A Obra do Espírito Santo

por

Abraham Kuyper, D.D., LL.D

 

VOLUME UM

A Obra do Espírito Santo na Igreja como um Todo

Capítulo Nono - As Sagradas Escrituras no Novo Testamento

 

 


XXXIII As Sagradas Escrituras No Novo Testamento


"Estes, porém, foram escritos para que creiais que Jesus é o Cristo, o Filho de Deus, e para que, crendo, tenhais vida em seu nome" - João 20:31

Após considerarmos o apostolado, discutiremos agora o dom de Deus para a Igreja, ou seja, a Escritura do Novo Testamento.

O apostolado colocou na Igreja um novo poder.

Certamente que todo o poder está no céu; mas aprouve a Deus permitir a descida deste poder na Igreja por intermédio de órgãos e instrumentos, o mais importante dentre os quais é o apostolado. Este órgão foi uma consolação do Confortador, dada à Igreja após Jesus haver ascendido ao céu e foi provisionalmente não para governar a Sua Igreja pessoalmente. Portanto foi uma Igreja deserta, ainda não plantada, e que logo seria dispersa, à qual o Espírito Santo deu o apostolado como uma forma de união, como um mecanismo para sua auto-extensão, e como um instrumento para o seu próprio enriquecimento com o conhecimento completo da elevação da graça. Comissionados pelo Rei da Igreja, os apóstolos foram vivificados pelo Espírito Santo. Como o Rei opera pela Sua Igreja somente através do Espírito, assim também ele proveu para o apostolado operar também através dos elevados poderes do Espírito Santo.

Não era intenção do Senhor que a Sua Igreja devesse começar em ignorância, perambulando em múltiplos erros, e que finalmente a longa jornada terminasse, chegando a uma percepção mais clara da verdade; mas que desde o começo ela devesse encontrar-se na luz do completo conhecimento. Assim é que Ele deu a ela o apostolado, para que desde o berço da sua existência ela recebesse o brilho completo da graça, e que nenhum desenvolvimento subsequente da Cristandade devesse jamais sobrepujar aquele dos apóstolos.

Este é um fato muito significativo.

Realmente, há desenvolvimento no curso da história, especialmente em doutrina, o qual ainda não cessou, e o qual continuará até o fim. O Rei colocou a Sua Igreja no meio da batalha e de problemas; Ele não permitiu que ela confessasse o Seu nome de uma forma degradante e indolente, mas era após era, Ele a tem compelido a defender aquela confissão contra o erro, contra a má interpretação e contra a hostilidade. É somente nesta batalha que ela tem gradualmente aprendido a exibir cada parte da sua gloriosa herança da verdade. Deus julgará os hereges; mas, apesar de muitos danos, eles afinal prestaram à Igreja este serviço excelente, de compeli-la a despertar do sono que desfrutava nas suas minas de ouro, de explorá-las, e abrir o tesouro que estava escondido.

Por isso a nossa compreensão consciente da verdade é mais profunda do que a dos séculos anteriores. Sempre excelsa! Cada vez mais alta! A busca das coisas santas nunca cessará; mesmo agora que o Senhor cumpre a sua promessa a cada teólogo verdadeiro: "Pedí, e dar-se-vos-á; buscai, e achareis..."[Mateus 7:7]. E no desenvolvimento da consciência da Igreja com relação ao seu tesouro da verdade, o Espírito Santo tem uma obra especial, e aquele que nega isso petrifica a Igreja e está cego para a palavra do Senhor.

Todavia, conquanto seja grandioso o progresso presente e futuro da Igreja, ela nunca possuirá um grão da verdade a mais do que quando cessou o apostolado. O veio de ouro pode agora ser explorado, mas quando morreram todos os apóstolos a própria mina já existia. Nada pode a ela ser acrescentado nem nunca o será; pois ela é completa em si mesma. Por esta razão os grandes homens de Deus, no transcorrer das eras, animaram a Igreja com palavras ousadas, sempre apontaram para trás, para os tesouros dos apóstolos, e sem exceção disseram às igrejas: "O seu tesouro não encontra-se antes de vocês, mas atrás de vocês, e data dos dias dos apóstolos".

E nisto houve misericórdia; qualquer outra disposição não o teria sido. O povo de um ou de dezoito séculos passados tinha as mesmas necessidades espirituais que temos hoje; nada menos do que temos poderia ter-lhes sido satisfatório. Suas feridas são as nossas; o bálsamo de Gileade que nos curou, curou também a eles. Consequentemente, o remédio para almas deve estar pronto para uso imediato. Qualquer demora seria cruel. Assim, não é nem estranho e problemático, mas perfeitamente de acordo com a misericórdia de Deus, que todo o tesouro da verdade salvadora fosse dado à Igreja diretamente no primeiro século.

A missão do apostolado foi alcançar isto. É como a ciência médica neste respeito, a qual progride constantemente no conhecimento de ervas. Mas conquanto grande seja tal progresso, nenhuma nova erva foi produzida. Aquelas que hoje existem, sempre existiram, e sempre tiveram as mesmas propriedades medicinais. A única diferença é que agora sabemos melhor como aplicá-las, do que sabiam nossos ancestrais. De igual forma, desde os dias do apostolado nenhum novo remédio para a cura de almas foi criado ou inventado. De fato, alguns dos poderes então utilizados agora nos são perdidos, e.g., o carisma de línguas. Toda a diferença entre a Igreja daquela época e a de agora é que nós, de acordo com a presente era de pensamentos e de emoções, compreendemos mais profundamente a conexão entre o efeito do remédio e a cura das nossas feridas.

Esta diferença não nos faz mais ricos ou mais pobres. Para o ignorante, é suficiente receber o remédio prescrito, embora ele conheça os ingredientes e efeitos colaterais. No seu mundo esta necessidade não existe. Mas o homem pensador, compreendendo a relação entre causa e efeito, não tem confiança em nenhum medicamento a não ser que ele saiba algo acerca de como funciona. Para ele, este conhecimento é uma necessidade positiva, e para o efeito psicológico é mesmo indispensável.

Tal é igualmente verdadeiro quanto à Igreja de Cristo, ela não tem sido a mesma, nem as suas necessidades o têm sido. O desenvolvimento do nosso conhecimento tem sido tal que cada era tem recebido uma compreensão adaptada para satisfazer as suas necessidades. Mais do que isto: a própria agitação, o próprio ardor da era tem modificado a necessidade, e tem sido uso de Deus dar um entendimento mas claro da verdade.

E todavia, qualquer que seja o aumento da clareza e da maturidade do conhecimento com relação ao oculto do Senhor durante as épocas, o próprio oculto tem permanecido o mesmo. Nada foi acrescentado a ele. E o mistério do apostolado é que, pelos labores dos seus membros, o oculto do Senhor foi feito conhecido à Igreja, sob a autoridade infalível do divino Inspirador, o Espírito Santo.

Este é o grandioso fato alcançado pelo apostolado: a publicação de todo o oculto do Senhor, através da qual a revelação no Antigo Testamento, a João Batista e a Cristo foi aumentada e trabalhada. Pois completar algo significa acrescentar o que antes lhe faltava; após o que nada mais lhe pode ser acrescentado. E este é o segundo ponto, que enfatizamos.

Através dos apóstolos, a Igreja recebeu algo não possuído por Israel nem mencionado por Cristo. Pois Cristo Ele mesmo declara: "Ainda tenho muito que vos dizer; mas vós não o podeis suportar agora. Quando vier, porém, aquele, o Espírito da verdade, ele vos guiará a toda a verdade; porque não falará por si mesmo, mas dirá o que tiver ouvido, e vos anunciará as coisas vindouras. Ele me glorificará, porque receberá do que é meu, e vo-lo anunciará"[João 16:12 - 14]. São Paulo falou não menos claramente, ao escrever: "...a revelação do mistério guardado em silêncio desde os tempos eternos, mas agora manifesto e, por meio das Escrituras proféticas, segundo o mandamento do Deus, eterno, dado a conhecer a todas as nações..."[Romanos 16:25, 26]. E novamente: "E demonstrar a todos qual seja a dispensação do mistério, que desde os séculos esteve oculto em Deus, que tudo criou por meio de Jesus Cristo "[Efésios 3:9] e também: "...mistério de Cristo, O qual noutros séculos não foi manifestado aos filhos dos homens, como agora tem sido revelado pelo Espírito aos seus santos apóstolos e profetas"[Efésios 3:4, 5]. Finalmente, São João declara que os apóstolos testificam do que eles viram com seus próprios olhos, e suas mãos tocaram o Verbo da Vida, o qual estava com o Pai, e o qual é manifesto (I João 1:1,2).

Embora nós não neguemos que o germe do conhecimento salvador foi dado no Paraíso, aos Patriarcas, e a Israel; todavia a Bíblia ensina distintamente que a verdade foi revelada aos Patriarcas, desconhecida no Paraíso; à Israel, da qual os Patriarcas eram ignorantes; e por Jesus, verdade que era oculta a Israel. De maneira similar, a verdade não declarada por Jesus foi revelada à Igreja pelos santos apóstolos.

Objeções, no entanto, são levantadas contra esta declaração: muitos escritores não crentes deste século têm com freqüência afirmado que não Jesus, mas sim Paulo foi o verdadeiro fundador do Cristianismo, enquanto que outros freqüentemente nos exortam a abandonar a teologia ortodoxa de São Paulo, e retornar aos ensinamentos simples de Jesus; especialmente ao Seu Sermão na Montanha.

E realmente, quanto mais a Bíblia for estudada, mais óbvia parecerá a diferença entre o Sermão na Montanha e a Epístola aos Romanos. Não como se houvesse contradição entre eles, mas nesta forma, de que a última contém elementos da verdade, novos raios de luz, não encontrados no primeiro.

Se alguém se posicionar com objeção às doutrinas dos apóstolos, como o faz a Escola de Groninger, é natural colocar-se os Evangelhos acima das epístolas. Daí o fato de muitos 'meio crentes' ainda aceitarem as Parábolas e o Sermão na Montanha, mas rejeitarem a doutrina da justificação, como ensinada por São Paulo; enquanto que aqueles que desejam romper inteiramente com o Cristianismo inclinam-se a considerar as epístolas Paulinas como o seu real exponente, mas somente para rejeitá-las com todo o Cristianismo Paulino. Para a Igreja do Deus vivo, a qual aceita a ambos, existe nessa tendência profana uma exortação a ter um olho aberto para a diferença entre os Evangelhos e as epístolas, e reconhecer que os nossos oponentes estão certos quando eles a apontam como uma diferença marcante.

Ainda assim, quando nossos oponentes usam a diferença para atacar seja a autoridade da doutrina apostólica ou a própria Cristandade, a Igreja confessa que não há nada de surpreendente nesta diferença. Ambas são partes da mesma doutrina de Jesus, com esta distinção, de que a primeira parte foi revelada diretamente por Cristo, enquanto que a outra Ele a deu à Sua Igreja indiretamente, através dos apóstolos.

É claro, tanto quanto os apóstolos são considerados como pessoas independentes, ensinando uma nova doutrina com a sua própria autoridade, a nossa solução não resolve a dificuldade. Mas confessar que eles são apóstolos santos, i.e. instrumentos do Espírito Santo através de quem o Próprio Jesus do céu ensinou ao Seu povo, então cada objeção é satisfeita, e não há nem mesmo uma sombra de conflito.

Pois Jesus simplesmente agiu como um pai terreal o faz na educação dos seus filhos, ensinando-os de conformidade com a compreensão deles; e no caso da sua morte, sua tarefa ainda por terminar, ele deixa-lhes instruções por escrito, para serem abertas após a sua partida. Mas Jesus morreu para ressurgir, e mesmo após a Sua Ascensão Ele continuou a viver em contato com a Sua Igreja, através do apostolado. E o que escreveríamos antes da nossa morte, Jesus fez com que fosse escrito pelos Seus apóstolos sob a direção especial do Espírito Santo. Assim as Escrituras do Novo Testamento originam - um Novo Testamento num sentido agora facilmente compreensível.

A exatidão desta representação é provada pelas próprias palavras de Cristo, as quais nos ensinam -

Primeiro, que houveram coisas declaradas aos apóstolos antes da Sua partida, e que houveram coisas não declaradas a eles, porque eles não poderiam suportá-las então.

Segundo, que Jesus declararia aquelas últimas, também, mas através do Espírito Santo.

Terceiro, que o Espírito Santo revelaria estas coisas aos apóstolos, não separadamente de Jesus, mas recebendo-as de Cristo e declarando-as a eles.


XXXIV A Necessidade da Escritura Néo Testamentária.


"Porque eu testifico a todo aquele que ouvir as palavras da profecia deste livro que, se alguém lhes acrescentar alguma coisa, Deus fará vir sobre ele as pragas que estão escritas neste livro" - Apocalipse 22:18

Se após a Ascensão de Cristo, o destino da Igreja tivesse sido o de viver somente uma vida, e tivesse sido confinada à terra dos Judeus, os santos apóstolos poderiam haver completado a sua tarefa através do ensinamento verbal. Mas desde que o seu destino era o de viver por no mínimo dezoito séculos, e de se estender por todo o mundo, os apóstolos foram compelidos a utilizar-se da comunicação escrita da revelação a qual eles haviam recebido.

Se eles não tivessem escrito, as igrejas da África e da Gália não poderiam ter recebido informação digna de confiança; e a tradição teria perdido sua característica confiável há tempos. A revelação escrita tem, portanto, sido um meio indispensável através do qual a Igreja, durante sua longa e super estendida carreira, tem sido preservada da degeneração e falsificação completas.

No entanto, a partir das suas epístolas, não parece que os apóstolos compreendiam isto de forma clara. Certamente eles não esperavam que a Igreja perduraria neste mundo por dezoito séculos; e quase que todas as suas epístolas têm uma característica local, como se não intencionadas para a Igreja em geral, mas somente para igrejas em particular. E ainda assim, embora eles não o compreendessem, o Senhor Jesus o sabia; Ele tinha assim planejado, de forma que as epístolas escritas exclusivamente para a igreja de Roma foi por Ele intencionada e ordenada, e sem o conhecimento de Paulo, para edificar a Igreja de todas as épocas.

Assim é que duas coisas tinham de ser feitas para a Igreja do futuro:
Primeira, a imagem de Cristo deve ser recebida dos lábios dos apóstolos e ser transmitida por escrito.

Segunda, as coisas das quais Jesus tinha dito, "Ainda tenho muito que vos dizer; mas vós não o podeis suportar agora. Quando vier, porém, aquele, o Espírito da verdade, ele vos guiará a toda a verdade; porque não falará por si mesmo, mas dirá o que tiver ouvido, e vos anunciará as coisas vindouras"[João 16:12, 13] devem ser gravadas. Isto é o postulado de toda a matéria. A condição das igrejas, a sua longa duração no futuro, e a sua extensão no mundo, assim o demandaram.

E os fatos mostram que a provisão foi feita; mas não imediatamente. Tanto quanto a Igreja esteve confinada a um círculo pequeno, e a memória de Cristo era vívida e poderosa, a palavra falada pelos apóstolos foi suficiente. O decreto do Sínodo de Jerusalém foi provavelmente o primeiro documento escrito que deles procedeu. Mas quando as igrejas começaram a estender-se através do mar até Corinto e Roma, e ao norte, até Éfeso e Galácia, então Paulo passou a substituir a palavra verbal por instruções escritas. Este trabalho epistolar foi gradualmente se estendendo, e o exemplo de Paulo seguido. Talvez cada um tenha escrito em turnos. E as estas epístolas foram acrescentadas as narrativas da vida, da morte e da Ressurreição de Cristo e os Atos dos Apóstolos. Por fim, o Rei comandou a João, desde o céu, a escrever num livro a revelação extraordinária dada a ele em Patmos.

O resultado foi um crescimento gradual do número de escritos apostólicos e não apostólicos, provavelmente excedendo em muito aquilo contido no Novo Testamento. Pelo menos as epístolas de Paulo mostram que ele escreveu muitas mais do que agora possuímos. Mas mesmo que ele não nos tivesse informado disso, o fato teria sido suficientemente bem estabelecido; pois é improvável que excelentes escritores tais como Paulo e João não tivessem escrito mais que uma dúzia de cartas durante as suas longas e agitadas vidas. Eles devem ter escrito mais do que aquele número, somente num ano. A controvérsia de tempos passados, sobre a asserção de que nenhum escrito apostólico poderia ter sido perdido era a mais tola, e mostrava pouca consideração com a vida real.

É notável que desta grande massa, um número pequeno de escritos foi gradualmente separado. Uns poucos foram coletados primeiro, então mais foram acrescentados, e arranjados em determinada ordem. Demorou muito antes que houvesse uma uniformidade e um acordo; de fato, alguns dos escritos não foram reconhecidos universalmente até depois de três séculos. Mas apesar do tempo e da controvérsia, a classificação aconteceu, e o resultado foi que a Igreja distinguiu nesta grande massa de literatura duas partes distintas: de um lado, esta coleção arranjada de vinte e sete livros; e de outro, os escritos remanescentes de origem anterior.

E quando o processo de classificação e separação terminou, e o Espírito Santo tinha levantado testemunhas, nas igrejas, de que este conjunto de escritos constituíam um inteiro, e era, de fato, o Testamento do Senhor Jesus à Sua Igreja, então a Igreja se tornou consciente de que possuir uma segunda coleção de livros sagrados, de autoridade igual à primeira coleção dada a Israel; então o Antigo e o Novo Testamentos foram colocados juntos, os quais unidos formam as Sagradas Escrituras, a nossa Bíblia, a Palavra de Deus.

À questão, Como originou-se a Escritura Néo Testamentária? Nós respondemos sem hesitação, Pelo Espírito Santo.

Como? Ele ordenou a Paulo ou a João: "Sente-se e escreva" ?

Os evangelhos e as epístolas não nos impressionam. Isto sem dúvida aplica-se à Revelação de São João, mas não às demais Escrituras do Néo Testamentárias. Elas antes nos impressionam por haverem sido escritas sem a menor idéia de serem intencionadas para a Igreja em todas as épocas. Os seus autores nos impressionam como havendo escrito para certas igrejas da sua época própria e definida, e que depois de cem anos, talvez nem mesmo um único fragmento dos seus escritos existiria. Eles realmente tinham consciência da ajuda do Espírito Santo no escrever a verdade mesmo na forma que lhes agradava falar; mas que estavam escrevendo partes da Escritura Sagrada, eles certamente não o sabiam.

Quando São Paulo terminou a sua Epístola aos Romanos, nunca lhe ocorreu que, em tempos futuros, a sua carta possuiria, para milhões de filhos de Deus, uma autoridade igual a, ou mesmo maior que aquela das profecias de Isaías ou dos Salmos de Davi. Nem poderiam, os primeiros leitores desta epístola, na igreja de Roma, ter imaginado que depois de dezoito séculos (vinte e um - N.T.) os nomes dos seus principais homens ainda seriam palavras familiares em todas as partes do mundo Cristão.

Mas se São Paulo não o sabia, certamente que o Espírito Santo sabia. Como através da educação o Senhor freqüentemente prepara uma virgem para o seu, ainda desconhecido, futuro marido, assim também o Espírito Santo preparou Paulo, João e Pedro para o seu trabalho. Ele direcionou as suas vidas, circunstâncias e condições; Ele fez com que pensamentos tais, meditações e mesmo palavras aparecessem nos seus corações, tanto quanto exigido era para o escrever das Escrituras do Novo Testamento. E enquanto eles escreviam estas porções da Escritura Sagrada, que um dia tornar-se-ia o tesouro da Igreja universal em todas as épocas, um fato não compreendido por eles, mas sim pelo Espírito Santo, Ele então direcionava os seus pensamentos para guardá-los de erros, e guiá-los em toda a verdade. Ele previu como a Escritura do Novo Testamento deveria seria quando completa, e que partes a ela pertenceriam. Como um arquiteto, através do serviço dos seus montadores, prepara as diversas partes do seu prédio, para depois serem colocadas e encaixadas nos seus respectivos lugares, assim fez o Espírito Santo, através dos serviços de diferentes trabalhadores, preparou as diferentes partes do Novo Testamento, as quais mais tarde ele uniu num todo.

Pois o Senhor, quem pelo Seu Espírito Santo fez com que houvesse a preparação dessas partes, também é o Rei da Igreja; ele viu estas partes dispersas; Ele guiou homens para cuidarem delas, e crentes para terem fé nelas. E, finalmente, através de homens interessados, Ele ajuntou esses fragmentos dispersos, de modo que gradualmente, de acordo com o Seu decreto real, se originasse o Novo Testamento.

Assim é que não foi necessário que a Escritura Néo Testamentária devesse conter somente escritos apostólicos. Marcos e Lucas não eram apóstolos; e a noção de que esses homens devem ter escrito sob a direção de Paulo ou de Pedro não tem nem prova nem força. O que é a vantagem de escrever sob a direção de um apóstolo? O que dá autoridade divina aos escritos de Lucas não é a influência de um apóstolo, mas que ele escreveu sob a inspiração absoluta do Espírito Santo.

Crendo na autoridade do Novo Testamento; nós devemos reconhecer a autoridade dos quatro evangelistas como sendo perfeitamente igual. Quanto aos conteúdos, o evangelho de Mateus pode sobrepujar o de Lucas, e o de João pode exceder ao de Marcos; mas a autoridade dos quatro é igualmente inquestionável. A Epístola aos Romanos tem um valor mais alto do que aquela a Filemon; mas a autoridade de ambas é a mesma. Quanto às suas pessoas, João situava-se acima de Marcos, e Paulo acima de Judas; mas uma vez que não dependemos da autoridade das suas pessoas, mas somente da autoridade do Espírito Santo, estas diferenças pessoais não são de interesse.

Assim é que a questão não é se os escritores do Novo Testamento eram apóstolos, mas se eles foram inspirados pelo Espírito Santo.

Seguramente aprouve ao Rei conectar o Seu testemunho com o apostolado; pois Ele disse: "Vós sois testemunhas..."[Lucas 24:48]. Por conseguinte sabemos que Lucas e Marcos obtiveram suas informações com relação a Cristo dos apóstolos; mas a nossa garantia da acuracidade e confiabilidade das suas declarações não é a origem apostólica das mesmas, mas a autoridade do Espírito Santo. Portanto os apóstolos são os canais através dos quais o conhecimento dessas verdades fluem de Cristo até nós; mas se este conhecimento nos alcança através dos seus escritos ou através dos escritos de outros, não faz nenhuma diferença. A questão vital é, se os portadores da tradição apostólica foram infalivelmente inspirados ou não.

Mesmo que um escrito fosse endossado pelos doze, isto não constituiria uma prova positiva da sua credibilidade ou autoridade divina. Pois embora eles tivessem a promessa de que o Espírito Santo os guiaria em toda a verdade, isto não exclui a possibilidade de eles incorrerem em erros ou mesmo em não verdades. A promessa não implicava em infalibilidade absoluta, em todos os tempos, mas meramente quando eles agissem como as testemunhas de Jesus. Assim é que a informação de que um documento procede da mão de um apóstolo é insuficiente. Requer-se a informação adicional de que tal documento pertence às coisas as quais o apóstolo escreveu enquanto era uma testemunha de Jesus.

Se, portanto, a autoridade divina de qualquer escrito não depende da sua característica apostólica, mas somente da autoridade do Espírito Santo, segue-se, como ponto pacífico, que o Espírito Santo-é inteiramente livre para ter o testemunho apostólico gravado pelos próprios apóstolos, ou por qualquer outra pessoa; em ambos casos a autoridade desses escritos é exatamente a mesma. Preferências pessoais estão fora de questão. Tanto quanto diz-se respeito à forma, conteúdo, riqueza e atrativos, podemos distinguir entre João e Marcos, Paulo e Judas. Mas quando toca-se no ponto da autoridade divina ante a qual devemos nos curvar, então, nós não mais levamos em consideração tais distinções, e somente perguntamos: Este ou aquele evangelho é inspirado pelo Espírito Santo?


XXXV. A Característica da Escritura Néo Testamentária


"Estas coisas vos escrevemos, para que o vosso gozo se cumpra" - I João 1:4

A partir dos dois artigos precedentes, é evidente que não foi intenção que a Escritura Néo Testamentária ter a característica de um documento notarial. Se tivesse sido esta a intenção do Senhor, nós deveríamos haver recebido algo inteiramente diferente. Teria sido necessário uma evidência legal em dois aspectos:

Em primeiro lugar, a prova de que os eventos narrados no Novo Testamento realmente aconteceram como relatados.

Em segundo, que as revelações recebidas pelos apóstolos estão corretamente comunicadas.

Ambas certificações deveriam ser fornecidas por testemunhas, e.g., para provar o milagre da alimentação dos cinco mil seria requerido:

1. Uma declaração de um número de pessoas, atestando que eles foram testemunhas oculares do milagre.

2. Uma declaração autêntica dos magistrados dos povoados vizinhos, certificando as suas assinaturas.

3. Uma declaração de pessoas competentes para provar que estas testemunhas eram conhecidas como pessoas honestas e confiáveis, desinteressadas e competentes para julgar. Ademais, seria necessário provar por um testemunho apropriado que, entre os cinco mil, havia somente sete pães e dois peixes.

4. Que o aumento do pão teve lugar enquanto Jesus o partia.
Na presença de uma quantidade de tais documentos, cada um devidamente autenticado e selado, pessoas não muito céticas podem achar que é possível crer que o evento ocorreu como narrado no Evangelho.

Para provar este único milagre exigir-se-ia um número de documentos tão volumoso quanto o evangelho inteiro de São Mateus. Se fosse possível assim provar todos os eventos documentados nos evangelhos e nos Atos dos Apóstolos, então a credibilidade dessas narrativas seria estabelecida apropriadamente.

E mesmo isto estaria longe de ser satisfatório. Pois a dificuldade ainda persistiria, para provar que as epístolas contém comunicações corretas das revelações recebidas pelos apóstolos. Tal prova seria impossível. Seriam exigidos testemunhos oculares e auditivos dessas revelações; e um número de estenógrafos para gravá-las. E se isso fosse possível, então, concedemos, teria havido, se não a certeza matemática para cada expressão, todavia terreno suficiente para a aceitação do teor geral das epístolas.

Mas quando os apóstolos escreveram-nas, não havia voz audível. E quando uma voz era ouvida, ela não podia ser compreendida, como na revelação a Paulo no caminho para Damasco. O mesmo pode ser dito quanto ao que ocorreu em Patmos: São João realmente ouviu uma voz, mas o ouvir e o compreender as palavras que são por essa voz proferidas requer uma operação espiritual peculiar, a qual faltava ao povo que se encontrava na ilha, ao mesmo tempo.

O fato é, que a revelação do Espírito Santo proporcionada aos apóstolos foi de natureza tal que não podia ser percebida por outros. Por conseguinte, a impossibilidade de provar a sua genuinidade através de evidência notarial. Aquele que insiste nisso deve saber que a Igreja não pode apresentá-la, seja para as narrativas históricas dos evangelhos, ou para os conteúdos espirituais das epístolas.

Fica então evidente que cada esforço para provar a verdade dos conteúdos do Novo Testamento através de evidência externa somente condena-se a si mesmo, e deve resultar na absoluta rejeição da autoridade da Sagrada Escritura. Se um juiz da atualidade devesse condenar alguém ou absolver um acusado com base em uma evidência insignificante, a qual satisfaz muita gente honesta com referência à Escritura, que tempestade de indignação seria suscitada! A lista completa das assim chamadas evidências quanto à credibilidade dos escritores do Novo Testamento, que eles eram competentes para julgar, dispostos a testemunhar, desinteressados e etc., na realidade não prova nada.

Tais superficialidades podem ser suficientes quando referem-se a eventos corriqueiros, dos quais alguém pode ser: "Eu creio que foi realmente o que aconteceu; eu não tenho razão alguma para duvidar; mas se amanhã for provado o contrário, eu não perco nada com isso". Mas como tais métodos superficiais podem ser aplicados quando refere-se aos eventos extraordinários relatados pela Escritura Sagrada, sobre a certeza positiva da qual dependem os interesses mais elevados meus e dos meus filhos; de forma que, se provados não serem verdades, e.g. o relato da ressurreição de Cristo, nós devêssemos sofrer a irreparável e inestimável perda de uma salvação eterna?

Isto não pode ser; é absolutamente inimaginável. E a experiência prova que os esforços de pessoas tolas para escorar a sua fé com tais provas sempre terminou com a perda de toda a fé. Não, tal tipo de prova é, pela sua própria insignificância, ou indigna de ser mencionada com referência a assuntos tão sérios, ou, se valer alguma coisa, não pode ao menos ser apresentada, nem o deve ser.

Prova matemática ou notarial não pode nem deve ser apresentada, porque a característica e natureza dos conteúdos das Escrituras repelem ou são inconsistentes com tal demonstração.

Nenhum homem pode demandar prova legal para o fato de que o homem a quem ele ama e honra como pai é verdadeiramente seu pai; Deus fez tal forma impossível pela própria natureza do caso. A delicadeza que enobrece toda a vida familiar elimina a própria aparição de investigação tal; e, se fosse possível, o filho, suprido com tal prova, teria ipso facto perdido seu pai e sua mãe; eles não mais seriam seus pais; e sob a pilha de evidências, a sua infância estaria enterrada.

O mesmo princípio aplica-se à Escritura Sagrada. A natureza e o caráter da revelação tem sido de tal forma ordenado que não permite nenhuma demonstração notarial. A revelação aos apóstolos é impensável, se outras pessoas pudessem tê-la ouvido, gravado e publicado como foi por eles feito. Tratou-se de uma operação de energias santas; não intencionada a compelir duvidosos na direção de uma mera fé exterior, mas simplesmente para alcançar aquilo pelo qual Deus havia enviado, sem preocupar-se muito com a contradição dos céticos. Refere-se a uma obra de Deus a qual nenhuma investigação legal ou matemática pode sondar; a qual manifesta-se no território espiritual onde a certeza se obtém não por demonstrações externas, mas pela fé pessoal de um no outro.

Como a fé, a confiança no pai e na mãe surge não de demonstração matemática, mas do contato com o amor, com a comunhão de vida, e confiança pessoal um no outro, assim também aqui. Uma vida de amor desfraldou-se a si mesma. As misericórdias de Deus vieram descendendo-se até nós em terna compaixão. E cada homem tocado por esta vida divina foi afetado por sua influência, foi tomado por ela, viveu nela, sentiu-se a si mesmo em comunhão compassiva com ela; e, numa maneira imperceptível e incompreendida, obteve uma certeza, muito além de qualquer outra, que ele encontrava-se na presença de fatos, e que estes eram divinamente revelados.

E tal é a origem da fé; não alicerçada em prova científica, pois então não haveria fé alguma; a qual controlou o leitor da Sagrada Escritura de uma maneira inteiramente diferente. A existência da Escritura Sagrada é devida a um ato das misericórdias insondáveis de Deus; e por esta razão a aceitação do homem deve igualmente ser um ato de auto negação e de gratidão absolutas. É somente o coração quebrado e contrito, cheio de gratidão a Deus pela Sua excelente misericórdia, que pode atirar-se nas Escrituras Sagradas como se no seu elemento de vida, e sentir que aqui a segurança real é encontrada, extirpando toda dúvida.

Desse modo, nós devemos distinguir uma operação em três aspectos do Espírito Santo, com referência à fé na Escritura Néo Testamentária:

Primeiro, um operar divino, dando uma revelação aos apóstolos.

Segundo, um operar chamado de inspiração.

Terceiro, um operar, ativo ainda hoje, criando a fé na Escritura, no coração que primeiro não estava disposto a crer.

Primeiro vem a revelação propriamente. Por exemplo, quando São Paulo escreveu seu tradado sobre a ressurreição (I Coríntios 15), ele não desenvolveu aquela verdade pela primeira vez. Provavelmente ele a havia concebido anteriormente, e expandido-a nos seus sermões e correspondência particulares. Assim é que a revelação precede a epístola. Ela pertencia às coisas das quais Jesus tinha dito: "Quando vier, porém, aquele, o Espírito da verdade, ele vos guiará a toda a verdade ..... e vos anunciará as coisas vindouras"[João 1613]. E Paulo recebeu aquela revelação de maneira tal que ele teve a convicção positiva de que assim o Espírito Santo lhe havia revelado, e que assim ele a veria no dia do julgamento.

Mas a epístola ainda não fora escrita. Isto requeria um segundo ato do Espírito Santo - a inspiração.
Sem isto, sem a inspiração, o conhecimento de que São Paulo tinha recebido uma revelação seria inútil. Que garantias teríamos de que ele havia compreendido corretamente a revelação e a tinha gravado fielmente? Ele pode ter cometido um erro na comunicação, acrescentando ou suprimindo algo dela, assim transformando-a num registro não confiável. Por conseguinte a inspiração era indispensável; pois através dela o apóstolo foi isentado de erros enquanto ele gravava, anotava, registrava a revelação previamente recebida.

Finalmente, a ligação espiritual deve ser criada unindo a alma e a consciência com as realidades espirituais da infalível Palavra de Deus - positiva convicção de coisas espirituais.

O Espírito Santo realiza isso pela implantação da fé, com as várias preparações que ordinariamente precedem o surgimento do ato de crer. O resultado é uma convicção íntima. Isto não é operado pela referência a Josefo ou a Tácito, i.e. de forma e maneira humanas, mas de uma forma espiritual. O conteúdo das Sagradas Escrituras é trazido à alma. O conflito entre a Palavra e a alma é sentido. A convicção assim operada faz com que vejamos não que a Escritura tenha que dar lugar a nós, mas sim que nós demos lugar à Escritura.

Na discussão da regeneração nós nos referiremos a este ponto de maneira mais aberta. Por ora nos satisfaremos se tivermos obtido sucesso ao mostrar que a existência das Escrituras Néo Testamentárias e a nossa fé não são a obra do homem, mas uma obra na qual somente o Espírito Santo deve ser honrado.


Tradução livre: Eli Daniel da Silva
Belo Horizonte-MG, 18 de Março de 2003.