A Obra do Espírito Santo

por

Abraham Kuyper, D.D., LL.D

 

VOLUME DOIS

A Obra do Espírito Santo no Indivíduo

Capítulo Quarto - Regeneração

 

 

XIX. Terminologia Antiga e Nova


"O que é nascido da carne é carne" - João 3:6

Antes de examinarmos a obra do Espírito Santo neste importante assunto, devemos primeiro definir o uso das palavras.

A palavra "regeneração" é utilizada em um sentido limitado, e num sentido mais extenso.

Ela é utilizada em um sentido limitado quando denota exclusivamente o ato de Deus de restaurar, o qual é o primeiro ato divino através do qual Deus nos traslada da morte para a vida, do reino das trevas para o reino do Seu querido Filho. Neste sentido, regeneração é o ponto de partida. Deus vem até alguém nascido em iniqüidade e morto em faltas e pecados, e planta na sua alma o princípio de uma nova vida espiritual. Assim é que ele nasce de novo.

Mas esta não é a interpretação da Confissão de Fé, pois ela expressa: "Cremos que a verdadeira fé, tendo sido acesa no homem pelo ouvir da Palavra de Deus e pela obra do Espírito Santo, regenera o homem e o torna um homem novo. Esta verdadeira fé o faz viver na vida nova e o liberta da escravidão do pecado."[Confissão de Fé Belga, artigo 24]. Aqui o substantivo "regeneração" (em negrito, o verbo "regenerar"), utilizada no seu sentido mais amplo, denota toda a mudança efetuada nas nossas pessoas pela graça, culminando no nosso morrer para o pecado, na morte, e no nosso nascer para o céu. Enquanto anteriormente este era o sentido usual da palavra, estamos agora acostumados ao sentido limitado, o qual nós portanto adotamos nesta discussão.

Respeitando a diferença entre os dois - anteriormente a obra da graça era geralmente representada na maneira pela qual a alma a observava, conscientemente; enquanto que agora, a própria obra é descrita à parte da consciência.

É claro, uma criança, um menino, nada sabe sobre o gênesis da sua própria existência, nem do primeiro período da sua vida, a partir de observação própria. Se fosse contar-nos a sua história baseando-se nas suas próprias lembranças, começaria com o tempo em que sentava-se em sua cadeira alta, à mesa, e procederia até que, como homem, saísse para o mundo. Mas, sendo informado por outros dos seus antecedentes, ele antecede às suas próprias lembranças, e fala dos seus pais, da sua família, da época e lugar de nascimento, de como ele cresceu, etc. Assim é que há uma diferença única entre as duas contas.

A mesma diferença observamos no assunto perante nós. Antigamente era costumeiro, segundo a maneira dos catedráticos Romanos, descrever a experiência de alguém a partir das suas próprias lembranças. Sendo pessoalmente ignorante da implantação da nova vida, e lembrando-se somente do grande distúrbio espiritual, o qual levara aquele alguém à fé e ao arrependimento, era natural datar o início da obra da graça não a partir da regeneração, mas da convicção do pecado e da fé, então procedendo à santificação, e assim por diante.

Mas esta representação subjetiva, mais ou menos incompleta, não pode nos satisfazer agora. Era de ser esperado que os que suportam o "livre arbítrio" abusassem dela, por inferir que a origem e as primeiras atividades da obra da salvação surgem do próprio homem. Um pecador, ouvindo a Palavra, é profundamente impressionado; persuadido por suas intimidações e promessas, ele arrepende-se, levanta-se e aceita o Salvador. Por conseguinte não há nada mais do que uma mera persuasão moral, obscurecendo a gloriosa origem da nova vida. Resistir a esta deformação repulsiva da verdade, Maccovius, já nos dias do Sínodo de Dort, abandonou este método mais ou menos crítico de fazer da regeneração o ponto de partida. Ele seguiu esta ordem: "Consciência do pecado, redenção em Cristo, regeneração, e somente então a fé". E isto era consistente com o desenvolvimento da doutrina Reformada. Pois assim que o método subjetivo foi abandonado, tornou-se necessário responder à questão: "O que Deus operou na alma?" para retornar à primeira implantação da vida. E então ficou evidente que Deus não começou por levar o pecador ao arrependimento, pois o arrependimento deve ser precedido pela convicção do pecado; nem por traze-lo (o pecador) sob o ouvir a palavra, pois isto exige um ouvido aberto. Assim é que o primeiro ato consciente e comparativamente cooperativo do homem é sempre precedido pelo ato original de Deus, plantando nele o primeiro princípio de uma nova vida, ato sob o qual o homem é inteira e completamente passivo e inconsciente.

Isto levou à distinção da primeira e da segunda graça. A primeira denotava a obra de Deus no pecador, criando uma nova vida sem o seu conhecimento; enquanto que a última denotava a obra operada no homem regenerado com o seu total conhecimento e consentimento.

A primeira graça foi naturalmente chamada de regeneração. E todavia não houve nenhuma unanimidade nesse respeito. Alguns teólogos Escoceses colocam da seguinte forma: "Deus começou a obra da graça com a implantação da 'faculdade de fé' ("fides potentialis"), seguida pena nova graça no 'exercício de fé' ("fides actualis"), e pelo 'poder da fé' ("fides habitualis"). Todavia é somente uma diferença aparente. Se chamo a primeira atividade da fé de o implantar da "fé - faculdade", ou do "novo princípio de vida", em ambos casos isso quer dizer que a obra da graça não começa com a fé ou com o arrependimento ou com a contrição, mas que estes são precedidos pelo ato de Deus de dar o poder ao impotente, de dar a audição ao surdo, e de dar a vida ao morto.

Para uma idéia correta de toda a obra da graça nas suas diferentes fases, notemos os seguintes estágios ou marcos sucessivos:

1. A implantar do novo princípio de vida, comumente chamado de regeneração no sentido limitado, ou de o implantar da 'faculdade de fé'. Este ato divino é operado no homem em idades diferentes; quando, ninguém pode dize-lo. Sabemos, através do exemplo de João Batista, que ele pode ser operado mesmo quando ainda no útero da mãe. E a salvação dos bebês e das crianças que perecem enquanto ainda bebês e crianças nos constrange, com Voetius, e todos os teólogos sérios, a crer que este ato original pode ocorrer bem cedo, na vida.

2. O manter do princípio de vida implantado, enquanto o pecador ainda continua em pecado, tanto quanto refere-se à sua consciência. Pessoas que receberam o princípio de vida cedo em suas vidas, não mais estão mortos, mas vivos. Morrendo antes da conversão real, não estão eles mortos, mas sim salvos. No início da vida eles muitas vezes manifestam inclinações santas; algumas vezes verdadeiramente maravilhosas. No entanto, eles não têm fé consciente, nem conhecimento do tesouro que possuem. A nova vida está presente, mas em estado de dormência; mantida não pelo recipiente, mas pelo Doador - como o grão de semente enterrado no solo, no inverno; como a brasa acesa sob as cinzas, mas não incendiando a lenha; como uma corrente subterrânea, vindo, afinal, à superfície.

3. A chamada pela Palavra e pelo Espírito, interna e externa. Mesmo este é um ato divino, comumente perpetrado através do serviço da Igreja. A chamada endereça-se não somente ao surdo, mas também ao que ouve; não somente ao que está morto, mas também ao que vive, embora ainda apático. Ela procede da Palavra e do Espírito, porque não somente a 'faculdade de fé' mas a própria fé em si - i.e., o poder e o exercício da faculdade são dádivas da graça. A 'faculdade de fé' não pode exercitar a fé de si mesma. Ela nos beneficia não mais do que a faculdade da respiração, quando o ar e o poder de respirar são negados. Assim é que a pregação da Palavra e a operação interna do Espírito Santo são divinos, são operações correspondentes. Sob a pregação da Palavra o Espírito energiza a 'faculdade da fé', e assim o chamado torna-se efetivo, pois aquele que dorme levanta-se.

4. Este chamado de Deus produz a convicção do pecado e a justificação, dois atos do mesmo exercício de fé. A obra de Deus pode ser representada, novamente, subjetiva ou objetivamente. Subjetivamente, parece ao santo que a convicção do pecado e a contrição do coração vieram primeiro, e que então ele obteve o sentido de ser justificado pela fé. Objetivamente, não é assim. A compreensão da sua condição de perdição já era um ato de fé arrojado. E pelo intermédio de cada subsequente ato de fé, ele torna-se mais profundamente convencido da sua miséria e recebe mais abundantemente da plenitude a qual está em Cristo, a sua Segurança.

Com referência à questão, se a convicção do pecado não deve preceder a fé, não precisa haver nenhuma diferença. Ambas representações redundam na mesma coisa. Quando um homem pode dizer pela primeira vez na sua vida "eu creio", ele está ao mesmo tempo completamente perdido e completamente salvo, sendo justificado no seu Senhor.

5. Este exercício de fé resulta em conversão; neste estágio no caminho da graça, o filho de Deus torna-se claramente consciente da vida implantada. Quando um homem diz e sente "eu creio", e não revoga a declaração, mas Deus a confirma, a fé é imediatamente seguida pela conversão. A implantação da nova vida precede o primeiro ato de fé, mas a conversão segue-se a ela. A conversão não se torna um fato enquanto o pecador somente enxergue a sua condição de perdido, mas quando ele age sobre este princípio; pois então o velho homem começa a morrer e o novo homem começa a erguer-se, e estas são as duas partes de toda conversão real.

A princípio o homem não é convertido senão uma só vez, a saber, no momento de render-se a Emanuel. Após aquele momento, ele se converte diariamente, i.e., sempre que ele descobre conflito entre a sua vontade e a vontade do Espírito Santo. E mesmo isto não é obra do homem, mas a obra de Deus nele. "Converte-nos a ti, Senhor, e seremos convertidos"[Lamentações 5:21].

Há esta diferença, no entanto, que na regeneração e no primeiro exercício de fé ele era passivo, enquanto que na conversão a graça capacitou-o a ser ativo. Um é convertido e o outro se converte; um é incompleto sem o outro.

6. Por conseguinte a conversão funde-se em santificação. Este também é um ato divino, e não humano; não um crescimento na direção de Cristo, mas um absorver da Sua vida através das raízes da fé. Em adolescentes de doze ou treze anos de idade, perecidas logo após a conversão, a santificação não aparece. Todavia eles dela compartilham, tanto quanto pessoas já adultas. A santificação tem um significado duplo: primeiro, santificação a qual, como obra completa de Cristo, é dada e imputada a todos os eleitos; e segundo, santificação a qual, de Cristo, é gradualmente operada nos convertidos e manifesta de acordo com tempos e circunstâncias. Não se trata de duas 'santificações', mas somente uma; da mesma forma como nos referimos, as vezes, da chuva que acumula-se nas nuvens no céu, e então cai, em forma de gotas, nos campos sedentos da terra.

7. A santificação é terminada e fechada na redenção completa, no momento da morte. Na separação entre a alma e o corpo, a graça divina completa o morrer para o pecado. Assim é que, na morte, uma obra da graça é executada, a qual dá à obra da regeneração o seu completo desdobramento. Se até então, considerando-nos fora de Cristo, nós ainda estivermos perdidos em nós mesmos e deitados em meio a morte, o artigo da morte termina com tudo. Então a fé é transformada em visão, a excitação do pecado é desarmada, e estamos para sempre além do seu alcance.

Finalmente, a nossa glorificação no último dia, quando a felicidade íntima será manifesta em glória exterior, e por um ato da graça onipotente a alma será reunida com o seu corpo glorificado, e colocada em tal glória celeste, na medida em que torna-se o estado de completa felicidade.

Isto mostra como as operações da graça são unidas juntas, como os elos de uma corrente. A obra da graça deve começar com o despertar do morto. Uma vez implantado, a vida ainda apática deve ser acordada pelo chamado. Assim desperto, o homem encontra-se numa nova vida, i.e., ele sabe-se justificado. Estando justificado, ele deixa que a nova vida resulte em conversão. A conversão flui à santificação. A santificação recebe sua pedra angular através da separação do pecado, na morte. E no último dia, a glorificação completa a obra da graça divina em todo o nosso ser.

Por conseguinte, segue-se que aquilo que sucede está contido naquilo que precede. Uma criança regenerada falecida, morreu para o pecado quando da morte tão certamente como o ancião de cabeça grisalha e com idade na casa dos oitenta. Não pode haver nenhum primeiro sem incluir o segundo e o último. Portanto toda a obra da graça pode ser representada como um nascimento para o céu, uma regeneração continuada, para ser completada no último dia.

Pelo que podem haver pessoas ignorantes desses estágios, os quais são tão indispensáveis como são os sinais para o pesquisador; sinais que nunca podem ser feitos opressão para as almas dos simples. Aquele que respira profundamente, inconsciente dos seus pulmões, é geralmente o mais sadio.

Tocando a questão se a Bíblia dá referência a este arranjo sobre os antigos, nós nos referimos à palavra de Jesus "Em verdade, em verdade te digo que se alguém não nascer da água e do Espírito, não pode entrar no reino de Deus"[João 3:5]; do que inferimos que Jesus data cada operação da graça a partir da regeneração. Primeiro a vida, e então a atividade da vida.


XX. Seu Curso.

"Ninguém pode vir a Mim, se o Pai que me enviou não o trouxer..." - João 6:44

Da seção precedente, é evidente que a graça preparatória é diferente em pessoas diferentes; e que distinção deve ser feita enter os muitos regenerados nos primeiros dias de vida, e dos poucos nascidos de novo numa idade mais avançada.

É claro, referimo-nos somente aos eleitos. A graça salvadora não opera nos não eleitos; pelo que a graça preparatória está como um todo fora de questão. Os primeiros nascem, com poucas exceções, na Igreja. Eles não entram no pacto da graça tarde na vida, mas eles pertencem a ele deste o primeiro momento da sua existência. Eles provém da semente da Igreja, e em troca possuem em si mesmos a semente da Igreja futura. E por esta razão, o primeiro germe da nova vida é dado à semente da Igreja (a qual está, que pena!, sempre misturada com muita palha) com demasiada freqüência ou antes ou logo após o nascimento.

A Igreja Reformada foi tão firmemente alicerçada nesta doutrina que ela ousou estabelece-la como a regra prevalecente, crendo que a semente da Igreja (não a palha, é claro) recebeu o germe da vida mesmo antes do Batismo; pelo que já encontra-se santificada em Cristo; e recebe no Batismo o selo não de algo ainda porvir, mas daquilo que já encontra-se presente. Portanto a pergunta litúrgica aos pais: "Credes vós que, embora seus filhos sejam concebidos e nascidos em pecado, e portanto sujeitos à própria condenação, todavia que eles estão santificados em Cristo, e portanto como membros da Sua Igreja devem ser batizados?"

Em períodos subsequentes, menos leais na fé, homens esquivaram-se desta doutrina, não sabendo o que fazer da expressão "estão santificados". Isto eles interpretavam como significando que, como filhos de membros do pacto, elas fossem contadas como pertencendo ao pacto, e como tais tivessem direito ao batismo. Mas o sincero e sólido bom senso do nosso povo sempre sentiu que esta mera expressão "serem contadas como" não fazia justiça ao rico e completo significado da liturgia.

E se inquirisse quanto ao significado dessas palavras no ofício do Batismo, "estão santificados", não dos fracos imitadores, mas da geração enérgica de heróis que lutaram vitoriosamente as batalhas do Senhor contra Armínius e seus seguidores, então se verificaria que aqueles teólogos estudados e devotos, tais como Gysbrech Voetius por exemplo, nunca, por um momento hesitaram em quebrar com estas meias explicações, mas bradaram alto dizendo: "Eles têm direito ao Batismo não porque são contados como membros do pacto, mas porque como uma regra eles realmente já possuem aquela primeira graça; e por esta razão, e por esta razão somente, é que lê-se: 'Que os nossos filhos são santificados em Cristo, e devem, portanto ser batizados como membros do Seu corpo'."

Através desta confissão a Igreja Reformada provou estar em acordo com a Palavra de Deus e não menos com os fatos reais. Com poucas exceções, pessoas que mais tarde provam pertencer ao grupo dos regenerados não começam suas vidas com explosões ruidosas de pecado. Antes a regra é que os filhos de pais Cristãos manifestam desde tenra infância um desejo e gosto por coisas santas, cálido zelo pelo nome de Deus, e emoções íntimas que não podem ser atribuídas a uma natureza má.

Ademais, esta confissão gloriosa deu a direção correta para a educação das crianças nas nossas famílias Reformadas, largamente retida à época presente. Nosso povo não viu nos seus filhos ramos da videira selvagem, a serem enxertados talvez mais tarde, com os quais pouco poderia ser feito até que convertidos à maneira dos Metodistas ( 1 ); mas eles viveram em quieta expectativa e em confiança santa de que a criança a ser treinada era como ramo de vida já enxertado, e portanto dignas de serem criadas com o cuidado mais afetuoso. Admitimos que, recentemente, desde que o caráter Reformado das nossas igrejas tem sido prejudicado pela Igreja Nacional como uma igreja para as massas, este ouro tem sido tristemente ofuscado; mas sua original e vital idéia era linda e animadora. Ela fez com que a obra de Deus na regeneração preceda a obra do homem; ao Batismo ela deu o seu rico desenvolvimento; e fez a obra da educação, independente do acaso, cooperar com Deus.

Portanto, reconhecemos quatro classes entre as gerações ascendentes na Igreja:

1. Todas as pessoas eleitas regeneradas antes do Batismo, nas quais a vida implantada permanece oculta até que sejam convertidas numa idade posterior.

2. Pessoas eleitas, não somente regeneradas na infância, mas nas quais a vida implantada foi cedo manifesta e desenvolveu-se, imperceptivelmente, até vir a ser a conversão.

3. Pessoas eleitas nascidas de novo, e convertidas no ocaso da vida.

4. Os não eleitos, ou a palha.

Examinando cada uma dessas quatro classes, com referência especial à graça preparatória, chegamos às seguintes conclusões:

Com relação aos eleitos apresentados na primeira classe, pela própria natureza do caso, a graça preparatória dificilmente tem lugar aqui, no seu sentido limitado. Na sua forma direta, ela é impensável, com referência a um bebê ainda no útero materno ou recém nascido. Nos tais ela é somente indireta - i.e., freqüentemente, agrada a Deus dar a tal criança pais cujas pessoas e naturezas praticam uma forma de pecado menos direta em sua guerra com a graça do que outras formas de pecado. Não como se tais parentes tivessem qualquer coisa a qual pudesse ser implantada na criança, pois aquilo o que é nascido da carne é carne; nada puro provem do que é impuro; é sempre a vide selvagem aguardando pelo enxerto do Senhor. Não, a graça preparatória neste caso aparece do fato de que a criança recebe dos pais uma forma de vida adaptada ao seu chamado celeste.

O mesmo aplica-se aos eleitos na segunda categoria apresentada. Embora concedamos que o chamado divino opera sobre estes durante seus tenros anos de vida, ainda assim, enquanto o chamado prepara para a conversão, ele não prepara para a regeneração, a qual vem antes da conversão. O chamado é inefectivo a menos que a faculdade da audição seja primeiro implantada. Somente aquele que tem um ouvido pode ouvir o que o Espírito diz às igrejas e à sua própria alma. Assim é que, neste caso, a graça preparatória é dificilmente perceptível. Certamente que existem muitas agências que imperceptivelmente preparam para a sua conversão; mas isto é diferente do que preparar para a regeneração, e agora somente falamos desta última.

Falando propriamente, a graça preparatória no seu sentido limitado é aplicada somente à terceira classe de pessoas eleitas como apresentadas acima. Ela compreende a sua vida toda, com todas as suas voltas e mudanças, suas relações e conexões, alturas e profundidades, eventos e adversidades. Não como se todos estes pudessem produzir o mínimo germe de vida ou possibilidade de restauração. Não; o germe da vida não pode nunca surgir da graça preparatória, não mais do que a preparação de dez berços, de uma dúzia de cestos de roupas e de armários cheios de caros enxovais para bebês jamais poderão fazer o truque de aparecer um bebê sequer em qualquer um daqueles bercinhos. A centelha vital é produzida somente através de um ato do poderoso Deus, independente de toda preparação. Mas, desde o seu nascimento, Deus guarda aquela vide silvestre e controla o crescimento dos seus brotos e ramos, de forma que no momento em que Lhe aprouver, quando Ele enxertar no seu caule o broto da videira verdadeira, ela possa ser exatamente tudo o que deveria ser.

E com isto termina a discussão, pois com referência à quarta classe apresentada, vez após vez eles serão separados do trigo e soprados para longe, pela ventarola a qual encontra-se nas Suas mãos; daí estar a graça preparatória fora de questão.

E disto, fica evidente que a própria obra do Espírito Santo com relação à graça preparatória é raramente perceptível.

Cada característica desta obra, até agora apresentada, aponta diretamente não à operação do Espírito santo, nem àquela do Filho, mas quase que exclusivamente àquela do Pai. Pois as circunstâncias do nascimento da criança - i.e., o caráter hereditário da sua família e mais especificamente dos seus pais, e o curso futuro da sua vida até o momento da sua conversão - pertence ao terreno da divina Providência. O lugar determinado para nossa habitação, nossa família e nossa geração, a formação do nosso meio ambiente imediato, as influências previamente determinadas para afetar-nos - tudo pertence às lideranças da providência de Deus, atribuídas pela Bíblia à obra do Pai. O Senhor Jesus disse: "Ninguém pode vir a Mim, se o Pai que me enviou não o trouxer..."[João 6:44]. E embora este traçado do Pai tenha um objetivo mais elevado e deva ser espiritualmente compreendido, ainda assim indica geralmente que a determinação daquelas coisas, a qual posteriormente regula seu curso e direção, é atribuída à Primeira Pessoa.

Notamos uma obra do Espírito Santo neste aspecto, somente tanto quanto Ele anima toda a vida pessoal, desde que Ele é o Espírito da Vida; e enquanto Ele coopera com o Pai naquela providência especial que refere-se aos eleitos. Pois, embora nas nossas mentes nós possamos analisar a obra da graça, ainda assim nunca podemos nos esquecer que a realidade eterna não corresponde totalmente a esta parte da nossa análise.

Portanto, nos eleitos, a obra da providência e a da graça muitas vezes fluem juntas, sendo uma e a mesma. A nossa Igreja tem tentado expressar isto, na sua confissão de uma providência geral a qual inclui todas as coisas e todas as pessoas, e uma providência especial a qual opera somente nas vidas dos eleitos de Deus. Quando assim as operações da Providência adotam uma característica especial referente aos eleitos mas ainda não pessoas regeneradas, o Espírito Santo coopera com o Pai e com o Filho para levar a cabo os conselhos da vontade de Deus com relação a eles.

E isto encerra a discussão da graça preparatória, e procedemos agora à discussão da própria regeneração. Podemos falar da graça que flui da regeneração e que prepara o caminho para a conversão, mas isto seria impropriamente chamado de graça preparatória: Tudo aquilo que busca o despertar da vida ainda dormente na alma regenerada não é graça preparatória, mas pertence ao "chamado". E muito embora nós absolutamente não condenássemos a utilização daquela palavra naquele sentido, todavia nem tampouco o encorajaríamos, com o nosso próprio exemplo.

Recapitulemos. A vida física é o resultado da união do corpo e da alma; a dissolução desta união é a morte física, a qual será abolida somente quanto corpo e alma forem reunidos. O mesmo aplica-se às coisas espirituais. A vida espiritual resulta de uma união entre a alma e o princípio de vida do Espírito Santo. Portanto o pecado, que aniquila esta união, causa a morte. Esta morte não pode ser derrotada até que seja do agrado do Senhor reunir a alma com o princípio de vida do Espírito Santo.

Todas as coisas que precedem esta reunião é graça preparatória. Aquilo que a efetiva é a primeira graça, i.e. graça operadora, graça salvadora, mas não mais graça preparatória. Quando o Espírito Santo inicia a Sua obra na efetivação desta união, a graça preparatória cessa; assim é que ela não pertence à obra própria do Espírito Santo.

XXI. Regeneração, a Obra de Deus.

"O ouvido que ouve, e o olho que vê, o Senhor os fez a ambos" - Provérbios 20:12

"O ouvido que ouve, e o olho que vê, o Senhor os fez a ambos". Este testemunho do Espírito Santo contém todo o mistério da regeneração.

Uma pessoa não regenerada é surda e cega; não somente como uma pedra ou um pedaço de madeira, mas pior. Pois nem a pedra ou a madeira são corruptos ou arruinados, mas uma pessoa não regenerada está completamente morta, e é uma presa da mais horrível decomposição.

Esta confissão rígida, austera, não comprometida e absoluta deve ser o nosso ponto de partida nesta discussão, ou então falharemos em compreender as afirmações da regeneração. Esta é a razão pela qual toda heresia que tem concedido, de uma forma ou de outra, que o homem tem uma porção -muito geralmente a porção do leão - na obra da redenção, tem sempre começado por trazer à questão a natureza do pecado. "Sem sombra de dúvida", eles dizem, "o pecado é muito mal - um mal terrível e abominável; mas existe certamente algum resquício de bem no homem. O homem, aquele ser nobre, virtuoso e amável, não pode estar morto em faltas e pecado. Aquilo pode ser verdade com respeito a alguns canalhas e patifes atrás das grades, ou de ladrões e assassinos inescrupulosos; mas realmente, tal não pode ser aplicado às nossas honradas damas e aos nossos honrados cavalheiros, às nossas atraentes moças, aos nossos rapazes sapecas, e adoráveis crianças. Estes não são propensos a odiar a Deus e aos seus vizinhos, mas dispostos, de todo seu coração, a amar todos os homens, e render a Deus a reverência que Lhe é devida".

Portanto, longe com toda ambigüidade neste assunto! Não podemos endossar este método de suavizar o gosto de verdades amargas, não em voga hoje em dia entre as pessoas afáveis. A nossa confissão é; e sempre será, que o homem, por sua própria natureza, está morto em faltas e pecado, exposto sob a maldição, maduro para o justo julgamento de Deus, e ainda amadurecendo para uma condenação eterna. Certamente que o seu ser, como homem, está intacto; razão pela qual protestamos contra a apresentação de que o pecador é neste respeito como um pedaço de pedra ou de madeira. Não; como homem ele está incólume, o seu ser está intacto; mas a sua natureza é corrupta, e naquela natureza corrupta ele encontra-se morto.

Comparamo-lo com ao corpo de uma pessoa que morreu de uma doença comum. Tal corpo conserva todos os membros do organismo humano intactos. Há o olho com seus músculos, o ouvido com seus órgãos da audição; no exame post-mortem o coração, o baço, o fígado e os rins parecem estar perfeitamente normais. Um cadáver algumas vezes parece ser tão natural que alguém seja tentado a dizer: "Ele não está morto, mas dorme". E todavia, conquanto perfeito e natural, a sua natureza é corrupta com a corrupção da morte. E o mesmo é verdadeiro quanto ao pecador. O seu ser permanece intacto e inteiro, contendo tudo aquilo no que um homem se constitui; mas a sua natureza é corrupta, sim, tão corrupta que ele está morto; não somente aparentemente, mas realmente morto; morto em todas as variações que podem ser aplicadas ao termo "morto".

Assim é que, sem a regeneração, o pecador é inteiramente inútil. Qual a vantagem de um ouvido, exceto que ouça; ou de um olho, exceto que enxergue? Portanto o Espírito Santo testifica: "O ouvido que ouve, e o olho que vê, o Senhor os fez a ambos"[Provérbios 20:12]. E desde que, no mundo das coisas espirituais, ouvidos surdos e olhos cegos não contam para nada, a Igreja de Cristo confessa que cada operação da graça salvadora deve ser precedida pelo despertar do pecador, pelo abrir de olhos cegos, e pelo desimpedir de ouvidos tapados - em suma, pela implantação da faculdade da fé.

E como o homem que assentava-se em trevas pode enxergar assim que os seus olhos são abertos, também nós, sem movermos um fio de cabelo, somos trasladados do reino das trevas para o reino de luz. Aqui o termo "trasladados" não denota um "ir" realmente, nem tampouco a expressão "ser trasladado" denota uma mudança real de lugar, mas simplesmente a vida entrando no que estava morto, de forma que aquele que era cego, agora pode ver.

Este ato maravilhoso de regeneração pode ser examinado em duas classes de pessoas: na criança e no adulto.

A maneira mais segura é examinar este ato na criança: não porque esta obra da graça seja diferente numa criança do que o é num adulto, pois ela é a mesma em todas as pessoas assim favorecidas; mas para a observação consciente de um adulto, as obras da regeneração são tão mescladas com aquelas da conversão que é difícil distinguir entre as duas.

Mas esta dificuldade não existe no caso de uma criança inocente, como no caso, por exemplo, de João, filho de Zacarias e Isabel. Tal infante não tem consciência para criar confusão. O tema aparece numa forma pura e sem mistura. E assim somos capazes de distinguir entre regeneração e conversão num adulto. É evidente que no caso de um bebê que, como João, ainda não nascido, não pode haver nada senão mera passividade - i.e., ele experimentou algo, mas por si mesmo não fez nada; algo foi feito a ele, e nele, mas não por ele; e qualquer idéia de cooperação é absolutamente excluída.

Por conseguinte, na regeneração, o homem não é operador e nem cooperador; ele é simplesmente operado; e o único Operador neste caso é Deus. E, por esta mesma razão, porque Deus é o único Operador na regeneração, deve ser inteiramente compreendido que a Sua obra não começa somente com a regeneração.

Não; enquanto o pecador está ainda morto em faltas e pecados, antes de a obra de Deus começar: nele, que já está escolhido e ordenado, justificado e santificado, adotado e glorificado como filho de Deus. Isto é o que enchia São Paulo com êxtase e alegria tais, quando ele disse: "Porque os que dantes conheceu também os predestinou para serem conformes à imagem de seu Filho, a fim de que Ele seja o primogênito entre muitos irmãos. E aos que predestinou a estes também chamou; e aos que chamou a estes também justificou; e aos que justificou a estes também glorificou"[Rm 8:29, 30]. E este não é o recital do que aconteceu no regenerado, mas o resumo regozijado das coisas que Deus fez por nós, antes que existíssemos. Assim é que a nossa eleição, a nossa pré ordenação, a nossa justificação e a nossa glorificação precedem o novo nascimento. É verdade que, na ora do amor, quando a regeneração estava para ser efetivada em nós, as coisas executadas fora da nossa consciência estavam para serem reveladas à consciência da fé; mas tanto quanto dizia respeito a Deus, todas as coisas já estavam prontas e preparadas. O pecador morto a quem Deus regenera já é, para a divina consciência, um filho adotado, amado, eleito e justificado. Deus desperta somente os seus filhos queridos.

É claro, Deus justifica o injusto e não o justo; Ele chama pecadores ao arrependimento, e não simples pessoas; mas deve ser lembrado que isto é dito do ponto de vista da nossa própria consciência do pecado. O ainda não regenerado não se sente filho de Deus, nem que esteja justificado; não crê na sua própria eleição, não, muitas vezes nega-a; todavia ele não pode alterar as coisas que foram divinamente operadas em seu benefício, a saber, que perante o supremo tribunal de justiça Deus o declarou justo e livre, muito antes que ele fosse assim declarado perante o tribunal da sua própria consciência. Muito antes que ele cresse, ele foi justificado perante o tribunal de Deus, pouco depois para ser justificado pela fé perante a sua própria consciência.

Mas, conquanto insondável possa ser o mistério da eleição - e nenhum de nós nunca será capaz de responder à questão por que um foi eleito para ser um vaso de honra, e outro foi deixado como um vaso de ira - no que tange à regeneração nós não encaramos tal mistério. Que Deus regenere um e não outro, está de acordo com uma regra fixa e inalterável. Ele chega com a regeneração para todos os eleitos; e dos não eleitos Ele passa ao largo. Portanto, este ato de Deus é irresistível. Nenhum homem tem poder para dizer: "Eu não nascerei de novo", ou para evitar a obra de Deus, ou colocar obstáculos no Seu caminho, ou faze-la tão difícil que não possa ser executada.

Deus efetua esta obra graciosa à Sua própria maneira, i.e. Ele de forma tão majestosa persevera que todas as criaturas juntas não poderiam roubar-Lhe nenhum dos Seus eleitos. Se juntos todos os homens e todos os demônios conspirassem para arrancar um homem brutal, pertencente aos eleitos, do Seu poder salvador, todos os seus esforços seriam mera bobagem. Como varremos uma teia de aranha, assim Deus riria de toda a comoção deles. Uma poderosa perfuratriz penetra uma placa de aço com mais ruído e com esforço maior do que, silenciosa e majestosamente Deus penetra o coração de quem quer que Ele queira, e muda a natureza dos Seus escolhidos. A palavra de Isaías com relação aos céus estrelados - "Levantai ao alto os vossos olhos, e vede quem criou estas coisas; foi aquele que faz sair o exército delas segundo o seu número; ele as chama a todas pelos seus nomes; por causa da grandeza das suas forças, e porquanto é forte em poder, nenhuma delas faltará"[40:26] - pode ser aplicada ao firmamento no qual os eleitos de Deus brilham como estrelas: "...por causa da grandeza das suas forças, e porquanto é forte em poder, nenhuma delas faltará". Todos que são ordenados para a vida eterna são despertos na hora divinamente apontada.

E isto implica que a obra da regeneração não é uma obra moral; isto é, não é executada através de conselho ou exortação. Mesmo tomada no seu sentido mais amplo, incluindo a conversão, como, por exemplo, os Cânones de Dort a utilizam aqui e ali, a regeneração não é um operar moral na alma.

Não é simplesmente um caso de incompreensão; a vontade do pecador sendo ainda incorrupta, de modo que sejam necessários somente instrução e aconselhamento para induzi-la a escolher acertadamente. Não; tal conselho e admoestação estão inteiramente fora da questão quando relacionados com o filho de Zacarias e os milhares de filhos de pais crentes, a respeito dos quais em Dort foi corretamente confessado poder supor-se que morreram no Senhor, i.e., havendo nascido de novo; e com relação àqueles regenerados antes do Batismo mas convertidos quando mais velhos.

Por esta razão é necessário examinar a regeneração (no seu sentido limitado) numa criança, e não num adulto, no qual ela necessariamente inclui conversão.

As considerações a seguir não podem ser contestadas:

1. Todos os homens, incluindo as crianças, nascem em faltas e pecados.

2. Muitas dessas crianças morrem antes que venham a ter consciência própria.

3. Dessas flores colhidas, a Igreja confessa que muitas são salvas.

4. Estando mortas em pecado, elas não podem ser salvas sem um novo nascimento.

5. Portanto a regeneração sim, ocorre em pessoas que não têm consciência própria.

Sendo estas declarações indisputáveis, é, portanto, evidente, que a natureza e o caráter da regeneração podem muito corretamente ser determinados através do exame da mesma nestas pessoas ainda sem consciência própria.

Tal criança ainda não nascida é totalmente ignorante da linguagem humana; ela não tem nenhuma idéia, nunca ouviu a pregação do Evangelho, não pode ser instruída, ser alertada ou ser exortada. Assim é que a influência moral está fora de questão; e isto nos convence de que a regeneração não é um ato moral, mas sim um ato metafísico de Deus, tanto quanto o é a criação da alma de uma criança não nascida, a qual é executada independentemente da mãe. Deus regenera um homem totalmente sem o seu pré conhecimento.

O que é que constitui o ato de regeneração não pode ser dito. O próprio Jesus assim nos diz, pois Ele afirma: "O vento sopra onde quer, e ouves a sua voz; mas não sabes donde vem, nem para onde vai; assim é todo aquele que é nascido do Espírito"[João 3:8]. É, portanto, conveniente que este mistério seja estudado com a maior discrição. Mesmo no reino natural, o mistério da vida e sua origem é quase que totalmente além do nosso conhecimento. O médico mais estudado é completamente ignorante com relação à maneira pela qual uma vida humana vem a existir.

Uma vez existindo, ele pode explicar o seu desenvolvimento, mas do início que precede a tudo mais, ele sabe absolutamente nada. Nesse respeito, ele é simplesmente tão ignorante quanto o garoto mais humilde. O mistério não pode ser penetrado, simplesmente por encontrar-se além da nossa observação. É perceptível somente que a vida existe.

E isto aplica-se num sentido ainda mais forte ao mistério do nosso segundo nascimento. Exame post-mortem pode detectar o embrião e sua localização, mas espiritualmente, mesmo isto é impossível. Manifestações subseqüentes são instrutivas até um certo ponto, mas mesmo assim, muito é incerto e confuso. Por qual padrão infalível pode ser determinado o quanto da antiga natureza entra nas expressões da nova vida? Não há nenhuma hipocrisia? Não existem condições inexplicadas? Não existem obstáculos ao desenvolvimento espiritual? Portanto a experiência não pode ajudar nesse aspecto; embora pura e simples, ela somente pode revelar o desenvolvimento daquilo que já é; e não a origem da vida ainda não nascida.

A única fonte de verdade neste assunto é a Palavra de Deus; e naquela Palavra o mistério permanece não somente não revelado, mas oculto. E por boas razões. Se fôssemos perpetrar a regeneração, se pudéssemos acrescentar-lhe algo ou dela retirar alguma coisa, se pudéssemos avançá-la ou retrocedê-la, então certamente a Bíblia nos teria suficientemente instruído com relação a tanto. Mas desde que Deus reservou também esta obra para Si mesmo, o homem não precisa solucionar este mistério, da mesma forma como não mais precisa solucionar o mistério da sua primeira criação, ou o da criação da sua alma.


XXII. A Obra da Regeneração.

"Pelo que, se alguém está em Cristo, nova criatura é; as coisas velhas já passaram; eis que tudo se fez novo" - II Coríntios 5:17

No artigo anterior, afirmamos que a regeneração é um ato verdadeiro de Deus, no qual o homem é absolutamente passivo e incapaz, de acordo com a confissão antiga da Igreja. Reverentemente, examinemos agora este assunto mais de perto; não para adentrar em coisas muito elevadas para nós, mas para eliminar o erro e clarear a consciência.

A regeneração não é algo executado através do sacramento do santo Batismo, aliviando a incapacidade do pecador, oferecendo-lhe uma outra oportunidade de escolher a favor ou contra Deus, como os Éticos sustentam.

Tampouco trata-se de uma mera retificação do entendimento; nem uma simples mudança de disposição e de inclinação, tornando disposto o relutante, a conformar-se à santa vontade de Deus.

Também não é uma mudança do ego; nem, como mantido por muitos, um deixar o ego tranqüilo, a personalidade inalterada, simplesmente colocando o ego mau na luz e no reflexo da retidão de Cristo.

Os dois últimos erros devem ser refutados e rejeitados tão positivamente quanto os dois primeiros.

Na regeneração o homem não recebe um outro ego; i.e. o nosso ser como homem não é mudado ou modificado, mas é o mesmo ego antes e depois da regeneração, a mesma pessoa, o mesmo ser humano. Muito embora o pecado tenha corrompido terrivelmente o homem, o seu ser permaneceu intacto. Nada lhe falta. Todas as partes que o constituem, que o distinguem de todos os outros seres, estão presentes no pecador. Não o seu ser, mas a sua natureza tornou-se totalmente corrupta.

"Ser" e "natureza" não são a mesma coisa. Estes conceitos se aplicados a uma máquina a vapor, o "ser" é a máquina em si, com os seus cilindros, tubos, polias e parafusos; mas a sua "natureza" é a ação manifesta assim que o vapor penetra no cilindro. Quando aplicados ao homem, "ser" é aquilo que faz dele um homem, e "natureza" aquilo que manifesta o caráter do seu ser e do seu operar.

Houvesse o pecado arruinado o ser do homem, ele não mais seria homem, e a regeneração seria impossível. Mas desde que o seu ser, seu ego, a sua pessoa permaneceu intacta e a profunda corrupção afetou somente a sua natureza, então a regeneração, i.e., a restauração da sua natureza é possível; e esta restauração é efetuada através do novo nascimento. Que isto seja firmemente mantido. Na regeneração, não recebemos um novo ser, um novo ego ou nova pessoa, mas a nossa natureza é que renasce.

A melhor e mais satisfatória ilustração da maneira da regeneração é fornecida pela curiosa arte dos enxertos em plantas. O enxertar com sucesso de um broto da parreira cultivada numa parreira silvestre, resulta em uma árvore nova e boa crescendo sobre o antigo caule silvestre. O mesmo aplica-se a todas espécies de flores e árvores frutíferas. A espécie cultivada pode ser enxertada na espécie silvestre. Deixada à sua própria sorte, a espécie silvestre nunca produzirá nenhum resultado bom. A pereira ou a roseira silvestres não se desenvolvem e carecem de frutas e de floradas. Mas, se o jardineiro enxertar um broto de uma espécie de pêra de fino sabor na pereira silvestre, ou um broto de uma linda espécie de rosa na roseira silvestre; aquela primeira produzirá frutos saborosos e aquela última produzirá flores magníficas.

Este milagre do enxerto tem sido sempre um enigma para homens pensadores. E trata-se mesmo de um mistério. O caule a receber o enxerto é absolutamente silvestre, selvagem; com suas raízes selvagens, silvestres, ele suga a seiva da terra e a força às suas células silvestres e selvagens. Mas aquele pequeno broto enxertado tem o poder maravilhoso de converter a seiva e as forças vitais em algo bom, fazendo aquele caule selvagem e silvestre ser o portador de nobres frutos e de ricas flores. É verdade que o caule que recebe o enxerto resiste vigorosamente à transformação da sua natureza, com os ramos silvestres que despontam abaixo do enxerto, e em obtendo sucesso, a sua própria natureza agreste forçosamente resistirá e evitará que a seiva passe através do pequeno broto recém enxertado. Mas em se podando aqueles novos ramos, será possível forçar a seiva para passar através do broto, com resultados excelentes. Forçando o caule silvestre para baixo, o enxerto gradualmente alcançará quase que até as raízes, e nós quase que nos esquecemos que a árvore tenha sido um árvore silvestre, uma árvore selvagem.

Isto representa claramente a regeneração tanto quanto este divino mistério pode ser objetivamente representado. Pois na regeneração algo é plantado no homem, algo que naturalmente lhe falta. A queda não removeu simplesmente o homem da esfera da justiça divina, à qual a regeneração o traz de volta, mas a regeneração efetua uma modificação radical no homem como homem, criando uma diferença tão grande entre ele e aqueles não regenerados, que leva finalmente a opostos diretos.

Dizer que não existe diferença entre os regenerados e os não regenerados é equivalente a uma negação da obra do Espírito Santo. De maneira geral, no entanto, nenhuma diferença é notada a princípio, não mais do que numa planta enxertada. Gêmeos descansam no mesmo berço; um regenerado, o outro não, mas nós não podemos enxergar a mínima diferença entre eles. O primeiro pode inclusive ter um temperamento pior do que o segundo. A aparência dos dois é idêntica. Ambos vieram do mesmo caule selvagem. Nem bisturi nem microscópio poderiam detectar a menor diferença; pois aquilo que Deus operou em um deles, na criança favorecida, algo é inteiramente espiritual e invisível - perceptível somente para Deus.

Este fato deve ser confessado enfática e definitivamente, em oposição àqueles que dizem que a semente da regeneração é material. Este erro ocupa o mesmo terreno que a heresia maniqueísta, em matéria de pecado. Aquela heresia faz do pecado um micróbio; e este erro faz da semente da regeneração uma espécie de germe perceptível de vida e de santidade. E isto falsifica a verdade contra a qual, dentre outros, o Dr. Böhl protestou de forma veemente.

A semente da regeneração é intangível, invisível, puramente espiritual. Ela não cria dois homens num mesmo ser, mas antes e após a regeneração não há senão um ser, um ego, uma personalidade. Não um homem velho e um homem novo, mas um homem - a saber, o homem velho antes da regeneração e o novo homem após a regeneração - que é criado após Deus, em retidão e santidade perfeitas. Pois aquilo que é nascido de Deus não pode pecar. A Sua semente permaneceu nele. "Coisas velhas já passaram; eis que tudo se fez novo"[II Coríntios 5:17]

Todavia a natureza do ego ou personalidade é mudada verdadeiramente, e de forma tal que, colocando a nova natureza em princípio, ele ainda continua a operar através da natureza antiga. A planta enxertada não são duas plantas, mas sim uma somente. Era, antes do enxerto, uma roseira silvestre, e após o enxerto tornou-se uma roseira cultivada. Ainda assim a nova natureza deve retirar a sua seiva através da natureza antiga; deixando o enxerto de lado, o caule permanece selvagem.

Por conseguinte nós, tanto antes como após a regeneração, encontramo-nos no meio da morte, tão logo nos consideramos fora da semente divina. Portanto, ao tentar evitar uma posição falsa, devemos ser cuidadosos para não atirarmo-nos numa outra; ao tentar escapar da irmandade "Siamesa" do velho e do novo homem, e ao manter a unidade do ego antes e após a regeneração, não deveríamos começar a ensinar que a regeneração deixa a nossa pessoa sem mudança, que não afeta o próprio pecador; mas que meramente o traslada até a esfera de uma retidão que lhe é estranha. Não: as Escrituras falam de uma nova criatura, de um outro nascimento, um ser mudado e renovado. E isto não pode ser reconciliado com a noção de que o pecador devesse permanecer o mesmo.

Com relação à questão, o que é que existe no broto, que tem o poder de regenerar o caule silvestre, o caule selvagem no qual está implantado, o botânico melhor informado não poderá descobrir a fibra ou o líquido que tem este poder. Ele somente sabe que cada broto tem a sua própria natureza, e possui a potência para produzir um outro galho, um outro ramo ou uma outra árvore da mesma natureza, através do seu próprio poder de formação.

E isto aplica-se à obra da regeneração: No centro do nosso ser, do nosso ego, a nossa personalidade governa a nossa natureza, a nossa disposição, a forma do nosso ser e existência, transmitindo a sua estampa, forma, caráter e qualidade espiritual ao que nós somos, ao que fazemos e ao que falamos. Aquele "centro controlador" é, por natureza, pecador e mau. Na sua forma mais apresentável, é nada senão perverso. Portanto, voluntária ou involuntariamente, nós gravamos no nosso ser, no nosso agir e no nosso falar a estampa da injustiça e da perversidade. Conforme a idade e o desenvolvimento esta natureza do ego cinzela no bloco de mármore do nosso ser a forma de uma criatura má e pecadora, correspondente à imagem contida na nossa natureza, da qual ela procede. Na regeneração, Deus executa neste "centro controlador" do nosso ser um ato maravilhoso, convertendo esta força criativa, esta natureza em algo completamente diferente. Consequentemente o nosso ser, o nosso agir e o nosso falar são a partir de então controlados por um outro mandamento, uma outra lei de vida e governo; e esta nova força criativa cinzela um outro homem em nós, novo e santo, um filho de Deus, criado em retidão e justiça.

Mas esta mudança não é completada de uma vez. A planta que foi enxertada em Março pode permanecer inativa durante todo o mês, porque a sua natureza ainda não está agindo. Mas isto é certo: tão logo haja alguma ação, esta será de acordo com a nova natureza, a natureza do enxerto.

A assim também aqui. A vida nova, enxertada, pode permanecer latente por um período, tal como um grão de trigo no solo; mas quando começar a agir, a sua ação será em conformidade com a natureza da nova vida. Assim é que a regeneração implanta o germe de vida do novo homem, o qual nele está contido em toda a sua plenitude, e do qual procederá tão certamente quanto o trigo procede da semente, na qual está contido.

Para nos assistir em nossa representação deste mistério, o maior teólogo das igrejas Reformadas apresentou o plano divino na regeneração nos seguintes estágios:

( 1 )_ Em Sua própria mente, Deus concebe o novo homem, quem ( 2 )_ Ele modifica de acordo com uma pessoa em particular, assim criando o novo homem; ( 3 )_ Ele traz o germe deste novo homem ao centro do nosso ser; ( 4 )_ centro este no qual Ele executa a união entre o nosso ego e esta vida germinante; ( 5 )_ naquele germe vital Deus providencia o poder formativo, o qual no tempo por Ele determinado, Deus fará com que venha à frente, poder através do qual o nosso ego se manifestará como um novo homem.


XXIII. Regeneração e Fé.

"Sendo de novo gerados, não de semente corruptível, mas da incorruptível, pela palavra de Deus, viva, e que permanece para sempre" - I Pedro 1:23

Existe uma objeção possível ao que foi dito acima, com relação à regeneração. É evidente que a Palavra de Deus, e portanto os nossos símbolos de fé, oferece uma representação modificada destas coisas a qual, se considerada superficialmente, parece condenar a nossa representação. Esta representação, a qual não considera crianças, mas adultos, pode assim ser apresentada: No meio de um círculo de pessoas não convertidas, Deus faz com que a Palavra seja pregada pelos Seus embaixadores da cruz. Através desta pregação, a Palavra os alcança. Se houverem pessoas eleitas entre eles, para as quais é chegado o tempo do amor, Deus acompanha o chamado externo com o chamado interno. Eles consequentemente voltam-se dos seus caminhos de pecado para o caminho da vida. E então eles são criaturas de Deus.

Assim, no versículo 23 do primeiro capítulo de sua primeira Carta, São Pedro apresenta o assunto, dizendo: "Sendo de novo gerados, não de semente corruptível, mas da incorruptível, pela palavra de Deus, viva, e que permanece para sempre". E também São Paulo, quando declara: "De sorte que a fé é pelo ouvir, e o ouvir pela palavra de Deus"[Romanos 10:17]. Isto harmoniza-se inteiramente com o que São Paulo escreve acerca do santo Batismo, o qual ele chama o lavar da "regeneração", pois naqueles dias Judeus e Gentios eram batizados em o nome do Senhor Jesus, imediatamente após a sua conversão, pela pregação dos apóstolos.

Por esta razão nossos pais confessaram em sua Confissão: "Cremos que a verdadeira fé, tendo sido acesa no homem pelo ouvir da Palavra de Deus e pela obra do Espírito Santo, regenera o homem e o torna um homem novo."[Confissão de Fé Belga, Artigo 24]. Semelhantemente ensina o Catecismo de Heidelberg: "P: Se é só a fé que nos faz participantes de Cristo e de todos os seus benefícios, de onde é que se origina? R.: O Espírito Santo cria-a em nossos corações pela pregação do Santo Evangelho e confirmada pelo uso dos santos Sacramentos"[Catecismo de Heildelberg, Parte II - "A Redenção do Homem", Seção "Os Santos Sacramentos", Pergunta n.º 65]. E também como declarado em Dorth: "A todo-poderosa operação de Deus pela qual Ele produz e sustenta nossa vida natural não exclui mas requer o uso de meios, pelos quais ele quis exercer seu poder, de acordo com sua infinita sabedoria e bondade. Da mesma maneira a mencionada operação sobrenatural de Deus, pela qual ele nos regenera, de modo nenhum exclui ou anula o uso do Evangelho, que o mui sábio Deus ordenou para ser a semente da regeneração e o alimento da alma. Por esta razão os apóstolos e os mestres que os sucederam, piedosamente instruíram o povo acerca da graça de Deus, para sua glória e para humilhação de toda soberba do homem. Ao mesmo tempo eles não descuidaram de manter o povo, pelas santas admoestações do Evangelho, sob a ministração da Palavra, dos sacramentos e da disciplina. Por isso aqueles que hoje ensinam ou aprendem na igreja não devem ousar tentar a Deus, separando aquilo que ele em seu bom propósito quis preservar inteiramente unido. Pois a graça é conferida através de admoestações, e quanto mais prontamente desempenhamos nosso dever, tanto mais este beneficio de Deus, que opera em nós, se manifesta gloriosamente e sua obra prossegue da melhor maneira. A Deus somente seja dada toda glória eternamente, tanto pelos meios quanto pelo fruto e eficácia da salvação. Amém"[Os Cânones de Dort, Terceiro e Quarto Capítulos de Doutrina-"A Corrupção do Homem, Sua Conversão a Deus e Como Ela Ocorre" - Artigo 17º - "O Uso dos Meios"].

E agora, para erradicar qualquer suspeita de que contendemos contra esta representação, declaramos abertamente e definitivamente que a ela damos a nossa aprovação mais sincera.

Rogamos somente que seja considerado que nesta representação, ambas, a Bíblia e os símbolos de fé sempre apontam para o cenário misterioso, para uma obra maravilhosa de Deus oculta por detrás dele, a um mistério inescrutável sem o qual tudo isto não é nada.

Este cenário maravilhoso, misterioso, inescrutável é descrito da maneira mais linda e elaborada: "Esta conversão é aquela regeneração, renovação, nova criação, ressurreição dos mortos e vivificação, tão exaltada nas Escrituras, a qual Deus opera em nós, sem qualquer contribuição de nossa parte. Mas esta regeneração não é efetuada pela pregação apenas, nem por persuasão moral. Nem ocorre de tal maneira que, havendo Deus feito a sua parte, resta ao poder do homem ser regenerado ou não regenerado, convertido ou não convertido. Ao contrário, a regeneração é uma obra sobrenatural, poderosíssima, e ao mesmo tempo agradabilíssima, maravilhosa, misteriosa e indizível. De acordo com o testemunho da Escritura, inspirada pelo próprio autor dessa obra, regeneração não é inferior em poder à criação ou à ressurreição dos mortos. Consequentemente todos aqueles em cujos corações Deus opera desta maneira maravilhosa são, certamente, infalível e efetivamente regenerados e de fato passam a crer. Portanto a vontade que é renovada não apenas é acionada e movida por Deus mas, sob a ação de Deus, torna-se ela mesma atuante. Por isso também se diz corretamente que o homem crê e se arrepende mediante a graça que recebeu."[Cânones de Dort; Capítulos 3º e 4º de Doutrina - "A Corrupção do Homem, a Sua Conversão a Deus e como Ela Ocorre"-Artigo 12º - "O Caráter Divino da Regeneração"]. E também, anteriormente: "Deus realiza seu bom propósito nos eleitos e opera neles a verdadeira conversão da seguinte maneira: ele faz com que ouçam o Evangelho mediante a pregação e poderosamente ilumina suas mentes pelo Espírito Santo de tal modo que possam entender corretamente e discernir as coisas do Espírito de Deus. Mas, pela operação eficaz do mesmo Espírito regenerador, Deus também penetra até os recantos mais íntimos do homem. Ele abre o coração fechado e enternece o que está duro, circuncida o que está incircunciso e introduz novas qualidades na vontade. Esta vontade estava morta, mas ele a faz reviver; era má, mas ele a torna boa; estava indisposta, mas ele a torna disposta; era rebelde, mas ele a faz obediente, ele move e fortalece esta vontade de tal forma que, como uma boa árvore, seja capaz de produzir frutos de boas obras (I Cor 2.14)"[Artigo 11º dos mesmos Capítulos de Doutrina - "Como ocorre a conversão"]. O Catecismo aponta a isto: "P: Mas somos nós de tal forma pervertidos que nos tornamos totalmente incapazes de praticar o bem e inclinados ao mal? R: Sim, se não nascermos de novo pelo Espírito de Deus".[Catecismo de Heildelberg - Parte I - Da Miséria do Homem - Pergunta n.º 8]. E também na Confissão: "Cremos que, para obtermos verdadeiro conhecimento desse grande mistério, o Espírito Santo acende, em nosso coração, verdadeira fé. Esta fé abraça Jesus Cristo com todos os seus méritos..."[Confissão de Fé Belga - Artigo 22 - "A Justificação Pela Fé Em Cristo"].

Este cenário misterioso, o qual nossos pais em Dort chamaram de o "penetrar até os recantos mais íntimos do homem pelo Espírito regenerador", é evidentemente o mesmo que chamamos de a "divina operação que penetra no centro do nosso ser para implantar o germe da nova vida".

E o que é este operar misterioso? De acordo com o testemunho universal baseado na Escritura, é uma operação do Espírito Santo no ser mais íntimo do homem.

Daí a questão, se este ato regenerador precede, acompanha ou segue o ouvir da Palavra. E, este questionamento deveria ser bem compreendido, pois envolve a solução deste desacordo aparente.

Respondemos: O Espírito Santo pode executar esta obra no coração do pecador antes, durante, ou após a pregação da Palavra. O chamado interior pode estar associado com o chamado externo, ou pode seguir-se a ele. Mas aquilo que precede o chamado interior, a saber, a abertura do ouvido surdo, de modo que seja capaz de ouvir, depende da pregação da Palavra; e portanto pode precedê-la.

A correta discriminação neste respeito é da maior importância.

Se eu chamar de "regeneração" toda a obra consciente da graça desde a conversão até a morte, sem qualquer alusão ao seu cenário misterioso, então eu posso e devo dizer com a Confissão: "...que a verdadeira fé, tendo sido acesa no homem pelo ouvir da Palavra de Deus e pela obra do Espírito Santo, regenera o homem e o torna um homem novo."[Confissão de Fé Belga-Artigo 24º - A Santificação].

Mas se eu fizer distinção nesta obra da graça, de acordo com as afirmações dos sacramentos, entre a origem da nova vida, pela qual Deus nos deu o sacramento do santo Batismo, e o seu suporte, pelo qual Deus nos deu o sacramento da Santa Ceia, então a regeneração cessa imediatamente após o homem haver nascido de novo, e aquilo que se segue é chamado de "santificação".

E discriminando novamente entre aquilo que o Espírito Santo operou em nós consciente e inconscientemente, então regeneração designa aquilo que foi em nós operado inconscientemente, enquanto que conversão é o termo que aplicamos para o despertar desta vida implantada em nossa consciência.

Assim é que a obra da graça de Deus flui através desses três estágios sucessivos:

1º : Regeneração no seu primeiro estágio, quando o Senhor planta a nova vida no coração morto.

2º : Regeneração no seu segundo estágio, quando o homem nascido de novo se converte.

3º : Regeneração no seu terceiro estágio, quando a conversão consolida-se em santificação.

Em cada um desses três, Deus executa uma obra maravilhosa e misteriosa no ser interior do homem. De Deus procede o acender da chama, a conversão e a santificação, e em cada um Deus é o Operador: somente com esta diferença, que no acender da chama Ele opera sozinho, encontrando o homem e deixando-o inativo; que na conversão Ele nos encontra inativos, mas faz-nos ativos; que na santificação Ele opera em nós de maneira tal que nós operamos em nós mesmos, através dEle.

Descrevendo ainda mais detalhadamente, dizemos que no primeiro estágio da regeneração, aquele do acender da chama, Deus opera sem instrumentos; no segundo estágio, aquele da conversão, Ele emprega instrumentos, a saber, a pregação da Palavra; e no terceiro estágio, aquele da santificação, Ele utiliza instrumentos em adição a nós mesmos, a quem Ele utiliza como instrumentos.

Condensando o acima, existe um grande ato de Deus o qual recria o pecador corrupto num novo homem, mediante o atro compreensivo da regeneração, o qual contém três partes - o acender da chama, a conversão e a santificação.

Para o ministério da Palavra é preferível considerar somente os dois últimos, a conversão e a santificação, uma vez que o ministério da Palavra é o meio apontado para a efetivação daqueles. O primeiro, a regeneração, é preferivelmente um tema de meditação privada, já que nela o homem é passivo e somente Deus é ativo; e também porque nela a majestade da operação divina é mais aparente.

Portanto não existe conflito ou oposição. Referindo-se, de acordo com o artigo 17 da Confissão, somente à conversão e à santificação, o desimpedimento do ouvido surdo como precedente ao ouvir da Palavra não é negado. E penetrando na obra que antecede a conversão, "...a qual Deus opera em nós, sem qualquer contribuição de nossa parte."[Cânones de Dort - 3º e 4º Capítulos Da Doutrina: A Corrupção do Homem, Sua Conversão a Deus e Como Ela Ocorre" - Artigo 12], não se nega, mas confessa-se que, a conversão e a santificação seguem-se ao desimpedimento do ouvido surdo; e que, no sentido apropriado, a regeneração é completada somente quando da morte do pecador.

Que não se suponha que fazemos estes dois estarem em conflito. Ao escrever-se a biografia de um vulto, seja de Napoleão, seria suficiente simplesmente mencionar o seu nascimento, mas o biógrafo pode também mencionar, mais particularmente, as coisas que aconteceram antes do seu nascimento. Assim também neste respeito: eu posso referir-me tanto às duas partes da regeneração, conversão e santificação, ou eu posso incluir também o que precede a conversão, e falar também do acender da chama no pecador. Isto não implica em nenhum antagonismo, mas uma mera diferença de exatidão. É mais completo, com referência à regeneração, falar de três estágios - o acender da chama, a conversão e a santificação; embora seja costumeiro e mais prático falar somente dos dois últimos.

O nosso propósito, no entanto, exige uma maior amplitude. O objetivo desta obra não é pregar a Palavra, mas descobrir as fundações da verdade, de modo a parar a construção de paredes tortas sobre a pedra fundamental, conforme a maneira dos Éticos, dos Racionalistas e dos Sobrenaturalistas.

A completa abrangência no tratamento requer que se pergunte não somente, "Como e o que ouve o pecador cuja chama foi acesa?", mas também, "Quem lhe deu ouvidos para que possa ouvir?"

E isto é tudo o mais no que insistir-se, porque nossos filhos não podem ser ignorados neste aspecto. Em Dort, em 1618, eles foram levados em conta, e não podemos negar-nos esta agradável obrigação.

E aqui há o perigo real. Pois falar dos pequeninos sem considerar o primeiro estágio da regeneração - i.e. o acender da chama - causa confusão e perplexidade das quais não há escapatória.

A salvação depende da fé, e a fé depende do ouvir a Palavra; por conseguinte os nossos bebês, os nossos infantes que morrem devem estar perdidos, uma vez que eles não podem ouvir a Palavra. Para fugir desta idéia horrível, diz-se freqüentemente que as crianças são salvas em virtude da fé de seus pais - um mal entendido que confundiu grandemente nossa concepção inteira de Batismo, e que tornou a nossa forma batismal muito complicada. Mas assim que conseguimos distinguir o acender da chama, como um estágio da regeneração, da conversão e da santificação, a luz adentra. Pois uma vez que o acender da chama é um ato de Deus em nós sem a nossa assistência, independente da Palavra, e freqüentemente em separado do segundo estágio, a conversão, por um intervalo de muitos dias, não há nada que previna Deus de executar a Sua obra mesmo em um bebê, e o aparente conflito dissolve-se numa linda harmonia. Ademais, tão logo eu reputo meus filhos ainda não convertidos com não ainda regenerados, seu treinamento deve fluir na direção de um Metodismo questionável ( 2 ). Qual o sentido do chamado, tanto quanto eu suponha e saiba que: "Este ouvido ainda não é capaz de ouvir".

Tocando a questão relativa à "fé", estamos inteiramente preparados para aplicar a mesma distinção a este assunto. Você tem somente que discriminar entre o órgão ou a faculdade da fé, o poder de exercer a fé e o agir da fé. O primeiro desses três, a saber, a faculdade da fé, é implantada no primeiro estágio da regeneração - i.e., no acender da chama; o poder da fé é concedido no segundo estágio da regeneração - i.e., na conversão; e o agir da fé é operado no terceiro estágio - i.e., na santificação. Portanto, se a fé é operada somente pelo ouvir a Palavra, a pregação da Palavra não cria a faculdade da fé.

Somente olhe a o que os nossos pais confessaram em Dort: "...Deus efetua no homem tanto a vontade de crer quanto o ato de crer. Ele opera tanto o querer como o realizar; sim, ele opera tudo em todos (Efésios 2.8; Filipenses 2.13)"[Cânones de Dort - 3º e 4º Capítulos da Doutrina: "A Corrupção do Homem, A Sua Conversão A Deus e Como Ela Ocorre" - Artigo 14: "Fé, Um Dom de Deus"].

Ou para expressá-lo de maneira ainda mais forte: quando a Palavra é pregada, eu o sei; e quando eu a ouço e creio nela, eu sei de onde vem este operar da fé. Mas o implantar da faculdade da fé é algo inteiramente diferente; pois acerca disso o Senhor Jesus diz: "...ouves a sua voz; mas não sabes donde vem, nem para onde vai..."[João 3:8]; e assim como é o vento, também o é a regeneração do homem.


XXIV. União com Cristo.

"...temos sido unidos a Ele..." - Romanos 6:5

Tendo discutido a regeneração como um ato de Deus operado num pecador culpado, perverso e perdido, examinaremos agora a questão mais sagrada e delicada: Como este ato divino afeta a nossa relação com Cristo?

Consideramos este ponto como mais importante que o primeiro, uma vez que cada vista da regeneração que não faz justiça total à "união mística com Cristo" é anti-Bíblica, extermina o amor fraternal, e gera orgulho espiritual.

O santo apóstolo declara: "...e vivo, não mais eu, mas Cristo vive em mim; e a vida que agora vivo na carne, vivo-a na fé no filho de Deus..."[Gálatas 2:20] ( 3 ). A idéia de um santo ter vida fora da união mística com Emanuel nada é senão uma ficção da imaginação. O regenerado não pode viver vida nenhuma, a não ser vida que consista em união com Cristo. Que isto seja firme e fortemente mantido.

As expressões Bíblicas, "...unidos a Ele..."[vide Romanos 6:5] ( 4 ) e "ramos da Videira"[vide João 15:5], as quais devem ser tomadas em seu significado completo, são metáforas inteiramente diferentes daquelas as quais nos utilizamos. Nós estamos confinados a metáforas que expressam nossa idéia por intermédio de analogia; mas elas não podem ser inteiramente aplicadas nem tampouco expressam o verdadeiro sentido da coisa; daí o assim chamado terceiro termo de comparação. Mas as figuras utilizadas pelo Espírito Santo expressam uma conformidade real, uma unidade de pensamento divinamente expressado no mundo visível e no mundo espiritual. Por conseguinte Jesus podia dizer: "Eu sou a videira verdadeira"[João 15:1], isto é, "qualquer outra videira nada é senão uma figura. Eu, e somente Eu sou a Videira verdadeira, a Videira real".

Sendo excessivamente sóbrio e excelente em Seu discurso metafórico, o Senhor Jesus não diz que um galho está enxertado na videira, simplesmente por que isto não é feito na natureza, i.e., na criação de Deus. No capítulo 15 do Evangelho segundo São João, Jesus nem mesmo toca na questão de como alguém se torna um galho. Pois isto é a obra do Pai: "Eu sou a videira verdadeira, e meu Pai é o viticultor"[João 15:1]. No versículo 6 do mesmo capítulo ["Quem não permanece em Mim é lançado fora, como a vara, e seca; tais varas são recolhidas, lançadas no fogo e queimadas"], Ele fala somente de alguém que, em não permanecendo nEle, seca e será queimada.

Mesmo na passagem em Romanos 6:5 o apóstolo não fala do "vir" até Jesus, e na passagem em Romanos 11:17-25 ele fala somente de maneira parcial. A primeira passagem fala sobre estar unido com Ele, mas não nos diz "como"; e a expressão "enxerto" não é nem mesmo mencionada. E na segunda passagem, fazendo alusão a galhos de oliveira quebrados, e de galhos de oliveira selvagem sendo enxertado em uma oliveira boa, e finalmente de galhos quebrados sendo restaurados à oliveira original; não faz nenhuma referência que seja ao implante de indivíduos em Cristo, como logo provaremos.

E ainda assim, a figura é somente aplicável de forma parcial. Realmente, no capítulo 11 da carta aos Romanos, São Paulo, com sua característica ousadia de discurso e de estilo, de forma a tecer comparação, reverte a obra de Deus na natureza; pois enquanto na realidade o broto cultivado é enxertado no caule selvagem, ele em sua escrita faz com que um broto selvagem seja enxertado no tronco bom. De fato uma tirada ousada e muito proveitosa para nós, pois através dela ele nos faz ver clara e distintamente a geral implantação em Cristo. Mas isto é tudo.

Pois, note bem, não se deve pressionar muito a figura. É um erro faze-la referir-se à regeneração do pecador individual. Pois alguém uma vez implantado em Cristo não pode ser separado dEle: "...ninguém as arrebatará da Minha mão"[João 10:28]; "...e aos que justificou, a estes também glorificou"[Romanos 8:30].

E todavia, referência é feita aqui a galhos que se quebraram e que foram enxertados novamente. Se isto referiu-se a indivíduos em particular, então os Judeus, que durante a vida de São Paulo negaram o Senhor, devem ter sido pessoas regeneradas que caíram e retornaram novamente, antes de morrerem.

Se este tivesse sido o que São Paulo quis dizer, eventos subsequentes teriam camuflado as suas palavras, e nós teríamos revogado todo o teor dos seus outros ensinamentos. Mas ele claramente diz que as tribos de Israel, que estavam no Pacto da Graça, tinham perdido sua posição ali por sua própria falta; todavia que mesmo fora do Pacto eles deveriam ser preservados através das épocas vindouras, e que no curso da história o caminho seria aberto até mesmo para eles serem re-introduzidos no Pacto da Graça. E isto mostra que a passagem em Romanos 11:17:25 não ensina a regeneração de pessoas enquanto indivíduos, e que a boa oliveira não significa Cristo, pois aquele que encontra-se implantado em Cristo nunca pode ser separado dEle, e que aquele que é de Cristo separado, nunca pertenceu a Ele. Não cremos nós, na perseverança dos santos?

Pode ser objetado que no capítulo 15 do evangelho segundo São João, referência é feita a galhos, a ramos, a varas que são arrancadas da videira; objeção à qual respondemos: primeiro, que isto não elimina a dificuldade de que os Judeus apóstatas da época de São Paulo nunca foram enxertados, implantados novamente; e segundo, que com Calvino nós sustentamos que Jesus, falando dos galhos retirados da videira, referia-Se a pessoas que, como Judas, pareciam haver sido implantadas; caso contrário as Suas próprias palavras, "...ninguém as arrebatará da Minha mão"[João 10:28] não se sustentam nem por um momento.

Chegamos, portanto, a esta conclusão, de que nem João 15 nem Romanos 11 têm qualquer referência à regeneração pessoal no seu sentido limitado; enquanto que Romanos 6, que fala de 'tornar-se um com Ele', de vir a 'estar unido a Ele', não introduz a idéia de enxerto, nem faz a menor alusão à maneira pela qual este "tornar-se um" foi alcançado.

É desnecessário dizer que não poucos exegetas julgam a tradução "...temos sido unidos a Ele..." incorreta, omitindo as palavras em itálico. Não expressamos aqui uma opinião com respeito a esta apresentação; mas o fato é que o capítulo 6 da carta aos Romanos não tem nada a dizer com relação à maneira pela qual a nossa união com Cristo é efetivada.

Na verdade, a Bíblia nunca aplica a simbologia do enxerto à regeneração. O capítulo 11 da carta aos Romanos trata da restauração de um povo e nação ao Pacto da Graça; o capítulo 6 da mesma carta somente fala de uma união mais íntima; e o capítulo 15 do evangelho segundo São João nunca faz alusão à um galho selvagem que tornou-se bom após haver sido implantado na Videira. Estas figuras apresentam a união com Cristo, mas nada ensinam com relação à maneira pela qual esta união é perpetrada. A Bíblia faz completo silêncio com relação a isto; e desde que não há outra fonte de informação, meras invencionices humanas são totalmente inúteis. Mesma a experiência Cristã não projeta nenhuma luz sobre este assunto, pois ela não pode ensinar nada, absolutamente, que a Bíblia já não tenha ensinado; e novamente, nós podemos facilmente perceber a união com Cristo onde quer que ela exista, mas não podemos vê-la onde ela não existe, ou onde ela está apenas se formando.

E todavia esta união com Cristo deve ser fortemente enfatizada. Os teólogos que representam a verdade divina mais puramente colocam a maior ênfase neste tópico. E embora Calvino possa ter sido o mais rígido dentre os reformadores, ainda assim nenhum deles apresentou esta 'unio mystica', esta união mística, esta união espiritual com Cristo tão incessantemente, de maneira tão terna e com tal fogo santo como ele o fez. E como Calvino, assim também o fizeram todos os teólogos Reformados, desde Beza até Comrie, e desde Zanchius até Köhlbrugge. "Sem Cristo nada, através desta união mística com Cristo, tudo", era o seu lema. E mesmo agora o valor de um pregador deve ser estritamente mensurado pelo grau de proeminência, de acordo com a união mística com Emanuel, na sua apresentação da verdade. O discurso forte de Köhlbrugge, "Alguém pode nascer de novo, alguém pode ser um filho de Deus, alguém pode ser um crente sincero, todavia sem esta união mística com Cristo, ele é nada em si mesmo, nada a não ser um perdido e vil pecador", sempre foi a confissão gloriosa das nossas igrejas. Na verdade, é isto o que a nossa forma de administração da Ceia do Senhor expressa tão bem: "Considerando que buscamos nossa vida fora de nós mesmos, em Cristo Jesus, nós reconhecemos que nos encontramos no meio da morte".

Mas neste aspecto, é errado e depreciativo para a obra do Espírito Santo ensinar - como é reportado que alguns dos nossos ministros mais jovens o fazem - que a regeneração não alcança nada em nós, e que toda a obra é executada completamente fora de nós, como alguns têm dito, "Que nem mesmo precisamos converter-nos, pois mesmo isto foi feito por nós de maneira vicária, pelo Senhor Jesus Cristo". Dizer que não existe diferença entre uma pessoa regenerada e alguém não regenerado é contradizer a Bíblia e negar a obra do Espírito Santo. Por esta razão é que nos opomos mui fortemente a esta noção. Existe, com certeza, uma diferença. Pois o primeiro, o regenerado tem entrado em união com Cristo, enquanto que o último não. E tudo depende dessa união; ela faz uma grande diferença nos homens, diferença tal como entre o céu e o inferno.

Nem tampouco pode ser dito, ao contrário, "que uma pessoa regenerada, mesmo sem a união com Cristo, é outra ou melhor que um não crente"; pois isto põe em pedaços o que Deus ajuntou, o que Deus colocou em união. Fora de Cristo não existe nada num homem nascido de mulher a não ser trevas, corrupção e morte.

Assim é que mantemos firmemente a unidade indissolúvel desses dois: "Não existe regeneração sem o estabelecimento da união mística com Cristo"; e novamente: "Não existe nenhuma união mística com Emanuel a não ser naquele que é regenerado". Estas duas verdades não podem nunca serem separadas; e no longo caminho entre o primeiro ato de regeneração e a santificação completa, a "unio mystica" não pode nem por um momento ser perdida de vista.

Os teólogos Éticos concordarão muito provavelmente com tudo o que dissemos com relação a este assunto; e ainda assim, de acordo com a nossa mais profunda convicção, eles têm degradado e incompreendido este precioso artigo de fé. Seguramente eles enfatizam fortemente a união com Cristo, eles até nos dizem que eles o fazem mais do que nós próprios, mantendo que é imaterial se um homem é sólido na Escritura ou não, tanto quanto ele esteja unido com Cristo. Em sendo este o caso, não há mais necessidade de nenhuma fórmula, nenhuma confissão, nenhum artigo de fé, ou mesmo nenhuma fé na Bíblia. Um eminente professor Ético da Universidade de Utrecht declarou abertamente: "Mesmo que eu perdesse a Bíblia toda, sim, mesmo que a veracidade de nenhuma das narrativas do Evangelho pudesse ser confirmada, eu não seria afetado nem um pouco, pois eu ainda possuiria união com Cristo, e tendo isso, o que mais um homem pode desejar?" E declaração como esta contém um elo tão pio, e se tomada no sentido abstrato é tão verdadeira, que o homem consciente deve concordar com ela, sem ter a mais remota suspeita da apostasia da fé dos pais nela contida.

Se alguém nos perguntasse se não cremos que a alma unida com Jesus possui tudo o que pode ser desejado, quase que nos recusaríamos a responder, pois esse alguém sabe melhor. Não mesmo, alma favorecida, tendo aquilo, possuindo aquela união, necessitas de mais nada; parte pois em paz, abençoada em abundância por Deus.

Mas porque a união mística com o Filho de Deus é um artigo de fé tão precioso e de tão grande importância, desejamos que cada ser humano a trate com a maior seriedade, e examine se a união a qual ele declara possuir é realmente a mesma união mística com o Senhor Jesus Cristo, a qual a Bíblia promete aos filhos de Deus, e da qual os filhos de Deus têm desfrutado através dos tempos.


XXV. Não Uma Natureza Divina-Humana.

"Eu neles, e Tu em Mim..."---João 17:23. ( 5 )

A união de crentes com o Mediador, o mais terno dentre todos os assuntos de fé, é invisível, é insondável e imperceptível aos sentidos; escapa a toda visão própria; recusa-se a ser dissecada ou ser feita objetiva através de qualquer representação; é mística no sentido mais abrangente e completo da palavra - "unio mystica", como Calvino, seguindo o exemplo da Igreja antiga, a ela se referiu.

E todavia, conquanto misteriosa, nenhum homem tem a liberdade de interpretá-la de acordo com as suas próprias noções; na verdade, há sim a necessidade de uma grande vigilância, a fim de que sob a aparência pia deste amor místico, nenhum tipo de contrabando injurioso seja trazido para dentro do santuário divino. Nós portanto levantamos a nossa voz contra as falsas representações de antigas alas, facções e seitas místicas; e dos teóricos Éticos da presente época.

Expliquemos, pois, em primeiro lugar, o ensinamento Ético neste aspecto.

Sua crença inicia-se na antítese existente entre Deus e homem. Deus é o Criador, o homem é uma criatura. Deus é infinito e o homem é um ser finito. Deus habita no eterno, e o homem vive no temporal. Deus é santo, e o homem é ímpio; e assim por diante. Tanto quanto exista esse contraste, assim eles ensinam, não pode haver nenhuma unidade, nenhuma reconciliação, nenhuma harmonia. E como a filosofia panteísta usada para discursar sobre os três estágios através dos quais a vida deve seguir o seu curso - primeiro, o da proposição ("thesis"; tese), depois o estágio do contraste ("antithesis"; antítese), e por fim o da reconciliação, da combinação ("synthesis"; síntese) - assim também os Éticos ensinam que entre Deus e o homem existem as três etapas: tese, antítese e síntese.

Em primeiro lugar, há Deus. Esta é a tese, a proposição. Oposta a esta tese em Deus, a antítese, o contraste, aparece no homem. E esta tese e esta antítese encontram finalmente a reconciliação, a síntese, no Mediador, que é de uma só vez finito e infinito, arqueado sob o peso da nossa culpa e ao mesmo santo, temporal e ao mesmo tempo eterno.

É somente recentemente que citamos a seguinte sentença, da página 28 do livreto do Professor Gunning, intitulado "O Mediador entre Deus e o Homem" (N.T.: em Inglês, "The Mediator between God and Man"): "Jesus Cristo é o Mediador igualmente em os Judeus e os Gentios; e também entre todas as coisas que necessitam reconciliação e mediação; como entre Deus e o homem, entre espírito e corpo, entre céu e terra, entre tempo e eternidade".

Esta representação contem o erro fundamental da teologia Ética. Esta representação interfere nos limites que foram estabelecidos por Deus. Ela os apaga. Ela faz com que desapareçam finalmente todos os contrastes. E por isso mesmo, sem contudo a intenção, ela acaba se tornando o instrumento de disseminação do panteísmo da escola filosófica. Não compreendendo este sistema, alguém pode apaixonar-se profundamente por ele. Este fermento panteísta está profundamente assentado nos nossos corações pecadores. As águas do panteísmo são doces, seu sabor religioso é peculiarmente agradável. Há uma intoxicação espiritual neste cálice, e uma vez inebriada, a alma perde o desejo pela clareza sóbria da Palavra divina. Para livrar-se da magia destes encantos panteístas, alguém precisa ser despertado através de uma experiência amarga. E uma vez despertada, a alma é alarmada contra o perigo terrível ao qual este canto de sereia a expôs.

Não; o contraste entre Deus e homem não pode cessar; o contraste entre céu e terra não pode ser colocado na mesma linha com aquele entre Judeu e Gentio; o contraste entre o infinito e o finito não pode eliminado pelo Mediador; tempo e eternidade não podem ser feitos idênticos. Deve ser trazida à cena uma reconciliação para o pecador. Isto é tudo, e nada mais. "Trazer reconciliação à cena" é a obra designada ao Mediador, e somente isto. E esta reconciliação não é entre tempo e eternidade, entre finito e infinito, mas exclusivamente entre uma criatura pecadora e um Criador santo. Trata-se de uma reconciliação que não poderia ocorrer se o homem não houvesse caído, uma reconciliação somente necessária por sua queda; uma reconciliação não essencial ao ser de Cristo, mas Sua por acidente, i.e., por algo independente do Seu ser.

E desde que a essência da verdadeira santidade está baseada não na remoção das fronteiras e contrastes divinamente demarcados e apontados, mas numa profunda reverência pelos mesmos; e neste aspecto a criatura como distinta do Criador não pode sentir-se uma com, mas absolutamente distinta dEle; fica claro que este erro dos Éticos afeta a essência da santidade.

A Igreja primitiva descobriu este mesmo princípio em Orígenes, e subseqüentemente em Eutychus; e nossos pais do último século o encontraram nos Hernhutters, e claramente se opuseram a ele. E somente porque nos falta conhecimento e penetração é que estas doutrinas Éticas foram capazes de espalhar-se tão rapidamente aqui (N.T., na Holanda), na Alemanha, na Suíça e até mesmo na Escócia, sem as suas tendências panteístas terem sido detectadas.
E como este mal afeta a Cristologia dos Éticos? Ela a afeta de tal modo que torna-se inteiramente diferente daquela das igrejas Reformadas. Embora eles digam; "Nós discordamos nos nossos pontos de vista sobre as Escrituras, mas estamos de acordo na nossa confissão de Cristo", ainda assim isso é absolutamente falso. O seu Cristo não é o Cristo das igrejas Reformadas. Cristo, como a Igreja Reformada O confessa, de acordo com a Sagrada Escritura e com a Igreja ortodoxa de todos os tempos, é O Filho de Deus, eterno Participante da natureza divina, quem no tempo, adicionalmente à natureza divina, adotou a natureza humana, unindo estas duas naturezas na unidade de uma pessoa. Ele as une de tal forma, no entanto, que estas duas naturezas continuam a ser cada uma ela própria, não se misturando, e não comunicando os atributos de uma à outra. Por conseguinte estas duas naturezas são unidas o mais intimamente na unidade de uma pessoa, mas continuando até o fim, e mesmo agora no céu, a serem duas naturezas cada uma com as suas próprias e peculiares propriedades. "Ele é um não pela conversão da Divindade à carne, mas pelo tomar a natureza humana em Deus" (Confissão de Atanásio, artigo 35). E novamente: "Ele é um não pela mistura de substância, mas pela unidade de pessoa" (artigo 36).

De maneira similar nós confessamos: "Cremos que, por esta concepção, a pessoa do Filho está unida e conjugada inseparavelmente, com a natureza humana. Não há, então, dois filhos de Deus, nem duas pessoas, mas duas naturezas, unidas numa só pessoa, mantendo cada uma delas suas características distintas. A natureza divina permaneceu não criada, sem início, nem fim de vida (Hebreus 7:3), preenchendo céu e terra. Do mesmo modo a natureza humane não perdeu suas características, mas permaneceu criatura, tendo início, sendo uma natureza finita e mantendo tudo o que é próprio de um verdadeiro corpo. E ainda que, por meio da sua ressurreição, Cristo tenha concedido imortalidade a sua natureza humana, Ele não transformou a realidade da mesma, pois nossa salvação e ressurreição dependem também da realidade de seu corpo. Estas duas naturezas, porém, estão unidas numa só pessoa de tal maneira que nem por sua morte foram separadas."[Confissão de Fé Belga-Artigo 19: "As Duas Naturezas de Cristo"].

Esta confissão clara, a qual a Igreja ortodoxa sempre defendeu contra os "Eutiquianos" e os "Monothelitas", e a qual as nossas igrejas Reformadas em particular têm mantido em oposição aos Luteranos e aos Místicos, é em todo o tempo oposta pela visão Ética. O Professor Chantepie de la Saussaye disse distintivamente, no seu "Inaugural" que era impossível manter a representação antiga neste ponto, a qual era também endossada pela nossa Confissão; e que a sua confissão do Mediador era outra. Assim é que a ala Ética desvia-se dos caminhos antigos não somente no assunto da Bíblia, mas também na confissão da pessoa do Redentor. Ela ensina o que as igrejas Reformadas sempre negaram, e nega o que as igrejas Reformadas sempre mantiveram em oposição a igrejas menos corretas nos seus pontos de vista.

Sob a influência que o treinamento de Schleiemacher entre os irmãos da Morávia, e o seu desenvolvimento panteísta e dogmáticas Luteranas têm exercido sobre os Éticos, o Cristo que é pregado por eles, não é o Cristo a quem a Igreja ortodoxa de todos os tempos tem dobrado seu joelho; e cuja confissão tem sido sempre preservada incorrupta pelos Reformados, e especialmente pelos nossos teólogos nacionais. Pois as suas conclusões são as seguintes:

Primeiro: Que a Encarnação do Filho de Deus teria tido lugar mesmo que Adão não tivesse pecado.

Segundo: Que Ele é Mediador não somente entre o pecador e o Deus Santo, mas também entre o finito e o infinito.

Terceiro: Que as duas naturezas se misturam, e comunicam os seus atributos uma à outra de tal forma que dEle, que é ambos, Deus e homem, procede aquilo que é divino-humano.

Quarto: Que esta natureza divina-humana é também comunicada aos crentes.

Este erro é reconhecido imediatamente pela utilização da expressão "divina-humana". Não que condenemos o seu uso em qualquer instância. Ao contrário, quando refere-se não às naturezas, mas à pessoa, o seu uso é legítimo, pois na Uma Pessoa, as duas naturezas estão inseparavelmente unidas. Mesmo assim, nos nossos dias, é melhor sermos cautelosos com a palavra. O termo "divino-humano" tem, na época presente, um significado panteísta, denotando que o contraste existente entre Deus e o homem não existia em Jesus, mas que nEle a antítese do divino e do humano não foi encontrada.

E isto é completamente anti-Bíblico, e nas suas conseqüências finais, resulta em pura teosofia. Pois o resultado real é uma fusão das duas naturezas: uma natureza divina em Deus; uma natureza humana no homem, e uma natureza divina-humana no Mediador. De modo que, se não houvesse caído o homem, o Mediador não obstante teria aparecido numa natureza divina-humana.

Esta doutrina é verdadeiramente abominável. Ela põe no lugar do Salvador dos nossos pecados uma outra pessoa inteiramente diferente; os contrastes entre o Criador e a criatura desaparecem; a natureza divina-humana do Cristo é na realidade colocada acima da própria natureza divina. Pois o Mediador, na natureza divina-humana, possui algo que falta na natureza divina, a saber, a sua reconciliação com a humana.

Isto mostra o quanto os Éticos se afastaram da confissão pura do Senhor Jesus Cristo, do que geralmente se acredita. De acordo com eles, existe na Pessoa do Mediador uma espécie de nova criatura, um tipo de terceira natureza, uma espécie de natureza superior, a qual é chamada de "humana-divina". E a união com Cristo é encontrada (não subjetiva, mas objetivamente), no fato de que o Senhor Jesus Cristo derrama em nós aquele novo, terceiro, superior tipo de natureza, ou seja, a natureza divina-humana. Assim é que os regenerados são as pessoas que têm recebido este tipo de natureza novo, terceiro, superior. Isto não tem nenhuma conexão com o pecado, mas teria aparecido mesmo na ausência de pecado. A reconciliação dos pecadores é algo adicional, e não toca a raiz do assunto.

O fato real e principal, é que o Mediador entre o "finito e o infinito" (para usar as mesmas palavras do Professor Gunning) concede a nós, que temos a natureza humana, inferior, esta natureza nova, terceira, superior, divina-humana.

Não que a natureza humana tenha de ser removida, e a natureza divina-humana tome o seu lugar. Realmente não; mas, de acordo com os teólogos Éticos, a natureza humana é originalmente intencionada e destinada a ser assim enobrecida, refinada e exaltada. E como o broto de uma planta, sob a influência do sol, desenvolve e produz flores por excelência, assim também a natureza humana desenvolve-se e se desabrocha sob a influência do Sol da Justiça, até esta natureza superior.

Que isto deva ser alcançado por intermédio da regeneração, fica por conta do pecado. Se não houvesse havido nenhuma queda no Paraíso, e se nenhum pecado tivesse ocorrido após a queda, não haveria nenhuma regeneração, e a condição inferior da nossa natureza teria passado espontaneamente para aquela natureza superior, divina-humana. E esta é, nos círculos dos Éticos, a base daquela mui enaltecida "unio mystica" com Cristo.

A igreja invisível é, de acordo com o seu ponto de vista, aquele círculo de homens nos quais esta mais nobre e superior essência de vida foi instilada, e outros não tão favorecidos ainda permanecem sem ela. Daí a incapacidade de apreciação das igrejas visíveis; pois a tintura, a essência divina-humana de vida não determina ela própria este círculo? Portanto a sua preferência pelo "inconsciente"; a confissão e a expressão de idéias consciente é imaterial; o principal é estar dotado desta nova, superior, mais refinada, natureza divina-humana. Isto explica o seu comportamento arrogante para com homens que não compartilham as suas opiniões. Eles pertencem a uma espécie de aristocracia espiritual; eles são de ascendência mais nobre, familiarizados com formas mais refinadas, vivendo uma vida superior, a partir da qual, com olhos piedosos eles olham para baixo, para aqueles que nem sequer sonham em seus sonhos, com esta essência, esta tintura superior de vida.

Que seja suficiente aqui dizer somente que as igrejas Reformadas não podem endossar esta representação da "unio mystica", mas devem rejeitá-la, positivamente.


XXVI. A União Mística com Emanuel.