A Obra do Espírito Santo

por

Abraham Kuyper, D.D., LL.D

 

VOLUME DOIS

A Obra do Espírito Santo no Indivíduo

Capítulo Primeiro - Introdução

 

 

I. O Homem a ser Operado.

"...eis que derramarei sobre vós o meu; espírito e vos farei saber as minhas palavras" - Prov. 1:23

Até agora a discussão esteve confinada à obra do Espírito Santo na Igreja como um todo. Consideraremos a partir de agora a Sua obra nos indivíduos.

Existe uma distinção entre a Igreja como um todo e os seus membros individuais. Há um Corpo de Cristo, e há membros os quais constituem uma parte daquele Corpo. E o caráter da obra do Espírito Santo em um é necessariamente diferente daquela em outro.

A Igreja, nascida do prazer divino, é completa no conselho eterno, e todo o seu curso foi preparado por uma escolha soberana.

O mesmo Deus que enumerou os fios de cabelo da nossa cabeça também enumerou os membros do Corpo de Cristo. Como cada nascimento natural é préordenado, assim também cada Cristão nascido na Igreja é divinamente predestinado.

A origem e o despertar da vida eterna são do alto; não da criatura, mas do Criador, e estão enraizados na Sua escolha soberana e livre. E isto constitui-se não meramente numa escolha, mas é seguido por um ato divino igualmente decisivo, que dá força e que perpetra aquela escolha.

Isto é a onipotência espiritual de Deus. Ele não é um homem que tenta, que experimenta, mas Ele é Deus quem, nunca renunciando a obra das Suas mãos, é persistente e irresistível no fazer, no perpetrar de toda a Sua vontade. Assim o Seu conselho torna-se história; e a Igreja, cuja forma é delineada naquele conselho, deve, no decurso dos tempos, nascer, e aperfeiçoar-se de acordo com aquele conselho; e desde que aquele conselho é indestrutível, as portas do inferno não prevalecerão contra a Igreja. Esta é a base da segurança e da consolação dos santos. Eles não têm outra base de confiança. Do fato de que Deus é Deus, e que portanto a Sua vontade prevalecerá, é que eles tiram a certa convicção com a qual profetizam contra tudo aquilo que é visível e fenomenal.

Na obra da graça, não há vestígio de acaso ou de fatalismo; Deus determinou não somente o desfecho, deixando os meios pelos quais o mesmo deverá ser alcançado não decidido, mas no Seu conselho Ele preparou cada maneira através da qual realizar a Sua escolha. E naquele conselho, estes meios, estas maneiras revelam-se de forma tal que não é possível ao olho humano acompanhar nem compreender. A onipotência divina se adapta à natureza da criatura. Ela faz com que os cedros do Líbano cresçam e que engordem os touros de Bashan; mas ela alimenta e fortalece a cada um de acordo com a sua natureza. O cedro não come capim, nem tampouco o boi escava o solo por comida.

A ordenança divina requer que, através das suas raízes a árvore absorva os nutrientes do solo, e que através da sua boca o boi tome seu alimento e o converta em sangue. E Ele honra a Sua própria ordenança ao providenciar nutrientes no solo para um, e relva no campo para o outro.

O mesmo princípio prevalece no Reino da Graça. Ao homem como um objeto daquele Reino, e do mundo moral que a Ele pertence, Deus tem dado um outro organismo que não o mesmo do boi, do cedro, do vento ou do riacho. Os movimentos desses últimos são puramente mecânicos; do alto da montanha o riacho deve descer. Numa maneira diferente, Ele age no boi e na árvore; e de maneira ainda diferente no homem. No corpo humano forças químicas operam mecanicamente, e outras forças como aquelas no boi e no cedro. E além dessas ainda há no homem forças morais as quais são operadas por Deus, de acordo com a natureza delas.

Nestas bases os nossos pais rejeitaram como indigna de Deus o ponto de vista fanático de que na obra da graça o homem seja um pedaço de madeira ou um tijolo; não porque seja algo seja atribuído ao homem; mas por representar a Deus como negando a Sua própria obra e ordenança. Criar um boi, ou uma árvore, ou uma pedra, cada um diferente do outro, dar a cada um deles uma natureza própria, segue-se que Ele não pode violá-las, mas Se adaptar a elas. Assim é que todas as Suas operações espirituais estão sujeitas às disposições divinamente ordenadas no homem como um ser espiritual; e esta característica faz com que a obra da graça seja excessivamente linda, gloriosa e adorável.

Pois não nos enganemos e não falemos mais de uma gloriosa obra de graça se o Deus onipotente tratar o homem mecanicamente, como um pedaço de madeira ou um tijolo. Então, não existe nenhum mistério para anjos decifrarem, mas uma obra imediata de onipotência, quebrando e criando novamente. Para admirar a obra da graça, deveríamos tomá-la como ela é revelada, i.e. como uma obra complicada e indecifrável pela qual, sem nada violar, Deus Se adapta às delicadas e variadas necessidades do ser espiritual do homem; e revela a Sua divina onipotência na vitória sobre os obstáculos gigantescos e intermináveis, colocados no Seu caminho pela natureza humana.

Mesmo o coração de Deus anseia por amor. Todo o Seu conselho pode ser reduzido a um pensamento, a saber, que no final dos tempos Ele possa ter uma Igreja a qual compreenda o Seu amor e o retorne. Mas o amor não pode ser ordenado, nem tampouco pode ser forçado de forma não espiritual. Ele não pode ser derramado mecanicamente no coração do homem. Para ser cálido, refrescante, e satisfatório, o amor deve ser aceso, deve ser cultivado, e deve receber carinho. Assim é que Deus não instila uma grama de amor no coração do Seu povo, por conseqüência do qual eles O amem, mas Ele exibe amor em extensão tal que Ele, que desde o princípio estava com Deus, e que desde o princípio era Deus, com amor incompreensível morra pelos homens, na cruz.

Isto teria sido supérfluo, se o homem fosse um pedaço de madeira ou um tijolo. Deus, então, teria somente tido que criar amor no coração humano, e os homens O amariam a partir de uma completa necessidade, tal como um fogão irradia calor quando o fogo é aceso. Mas o amor tão calidamente demonstrado na Bíblia não é supérfluo, quando Deus lida espiritualmente com criaturas espirituais. Então a cruz de Cristo é uma manifestação de amor divino que muitíssimo excede todas concepções humanas; por conseguinte exercendo tal poder irresistível sobre todos os eleitos de Deus.

E aquilo que é preeminentemente verdadeiro e aparente em amor é igualmente verdadeiro quanto a cada parte da obra da graça - em todos os seus estágios. Nisto Deus nunca nega-Se a Si mesmo, nem a ordenança e o plano após os quais o homem foi criado. Daí ser a glória da ordenança e do plano que, enquanto que por um lado Deus concedeu ao homem os mais fortes meios de resistência, por outro Ele sobrepujou tal resistência de forma real e divina, pela onipotência da graça redentora.

Quando o apóstolo testifica: "De sorte que somos embaixadores por Cristo, como se Deus por nós vos exortasse. Rogamo-vos, pois, por Cristo que vos reconcilieis com Deus"[II Coríntios 5:20], ele revela profundidade tal do mistério do amor que finalmente as relações são literalmente invertidas, e o Santo Deus exorta as Suas criaturas rebeldes, quem, ao contrário, é que deveriam clamar a Ele por misericórdia.

A tradição nos conta da fascinação de seres misteriosos exercida sobre viandantes e marinheiros, tão irresistivelmente que estes jogavam-se de bom grado e todavia contra a sua própria vontade, na destruição. Na revelação do amor, esta tradição se tornou realidade, numa forma invertida e santa. Eis aqui também um poder todo poderoso de fascinação, afinal irresistível ao pecador condenado; que permitindo ser atraído, relutantemente e todavia desejosamente, a compaixão eterna atrai-o não para a destruição, mas sim para fora dela.

No entanto, as maravilhosas obras de amor raramente podem ser analisadas. Os que amam nunca sabem quem atraiu e quem foi atraído, nem como, na peleja das afeições, o amor perpetrou suas atrações. O ser do amor é misterioso demais para revelar as suas várias obras, e como elas se sucedem. E isto aplica-se, em medida muito maior, ao amor de Deus. Cada santo sabe por experiência que no final, o amor de Deus tornou-se irresistível e prevaleceu. Mas como a vitória foi alcançada, isto é impossível de ser dito. Esta obra divina vem até nós de tais infinitas alturas e profundidades, ela nos afeta tão misteriosamente, e a princípio houve tão absoluta falta de luz espiritual que alguém raramente poderia fazer mais do que gaguejar a respeito dessas coisas. Quem é aquele que compreende o mistério do nascimento natural? Quem aquele que tinha consciência quando estava sendo curiosamente formado na porção mais inferior da terra? E se isso teve lugar sem que tivéssemos consciência, como podemos entender o nosso nascimento espiritual? Em verdade, subjetivamente, i.e. dependendo da nossa própria experiência, nós sabemos absolutamente nada sobre o nascimento espiritual; e tudo o quanto já foi ou pode ser dito sobre ele é tirado exclusivamente da Bíblia. Aprouve ao Senhor levantar somente uma ponta do véu que cobre este mistério-não mais do que o Espírito Santo julgou necessário para o sustento da nossa fé, para a glória de Deus e para o benefício de outros, pela ocasião do seu nascimento espiritual.

Por isso, nesta série de artigos nós tentaremos somente sistematizar e explicar o que Deus revelou para o direcionamento espiritual dos Seus filhos.

Nada está mais além das nossas mentes do que exercitarmo-nos em coisas que nos são muito elevadas, ou penetrar em mistérios ocultos às nossas vistas. Onde a Bíblia para, nós devemos parar; quanto às dificuldades deixadas sem explicação, nós não acrescentaremos o que deverá ser somente o resultado da estupidez humana. Mas onde a Bíblia proclama de forma inequívoca o poder soberano de Jeová na obra da graça, ali nem a crítica ou a pilhéria de homens evitará que demandemos submissão absoluta à soberania divina e de dar glória ao Seu Nome.


II. O Operar da Graça, Uma Unidade.

"...porquanto o amor de Deus está derramado em nossos corações pelo Espírito Santo que nos foi dado" - Romanos 5:5

O objetivo final de todos os caminhos de Deus é que Ele possa ligar tudo em tudo. Ele não pode cessar de operar até que Ele tenha adentrado nas almas dos indivíduos. Ele tem deseja o amor da criatura. Ele deseja ver as virtudes do Seu próprio amor glorificadas no amor do homem para com Ele. E o amor deve nascer do ser pessoal do homem, o qual tem o seu lugar no coração.

A obra da graça exibida no conselho eterno nunca pode ser suficientemente louvada. Desde o Paraíso até Patmos, revelada aos profetas e aos apóstolos, ela é transcendentemente rica e gloriosa. Preparada em Emanuel, que ascendeu às alturas, que recebeu dons pelos homens, sim, também para os rebeldes, de forma que o Senhor Deus possa habitar entre eles, ela excede o louvor de homens e de anjos. E todavia, a sua mais elevada glória e majestade aparecem somente quando, submetendo os rebeldes, operando na alma, ela faz com que a sua luz brilhe tanto que os homens, vendo-a, glorifiquem o Pai, que está no céu.

Por conseguinte o derramar do Espírito Santo é o evento coroador de todos os grandes eventos de salvação, porque ele revela subjetivamente, i.e. nos indivíduos, a graça até então revelada objetivamente.

Certamente que nos dias do Pacto Antigo a graça salvadora operava nos indivíduos, mas ela sempre teve um caráter preliminar e especial. Os crentes do Pacto Antigo não receberam a promessa, "que eles, sem nós, não fossem aperfeiçoados"[Hebreus 11:40]. E a dispensação da salvação pessoal, na sua característica normal, começou somente quando a obra da reconciliação estando terminada, Emanuel havendo ascendido, o outro Confortador veio interiormente enriquecer os membros do Corpo de Cristo.

Assim é que o propósito do Deus Triúno diligentemente aponta para esta consumação gloriosa. A compaixão divina não pode parar de operar enquanto a obra da salvação da alma individual não tenha começado. Em toda a obra preparatória Deus persistentemente aponta para os Seus eleitos; não somente após a queda, mas mesmo antes da criação. A Sua sabedoria regozijou-se com o Seu mundo terreno, e "Suas delícias eram com os filhos dos homens". Desde a eternidade Ele pré-conhece todos nos quais a Sua luz gloriosa uma vez brilhará. Eles não Lhe são estranhos, descobertos somente após o lapso dos tempos, para serem, após exame, ou deixados de lado como imprestáveis, ou para que neles se lhes opere, como peças apropriadas e úteis, de acordo com os seus respectivos méritos; não, o nosso fiel Deus da Aliança nunca se posiciona como um estranho diante das Suas criaturas. Ele criou-os a todos e ordenou como todos eles seriam criados; eles não foram primeiro criados e depois ordenados; mas sim ordenados e depois criados. Ainda assim a criatura não é independente do Senhor, mas antes de haver uma palavra na sua língua, Ele já a conhece toda; não por informação do que há existisse, mas pelo conhecimento divino do que está ainda por existir. Mesmo as relações de causa e efeito relacionando as várias partes da vida da criatura apresentam-se nuas perante Ele; nada Lhe é oculto; e muito mais intimamente do que o homem conhece-se a si mesmo, Deus conhece o homem.

As águas da salvação descendo do topo da montanha da santidade de Deus não correm para lugares desconhecidos, mas o seu canal já está preparado, e elas, rolando montanha abaixo, encontram os acres de terra os quais elas devem regar.

Portanto, embora a clareza requeira divisões e subdivisões na obra da graça, todavia elas não existem realmente; a obra da graça é uma unidade, trata-se de um ato eterno, ininterrupto, procedendo do útero da eternidade, incessantemente movendo-se em direção à consumação da glória dos filhos de Deus, a qual será revelada no grande e notável Dia do Senhor. Por exemplo, embora no momento da regeneração Deus chame à existência as coisas que não o eram, com tudo o que elas contém como que num germe, ainda assim isso não deveria ser representado como se Ele houvesse deixado aquela alma de lado por vinte ou trinta anos. Pois mesmo este aparente abandono é uma obra divina. Constrangido pelo Seu amor, Ele muito mais teria Se voltado para a Sua criatura escolhida mas perdida criatura imediatamente, para buscá-la e salvá-la. Mas Ele Se conteve, se podemos assim nos expressar, pois este ignorar, este abandono, este ocultar do Seu semblante opera junto como um meio de graça, na hora do amor, para fazer a graça eficiente naquela alma.

Assim é que a salvação de uma alma no seu ser pessoal é um ato eterno, contínuo e ininterrupto, cujo ponto de partida encontra-se num decreto cujo objetivo é a glorificação perante o trono. Este ato não contém nada de formal ou de mecânico. Não existe, primeiro, um período de dezoito séculos, durante o qual Deus está ocupado com a preparação da graça objetiva, sem uma única obra graciosa em almas individuais. Nem tampouco há a salvação preparada somente para possíveis almas cuja salvação ainda era incerta. Não, o amor de Deus nunca opera em direção ao desconhecido. Ele é perfeito, e a Sua maneira é perfeita; por isso o Seu amor sempre apresenta a santa e elevada distinção de proceder de coração para coração, de pessoa a pessoa, conhecendo e perscrutando alguém com o perfeito conhecimento. Durante todo o dia, enquanto Caim estava sendo julgado; enquanto Noé e seus oito encontravam-se a salvo na arca; enquanto Abraão foi chamado, e Moisés conversava com Jeová face a face; enquanto os videntes estavam profetizando, João Batista apareceu em público, Jesus subiu ao Calvário, e São João estava tendo visões - em todas aquelas épocas e horas, Deus nos pré conheceu (se nós somos Seus), a pressão do Seu amor encontrou escape, firmemente em nossa direção, Ele nos chamou antes que existíssemos, de modo que pudéssemos vir a existir; e quando viemos a existir, mesmo então Ele nos guiou como o nosso fiel e verdadeiro Pastor. Certamente que todas as coisas cooperam para o bem dos que amam a Deus, mesmo as vidas e os caracteres dos seus ancestrais - pois eles são os chamados de acordo com o Seu propósito.

Ao invés de frio e formal, na verdade é um ato de amor, energizando, derramando-se, irradiando-se. Desde a sua nascente, nas mais altas montanhas, atravessando muitos lugares antes que possa alcançá-lo, o amor divino flui, sem descanso, até que ele inunde a sua alma. Por isso que o apóstolos vangloria-se de que finalmente o amor tinha atingido o seu objetivo abençoado na sua pessoa e na amada igreja em Roma: "Agora temos paz com Deus, porque o amor de Deus (vindo em nossa direção desde a eternidade) afinal nos alcançou, e agora está derramado no nosso coração".

I isto não quer dizer que possuímos agora um amor puro por nós mesmos, mas que o amor de Deus pelos Seus eleitos, havendo descido desde as alturas e vencido cada obstáculo, derramou-se na cama profunda dos nossos corações regenerados. E a isso Ele acrescenta a graça de fazer a alma compreender, beber dele e experimentar daquele amor. E quando envergonhada e contrita a alma se perde nas delícias do amor e nas adorações da sua compaixão eterna, então a Sua glória brilha com refulgente brilho, e o Seu regozijo com os filhos dos homens estão completos.

Contudo, enquanto o Deus Triúno antecipa desde antes da fundação do mundo a congregação e a glorificação dos santos, a Bíblia revela claramente que ser esta congregação e esta glorificação a obra adorável do Espírito Santo. O amor de Deus é derramado nos nossos corações pelo Espírito Santo, que nos é dado.

A Bíblia nos dá a esta obra do Espírito Santo uma posição de proeminência; não excluindo a posição do Pai e a posição do Filho, todavia de tal forma que esta obra pessoal é sempre perpetrada pelo Espírito Santo. E a Bíblia assim o coloca de maneira tão forte que o Catecismo fala, não incorretamente, de três coisas na nossa fé mais santa: de Deus, o Pai, e a nossa Criação; de Deus, o Filho e a nossa Redenção; e somente então de Deus, o Espírito Santo, e a nossa Santificação. E isto não é de surpreender. Pois -

Primeiro, como já vimos, na economia do Deus Triúno, é o Espírito Santo quem vem a ter um contato mais próximo com a criatura, e a preenche. Assim é que é obra peculiar Sua, entrar no coração do homem, e no seu recesso proclamar a graça de Deus até que ele creia.
Segundo, Ele é quem traz cada obra do Deus Triúno à consumação. Assim é que Ele completa a obra da graça objetiva pela salvação das almas, atingindo destarte o seu propósito final.

Terceiro, Ele acende a centelha da vida. Ele paira sobre as águas do caos, e sopra no homem o sopro de vida. Em perfeita harmonia com isto, o pecador morto em faltas e em pecado, não pode viver exceto seja restaurado pelo Espírito de toda restauração, a quem a Igreja tem sempre invocado, dizendo: "Veni, Creator Spiritus".

Quarto, Ele toma as coisas de Cristo e O glorifica. Não é o Filho quem distribui Seus tesouros, mas sim o Espírito Santo. E uma vez que a completa salvação dos redimidos consiste no fato de que os seus corações mortos e degenerados são unidos a Cristo, a Fonte de salvação, devemos então louvar ao Espírito Santo por faze-lo.

Por conseguinte, no constrangedor desejo do amor divino pela salvação das criaturas escolhidas mas perdidas, a obra do Espírito Santo ocupa evidentemente a posição mais ressaltada, mais evidente. O nosso conhecimento de Deus não é completo, exceto que conhecemo-Lo como a Trindade Santa, Pai, Filho e Espírito Santo. Mas como "ninguém vem ao Pai senão por Mim"[João 14:6], e "e ninguém conhece plenamente o Pai, senão o Filho, e aquele a quem o Filho o quiser revelar"[Mateus 11:27], então ninguém pode vir até o Filho senão pelo Espírito Santo, e nenhum homem pode vir a conhecer o Filho se o Espírito Santo não O revelar a ele.

Mas isto não implica em separação alguma, mesmo em pensamento, entre as Pessoas da Deidade. Isto destruiria a confissão da Trindade, substituindo-a pela falsa confissão do tri-teísmo. Não, é eternamente o mesmo Deus subsistindo em três Pessoas. A verdade da nossa confissão brilha no próprio reconhecimento da unidade na Trindade. O Pai nunca é sem o Filho, nem o Filho sem o Pai. E o Espírito Santo nunca pode vir até nós nem operar em nós exceto se o Pai e o Filho cooperarem com Ele.


III. Análise Necessária.

"...prossigamos até a perfeição, não lançando de novo o fundamento..." - Hebreus 6:1

Para sistematizar a obra do Espírito Santo nos indivíduos, nós devemos primeiro considerar a sua condição espiritual antes da conversão.

A incompreensão deste ponto leva ao erro e à confusão. Faz com que as várias operações do Espírito Santo sejam confundidas, que os mesmos termos sejam usados para designar coisas diferentes. Confunde o próprio pensamento de alguém, e leva outros a direções erradas. E isto aparece muito seriamente em ministros que discutem o assunto em termos gerais, que com naturalidade evitam a certeza, e consequentemente reiteram as mesmas banalidades, os mesmos lugares comuns.

Pregação tal causa pouca ou nenhuma impressão; ela é monótona e cansativa; acostuma a orelha a repetições; e falta-lhe estímulo para o ouvido interno. E a mente, a qual não pode permanecer inativa sem impunidade, procura alívio por sua própria conta, muitas vezes na descrença, longe da obra do Espírito Santo. As palavras "coração", "mente", "alma", "consciência", "homem interior" são utilizadas indiscriminadamente. Há chamados, apelos freqüentes para a conversão, a regeneração, a renovação de vida, a justificação, a santificação e a redenção; enquanto que os ouvidos não foram acostumados a compreender, a entender em cada uma destas palavras algo especial e uma revelação peculiar da obra do Espírito Santo. E ao final, esta pregação caótica torna impossível a discussão inteligente quanto às coisas divinas, uma vez que uma pessoa iniciada e mais uniformemente instruída não poderá ser compreendida.

Nós protestamos solenemente, especialmente contra a aparência pia que encobre o vazio e a falta de significado desta pregação quando diz: "O meu Evangelho simples não tem lugar para estas distinções triviais; elas são características da erudição seca com a qual as mentes esquivas assustam os queridos filhos de Deus, e os colocam sob a escravidão das letras. Não, o Evangelho do meu Senhor deve permanecer para mim uma fonte de vida e espírito; portanto poupe me dessas sutilezas".

E sem dúvida de que há alguma verdade nisso. Através de uma análise seca da verdade que refresca a alma, mentes abstratas muitas vezes roubam das almas mais simples muito conforto e alegria. Eles discutem as coisas espirituais nos termos híbridos de Latim Anglicanizado, como se as almas não pudessem ter parte com Cristo, a menos que sejam experts no uso desse palavreado falsificado. Tal intimidação dos fracos denota orgulho e auto exaltação. E um orgulho muito estúpido é este, pois o conhecimento apregoado é prontamente adquirido por um mero esforço da memória. Tal externalização da fé Cristã é ofensiva. Ela troca a religiosidade genuína por uma língua escorregadia e maliciosa, e a justificação da fé pela justificação mental. Assim a religiosidade do coração transfere-se para a cabeça, e ao invés do Senhor Jesus Cristo, é Aristóteles, o professor mestre da dialética, que se torna o salvador das almas.

Defender tal caricatura está longe do nosso propósito. Nós cremos que a nossa salvação depende somente da obra de Deus em nós, e não somente do nosso testemunho; e a criança pequena, ainda com seus lábios inseguros, mas em quem o Espírito Santo tenha operado, precederá esses vãos escribas no Reino do Céu. Que ninguém se atreva a impor o fardo dos seus pensamentos próprios sobre os seus semelhantes. O fardo de Cristo, somente, é que se adequa às almas dos homens.

E todavia o Evangelho não perdoa a falta de profundidade, nem tampouco aprova a mera tagarelice.

É claro que existe uma diferença. Não exigimos que nossas crianças conheçam os nomes de todos os nervos e músculos do corpo humano, das doenças às quais ele está sujeito, e de todos os medicamentos que completam a farmacopéia. Faze-lo seria uma sobrecarga para os pequeninos, que são os mais felizes enquanto inconscientes do complexo organismo que carregam consigo. Mas, o médico que não esteja bem seguro da localização desses órgãos vitais; que, sem preocupar-se com detalhes se satisfaça com as generalidades da sua profissão; que, incapaz de diagnosticar o caso corretamente, falhe ao administrar a medicação apropriada, de imediato é demitido, e um outro profissional, dotado de melhor discernimento e melhor preparado é chamado para substituí-lo. Pessoas bem informadas não deveriam ser ignorantes quanto a esses órgãos vitais do corpo humano, bem como das suas principais funções; mães e enfermeiras deveriam ser ainda melhor informadas.

O mesmo aplica-se à vida da Igreja. Aqueles menos dotados entre os irmãos não podem compreender totalmente as distinções da vida espiritual; são incapazes de suportar carne, devem ser alimentados somente com leite. Nem tampouco devem as crianças mais jovens serem fatigadas e entorpecidas com frases muito além da sua compreensão. Tanto aqueles como estas devem ser ensinados de conformidade com "o teor da sua maneira". Uma criança conversando sobre assuntos de religião em termos discriminatórios afeta desagradavelmente o sentimento espiritual. Mas não é assim como médico espiritual, i.e., o ministro da Palavra. Se um veterinário é demitido por não ser capacitado o suficiente, quanto mais aqueles que, pretendendo tratar e curar almas, denotam a sua própria ignorância acerca das condições e atividades da vida espiritual. Por esta razão é que insistimos que cada ministro da Palavra seja um especialista nesta anatomia e fisiologia espirituais; familiar com as várias formas de enfermidade espiritual, e sempre capacitado com a plenitude do saber que vem de Cristo, para selecionar o medicamento espiritual exigido.
E reclamamos o mesmo conhecimento, se não exatamente no mesmo grau, de cada homem e mulher inteligentes. O médico ou o advogado que se ri da nossa ignorância quanto aos princípios da sua profissão deve ser igualmente envergonhado quando demonstrar a sua própria e lamentável ignorância quando à condição da sua alma. Na vida espiritual cada talento deveria ser de interesse. Cada homem, cada indivíduo deveria ser simetricamente desenvolvido. De acordo com o seu campo de visão, força de poderes, e perspicácia, ele deveria ser capaz de distinguir as coisas espirituais e as necessidades da sua própria alma. E que este conhecimento seja amplamente encontrado somente entre o nosso povo simples, e temente a Deus; e não entre as classes mais altas, é um sério e deplorável sinal dos tempos.

O conhecimento que é poder na esfera espiritual, e capaz de curar, não advém em termos estranhos, não se cansa nos vários criticismos da Bíblia, não é fã somente de raciocínios filosóficos, não deixa as almas padecerem de fome dando-lhes pedras ao invés de pão; mas busca sistematicamente a Palavra e a obra de Deus nas almas dos homens, e prova que um homem de fato estudou as coisas as quais ele deve ministrar à Igreja.

Aqueles nossos líderes espirituais, portanto, que na universidade e nas classes do seminário substituíram esse conhecimento espiritual por várias formas de criticismo e apologética, têm muito pelo que responder. Pois nos últimos trinta anos esse conhecimento tem sido negligenciado em ambas aquelas instituições. E assim perdeu-se o conhecimento, a pregação tornou-se monótona, e uma grande parte da Igreja pereceu. Ainda havia olho e ouvido para a obra objetiva do Filho, mas a obra do Espírito Santo é ignorada e negligenciada. Consequentemente a vida espiritual afundou a tal ponto que, enquanto dificilmente uma terça parte da plenitude da graça a qual está em Cristo Jesus está sendo conhecida e honrada, homens ousam insistir que pregam o Cristo crucificado.

Por isso a discussão da obra do Espírito Santo nos indivíduos demanda que, enquanto correndo o risco de ser chamado "guias eruditos", nós deixamos as trilhas das generalidades e superficialidades e procedemos a uma análise cuidadosa. As operações do Espírito Santo sobre as várias partes do nosso ser nas suas várias condições devem ser distinguidas e tratadas separadamente; não somente nos eleitos, mas também nos não eleitos, pois elas não são as mesmas. É verdade que a Bíblia ensina que Deus faz com que o Seu sol brilho sobre o bom e os mau, e que a Sua chuva desça sobre o justo e o injusto, de modo que no reino da natureza toda boa dádiva vinda do Pai das luzes é comum a todos; mas no reino da graça o mesmo não acontece. O Sol da justiça muitas vezes brilha sobre um, deixando outro em trevas; e as gotas da graça ao cair, muitas vezes molham uma alma, enquanto que outras permanecem completamente desprovidas delas.

Por conseguinte, embora a obra do Espírito nos eleitos seja de importância primária, esta todavia não exaure a Sua obra nos indivíduos. Para muitos em Israel, Cristo foi também designado para uma queda; e até isto é trabalhado pelo testemunho do Espírito Santo. Não somente o sabor da vida, mas o gosto da morte também atinge a alma pelo Seu intermédio; como o apóstolo declara com relação àqueles que, havendo recebido o dom do Espírito Santo, mesmo assim caíram. A Sua atividade neles, e na sua condição quando Ele inicia as suas operações salvadoras ou endurecedoras, deve ser cuidadosamente notada.

E é claro, que este não é o lugar para discutir exaustivamente a condição dos caídos. Isto requereria uma investigação especial. Muitas coisas que talvez em outros lugares sejam explicadas em detalhe, aqui recebem somente uma nota passageira. Mas servirá ao nosso propósito se tivermos sucesso em proporcionar ao leitor uma visão tão clara da condição do pecador, que ele possa compreender-nos quando discutirmos a obra do Espírito Santo no pecador.

Por "pecador", entendemos o homem como ele é, como ele vive, como ele se move naturalmente, i.e. sem a graça. E em tal estado, ele encontra-se morto em delitos e em pecados; alienado da vida de Deus; completamente depravado e sem forças; um pecador, e portanto culpado e condenado. E não somente morto, mas prostrado no meio da morte, cada vez afundando mais na morte, a qual se não for detida no seu curso, abrir-se-á sob o pecador cada vez mais, até transformar-se em morte eterna.

Este é o pensamento fundamental, a idéia mãe, a concepção principal deste estado. "Portanto, assim como por um só homem entrou o pecado no mundo, e pelo pecado a morte, assim também a morte passou a todos os homens..."[Romanos 5:12]. E "Porque o salário do pecado é a morte..."[Romanos 6:23]. "...e o pecado, sendo consumado, gera a morte"[Tiago 1:15]. De modo a passar para um outro estado, a pessoa tem primeiro de passar da morte para a vida.

Mas esta idéia geral de morte deve ser analisada nas suas várias relações; e deve ser determinado, para este fim, o que o homem era antes, e no que ele se tornou depois dessa morte espiritual.


IV. Imagem e Semelhança.

"Façamos o homem à nossa imagem, conforme a nossa semelhança" - Gênesis 1:26

Gloriosa é a declaração divina que introduz a origem e a criação do homem: "E Deus criou o homem conforme a Sua própria imagem e conforme a Sua própria semelhança; à imagem de Deus Ele o criou" (tradução Holandesa).

O significado destas importantes palavras foi recentemente discutido pelo bem conhecido professor, Dr. Edward Böhl, de Viena. De acordo com ele, a passagem deveria dizer que o homem foi criado "na" e não "conforme" a imagem de Deus, i.e. a imagem não é encontrada na natureza ou no ser do homem, mas fora dele, em Deus. O homem foi meramente construído na irradiação daquela imagem. Assim, enquanto permanecendo na Sua luz, ele viveria naquela imagem. Mas pisando fora dela, ele cairia e não lhe restaria nada a não ser a sua própria natureza, a qual tanto antes como após a queda, é a mesma. ( ¹ )

Na discussão da corrupção da natureza humana, nós consideraremos esta opinião do altamente estimado professor de Vienna. Digamos aqui, simplesmente que rejeitamos esta opinião, na qual vemos um retorno aos erros de Roma. Não podemos levar em consideração o caráter negativo do pecado como apresentado pelo Dr. Böhl, que é a base desta representação. Ademais, ela se opõe à doutrina da Encarnação, e à doutrina da Santificação, conforme sustentadas pela Igreja Reformada. Assim é que cremos ser o mais seguro, primeiro explicar a confissão dos nossos pais com relação a este ponto, e então mostrar que esta representação é inconsistente com a Palavra.

Ao aceitar a descrição da Criação como a revelação direta do Espírito Santo, nós reconhecemos a sua mais absoluta credibilidade em cada parte. Aqueles que assim não a aceitam, ou que, como muitos teólogos Éticos, negam a interpretação literal, não podem ter voz na discussão. Se, ao expormos a descrição da Criação nós tivermos seriedade, e não jogarmos com palavras; devemos então estar inteiramente convencidos de que Deus realmente disse: "Façamos o homem à nossa imagem, conforme a nossa semelhança". Mas ao negarmos isto e sustentarmos que estas palavras meramente representam a forma pela qual alguém, animado pelo Espírito Santo, descreveu para si mesmo a criação do homem, delas não podemos deduzir nada. Então não temos segurança de que elas são divinas; sabemos somente que um homem pio atribuiu tais pensamentos a Deus e os colocou nos lábios, enquanto que tratava-se somente da sua própria percepção quanto à criação do homem.

Daí que a infalibilidade das Sagradas Escrituras é o nosso ponto de partida. Vemos em Gênesis 1:27 ("Criou Deus, pois, o homem à Sua imagem, à imagem de Deus o criou; homem e mulher os criou") um testemunho direto do Espírito Santo; e com a mais completa segurança nós cremos que estas são as palavras do Todo-Poderoso proferidas ante a criação do homem. Com esta convicção, elas têm autoridade decisiva; e curvando-nos perante elas; confessamos que o homem foi criado à semelhança de Deus e conforme a Sua imagem.

Esta declaração, em conexão com toda a descrição da criação do homem, mostra que o Espírito Santo faz distinta a criação do homem e de a de todas as demais criaturas. Elas foram todas manifestações da glória de Deus, pois Ele viu que eram boas; um efeito do Seu conselho, pois elas incorporaram um pensamento divino. Mas a criação do homem foi especial, mais exaltada, mais gloriosa; pois Deus disse: "Façamos o homem à Nossa imagem, conforma a nossa semelhança".

Portanto o sentido geral dessas palavras é que o homem é totalmente diferente de todos os demais seres; que a sua espécie é mais nobre, mais gloriosa; e especialmente que esta glória mais elevada consiste no vínculo mais íntimo e na relação mais próxima com o seu Criador.

Tal fato provém das palavras "imagem" e "semelhança". Em todos os Seus outros atos criativos, o Senhor fala, e é feito; Ele ordenou, e de imediato aconteceu. Existe uma idéia, um pensamento no Seu conselho, uma vontade para executa-la, e um ato onipotente para realiza-lo, para concretiza-lo, mais nada; seres são criados por completo, em separado e fora dEle. Mas a criação do homem é totalmente diferente. É claro, existe uma idéia, um pensamento divino precedente do conselho eterno, e através de poder onipotente esta idéia, este pensamento é realizado; mas aquela nova criatura está conectada com a imagem de Deus.

De acordo com o significado universal da palavra, a imagem de uma pessoa é uma concentração tal das suas características, de modo a fazer a própria impressão do seu ser. Quer seja numa gravura a lápis, numa pintura ou fotografia, um símbolo, uma idéia ou uma estátua, é sempre a concentração das características essenciais de um homem ou de um objeto. Uma idéia é uma imagem que concentra aquelas características no campo da mente; já, uma estátua, no mármore ou no bronze, e etc., mas não importando a forma ou a maneira da expressão, a imagem essencial é uma concentração tal das diversas características do objeto, que representa o próprio objeto à mente. Este significado, fixo e definitivo de uma imagem, não pode ser um vislumbre perdido dela. A imagem pode ser imperfeita, mas ainda assim, tanto quanto o objeto seja nela reconhecido, mesmo embora a memória deva suprir a possível falta ou imperfeição da imagem, ela permanece uma imagem.

E isto leva a uma observação importante: O fato de que podemos reconhecer uma pessoa a partir de uma figura fragmentária prova a existência de uma 'imagem de alma' daquela pessoa, i.e., uma imagem fotografada através do olho da alma. Esta imagem, ocupando a imaginação, torna possível que nós mentalmente vejamos aquela pessoa, mesmo na sua ausência e mesmo sem a sua figura.

E como é que tal imagem é obtida? Nós não a fazemos, mas sim a própria pessoa, quem, enquanto olhamos para ela, desenha-a na retina, assim colocando-a na nossa alma. Em fotografia não é o artista, nem tampouco o seu equipamento, mas as características do nosso próprio aspecto, da nossa própria expressão é que, como que por feitiçaria, desenham a nossa imagem no filme ou na placa do negativo. Da mesma maneira, a pessoa recebendo a nossa imagem é passiva, enquanto que nós, pondo a nossa imagem na sua alma, somos ativos. No sentido mais profundo, cada um de nós carrega a sua própria imagem na sua própria face, no seu próprio semblante, e a põe na alma humana ou na placa (ou no filme) do artista. Esta imagem consiste de características as quais, concentradas, formam aquela expressão peculiar que mostram a individualidade de alguém. Um homem forma a sua própria sombra contra uma parede, conforme a sua própria imagem e semelhança. Tão freqüentemente quanto nós fazemos com que a impressão do nosso ser se exteriorize, nós assim o fazemos conforme a nossa própria imagem e semelhança.

Retornando, após estas considerações preliminares, à passagem em Gênesis 1:27, notamos a diferença entre (1) a imagem divina conforme a qual nós somos criados, e (2) a imagem que conseqüentemente tornou-se visível em nós. A imagem conforme a qual Deus fez o homem é uma, e aquela fixada em nós é bem outra. A primeira é a imagem de Deus conforme a qual nós somos criados, a outra é a imagem criada em nós. Para evitar confusão, as duas precisam ser mantidas distintas. Aquela já existia antes dessa, caso contrário, como poderia Deus haver criado essa conforme aquela?

Não é estranho que muitos tenham pensado que esta imagem e semelhança referiam-se a Cristo, de quem é dito ser "a Imagem do Deus invisível", e "a linhagem expressa da Sua Substância". Não são poucos o que aceitaram isso como ponto pacífico. Todavia, em coro com os nossos melhores ministros e mestres, cremos ser incorreto. Pois tal entra em conflito com as palavras, "Façamos o homem à Nossa imagem, conforme a Nossa semelhança", o que deve significar que o Pai falava ao Filho e ao Espírito Santo. Alguns dizem que estas palavras foram endereçadas aos anjos, mas não pode ser assim, uma vez que o homem não foi criado segundo a imagem de anjos. Outros, mantém que Deus falava Consigo mesmo, estimulando-Se a Si próprio para executar o Seu desígnio, utilizando o pronome "Nós" como um plural de majestade. Mas isto não concorda com as formas no singular imediatamente a seguir: "Criou, Deus, pois, à Sua imagem, à imagem de Deus o criou; homem e mulher os criou". Assim é que mantemos a explicação já tentada pelos mais sábios e mais devotos ministros, de que com estas palavras o Pai endereçou-Se ao Filho e ao Espírito Santo. E então a unidade das Três Pessoas se expressa nas palavras: "Criou, Deus, pois, o homem à Sua imagem...". Portanto essa imagem não pode ser o Filho. Como poderia o Pai dizer ao Filho, e ao Espírito Santo: "Criemos os homens conforme a imagem do Filho"?

Aquela imagem deve ser, portanto, uma concentração das características do Ser de Deus, através das quais Ele expressa-Se a Si mesmo. E uma vez que somente Deus pode representar o Seu próprio Ser para Si mesmo, segue-se que pela imagem de Deus nós devemos entender a representação do Seu Ser como existe eternamente, na consciência divina.

Tomamos "Imagem" e "semelhança" por sinônimos; não porque uma diferença não pudesse ser inventada; mas porque no versículo 27, o termo "semelhança" não é nem sequer mencionado. Por isso é que nos opomos à explicação que o termo "imagem" refere-se à alma, enquanto que o termo "semelhança" refere-se ao corpo. Ao permiti-la, pela indissolúvel união entre corpo e alma as características da imagem divina devem ter um efeito posterior na segunda, a qual é o Seu templo, mas ainda assim não existe razão nem sugestão porque deveríamos defender uma descrição tão precária entre 'imagem' e 'semelhança'. Assim é que a imagem após a qual nós somos criados é a expressão do Ser de Deus tal como existe na Sua própria consciência.

A pergunta que vem a seguir é: O que havia ou o que há no homem, que fizesse com que ele fosse criado após Aquela imagem?


V. Justiça (Retidão) Original.

"Pois nEle vivemos, e nos movemos, e existimos, como alguns dos vossos poetas têm dito: Porque dEle também somos geração" - Atos 17:28

É a característica peculiar da Confissão Reformada, que mais do que qualquer outra, ela humilhe o homem pecador e exalte o homem sem pecado.

Não é Bíblico degradar o homem. Na qualidade de pecador, caído e não mais um homem real, ele deve estar humilhado, admoestado e intimamente quebrantado. Mas o homem divinamente criado, na realização do propósito divino, ou restaurado pela graça onipotente nos eleitos, é digno de todo o louvor, pois Deus o criou conforme a Sua própria imagem.

Porque ele situava-se tão alto, ele caiu tanto. Ele era um ser tão excelente, daí haver-se tornado um pecador tão detestável. A excelência do primeiro é a razão da abominação do último.

É dito que enquanto a época presente apropriadamente exalta e aprecia o homem, a nossa doutrina somente o degrada; mas com todo o seu tributo e louvor, esta época presente nunca concebeu testemunho mais exaltado do que aquele na Bíblia, que diz que: "Deus criou o homem à Sua própria imagem". Protestamos contra o clamor dos tempos, não porque faça muito do homem, mas porque faz muito pouco dele, declarando-o, positivamente, glorioso mesmo agora, no seu estado caído.

O que você pensaria de alguém que, andando em meio ao seu jardim, agora completamente devastado por uma tempestade violenta, chamasse as plantas e os brotos estragados, e as flores cobertas de lama, caídas nos seus canteiros todos desordenados, de magníficos? E isto é o que a época presente está fazendo. Caminhando entremeio ao jardim deste mundo, ressecado e completamente desarranjado em conseqüência das tempestades do pecado, ela clama em êxtase e orgulhosamente: "Que seres gloriosos são os homens! Quão charmosos e excelentes!" E como o botânico diria, ao olhar tal jardim tão desordenado: "Você chama isso de lindo? Você devia tê-lo visto antes de a tempestade o haver estragado"; assim também dizemos a esta época presente: "Você chama a este homem caído de glorioso? Comparado ao que ele devia ser, ele é inteira e completamente inútil. Mas ele era sim, glorioso, refulgindo toda a beleza da imagem divina, antes que o pecado o arruinasse".

Por conseguinte, a nossa doutrina exalta-o até a glória mais elevada. Em seguida à glória de ser criado à imagem de Deus, vem a glória de ser o próprio Deus. Tão logo o homem assim o presume, ele desfaz-se de toda glória em si mesmo; é seu pecado detestável que ele aspire a ser como Deus. Se for dito que, mesmo no Paraíso, a lei prevalecia de que Deus somente é grande, e que a criatura nada é perante Ele; respondemos, que ele que foi criado à imagem divina não tem nenhuma ambição maior do que a de ser um reflexo da imagem de Deus; excluindo por completo a idéia de ser acima ou de ser contra Deus. Assim é que é certo que o homem original era muito mais glorioso e excelente, e, portanto, o homem caído é, ao máximo, miserável e repugnante.

Então o homem caído perdeu a imagem de Deus?

Esta questão vital controla os nossos pontos de vista quanto ao homem, em cada aspecto, e por isso requer o exame mais detalhado; especialmente desde que as opiniões dos crentes com relação a ela são diametralmente opostas. Alguns, mantém que depois da queda o homem caído reteve algumas particularidades, enquanto outros, que ele perdeu-as por completo.

Para evitar quaisquer mal entendidos, devemos primeiro decidir se, ser criado à imagem de Deus (1) refere-se somente à justiça (retidão) original, ou (2) incluía também a natureza do homem, a qual estava vestida com esta retidão original. Se a imagem divina consistiu existia somente na retidão original, então, é claro, ela foi completa e absolutamente perdida, pois por sua queda o homem perdeu esta retidão original de uma vez por todas. Mas se ela também estava impressa no seu ser, na sua natureza, e na sua existência humana, então ela não pode desaparecer por completo, pois, conquanto profundamente afundado, o homem - caído - continua sendo homem.
Com isto, não inferimos que algo espiritualmente bom foi deixado no homem; entre os finalmente perdidos, mesmo os mais profundamente caídos reterão alguma evidência de que foram criados após a imagem divina. Nem sequer hesitamos em subscrever a opinião dos nossos pais de que se os anjos, Satã incluído, tivessem sido criados originalmente à imagem de Deus (o que a Bíblia não ensina positivamente), então mesmo o diabo em sua profunda perversidade e extrema crueldade deveria mostrar alguma característica daquela imagem.

Não queremos dizer que após a queda o homem tivesse qualquer voluntariedade, conhecimento ou qualquer coisa boa; e aqueles que, no púlpito ou ao escrever inferem nisto, com base na declaração "...Nada lhe sobrou destes dons, senão pequenos traços..." da Confissão de Fé [*], perverte o pleno ensinamento daquele documento. Embora ele reconheça que alguns pequenos traços hajam sobrado ao homem caído, todavia segue-se naquele mesmo artigo da Confissão que "...toda a luz em nós se tornou em trevas"; e antes disso é citado que o homem, "Tornando-se ímpio, perverso e corrupto em todas as suas práticas, ele perdeu todos os dons excelentes", e que "...ele corrompeu toda a sua natureza...". Assim é que por esses "pequenos traços" não se pode nunca entender que impliquem que haja permanecido no homem caído qualquer força, qualquer voluntariedade ou qualquer desejo pelo bem. Não, um pecador na sua natureza caída é completamente condenável. E existe isso, como o mesmo artigo confessa que, "...somente o entendimento ou a vontade que Cristo opera no homem, está em conformidade com o entendimento e vontade de Deus, como Ele ensina: "Sem Mim nada podeis fazer" (João 15:5)". [* - N.T.: O autor refere-se ao Artigo XIV da Confissão de Fé Belga : "A Criação do Homem. Sua Queda e Sua Incapacidade de Fazer o Bem"]

E assim desarmamos qualquer suspeita de que estejamos buscando alguma coisa boa no homem.

Com a Bíblia nós confessamos: "...Não há justo, nem sequer um. Não há quem entenda; não há quem busque a Deus. Todos se extraviaram; juntamente se fizeram inúteis. Não há quem faça o bem, não há nem um só"[Romanos 3:10 - 12].

Mas como isto pode ser reconciliado? Como podem estes dois andarem juntos? Por um lado, o pecador não tem nada, absolutamente nada bom ou louvável; e por outro, este mesmo pecador sempre tem traços e características da imagem de Deus !

Ilustremos. Dois cavalos enlouquecem; um é um cavalo comum, de carroça, enquanto que o outro é um alazão puro sangue Árabe. Qual é o mais perigoso? O último, é claro. O seu sangue nobre se agitará em agitação e violência mais incontroláveis. Ou, dois funcionários trabalham num escritório; um é um mero trabalhador de raciocínio lento, o outro, um jovens com cérebro brilhante e olhar penetrante. Qual dos dois poderia fazer mais mal ao seu empregador? É claro que o segundo, e todas as suas artimanhas mostrariam a sua superioridade operando na direção errada. É sempre assim. Não há um inimigo da verdade mais perigoso do que um crente que tenha sido instruído na religião. Em toda a sua fúria ímpia ele mostra o seu treinamento e conhecimento superiores. Satã é tão poderoso porque antes da sua queda ele era tão excessivamente glorioso. Por conseguinte, na sua queda o homem não desvencilhou-se da sua natureza original, mas a reteve. Somente o seu agir foi reverso, corrupto, e voltado contra Deus.

Quando o capitão de uma fragata, numa batalha naval, trai o seu rei e levanta a bandeira do inimigo, ele primeiramente não estraga ou afunda o seu navio, mas ele o mantém tão eficiente para o serviço quanto possível, e com todo o seu armamento intacto ele faz exatamente o contrário do que deveria fazer. "Optimi coruptio pessima" diz o provérbio dos sábios-i.e., quanto maior for a excelência de algo, mais perigosa é a sua deserção. Se o almirante da frota tivesse a chance de escolher qual das suas embarcações devesse traí-lo, ele diria: "Que seja a mais fraca, pois a deserção da mais forte é a mais perigosa". E isto é verdadeiro em cada esfera da vida, que as excelentes qualidades de alguma coisa ou de um ser não desaparecem em ação reversa, mas tornam-se as mais excelentemente más.

Deste modo nós podemos compreender a queda do homem. Antes dela ele possuía o organismo mais excelente, o qual por um impulso santo estava direcionado para o objetivo mais exaltado. Embora revertido pela queda, este precioso instrumento humano permaneceu, mas, direcionado por um impulso ímpio; ele agora está direcionado para um fim profundamente ímpio.

Comparando o homem a um navio, a sua queda não tirou-lhe o motor. Mas como antes da queda ele movia-se em justiça, assim ele agora move-se em injustiça. Na verdade, tão rápido quando ele navegava antes em direção à felicidade, tão rápido ele agora navega em direção à perdição, i.e., para longe de Deus. Daí que o não se lhe tirar o motor, fez a sua queda a mais terrível, e a sua destruição a mais certa. E assim nós reconciliamos os dois: que o homem reteve suas características originais de excelência, e que a sua destruição é certa, exceto se ele nascer de novo.

Mas, na imagem divina, devemos distinguir cuidadosamente:

Primeiro, o organismo artístico e maravilhoso, chamado natureza humana.

Segundo, a direção na qual ele se movia, i.e., ao encontro do fim mais santo, naquele em que Deus criou o homem em justiça e retidão originais.

Que Deus criou o homem bom e conforme a Sua própria imagem não significa que Adão estivesse num estado de inocência, naquele ele não teria pecado; nem que ele estivesse perfeitamente equipado para tornar-se santo, ascender gradualmente ao um desenvolvimento maior; mas que ele foi criado em justiça e santidade verdadeiras, indicando não o grau do seu desenvolvimento, mas a sua condição. Esta era a sua justiça, a sua retidão original. Por isso todas as inclinações e atitudes do seu coração eram perfeitas. Não lhe faltava nada. Somente num aspecto a sua bem-aventurança diferia daquela dos filhos de Deus, a saber, ele podia perde-la e eles não.

Destas duas partes que constituem a imagem divina - primeira, o organismo íntimo, artístico do ser humano; e, segunda, a retidão, a justiça original na qual o organismo movia-se naturalmente - esta última está completamente perdida, enquanto que a primeira está invertida; mas o ser do instrumento, embora terrivelmente danificado, desfigurado, permaneceu o mesmo, para agir na direção errada, i.e., na injustiça, na tortuosidade. Assim é que as características ou os efeitos posteriores da imagem divina não são encontrados nas poucas coisas boas que permanecem no pecador, senão "em tudo o que faz". O homem não poderia pecar tão terrivelmente se Deus não o houvesse criado conforme a Sua própria imagem.

A Bíblia ensina, portanto, que todos os homens desviaram-se, que todos eles corromperam-se, e que todos estão sem a glória de Deus; enquanto que nela também está declarado que, mesmo este homem caído é criado à imagem de Deus ("...porque Deus fez o homem à sua imagem"-Gênesis 9:6), e conforme a Sua semelhança ("...os homens, feitos à semelhança de Deus"-Tiago 3:9).


VI. Roma, Socínio, Armínio, Calvino.

"e a vos revestir do novo homem, que segundo Deus foi criado em verdadeira justiça e santidade"-Efésios 4:24

Não é surpreendente que crentes mantém pontos de vista diferentes com relação ao significado da imagem de Deus. Trata-se do ponto de partida que determina a direção de quatro estradas diferentes. O menor desvio no início com certeza leva a uma representação totalmente diferente da verdade. Portanto, cada crente que pensa deve escolher deliberadamente qual estrada ele seguirá:

Primeiro, o caminho de Roma, representado por Bellarmino.

Segundo, o de Armínio e Socínio, caminhando de braço dado.

Terceiro, o caminho da maioria dos Luteranos, liderado por Melâncton.

Último, a direção mapeada por Calvino, i.e. a dos Reformados.

Roma ensina que a justiça original não pertence à imagem divina, mas à natureza humana como uma graça super acrescentada. Citando Bellarmino, primeiro, que o homem é criado, consistindo de duas partes, corpo e espírito; segundo, que a imagem divina é estampada parcialmente no corpo, mas principalmente no espírito humano, o lugar da consciência moral e racional; terceiro, que há um conflito entre a carne e o espírito, a carne cobiçando contra o espírito; quarto, portanto o homem tem uma inclinação e um desejo naturais pelo pecado, os quais enquanto desejo somente não constituem pecado, desde que o desejo e a inclinação não se transformem em ato; quinto, que na Sua graça e compaixão Deus deu ao homem, independentemente da sua natureza, a justiça original, para defesa e como válvula de segurança, para controlar a carne; sexto, que quando da queda, o homem voluntariamente desvencilhou-se desta super acrescentada graça: daí que como pecador ele encontrar-se novamente na sua natureza nua ("in puris naturalibus") a qual, na verdade, é inclinada para o pecado, na medida em que seus desejos são pecaminosos. Nós cremos que os teólogos Romanos concordarão que este é o ponto de vista corrente entre eles. O "Catechismus Romanus" cita na questão 38: "Deus deu ao homem, do pó da terra, um corpo, de maneira tal que ele era participante da imortalidade, não em virtude da sua natureza, mas por uma graça super acrescentada. Quando à sua alma, Deus formou-o à Sua imagem e conforme a Sua semelhança, e deu-lhe um livre arbítrio; ademais [no original "præterea", além disso, portanto não pertencendo à sua natureza], Ele de tal forma temperou os seus desejos que eles continuamente obedecem os ditames da razão. Além disso Ele derramou nele a justiça original, e deu-lhe domínio sobre todas as outras criaturas."

O ponto de vista de Socínio e de Armínio, que seguia-o com muita atenção, é totalmente diferente. É um fato bem conhecido que os Socinianos negam a Deidade de Cristo, quem, conforme ensinavam, nasceu como um mero ser humano. Mas (e por isso é que eles iludiram os Poloneses e Húngaros) eles reconheciam que Ele se tornara Deus. Assim é que após a Sua Ressurreição Ele podia ser adorado como Deus. Mas em que sentido? Que a natureza divina Lhe foi dada? De modo algum. Na Bíblia, magistrados, estando investidos com a majestade divina a qual os habilitava para exercer autoridade, são chamados "deuses". Isto aplica-se a Jesus, que, após a Sua Ressurreição, recebeu do Pai o poder sobre todas as criaturas, num grau eminente. Por conseguinte ele é absolutamente investido com divina majestade. Se um pecador, como um magistrado, é chamado deus, quanto mais podemos nós conceber Cristo sendo chamado de Deus, simplesmente para expressar que Ele foi investido com autoridade divina?

De forma a dar suporte a esta falsa visão da Deidade de Cristo, os Socinianos falsificaram a doutrina da imagem de Deus, e a fizeram equivalente ao domínio do homem sobre os animais. Em sua opinião esta era também um tipo de majestade mais elevada, contendo algo de divino, que era a imagem de Deus. Portanto, o primeiro Adão, sendo revestido de majestade e de domínio sobre uma porção da criação, era portanto geração de Deus e criado à Sua imagem. E o segundo Adão, Cristo, também revestido com majestade e domínio sobre a criação, a Bíblia portanto chama de Deus.
Que os 'Protestantes'(*) também adotaram esta falsa representação aparece conclusivamente do que o moderado professor A. Limborch escreveu no início do século dezoito: "Esta imagem consistia no poder e na posição exaltada que Deus deu ao homem, acima de toda a criação. Por este domínio ele (o homem) mostra da maneira mais clara a imagem de Deus na terra". E ele acrescenta: "Que forma a exercer este poder, ele (o homem) foi dotado de talentos gloriosos. Mas esses são somente os meios. O Domínio sobre os animais é o ponto principal". Disso inferimos que o mais ousado e rude domador de animais brincando com leões e tigres como se fossem cãozinhos domésticos, é o mais doce e delicado dos filhos de Deus. Dizemo-lo com toda a seriedade e sem qualquer traço de pilhéria, para mostrar a tolice do sistema Sociniano.
(*)N.T.: O autor refere-se aos assim denominados "Remonstrants"-Holandeses Arminianos que, em 1610 declararam a sua dissidência do estrito Calvinismo.

O ponto de vista Luterano, como será visto, ocupa posição intermediária entre os Católicos Romanos e os Reformados.

A sua parte mais proeminente (prontamente reconhecida na representação do Dr. Böhl), é que a imagem divina é simplesmente a justiça original. Eles não negam que o homem, enquanto homem, no seu ser e na sua natureza mostra algo de lindo e excelente, lembrando a imagem de Deus; mas a imagem real em si mesma não está na natureza do homem, nem no seu ser espiritual, mas somente na sabedoria e na justiça originais nas quais Deus o criou. Gerhardt escreve: "A verdadeira similaridade com Deus está na alma do homem, parcialmente na sua inteligência, parcialmente nas suas inclinações morais e racionais, excelências estas as quais, as três juntas constituem-se na sua justiça original". E Bauer: "Falando propriamente, esta imagem de Deus consiste perfeições irrompidas da vontade, do intelecto e dos sentimento, as quais Deus criou junto com o homem (concreatas), a qual é a justiça, a retidão original." Daí que a doutrina Luterana ensina que a própria imagem de Deus agora está totalmente perdida, e que o pecador é tão indefeso perante a obra da graça como um pedaço de pau ou uma pedra, ou como alguém acorrentado e incapaz de até mesmo chocalhar suas correntes.

Os Reformados, ao contrário, sempre negaram isso; e ensinaram que a imagem de Deus, sendo uma com a Sua semelhança, não consistia somente da justiça original, mas incluía também o ser e a personalidade humanos; não somente o seu estado, mas também o seu ser. Assim é que a justiça, a retidão original não foi uma coisa adicional, mas o seu ser, a sua natureza e o seu estado estavam originalmente na mais linda harmonia e relação causal. Ursinus diz: "A imagem de Deus tem referência: (1) à substância imaterial da alma, com os seus dons de conhecimento e vontade; (2) a todo o conhecimento criado de Deus e da Sua vontade; (3) à inclinação santa e justa da vontade, e o mover do coração, i.e. a perfeita justiça; (4) à felicidade, santa paz, e abundância de todo gozo; e (5) ao domínio sobre as criaturas. Em tudo isso a nossa natureza moral reflete a imagem de Deus, embora de forma imperfeita. 'São Paulo explica a imagem de Deus a partir da verdadeira santidade e justiça, sem contudo excluir a sabedoria e o conhecimento criado de Deus. Antes, ele os pressupõe".

Estes quatro pontos de vista relativos à imagem divina apresentam quatro opiniões opostas, que são claramente descritas e inteligentemente traçadas. Os Socinianos concebem a imagem de Deus como estando completamente fora do homem e do seu ser moral, e consistindo no exercício de algo parecido com a autoridade divina. Os Católicos Romanos de fato enxergam a imagem divina no homem, mas o separam do ideal divino, i.e., a justiça original que é posta no homem como uma vestimenta. Os Luteranos, como os Socinianos, colocam a imagem divina fora do homem, exclusivamente no ideal divino, o qual eles consideram não como estranho ao homem, mas calculado para ele e originalmente criado na sua natureza (conquanto distinto dela). Por último, os Reformados confessam que toda a personalidade do homem é a impressão da imagem divina no seu ser e atributos; aos quais pertence naturalmente aquela perfeição expressa na confissão da justiça original.

É indubitável que a confissão Reformada é a mais pura e mais excelente expressão da revelação da Bíblia; por isso que nós a mantemos com a mais profunda convicção. Ela sustenta que Deus criou o homem à Sua imagem, e não somente a sua natureza, como Roma; nem somente a sua autoridade, como os Socinianos; nem somente a sua justiça, como os Luteranos.

Esta imagem divina não pertence meramente a um atributo, a um estado, ou a uma qualidade do homem, mas ao homem por inteiro; pois Ele criou o homem à Sua imagem; e a confissão que subtraia disto põe em descrédito a declaração Bíblica positiva, i.e. a partir do testemunho direto do Espírito Santo: "Façamos o homem à nossa imagem, conforme a nossa semelhança"[Gênesis 1:26]; e não: Re-formemos o homem à nossa Imagem".

Nem tampouco está a imagem divina somente na personalidade do homem, como sustentam os teólogos "Vermittelungs" (da meditação) seguidores de Fichte. A personalidade do homem certamente pertence a ela, mas não é tudo, nem mesmo o item principal. A personalidade está em contraste com os nossos iguais, e contraste não pode ser após a imagem de Deus, pois Deus é Uno. A Personalidade é um traço muito fraco da imagem divina. A verdadeira personalidade não está em contraste, mas sim em gloriosa plenitude, tal como aquela em Deus. A uma pessoa somente, pode haver a falta de alguma coisa; mas a Três Pessoas, somente em Um Ser, há a plenitude.

Razão pela qual nós protestamos contra estas asserções enfáticas e de alto tom de que a imagem é a nossa personalidade imperfeita, como que levando a Igreja para longe da Bíblia. Não, o próprio homem é a imagem de Deus, todo o seu ser como homem - em sua existência espiritual, no ser e na natureza da sua alma, nos atributos e nas obras que adornam e que dão expressão ao seu ser; não como se este ser humano fosse uma locomotiva sem vapor, posando como um manequim, mas como um organismo vivo e ativo, exercendo influência e poder.

Como um ser humano não é defeituoso, mas perfeito; não num estado de quase ser, mas sendo - i.e., ele não tornou-se reto, mas era reto. Esta é a justiça, a retidão original. Por conseguinte, que Deus criou o homem à Sua imagem significa:

1. Que o ser humano é, em forma finita, a impressão do Ser infinito de Deus.

2. Que os seus atributos são a forma finita da impressão dos atributos infinitos de Deus.

3. Que o seu estado era a impressão do contentamento de Deus.

4. Que o domínio que ele exercia era a imagem e a impressão do domínio e da autoridade de Deus.

Ao que pode ser acrescentado que, desde que estima-se ser o corpo humano uma névoa do espírito, ele deve também conter algumas sombras daquela imagem.

Esta confissão, as Igrejas Reformadas devem manter no púlpito, nas classes catedráticas, e nos corredores de recitação de teologia.


VII. Os Néo-Kohlbruggianos.

"Adão viveu cento e trinta anos, e gerou um filho à sua semelhança, conforme a sua imagem, e pôs-lhe o nome de Sete"-Gênesis 5:3

Muitos são os esforços para alterar o significado da frase, "Façamos o homem à imagem, conforme a nossa semelhança", por intermédio de uma tradução diferente; especialmente por faze-la ler "na" ao invés de "conforme" a nossa semelhança. Esta nova leitura é o principal suporte do Dr. Böhl. Com esta tradução, o seu sistema cai ou permanece.

De acordo consigo, o homem não é o portador da imagem divina, mas através de um ato divino ele foi colocado nela, como uma planta é colocada na luz do sol. Tanto quanto a planta permaneça no escuro, seu formato e suas flores são invisíveis; levada até a luz, a sua beleza torna-se aparente. De maneira similar, o homem era sem brilho até que Deus o colocou na radiante glória da Sua imagem, e então ele tornou-se lindo. É claro que esta idéia exige a tradução: "Criemos, o homem na Nossa imagem".

Expliquemos a diferença: A passagem em Gênesis 1:26 tem duas preposições diferentes. Aquela que aparece antes de "semelhança" é invariavelmente utilizada em comparações; enquanto que a outra, que aparece antes de "imagem" é mais utilizada para denotar que algo é encontrado em outro. Daí a tradução, "Na Nossa imagem e conforme a nossa semelhança", tem aparentemente muito em seu favor. A tradução (embora creiamos ser incorreta; pelas razões que apresentamos no próximo artigo), não altera o significado, se corretamente interpretada.

E o que é esta interpretação correta? Não aquela do Dr. Böhl; pois, de acordo com ele, o homem recém criado não se encontrava no meio daquela imagem, mas somente no seu reflexo e na sua radiação. A planta não é colocada no sol, mas nos raios do sol. Não; se Adão estivesse no meio da imagem de Deus, ele então estaria total e completamente cercado, circundado, abrangido por ela.

Ilustremos. Existem imagens de madeira que são cobertas por papel, no qual é impresso um busto ou uma cabeça, e colorido para imitar mármore ou bronze. Pode ser dito da madeira, que ela está na imagem, coberta por ela (pela imagem) por todos os lados. De novo, o escultor na realidade cinzela a imagem, na sua mente, ou posando como modelo, no mármore, até circundar, envolver o bloco inteiro. De maneira similar, pode ser dito que Adão, quando do seu primeiro despertar à consciência, foi envolvido, foi circundado pela imagem de Deus; não externamente, e não somente o seu reflexo, mas o seu tipo, penetrando em todo o seu ser.

A exatidão desta exegese aparece em Gênesis 5:1-3; passagem cujo conteúdo, embora muitas vezes não percebido, conclui este assunto. Aqui a Bíblia traz a criação de Adão a uma conexão direta com a sua própria paternidade de broto conforme a sua própria imagem. Naquela passagem (Gênesis 5:1-3) lemos: "Este é o livro das gerações de Adão. No dia em que Deus criou o homem, à semelhança de Deus o fez. Homem e mulher os criou; e os abençoou, e os chamou pelo nome de homem, no dia em que foram criados. Adão viveu cento e trinta anos, e gerou um filho à sua semelhança, conforme a sua imagem, e pôs-lhe o nome de Sete".

Em ambos casos, é usada a palavra em Hebreu "zelem", imagem. Assim, para obter-se uma compreensão clara e correta da declaração "ser criado à imagem e conforme a semelhança de Deus", a Bíblia nos convida a permitir que a semelhança de um filho para com o seu pai nos seja de assistência. E a imagem do pai encontra-se no ser do filho, é parte dele, e não simplesmente irradia do pai para o filho, externamente. Mesmo na sua ausência, ou após a sua morte, a semelhança continua.

Por conseguinte, ser pai de alguém na nossa imagem e conforme a nossa semelhança, significa dar existência a um ser que carrega em si a nossa imagem e semelhança, embora como pessoa seja distinto de nós. Do que então deve seguir-se que quando a Bíblia diz, com relação a Adão, que Deus o criou na Sua imagem e conforme a Sua semelhança, usando as mesmas palavras "imagem" ("zelem", em Hebreu) e "semelhança" ("demoeth", em Hebreu), ela não pode querer dizer que a imagem divina brilhou sobre Adão, de forma que ele encontrava-se e caminhava na sua luz; mas que Deus o criou de tal modo que todo o seu ser, toda a sua pessoa, e todo o seu estado refletiam a imagem divina, uma vez que ela a carregava em si mesmo.

É notável que as preposições usadas em Gênesis 1:26 ("...Façamos o homem à nossa imagem, conforme a nossa semelhança...") também aparecem na passagem em Gênesis 5:3, mas na ordem inversa. Traduzida, a segunda preposição na frase (a preposição "à", como em Gênesis 1:26), a passagem em Gênesis 5:3 ficou: "...e gerou um filho à sua semelhança, conforme a sua imagem...". E isto é conclusivo. Mostra como é completamente injusto deduzir um significado diferente, do uso de preposições diferentes. Mesmo se traduzirmos a preposição do original por "em" - "na imagem de Deus" - o sentido é o mesmo; pois nos dois casos, a imagem não é um reflexo que cai sobre o homem, somente indicando o seu estado, mas também a sua forma; ambos, estado e ser. - ( 1 )

Contudo, antes de prosseguirmos, permita-se que o próprio Dr. Böhl fale. Pois é possível que tenhamo-lo compreendido erroneamente; o que faz portanto com que seja razoável que as suas próprias palavras sejam apresentadas aos nossos leitores.

Tomamos estas citações da sua obra intitulada, "Von der Incarnation des Gottlichen Wortes"; um livro dogmático, altamente importante, no qual ele lida com as explosões dos teólogos "Vermittelungs" que têm enchido os nossos corações de alegria, parcialmente porque Deus é através delas honrado, e também por causa do consolo oferecido aos corações aflitos. Portanto, não entra na nossa mente diminuir o trabalho do Dr. Böhl. Nós somente contendemos que a sua apresentação da imagem de Deus não é a verdadeira. Nós apontamos, portanto, às importantes e excessivamente claras sentenças nas páginas 28 e 29 da sua obra:

"Deus ordenou que imediatamente, desde o princípio, o homem viesse a estar sob a influência daquilo que é bom, e consequentemente fizesse aquilo que é bom. Ele criou-o na imagem de Deus, conforme a Sua semelhança. O significado disto é feito claro quando consideramos a restauração do homem caído [conforme em Efésios 4:24 ("E vos revistais do novo homem...") e também em Colossenses 3:9 ("...pois que já vos despistes do velho homem..."). Paulo, falando do novo homem com que devemos revestirmo-nos, depois de havermos despido-nos do velho homem, faz referência ao estado original. E agora ele descreve este novo homem como alguém que foi criado à imagem de Deus em justiça e santidade, como Ele verdadeiramente o é. Estas expressões apostólicas contém uma descrição do mesmo equipamento que Moisés caracteriza com as palavras: "Na imagem de Deus, conforme a Sua semelhança". A regeneração é uma nova criação, a qual, no entanto, é ordenada após o modelo do velho, sem tirar-se nada dele, ou acrescentar-se nada a ele. Assim é que o fato de o homem posicionar-se na imagem de Deus, na qual ele encontrava-se conforme a semelhança de Deus, é algo que pode ser tirado do homem sem que se remova a própria criatura de Deus. Ademais, o apóstolo descreve os movimentos do novo homem sob a imagem de várias indumentárias as quais ele precisa vestir (Colossenses 3:12-"Revesti-vos, pois, como eleitos de Deus, santos e amados, de entranhas de misericórdia, de benignidade, humildade, mansidão, longanimidade"). O fundamento e a ocasião de tal estar vestido é Cristo, o Espírito que Cristo envia desde o Pai; ou o encontrar-se em Cristo, ou na graça (e.g. II Coríntios 5:17-"Assim que, se alguém está em Cristo, nova criatura é; as coisas velhas já passaram; eis que tudo se fez novo"; Gálatas 5:16, 18, 25-"Digo, porém: Andai em Espírito, e não cumprireis a concupiscência da carne . . . . Mas, se sois guiados pelo Espírito, não estais debaixo da lei . . . . Se vivemos em Espírito, andemos também em Espírito"; Romanos 5:2-"Pelo qual também temos entrada pela fé a esta graça, na qual estamos firmes, e nos gloriamos na esperança da glória de Deus"). E exatamente da mesma forma é o fundamento para a semelhança com Deus, o encontrar-se na imagem de Deus, de acordo com Gênesis 1:26. - ( 2 )

As palavras em itálico, aliás!, eliminam toda dúvida. É possível conceber a imagem de Deus como havendo desaparecido completamente; e o homem permanecendo homem, todavia.

O Dr. Böhl repete isso, claramente, nas seguintes palavras (na página 29 da sua obra):

"Se agora nós pensamos na criatura como havendo deixado esta posição, todavia esta mesma criatura permanece intacta". - ( 3 )

E isto vai tão longe, que o próprio Dr. Böhl sentiu o quão próximo ele assim retornou aos domínios de Roma, razão pela qual ele continua, dizendo:

"No entanto, com este entendimento, que a criatura não reteve força o suficiente, com a ajuda do gracioso dom de Cristo, para restaurar-se a si mesma, conforme ensinado por Roma. Mas após a queda, o ego do homem, com as mais elevadas dádivas recebidas na sua criação, deixou o seu verdadeiro lugar e é entregue à Morte como sua governadora, e à lei, como sua guia cruel." - ( 4 )

Mais forte ainda: o Dr. Böhl está tão firmemente ligado a esta apresentação que ele diz, até de Cristo, que a Ele, antes da Sua Ressurreição, faltava-Lhe a imagem divina. Veja na página 45: "O nosso Senhor e Salvador encontrava-Se fora da imagem de Deus" ("Ausserhalb des Bildes Gottes stand unser Herr"). O que é de tudo o mais sério, desde que em conseqüência desta apresentação, as paixões e os desejos para com os pecadores são, considerados por eles mesmos, sem pecado, tal como Roma o ensina.

Então lemos, na página 73 da obra do Dr. Böhl:

"O fato de que o homem tenha desejos, de que ele seja guiado por paixões, tais como a raiva, o medo, a inveja, a alegria, o amor, o ódio, a saudade, a dó, tudo isso não constitui pecado; pois o poder para experimentar a raiva, desprazer, ou dó, e as paixões similares, é criado por Deus. Sem estas não haveria vida nem emoção no homem. Daí é que desejos e paixões, no geral, não são pecado em si mesmos. Eles tornam-se e são pecado na presente condição do homem, porque, por intermédio de uma lei interveniente, e através daquela tendência pervertida de vida a qual Paulo chama de uma lei de pecado, o Ego humano é compelido a determinar a sua relação com as paixões e os desejos, i.e. adotar uma atitude boa ou má para com eles". - ( 5 )

Que cada um julgue por si mesmo se falamos demais quando dissemos da necessidade de protestar, no nome da nossa Confissão Reformada, contra o horripilante nesta apresentação Platônica, que mais tarde foi parcialmente defendida pelos teólogos Romanos, e parcialmente pelos teólogos Luteranos.

O Dr. Böhl é excelente quando ele mostra que a justiça, a retidão original não era simplesmente um germe, o qual tinha ainda que desenvolver-se, mas que a justiça de Adão era completa, não lhe faltando nada. Igualmente excelente é a sua prova contra Roma, mostrando que ao homem, na sua natureza nua, falta-lhe absolutamente o poder de santidade. Mas ele erra ao representar a imagem de Deus como algo sem o qual o homem continua homem. Isto coloca a justiça, a retidão e a santidade mecanicamente fora de nós, enquanto que a ligação orgânica entra aquela imagem e o nosso próprio ser, que uma vez existiu e devia, existir, seja exatamente o que deve ser mantido.

E todavia, que não se pense que o Dr. Böhl tenha qualquer inclinação para com Roma. Se enxergarmos corretamente, seu desvio, psicologicamente explicado, provém de um motivo completamente diferente.

É um fato bem conhecido que o Dr. Köhlbrugge, com um ardor de fé glorioso, contra o restabelecimento do Pacto de Obras durante o Pacto da Graça: e introduziu-nos novamente, acentuada e enfaticamente, à completamente perfeita obra do nosso Salvador, a qual nada pode ser acrescentado. Assim é que este pregador de justiça foi compelido a fazer o filho de Deus lembrar-se do que ele era, fora de Cristo. É claro, que fora de Cristo, não há diferença entre um filho de Deus e uma pessoa ímpia, sem Deus. Então todos estão num mesmo monte; como o ritual da Ceia do Senhor lindamente confessa: "Que buscamos a nossa vida fora de nós mesmos, em Jesus Cristo, e desta forma reconhecemos que encontramo-nos no meio da morte"; como também o Catecismo de Heidelberg confessa: "...que tenho pecado gravemente contra todos os mandamentos de Deus e não ter observado nenhum deles, e ainda de eu ser sempre propenso a tudo que é mau..."[Pergunta 60].

Se virmos corretamente, o Dr. Böhl tentou reduzir esta parte da verdade a um sistema dogmático. Ele assim considerou: "Se um filho de Deus tem sua vida fora de si mesmo, então Adão, que era um filho de Deus deve também ter tido sua vida fora de si mesmo. Por conseguinte, a imagem de Deus não estava no, mas fora, do homem".

E qual é o erro do assim considerar? Este, que o filho de Deus permanece um pecador até a sua morte, e somente é inteiramente restaurado após a sua morte. Somente então, é sua a redenção completa. Enquanto que em Adão, antes da sua queda, não havia pecado algum; por conseguinte Adão nunca poderia dizer de si mesmo que ele encontrava-se no meio da morte.

Com toda a veemência dos nossos corações, nós rogamos a todos aqueles que conosco possuem o tesouro da pregação do Dr. Köhlbrugge, para cuidadosamente notar este desvio. Se os jovens Kohlbruggianos [N.T.: discípulos do Dr. Köhlbrugge] fossem tentados a não compreender o seu mestre, nesse aspecto, a perda seria incalculável, e a cisão na Confissão Reformada seria permanente; uma vez que tocaria num ponto o qual afeta toda a confissão da verdade.


VIII. Após a Escritura.

"No dia em que Deus criou o homem, à semelhança de Deus o fez" - Gênesis 5:1

Nas páginas precedentes, mostramos que a tradução, "na Nossa imagem", na verdade quer dizer, "à nossa imagem" [N.T.: vide nota post scriptum ( 1 )]. Fazer qualquer coisa numa imagem não é linguagem; é impensável, logicamente falso. Procedemos agora a mostrar como deveria ser traduzido, e damos nossos motivos para tal.

Começamos citando algumas passagens do Antigo Testamento, nas quais ocorre a preposição "B" [N.T. o autor refere-se ao vocábulo, à preposição no idioma original da Escritura; consoante sua posterior tradução para o Inglês], a qual, em Gênesis 1: 27, encontra-se antes da palavra "imagem"; passagens nas quais ela não pode ser traduzida pela forma contraída "em + a = na", mas exige uma preposição de comparação, tal como "após", ou "segundo", ou "como", ainda "à".

Em Isaías 48:10 lemos: "Eis que já te purifiquei, mas não como a prata; escolhi-te na fornalha da aflição". Aqui a preposição "B" encontra-se antes de "a prata", como em Gênesis 1:27, antes de "imagem". É óbvio que não pode ser traduzida como "na prata" ("em + a"), senão somente "como prata". Certamente que o Senhor não jogaria os Judeus num cadinho cheio de prata derretida. A preposição é uma de comparação; como em I Pedro 1:17 ("...como prata ou ouro como prata ou ouro...") o refino de Israel é comparado àquele de um metal nobre. A passagem em Isaías 48:10 pode ser traduzida como: "Eis que já te purifiquei, mas não de acordo com a natureza da prata"; ou, simplesmente, "como a prata".
No Salmo 102:3 lemos: "Porque os meus dias se consomem como a fumaça, e os meus ossos ardem como lenha". Em Hebreu, a mesma preposição "B" ocorre antes de "a fumaça", e quase que todos exegetas a traduzem por "como a fumaça".

Novamente, no Salmo 35:2 lemos: "Pega do escudo e da rodela, e levanta-te em minha ajuda". "Levanta-te na minha ajuda" não faz nenhum sentido. A idéia não permite nenhuma outra tradução senão esta: "Levantai, de modo que Vós sejais minha ajuda"; ou, "Levanta-te como minha ajuda"; ou, como a Versão Autorizada o tem: "Levanta-te em minha ajuda".

O mesmo resultado encontramos em Levítico 17:11 : "Porque a vida da carne está no sangue; pelo que vo-lo tenho dado sobre o altar, para fazer expiação pelas vossas almas; porquanto é o sangue que fará expiação pela alma". Aqui ocorre a mesma preposição "B". No original, em Hebreu, lê-se o vocábulo "Banefesh", o qual foi traduzido por "pela alma". Seria absurdo traduzir-se "na alma" ("em" + "a" alma); pois o sangue não corre na alma, nem tampouco a expiação não ocorre na alma, mas sim no altar. Aqui também temos uma comparação (uma substituição). O sangue é como a alma, representa a alma na expiação, toma o lugar da alma.

Notamos o mesmo na passagem em Provérbios 3:26, onde a sabedoria de Salomão escreveu: "Porque o SENHOR será a tua esperança; guardará os teus pés de serem capturados". A mesma preposição também ocorre aqui. No texto original em Hebreu lê-se a palavra "Bkisleka", que literalmente significa "por um lombo a vós". E porque os lombos são a força de um homem, o termo é então usado metaforicamente para indicar a base de confiança e de esperança na aflição. O sentido é então, perfeitamente claro. Diz Salomão: "O Senhor será para ti como um fundamento de confiança, teu refúgio e tua esperança". Porquanto se lêssemos nesta passagem: "O Senhor será na tua esperança", poderia inferir-se que, entre outras coisas, o Senhor estivesse também na esperança dos justos; o que não seria Bíblico e teria gosto de Pelagianismo. Na Bíblia, o Senhor somente é a esperança do Seu povo. Por conseguinte a preposição não significa "em + a", mas indica sim, uma comparação.

Para dar mais um exemplo, lemos em Êxodo 18:4 : "...O Deus de meu pai foi por minha ajuda, e me livrou da espada de Faraó". Traduza esta passagem por "...O Deus do meu pai estava na minha ajuda", e quão ilógica e não Bíblica será a idéia!

Dessas passagens, às quais outras podem ser acrescentadas, então aparece que:

( 1 ) - Esta preposição não pode sempre ser traduzida por "em".

( 2 ) - A sua utilização como preposição de comparação, no sentido de "como", "por", "após", está longe de ser rara.

Armados com esta informação, retornemos agora à passagem em Gênesis 1:26; e na nossa opinião, tal passagem não nos oferece agora qualquer dificuldade que seja. Como em Isaías 48:10, a preposição e o substantivo são traduzidos "como a prata"; no Salmo 102:4, "como fumaça", no Salmo 35:2, "como" ou "em minha ajuda"; em Levítico 17:11, "pela alma" ou "no lugar da alma"; em Provérbios 3:16, "como" ou "para a tua confiança"; a Versão Alemã da Bíblia em Hebreu de Viena traduz, "Façamos o homem à (ou "como") a Nossa imagem", i.e., "Façamos o homem, que será a Nossa imagem na terra", ou, numa forma mais livre de tradução, "Façamos uma espécie de ser, que terá a Nossa imagem na terra", ou "que será como a Nossa imagem na terra", ou "que seja para Nós, na terra, como uma imagem".

Então segue-se, em Gênesis 1:27 : "E criou Deus o homem à sua imagem; à imagem de Deus o criou; homem e mulher os criou".
É, claro, exatamente o mesmo se eu disser, "Deus criou o homem à Sua imagem", i.e., de forma que o homem tornou-se portador da Sua imagem, ou "Deus criou o homem para uma imagem de Si mesmo". Em ambas situações, e em maneira similar, é expressado que o homem devia exibir uma imagem de Deus: Assim pois, a imagem de Deus faltava na terra. Quando Deus criou o homem, a falta foi suprida; pois aquela imagem era o homem, sobre qual ser o Senhor Deus havia estampado a Sua própria imagem. Portanto, não vemos nenhuma diferença nas duas traduções.

Falando a respeito da imagem estampada num lacre de cera, eu posso dizer: "Eu estampei a cera à imagem do selo", referindo-me à imagem côncava do selo; ou, "A imagem está estampada na cera", referindo-me à imagem convexa na cera.

Acrescentamos três observações: Primeira, a palavra "homem" em Gênesis 1:26 não refere-se a uma pessoa somente, mas à toda a raça. Adão não era meramente uma pessoa, mas o nosso progenitor e cabeça federal. A raça inteira estava nos seus lombos. A humanidade consiste num dado momento do agregado daqueles que vivem ou que viverão neste mundo, sejam muitos ou poucos. Adão, enquanto sozinho, era a humanidade; quando Eva lhe foi dada, ele e ela eram a humanidade. "Façamos o homem à Nossa imagem e conforme a Nossa semelhança", é igual a: "Criemos a humanidade, a qual terá a Nossa imagem". Mas isto refere-se também ao indivíduo, naquilo em que ele é um membro da família humana. Portanto, Adão teve filhos à sua imagem e conforme a sua semelhança. Ainda assim existe uma diferença. Homens têm diferentes dons, talentos e qualificações; a impressão completa da imagem divina não poderia aparecer nos dotes individuais, mas na manifestação total da raça, se a mesma houvesse permanecido sem pecado.

Daí que a Versão Holandesa utiliza o plural, embora o original em Hebreu permanece no singular "homem": não somente Adão, mas o gênero humano, a humanidade, foi criada à imagem divina.

Portanto, quanto o homem original caiu, o segundo Adão veio em Cristo, quem, como a segunda Cabeça federal, continha em Si mesmo toda a Igreja de Deus. Em Sua capacidade mediadora, Cristo apareceu como a imagem de Deus, no lugar de Adão. Portanto, cada inimigo da Igreja deve ser transformado conforme a Sua imagem - I Coríntios 15:49 ("E, assim como trouxemos a imagem do terreno, assim traremos também a imagem do celestial"); Romanos 8:29 ("Porque os que dantes conheceu também os predestinou para serem conformes à imagem de seu Filho, a fim de que ele seja o primogênito entre muitos irmãos"). E a Igreja, representando a humanidade regenerada, é o "pleroma" (*) do Senhor; pois ela é chamada de "...a plenitude daquele que cumpre tudo em todos"[Efésios 1:23].
(*) - N.T.: o autor utiliza o vocábulo grego "pleroma", que também pode ser traduzido por plenitude, consumação, ultimação, coroação, perfeição.

Segundo, desde que o homem é criado para ser a imagem de Deus na terra, ele deve estar disposto a permanecer imagem, e nunca presumir ou imaginar ser original. Original e imagem são opostos. Deus é deus, e o homem não é Deus, mas somente a imagem de Deus. Daí ser a essência do pecado, quando o homem recusa-se a permanecer imagem, reflexo, sombra, exaltando-se a si mesmo para ser alguma coisa real em si mesmo. A conversão depende, portanto, somente da sua disposição para tornar-se imagem novamente, i.e. para crer. Aquele que torna-se uma imagem, é nada em si mesmo, e exibe a todos que ele está em absoluta dependência novamente, dAquele cuja imagem ele carrega; e isto é, de imediato, a mais elevada honra para o homem e a sua mais completa dependência.

Por último, Deus deve ter a Sua imagem na terra. Para este propósito é que Ele criou Adão. Em havendo degenerado isto além do reconhecimento, o homem nega a existência da imagem divina na terra. E assim o culto a imagem originou-se. Culto a imagens quer dizer que o homem diz: "Eu me encarregarei de fazer uma imagem de Deus". E isto é diametralmente oposto à obra de Deus. É a Sua santa prerrogativa fazer uma imagem de Si mesmo; e a criatura nunca deveria ousar tentá-lo. Assim é que é presunção, quando, aspirando a ser Deus, o homem recusa-se a ser a Sua imagem, degenera-a em si mesmo, e propõe-se a representar a Deus em ouro ou prata.

Idolatria de imagens é um pecado horrível. Deus disse: "Não farás para ti imagem de escultura..."[Êxodo 20:4]. Este pecado provém de Satã. Ele sempre imita a obra de Deus. Ele nunca quererá ser menos que Deus. Quando, afinal, a Grande Besta aparece, o Dragão proclama: "Todos os que habitam na terra devem fazer uma imagem da Besta!"[N.T. vide Apocalipse 13:14]. Deus decretou fazer a Sua própria imagem ser o objeto do Seu prazer eterno. Mas Satã, opondo-se a isto, degenera aquela imagem e faz uma imagem de si mesmo, não de mapa, pois ele está degenerado e arruinado, mas de uma besta. E assim, na sua suprema manifestação, ele julga-se a si mesmo. O Filho de Deus tornou-se um homem, a criação de Satã é uma besta.

Quando, finalmente, a Besta e a sua imagem forem depostas, por Aquele que é como um filho de homem, então será o triunfo do Senhor sobre os Seus inimigos. Então a imagem divina é restaurada, para nunca mais ser degenerada ou corrompida. E o Deus Todo-Poderoso regozija-Se para sempre e sempre no Seu próprio reflexo.


X. A Imagem de Deus no Homem.

"E, assim como trouxemos a imagem do que é terreno, devemos trazer também a imagem do celestial" - I Coríntios 15:49

Mais um ponto permanece ainda a ser discutido, a saber, se a imagem divina refere-se à imagem de Cristo.

Esta opinião singular tem encontrado muitos defensores calorosos na Igreja desde o princípio. Ela originou-se com Origen, quem com as suas heresias brilhantes, fascinantes e sedutoras desestabilizou muitas coisas na Igreja; e sua heresia neste aspecto tem encontrado muitos defensores, tanto no Oriente como no Ocidente. Até Tertuliano e Ambrósio a suportaram, assim como Basil e Chrisóstomo; e foi necessário nada menos que alguém como Agostinho para exterminá-la.

Os nossos teólogos Reformados, seguindo Agostinho de perto, têm se oposto a ela de maneira forte. Junius, Zanchius e Calvino, Voetius e Coccejus a condenaram como um erro. Nós podemos seguramente afirmar que na nossa herança Reformada, este erro nunca teve lugar.

Mas, no último século, ela apareceu novamente na Igreja. A filosofia panteísta a ocasionou; e seus efeitos retardados têm tentado os nossos teólogos Alemães e Holandeses, da mediação, a retornar a este erro ancestral.

Os grandes filósofos, que encantaram as mentes de homens no início deste século apaixonaram-se pela idéia de que, Deus, tornou-se homem. Eles ensinaram não que o Verbo se fez carne, mas que Deus tornou-se homem; e isto no sentido fatal de que Deus está sempre tornando-Se, e que Ele torna-Se um Deus melhor e mais puro na medida em que Ele torna-Se homem, mais puramente. Este sistema pernicioso, o qual subverte as fundações da fé Cristã, e sob uma forma Cristã aniquila o Cristianismo essencial, tem levado à doutrina de que em Cristo Jesus esta encarnação veio a ser um fato; e que daí deduziu-se que Deus teria se tornado homem mesmo se o homem não houvesse pecado.

Nós temos freqüentemente alertado do perigo de ensinar-se esta doutrina.
A Bíblia a repudia, ensinando que Cristo é um Redentor do pecado e uma expiação para o mesmo. Mas uma mera contradição passageira não parará este mal; esta linha venenosa, correndo através na renda e na tela da teologia Ética, não será retirada da pregação até que a convicção prevaleça, de que é filosófica e panteísta, levando e guiando para longe da simplicidade da Bíblia.

Mas no momento nada pode ser feito. Quase que todos os manuais Alemães agora usados por nossos ministros ascendentes alimentam este erro; daí prevalecer a idéia de que a imagem na qual o homem foi criado era a de Cristo.

E isto é natural. Tanto quanto seja mantido que, mesmo sem o pecado, o homem estava destinado para Cristo e Cristo para o homem, deve seguir-se que o homem original foi calculado para Cristo, e, por conseguinte foi criado à imagem de Cristo.

Para evidenciar que isto desvia da verdade, referimos os teólogos aos escritos de Agostinho, de Calvino, e de Voetius neste ponto, e aos nossos leitores oferecemos uma breve explicação do porque nós e todas as igrejas Reformadas rejeitamos esta interpretação.

Começamos por referirmo-nos às muitas passagens na Bíblia, ensinando que o pecador redimido deve ser renovado e transformado conforme a imagem de Cristo.

Em II Coríntios 3:18 lemos: "E todos nós, com o rosto desvendado, contemplando, como por espelho, a glória do Senhor, somos transformados, de glória em glória, na Sua própria imagem, como pelo Senhor, o Espírito"; e em Romanos 8:29, "Porquanto aos que de antemão conheceu, também os predestinou para serem conforme a imagem de Seu Filho, a fim de que Ele seja o primogênito entre muitos irmãos"; e em I Coríntios 15:49, "E, assim como trouxemos a imagem do que é terreno, devemos trazer também a imagem do celestial". A esta categoria pertencem todas as passagens tais, nas quais o Espírito Santo admoesta-nos a conformarmo-nos ao exemplo de Jesus, o qual pode não ser entendido como mera imitação, mas o qual decididamente significa uma transformação conforme a Sua imagem. E, finalmente, aqui pertencem aquelas passagens que ensinam que devemos progredir na direção de um homem perfeito, "...à unidade da fé e do pleno conhecimento do Filho de Deus, à perfeita varonilidade, à medida da estatura da plenitude de Cristo"[Efésios 4:13], e que "...porque haveremos de vê-Lo como Ele É."[I João 3:2].

Portanto, os crentes são chamados a transformarem-se conforme a imagem de Cristo, a qual é o objetivo final da sua redenção. Mas esta imagem não é o Verbo Eterno, a Segunda Pessoa na Trindade, mas sim o Messias, o Verbo Encarnado. A passagem em I Coríntios 15:48, 49 ("Como foi o primeiro homem, o terreno, tais são também os demais homens terrenos; e, como é o homem celesti