A Obra do Espírito Santo

por

Abraham Kuyper, D.D., LL.D

 

VOLUME DOIS

A Obra do Espírito Santo no Indivíduo

Capítulo Terceiro - Graça Preparatória

 

 


XVII. O Que É?

"Nós sabemos que já passamos da morte para a vida, porque amamos os irmãos. Quem não ama permanece na morte."-I João 3:14

É desnecessário dizer que o escopo dessas discussões não inclui a obra redentora como um todo, a qual no sentido da melhor escolha não é obra do Espírito Santo sozinho, mas do Deus Triúno, cuja majestade real brilha e cintila em tal obra, com glória excelsa. A obra redentora não inclui somente a obra do Espírito Santo, mas até mais aquela obra do Pai e aquela obra do Filho. E nessas três, nós enxergamos a atividade triúna das suaves misericórdias do Deus Triúno.

Estas presentes discussões tratam somente daquela parte da obra como um todo, aquela parte que revela a operação do Espírito Santo.

A primeira questão em ordem é aquela da assim chamada "graça preparatória". Esta é uma questão de importância sobrepujante, desde que o Metodismo ( 1 ) a negligencia e a ortodoxia moderna abusa dela, de forma a fazer com que a escolha determinante na obra da graça, uma vez mais dependa do livre arbítrio do homem.

Com referência ao ponto principal, deve ser concedido que existe uma "gratia præparans", como nossos teólogos antigos costumavam chama-la, i.e., uma graça preparatória; não uma preparação de graça, mas uma graça que prepara, a qual nas suas ações preparatórias é uma graça real, inalterada e não duvidada. A Igreja tem sempre mantido esta confissão através dos seus mais intérpretes mais sólidos e seus confessores mais nobres. Ela, a Igreja, não poderia abrir mão dela enquanto Deus seja de fato eterno, imutável e onipresente; mas através dela a Igreja deve forçosamente protestar contra a falsa representação de que Deus permite que um homem nasça e viva durante anos de forma independente dEle e sem ser por Ele notado, de repente Ele converta-o quando bem Lhe convier, e a partir daquela hora faça dele objeto do Seu cuidado e do Seu amor.

Embora não possa ser negado que o pecador partilhasse desta desilusão porque - como ele não se preocupava com Deus, por que então Deus deveria preocupar-Se com ele? - ainda assim a Igreja não pode encorajá-lo nesta idéia ímpia. Pois ela deprecia as virtudes, as glórias e os atributos divinos. Hereges de cada nome e origem têm feito da salvação o seu estudo principal, mas quase sempre têm negligenciado o conhecimento de Deus. E todavia, cada credo começa com a frase: "Creio em Deus Pai Todo-Poderoso, Criador do céu e da terra"; e o valor de tudo o quanto segue-se, com relação a Cristo e à nossa redenção, depende somente da interpretação correta daquele primeiro artigo. Assim é que a Igreja tem sempre insistido num conhecimento puro e correto de Deus em cada confissão e em cada parte da Obra redentora; e tem considerado ser privilégio e tarefa principal guardar a pureza deste conhecimento. Mesmo a salvação da alma não deveria ser desejada se às custas da injúria menor que fosse, contra a pureza daquela confissão.

Com relação à obra da graça preparatória, era necessário antes de tudo examinar se o conhecimento de Deus fora mantido em sua pureza, ou se para favorecer o pecador ele fora distorcido e deformado. E desta forma testado, não pode então ser negado que o cuidado de Deus para com os Seus eleitos não começa de forma arbitrária num momento, mas sim que está entremeado com toda a sua existência, incluindo a sua concepção, e mesmo antes que eles fossem concebidos, entremeado está o cuidado de Deus com os mistérios daquele amor redentor que declara "...com amor eterno te amei..."[Jeremias 31:3]. Por conseguinte, é impensável que Deus deixasse um pecador à sua própria conta por anos, para capturá-lo num certo momento, no meio da sua existência.

Não, se Deus é para permanecer Deus e o Seu poder onipresente é para permanecer ilimitado, a salvação de um pecador deve ser uma obra eterna, envolvendo sua existência por completo - uma obra cujas raízes estão ocultas nas fundações não vistas das maravilhosas misericórdias as quais estendem-se muito além da concepção do pecador. Não pode ser negado que um homem, convertido na idade de vinte e cinco anos, foi durante sua vida sem Deus o objeto do labor divino, do cuidado e da proteção divinos; que na sua concepção e antes do seu nascimento a mão de Deus o segurava e o desenvolvia; sim, que a obra de Deus, a qual operou nele muito antes da sua conversão deve retroagir até mesmo no divino conselho.

A confissão da eleição e pré-ordenação é essencialmente o reconhecimento de uma graça ativa muito, muito antes do momento da nossa conversão. A idéia de que desde a eternidade Deus tenha registrado um mero e arbitrário nome ou número, para despertá-lo somente depois de muitos séculos, é verdadeiramente profana. Não; os eleitos de Deus nunca estiveram perante a Sua visão eterna como meros nomes ou números; mas cada alma eleita é também pré-ordenada a permanecer perante Ele no seu desenvolvimento completo, o objeto em Cristo, do prazer eterno de Deus.

No sacrifício de Cristo no Calvário, o qual é pleno para os eleitos, justificando-os pela Sua Ressurreição, não foi executado independentemente dos eleitos, mas incluindo-os todos. A ressurreição é uma obra da Onipotência divina, na qual Deus traz de volta dos mortos não somente a Cristo sem os Seus, mas Cristo com os Seus. Assim é que cada santo com uma clara visão espiritual confessa que o seu Pai celeste executa nele uma obra eterna, a qual não começou somente quando da sua conversão, mas operada no eterno conselho através dos períodos dos pactos antigo e novo; em sua pessoa todos os dias da sua vida, e a qual operará nele, por toda a eternidade. Mesmo nesse sentido geral, a Igreja não pode negligenciar a confissão da graça preparatória.

No entanto, a questão afunila-se quando, excluindo o que precede o nosso nascimento, consideramos somente a nossa vida pecadora antes da conversão, ou os anos intermediários entre a idade da discrição e o momento quando as escamas caem dos nossos olhos.

Durante aqueles anos nos quais afastávamo-nos de Deus, ao invés de achegarmo-nos mais próximos a Ele, o pecado eclodiu mais violentamente em um do que em outro, mas havia iniqüidade em todos nós. Sempre que a linha do prumo era estendida perpendicularmente ao lado da nossa alma, notava-se que ela estava longe de estar reta. E muitos sustentam que, durante este período cheio de pecados, a graça preparatória está fora de questão. Eles dizem que "Onde há pecado, não pode haver nenhuma graça"; e portanto durante aqueles anos o Senhor deixa o pecador entregue a si mesmo, para retornar a ele quando a fruta amarga do pecado esteja madura o suficiente para move-lo à fé e ao arrependimento. Eles não negam a eleição graciosa e a pré-ordenação de Deus, nem o Seu cuidado para com os Seus eleitos no seu nascimento; mas eles sim negam a Sua graça preparatória durante os anos de alienação, e crêem que a Sua graça começa a operar somente quando ela surge, quando da sua conversão.

É claro que há alguma verdade nisto; existe tal coisa como o abandono do pecador à iniqüidade, quando Deus permite a um homem trilhar os seus próprios caminhos, entregando-o a paixões vis, para fazer coisas que são impróprias. Mas ao invés de interromper o labor de Deus sobre alma tal, as próprias palavras da Bíblia, "os entregar"[Romanos 1:24, 28], mostram que este ser arrastado para longe na correnteza do pecado não ocorre sem que Deus o note. Homens têm confessado que, se o pecado interior não houvesse se revelado, surgindo de repente em toda a sua fúria, eles nunca haveriam descoberto a corrupção interior nem haveriam clamado a Deus por misericórdia. A compreensão da sua culpa e a memória do seu passado tenebroso têm sido para muitos santos poderosas motivações para lutar com mãos fortes e corações compadecidos pelo resgate daqueles outros que encontram-se perdidos sem esperança nas mesmas águas mortais das quais eles foram salvos. A lembrança da profunda corrupção e degradação das quais eles agora encontram-se a salvo tem sido para muitos a mais potente salvaguarda de imaginárias auto justiça e retidão, orgulho próprio, e o conceito de serem mais santos que os outros. Muitas profundezas de reconciliação e de graça têm sido descobertos e sondados somente pelos corações, tão profundamente feridos que, pelo acobertar da sua culpa, uma simples confissão superficial do sangue expiador não seria suficiente. Quão profundamente Davi caiu; e quem bradou desde as profundezas da misericórdia com júbilo maior do que ele o fez? Quem imprimiu a pura confissão da Igreja mais profundamente do que Agostinho, incomparável entre os pais da Igreja, quem desde o abismo da sua própria culpa e devastação aprendeu a contemplar o firmamento das eternas misericórdias de Deus? Mesmo deste ponto de vista extremo do caminho pecaminoso do homem, não pode ser afirmado que naquele mesmo caminho a graça de Deus fosse suspensa. Luz e sombra são aqui necessariamente mescladas.

E isto não é tudo. Mesmo que pelo pecado nós tenhamos capitulado a tudo, e o ego pecador, conquanto virtuoso exteriormente, tenha tingido cada ação da vida com o pecado, ainda assim isto não é tudo da vida. Em meio a tudo, a vida foi moldada e desenvolvida. O pecador de vinte e cinco anos de idade difere da criança de três anos de idade, quem através do seu temperamento feio mostrava plenamente sua natureza pecadora. Durante todos aqueles anos a criança tornou-se um homem. Aquilo que nele encontrava-se dormente manifestou-se de forma gradual. Influências diversas operaram nele. Ele dominou o conhecimento e o seu conhecimento cresceu. Talentos foram despertos e desenvolvidos. A memória e as lembranças acumularam tesouros de experiência. Conquanto pecaminosa a forma, o caráter acentuou-se e alguns dos seus traços adotaram linhas definidas. A criança tornou-se homem - uma pessoa, vivendo, existindo, e pensando de forma diferente das outras pessoas. E em tudo isso, assim confessa a Igreja, estava a mão do Deus Onipresente e Todo-Poderoso. É Ele quem, durante todos estes anos de resistência guiou e direcionou a Sua criatura de conformidade com o Seu próprio propósito.

Mais cedo ou mais tarde o Sol da Graça brilhará sobre ele, e, desde que muito depende da condição na qual a graça o encontre, é o Próprio Senhor Deus quem prepara tal condição. Ele a prepara através de graciosamente impedir que o seu caráter adote traços os quais evitariam mais tarde que ele trilhasse seu caminho no reino de Deus, e, por outro lado, por graciosamente desenvolver nele tal caracteres e características tais que aparecerão após a sua conversão, adaptados à tarefa para a qual Deus tem para ele designado.

E é assim evidente que mesmo durante o tempo da alienação, Deus concede graça aos Seus eleitos. E ao final ele perceberão o quão evidentemente todas as coisas cooperaram para o bem, não porque ele assim tenha intencionado, mas apesar das suas intenções pecaminosas, e somente porque a graça protetora de Deus estava trabalhando em, e através, e por intermédio de tudo. Seu curso pode ter sido diferente em todos sentidos. Que seu curso é como é, e não muito pior, ele não deve a si mesmo, mas a um favor muito mais elevado. Assim, revendo o passado negro da sua vida, o santo pensa a princípio não existir nada a não ser uma noite de trevas satânicas; mais tarde, porém, estando melhor instruído, ele percebe através daquelas trevas um tênue brilho do amor divino.

Na verdade, durante a sua vida existem três períodos distintos de gratidão:

Primeiro, imediatamente após a sua conversão, quando ele não consegue pensar em outra razão para agradecimento senão a graça recém encontrada.

Segundo, quando ele aprende a render graças também pela graça da sua eleição eterna, que se estende muito além da primeira graça.

Por último, quando as trevas entre a eleição e a conversão dissipam-se, ele agradece a Deus pela graça preparatória, a qual cuidava de sua alma, em meio àquelas trevas.


XVIII. O Que Não É.

"...somos feitura Sua..."-Efésios 2;10

No artigo anterior nós sustentamos que existe a graça preparatória. Em oposição ao deísmo contemporâneo dos Metodistas( 1 ), as igrejas Reformadas devem confessar essa verdade excelente em toda a sua dimensão. Mas dela não deveria abusar-se para restabelecer o livre arbítrio do pecador, como o fizeram os Pelagianos, e os Arminianos após eles, e como os Éticos agora o fazem, embora de maneira diferente.

O Metodista erra ao dizer que Deus não cuida do pecador até que Ele de repente o capture no seu caminho de pecado. Nem podemos nós tolerar o erro oposto, a negação da regeneração, o novo ponto de partida na vida do pecador, o qual faria da obra da conversão nada mais que um despertar de energias reprimidas e dormentes. Não existe transição gradual; a conversão não é meramente o curar de uma doença, nem o levantar-se do que encontrava-se reprimido; nem no mínimo de tudo, o despertar de energias dormentes.

Com relação ao seu primeiro nascimento, o filho de Deus estava morto, e pode ser trazido à vida somente por intermédio de um segundo nascimento, tão real quanto o primeiro. Geralmente a pessoa assim favorecida não se dá conta disso. Na natureza do caso, o homem é inconsciente do seu primeiro nascimento. A consciência vem somente com os anos. E o mesmo aplica-se à regeneração, da qual ele não tinha consciência até a hora da sua conversão; e isto pode ser dez ou vinte anos mais tarde.

A base sobre a qual a Igreja confessa que uma grande maioria dos homens são nascidos de novo antes do santo Batismo são realmente muitas; razão pela qual, no Batismo, ela refere-se aos filhos dos crentes como sendo regenerados.

E o que ensinam com relação a isto os Semi-Pelagianos de todos os tempos e matizes, e os Éticos da atualidade? Eles rebaixam o primeiro ato de Deus nos pecadores a uma espécie de graça preparatória, concedida não somente aos eleitos, mas a todas as pessoas batizadas. Eles a representam assim:

Primeiro, todos os homens são concebidos e nascidos em pecado; e se Deus não desse o primeiro passo, todos pereceriam.

Segundo, Ele concede às crianças nascidas na Igreja Cristã um tipo de graça assistente, aliviando a incapacidade.

Terceiro, portanto cada pessoa batizada tem o poder de aceitar ou rejeitar a graça oferecida.

Quarto, razão pela qual, dos muitos que receberam a graça preparatória, alguns escolhem a vida e outros a perdição.

E esta é a confissão não de Agostinho, mas de Pelágio; não de Calvino, mas de Castellio; não de Gomarus, mas de Armínio; não das igrejas Reformadas, mas das denominações as quais eles têm condenado como heréticas.

Esta mentira ímpia, a qual permeia toda esta representação, precisa ser erradicada; e os irmãos Metodistas merecem o nosso mais forte suporte, quando com entusiasmo santo eles opõem-se a este falso sistema. Se esta representação for verdadeira, então o conselho de Deus perdeu toda a sua certeza e imutabilidade; então a obra redentora do Mediador é incerta em sua aplicação; então o nosso passar da morte para a vida depende, no final, da nossa própria vontade; e o filho de Deus é roubado de todo o seu conforto na vida e na morte, desde que esta nova vida pode ser perdida.

Não é aval para os teólogos Éticos, quando sob muitas formas lindas eles confessam sua crença numa eleição eterna, e que a graça não pode ser perdida, e na perseverança dos santos. Enquanto eles não se purgarem do seu erro principal - a saber, que no Batismo Deus alivia tanto a incapacidade do pecador de forma que ele possa escolher a vida de si mesmo - eles não se encontram na base das igrejas Reformadas, mas estão diretamente opostos a ela. Nem tampouco serão eles contados como filhos da família da fé Reformada até que, sem nenhum subterfúgio, eles confessem definitivamente que a graça preparatória não opera de forma alguma, exceto nas pessoas as quais certamente virão à vida, e nunca mais serão perdidas. Supor que esta graça pode operar num homem sem salvá-lo por completo, ao máximo, é romper com a doutrina da Bíblia e virar as costas para uma característica vital das igrejas Reformadas. Não negamos que muitas pessoas estão perdidas, nas quais muitos poderes excelentes têm operado. O apóstolo ensina isto de forma muito clara na Epístola: "...os que já uma vez foram iluminados, e provaram o dom celestial,..."[Hebreus 6:4]. Mas existe um grande golfo entre a obra de Deus naqueles e aquela nos Seus eleitos. As operações nesses não eleitos não têm nada em comum com a graça salvadora; por conseguinte a graça preparatória, assim como graça salvadora, encontra-se totalmente fora de questão. Certamente que há a graça preparadora, mas somente para os eleitos que virão certamente à vida, e que, uma vez acesos, animados, assim permanecerão. A doutrina fatal das três condições - a saber, ( 1 ) dos espiritualmente mortos, ( 2 ) dos espiritualmente vivos, e ( 3 ) de homens oscilando entre a vida e a morte - precisa ser abandonada. A propagação desta doutrina nas nossas igrejas destruirá certamente o seu caráter espiritual, como o fez nas antigas igrejas Huguenotes da França. Vida e morte são opostos absolutos, e um terceiro estado entre elas é impensável. Aquele que está vivo porém por muito pouco, pertence ao grupo dos viventes; e aquele que recém faleceu pertence ao grupo dos mortos. Um aparentemente morto está ainda vivo, e o outro, enquanto aparentemente vivo, já está morto. A linha divisória é da largura de um fio de cabelo, e um estado intermediário não existe. Isto também aplica-se à condição espiritual. Um vive, embora ele tenha recebido não mais que o germe vital, e ainda vagueia sem se converter, nos caminhos do pecado. E o outro está morto, muito embora experimentando a dádiva celeste, ainda que a vida não seja reacesa em sua alma. Qualquer outra representação é falsa.

Outros avançam o ponto de vista de que a graça preparatória prepara não para a recepção da vida, mas para a conversão. E isto, é tão pernicioso quanto o ponto de vista anterior. Pois então a salvação da alma depende não da regeneração, mas sim da conversão; e isto faz impossível a salvação das nossas crianças que perecem ainda em tenra idade. Não; ao lado dos túmulos das nossas crianças batizadas, confiantes da sua salvação através do Nome dado sob o céu, nós rejeitamos o ensinamento de que a salvação depende da conversão; mas confessamos que a salvação é efetuada pelo ato divino da criação de uma nova vida, a qual mais cedo ou mais tarde se manifesta na conversão.

A graça preparatória sempre precede a nova vida; portanto ela cessa mesmo antes do santo Batismo, em crianças restauradas antes de haverem sido batizadas. Assim é que, num sentido mais limitado, a graça preparatória opera somente em pessoas restauradas mais tarde na vida, pouco antes da sua conversão. Pois o pecador uma vez restaurado recebeu a graça, i.e. o germe de toda graça; e aquilo que já existe, não pode ser preparado.

Um terceiro engano, neste ponto, é a representação de que certos estados de ânimo e disposições devem ser preparados no pecador antes que Deus possa restaurá-lo; como se a graça restauradora estivesse condicionada, à graça preparatória. A salvação das nossas crianças perecidas enquanto crianças também se opõe a isso. Não havia nelas nenhum estado de ânimo ou disposições; todavia nenhum teólogo dirá que elas estão perdidas, ou que estão salvas por um outro nome que não o Um Nome no qual também os adultos encontram salvação. Não; o pecador não precisa do que quer que seja para predispor-se para a implantação da nova vida; e embora ele fosse o pecador mais endurecido, privado de qualquer disposição, Deus é capaz, no Seu próprio tempo, de restaurá-lo. A onipotência da graça divina é ilimitada.

A implantação da nova vida não é um ato moral, mas sim um ato metafísico de Deus - i.e., Ele não o executa através de nenhuma admoestação ao pecador, mas independentemente da sua vontade e da sua consciência; todavia apesar da sua vontade, Ele planta algo dentro dele, através do que a sua natureza adquire uma outra qualidade.

Mesmo a representação ainda mantida por alguns dos nossos melhores teólogos, que a graça preparatória é como o secar a madeira molhada, de forma que a fagulha possa mais prontamente incendiá-la, nós não podemos aceitar. Madeira molhada não aceita a fagulha. Ela deve estar seca completamente, antes que possa ser acesa. E isto não se aplica à obra da graça. A disposição das nossas almas é algo imaterial. O que quer que possa porventura ser, a graça onipotente pode acendê-la. E embora nós não subestimemos as suas disposições, ainda assim não podemos conceder-lhes a potencialidade da ignição.

Por esta razão os teólogos do período florescente das nossas igrejas insistiram que a graça preparatória não devia ser tratada livremente, mas na seguinte ordem: "A graça de Deus primeiro precede, então prepara, e finalmente executa (præveniens, præparans, operans) - i.e., a graça é sempre a primeira, nunca espera por nada em nós, mas inicia a sua obra antes que haja qualquer coisa em nós. Segundo, o tempo antes da nossa restauração não é em vão, mas durante ele a graça nos prepara para a nossa vida de trabalho no reino. Terceiro, no tempo determinado, a graça sozinha restaura-nos sem qualquer ajuda; portanto, a graça é o "operans", o verdadeiro trabalhador. Assim é que a graça preparadora nunca deve ser entendida como uma forma de preparação para a concessão da vida. Nada prepara para tal restauração. A vida é acesa, inteiramente preparada, não a partir de qualquer coisa em nós, mas completamente por intermédio do operar de Deus. Tudo aquilo que a graça preparatória alcança é isto, que Deus por intermédio dela dispõe de tal forma a nossa vida, alinha o seu curso e direciona o nosso desenvolvimento de forma que, sendo restaurados pelo Seu ato exclusivo, possuamos a disposição requerida para a tarefa a nós assinalada no reino.

A nossa pessoa é como o campo no qual o semeador deve lançar, deve espalhar as sementes. Suponha que existam dois campos nos quais a semente deve ser espalhada, lançada; um foi arado, fertilizado, gradeado e limpo de pedras, enquanto que o outro permanece duro, não preparado para a semeadura. Qual é o resultado? Será que o primeiro produzirá qualquer tipo de trigo por si só? De forma alguma; as covas nunca foram tão profundas e o solo esteve tão rico e afofado, mas se ele não receber nenhuma semente, nunca produzirá uma única planta. E o último, solo não cultivado, se nele forem lançadas sementes, elas germinarão. A origem da semeadura do trigo não tem conexão com o cultivo do solo, uma vez que o grão de semente para ali é levado de outro lugar. Mas para o crescimento do trigo, o cultivo do solo é da maior importância. E assim o é também com relação ao reino espiritual. Se grande ou pequena, a graça preparatória não contribui em nada para a origem da vida, a qual surge da "semente Incorruptível" plantada no coração. Mas para o seu desenvolvimento, é da maior importância.

É por isso que as igrejas Reformadas insistem tão fortemente no aprendizado e no treinamento cuidadoso das nossas crianças. Pois, embora confessemos que todo o nosso treinamento não pode criar a mínima fagulha de fogo celeste; ainda assim sabemos que quando Deus coloca aquela centelha nos seus coraçõezinhos, o acender da nova vida muito dependerá das condições nas quais a centelha divina os encontrar.

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( 1 ) Vide explicação do autor quanto ao Metodismo, na seção 5 do Prefácio.


Tradução livre: Eli Daniel da Silva

Belo Horizonte-MG, 09 de Abril de 2003.