A Obra do Espírito Santo
por
Abraham Kuyper, D.D., LL.D
VOLUME UM
A Obra do Espírito Santo na Igreja como um Todo
Capítulo Sexto - O Mediador
XX. O Espírito Santo No Mediador.
"...que pelo Espírito eterno se ofereceu
a si mesmo imaculado a Deus..." - Hebreus 9:14
A Obra do Espírito Santo na Pessoa de Cristo não acaba na Encarnação, mas aparece notoriamente nas obras do Mediador. Consideramos esta obra no desenvolvimento da Sua natureza humana; na consagração ao Seu ofício; na Sua humilhação até a morte; na Sua ressurreição, exaltação e retorno em glória.
Primeiro - A obra do Espírito Santo no desenvolvimento da natureza humana em Jesus.
Dissemos antes, e repetimos agora, que consideramos o esforço para escrever a "Vida de Jesus" ou ilegítimo ou com título não apropriado: não apropriado quando, fingindo escrever uma biografia de Jesus, o escritor simplesmente omite-se de explicar os fatos psicológicos da Sua vida; ilegítimo quando ele explica esses fatos a partir da natureza humana de Jesus.
Nunca houve uma vida de Jesus no sentido de uma existência pessoal humana; e a tendência para substituir as simples narrativas do Evangelho por várias biografias de Jesus de Nazaré tem o objetivo de nada mais que situar a Pessoa única do Deus-homem no mesmo nível que os gênios e os grandes homens do mundo; de humanizá-LO, e assim aniquilar o Messias nEle-em outras palavras, secularizá-LO. E contra isto, com toda a nossa força, protestamos solenemente.
A Pessoa do Deus-homem nosso Senhor Jesus não viveu uma vida, mas perpetrou um poderoso ato de obediência ao humilhar-SE até a morte; e em decorrência de tal humilhação Ele ascendeu ao céu não por poderes desenvolvidos a partir da Sua natureza humana, mas por um agir poderoso e extraordinário do poder de Deus. Qualquer um que obtenha sucesso na empreitada de escrever sobre a vida de Cristo não seria capaz nada mais do que rascunhar um retrato da Sua natureza humana. Pois a natureza divina não tem história, não transcorre num período de tempo, mas permanece a mesma para sempre e sempre.
No entanto, isto não evita que questionemos, de acordo com a necessidade das nossas limitações, quanto a de que maneira a natureza humana de Cristo foi desenvolvida. E então a Bíblia nos ensina que houve de fato crescimento na Sua natureza humana. O Evangelista Lucas relata que Jesus crescia em estatura e sabedoria e em favor perante Deus e os homens. Assim é que estava na Sua natureza humana um crescimento e um desenvolvimento a partir do menor e em direção do maior. Isto teria sido impossível se no Messias a natureza divina tivesse tomado o lugar do ego humano; pois então a majestade da Divindade teria sempre e completamente enchido toda a natureza humana. Mas este não foi o caso. A natureza humana no Mediador era real, i.e. existia no corpo e na alma, da mesma forma que existe em nós, e todo o operar interno da vida divina, luz, e poder, somente poderia manifestar-se pela adaptação de si mesma às peculiaridades e limitações da natureza humana.
Na manutenção do ponto de vista errado de que o desenvolvimento do Adão sem pecado teria sido alcançado sem o auxílio do Espírito Santo, é natural supor-se que a natureza não pecadora de Cristo também desenvolveu-se igualmente sem a assistência do Espírito de Deus. Mas conhecendo, através da Bíblia, que não somente os dons, poderes e faculdades do homem; e sim também seus operarem e seus exercitarem são um resultado da obra do Espírito Santo, vemos o desenvolvimento da natureza humana de Jesus sob uma ótica diferente e compreendemos o significado das palavras que Ele recebeu o Espírito Santo sem medida. Pois tal indica que a Sua natureza humana também recebeu o Espírito Santo; e isto não somente depois de Jesus haver vivido anos sem Ele, mas a cada momento da Sua existência, de acordo com a medida das Suas capacidades. Mesmo na Sua concepção e no Seu nascimento, o Espírito Santo efetuou não somente uma separação do pecado, mas Ele também concedeu à Sua natureza humana os dons gloriosos, poderes e faculdades das quais aquela natureza [humana] é suscetível. Assim é que a Sua natureza humana recebeu estes dons, poderes e faculdades não do Filho através de uma comunicação da divina natureza, mas do Espírito Santo, através de uma comunicação com a natureza humana; e isto deveria ser completamente compreendido.
Contudo, a Sua natureza humana não recebeu tais dons, poderes e faculdades em operação total, mas sim completamente inoperantes: Assim como em cada bebê há poderes e faculdades que permanecerão adormecidos, alguns deles por muitos anos, assim também havia na natureza humana de Cristo poderes e faculdades os quais permaneceram latentes por um tempo. O Espírito Santo transmitiu esses dons à Sua natureza humana sem medida - "...porque Deus não dá o Espírito por medida"[João 3:34]. Isto refere-se a um contraste entre outros, a quem o Espírito Santo dotou não sem medida, mas em grau limitado de acordo com o seu chamado ou destino individual; e Cristo, em quem não há tal distinção ou individualidade - a quem, portanto, dons, poderes e faculdades são transmitidos em medida tal que Ele nunca poderia sentir a falta de nenhum dom do Espírito Santo. Não faltou-Lhe nada, Ele possuiu tudo; não em virtude da Sua natureza divina, a qual não pode receber nada, pois é A própria abundância eterna, mas em virtude da Sua natureza humana, a qual o Espírito Santo dotou de tais dons gloriosos.
Mas não foi tudo. Não somente o Espírito Santo adorna a natureza humana de Cristo com estas dádivas, como Ele também fez com que fossem exercitadas, gradualmente, até alcançar atividade total.
Isto dependeu da sucessão dos dias e anos do tempo da Sua humilhação. Embora o Seu coração contivesse o germe de toda a sabedoria, ainda assim como uma criança de um ano de idade, e.g. Ele não poderia conhecer a Escritura por intermédio do Seu entendimento humano. Como o Filho Eterno Ele a conhecia, pois Ele Próprio a havia dado à Sua Igreja. Mas o Seu conhecimento humano não tinha livre acesso ao Seu conhecimento divino. Ao contrário, enquanto este nunca crescia, já sabendo e conhecendo todas as coisas desde a eternidade, aquele devia aprender tudo; nada possuía de si mesmo. Este é o crescimento em sabedoria do qual Lucas escreve-um aumento não da faculdade, mas do seu exercício. E isso nos possibilita um vislumbre da extensão da Sua humilhação. Ele que sabia todas as coisas em virtude da Sua natureza divina, começou como homem nada sabendo nem conhecendo; e aquilo que Ele sabia como um homem, Ele adquiriu pelo aprendizado sob a influência do Espírito Santo.
E o mesmo aplica-se ao seu crescimento em estatura e favor diante de Deus e dos homens. Estatura refere-se ao Seu crescimento físico, incluindo tudo o que na natureza humana dependa disso. Não criado já adulto como Adão, mas nascido um bebê como cada um de nós, Jesus tinha de crescer e desenvolver-Se fisicamente: não por mágica, mas em realidade. Quando Ele estava deitado no colo de Maria, ou quando garoto explorava a oficina do Seu padrasto, Ele não era somente um infante na aparência mas com a sabedoria de um ancião venerável, mas uma criança real, cujas impressões, cujos sentimentos, sensações e pensamentos eram de acordo com a Sua idade. Sem dúvida que o Seu desenvolvimento foi rápido e lindo, sobrepujando qualquer coisa jamais vista em qualquer outra criança, de forma que os velhos rabinos no Templo maravilharam-se ao olharem para o Garoto de somente doze anos de idade; todavia o fato é que o desenvolvimento foi o de uma criança que primeiro aninhava-se no colo de Sua mãe, então aprendeu a andar, gradualmente tornou-se um garoto e depois um rapaz, até que Ele alcançasse a plenitude da estatura de um homem.
E como o Espírito Santo, com cada aumento da Sua natureza humana expandia o exercício dos poderes e faculdades, também o fez com referência ao relacionamento da natureza humana para com Deus e os homens, pois Ele crescia em favor com Deus e homens. Favor tem referência com o desdobramento e o desenvolvimento da vida interior, e pode manifestar-se de duas maneiras, seja agradando ou desagradando a Deus e os homens. Sobre Jesus está escrito que no Seu desenvolvimento, tais dons e faculdades, disposições e atributos, poderes e qualificações manifestavam-se a partir da vida interior da Sua natureza humana, que o favor de Deus encontravam-se sobre eles, enquanto que eles afetavam aqueles ao Seu redor de forma proveitosa e animadora.
Mesmo distante da Sua Messianidade Jesus permaneceu, com referência à Sua natureza humana, durante todos os dias da Sua humilhação, sob a operação constante e penetrante do Espírito Santo. O Filho, a quem faltava nada, mas como Deus em união com o Pai e com o Espírito Santo possuía todas as coisas, misericordiosamente adotou a nossa natureza humana. E tanto quanto seja a peculiaridade daquela natureza derivar seus dons, poderes e faculdades não de si mesma, mas do Espírito Santo, através somente de cuja operação constante tais dons, poderes e faculdades podem ser exercidos; assim também o Filho não violou esta peculiaridade, mas, embora Ele fosso o Filho, Ele não tomou a preparação, o enriquecimento e a operação dos dons, dos poderes e das faculdades nas Suas próprias mãos, mas estava disposto a recebe-los das mãos do Espírito Santo.
O fato de que o Espírito Santo descendeu sobre Jesus quando do Seu Batismo, embora Ele O houvesse recebido sem medida quando da Sua concepção, somente pode ser explicado ao se manter em vista a diferença entre a vida pessoal e a vida oficial de Jesus.
XXI. Não Como Nós.
"Então foi conduzido Jesus pelo Espírito ao deserto..." - Mateus 4:1
A representação de que a natureza humana de Cristo recebeu influências e impulsos qualificadores e animadores diretamente da Sua natureza divina, embora no geral incorreta, também contém alguma verdade.
Nós sempre fazemos distinção entre o nosso ego e a nossa natureza. Dizemos: "Tenho minha natureza contra mim", ou "Minha natureza está a meu favor"; daí segue-se que a nossa pessoa anima e ativa a nossa natureza. Aplicando isto à Pessoa do Mediador, devemos fazer distinção entre a Sua natureza humana e a Sua Pessoa. Esta última existia desde a eternidade, a outra Ele adotou no tempo. E desde que no Filho a Pessoa divina e a natureza divina são quase que uma só, deve ser reconhecido que a Divindade do nosso Senhor controlava diretamente a Sua natureza humana. Este é o significado da confissão dos Filhos de Deus, de que a Sua Divindade suportava a Sua natureza humana.
Mas é errado supor-se que a Pessoa divina alcançou na Sua natureza humana o que em nós é efetuado pelo Espírito Santo. Isto poria em perigo a Sua humanidade verdadeira e real. A Bíblia o nega positivamente.
Segundo- A obra do Espírito Santo na consagração de Jesus ao Seu ofício (veja "primeiro", na pp. 83)
Isto deve ser cuidadosamente notado, especialmente desde que a Igreja nunca confessou suficientemente a influência do Espírito Santo exercida sobre a obra de Cristo. A impressão geral é que a obra do Espírito Santo começa quando a obra do Mediador na terra terminou, como se até aquele momento o Espírito Santo estivesse gozando o Seu divino descanso. Todavia a Bíblia nos ensina vez após vez que Cristo executou a Sua obra mediadora controlado e impelido pelo Espírito Santo. Nós consideramos esta influência agora, com relação à Sua consagração para o Seu ofício.
Já pelo espírito dos profetas Cristo testificara desta salvação, pela boca de Isaías: "O Espírito do Senhor Deus está sobre mim, porque o Senhor me ungiu para pregar boas-novas aos mansos..."[61:1]. Mas o grande ponto, que não poderia ser conhecido através de profecia é aquele da descida do Espírito Santo no Jordão. Certamente que Isaías referia-se em parte a este evento, mas principalmente à unção no conselho de paz. Contudo, quando Jesus saiu do Jordão e o Espírito Santo desceu sobre Ele como uma pomba e uma voz se fez ouvir do céu dizendo, "Este é o meu Filho amado"[Mateus 3:17], somente então a unção tornou-se real.
Com relação ao evento em si, somente umas poucas palavras. Que o Batismo de Cristo não foi uma mera formalidade, mas o completar-se de toda justiça, prova que Ele desceu às águas com o fardo dos nossos pecados. Por isso é que as palavras ditas por João, "Eis o Cordeiro de Deus"[1:36] precedem o evento do Seu Batismo. Por conseguinte é incorreto dizer que Cristo foi instalado no Seu ofício Messiânico somente ao ser batizado. Ao contrário, Ele foi ungido desde a eternidade. Assim é que Ele não se pode representá-LO por nenhum momento como não tendo consciência, de acordo com a medida do Seu desenvolvimento, da tarefa de Messias que estava sobre Ele; tal encontra-se na Sua santa Pessoa, não Lhe foi acrescentado mais tarde, mas já encontrava-se em Si mesmo antes da queda de Adão. E como em Sua consciência humana a Sua Pessoa gradualmente ganhou estatura, esta foi sempre a estatura do Messias. Isto está evidente na Sua resposta quando, com a idade de doze, Ele falava das coisas de Seu Pai, das quais Ele devia se ocupar; e ainda mais claramente nas Suas palavras para João Batista, ordenando, "Consente agora; porque assim nos convém cumprir toda a justiça..."[Mateus 3:15]
E todavia é somente quando do Seu Batismo que Jesus é realmente consagrado ao Seu ofício. Tal é provado pelo fato de que, imediatamente após o Batismo Ele entrou publicamente no Seu ofício como Mestre; e também do evento em si, e a voz do céu apontanto-O como o Messias; e especialmente da descida do Espírito Santo, a qual não pode ser interpretada de nenhuma outra forma senão como a Sua consagração ao Seu santo ofício.
O que dissemos com referência à comunicação do Espírito Santo qualificando alguém para um ofício, como no caso de Saul, de Davi e de outros, aqui é de aplicação direta. Embora na Sua natureza humana Jesus estava pessoalmente em comunhão constante com o Espírito Santo, todavia a comunicação oficial foi estabelecida somente quando do Seu Batismo. Todavia, com esta diferença, que enquanto em outros a pessoa e o seu ofício eram separados na morte, no Messias ambos permaneceram unidos mesmo na morte e após ela, para continuar assim até o momento que ele entregue o Reino a Deus Pai, para que Deus possa estar em tudo. Portanto o testemunho descritivo de João: "...Vi o Espírito descer do céu como pomba, e repousar sobre Ele."[1:32]
E finalmente, à questão por que a Pessoa do Mediador precisava deste evento extraordinário e os três sinais que o acompanharam, respondemos:
Primeiro, Cristo precisava ser um homem verdadeiramente humano mesmo no Seu ofício, portanto Ele devia ser instalado de acordo com o costume humano. Ele entra no Seu ministério público aos trinta anos de idade; Ele é publicamente instalado; e Ele é ungido com o Espírito Santo.
Segundo, para a Sua consciência humana esta impressionante revelação do céu era da mais absoluta necessidade. O conflito da tentação seria absoluto, i.e. indescritível; daí que a impressão da Sua consagração devia ser indestrutível.
Terceiro, para os apóstolos e para a Igreja era necessário distinguir sem sombra de erro o verdadeiro Messias de todos os pseudo-messias e anticristos. Esta é a razão do forte apelo feito por João para este evento.
Se a obra do Espírito Santo com referência à consagração é óbvia e claramente indicada, o fato de que a influência oficial do Espírito Santo acompanhou o Mediador durante toda a administração do Seu ofício não é menos claramente apresentada na Escritura Sagrada. Tal fato aparece nos eventos que ocorreram imediatamente após o Batismo. Lucas relata que Jesus, pois, cheio do Espírito Santo, era levado pelo Espírito para o deserto [4:1]. Mateus acrescenta: "Para ser tentado pelo diabo"[4:1]. De Elias, Ezequiel e outros, está escrito que o Espírito os tomou e os transferiu para outro lugar. Isto está em conexão evidente com o que lemos aqui, com relação a Jesus. Com esta diferença, contudo, que enquanto o poder propulsor que lhes veio era externo, Jesus, estando cheio do Espírito Santo, sentiu Sua pressão no mais profundo da Sua alma. E todavia, embora operando em Sua alma, esta ação do Espírito Santo não era idêntica aos impulsos da natureza humana de Cristo. Por Si mesmo, Jesus não teria ido para o deserto; a Sua ida para lá foi o resultado do guiar do Espírito Santo. Somente desta forma esta passagem Bíblica recebe sua total explicação.
Que este guiar do Espírito Santo não estava limitado a este ato isolado é apresentado por Lucas, que relata [4:14] que após a tentação Ele retornou no poder do Espírito Santo para a Galiléia, assim adentrando ao ministério público do Seu ofício profético.
É evidente o propósito da Bíblia de enfatizar o fato da incapacidade da natureza humana, a qual Cristo havia adotado, para efetuar a obra do Messias sem o constante operar e o poderoso direcionamento do Espírito Santo, através do que reforçou-se tanto que poderia ser o instrumento do Filho de Deus para a execução da Sua obra maravilhosa.
Jesus estava ciente disto, e no começo do Seu ministério Ele expressamente o indicou. Na sinagoga Ele referiu-se a Isaías e leu para eles: "O Espírito do Senhor Deus está sobre mim, porque o Senhor me ungiu"[61:1]; e em seguida acrescentou: "...Hoje se cumpriu esta escritura aos vossos ouvidos"[Lucas 4:21].
O Espírito Santo não deu suporte para a Sua natureza humana somente durante a tentação e na abertura do Seu ministério; mas em todos os Seus feitos poderosos, como Cristo Ele mesmo testificou: "Mas, se é pelo Espírito de Deus que eu expulso os demônios, logo é chegado a vós o reino de Deus."[Mateus 12:28]. Mais ainda, Paulo ensina que os dons de cura e de milagres procedem do Espírito Santo, e isto, em conexão com a declaração de que esses poderes operaram em Jesus [Marcos 6:14 = "E soube disso o rei Herodes (porque o nome de Jesus se tornara célebre), e disse: João, o Batista, ressuscitou dos mortos; e por isso estes poderes milagrosos operam nele.], nos convence de que estes eram os próprios poderes do Espírito Santo. Novamente, é freqüentemente dito que ele regozijava-Se no Espírito ou que estava atribulado no Espírito, o que pode ser interpretado como regozijando-Se ou estando atribulado no Seu próprio espírito; mas o que não se constitui numa explanação completa. Quando se refere ao Seu próprio espírito, a Bíblia diz: "Ele, suspirando profundamente em seu espírito,...[Marcos 8:12]. Mas nos outros casos nós interpretamos as expressões como apontando para aquelas emoções mais profundas e mais gloriosas das quais a nossa natureza humana é suscetível somente quando encontrando-se no Espírito Santo. Pois embora João declare que Jesus comoveu-Se profundamente [11:38], isto não é contraditório, especialmente com referência a Jesus. Se o Espírito Santo permanecia com Ele sempre, a mesma emoção pode ser atribuída a ambos, a Jesus e ao Espírito Santo.
Afora, contudo, estas passagens e suas interpretações, temos dito o bastante para provar que aquela parte da obra de Cristo de meditação, começando com o Seu Batismo e terminando na última ceia, foi marcada pela operação, pela influência e pelo suporte do Espírito Santo.
De acordo com o conselho divino, a natureza humana é adaptada na criação para receber a obra do Espírito Santo, sem a qual ela não pode desabrochar mais do que poderia um botão de rosa sem a luz e a influência do sol. E como o ouvido não pode ouvir se não houver som, e o olho não pode ver se não houver luz, assim também a nossa natureza humana é incompleta sem a luz e sem o habitar do Espírito Santo. Portando, quando o Filho assumiu natureza humana Ele tomou-a simplesmente como ela é, i.e. incapaz de qualquer ação santa sem o poder do Espírito Santo. Por isso Ele foi concebido pelo Espírito Santo, que desde o início a Sua natureza humana fosse ricamente dotada com poderes. O Espírito Santo desenvolveu estes poderes; e Ele foi consagrado ao Seu ofício através da comunicação à Sua natureza humana dos dons Messiânicos pelos quais Ele ainda intercede por nós como o nosso Sumo Sacerdote, e nos governa como o nosso Rei. E por esta razão ele foi guiado, impelido, animado e suportado pelo Espírito Santo em cada passo do seu ministério Messiânico.
Há três diferenças entre esta comunicação do Espírito Santo à natureza humana de Jesus e a nossa:
Primeira, o Espírito Santo sempre encontra resistência do mal nos nossos corações. O coração de Jesus era sem nenhum pecado ou injustiça. Assim é que na Sua natureza humana o Espírito Santo não encontrou resistência.
Segunda, a operação do Espírito Santo, sua influência, suporte e liderança na nossa natureza humana são sempre individuais, i.e. em parte, imperfeitos {N.T.: devido ao apresentado no parágrafo anterior}; enquanto que na natureza humana de Jesus eles eram centrais, perfeitos, deixando nenhum vazio.
Terceira, na nossa natureza o Espírito Santo encontra a resistência de um ego que, unido àquela própria natureza opõe-se a Deus; enquanto que a Pessoa que Ele encontrou na natureza humana de Cristo, compartilhando da natureza divina, era absolutamente santa. Pois o Filho tendo adotado a natureza humana em união com a Sua Pessoa, estava cooperando com o Espírito Santo.
XXII. O Espírito Santo na Paixão de Cristo.
"...que pelo Espírito eterno Se ofereceu a Si mesmo..." - Hebreus 9:14
Terceiro-Tracemos agora, a obra do Espírito Santo no sofrimento, na morte, na ressurreição e na exaltação de Cristo (veja os itens "Primeiro" e "Segundo", nas pp. 83 e 86).
Na Epístola aos Hebreus, o Apóstolo pergunta: "...se a aspersão do sangue de bodes e de touros, e das cinzas duma novilha santifica os contaminados, quanto à purificação da carne, quanto mais o sangue de Cristo purificará das obras mortas a vossa consciência, para servirdes ao Deus vivo?" com a ênfase "pelo Espírito eterno se ofereceu a si mesmo imaculado a Deus"[Hebreus 9:13, 14]. Tem havido muita disputa quanto ao significado destas palavras. Beza(¹) e Gomarus(²) entenderam que o Espírito Eterno significava a natureza divina de Cristo. Calvino e a maioria dos reformadores, que referia-se ao Espírito Santo. Os que argumentam sobre este assunto atualmente, especialmente aqueles de tendências racionalistas, entendem-no simplesmente como a tensão da natureza humana de Cristo.
Com a maioria dos expositores ortodoxos, nós adotamos a visão de Calvino. A diferença entre Beza e Calvino é aquela a que já nos referimos. A questão é, se com relação à Sua natureza humana Cristo substituiu o operar interno do Filho por aquele do Espírito Santo, ou teve Ele a operação comum do Espírito Santo?
No presente, muitos têm adotado a visão anterior, sem uma compreensão clara da diferença. Assim eles ponderam: "As duas naturezas não estão unidas na Pessoa de Jesus? Por que, então, o Espírito Santo deveria ser acrescentado para qualificar a natureza humana? Não poderia o Filho por Si mesmo faze-lo?" E assim eles chegam à conclusão de que desde que o Mediador é Deus, não poderia haver a necessidade de uma obra do Espírito Santo na natureza humana de Cristo. E, todavia, esta visão deve ser rejeitada, pois-
Primeiro, Deus criou a natureza humana de tal forma que sem o Espírito Santo ela não tem qualquer virtude ou santidade. A retidão, a justiça original de Adão era a obra e o fruto do Espírito Santo tão verdadeiramente como a nova vida o é hoje, nos regenerados. O refulgir do Espírito santo é tão essencial para a santidade como o brilho da luz nos olhos é essencial para que se possa enxergar.
Segundo, a obra do Filho, de acordo com a distinção das três Pessoas divinas é diferente da obra do Espírito Santo com referência à natureza humana. O Espírito Santo não poderia tornar-se carne; somente o Filho poderia faze-lo. O Pai não entregou todas as coisas ao Espírito Santo. O Espírito Santo opera a partir do Filho, mas o filho depende do Espírito Santo para a aplicação da redenção aos indivíduos. O Filho adota a nossa natureza, assim relacionando-se com toda a raça; mas só o Espírito Santo pode entrar na alma de cada indivíduo de forma que o Filho seja glorificado nos filhos de Deus.
Aplicando estes dois princípios à Pessoa de Cristo,. Vemos que a Sua natureza humana não poderia proceder com qualquer dispensação sem o brilho interno constante do Espírito Santo. Por esta razão a Bíblia declara: "Ele deu-Lhe o Espírito sem medida". Nem o Filho poderia, de acordo com a Sua própria natureza, tomar o lugar do Espírito Santo; mas na economia divina, em virtude da Sua união com a natureza humana, sempre dependia do Espirito Santo.
Quanto à questão, se a Divindade de Cristo não suportava a Sua humanidade, respondemos: Indubitavelmente, mas nunca independentemente do Espírito Santo. Debilitamo-nos por que resistimos, entristecemos e repelimos o Espírito Santo. Cristo sempre foi vitorioso porque a Sua divindade nunca relaxou o contado do Espírito Santo na Sua humanidade, mas abraçou-O e agarrou-Se a Ele com todo amor e energia do Filho de Deus.
A natureza humana é limitada. É
suscetível de receber o Espírito Santo de forma a tornar-se o
Seu templo. Mas tal suscetibilidade tem os seus limites. Antagonizada pela morte
eterna, ela perde a tensão e cai da comunhão com o Espírito
Santo. Assim é que, em nós mesmo, não temos nenhum bem
que não se possamos perder, mas somente como membros do corpo de Cristo.
Fora dEle, a morte eterna teria poder sobre nós, nos separaria do Espírito
Santo e nos destruiria. Portanto toda a nossa salvação encontra-se
em Cristo. Ele é a nossa âncora lançada no desconhecido.
Quanto à natureza humana de Cristo, ela encontrou e passou pela morte
eterna. Não poderia ser diferente. Se Ele tivesse passado somente pela
morte temporal, a morte eterna ainda seria invencível.
À questão como a Sua natureza humana poderia passar pela morte
eterna e não perecer, não tendo Mediador para suportá-la,
respondemos: A natureza humana de Cristo teria sido derrotada por ela (a morte
eterna), o refulgir interno do Espírito Santo teria cessado se a Sua
natureza divina, i.e. o infinito poder da Sua Divindade, não a estivesse
suportando. Assim é que o apóstolo declara: "...que pelo
Espírito eterno Se ofereceu a Si mesmo..."; não através
do Espírito Santo. As duas expressões não são idênticas.
Há uma diferença entre o Espírito Santo, a terceira Pessoa
da Trindade, afastado de mim, e o Espírito Santo operando dentro de
mim.
A palavra da Bíblia, "Ele estava cheio do Espírito Santo", refere-se não à Pessoa do Espírito Santo, mas também à Sua obra na alma do homem. Assim, com referência a Cristo, há uma diferença entre: "Ele foi concebido pelo Espírito Santo", "O Espírito Santo desceu sobre Ele", "Estando cheio do Espírito Santo", "Que pelo Espírito Eterno Se ofereceu a Si mesmo". As duas últimas passagens indicam o fato de que o espírito de Jesus tinha tomado no Espírito Santo e Se identificado com Ele, quase que no mesmo sentido como em Atos: "Porque pareceu bem ao Espírito Santo e a nós..."[15:28]. O termo "Espírito Eterno" foi escolhido para indicar que a Pessoa divina-humana de Cristo adentrou em tal comunhão indissolúvel com o Espírito Santo, que nem mesmo a morte eterna poderia quebrar.
Um exame mais detalhado dos sofrimentos de Cristo deixarão isto claro.
Cristo não nos redimiu somente através dos Seus sofrimentos, por haverem cuspido nEle, coroado-O com espinhos, crucificado-O, e morto; mas esta paixão foi feita efetiva para a nossa redenção pelo Seu amor e obediência voluntária. Estes são geralmente chamados de Sua satisfação passiva e ativa. Pela primeira entendemos o Seu sofrimento real de dor, angústia e morte; pela segunda, o Seu zelo pela honra de Deus, o amor, a fidelidade, e a comiseração pela qual Ele tornou-se obediente até a morte - sim, a morte de cruz. E estas duas são essencialmente distintas. Satã, por exemplo, também sofre castigo e o sofrerá para sempre; mas falta-lhe aceitação voluntária. Isto, contudo, não afeta a validade da punição. Um assassino no cadafalso pode amaldiçoar a Deus e aos homens até o fim, mas isto não invalida a execução. Se ele amaldiçoa ou ora, o castigo é igualmente válido.
Daí que nos sofrimentos de Cristo houve muito mais que uma passiva execução penal. Ninguém compeliu Jesus. Ele, participante, da natureza divina, não poderia ser compelido a nada, mas ofereceu-Se muito voluntariamente. "...Eis-me aqui (no rol do livro está escrito de mim) para fazer, ó Deus, a tua vontade."[Hebreus 10:7]. Para render aquele sacrifício voluntário, Ele tinha adotado o corpo preparado com igual prontidão: "O qual, subsistindo em forma de Deus, não considerou o ser igual a Deus coisa a que se devia aferrar, mas esvaziou-Se a Si mesmo, tomando a forma de servo, tornando-Se semelhante aos homens; e, achado na forma de homem, humilhou-Se a Si mesmo, tornando-Se obediente até a morte, e morte de cruz."[Filip. 2:6-8]; "ainda que era Filho, aprendeu a obediência..."[Hebreus 5:8]. E para dar a prova maior deste obediência até a morte, Ele intimamente consagrou-Se à morte, como Ele mesmo testificou: "E por eles eu me santifico..."[João 17:19].
Isto leva à importante questão, se Jesus rendeu esta obediência e consagração fora da Sua natureza humana ou nela, de modo que a obediência e consagração manifestassem-se na Sua natureza humana. Sem dúvida a última. A natureza divina não pode aprender, ou ser tentada; o Filho não poderia amar o Pai a não ser com amor eterno. Na natureza divina não há mais nem menos. Supor assim é aniquilar a natureza divina. A declaração que, "ainda que era Filho, aprendeu a obediência...", não quer dizer que como Deus Ele aprendeu a obediência; pois Deus não pode obedecer. Deus governa, Deus comanda, mas Deus nunca obedece. Como Rei Ele somente pode nos servir na forma de um escravo, ocultando a sua majestade principesca, esvaziando-Se, colocando-Se perante nós como um desprezado entre os homens. "Ainda que era Filho" significa, portanto: embora no Seu Ser íntimo Ele é Deus o filho, ainda assim Ele se apresentou perante nós em humildade tal que nada traiu a Sua divindade; sim, tão humildemente que Ele até aprendeu a obediência.
Por conseguinte, se o Mediador como homem mostrou na Sua natureza humana tal zelo por Deus e tal pena pelos pecadores que Ele voluntariamente entregou-Se em auto sacrifício de morte, então é evidente que a Sua natureza humana não poderia exercer tal consagração sem o íntimo operar do Espírito Santo; e novamente, que o Espírito Santo não poderia haver efetuado tal operar sem que o Filho assim o quisesse e desejasse. O clamor do Messias é ouvido nas palavras do salmista: "...eu me deleito na tua lei."[Salmo 119:70]. O Filho estava tão pronto para esvaziar-Se que seria possível para a Sua natureza humana passar pela morte eterna; e para esta finalidade Ele permitiu que ela fosse ficasse cheia da força do Espírito de Deus. Assim o Filho ofereceu-Se "...pelo Espírito eterno", para que possamos servir "...ao Deus vivo".
Assim é que a obra do Espírito Santo na obra da redenção não começou no Pentecostes, mas o mesmo Espírito Santo que na criação anima toda a vida, sustenta e qualifica a nossa natureza humana, e em Israel e nos profetas operou a obra da revelação, também preparou o corpo de Cristo, adornou a Sua natureza humana com dons graciosos, colocou estes dons em operação, instalou-O no Seu ofício, guiou-O na tentação, qualificou-O para expulsar demônios; e finalmente capacitou-O para terminar aquela obra eterna de satisfação, através da qual as nossa almas são redimidas.
Isto explica porque Beza e Gomarus não puderam estar plenamente satisfeitos com a exposição de Calvino. Calvino disse que foi o operar do Espírito Santo em separado da divindade do Filho. E eles sentiam que algo estava faltando. Pois o Filho fez-Se a Si mesmo humilde e sem reputação, e tornou-se obediente; mas se tudo isso é obra do Espírito Santo, então nada mais existe da obra do Filho. E para escapar disso, eles adotaram o outro extremo, e declararam que o Espírito Eterno tinha referência somente ao Filho em conformidade com a Sua natureza divina - uma exposição que não pode ser aceita, pois a natureza divina nunca é designada como espírito.
Eles, todavia, não estavam completamente errados. A reconciliação destes pontos de vista contrários deve ser buscada, na diferença entre a existência do Espírito Santo sem nós, e no Seu operar dentro de nós como recebido pela nossa natureza e identificado com o operar da nossa própria natureza humana. E tanto quanto como o Filho, por Sua Divindade, capacitou a Sua natureza humana, no horrível conflito com a morte eterna, para efetivar esta união; o apóstolo portando confessa que o sacrifício do Mediador foi apresentado pelo operar do Espírito Eterno.
XXIII. O Espírito Santo no Cristo Glorificado.
"...Declarado Filho de Deus segundo o espírito de santidade, pela ressurreição dentre os mortos, Jesus Cristo nosso Senhor." - Romanos 1:4
Dos estudos anteriores, parece que o Espírito Santo executou uma obra na natureza humana de Cristo na medida em que Ele descendeu os vários passos da Sua humilhação até a morte na cruz.
A questão se apresenta agora, se Ele também teve uma obra nos vários passos da exaltação de Cristo à glória excelente, i.e. Sua ressurreição, Sua ascensão, Sua dignidade real e Sua segunda volta.
Antes de respondermos esta questão, consideremos primeiro a natureza desta obra na exaltação. Pois é evidente que ela deve diferir grandemente daquela na Sua humilhação. Na humilhação, a Sua natureza humana sofreu violência. Os Seus sofrimentos antagonizaram não somente a Sua natureza divina, mas também a Sua natureza humana. Sofrer do, insulto e zombaria, ser açoitado e crucificado, vai contra a natureza humana. O esforço para resistir a tais sofrimentos e para escapar deles é perfeitamente natural. Os gemidos de Cristo no Getsêmane são a expressão natural do sentimento humano. Ele foi oprimido com o fardo da maldição e da ira de Deus contra o pecado da raça. Então a natureza humana batalhou contra esta opressão, e o clamor, "Pai ... afasta de mim este cálice..."[Mc 14:36] foi o grito de horror natural e sincero o qual a natureza humana não pôde reprimir.
E não somente no Getsêmane; na Sua tribulação toda Ele experimentou o mesmo, embora numa proporção menor. O Seu auto esvaziar não foi uma perda ou privação única, mas um 'crescendo' pobre e cada vez mais pobre, até que nada mais Lhe restasse a não ser um pedaço de chão onde Ele pudesse chorar e uma cruz, onde Ele pudesse morrer. Ele renunciou a toda carne e sangue considerados queridos, até que, sem amigou ou irmão, sequer um fio de amor, cercado pelos risos de escárnio dos que O difamavam, Ele entregou o espírito. Certamente Ele pisou o lagar sozinho.
Sendo tão profunda e real a Sua humilhação, não é surpresa que o Espírito Santo assistisse e confortasse a Sua natureza humana de modo que ela não fosse subjugada. Pois é a obra apropriada do Espírito Santo, através dos dons da graça capacitar a natureza humana, tentada pela aflição para pecar, a permanecer firme e vencer. Ele [o Espírito Santo] animou Adão antes da queda; Ele conforta e dá suporte a todos os filhos de Deus hoje em dia; e Ele fez o mesmo na natureza humana de Jesus. O que o ar é para a natureza física do homem, o Espírito Santo é para a sua natureza espiritual. Sem ar existe a morte dos nossos corpos; sem o Espírito Santo existe a morte das nossas almas. E como Jesus tinha de morrer, embora Ele fosse o Filho de Deus, quando faltou-Lhe o ar, pelo que então Ele não mais podia viver de acordo com a Sua natureza humana, embora Ele fosse o Filho de Deus, somente o Espírito Santo habitava naquela natureza. Visto que, de acordo com o lado espiritual da Sua natureza humana, Ele não estava morto como nós estamos, mas nasceu possuindo a vida de Deus, de forma que era impossível para a Sua natureza humana estar sem o Espírito santo por um só momento.
Mas quão diferente no estado da Sua exaltação! Honra e glória não são contra a natureza humana, mas a satisfazem. Ela cobiça a honra e a glória, e as deseja com toda a sua energia e vontade. Assim, esta exaltação não criou qualquer conflito na alma de Jesus. A Sua natureza humana não necessitava de nenhum suporte para tê-las. Daí a questão: O que, então, o Espírito Santo poderia fazer pela natureza humana de Jesus no estado de glória?
Com relação à ressurreição, a Bíblia mostra mais de uma vez que ela estava conectada com um operar do Espírito Santo. O apóstolo Paulo escreveu que Jesus "foi declarado Filho de Deus segundo o espírito de santidade, pela ressurreição dentre os mortos..."[Romanos 1:4]. E Pedro escreveu que Cristo "...na verdade, morto na carne, mas vivificado no espírito."[I Pedro 3:18], o que evidentemente refere-se à ressurreição, como mostra o contexto do versículo: "Porque também Cristo morreu uma só vez pelos pecados, o justo pelos injustos, para levar-nos a Deus...". A Sua morte aponta para a crucificação, e a Sua vivificação, sendo oposta àquela, indubitavelmente refere-se à Sua ressurreição.
Ao falar da nossa ressurreição, Paulo explica estas expressões mais ou menos confusas, ao afirmar que "...se o Espírito daquele que dos mortos ressuscitou a Jesus habita em vós, aquele que dos mortos ressuscitou a Cristo Jesus há de vivificar também os vossos corpos mortais, pelo seu Espírito que em vós habita."[Romanos 8:11]. Esta passagem nos diz três coisas relacionadas à nossa ressurreição:
Primeiro, que o Deus Triúno nos ressuscitará.
Segundo, que esta ressurreição será operada através de uma obra especial do Espírito Santo.
Terceiro, que ela será executada pelo
Espírito que habita em nós.
Paulo nos induz a aplicar estes três pontos a Cristo; pois ele compara
a nossa ressurreição com a dEle, não somente com relação
ao fato, mas também com relação à operação
através da qual a ressurreição foi executada. Assim, com
referência a esta última premissa, deve ser confessado que:
Primeiro, que o Deus Triúno O levantou dos mortos, Pedro bem o declarou no dia de Pentecostes: "ao qual Deus ressuscitou, rompendo os grilhões da morte, pois não era possível que fosse retido por ela."[Atos 2:24]; Paulo repetiu-o na sua carta aos Efésios, onde ele fala do "operação da força do Seu poder"[1:19], o qual operou em Cristo, quando Ele levantou-O de entre os mortos.
Segundo, que Deus o Espírito Santo executou uma obra peculiar na ressurreição.
Terceiro, que Ele operou esta obra em Cristo internamente, habitando nEle: "...que em vós habita."
A natureza desta obra é aparente, a partir do participar do Espírito Santo na criação de Adão e no nosso nascimento. Se o Espírito acende e traz à tona toda a vida, especialmente no homem, então foi ele quem reacendeu a fagulha extinta pelo pecado e pela morte. Ele o fez em Jesus; ele o fará em nós.
A única dificuldade que ainda perdura está no terceiro ponto: "...que em vós habita". A obra do Espírito Santo na nossa criação, e portanto na criação da natureza humana de Cristo, veio de fora para dentro; enquanto que na ressurreição ela opera de dentro para fora. É claro que pessoas que morrem sem serem templos do Espírito Santo estão excluídas. Paulo fala exclusivamente de homens cujos corações são Seus templos. Assim, representando-O como habitando neles, ele fala do Espírito Santo como o Espírito de santidade, e Pedro a Ele se refere como o "Espírito", indicando que eles não se referem a uma obra do Espírito Santo em oposição ao espírito de Jesus, mas com a qual o Seu espírito concordava e cooperava. E isto está em harmonia com as próprias palavras de Cristo, que na ressurreição Ele não seria passivo, mas ativo: "...dou a minha vida para a retomar. Ninguém ma tira de mim, mas eu de mim mesmo a dou; tenho autoridade para a dar, e tenho autoridade para retomá-la. Este mandamento recebi de meu Pai."[João 10:17, 18]. Os apóstolos declaram vez após vez que não somente Jesus foi levantado dentre os mortos, mas que Ele levantou-Se. Ele tinha assim nos tido com antecedência, e os anjos disseram: "Ele não está aqui, mas ressurgiu..."[Lucas 24:6].
Portanto, alcançamos esta conclusão, que a obra do Espírito Santo na ressurreição foi diferente daquela na humilhação; foi similar àquela na criação; e foi executada 'de dentro para fora', pelo Espírito Santo que nEle habitava sem medida; que continuou com Ele durante a Sua morte, e para cuja obra o Seu próprio espírito concorreu inteiramente.
A obra do Espírito Santo na exaltação de Cristo, não é definida tão facilmente. A Bíblia nunca fala dela em conexão com a Sua ascensão, com o Seu sentar-Se à mão direita do Pai, nem com a segunda vinda do Senhor. A sua relação com a descida quando da festa de Pentecostes será tratada no momento apropriado. Pode obter-se luz sobre estes pontos somente a partir das declarações dispersas relativas à obra do Espírito Santo sobre a natureza humana em geral. De acordo com a Bíblia, o Espírito Santo pertence à nossa natureza como a luz pertence aos olhos; não somente no estado e condição de pecado da nossa natureza, mas também no estado e na condição sem pecados. Disto nós inferimos que Adão, antes de cair, não estava sem o Seu operar no seu íntimo; por conseguinte na Jerusalém celestial a nossa natureza humana O possuirá em medida mais rica, mais cheia, mais gloriosa. Pois a nossa natureza santificada é a habitação de Deus, através do Espírito Santo: "...no qual também vós juntamente sois edificados para morada de Deus no Espírito."[Efésios 2:22].
Se, portanto, a nossa bem aventurança no céu consiste no desfrutar dos prazeres de Deus, e é o Espírito Santo quem está em contato com o mais íntimo do nosso ser, segue-se que no céu Ele não pode nos deixar. E sobre este solo nós confessamos, que não somente os eleitos, mas também o Cristo glorificado, que continua a ser homem verdadeiro no céu, deve portanto continuar a ser cheio com o Espírito Santo. Isto as nossas igrejas têm sempre confessado na Liturgia: "O mesmo Espírito que habita em Cristo como o Cabeça e em nós como Seus membros".
O mesmo Espírito Santo que executou a Sua obra na concepção do nosso Senhor, que atendeu ao desdobrar-se da Sua natureza humana, que pôs em atividade cada dom e poder nEle, que consagrou-O ao Seu ofício como o Messias, que O qualificou para cada conflito e tentação, que capacitou-O para expulsar demônios, e que O suportou durante a Sua humilhação, paixão e amarga morte, era O mesmo Espírito que executou a Sua obra na Sua ressurreição, de forma que Jesus foi justificado no Espírito (Timóteo 3:16), e que habita agora na natureza humana glorificada do Redentor na Jerusalém celestial.
Neste ponto deve ser notado o que Jesus disse com relação ao Seu corpo: "...Eu destruirei este santuário, construído por mãos de homens, e em três dias edificarei outro..."[Marcos 14:58]. O Templo era a habitação de Deus em Sião; portanto, um símbolo de que aquela habitação seria estabelecida nos nossos corações.
Assim é que este pronunciamento não se refere ao habitar do Filho na nossa carne, mas àquele do Espírito Santo na natureza humana de Jesus. Portanto, Paulo escreve aos Coríntios: "Não sabeis vós que sois santuário de Deus, e que o Espírito de Deus habita em vós?"[I-3:16]. Se o apóstolo chama os nossos corpos templos do Espírito Santo, por que deveríamos entender de outra forma, com referência a Jesus?
Se Cristo habitou na nossa carne, i.e. na nossa natureza humana, corpo e alma, e se o Espírito Santo habita, ao contrário, no templo do nosso corpo, vemos que o Próprio Jesus considerou a Sua morte e ressurreição um processo horrível de sofrimento através do qual Ele devia passar para entrar na glória, mas sem estar, por um só momento, separado do Espírito Santo.
Notas da Tradução:
( ¹ ) Theodore Beza (1519-1605) - Teólogo Calvinista nascido na Borgonha (região da França). Em 1588 Beza aceitou uma oferta de Calvino para lecionar na recém fundada academia em Genebra. Em 1559 ele publica sua "Confession de La Foi Chretienne", uma exposição das crenças Calvinistas, as quais foram traduzidas para o Latim em 1560. Após a morte de Calvino, em 1564, Beza sucedeu-o como principal na Igreja de Genebra e líder do movimento Calvinista na Europa.
( ² ) Gomarus, Franciscus (Francis Gommer)-(1563 Bélgica - 1641 Holanda). Teólogo calvinista e professor, centro de uma disputa dentro da Igreja Reformada Holandesa sobre a predestinação. Em 1594 foi nomeado professor de teologia em Leiden. Quando Arminius também se tornou professor ali e aos poucos se colocou contrário à idéia da predestinação da salvação, Gomarus liderou os seus oponentes. Debateu as idéias de Arminius perante a assembléia dos estados gerais da Holanda em 1608, e foi um dos cinco ortodoxos que discutiram com cinco arminianos na mesma assembléia em 1609. Teve participação proeminente no Sínodo de Dordrecht em 1618 como um oponente dos arminianos, os quais foram condenados pelos delegados do sínodo. (Fonte: Cobra, Rubem Queiroz - NOTAS: Vultos e episódios da Época Moderna. Site http://www.cobra.pages.com.br, Brasília, 1997).
Tradução livre: Eli Daniel da Silva
Belo Horizonte-MG, 25 de Fevereiro 2003.