A Obra do Espírito Santo

por

Abraham Kuyper, D.D., LL.D

 

VOLUME DOIS

A Obra do Espírito Santo no Indivíduo

Capítulo Quinto - Chamado e Arrependimento

 

 

XXVII. O Chamado do Regenerado.

"E aos que predestinou a estes também chamou..." - Romanos 8:30

Para que possa ouvir, o pecador, surdo por natureza, deve receber ouvidos que ouçam. "Quem tem ouvidos, ouça o que o Espírito diz às igrejas..."[Apocalipse 2:7, 11, 17, 29; 3:6, 13, 22; 13:9].

Mas por natureza, o pecador não pertence ao grupo desses favorecidos. Trata-se de uma experiência diária. De dois funcionários num mesmo lugar, um obedece ao chamado, enquanto que o outro o rejeita; não porque ele menospreze, mas porque ele não ouve o chamado de Deus. Portanto o ato de Deus acender a chama, despertar, antecede à capacidade do pecador de ouvir; e assim ele torna-se capaz de ouvir a Palavra.

O despertar (o acender da chama), o implantar da faculdade da fé, e a união da alma com Cristo, aparentemente três atos, são na realidade somente um ato, juntos constituindo (objetivamente), a assim chamada primeira graça. No operar desta graça, o pecador encontra-se perfeitamente passivo e indiferente, o objeto de uma ação a qual não envolve a menor operação da parte do pecador, seja rendendo-se, ou mesmo não resistindo a ela.

Na verdade, o pecador, estando morto em faltas e pecados, está sob esta primeira graça tal como um corpo sem alma e inerte, com todas as propriedades passivas pertencentes a um cadáver. Este fato não pode ser apresentado com força ou ênfase suficientes. Trata-se de uma passividade absoluta. E cada e qualquer esforço ou inclinação para reclamar para o pecador a menor cooperação que seja, nesta primeira graça, destrói o Evangelho, decepa a artéria da confissão Cristã, e não é somente herética, mas também anti-Bíblica no sentido mais elevado.

Este é o ponto onde erige-se a placa de sinalização; onde as estradas se dividem, onde os homens da purificada, isto é, a Confissão Reformada, separam-se, desviam-se dos seus oponentes.

Havendo apresentado este fato forte e definitivamente, é da maior importância declarar, com igual ênfase que, em todas as operações subsequentes da graça (a assim chamada 'segunda graça'), esta passividade absoluta deixa de existir, por intermédio do maravilhoso ato da primeira graça. Assim é que em toda graça subsequente o pecador coopera, até um determinado ponto.

Na primeira graça o pecador encontra-se absolutamente tal como um cadáver. Mas a primeira passividade do pecador e sua subsequente cooperação não devem ser confundidas. Existe uma passividade, conforme a Bíblia, a qual não pode ser exagerada, a qual deve ser deixada intacta; mas também existe uma passividade a qual é fingida, anti-Bíblica e pecaminosa. A diferença entre as duas não é que a primeira seja parcialmente cooperadora, e a segunda sem qualquer cooperação que seja. Certamente que por tal contemporização, as igrejas e as almas nelas não são inspiradas com energia e entusiasmo. Não, a diferença entre a passividade legítima e a doentia consiste nisso, que a primeira, a qual é absoluta e ilimitada, pertence à primeira graça, à qual é inclusive indispensável; enquanto que a última, agarra-se à segunda graça, à qual ela não pertence.

Que haja uma clara percepção desta verdade, a qual afinal de contas é bem simples. O pecador eleito mas ainda não regenerado não tem condições de fazer nada, e a obra a ser nele operada deve ser operada por outro. Esta é a primeira graça. Mas após ela ter sido alcançada, ele não mais é passivo, pois algo foi trazido a ele, o que na segunda obra da graça cooperará com Deus.

Mas não é implícito que o pecador eleito e regenerado seja agora capaz de fazer qualquer coisa sem Deus; ou que se Deus parasse de operar nele, a conversão e a santificação se seguiriam deles mesmos. Estas duas representações são inteiramente não verdadeiras, não Reformadas e não cristãs, porque elas caluniam a obra do Espírito Santo nos eleitos. Não, todo bem espiritual é da graça, até o fim: a graça não consiste somente em regeneração, mas encontra-se em cada passo do caminho da vida. Desde o começo e até o fim e em toda a eternidade, o Espírito Santo é o Operador da regeneração e da conversão; da justificação e de cada parte da santificação; da glorificação e de todo o gozo, toda alegria dos redimidos. Nada pode ser subtraído desta verdade.

Mas enquanto o Espírito Santo é o único Operador na primeira graça, em todas as operações de graça subsequentes, o regenerado sempre coopera com Ele. Assim é que não é verdade, como alguns o dizem, que o regenerado é tão passivo quanto o não regenerado; isto somente diminui a obra do Espírito Santo na primeira graça. Nem tampouco é verdade que doravante o regenerado seja o principal operador, somente assistido pelo Espírito Santo; pois isto é igualmente derrogatório à obra do Espírito Santo na segunda graça.

Ambos erros devem ser confrontados e rejeitados. Pois embora, por um lado, seja dito que o regenerado, considerado fora de Cristo, ainda se encontre no meio da morte; ainda assim embora ele seja mil vezes considerado estar fora de Cristo, ele permanece nEle, pois uma vez em Suas mãos ninguém poderá arrancá-lo delas. E embora, por outro lado, o regenerado seja constantemente admoestado a ser ativo e diligente, ainda assim, como o cavalo é quem puxa a carruagem, não é ele (o cavalo) mas sim o condutor, é quem dirige a carruagem.

Reservando este último ponto até considerarmos a santificação, nós agora consideramos o chamado, pois este aspecto joga mais luz na confissão das igrejas Reformadas com relação à segunda graça do que qualquer outra parte da obra da graça.

Depois de o pecador eleito haver nascido de novo, i.e., ter sua chama acesa, ser agraciado com a faculdade da fé, e unido a Jesus, a próxima obra da graça nele é o chamado, do qual a Bíblia fala com tal ênfase e de forma tão freqüente. "Mas, como é Santo Aquele que vos chamou, sede vós também santos em toda a vossa maneira de viver"[I Pedro 1:15]; "...dAquele que vos chamou das trevas para a Sua maravilhosa luz"[I Pedro 2:9]; "E o Deus de toda a graça, que em Cristo Jesus vos chamou à Sua eterna glória..."[I Pedro 5:10]; "Para o que pelo nosso evangelho vos chamou, para alcançardes a glória de nosso SENHOR Jesus Cristo"[II Tessalonissenses 2:14]; "...Deus, que vos chama para o Seu reino e glória"[I Tessalonissenses 2:12]; "Rogo-vos, pois, eu, o preso do Senhor, que andeis como é digno da vocação com que fostes chamados"[Efésios 4:1]; e para não mencionar mais: "Portanto, irmãos, procurai fazer cada vez mais firme a vossa vocação (chamado) e eleição; porque, fazendo isto, nunca jamais tropeçareis"[II Pedro 1:10].

Na Escritura Sagrada, o chamado tem, como a regeneração, um sentido mais amplo e um mais limitado.

No sentido anterior, significa ser chamado para a glória eterna; assim incluindo tudo o que precede, i.e., chamado ao arrependimento, à fé, à santificação, à execução de tarefas, à glória, ao reino eterno, etc.

Disto, no entanto, não falamos agora. A nossa intenção é considerar o chamado no seu sentido limitado, que significa exclusivamente o chamado através do qual somos chamados das trevas para a luz; i.e. o chamado ao arrependimento.

Este chamado ao arrependimento é colocado por muitos no mesmo nível com o "trazer", do qual, por exemplo, Jesus fala: "Ninguém pode vir a mim, se o Pai que me enviou o não trouxer..."[João 6:44]. Encontramos isso também em algumas palavras de São Paulo: "O qual nos tirou da potestade das trevas, e nos transportou para o reino do Filho do seu amor"[Colossenses 1:13]; "O qual Se deu a Si mesmo por nossos pecados, para nos livrar (nos trazer) do presente século mau, segundo a vontade de Deus nosso Pai"[Gálatas 1:4]. No entanto, isso me parece menos correto. Aquele que precisa ser trazido parece estar relutante. Aquele que é chamado deve ser capaz de vir. O primeiro implica que o pecador ainda está passivo, e portanto refere-se à operação da primeira graça; o segundo endereça-se ao próprio pecador, e o conta como sendo capaz de vir, e portanto pertence à segunda graça.

Este "chamado" é uma intimação. Não é meramente o chamado de alguém para contar-lhe algo, mas uma chamada implicando o mandamento de vir; ou um chamado suplicante, com quando São Paulo ora: "...como se Deus por nós rogasse. Rogamo-vos, pois, da parte de Cristo, que vos reconcilieis com Deus"[II Coríntios 5:20]; ou como no livro de Provérbios: "Dá-me, filho meu, o teu coração..."[Provérbios 23:26]

Deus envia adiante este chamado através dos pregadores da Palavra: não através da pregação independente de homens irresponsáveis, mas através daqueles a quam Ele Próprio envia adiante; por conseguinte homens especialmente dotados, cujo chamado não é o seu próprio, mas Seu. Eles são os ministros da Palavra, embaixadores reais, demandando no nome do Rei dos Reis o nosso coração, a nossa vida e a nossa pessoa; todavia cujo valor e honra dependem exclusivamente da sua missão e comissão divinas. Como o valor, a importância de um eco depende do retorno correto da palavra, do som recebido, assim também o valor, a honra e a significância dos pregadores dependem unicamente da exatidão com a qual eles fazem o chamado, como um eco da Palavra de Deus. Aquele que chama corretamente, desempenha o ofício mais elevadamente concebível na terra, pois ele chama a reis e a imperadores, estando acima deles. Mas aquele que chama de forma incorreta ou nem mesmo chama, é como um metal que retine; como um ministro da Palavra ele é inútil e desprovido de verdadeira honra para com a Palavra. Fiel para com a Palavra ele é tudo; sem tal fidelidade, ele é nada. Tal é a responsabilidade do pregador.

Isto deve ser notado, a fim de que o Arminianismo não se infiltre no santo ofício. O pregador deve ser nada mais que instrumento do Espírito Santo; mesmo o sermão deve ser o produto do Espírito Santo. Supor que um pregador possa ter o mínimo de autoridade, de honra ou de significado oficial fora da Palavra, é tornar o ofício Arminiano; não o Espírito Santo, mas o pastor, é o operador; ele opera com todo o seu poder, e o Espírito Santo pode ser o assistente do ministro. Para evitar-se tal erro, as nossas igrejas Reformadas sempre têm se purgado da influência do clericalismo.

E através deste ofício, o chamado vai além do púlpito, na classe de catecismo, na família, nos escritos, e através de exortação pessoal. Contudo, nem sempre diretamente para cada pecador através do ofício. Num navio em alto mar, Deus pode usar um comandante devoto para chamar pecadores ao arrependimento. Num hospital sem supervisão espiritual, o Senhor pode usar um homem ou mulher pios, para cuidar dos doentes e chamar suas almas ao arrependimento. Num povoado onde o 'quase-ministro' negligencia sua tarefa, pode parecer bem a Deus trazer almas à vida através de sermões e mensagens impressos ou mesmo livros, talvez mesmo através de uma mensagem num jornal, ou por intermédio de exortação pessoal.

E ainda assim, em todos esses casos, a autoridade para chamar repousa na embaixada divina do ministério da Palavra. Pois os instrumentos do chamado, se tratando-se de pessoas ou de letras impressas, procedem todos do ofício. As pessoas foram elas mesmas chamadas através do ofício, e elas somente transmitiram a mensagem divina; e os livros e materiais impressos ofereceram no papal o que é ouvido no santuário.

Este chamado do Espírito Santo procede na e através da pregação da Palavra, e chama o pecador regenerado a levantar-se da morte, e permitir que Cristo lhe dê luz. Não se trata de um chamado de pessoas ainda não regeneradas, simplesmente por que estes não têm ouvidos que ouvem.

É verdade, que a pregação de um missionário ou ministro da Palavra direciona-se também a outros, mas isto não encontra-se em conflito com o que acabamos de dizer. Em primeiro lugar, porque também existe um chamado aberto para os não regenerados, de forma a privá-los de desculpa, e para mostrar que eles não possuem ouvidos que ouvem. E segundo, porque o ministro da Palavra não sabe se uma pessoa é nascida de novo ou não, razão pela qual ele não faz nenhuma diferença.

Como regra, cada pessoa batizada deveria ser reconhecida como pertencente ao grupo dos regenerados (mas não sempre convertidos); pelo que o pregador deve chamar cada pessoa batizada ao arrependimento, como se ele tivesse nascido de nvo. Mas que ninguém cometa o erro de aplicar esta regra, a qual aplica-se somente à Igreja como um todo, a cada pessoa na Igreja. Isto seria ou o clímax do descuido ou uma completa incompreensão da realidade da graça de Deus.


XXVIII. A vinda dos Chamados.

"Para que o propósito de Deus, segundo a eleição, ficasse firme, não por causa das obras, mas por aquele que chama." - Romanos 9:11

A questão é, se os eleitos cooperam no chamado.

Nós dizemos, Sim; pois o chamado não é chamado, no sentido mais completo da palavra, a menos que aquele que é chamado possa ouvi-lo e o ouça tão distintivamente que lhe cause impressão, que faça com que ele se levante e obedeça a Deus. Por esta razão os nossos pais, pelo bem da clareza, costumavam diferenciar entre o chamado ordinário e o chamado efetivo.

O chamado de Deus não vai somente até o eleito. O Senhor Jesus disse: "Porque muitos são chamados, mas poucos escolhidos"[Mateus 22:14]. E a questão mostra que massas de homens morrem não convertidos, embora chamados pela chamada exterior, a chamada ordinária.

Nem deveria, este chamado externo, ser diminuído ou considerado sem importância; pois é através dele que o julgamento de muitos deverá ser feiro mais pesado, no dia do julgamento: "...se em Tiro e em Sidom fossem feitos os prodígios que em vós se fizeram, há muito que se teriam arrependido, com saco e com cinza. Por isso Eu vos digo, que haverá menos rigor para Tiro e Sidom, no dia do juízo, do que para vós"[Mateus 11:21, 22]; "E o servo que soube a vontade do seu Senhor, e não se aprontou, nem fez conforme a Sua vontade, será castigado com muitos açoites"[Lucas 12;47]. Ademais, o efeito deste chamado externo algumas vezes alcança muito mais profundamente do que supõe-se geralmente, e algumas vezes traz alguem ao ponto exato da conversão real.

Os não regenerados não são assim tão insensíveis à verdade para que não sejam nunca tocados por ela. As palavras decisivas do capítulo 6 da Carta aos Hebreus, com relação aos aparentemente convertidos que até mesmo experimentaram o gosto da dádiva celestial, provam o contrário. São Pedro fala de porcas que foram lavadas e então voltaram a revolver-se na lama. Uma pessoa pode ser persuadida a tornar-se um quase Cristão. Pois pela venda dos seus bens, o jovem governador teria sido ganho por Cristo. Portanto, o efeito do chamado ordinário não é de forma alguma tão fraco e exíguo como muitas vezes se crê. Na parábola do semeador, somente o quarto grupo de ouvintes pertence aos eleitos, pois só eles dão fruto; ainda assim, há considerável crescimento entre duas das classes restantes. Uma delas até mesmo produz caules altos e mesmo espigas, somente não há nenhum fruto.

E por este motivo os homens que acompanham o povo de Deus deveriam honestamente examinar os seus próprios corações, se o seu seguir a palavra é o resultado de a semente ter caído em "solo bom". Oh, pode haver tanto brilho e mesmo alegria; e ainda assim somente para estar chocado, por não conter o genuíno germe da vida.

A todas essas pessoas não regeneradas falta a graça salvadora. Eles ouvem somente com a compreensão carnal. Elas recebem a Palavra, mas somente no campo da sua imaginação não santificada. Eles permitem que ela opere em sua consciência natural. E a Palavra persiste somente sobre as ondas de suas emoções naturais. Assim eles podem muito bem chegar às lágrimas, e amam ardentemente o que quer que assim os afete. Sim, eles com freqüência vezes fazem muitas boas obras as quais são verdadeiramente dignas de menção; eles podem até mesmo doar seus bens para os pobres, e seus corpos para serem queimados. Sua salvação é portanto considerada como sendo ponto pacífico. Mas o santo apóstolo destrói completamente sua esperança, ao dizer que "embora falem com línguas de homens e de anjos, que compreendam todos os mistérios, que embora doem todos os seus bens para alimentar os pobres, e que embora dêem os seus próprios corpos para serem queimados, e não tiverem amor, nada disso se lhes aproveitará" (N.T. vide I Coríntios 13).

Portanto, para ser filho de Deus e não simplesmente um metal que soa, uma visão profunda nos divinos mistérios, uma imaginação fértil, uma consciência atribulada, e ondas de sentimento não são exigidos, pois todos esses podem ser experimentados sem qualquer pacto de graça real; mas o que é necessário é um amor verdadeiro, profundo, operando no coração, iluminando e vitalizando todas essas coisas.

O pecado de Adão consistiu nisto, que ele baniu todo o amor de Deus de seu coração. Agora é impossível ser natural ou indiferente para com Deus. Quando Adão cessou de amar a Deus, ele começou a odiá-LO. E é essa inimizade para com Deus que agora se encontra no fundo do coração de cada um dos filhos de Adão. Portanto a conversão significa isso, que um ser humano livra-se daquela inimizade e recebe amor em seu lugar. Está tubo bem com aquele que diz com o seu coração, "Eu amo o Senhor"; o que mais poderia ele desejar ? !

Mas enquanto não houver amor por Deus, não existe nada. Pois a mera vontade de fazer algo por Deus, ou mesmo a capacidade de suportar grandes sacrifícios, e ser bem pio e benevolente, a não ser que tudo isso seja resultado do motivo justo e certo, é na verdade nada mais que um desprezo para com Deus. Conquanto bonito e maravilhosa seja a cobertura, todas essas aparentemente boas obras são interiormente apodrecidas, corrompidas pelo pecado, e decaídas. Somente o amor concede o sabor real ao sacrifício. Por esta razão o santo apóstolo declara de maneira tão firme e severa que, "...ainda que entregasse o meu corpo para ser queimado, e não tivesse amor, nada disso me aproveitaria"[I Coríntios 13:3].

Fazer boas obras para ser salvo, ou, para fazer favor a Deus, ou para dignificar e enaltecer a própria piedade, é um crescimento da raiz antiga e quando muito nada mais que uma aparência do amor. Nutrir o verdadeiro amor por Deus é alguém ser constrangido pelo amor a render o seu próprio ego, com tudo o que é e com tudo o que tem, e permitir que Deus seja Deus novamente. E o chamado geral, ordinário, externo não pode nunca alcançar isto, é realmente incapaz de produzi-lo.

Por conseguinte, deixamos o chamado ordinário e retornamos ao chamado que é particular, maravilhoso, interno e efetivo; o qual é endereçado não a todos, mas exclusivamente aos eleitos.

Este chamado, do qual é mencionado como "celestial"[Hebreus 3:1 = "Por isso, irmãos santos, participantes da vocação (do chamado) celestial, considerai a Jesus Cristo, apóstolo e sumo sacerdote da nossa confissão"], como "santo"[II Timóteo 1:9 = "Que nos salvou, e chamou com uma santa vocação (santo chamado); não segundo as nossas obras, mas segundo o seu próprio propósito e graça que nos foi dada em Cristo Jesus antes dos tempos dos séculos"], como "sem arrependimento"[Romanos 11:29 = "Porque os dons e a vocação (o chamado) de Deus são sem arrependimento"]; é "conforme o propósito de Deus"[Romanos 8:28-29 = "Porque os que dantes conheceu também os predestinou para serem conformes à imagem de seu Filho, a fim de que ele seja o primogênito entre muitos irmãos. E aos que predestinou a estes também chamou; e aos que chamou a estes também justificou; e aos que justificou a estes também glorificou"], é "do alto, em Cristo Jesus nosso Senhor"[Filipenses 3:14 = "Prossigo para o alvo, pelo prêmio da soberana vocação (chamado) de Deus em Cristo Jesus]; e não tem o seu ponto de partida na pregação. Aquele que nos chama, que nos vocaciona através do chamado não é o ministro, mas sim Deus. E este chamado vai adiante por intermédio de duas agências, uma vindo até o homem externamente, e a outra internamente. Ambas estas agências são efetivas, e o chamado terá atingido o seu propósito e o pecador terá vindo a arrepender-se assim que as suas duas obras se encontrarem e se unirem, no centro, no íntimo do seu ser.

Assim é que negamos que o regenerado, ao ouvir a Palavra pregada, virá por si mesmo. Nós não compreendemos, assim, a sua cooperação. Pois se o chamado interno, o chamado íntimo for suficiente, como então acontece de o regenerado algumas vezes ouvir a pregação sem se levantar, sem arrepender-se, recusando-se a permitir que Cristo lhe dê luz? Mas nós sim, confessamos que, o chamado do regenerado é duplo: externamente, através da pregação da Palavra, e internamente, através da exortação e da convicção do Espírito Santo.

Assim é que a obra do Espírito Santo no chamado tem dois aspectos, é duplo:

A primeira obra é, como Ele vem com a Palavra: a Palavra a qual é inspirada, preparada, empenhada em escrita, e preservada por Ele Próprio, que é Deus Espírito Santo. E Ele traz aquela Palavra aos pecadores através de pregadores a quem Ele Mesmo dotou com talentos; com animação e com visão espiritual. E são maravilhosamente Ele conduz a pregação através do canal do ofício e do desenvolvimento histórico da confissão, que por fim ela chega até o pecador na forma e característica requerida para afetá-lo, tocá-lo e ganhá-lo.

Enxergamos nisto um direcionamento mui misterioso do Espírito Santo. Passado o fato, um pregador verá que, quando da sua pregação em determinada igreja, numa determinada hora, uma pessoa regenerada foi convertida. E, todavia, ele não havia se preparado especialmente para tal. Freqüentemente ele nem mesmo conhecia tal pessoa; muito menos sua condição espiritual. E ainda assim, sem sabê-lo, seus pensamentos foram guiados e sua palavra foi preparada de tal forma pelo Espírito Santo; talvez ele tivesse olhado para aquela pessoa de maneira tal que a sua palavra, em conexão com a operação interna, íntima do Espírito Santo, tornou-se para ela a Palavra de Deus real e concreta. Muitas vezes ouvimos ser dito: "Aquilo foi pregado diretamente para mim". E na verdade o foi. Deveria ser entendido, no entanto, que não foi o ministro quem pregou a você, pois ele nem sequer pensou em você; mas foi o Espírito Santo em Pessoa. Foi Ele quem pensou em você. Foi Ele quem tinha tudo preparado para você. Foi Ele, quem operou em você.

Os ministros da Palavra devem, portanto, ser excessivamente cuidadosos para não propagar, o mínimo que seja, acerca das conversões que ocorrem sob o seu ministério. Quando, após dias improdutivos o pescador puxa sua rede cheia de peixes, é motivo para a rede se vangloriar? Não retornou ela vazia vez após vez, e então quase desfez-se em pedaços, com o peso dos muitos peixes?

Dizer que conversões provam a eficiência do pregador é contra a Bíblia. Podem haver dois ministros, um muito bem embasado na doutrina, o outro nada mais que somente iluminado; e todavia o primeiro não tem conversões em sua igreja, enquanto que o último está sendo ricamente abençoado. Nisto o Senhor Deus é e permanece sendo o Senhor Soberano. Ele passa ao largo dos campeões pesadamente armados no exército de Saul, e Davi, com pouco mais que nenhuma arma, abate o gigante Golias. Tudo o que um pregador tem a fazer é considerar como, em obediência ao seu Senhor, ele pode ministrar a Palavra, deixando os resultados com o Senhor. E quando o Senhor Deus der-lhe conversões, e Satã cochichar no seu ouvido, "Que excelente pregador você é, que lhe foi dado converter tantos homens!" então ele deve dizer, "Afasta-te de mim, Satã", dando toda glória somente ao Espírito Santo.

Contudo, não é somente o único cuidado do Espírito Santo, de tal forma e foco de vida, fazer com que a Palavra chegue até uma pessoa regenerada, mas Ele também acrescenta uma segunda obra, a saber, que através da qual a Palavra pregada efetivamente penetre no próprio centro do coração e da vida daquela pessoa regenerada.

Através desse segundo cuidado, Ele ilumina tanto o entendimento natural e fortalece a capacidade natural e a imaginação do regenerado que ele recebe o teor geral da Palavra pregada e compreende de forma completa e inteira o seu conteúdo.

Mas isso não é tudo, pois até os pretensos crentes podem fazê-lo. A semente da Palavra alcança este crescimento, também naqueles que receberam a semente num terreno rochoso e em meio a espinhos. Assim é que a isto é acrescentada a iluminação do seu entendimento, dádiva maravilhosa a qual capacita-lhe não somente para captar o sentido geral da Palavra pregada, mas também para perceber e dar-se conta de que esta Palavra vem até ele diretamente de Deus; que ela afeta e declara culpado o seu próprio ser, assim fazendo com que ele penetre na essência oculta da Palavra, e sinta o aguilhão afiado o qual efetua a convicção.

Finalmente, o Espírito Santo ocupa-se desta convicção - a qual do contrário se esvaneceria rapidamente - tanto quanto e tão severamente, que finalmente o aguilhão, tal como o fino fio de um bisturi, corte a pele grossa e abra a ferida purulenta. Isto é, no chamado, uma operação maravilhosa. O entendimento geral coloca o assunto perante ele; a iluminação revela-lhe o seu conteúdo; e a convicção coloca a espada de dois gumes diretamente apontada ao seu coração. Então, no entanto, ele é inclinado a encolher-se daquela espada; não para permitir que o fira, mas para que brilhe inofensivamente na alma. Mas então o Espírito Santo, em atividade total, continua a pressionar aquela espada da convicção, levando-a tão fortemente à alma, que por fim ela trespassa, e surte efeito.

Mas isto não finaliza o chamado. Pois após o Espírito Santo haver feito tudo isso, Ele começa a operar sobre a vontade; não por dobrá-la forçosamente, como um vergalhão de ferro na mão forte do ferreiro, mas por faze-la, embora ainda rígida e insubmissa, maleável e branda a partir do seu íntimo. Ele não poderia assim fazê-lo no não regenerado. Mas havendo estabelecido na regeneração a fundação de todas essas operações subseqüentes na alma, Ele assim procede com a construção; ou, para utilizar uma outra figura, Ele colhe os brotos do germe plantado no solo. Os brotos não simplesmente aparecem por si mesmos, mas Ele os retira do germe, da semente. Um grão de trigo depositado numa mesa permanece o que é; mas no solo, aquecido pelo sol, o calor faz com que ele brote. E assim também aqui. O germe vital de nada é capaz por si mesmo; ele permanece sendo o que é. Mas quando o Espírito Santo faz com que os raios estimuladores do Sol da Justiça brilhem sobre ele, ele então germina, e assim Ele retira dali o talo, a espiga e o grão na espiga.

Portanto, a rendição da vontade é o resultado de uma delicadeza e de uma emoção e de uma afeição, as quais provém do germe de vida implantado, através do qual a vontade, a qual anteriormente era inflexível, torne-se maleável; através do qual aquele que encontrava-se inclinado para a esquerda possa ser posicionado à direita. E assim, através daquele último ato, a convicção com tudo o que ela contém, foi trazida até a vontade; e o resultado disto foi a rendição do "eu", dando glórias a Deus.

E desta forma o amor penetrou na alma terno, genuíno, e misterioso, o êxtase do qual vibra em nossos corações durante toda a nossa vida posterior.

E isto finaliza a exposição da obra divina do chamamento. Ela pertence só aos eleitos. Ela é irresistível, e homem nenhum pode impedi-la. Sem ela nenhum pecador jamais passou da amargura da inimizada para a doçura do amor. Quando o chamado e a regeneração coincidem, eles parecem ser um; e assim o são para a nossa consciência; mas na realidade são distintos. Eles diferem neste aspecto, que a regeneração tem lugar independentemente da vontade e do entendimento; que ela é operada em nós sem o nosso auxílio ou cooperação; enquanto que no chamado, a vontade e o entendimento começam a agir, de forma que ouvimos com ambos, o ouvido externo e o ouvido interno, e com a vontade inclinada nós estamos prontos para sair, para a luz.


XXIX. Conversão de Todos os que Vêm.

"...converte-me, e converter-me-ei..." - Jeremias 31:18

O eleito, nascido de novo e efetivamente chamado, converte-se a si mesmo. É impossível permanecer não convertido; mas ele inclina seus ouvidos, ele volta sua face a Deus abençoado, ele é convertido no sentido mais completo da palavra.

Na conversão, o fato da cooperação da parte do pecador salvo assume uma característica claramente definida e perceptível. Na regeneração não havia nenhuma cooperação; no chamado houve o começo; na conversão propriamente, ela tornou-se um fato. Quando o Espírito Santo regenera um homem, é a "Effatha", i.e. Ele abre, Ele desimpede o ouvido. Quando Ele efetivamente o chama, Ele fala àquele ouvido aberto, desimpedido, o qual coopera ao receber o som, isto é, ao ouvir. Mas quando o Espírito Santo realmente converte o homem, então o ato do homem coaliza-se com o ato do Espírito, e é dito: "Deixe o ímpio o seu caminho, . . . . e se converta ao SENHOR, que se compadecerá dele..."[Is 55:7]; e em outra passagem: "A lei do SENHOR é perfeita, e refrigera a alma"[Salmo 19:7].

É um fato impressionante que as Sagradas Escrituras refiram-se à conversão quase que cento e quarenta vezes como sendo um ato do homem, e somente seis vezes como um ato do Espírito Santo. Na Bíblia é repetido vez após vez: "Voltai, ó filhos rebeldes, eu curarei as vossas rebeliões"[Jeremias 3:22]; "...e os pecadores a Ti se converterão"[Salmo 51:13]; "...arrepende-te, e pratica as primeiras obras..."[Apocalipase 2:5]. Mas a conversão como um ato do Espírito Santo é descrita somente no Salmo 19:7 = "A lei do SENHOR é perfeita, e refrigera a alma"[N.T. o autor utiliza e cita a versão "King James": "The law of the LORD is perfect, converting the soul" ("A lei do SENHOR é perfeita, convertendo a alma")]; em Jeremias 31:18 = "...converte-me, e converter-me-ei"; em Atos 11:18 = "...deu Deus o arrependimento para a vida"; em Romanos 2:4 = "...a benignidade de Deus te leva ao arrependimento"; em II Timóteo 2:25 = "...a ver se porventura Deus lhes dará arrependimento para conhecerem a verdade"; em Hebreus 6:6 = "...sejam outra vez renovados para arrependimento".

Este fato deve ser cuidadosamente considerado. Quando a Bíblia apresenta a conversão como sendo um ato do Espírito Santo somente seis vezes, e como um ato do homem cento e quarenta vezes, esta mesma proporção deveria ser observada na pregação. E, portanto, os pregadores que, quando pregando sobre a conversão tratam-na invariavelmente no seu aspecto passivo e no abstrato, a quem aparentemente lhes falta coragem e ousadia para declarar aos seus ouvintes que é sua tarefa converterem-se a Deus, erram de maneira muito séria. Pois têm uma visão muito pia, se bem que contrária à Bíblia. E ainda assim é perfeitamente natural que alguém hesite ao dizer, "Você deve converter-se", tanto quanto regeneração e conversão ainda são confundidas. Pois, então, a declaração "Você deve converter-se", ignora a soberania de Deus, e aquele que nada deduz do estado de morte no qual encontra-se o pecador, teme "falar para ouvidos surdos". Assim é que oram pela conversão dos ouvintes, mas não ousam, em o Nome do Senhor, demandar deles tal conversão.

E nada pode ser deduzido da soberania divina ou do estado de morte do pecador. Cada demanda por conversão, que tenha tal tendência de dedução, é Pelagianismo, e deve ser rejeitada. Mas se o ensinamento da Igreja Reformada neste aspecto for inteiramente compreendido, toda a dificuldade desaparece.

Deve ser notado, contudo, que a Bíblia, ao falar de conversão, nem sempre implica que seja uma conversão salvadora. A obra real da salvação é sempre acompanhada em seu curso por um espectro. Juntamente com a fé salvadora vai a fé temporal; juntamente com o chamado efetivo, o chamado ordinário; e juntamente com a conversão salvadora, a conversão ordinária.

A conversão no seu sentido salvador ocorre somente uma vez na vida do homem, e este ato nunca pode ser repetido. Uma vez havendo passado da morte para a vida, ele está vivo e ninguém pode devolvê-lo à morte. A perdição não é um regato cortado por muitas pontes; nem tampouco o santo, lançado entre infinitos temores e esperança, cruza a ponte em direção à vida, para logo em seguida retornar, cruzando uma outra ponte, às praias da morte. Não; há somente uma ponte, a qual pode ser cruzada somente uma vez; e todo aquele que cruza esta ponte não volta, é mantido pelo poder de Deus. Mesmo que os poderes todos se juntem para levá-lo de volta, Deus é mais forte que tudo e todos, e ninguém pode arrancá-lo da Sua mão.

Declaramos isto tão distinta e vigorosamente quanto possível, pois neste ponto almas são muitas vezes guiadas na direção errada. Atualmente é repetidamente ouvido: "Sua conversão não é um ato momentâneo, mas sim um ato de vida, o qual se repete constantemente; e ai do homem que falhar, somente um dia, a ser convertido de novo". E isto também é completamente errado. A linguagem não deveria ser assim confundida. Ainda que a criança cresça durante vinte anos de pois de haver nascido, e antes que atinja a maturidade, todavia ele nasceu somente uma vez; pois nem a concepção ou a gravidez antes do seu nascimento, ou o seu crescimento após ele, podem ser chamados de "nascimento".

O limite, a fronteira fixada deve ser respeitada também neste aspecto. É verdade que a conversão é precedida por algo mais, mas aquilo não é chamado de "conversão", mas sim de "regeneração" e "chamado"; assim como também existe algo que ocorre após a "conversão", o que chama-se "santificação". Não há dúvida que o termo "conversão" também pode ser aplicado ao retorno dos filhos de Deus convertidos mas reincidentes em pecado, seguindo o exemplo na Bíblia; mas então o termo refere-se não ao ato salvífico da conversão, mas à continuação da obra uma vez iniciada, ou a um retorno não da morte, mas de um desvio temporário.

De forma a discriminar corretamente neste aspecto, é necessário notar a utilização em quádruplo sentido do termo "conversão", na Bíblia.

1. "Conversão", no seu escopo mais amplo, significa uma renúncia à perversidade, à impiedade, e uma disposição à moralidade. Neste sentido é dito dos Ninivitas que Deus viu suas obras, que eles abandonaram as obras más. Isto não implica, contudo, que todos estes Ninivitas pertenciam aos eleitos, e que cada um deles foi salvo.

2. "Conversão", no seu sentido limitado, significa conversão salvadora, como em Isaías 55:7 = "Deixe o ímpio o seu caminho, e o homem maligno os seus pensamentos, e se converta ao Senhor, que se compadecerá dele; torne para o nosso Deus, porque grandioso é em perdoar".

3. E novamente, "conversão" significa que, mesmo depois de haver se tornado um fato nos nossos corações, os seus princípios devem ser aplicados a cada relação da nossa vida. Uma pessoa convertida pode, por um longo tempo, continuar a permitir-se maus hábitos e práticas pecaminosas, mas os seus olhos são gradualmente abertos para o mal, e então ele arrepende-se e os abandona um após outro. Assim lemos em Ezequiel 18:30 = "...Tornai-vos, e convertei-vos de todas as vossas transgressões, e a iniqüidade não vos servirá de tropeço".

4. Finalmente, "conversão" significa o retorno de pessoas convertidas ao seu primeiro amor, após um tempo de fraqueza e frieza na fé, como por exemplo lemos em Apocalipse 2:5 = "Lembra-te, pois, de onde caíste, e arrepende-te, e pratica as primeiras obras..."

Mas neste aspecto, falamos de conversão salvadora, da qual fazemos as seguintes observações:

Primeiro - Não se trata do ato espontâneo do regenerado. Sem o Espírito Santo, a conversão não seguiria a regeneração: Mesmo que chamado, alguém não poderia vir por si próprio. Assim é que é de fundamental importância reconhecer o Espírito Santo e honrar Sua obra como a causa primária da conversão, tanto quanto da regeneração e do chamado. E ninguém pode orar como deve, a menos que o Espírito Santo ore nele com lamentos inexprimíveis, de modo que nenhuma pessoa regenerada e chamada pode converter-se a si mesma como deve, a menos que o Espírito Santo comece e continue a boa obra nele. A obra redentora não é como o crescimento de uma planta, aumentando em si mesma. Não, se o santo é um templo de Deus, o Espírito Santo habita nele. E este habitar indica que tudo alcançado pelo santo é nele operado em comunhão com, pelo incitamento e através da animação do Espírito Santo. A vida implantada não é um germe isolado, deixado para criar raízes na alma sem o Espírito Santo e o Mediador, mas é sim, levada, mantida, regada e nutrida a cada momento, desde Cristo, pelo Espírito Santo. Assim como os homens não respiram sem o ar, e sem a operação da Providência ao vitalizar os órgãos da respiração e da articulação, assim também é impossível que o homem regenerado possa viver e falar e agir a partir da nova vida, sem estar suportado, incitado, e animado pelo Espírito Santo.

Portanto, quanto o Espírito Santo chama aquele homem, e ele volta-se, então não existe a menor parte neste ato de sua vontade, que não esteja suportado, incitado e animado pelo Espírito Santo.

Segundo - Esta conversão salvadora é também a escolha consciente e voluntária e um ato da pessoa chamada e nascida de novo. Enquanto o ar impulsiona o impulso para falar vêm de fora, e meus órgãos da fala devem ser suportados pela providência de Deus, ainda assim sou eu quem fala. E num sentido muito mais forte o Espírito Santo opera na obra da conversão sobre as 'molas e engrenagens' da personalidade regenerada, de forma que todas as Suas operações devem passar através do ego do homem.

Muitas das Suas operações não afetam o ego, como no caso de Balaão. Mas não assim na conversão. Então o Espírito Santo opera somente através de nós. O que quer que seja a Sua vontade, Ele a faz nossa vontade; Ele faz com que todas as Suas ações sejam executadas através do organismo no nosso ser.

Assim é que ao homem deve ser comandado, "Converte-te a ti mesmo". O professor ordena ao aluno que fale, muito embora ele saiba que a criança não pode fazê-lo, sem a ajuda da Providência. Na nova vida, o ego depende do Espírito Santo, que nele habita e que nele opera. Mas na conversão, ele não sabe nada acerca deste habitar, nem que ele é nascido de novo; e seria inútil falar-se sobre tais assuntos. A ele deve ser dito, "Converte-te a ti mesmo". Se a ação do Espírito Santo acompanhar tais palavras, o homem se converterá; se não, ele continuará não convertido. Mas embora ele se converta, ele não se gabará, eu o fiz sozinho, mas dobra-se agora, em gratidão, e glorifica a obra divina, por intermédio da qual ele se converteu.

Nestes dois pontos encontramos evidência de conversão genuína: primeiro, que o homem assim demandado, converte-se a si mesmo, e então ele rende glórias com gratidão ao Espírito Santo somente. Não que temamos que a conversão de alguém será atrapalhada, impedida por negligência. Em toda a obra da graça de Deus, a Sua Onipotência varre para longe tudo o que possa resistir, de modo que toda oposição se derrete tal como cera, e cada montanha de orgulho se esvanece da Sua presença. Nem a preguiça nem a negligência podem jamais atrapalhar que uma pessoa eleita passe da morte para a vida, no tempo por Deus apontado.

Mas existe uma responsabilidade para o pregador, para o pastor, para os pais e guardiães. Para não sermos culpados do sangue de alguém, nós devemos dizer a todas e cada pessoa que a conversão é seu dever urgente; e sem desculpas perante Deus. Após a sua conversão, nós devemos render graças a Deus, quem sozinho alcançou a conversão, na e através da Sua criatura.


Tradução livre: Eli Daniel da Silva

Belo Horizonte-MG, 05 de Maio de 2003.