoção na consciência.
A escrita humana é a maravilhosa dádiva que Deus concedeu ao homem para perpetuar o que de outra forma teria sido esquecido e perdido por completo. A tradição falsifica a memória. Entre homens santos isto não seria assim. Mas nós somos homens pecadores. Através do pecado uma mentira pode ser dita. O pecado também é a causa da nossa falta de seriedade, e a raiz de todo o esquecimento, indiferença e negligência. São estes dois fatores, a mentira e a indiferença, que roubam o valor da tradição.
Por esta razão Deus deu à nossa raça a dádiva da escrita. Não importa se em cera, metal, face da rocha, pergaminho, papiro ou papel; mas que Deus capacitou o homem para encontrar a arte de legar um pensamento, uma promessa, um evento para a posteridade, independente de si, anexando tal pensamento, promessa ou evento a algo material, de forma que pudesse durar e ser decifrado por outros mesmo após a sua morte. Isto sim, é da maior importância.
Para nós, homens, a leitura e a escrita são formas de comunhão. Começa com o falar, o que é essencial para a comunhão. Mas o mero falar confina a comunhão a limites estreitos, enquanto que a leitura e a escrita lhe dão perspectiva mais ampla, estendendo-a a pessoas distantes e a gerações ainda por nascerem. Através da escrita, as gerações passadas verdadeiramente convivem juntas. Mesmo agora nós podemos nos encontrar com Moisés e com Davi, Isaías e João, Platão e Cícero; podemos ouvi-los falar e receber suas expressões mentais. Considere então isto; a escrita, não é, portanto algo insignificante, desprezível, como alguns, que são super espirituais e ridicularizam a palavra Escrita. Ao contrário, é grande e gloriosa - um dos fatores poderosos através do qual Deus mantém homens e gerações em comunicação viva e no exercício do amor. A sua descoberta foi uma graça maravilhosa, dádiva de Deus para o homem, mais do que duplicando os seus tesouros.
Muito freqüentemente tem se abusado deste presente, desta dádiva; ainda assim na sua utilização correta há uma glória ascendente. Quão muito mais gloriosa parece ser a arte da escrita quando Dante, Shakespeare e Schiller escreveram suas poesias, do que quando o pedagogo compila seus livros ou o tabelião certifica o aluguel de uma casa!
Desde que é possível usar ou abusar da escrita, que ela pode servir a propósitos baixos ou altos, o questionamento aparece: "Qual é o seu maior propósito?" E sem a mínima hesitação respondemos: "A produção das Sagradas Escrituras". Assim como a fala e o idioma humanos são do Espírito Santo, também a escrita nos ensina acerca dEle. Mas enquanto o homem usa a arte para gravar pensamentos humanos, o Espírito Santo a emprega para dar forma fixa e duradoura aos pensamentos de Deus. Assim é que há uma utilização humana e uma utilização divina, da escrita. A mais alta e completamente única é aquela na Sagrada Escritura.
Realmente, não há nenhum outro livro que sustente comunicação entre homens e gerações como o faz a Bíblia. Para a honra desta que é Sua obra própria, o Espírito Santo propiciou a distribuição universal somente deste livro, assim colocando homens de todas classes e camadas em comunicação com as gerações mais antigas de sua raça.
Deste ponto de vista, a Escritura Sagrada deve ser considerada, sendo de fato "a Escritura por excelência". Por isso o comando divino e sempre repetido: "Escreve". Deus não somente falou e agiu, deixando a cargo do homem decidir se os Seus feitos e se o teor das Suas palavras deviam ser esquecidos ou lembrados; mas ele também ordenou que devessem ser gravados por escrito. E quando justamente pouco antes de anunciar e de fechar a revelação divina a João na ilha de Patmos, o Senhor ordenou-lhe, "Escreve à Igreja" de Éfeso, de Pérgamo e etc., Ele repetiu numa síntese o que era o desígnio de todas as revelações precedentes, ou seja, que devessem ser escritas na forma de uma Escritura, uma dádiva do Espírito Santo, e serem depositadas na Igreja, a qual por aquele motivo é chamada de "pilar e terreno da verdade". Não, de acordo com interpretações posteriores, como se embora a verdade fosse lacrada na Igreja; mas, conforme a representação antiga, que a Sagrada Escritura, a Bíblia fosse confiada à Igreja, para preservação.
No entanto, não queremos dizer que com referência a cada um dos versículos e capítulos o Espírito Santo comandou , "Escreve", com se a Bíblia como a possuímos tivesse vindo a existir página após página. Seguramente as Escrituras Sagradas são divinamente inspiradas: uma declaração distorcida e pervertida além do reconhecimento pelos nossos teólogos Éticos, se eles entendem por isso que "profetas e apóstolos foram pessoalmente motivados pelo Espírito Santo". Isto confunde iluminação com revelação, e revelação com inspiração. "Iluminação" é o clarear da consciência espiritual a qual, no Seu próprio tempo o Espírito Santo dá, mais ou menos, a cada filho de Deus. "Revelação" é uma comunicação dos pensamentos de Deus dada através de maneira extraordinária, por um milagre, aos profetas e apóstolos. Mas "inspiração", totalmente distinta das duas anteriores, é aquela operação única e especial do Espírito Santo através da qual Ele direciona as mentes dos escritores da Bíblia no ato de escrever. "Toda Escritura é divinamente inspirada"[II Timóteo 3:16]; e isto não tem referência alguma com iluminação comum, nem revelação extraordinária, mas com uma operação que encontra-se inteiramente sozinha e a qual a Igreja tem confessado sempre, sob o nome de Inspiração. Assim, a inspiração é o nome daquela operação todo compreensiva do Espírito Santo, pela qual Ele concedeu à Igreja uma Escritura infalível e completa. Chamamos esta operação de 'todo compreensiva', pois ela foi orgânica, e não mecânica.
A prática de escrever data à antigüidade remota, precedida, no entanto, pela preservação da tradição verbal pelo Espírito Santo. Tal é evidente da narrativa da Criação. Físicos notáveis, como Agassiz, Dana, Guyot, e outros, têm declarado abertamente que a narrativa da Criação gravou há muitos séculos atrás o que até hoje nenhum homem poderia saber por si mesmo, e o que na atualidade é revelado somente em parte, pelo estudo da geologia. Portanto a narrativa da Criação não é mito, mas sim história. Os eventos aconteceram como gravados nos capítulos iniciais do livro de Gênesis. O Próprio Criador deve have-los comunicado ao homem. Desde Adão e até a época quando a escrita foi inventada, a lembrança desta comunicação deve ter sido preservada corretamente. O fato de haverem duas narrativas da Criação não prova nada em contrário. A Criação é considerada dos pontos de vista natural e espiritual; portanto é perfeitamente apropriado que a imagem da Criação devesse ser completada num esboço duplo.
Se Adão não recebeu o encargo especial, ainda assim através da própria revelação ele obteve a impressão poderosa de que tal informação não era destinada somente a ele, mas para todos os homens. Dando-se conta da importância e da obrigação que isto impunha, gerações sucessivas perpetuaram a lembrança das palavras e dos feitos maravilhosos de Deus, primeiro oralmente, depois por escrito. Desta forma, gradualmente surgiu uma coletânea de documentos os quais através da influência Egípcia foram ordenados em forma de livro pelos grandes homens de Israel. Estes documentos sendo coletados, filtrados, compilados e expandidos por Moisés, formaram nos seus dias o começo de uma Escritura Sagrada apropriadamente assim chamada.
Se Moisés e aqueles outros escritores antigos estavam, cientes de que a sua inspiração não ser material; o Espírito Santo os direcionou, trouxe ao seu conhecimento o que eles deviam saber, aguçou seu senso de julgamento na escolha de documentos e relatos, de forma que eles fossem capazes de decidir corretamente; e deu-lhes uma maturidade superior que os capacitou sempre na escolha da palavra correta.
Embora o Espírito Santo falasse diretamente aos homens, a fala e idioma humanos não sendo invenções humanas, todavia na escrita Ele empregou agências humanas. Mas se Ele dita de forma direta, como no livro do Apocalipse do apóstolo João, ou governa a escrita de forma indireta, como com historiadores e evangelistas, o resultado é o mesmo: o produto é de tal forma e com tal conteúdo como o Espírito Santo designou, um documento infalível para a Igreja de Deus.
Assim é que a confissão da inspiração não exclui simples e ordinária numeração, coleção de documentos, classificação, gravação, etc. Ela reconhece todos estes assuntos que são plenamente reconhecíveis na Escritura. Estilo, dicção, repetições, todos retém seu valor. Mas deve insistir-se que a Bíblia como um todo, como finalmente apresentada à Igreja, quanto ao conteúdo; à seleção e ao arranjo de documentos, de estrutura e mesmo de palavras, deve a sua existência ao Espírito Santo, i.e. que os homens empregados nesta tarefa foram consciente ou inconscientemente tão controlados e direcionados pelo Espírito, em todas as suas idéias, suas seleções, suas filtragens, suas escolhas de palavras, e escrita, que o seu produto final, legado para a posteridade, possuía uma garantia perfeita de autoridade divina e absoluta.
Que as próprias Sagradas Escrituras apresentem um número de objeções e possam, em muitos aspectos fazer nenhuma impressão de uma inspiração absoluta, não milita contra o outro fato de que esta labuta espiritual foi controlada e direcionada pelo Espírito Santo. Pois a Escritura Sagrada tinha de ser construída de forma a permitir espaço para o exercício da fé. Não foi intenção que fosse aprovada pelo julgamento crítico e que fosse aceita neste terreno. Isto eliminaria a fé. A fé consolida-se diretamente com a integridade da nossa personalidade. Para ter fé na Palavra, a Escritura não pode atingir-nos no nosso pensamento crítico, mas na vida da alma. Crer na Escritura é um ato de vida, do qual tu, ó homem sem vida! não és capaz, exceto se o Insuflador, o Espírito Santo, te capacitar. Ele, que fez a Sagrada Escritura ser escrita é o mesmo que te ensina a lê-La. Sem Ele este produto da arte divina não pode afetar-te. Assim é que cremos:
Primeiro, que o Espírito Santo escolhe esta construção humana da Sagrada Escritura, da Bíblia propositadamente, de modo que nós, enquanto homens possamos mais prontamente viver nela.
Segundo, que as pedras de tropeço foram introduzidas, para que fosse impossível apossarmo-nos do seu conteúdo de maneira meramente intelectual, sem o exercício da fé.
(¹) - Para o sentido no qual o autor toma o Metodismo, veja a seção "5" no Prefácio.
Tradução livre: Eli Daniel da Silva
Belo Horizonte-MG, 19 de Fevereiro 2003.