A Obra do Espírito Santo

por

Abraham Kuyper, D.D., LL.D

 

VOLUME UM

A Obra do Espírito Santo na Igreja como um Todo

Capítulo Sétimo - O Derramar do Espírito Santo

 

 


XXIV. O Derramar do Espírito Santo

"...o Espírito ainda não fora dado, porque Jesus ainda não tinha sido glorificado." - João 7:39

Chegamos à parte mais difícil na discussão da obra do Espírito Santo, ou seja, o derramar do Espírito Santo no décimo dia após a ascensão.

No tratamento deste assunto, não é nossa intenção criar um novo interesse na celebração do Pentecostes. Consideramos isto quase que impossível. A natureza do homem é muito não espiritual para isto. Mas procuraremos, reverentemente, dar um vislumbre mais claro neste evento, para aqueles em cujos corações o Espírito Santo já começou a Sua obra.

Pois, conquanto simples possa parecer a narrativa do segundo capítulo do livro de Atos, ela é muito intrincada e difícil de explicar; e aquele que sinceramente tentar entender e explicar o evento encontrará dificuldades mais e mais sérias, conforme ele penetrar mais profundamente na íntima conexão da Sagrada Escritura. Por esta razão, não alegamos que a nossa exposição solucionará inteiramente o mistério. Procuraremos somente fixar isto mais sinceramente na mente santificada do povo de Deus, e convence-los de que no geral este assunto - é tratado de maneira muito superficial.

Quatro dificuldades vêm ao nosso encontro no exame deste acontecimento:

Primeira, Como explicaremos o fato de que enquanto o Espírito Santo foi derramado somente por ocasião do Pentecostes, os santos do Pacto Antigo já eram participantes dos Seus dons?

Segunda, Como distinguiremos o derramar do Espírito Santo dezenove séculos atrás, do Seu penetrar na alma do não convertido hoje?

Terceira, Como puderam os apóstolos-já havendo confessado a boa confissão, renunciando a tudo, seguindo a Jesus, e sobre os quais Ele havia assoprado dizendo "...Recebei o Espírito Santo."[João 20:22] - receberam o Espírito Santo somente no décimo dia após a ascensão?

Quarta, Como explicaremos os sinais misteriosos que acompanham o derramamento? Não há nenhum anjo louvando a Deus, mas ouve-se um som como rugir de um vento forte; e a glória do Senhor não aparece, mas sim línguas de foco pairam sobre as suas cabeças; não há teofania, mas um linguajar em sons peculiares e não comuns, compreendidos, no entanto, por aqueles presentes.

Com referência à primeira dificuldade: Como explicar o fato de que, enquanto o Espírito Santo foi derramado somente por ocasião do Pentecostes, os santos do Pacto Antigo já eram participantes dos Seus dons. Coloquemos isto em termos concretos: Como as seguintes passagens são reconciliadas? "...Eu sou convosco, diz o Senhor dos exércitos . . . . . e o Meu Espírito habita no meio de vós; não temais."[Ageu 2:4, 5]; e "Ora, isto Ele disse a respeito do Espírito que haviam de receber os que nele cressem; pois o Espírito ainda não fora dado, porque Jesus ainda não tinha sido glorificado."[João 7:39].

A Bíblia evidentemente nos impressiona com os dois fatos, que o Espírito Santo veio somente no dia de Pentecostes e que o mesmo Espírito já havia operado por séculos na Igreja do Pacto Antigo. Não somente João declara definitivamente que o Espírito Santo ainda não havia sido outorgado, mas as predições dos profetas e de Jesus e toda a atitude dos apóstolos mostram que este fato não pode ser enfraquecido o mínimo que seja.

Examinemos primeiro as profecias. Isaías, Ezequiel e Joel foram testemunhas inquestionáveis do fato de que esta era a expectativa dos profetas.

Isaías diz: "Porque o palácio será abandonado, a cidade populosa ficará deserta; e o outeiro e a torre da guarda servirão de cavernas para sempre, para alegria dos asnos monteses, e para pasto dos rebanhos; até que se derrame sobre nós o Espírito lá do alto, e o deserto se torne em campo fértil, e o campo fértil seja reputado por um bosque. Então o juízo habitará no deserto, e a justiça morará no campo fértil. E a obra da justiça será paz; e o efeito da justiça será sossego e segurança para sempre."[32:14-17]

De modo similar Ezequiel profetizou: "Então aspergirei água pura sobre vós, e ficareis purificados; de todas as vossas imundícias, e de todos os vossos ídolos, vos purificarei. Também vos darei um coração novo, e porei dentro de vós um espírito novo; e tirarei da vossa carne o coração de pedra, e vos darei um coração de carne. Ainda porei dentro de vós o meu Espírito, e farei que andeis nos meus estatutos, e guardeis as minhas ordenanças, e as observeis. E habitareis na terra que Eu dei a vossos pais, e vós sereis o meu povo, e Eu serei o vosso Deus. Pois Eu vos livrarei de todas as vossas imundícias..."[36:25-29]. Em outra passagem Ezequiel nos dá o prelúdio desta profecia: "E lhes darei um só coração, e porei dentro deles um novo espírito; e tirarei da sua carne o coração de pedra, e lhes darei um coração de carne."[11:19].

Joel proferiu sua profecia muito conhecida: "Acontecerá depois que derramarei o meu Espírito sobre toda a carne; vossos filhos e vossas filhas profetizarão, os vossos anciãos terão sonhos, os vossos mancebos terão visões; e também sobre os servos e sobre as servas naqueles dias derramarei o meu Espírito."[2:28-29] - uma profecia a qual, de acordo com a exposição cheia de autoridade de Pedro, refere-se diretamente ao dia de Pentecostes.

Zacarias acrescenta uma linda profecia: "...derramarei o espírito de graça e de súplicas...[12:10].

É verdade que estas profecias foram dadas a Israel durante o seu último período, quando já não mais havia a vida espiritual vigorosa daquela nação. Mas Moisés expressou a mesma idéia na sua oração profética: "...Oxalá que do povo do Senhor todos fossem profetas, que o Senhor pusesse o seu espírito sobre eles."[Números 11:29]. Mas estas profecias são evidências da convicção profética do antigo Testamento, de que a dispensação do Espírito Santo naqueles dias era excessivamente imperfeita, que a dispensação real do Espírito Santo ainda demoraria; e que somente nos dias do Messias ela deveria chegar, em toda a sua plenitude e glória.

Com relação à segunda dificuldade, o nosso Senhor repetidamente estampou a Sua divina autoridade sobre esta convicção profética, anunciando aos Seus discípulos a ainda futura vinda do Espírito Santo. "E eu rogarei ao Pai, e ele vos dará outro Ajudador, para que fique convosco para sempre. A saber, o Espírito da verdade, o qual o mundo não pode receber; porque não O vê nem O conhece; mas vós O conheceis, porque Ele habita convosco, e estará em vós."[João 14:16, 17]; "Quando vier O Ajudador, que Eu vos enviarei da parte do Pai, o Espírito da verdade, que do Pai procede, Esse dará testemunho de mim."[João 15:26]; "E eis que sobre vós envio a promessa de Meu Pai; ficai porém, na cidade, até que do alto sejais revestidos de poder."[Lucas 24:49]; "Todavia, digo-vos a verdade, convém-vos que Eu vá; pois se Eu não for, o Ajudador não virá a vós; mas, se Eu for, vo-Lo enviarei. E quando ele vier, convencerá o mundo do pecado, da justiça e do juízo."[João 16:7, 8]. E finalmente: Ele ordenou-lhes, comandou-os a não partir de Jerusalém, mas para esperar pela promessa do Pai, "Estando com eles, ordenou-lhes que não se ausentassem de Jerusalém, mas que esperassem a promessa do Pai, a qual (disse ele) de mim ouvistes. Porque, na verdade, João batizou em água, mas vós sereis batizados no Espírito Santo, dentro de poucos dias. .... Mas recebereis poder, ao descer sobre vós o Espírito Santo, e ser-me-eis testemunhas, tanto em Jerusalém, como em toda a Judéia e Samaria, e até os confins da terra."[Atos 1:4, 5, 8].

A terceira dificuldade é encontrada no fato de que as comunicações dos apóstolos estão de acordo com o ensinamento da Bíblia. Eles na verdade demoraram-se em Jerusalém, sem mesmo tentar pregar durante os dias entre a ascensão e o Pentecostes. E eles explicam o milagre do Pentecostes como o cumprimento das profecias de Joel e de Jesus. Eles vêem nisto algo novo e extraordinário; e mostram-nos claramente que nos seus dias considerava-se que um homem que permanecesse, fora do milagre do Pentecostes nada conhecia, nada sabia acerca do Espírito Santo. Pois os discípulos de Éfeso sendo perguntados: "...Recebestes vós o Espírito Santo quando crestes?" respondiam inocentemente: "Não, nem sequer ouvimos que haja Espírito Santo."[Atos 19:2].

Por conseguinte, não se duvidar que o propósito da Bíblia Sagrada seja o de ensinar-nos e convencer-nos de que o derramar do Espírito Santo no Pentecostes foi a Sua primeira e real vinda à Igreja.

Mas como isto pode ser reconciliado com passagens do Antigo Testamento tais como estas? "Ora, pois, esforça-te, Zorobabel, diz o Senhor, e esforça-te, sumo sacerdote Josué, .... porque Eu sou convosco, .... e o meu Espírito habita no meio de vós; não temais."[Ageu 2:4, 5]; e novamente: "Todavia se lembrou dos dias da antigüidade, de Moisés, e do seu povo, dizendo: Onde está aquele que os fez subir do mar com os pastores do seu rebanho? Onde está o que pôs no meio deles o seu santo Espírito?"[Isaías 63:11]. Davi está cônscio de que ele tinha recebido o Espírito Santo, pois depois de haver caído ele ora: "Não me lances fora da tua presença, e não retire de mim o teu santo Espírito."[Salmo 51:11]. Houve um enviar do Espírito, pois lemos: "Envias o teu fôlego, e são criados; e assim renovas a face da terra."[Salmo 104:30]. Parece ter havido uma descida real do Espírito Santo, pois Ezequiel diz: "E caiu sobre mim o Espírito do Senhor..."[11:5]. Miquéias testificou: "Quanto a mim, estou cheio do poder do Espírito do Senhor..."[3:8]. Sobre João Batista foi escrito que ele seria cheio com o Espírito Santo desde o útero da sua mãe [Lucas 1:15]. Mesmo o Próprio Senhor Jesus Cristo era cheio do Espírito Santo, o qual Ele recebeu sem medida. Aquele mesmo Espírito veio sobre ele no Jordão, como então Ele poderia ter se referido a Ele como se ainda porvir? - uma questão por demais embaraçosa, já que lemos que na noite da ressurreição Jesus assoprou sobre os Seus discípulos, dizendo "Recebei o Espírito Santo."[João 20:22].

Foi necessário apresentar esta extensa série de testemunhos, para mostrar aos leitores a dificuldade do problema que procuraremos solucionar no próximo artigo.

 

XXV O Espírito Santo no Novo Testamento, Diferente Que no Antigo.

 

"...pelo Seu Espírito que em vós habita." - Romanos 8:11

De maneira a entender a mudança inaugurada no Pentecostes, devemos distinguir entre os vários meios nos quais o Espírito Santo entra em relacionamento com a criatura.

Com a Igreja Cristã confessamos que o Espírito Santo é Deus eterno e verdadeiro, e portanto onipresente; assim nenhuma criatura, rocha ou animal, homem ou anjo, está excluído da sua presença.

Com referência à Sua onisciência e onipresença, Davi canta: "Para onde me irei do teu Espírito, ou para onde fugirei da tua presença? Se subir ao céu, tu aí estás; se fizer no Seol a minha cama, eis que tu ali estás também. Se tomar as asas da alva, se habitar nas extremidades do mar, ainda ali a tua mão me guiará e a tua destra me susterá."[Salmo 139:7-10]. Estas palavras declaram positivamente que a onipresença pertence ao Espírito Santo; que nem no céu nem no inferno, no leste ou no oeste, há lugar do qual Ele esteja excluído.

Esta simples consideração é, para o assunto em discussão, de grande importância; pois dela desprende-se que jamais pode ser dito que o Espírito Santo tenha se movido de um lugar para outro; que Ele tenha estado em Israel, mas não entre as demais nações; que Ele tenha estado presente após o dia do Pentecostes onde Ele não tivesse estado antes. Todas e quaisquer representações como estas opõem-se diretamente à confissão da Sua onipresença, Sua eternidade e Sua imutabilidade. O Onipresente não pode ir de um lugar para outro, pois Ele não pode vir até onde Ele já está. E supor que Ele é onipresente num momento e não em outro, é inconsistente com a Sua divindade eterna. Os testemunhos de João Batista, "Vi o Espírito descer do céu como pomba, e repousar sobre Ele."[João 1:32], e de Lucas, "Enquanto Pedro ainda dizia estas coisas, desceu o Espírito Santo sobre todos os que ouviam a palavra."[Atos 10:44], não podem portanto serem compreendidos como se o Espírito Santo viesse até um lugar onde Ele não estava antes, o que é impossível.

No entanto - e esta é a primeira distinção que jogará um pouco de luz no assunto - a descrição de Davi da onipresença aplica-se à presença local no espaço, mas não ao mundo dos espíritos.

Nós não sabemos o que são os espíritos, nem o que o nosso próprio espírito é. No corpo nós podemos distinguir entre nervos e sangue, ossos e músculos, e conhecemos alguma coisa das suas funções no organismo; mas como um espírito se move, e opera, não podemos dizer. Sabemos somente que existe, que se move e que opera numa maneira completamente diferente da do corpo. Quando um irmão morre ninguém abre uma porta ou uma janela para a saída da alma; pois sabemos que nem parede nem telhado podem atrapalhar ou impedir o seu vôo em direção ao céu. Em oração nós sussurramos de modo a não sermos ouvidos, todavia cremos que o homem Jesus Cristo ouve cada palavra. A rapidez de um pensamento excede a da eletricidade. Numa palavra, as limitações do mundo material parece que desaparecem no território dos espíritos.

Até mesmo o operar do espírito na matéria é maravilhoso. O peso médio de um adulto é de aproximadamente setenta e cinco quilos. São necessários três ou quatro homens para carregar um corpo morto, com aquele peso, até o alto de um edifício; todavia enquanto o homem estava vivo o seu espírito tinha o poder de carregar o seu peso para cima e para baixo nos lances de escada fácil e rapidamente. Mas onde o espírito toma conta do corpo, como ele o move, e a fonte daquela destreza e rapidez, é para nós um perfeito mistério. Todavia isso nos mostra que o espírito está sujeito a leis, completamente diferente daquelas que governam a matéria.

Enfatizamos o vocábulo lei. De acordo com a analogia da fé, devem haver leis que governem o mundo espiritual da mesma forma como elas existem no mundo natural; todavia devido às nossas limitações nós não as conhecemos. Mas no céu nós as saberemos, bem como todas as glórias e peculiaridades do mundo espiritual, da mesma forma que os nossos médicos conhecem os nervos e tecidos do corpo.

No entanto sabemos isto, que aquilo que se aplica à matéria não se aplica, portanto, ao espírito. A onipresença de Deus refere-se a todo o espaço, mas não a cada espírito. Uma vez que Deus é onipresente, isto não quer dizer que Ele também habite no espírito de Satã. Daí que fica claro que o Espírito Santo pode ser onipresente sem contudo habitar em cada alma humana; e que Ele pode descer sem mudar de lugar, e ainda assim entrar numa alma até então não ocupada por Ele; e que Ele estava presente no meio de Israel e no meio dos Gentios; e que todavia manifestou-Se entre aqueles e não entre estes. Disto se segue que no mundo espiritual Ele pode vir até onde Ele não estava; que Ele veio no meio de Israel, não tendo estado no meio deles antes; e que então Ele Se manifestou entre eles menos poderosamente e de forma diferente do que no dia e antes do dia, de Pentecostes.

Parece que o Espírito Santo age num ser humano de duas formas diferentes - ou externa, ou interna. A diferença é parecida com aquela existente no tratamento do corpo humano pelo médico e pelo cirurgião: o primeiro age sobre o corpo humano através de remédios tomados (de fora para dentro); o segundo através de incisões e aplicações internas (de dentro para fora). Uma comparação muito defeituosa, fraca realmente, mas pode ilustrar de maneira tola a operação 'de duas faces' do Espírito Santo nas almas dos homens.

No começo nós descobrimos somente uma manifestação 'exterior' de certos dons. Para Sansão Ele concede grande força física. Aoliabe e Bezaleel são dotados com talento artístico para construir o tabernáculo. Josué é enriquecido com gênio militar. Estas operações não tocaram o centro da alma, e não eram salvadoras, mas meramente externas. Elas tornam-se mais duradouras quando assumem um caráter oficial como em Saul; embora nele encontremos a melhor evidência do fato de que elas são somente externas e temporais. Assumem um caráter mais elevado quando recebem o selo profético; embora o exemplo dos balsameiros (II Samuel 5:23-25; I Crônicas 14:13-15) nos mostra que mesmo assim elas não penetram até o centro da alma, mas afetam só afetam o homem exteriormente.

Mas no Antigo Testamento também houve operação interna em crentes. Israelitas creram e foram salvos. Assim é que eles devem ter recebido graça salvadora. E desde que a existência da graça salvadora está fora de questão se não houver um operar interno do Espírito Santo, segue-se que Ele foi o Operador da fé em Abraão, tanto quanto em nós mesmos.

A diferença entre as duas formas de operação é aparente. Uma pessoa que tenha sido trabalhada externamente pode enriquecer-se de dons e talentos exteriores, enquanto que espiritualmente ela permanece tão pobre como nunca. Ou, havendo recebido os dons interiores de regeneração, ela pode estar privada de cada dom e talento que adorna o homem de forma exterior.

Portanto temos estes três aspectos:

Primeiro, há a onipresença do Espírito Santo no espaço, o mesmo no céu e no inferno, no meio de Israel e entre as nações.

Segundo, há uma operação espiritual do Espírito Santo conforme escolha, a qual não é onipresente; ativa no céu mas não no inferno; no meio de Israel, mas não entre as nações.

Terceiro, esta operação espiritual trabalha tanto de fora para dentro, concedendo dons que podem ser perdidos; ou de dentro para fora, concedendo o dom imperdível da salvação.

Até agora temos falado da obra do Espírito Santo nas pessoas individuais, o que foi suficiente para explicar aquela obra nos dias do Antigo Testamento. Mas quando chegamos ao dia do Pentecostes, isto já não satisfaz. Pois esta operação em particular, naquele dia e após, consiste no estender do Seu operar a um grupo de homens organicamente unidos.

Deus não criou a humanidade como um cordão de almas isoladas, mas como uma raça. Assim é que em Adão as almas de todos os homens caíram e corromperam-se. De maneira similar a nova criação, no cenário da graça, não operou a geração de indivíduos isolados, mas sim a ressurreição de uma nova raça, um povo peculiar, um sacerdócio santo. E esta raça favorecida, este povo peculiar, este santo sacerdócio também são um, organicamente, e participantes da mesma bênção espiritual.

A Palavra de Deus expressa esta verdade ao ensinar que os eleitos constituem-se num só corpo, o qual todos são membros, um sendo um pé, outro um olho, e outro uma orelha, etc. - uma representação que carrega consigo a idéia de que os eleitos sustentam mutuamente a relação de uma união orgânica, espiritual e vital. E isto não é meramente exterior, através de amor mútuo, mas muito mais através de uma comunhão vital que é deles por virtude da sua origem espiritual. Como a nossa Liturgia expressa de maneira muito linda: "Pois como de muitos grãos uma refeição e um pão são preparados, e de muitas uvas, sendo prensadas juntas, um vinho flui e se mistura, assim também todos nós, por uma fé verdadeira somos incorporados em Cristo, estaremos juntos num só corpo."

Esta união espiritual dos eleitos não existia em Israel, nem poderia ela existir no tempo deles. Havia uma união de amor, mas não uma união espiritual e comunhão vital que brotassem da raiz da vida. Esta união espiritual dos eleitos foi feita possível somente pela encarnação do Filho de Deus. Os eleitos são homens de corpo e alma; portando ela é parcialmente, no mínimo, um corpo visível. E somente quando em Cristo o homem perfeito foi dado, que pudesse ser o templo do Espírito Santo corpo e alma, foi que o fluir interno e o derramar do Espírito Santo foi estabelecido no e através do corpo assim criado.

No entanto, isto não ocorreu imediatamente após o nascimento de Cristo, mas após a Sua ascensão; pois a Sua natureza humana não desfraldou a sua perfeição mais plena até depois de Ele haver ascendido, quando, como o Filho glorificado de Deus, Ele tomou assento à mão direita do Pai. Somente então o Homem perfeito foi dado, que podia, por um lado, ser sem impedimentos ou obstáculos o templo do Espírito Santo, e que por outro, unir os espíritos dos eleitos num só corpo. E quando, através da Sua ascensão e assento à mão direita de Deus, isto tornou-se fato, quando assim os eleitos tornaram-se um corpo, era perfeitamente natural que, a partir da Cabeça, o habitar do Espírito Santo fosse transmitido para o corpo todo. E assim o Espírito Santo foi derramado no corpo do Senhor, os Seus eleitos, a Igreja.

Sob esta ótica tudo se torna claro: claro por que os santos do Antigo Testamento não receberam a promessa, que sem nós eles não seriam feitos perfeitos, esperando por aquela perfeição até a formação do corpo de Cristo, ao qual eles também deveriam ser incorporados; claro que a demora do derramar do Espírito Santo não evitou que a graça salvadora operasse nas almas individuais dos santos do Pacto Antigo; claro que os apóstolos nasceram de novo muito antes do Pentecostes e receberam dons e talentos oficiais no anoitecer do dia da ressurreição, embora o derramar do Espírito Santo no corpo assim formado não teve lugar até o Pentecostes. Torna-se claro como Jesus poderia dizer, "se Eu não for, o Ajudador não virá a vós", e novamente, "se Eu for, vo-Lo enviarei"; pois o Espírito Santo deveria fluir no Seu corpo a partir dEle mesmo, que é a Cabeça. Também torna-se claro que Ele não enviaria o Espírito Santo de Si próprio, mas do Pai; claro porque este derramar do Espírito Santo no corpo de Cristo nunca se repetiu, e não poderia acontecer senão uma só vez; e finalmente, claro que o Espírito Santo estava sim, no meio de Israel (Isaías 63:12), operando nos santos de forma exterior, enquanto que no Novo Testamento nos diz que Ele estava dentro deles.

Portanto, chegamos às seguintes conclusões:

Primeira, os eleitos precisam constituir um corpo.

Segunda, ele não se constituíam um corpo durante os dias do Pacto Antigo, durante os dias de João Batista, e durante os dias de Cristo enquanto na terra.

Terceira, este corpo não existia até que Cristo ascendeu ao céu e, assentando-Se à mão direita de Deus, concedeu a este corpo a sua unidade, no que Deus concedeu-Lhe ser Cabeça sobre todas as coisas para a edificação da Igreja - Efésios 4:12: "tendo em vista o aperfeiçoamento dos santos, para a obra do ministério, para edificação do corpo de Cristo".

Finalmente, Cristo como a Cabeça glorificada, havendo formado o Seu corpo espiritual pela união vital dos eleitos, no dia de Pentecostes derramou o Seu Santo Espírito em todo o corpo, para nunca mais permitir que Ele o abandone.

Que estas conclusões não contém nada a não ser o que a Igreja em todas as épocas tem confessado, está refletido no fato de que as igrejas Reformadas têm sempre sustentado:

Primeiro, que a nossa comunhão com o Espírito Santo depende da nossa união mística com o corpo do qual Cristo é a Cabeça, o que é a idéia latente da Ceia do Senhor.

Segundo, que os eleitos formam um corpo sob Cristo, sua Cabeça.

Terceiro, que este corpo começou a existir quando recebeu a sua Cabeça; e que, de acordo com a passagem em Efésios 1:22 ("e sujeitou todas as coisas debaixo dos seus pés, e para ser cabeça sobre todas as coisas o deu à igreja"). A Cristo foi dado ser a Cabeça, após a Sua ressurreição e ascensão.


XXVI. Israel e as Nações.

 

"...de que também sobre os gentios se derramasse o dom do Espírito Santo." - Atos 10:45

A questão que se levanta com relação ao Pentecostes é: Desde que o Espírito Santo concedeu graça salvadora aos homens antes e após o Pentecostes, qual é a diferença causada por aquela descida do Espírito Santo?

Uma ilustração pode explicar a diferença. A chuva cai do céu e o homem a recolhe para matar a sua sede. Quando a água da chuva corre para a cisterna de cada uma das casas, ela passa a pertencer a cada família separadamente; mas quando, como numa cidade moderna, cada casa é suprida com a água do reservatório municipal, através de tubulações e encanamentos, não é mais necessário ter-se cisternas individuais e bombas. Suponhamos que uma cidade cujos moradores por décadas tenham bebido cada um da sua própria cisterna, proponha a construção de um reservatório que suprirá todas as residências. Quando o trabalho estiver completo, será possível à água fluir através da rede de tubulações até cada uma das casas. Pode então, ser dito que naquele dia a água foi 'derramada' em toda a cidade. Até então, a água tinha somente caído por sobre o telhado de cada morador: agora ela corre através do sistema organizado até e dentro da casa de cada um.
Apliquemos esta ilustração ao derramar do Espírito Santo, e a diferença entre antes e depois do Pentecostes se tornará aparente. As chuvas do Espírito Santo caíram sobre o Israel antigo na forma de gotas da graça salvadora; mas de maneira tal que somente cada um recolhia da chuva celeste para si próprio, para matar a sede de cada um separadamente. E assim continuou até a vinda de Cristo. Então aconteceu uma mudança; pois Ele juntou a corrente toda do Espírito Santo para todos nós, na Sua própria Pessoa. Com Ele todos os santos estão conectados pelos canais da fé. E quando, após a sua ascensão, esta conexão com os Seus santos estava completada, e Ele tinha recebido o Espírito Santo do Seu Pai, então o último obstáculo foi removido e a torrente do Espírito Santo jorrou através dos canais de conexão até o coração de cada crente.

Antes a separação, cada um por si; agora a união orgânica de todos os membros sob a única Cabeça: esta é a diferença entre os dias antes e depois do Pentecostes. O fator essencial do Pentecostes consistiu nisto, que naquele dia o Espírito Santo entrou pela primeira vez no corpo orgânico da Igreja, e os indivíduos puderam beber, não cada um por si, mas todos juntos, em união orgânica.

À questão onde aquele sistema de canais conectores unindo-nos em um corpo sob a nossa Cabeça pode ser encontrada, não temos resposta. Pertence às coisas invisíveis e espirituais, as quais escapam à nossa observação, das quais podemos ter nenhuma outra representação a não ser como imagem.

Todavia isto não altera o fato de que a união orgânica realmente existe. A Palavra de Deus nos é a sua inegável testemunha. A vida orgânica aparece na natureza em duas formas: na planta, e no corpo humano e animal. Estes são os próprios tipos que Cristo utiliza para ilustrar a união espiritual entre Si e Seu povo. Ele disse: "Eu sou a videira; vós sois as varas".[João, 15:5]. E Paulo fala sobre haver se tornado uma planta com Cristo. E ele usa freqüentemente a imagem do corpo e seus membros.

Daí que não pode haver dúvida de que existe uma união mística entre Cristo e crentes, que opera por intermédio de uma conexão orgânica, unindo a Cabeça e os membros numa maneira para nós incompreensível. Através desta união orgânica, o Espírito Santo foi derramado no dia de Pentecostes desde Cristo, a Cabeça até nós, os membros do Seu corpo.

Se fosse possível construir a rede de água da cidade no ar por sobre a cidade, o engenheiro chefe poderia apropriadamente dizer: "Quando eu ligar a água pela primeira vez, eu batizarei a cidade com água". Num sentido similar, pode-se dizer que Cristo batizou a Sua Igreja com o Espírito Santo. Pois a palavra de João Batista, "Eu, na verdade, vos batizo em água, mas vem aquele que é mais poderoso do que eu, de quem não sou digno de desatar a correia das alparcas; ele vos batizará no Espírito Santo..."[Lucas 3:16] é explicada pelo Próprio Cristo com referência do dia de Pentecostes [("Estando com eles, ordenou-lhes que não se ausentassem de Jerusalém, mas que esperassem a promessa do Pai, a qual (disse ele) de mim ouvistes. Porque, na verdade, João batizou em água, mas vós sereis batizados no Espírito Santo, dentro de poucos dias." - Atos 1:4, 5]; uma promessa que indubitavelmente referia-se ao milagre do Pentecostes. Isto está de acordo com o fato de que Jesus, durante o Seu ministério, permitiu que os Seus discípulos continuassem com o Batismo de João. E isto mostra que mesmo antes da crucificação, João e Pedro, Filipe e Zaqueu, e muitos outros receberam a graça salvadora do Espírito santo, cada um para si mesmo, mas nenhum deles foi batizado com o Espírito Santo antes do dia do Pentecostes.

Com referência aos apóstolos, devemos distinguir uma doação do Espírito Santo em três aspectos:

Primeiro, o da graça salvadora na regeneração e subsequente iluminação - [("Disse-lhe Jesus: Bem-aventurado és tu, Simão Barjonas, porque não foi carne e sangue que to revelou, mas meu Pai, que está nos céus") - Mateus 16:17].

Segundo, dons oficiais qualificando-os para o ofício apostólico - [("E mesmo agora sei que tudo quanto pedires a Deus, Deus to concederá.")-João 11:22]. (¹)

Terceiro, o Batismo com o Espírito Santo-{[(" Porque, na verdade, João batizou em água, mas vós sereis batizados no Espírito Santo, dentro de poucos dias."-Atos 1:5]; comparado com [("Ao cumprir-se o dia de Pentecostes, estavam todos reunidos no mesmo lugar. De repente veio do céu um ruído, como que de um vento impetuoso, e encheu toda a casa onde estavam sentados. E lhes apareceram umas línguas como que de fogo, que se distribuíam, e sobre cada um deles pousou uma. E todos ficaram cheios do Espírito Santo, e começaram a falar noutras línguas, conforme o Espírito lhes concedia que falassem.")-Atos 2:1 - 5]}

Uma outra dificuldade perdura. Sempre lemos de derramamentos do Espírito Santo após o Pentecostes. Como isto pode ser reconciliado com a nossa explicação? No livro de Atos lemos: "Enquanto Pedro ainda dizia estas coisas, desceu o Espírito Santo sobre todos os que ouviam a palavra. Os crentes que eram de circuncisão, todos quantos tinham vindo com Pedro, maravilharam-se de que também sobre os gentios se derramasse o dom do Espírito Santo."[10:44, 45]. E Pedro o confirma ao dizer: "Pode alguém porventura recusar a água para que não sejam batizados estes que também, como nós, receberam o Espírito Santo?"[Atos 10:47]. Daí fica evidente que o derramar na casa de Cornélio foi da mesma natureza como aquele em Pentecostes. Mais ainda, ouvimos de uma descida do Espírito Santo em Samaria (Atos 8), e de uma outra em Éfeso (Atos 19:6). Esta descida teve lugar em ambas localidades depois da imposição de mãos pelos apóstolos; e em Cesaréia e em Corinto ela foi seguida por um falar em línguas estranhas, como em Jerusalém.

Portanto, é evidente que o derramar do Espírito Santo não foi limitado ao dia de Pentecostes em Jerusalém, mas que repetiu-se depois numa forma modificada e mais fraca, mas ainda extraordinariamente, como no Pentecostes.

E quem negaria que há um derramamento do Espírito Santo nas igrejas da atualidade? Sem isso não pode haver regeneração, nenhuma salvação. Todavia os sinais do Pentecostes estão escasseando, e.g., não há mais o falar em línguas. Daí ser necessário distinguir entre a descida normal, que acontece agora, e a extraordinária em Corinto, Cesaréia, Samaria, e Jerusalém.

Por conseguinte, a pergunta apresenta-se como: Se no dia de Pentecostes o Espírito Santo foi derramado uma vez por todos e para sempre, como explicar os derrames normais e extraordinários?

Permita-nos uma vez mais recorrer à nossa ilustração anterior. Suponhamos que a cidade a que nos referimos anteriormente consistisse de uma 'parte baixa' e uma 'parte alta', ambas a serem supridas a partir do mesmo reservatório. Quando do término da construção e instalação do seu sistema, a 'parte baixa' da cidade poderia receber a água primeiro, e a 'parte alta' receberia a água somente depois que o sistema houvesse sido estendido, prolongado até chegar a ela. Notamos aqui duas coisas: a distribuição da água ocorreu somente uma vez, a qual foi a abertura oficial dos registros, e não poderia ocorrer senão uma só vez; enquanto que a distribuição da água na 'parte alta' da cidade, embora extraordinária; foi somente um desdobramento do evento anterior. Esta é uma ilustração razoável do que ocorreu no derramamento do Espírito Santo. A Igreja consistia de duas partes distintamente definidas, ou seja, o mundo Judeu e o mundo Gentio. Todavia ambos devem constituir um corpo, um povo, uma Igreja; ambos devem viver uma vida no Espírito Santo. No Pentecostes Ele é derramado no corpo, mas somente para matar a sede de uma parte, i.e. os Judeus; a outra parte ainda excluída. Mas agora os apóstolos e evangelistas começam em Jerusalém e entram em contato com os Gentios, e a hora chegou para que a corrente do Espírito Santo jorre adiante, na parte Gentia da Igreja, e o corpo inteiro seja refrescado pelo mesmo Espírito Santo. Assim é que há um derramamento original em Jerusalém no dia de Pentecostes, e um derramamento suplementar na Cesaréia, para a parte Gentia da Igreja; ambos da mesma natureza, mas cada um contendo sua própria e especial característica.

Além desses, há alguns derramamentos isolados do Espírito Santo, atendidos pela imposição das mãos dos apóstolos, como no caso de Simão, o Mágico. Explicamos isto da seguinte forma: de tempos em tempos novas conexões são feitas entre casas individuais e o reservatório da cidade; assim novas partes do corpo de Cristo foram acrescentadas à Igreja, novos membros nos quais o Espírito Santo foi derramado, a partir do corpo. É perfeitamente natural que nesses casos os apóstolos apareçam como instrumentos; e que, ao receber na Igreja pessoas provindas de uma parte do mundo ainda não conectada com a Igreja, eles estendam-lhes pela imposição das mãos a comunhão do Espírito Santo que habita no corpo.

Isto também explica porque pessoas recém convertidas recebam hoje em dia o Espírito Santo somente na forma comum. Pois eles são convertidos no nosso meio, que já nos encontramos no pacto, já pertencemos à semente da Igreja e ao corpo de Cristo.(²) Portanto nenhuma nova conexão é formada, mas uma obra do Espírito Santo é operada numa alma com a qual Ele já estava relacionado por intermédio do corpo.

E assim elimina-se cada objeção e cada detalhe é colocado no seu próprio lugar, e as linhas do domínio que tinham se tornado vagas e confusas são, uma vez mais, claramente traçadas.

Também é evidente que a oração por um outro derramar ou batismo do Espírito Santo é incorreta e vazia de significado real. Tal oração na realidade nega o milagre do Pentecostes. Pois Ele, que veio e que está conosco, não pode mais vir até nós.

 


XXVII Os Sinais do Pentecostes.

 

"...prodígios em cima no céu; e sinais embaixo na terra..." - Atos 2:19

Consideremos agora os sinais que acompanharam o derramar do Espírito Santo - o som de um vento forte, impetuoso; línguas de fogo; e o falar em outras línguas - que constituem a quarta dificuldade que se nos depara na investigação dos eventos do Pentecostes (veja na página 95). Os dois primeiros sinais precederam, enquanto que o terceiro ocorreu após o derramar do Espírito Santo.

Estes sinais não são meramente simbólicos. O falar em outras línguas, pelo menos, aparece como parte da narrativa. A idéia de símbolos é a de representar ou de indicar algo ou de chamar a atenção para algo; assim é que podem ser omitidos sem contudo afetar o assunto em si. Um símbolo é como uma placa na estrada: que pode ser removida sem contudo afetar a estrada. Se os sinais do Pentecostes fossem puramente simbólicos, o evento teria sido o mesmo sem eles; mas a ausência do sinal de outras línguas teria modificado completamente o caráter da história subsequente.

Isto justifica a suposição de que os dois sinais precedentes também foram partes constituintes do milagre. O fato de nenhum deles ser um símbolo apto reforça a suposição; pois um símbolo deve falar. A placa na estrada que deixa o viajante em dúvida quanto a que direção tomar não é uma placa válida. Considerando o fato por dezoito séculos, teólogos têm se mostrado incapazes de discernir o significado dos assim chamados símbolos com qualquer grau de certeza, deve ser reconhecido que é difícil crer que os apóstolos ou a multidão entenderam o seu significado de imediato e da mesma forma. O relato prova o contrário. Eles não compreenderam os sinais. A multidão, confusa e perplexa, murmurou: "O que isto quer dizer?" E quando Pedro levantou-se como um apóstolo, iluminado pelo Espírito Santo, para interpretar o milagre, ele não fez esforço algum para atribuir qualquer significado simbólico aos sinais, mas simplesmente declarou que um evento acontecera, através do qual a profecia feita por Joel fora cumprida.

O evento do Pentecostes então exauriu a profecia de Joel? De maneira alguma: pois o sol não tornou-se em trevas, nem a lua em sangue; e nada ouvimos acerca de sonhos dos velhos. Nem poderia tampouco have-lo feito; pois o dia notável que exaurirá esta e tantas outras profecias não pode chegar até o retorno do Senhor. Mas o apóstolo santo quis dizer, que o dia do retorno do Senhor havia sido trazido para muito mais perto, através deste evento. O derramar do Espírito Santo é um dos grandes acontecimentos que prometem a vinda daquele dia grandioso e notável. Sem isso, tal dia não pode chegar. Quando do céu observarmos o passado, o dia de Pentecostes nos parecerá como o último grande milagre imediatamente precedendo o dia do Senhor. E uma vez que aquele dia será acompanhado por sinais terríveis, como foi o dia preparatório do Pentecostes, o apóstolo os coloca juntos e faz parecerem um, mostrando que Deus, na profecia de Joel, aponta para ambos eventos.

Se for certo de que os sinais que acompanharem o retorno do Senhor - sangue, fogo, e vapor de fumaça - não serão simbólicos, mas constituindo-se elementos daquela última parte da história do mundo, em outras palavras, sua última conflagração, então é também certo que Pedro não tomou os sinais do Pentecostes como simbólicos.

Nem pode a ainda mais insatisfatória explicação ser considerada, de que a intenção com estes sinais foi a de chamar e fixar a atenção da multidão.

Os sentidos da visão e da audição são os meios mais efetivos pelos quais o mundo exterior pode agir sobre a nossa consciência. Para de repente assustar alguém, é necessário somente surpreende-lo com um barulho alto ou com o clarão de um facho de luz forte. Levando isso em conta, Metodistas antigos costumavam disparar pistolas nas suas reuniões de avivamento, esperando que o estrondo e o clarão criassem o estado de espírito desejado. A subsequente excitação das pessoas tenderia a faze-las mais suscetíveis à operação do Espírito Santo. Experiências similares são as do Exército da Salvação. De acordo com esta noção, os sinais do Pentecostes tinham característica similar. Supunham alguns que os discípulos, ainda homens não convertidos, estivessem sentados juntos no cômodo superior, em resistência ao Pentecostes. Para faze-los suscetíveis ao fluir interno do Espírito Santo eles precisavam ser acordados por um barulho e pelo fogo. Deve parecer como se uma tempestade de raios violenta se abatesse sobre a cidade; clarões de raios e ribombar de trovões eram vistos e ouvidos. E quando a multidão estivesse assustada e amedrontada, então a condição desejada para se receber o Espírito Santo predominava e o derramamento teve lugar. Extravagâncias como estas somente ferem o suave sentido dos filhos de Deus; enquanto que é quase que um sacrilégio comparar os sinais do Pentecostes com disparos de pistola.

Assim, somente uma outra explicação permanece, i.e. considerar os sinais do Pentecostes como constituintes reais e verdadeiros do evento; elos indispensáveis na cadeia de acontecimentos.

Quando um navio entra na baía, vemos o repuxo da espuma da água sob a proa e ouvimos o fragor das águas contra os lados da embarcação. Quando um cavalo galopa na estrada, ouvimos o barulho dos seus cascos contra o chão e vemos as nuvens de poeira. Mas quem dirá que estas coisas vistas e ouvidas são simbólicas? Elas pertencem necessariamente àquelas ações e fazem parte delas, tais ações seriam impossíveis sem elas. Portanto, não cremos que os sinais do Pentecostes fossem simbólicos, ou que a intenção com eles fosse criar uma sensação, mas que eles pertenciam inseparavelmente ao derramar do Espírito Santo, e que por isso foram causados. O derramar do Espírito Santo não poderia ocorrer sem criar estes sinais. Quando o riacho da montanha projeta-se despenhadeiro abaixo devemos ouvir o som da torrente, devemos ver a neblina de espuma; então quando o Espírito Santo flui das montanhas da santidade de Deus, o som de um vento forte e impetuoso deve ser ouvido, e um brilho glorioso deve ser visto, e o falar em línguas estranhas deve vir em seguida.

Isto explicará o nosso entendimento satisfatoriamente. Não que neguemos que estes sinais também tenham um significado para a multidão. O barulho dos cascos do cavalo alerta os viajantes, na estrada. E concedemos que o propósito dos sinais foi alcançado na perplexidade e na consternação que causaram nos corações daqueles presentes. Mas isto mantemos, que mesmo na ausência da multidão e da sua consternação, o som do vento forte, impetuoso e poderoso teria sido ouvido e as línguas de fogo teriam sido vistas. E como os cascos do cavalo fazem o solo vibrar mesmo que não haja ninguém à vista, então o Espírito Santo não poderia descer sem aquele som e sem aquele brilho, mesmo que nenhum Judeu sequer pudesse ser encontrado em Jerusalém.

O derramar do Espírito Santo foi real, não aparente. Tendo encontrado o Seu templo na cabeça glorificada; Ele deve necessariamente fluir, na direção do corpo, e descer do céu. E esta descida do céu e essa disseminação no corpo não poderia ocorrer sem causar estes sinais.

Penetrar ainda mais profundamente neste assunto não está de acordo com a lei. No monte Orebe Elias ouviu o Senhor passando numa brisa suave, Isaías ouviu o mover-se dos pórticos no Templo. Isto parece indicar que a aproximação da majestade divina causa uma comoção nos elementos, perceptível ao nervo da audição. Mas como, não podemos dizer. Observamos, no entanto:

Primeiro, que é evidente que espírito pode agir na matéria, pois o nosso espírito age sobre o corpo a cada momento, e por este agir se lhe é possível produzir sons. A fala, o choro, o canto, nada mais são que ações do nosso espírito nas correntes de ar. E se o nosso espírito é capas de ação tal, por que não o Espírito do Senhor? Por que, então, dizer que é mistério quando o Espírito Santo, na Sua descida, tanto operou sobre os elementos que os efeitos vibraram nos ouvidos daqueles ali presentes?

Segundo, ao fazer o pacto com Israel no monte Sinai, o Senhor Deus falou com estrondo de trovão tão terrível, que mesmo Moisés disse, "Estou todo aterrorizado e trêmulo"[Hebreus 12:21]; todavia não com a intenção de aterrorizar o povo, mas porque um Deus santo e irritado não pode falar de outra forma a uma geração pecadora. Não é portanto de surpreender que a vinda de Deus ao Seu povo do Novo Pacto seja acompanhada por sinais similares, não de modo a chamar a atenção dos homens, mas porque não poderia ser de outra forma.

O mesmo aplica-se às línguas de fogo. Manifestações sobrenaturais são sempre acompanhadas por luz e brilho, especialmente quando o Senhor Jeová ou o Seu anjo aparece. Lembremo-nos, por exemplo, a ocasião do pacto que Deus fez com Abraão, ou as ocorrências na sarça ardente. Por que, então, deveria surpreender-nos que a descida do Espírito Santo fosse acompanhada por fenômenos tais como aqueles presenciados por Elias no Horebe, Moisés junto à sarça, Paulo no caminho de Damasco, e João na ilha de Patmos? Que as línguas partidas pairaram sobre cada um deles prova nada ao contrário; pois Ele procedeu a cada uma deles e entrou nos seus corações, e em cada ida Ele deixou atrás de Si um rastro de luz.

A questão, se o fogo visto por estes homens naquelas ocasiões pertencia a uma esfera mais alta, ou foi o efeito da ação de Deus nos elementos da terra, não pode ser respondida.

Ambos pontos de vista têm muito a favor. Não há trevas no céu; e a luz celeste deve ser de natureza mais elevada que a nossa, acima mesmo do brilho do sol, conforme a descrição que Paulo fez da luz no caminho de Damasco. É muito provável, portanto, que nestes eventos grandiosos a fronteira do céu sobrepôs-se à terra, e uma gloria mais alta brilhou sobre a nossa atmosfera.

Mas, por outro lado, é possível que o Espírito Santo operou diretamente este brilho misterioso por um milagre. E parece ser confirmado, pelo fato de que os sinais que acompanharam o momento quando o Senhor deu as tábuas da lei no Sinai, evento o qual, paralelamente a este, não procedeu de esferas mais elevadas, mas foi operado a partir de elementos terrenos.

Finalmente, seja notado que, o derramar do Espírito Santo na casa de Cornélio e nos discípulos de Apolo, foi acompanhado pelo falar em outras línguas, mas não pelos outros sinais. Isto confirma a nossa teoria, pois não foi uma vinda do Espírito diretamente à casa de Cornélio, mas uma condução do Espírito Santo até uma outra parte do corpo de Cristo. Se o simbolismo tivesse sido intencional, os mesmos sinais teriam se repetido; mas por não tratarem-se de símbolos, eles não apareceram.

 


XXVIII O Milagre de Línguas.

 

"Se alguém falar em língua . . . . . . haja um que interprete. Mas, se não houver intérprete, esteja calado na igreja, e fale consigo mesmo, e com Deus."-I Coríntios 14:27, 28

O terceiro sinal seguinte ao derramamento do Espírito santo consistiu de sons extraordinários que provinham dos lábios dos apóstolos - sons estranhos ao idioma Aramaico, nunca antes ouvidos dos seus lábios.

Estes sons afetaram a multidão de maneiras diferentes: alguns chamaram-nos desconexo de homens inebriados; outros ouviam neles a proclamação das grandes obras de Deus. A estes, parecia-lhes como se ouvissem-nos falar nas suas próprias línguas. Para os Partos soava como o idioma dos Partos; aos Árabes como o idioma dos Árabes, e etc.; enquanto Pedro declarou que este sinal pertencia ao território da revelação, pois foi o cumprimento da profecia de Joel que todo o povo devesse tornar-se participante da operação do Espírito Santo.

A questão como interpretar este tão maravilhoso sinal ocupou as mentes pensadoras de todos os tempos. Permitam-nos oferecer uma solução, a qual apresentamos nas seguintes observações:

Em primeiro lugar - Este fenômeno de falar espiritual em sons extraordinários não está confinado ao Pentecostes, nem ao segundo capítulo do livro dos Atos dos Apóstolos.

Ao contrário, o Senhor disse aos Seus discípulos, antes mesmo da ascensão, que eles falariam com novas línguas - Marcos 16:17 ("E estes sinais acompanharão aos que crerem: em meu nome expulsarão demônios; falarão novas línguas"). E das epístolas de Paulo é evidente que esta profecia não referiu-se somente ao Pentecostes; pois lemos em I Coríntios 12:10 que na Igreja apostólica, dons espirituais incluíam o de línguas; que alguns falavam diferentes tipos de línguas ou sons. No versículo 18 o apóstolo declara que Deus distribuiu este fenômeno espiritual na Igreja. É digno de nota que em I Coríntios 14:1-33 o apóstolo dá atenção especial a este sinal extraordinário, mostrando que então era bem normal. Que o dom de línguas mencionado por Paulo e o sinal do qual Lucas fala em Atos 2 são substancialmente um e o mesmo, não pode ser duvidado. Em primeiro lugar, a profecia de Cristo é genérica: "...falarão novas línguas". Em segundo, sobre ambos fenômenos foi dito terem causado impressões irresistíveis nos não crentes. Em terceiro, ambos são tratados como dons espirituais. E por último, ambos recebem o mesmo nome.
Todavia houve uma diferença muito perceptível entre os dois: o milagre de línguas no dia de Pentecostes foi inteligível para um grande número de ouvintes de nacionalidades diferentes; enquanto que nas igrejas apostólicas foi compreendido somente por uns poucos, que foram chamados de intérpretes. Ligado a isto está o fato de que o milagre no Pentecostes causou a impressão de um falar simultaneamente a diferentes ouvintes em diferentes línguas, de modo que eles fossem edificados. No entanto, esta não é uma diferença fundamental. Embora nas igrejas apostólicas houvesse senão poucos intérpretes, ainda assim havia alguns que compreendiam o discurso maravilhoso.

Havia, além do mais, uma diferença marcada entre os homens assim agraciados: alguns entendiam o que eles diziam; outros não. Pois Paulo admoesta-os dizendo: "Por isso, o que fala em língua, ore para que a possa interpretar"[I Coríntios 14:13]. Todavia, mesmo sem esta habilidade, o falar em línguas tinha um efeito edificante sobre o próprio orador; mas tratava-se de uma edificação não compreendida, os efeitos de uma operação desconhecida na alma.

Disto extraímos que o milagre de línguas consistiu no pronunciar de sons extraordinários os quais, de informações existentes, não podia ser explicado nem pelo orador nem pelo ouvinte; e ao qual uma outra graça era algumas vezes acrescentada, ou seja, a da interpretação. Assim é que três coisas eram possíveis: que somente o orador compreendesse o que dizia; ou, que outros o compreendessem mas não ele mesmo; ou, que ambos orador e ouvinte o compreendessem. Esta compreensão refere-se a uma ou mais pessoas.

Nesta base nós classificamos estes milagres de línguas em uma classe; com esta distinção, no entanto, que no dia de Pentecostes o milagre apareceu perfeito, porém incompleto, mais tarde. Como há, nos milagres que Cristo operou ao ressuscitar os mortos um aumento perceptível de poder: primeiro o ressuscitar de apenas uma morta (a filha de Jairo), depois, o de um prestes a ser sepultado (o jovem filho da viúva em Naim), e por último, o de um já em decomposição (Lázaro); assim também há no milagre de línguas uma diferença de poder - não aumentando, mas diminuindo. Primeiro é vista a operação mais grandiosa do Espírito Santo, depois aquelas menos poderosas. É precisamente o mesmo como no nosso próprio coração: primeiro, o poderoso fato da regeneração; depois disso, as manifestações menos marcadas de poder espiritual. Assim é que no Pentecostes houve o milagre de línguas na sua perfeição; mais tarde, nas igrejas, em medida mais fraca.

Em segundo lugar-Não há evidência de que o milagre de línguas consistiu no falar de um dos idiomas conhecidos não previamente obtido.

Se tivesse sido este o caso, Paulo não poderia ter dito: "Porque se eu orar em língua (desconhecida), o meu espírito ora, sim, mas o meu entendimento fica infrutífero"[I Coríntios 14:14]. A palavra "desconhecida" aparece em parêntesis, não sendo encontrada no original Grego. Ademais, ele diz que línguas são para um sinal não para os que crêem, mas para os que não crêem. Se tivesse sido o caso de idiomas estrangeiros porém comuns, a questão de entende-los não poderia depender da fé, mas simplesmente do fato se o idioma foi adquirido através de estudo ou se era a língua nativa de alguém.

Finalmente, a noção de que essas línguas referem-se a idiomas estrangeiros não obtidos através de estudo é contradita por Paulo: "Dou graças a Deus, que falo em línguas mais do que vós todos"[I Coríntios 14;18]. Por este versículo ele não pode querer dizer que dominava mais idiomas que os outros, mas que ele possuía o dom de línguas num grau mais elevado que os outros homens. O versículo seguinte é a evidência: "Todavia na igreja eu antes quero falar cinco palavras com o meu entendimento, para que possa também instruir os outros, do que dez mil palavras em língua (desconhecida)"[I Coríntios 14:19]. De acordo com o outro ponto de vista, este versículo deveria ter sido escrito assim: "Eu desejo falar em uma língua, de modo que a Igreja possa compreender-me, do que em dez ou vinte línguas as quais a Igreja não compreende". Mas o apóstolo não diz isso. Ele não fala de muitas línguas em oposição a uma, mas de cinco sons ou palavras contra dez mil palavras. Disto segue-se que o "falar em línguas" (idiomas ou sons) de Paulo, "mais do que todos vós", deve referir-se ao milagre dos sons.

Pois embora seja argumentado muito naturalmente que no Pentecostes os apóstolos falaram em Árabe, em Hebreu e no idioma dos Partos, além de muitas outras, todavia a o que se apelou não é um fato provado. Certamente aprendemos do capítulo 2 de Atos dos Apóstolos que estes Partos, Elamitas e etc., tiveram a impressão de que se lhes falava a cada um no seu próprio idioma; todavia a própria narrativa prova justo o contrário. Que se ponha à prova, então. Que quinze homens (o número de línguas mencionado em Atos 2) falem juntos e ao mesmo tempo em quinze idiomas diferentes, e o resultado não será que cada um ouvirá o seu próprio idioma, mas que ninguém poderá ouvir nada. Mas a narrativa em Atos 2 é totalmente explicada no que os apóstolos falavam sons ininteligíveis aos Partos, Medos, Cretenses e etc., porque eles compreendiam-nos, tendo a impressão de que aqueles sons eram de acordo com as suas próprias línguas nativas. Como uma criança Holandesa, vendo um problema desenvolvido no quadro negro por uma criança Inglesa ou Alemã, tem naturalmente a impressão de que foi feito por uma criança Holandesa, simplesmente porque figuras são símbolos que não são afetados pela diferença de idiomas; assim o Elamita deve ter tido a impressão de que ouvia o seu idioma e o Egípcio que a ele lhe era dirigida a palavra no seu idioma, quando por um milagre eles ouviram os sons emitidos no Pentecostes, sons os quais, independentemente das diferenças de idiomas, foram inteligíveis ao homem como homem.

Não devemos nos esquecer que o falar nada mais é que produzir impressões na alma do ouvinte através de vibrações no ar. Mas se as mesmas impressões puderem ser produzidas sem o auxílio de vibrações no ar, o efeito sobre o ouvinte deve ser o mesmo. Tente a experiência sobre o olho. A imagem de estrelas cintilantes ou figuras que se dissolvem excita a retina. O mesmo efeito pode ser produzido ao esfregar o dedo no olho, quando reclinado num sofá num ambiente escuro. E isto aplica-se no nosso caso. As vibrações no ar não são a coisa principal, mas a emoção produzida na mente, pelo falar. O homem da Panfília, acostumado a receber impressões na sua língua nativa, e recebendo a mesma impressão de uma outra forma, deve ter pensado de que lhe era dirigida a palavra no idioma da Panfília.

Em terceiro lugar - De acordo com a interessante informação de Paulo, o milagre de línguas consistiu nisso, de que os órgãos vocais produziram sons não por um operar da mente, mas através de uma operação do Espírito Santo sobre aqueles órgãos.

Lucas escreve: "...e começaram a falar noutras línguas, conforme o Espírito lhes concedia que falassem"[Atos 2:4]; e Paulo prova exaustivamente que a pessoa falando em línguas falava não com o seu entendimento, i.e. como um resultado do seu próprio raciocínio, mas em conseqüência de uma operação completamente diferente. Que isto é possível, o vemos, primeiro, em pessoas que, delirando, falam coisas fora do seu próprio raciocínio pessoal; segundo, nos insanos, cuja conversa incoerente não tem nenhum sentido; terceiro, em pessoas possuídas, cujos órgãos vocais são usados por demônios; quarto, em Balaão, cujos órgãos vocais proferiram palavras de bênção sobre Israel contra a sua vontade (N.T. referência: Deuteronômio 23:4, 5).

Assim é que deve ser concedido que no homem três coisas são possíveis:

Primeira, que por um tempo ele pode ficar privado do uso dos seus órgãos vocais.
Segunda, que o uso destes órgãos vocais pode ser apropriado por um espírito que o tome.
Terceira, que o Espírito Santo, apropriando-se dos seus órgãos vocais, pode produzir sons dos seus lábios, sons que são "novos" e "outros" que não o idioma, a língua que ele fala normalmente.

Em quarto lugar - Em Grego, estes sons são invariavelmente designados pela palavra 'glootai', i.e. línguas, portanto idioma. No mundo Grego, do qual este vocábulo é tirado, a palavra 'glotta' sempre está em forte oposição à palavra 'logos', razão.

O pensamento do homem é o processo oculto, invisível, imperceptível da sua mente. A idéia tem alma, mas não corpo. Mas quando o pensamento se manifesta e adota um corpo, então existe uma palavra. E a língua, sendo o órgão móvel da fala, já foi dito que a língua dá um corpo à idéia. Daí o contraste entre o 'logos', i.e. aquilo que o homem pensa com a mente, e a 'glotta', i.e. aquilo que ele pronuncia com os órgãos vocais.

Normalmente a 'glotta' vem somente através e após o 'logos'. Mas no milagre das línguas descobrimos o fenômeno extraordinário que enquanto o 'logos' permanecia inativo, a 'glotta' pronunciava sons. E desde que o que ocorreu foi um fenômeno de sons que procediam não da mente pensante, mas da língua, o Espírito Santo o chama muito apropriadamente de um dom do 'glottai', i.e. um dom de língua ou fenômeno sonoro.

Por último - Em resposta à questão, Como isto deve ser entendido?, oferecemos a seguinte representação: A fala no ser humano é o resultado do seu pensamento; e este pensamento numa condição sem pecado é o refulgir do Espírito Santo. A fala num estado de sem pecado é portanto o resultado de inspiração, inspirar do Espírito Santo.

Portanto, o idioma do homem num estado sem pecado teria sido o produto puro e perfeito de uma operação do Espírito Santo. Ele é o criador da língua humana; e sem a injúria e influência degradante do pecado, a conexão entre o Espírito Santo e o nosso falar teria sido completa. Mas o pecado quebrou esta conexão. A linguagem humana está comprometida: comprometida pelo enfraquecimento dos órgãos da fala; pela separação de tribos e nações; pelas paixões da alma; pelo obscurecimento da compreensão; e principalmente pela mentira que adentrou. Daí aquela distância infinita entre esta linguagem humana pura e genuína a qual, como resultado da operação direta do Espírito Santo na mente humana deveria manifestar-se; e as linguagens empiricamente existentes que agora separam as nações - uma diferença similar àquela entre o Adão glorioso e o Hotentote deformado. {N.T.: Hotentote: quaisquer dos grupos de idiomas "Khoikhoinianos" [fonte: "The American Heritage® Dictionary of the English Language, Fourth Edition. Copyright © 2000"]. Khoikhoinianos: povos da África do Sul, encontrados pelos primeiros exploradores Europeus nas áreas mais remotas do interior do país; e que agora vivem ou em assentamentos Europeus ou em reservas oficiais na África do Sul ou na Namíbia. O nome "Khoikhoinianos" (significando "homens de homens") é o nome pelo qual eles referem-se a si mesmos; enquanto que a expressão "Hotentote" é o termo adotado pelos exploradores Holandeses (mais tarde Bôeres)..[fonte: www.britannica.com)}.

Mas a diferença não deverá perdurar. O pecado desaparecerá. O que foi por ele destruído será restaurado. No dia do Senhor, quando das bodas do Cordeiro, todos os redimidos entenderão uns aos outros. De que forma? Pela restauração da linguagem pura e original sobre os lábios dos redimidos, a qual nasce da operação do Espírito Santo na mente humana. E daquele evento tão grandioso, ainda porvir, o milagre do Pentecostes é o germe e o começo; assim é que tal milagre teve suas marcas distintivas: No meio da babel das nações, no dia do Pentecostes, foi revelada a única língua, o único idioma humano, cristalino e poderoso, o qual todos um dia falarão, e todos irmãos e irmãs, de todas as línguas e nações compreenderão.

E isto foi operado pelo Espírito Santo. Eles falaram conforme o Espírito Santo lhes dava a fala. Eles falaram uma linguagem celeste para louvar a Deus-não uma linguagem de anjos, mas uma linguagem, um idioma acima da influência do pecado.

Assim é que a compreensão desta linguagem, deste idioma também foi uma obra do Espírito Santo. Em Jerusalém, somente aqueles nos quais houve um operar especial do Espírito Santo é que compreenderam. Os outros não entendiam nada. E em Corinto, a linguagem não foi compreendida pelas massas, mas somente por aquele a quem foi dado do Espírito Santo.

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(¹). N.T.: a passagem Bíblica citada pelo autor refere-se, no contexto, a quando Jesus Cristo foi até Betânia, por ocasião da morte de Lázaro. A frase "E mesmo agora sei que tudo quanto pedires a Deus, Deus to concederá" foi pronunciada por Marta, quando encontrou-se com Jesus. Como a presente tradução seja do Inglês para o Português, não foi possível o acesso à obra original (a fim de comprovar se houve algum tipo de erro quando da primeira tradução, do Holandês para o Inglês). A nossa opinião é que, uma vez que a passagem apresentada (João 11:22) não corrobora o enunciado no texto (i.e. o aspecto da doação do Espírito Santo aos apóstolos através dos dons oficiais que os qualificava para o ofício apostólico), quiçá a passagem à qual o autor se referisse fosse João 20:21-22 ("Disse-lhe, pois, Jesus outra vez: Paz seja convosco! Assim como o Pai me enviou, Eu também vos envio. E, havendo dito isto, soprou sobre eles e disse-lhes: Recebei o Espírito Santo")

(²). O autor refere-se ou a pessoas batizadas na infância, instruídas pelos ministros da Palavra nas doutrinas da Igreja e em idade apropriada recebidas na Igreja na confissão da sua fé; ou a pessoas não recebidas na Igreja desta forma, e então no sentido de que a Holanda é uma nação batizada.

 


Tradução livre: Eli Daniel da Silva
Belo Horizonte-MG, 11 de Março de 2003.