A Obra do Espírito Santo
por
Abraham Kuyper, D.D., LL.D
VOLUME DOIS
A Obra do Espírito Santo no Indivíduo
Capítulo Sétimo - Fé
XXXIV. Fé em Geral
"Porque pela graça sois salvos, mediante a fé; e isto não vem de vós; é dom de Deus" - Efésios 2:8
Quando o ato judicial do Deus Triúno, a justificação, é anunciada à consciência, a fé começa a ser ativa e expressar-se em obras. Isto nos leva a chamar a atenção dos nossos leitores, para a obra do Espírito Santo, a qual consiste no conceder da fé.
Nós somos salvos através da fé; e tal fé não se encontra em nós, ela é o dom de Deus. Trata-se muito especialmente de um dom do Deus Triúno, através de uma operação peculiar do Espírito Santo; "...ninguém pode dizer: Senhor Jesus!, senão pelo Espírito Santo"[I Coríntios 12:3]. São Paulo chama o Espírito Santo de Espírito da Fé (II Coríntios 4:13). E em Gálatas 5:22 ele menciona a fé como o fruto do Espírito Santo.
Na salvação, quase que todas coisas dependem da fé, pelo que uma correta concepção da fé é essencial. Tem sido sempre o alvo do erro envenenar o ser da fé, e assim destruir almas fracas, tanto quanto a própria Igreja. É, portanto, a tarefa urgente dos ministros instruir as igrejas com relação ao ser e à natureza da fé; através de definições corretas para detectar erros predominantes, e assim restaurar a alegria, o gozo de uma consciência de fé clara e bem fundamentada.
Por anos o povo tem ouvido às mais vagas e pobres teorias de fé. Cada ministro tem tido a sua própria definição e teoria, ou ainda pior, nenhuma definição que seja. De uma maneira geral eles têm sentido o que é a fé, e apresentado-a de forma eloqüente; mas estas descrições brilhantes, metafóricas e muitas vezes floreadas, têm freqüentemente mais obscurecido do que iluminado; eles têm falhado ao instruir. Sendo a definição de fé deixada à inspiração do momento, muitas vezes acontecia que o ministro, inconscientemente oferecia ao seu povo, no sermão de Domingo, exatamente o oposto do que ele havia eloqüentemente proclamado no Domingo anterior. Não deveria ser assim. A Igreja também precisa crescer em conhecimento; e o que era suficiente para a Igreja Apostólica, não o é para a Igreja de hoje. Naquele tempo as idéias quanto a fé eram confusas; e os escritos mais primitivos mostram que os vários problemas relacionados à fé não tinham sido resolvidos.
Mas não é assim, nos escritos
apostólicos, cuja inspiração é provada pelo fato
de que eles contém uma resposta clara e definitiva para quase que todas
estas questões. Mas depois que morreram os apóstolos, a profundidade
da sua palavra ainda não compreendida, houve como que uma confusão
infantil de idéias na Igreja dos primeiros séculos, até
que o Senhor permitiu aparecerem várias formas heréticas de fé,
as quais a Igreja foi compelida a opor-se pelas formas reais de fé. Para
opor-se com sucesso, a Igreja teve de emergir daquela confusão e chegar
até concepções e distinções mais claras.
Por conseguinte as muitas diferenças e os muitos questionamentos e distinções
que apareceram, subseqüentemente, com relação ao ser e ao
exercício da fé. Devido aos calorosos debates, o real ser da fé
tornou-se gradualmente mais definido e claramente distinto daquelas imitações
e formas falsas. Que na atualidade cada trilha, seja boa ou má, tenha
a sua própria e distintiva placa sinalizadora, de modo que ninguém
tome a direção errada ignorantemente, é o fruto do longo
conflito, travado com tanta paciência e talento.
Sem dúvida que a ignorância tem causado muito mal entendido. Mas, mantemos que um guia, que negligencie o exame das estradas antes que proponha-se a guiar viandantes, é indigno do seu título. E um ministro da Palavra é um guia espiritual, apontado pelo Senhor Jesus para conduzir peregrinos viajando para a Jerusalém celestial, através dos altos Alpes da fé, onde a comunicação normal da vida terrena já cessou, entre um e outro platô de montanha. Portanto ele é indesculpável quando, meramente supondo a localização da cidade celestial, ele aconselhe seus peregrinos a tentar a trilha que parece levar àquela direção. Em virtude do seu ofício, ele deveria fazer sua tarefa primordial conhecer qual é o caminho mais curto, mais certo e mais seguro, e dizer aos seus peregrinos que este, e nenhum outro é o caminho. Antigamente, quando os vários caminhos, as várias estradas, as várias trilhas não haviam ainda sido examinadas, era até determinado ponto válido tentá-las todas; mas agora, uma vez que a sua característica enganosa é tão bem sabida e conhecida, é imperdoável experimentá-las novamente.
E quando as pessoas influenciáveis dizem, "Sobre todas as coisas, mantenhamos a nossa simplicidade, que utilidade tem para a nossa fé Cristã todas essas distinções fatigantes", perguntaríamos a eles se no caso de uma intervenção cirúrgica eles prefeririam um cirurgião que, na sua simplicidade corta não importa como ou onde; ou no caso de doença, um farmacêutico que simplesmente faz uma mistura com os conteúdos dos seus vários potes e garrafas, não importando os nomes das drogas; ou, para usar um outro exemplo, no caso de uma viagem marítima, será que eles simplesmente embarcariam num navio cujo capitão, farto do uso de cartas e instrumentos, numa doce simplicidade simplesmente girasse o timão do seu navio, meramente confiando em sua sorte?
E quando eles responderem, como devem, que em casos tais eles demandam profissionais inteiramente familiarizados com os menores detalhes das suas profissões, então perguntamo-lhes, no nome do Senhor e da sua responsabilidade para com Ele, como eles podem ir à labuta tão simplesmente, i.e., com tanta falta de cuidado e tão impensadamente, quando o que está em jogo é doença espiritual, ou a viagem através das insondáveis águas da vida, como se nesses assuntos uma discriminação completa fosse imaterial.
Recusamo-nos, portanto, a sermos influenciados por aquela conversa doentia a respeito de simplicidade com relação à fé, ou pelo ímpio clamor contra um tão chamado dogmatismo, mas buscaremos diligentemente fornecer uma exposição do ser da fé, o qual, erradicando erros, apontará para o único caminho, seguro e confiável.
Como um ponto de partida, que seja plenamente entendido que há uma distinção cortante, entre fé salvadora e fé a qual, nas várias esferas da vida é chamada de "fé em geral".
Quando Colombo é incitado, por uma compulsão interna, a fitar com seus incansáveis olhos o oceano ocidental, na direção do mundo o qual ele lá ele espera existir com uma certeza quase que absoluta, chamamos a isto de fé; e ainda assim, a fé salvadora não tem nada a ver com esta inclinação instintiva na mente de Colombo. E o pregador, utilizando este e outros exemplos similares, caso contrário o mesmo que uma fraca analogia; não explica mas obscurece o tema, e leva a Igreja na direção errada.
Algumas vezes temos dentre nossas crianças uma cuja mente está constantemente ocupada por um objetivo ou uma idéia inconsciente, que o deixa desassossegado. Em anos posteriores, aquilo pode vir a ser o seu objetivo e propósito de vida. Trata-se da compulsão de uma lei interior pertencente à sua natureza; a atividade misteriosa e constrangedora de uma idéia controladora, que governa sua vida e sua pessoa. Pessoas assim constrangidas conquistam cada obstáculo; conquanto opostos, eles chegam cada vez mais próximos daquele propósito inconsciente, e ao final, devido a este impulso irresistível, eles atingem o que por tanto tempo têm aspirado. E isto é também, freqüentemente chamado de fé; ainda que tenha pouco mais que o nome, em comum com a fé da qual falaremos em breve. Pois enquanto tal fé excite a energia humana, e a exalte e a glorifique, a fé salvadora, ao contrário, derruba toda a grandeza humana.
O mesmo aplica-se à tão chamada fé nas idéias de alguém. Alguém é jovem e entusiasta; sonha sonhos lindos, de uma era dourada de felicidade e enxerga ideais maravilhosos de justiça e glória. Este mundo maravilhoso da sua fantasia parece confortá-lo pelos desapontamentos do seu mundo real. Se aquele fosse o mundo real, e se permanecesse sempre assim, teria quebrado o jovem coração e extinguido prematuramente o seu entusiasmo; e, envelhecido enquanto ainda jovem, ele teria aderido ao grupo dos pessimistas que perecem em desespero, ou o dos conservadores que encontram alívio no silenciar dos ditames mais elevados da consciência. Mas felizmente o número deste tipo de pessoas é pequeno. Nesta experiência dolorida muitos descobrem um mundo de ideais, i.e. eles têm a coragem de condenar este mundo pecador, cheio de miséria; e profetizar a vinda de um mundo melhor e mais feliz.
Que pena! Presunção jovem, correndo atrás dos seus ideais, muitas vezes fantasia que a causa de todos os males encontra-se nos ancestrais. "Se meus antepassados tivessem somente enxergado e planejado as coisas como eu faço agora, o nosso progresso teria sido muito maior". Mas aqueles antepassados não viram assim. Eles erraram; por conseguinte os nossos ideais ainda não são reais. Mas há esperança; uma geração jovem, compreendendo estas coisas claramente, cedo será ouvida; então grandes mudanças acontecerão: muito da miséria existente desaparecerá, e o nosso mundo ideal se tornará real. E cruel é a resposta da experiência bruta. Pois o filho age tão tolamente quanto o pai o fez, antes dele. Consequentemente o mundo ideal não é alcançado. Ele clama em alta voz, mas os homens não o ouvem, eles recusam-se a serem libertos da sua miséria, e a velha tristeza permanece, para sempre.
Neste ponto a companhia de homens idealistas é dividida. Alguns abandonam o esforço, chamam seus sonhos ilusões, e, aceitando o inevitável, aumentam a corrente de almas atropeladas no mesmo nível. Mas umas poucas almas mais nobres recusam-se submeter-se a isto e à desventura ignóbil; e preferindo arremeter suas cabeças contra a parede de granito, com o grito "Aconteça o que acontecer"* agarram-se aos seus ideais. E destes homens, que não podem suficientemente ser amados e apreciados, diz-se que crêem. Mas mesmo esta fé não tem nada em comum com a fé salvadora; falar dela como sendo a mesma nada mais é senão profusão de línguas e um unir de coisas dissimilares.* (N.T. - o autor utilizou a expressão em Francês "Advienne qui pourra", que também significa "Seja o que for").
Finalmente, o mesmo aplica-se a uma forma muito mais baixa, ordinariamente chamada de fé, que é a expressão bem humorada de corações leves; ou o palpite certeiro quanto a alguma coisa que venha a ocorrer acidentalmente. Existem almas alegres, bem humoradas, que apesar da adversidade nunca parecem serem derrubadas ou feridas, que conquanto muito reprimidas, sempre contam com suficiente elasticidade em seus espíritos felizes para permitir que a mola mestra de suas vidas interiores ressalte novamente, em atividade total. Tais pessoas sempre têm um olho encorajador e cheio de esperança para todo seu derredor. Trata-se de pessoas estranhas a pressentimentos depressivos, e não acostumadas com temores melancólicos. O cuidado, a preocupação não lhes roubam o sono, e a inquietude nervosa não faz com que o sangue lhes vá ao coração a passo redobrado. Não são, contudo, pessoas indiferentes, somente não são afetadas com facilidade. As coisas podem ir-lhes contra, nuvens podem nublar o seu céu, mas eles enxergam o sol ainda brilhando por detrás das nuvens, e profetizam, com sorriso encorajador, que a luz cedo vencerá as trevas. É, portanto, dito, que eles têm fé em pessoas e em coisas.
E esta fé, se não for muito superficial, deveria ser apreciada. Com milhões de almas em estado de melancolia, a vida neste país seria impossível; e isto é a causa, o motivo de gratidão, que a nossa característica nacional, de outra forma tão fleumática, crie filhos e filhas em cujos corações a fé da animação arde com tanto brilho. E algumas vezes as suas profecias realmente se cumprem; todos pensavam que a pequena embarcação naufragaria, e, vejam, ela alcançou e com segurança aportou na baía; e parece que a fé animada dos que a tripulavam foi de fato uma das causas da sua chegada feliz. E quando aqueles profetas perguntam: Não lhe dissemos? Vocês não estavam todos muito tristes e deprimidos? Não vêm que tudo deu certo?
Mas mesmo esta fé não tem nada, a não ser o nome, em comum com a fé salvadora. Devemos notar isto, especialmente porque, em instituições e em empreendimentos Cristãos, freqüentemente nos deparamos com homens e mulheres que são sustentados, amparados, escorados por este espírito de animação e de confiança inquestionável, e quem, com este estado de ânimo de esperança, muitos guiam uma embarcação Cristã, a qual de outro modo poderia naufragar, até um porto seguro. Mas este animo espiritual que, no Cristão, seja talvez fruto da fé genuína, não é, de forma alguma, a própria fé genuína. E diz-se, "Você vê agora, o que a fé pode fazer?", a fé salvadora é novamente confundida com esta fé em geral, a qual é encontrada algumas vezes até mesmo entre ímpios.
XXXV. Fé e Conhecimento.
"Aquele que crê no Filho tem a vida eterna;
mas aquele que não crê no Filho não verá a vida" -
João 3:36
Na discussão sobre a fé salvadora, a fé em geral não nos consegue ser da menor assistência. Para compreender o que é "fé" , nós devemos voltar-nos para uma direção completamente diferente, e responder a questão: "O que é, entre as nações, a idéia raiz universal, e o significado original de fé?
E então nos deparamos com este fenômeno singular, que entre todas as nações e em todos os tempos, fé é uma expressão que denota, num momento, algo incerto, e em outro momento, algo muito certo.
Pode ser dito: "Eu creio que o relógio bateu três, mas não estou seguro"; ou, "Eu creio que estas iniciais são H.T., mas não estou certo disso"; ou, "Eu creio que você pode tirar uma passagem direto para a Rússia, mas seria bom perguntar primeiro". Em cada uma dessas sentenças, as quais podem ser literalmente traduzidas para qualquer idioma conhecido, o verbo "crer" significa um mero palpite, algo menos que o conhecimento real, uma confissão de incerteza.
Mas quando eu afirmo, "Eu creio no perdão do pecado"; ou, "Eu creio na imortalidade da alma"; ou então, "Eu creio na integridade inquestionável daquele político"; o verbo "crer" não implica dúvida ou incerteza quanto àquelas coisas, mas significa a convicção mais forte quanto a elas.
Do que se segue, que cada definição do ser da fé deve estar errada, o que não explica como, desde uma e mesma idéia raiz, possa existir uma utilização dupla, diametralmente oposta, do mesmo termo.
Desta dificuldade não pode haver senão uma única solução, a saber, a diferença na natureza das coisas com relação às quais a certeza é desejada; de forma que, referindo-se a uma classe de coisas, a certeza mais alta é obtida através da fé, e, com referência a uma outra classe de coisas, não o é.
Esta diferença surge do fato de que existem coisas visíveis e invisíveis, e que a certeza relacionada a coisas visíveis é obtida através do conhecimento e não pela fé; enquanto que a certeza com relação a coisas invisíveis é obtida exclusivamente pela fé. Quando alguém nos fala acerca de coisas visíveis: "Eu creio", e não "Eu sei", ele nos passa a impressão de estar incerto; mas, ao dizer com relação a coisas invisíveis, "Eu creio", ele nos dá a idéia de certeza.
Deve ser aqui observado que as expressões "visível" e "invisível" não devem ser tomadas num sentido muito estrito; por coisas visíveis deve ser entendido todas as coisas que podem ser percebidas pelos sentidos, como na Bíblia; e por coisas invisíveis, as coisas que não podem ser assim percebidas. Assim é que as coisas que pertencem à vida oculta, à vida íntima de uma pessoa devem, no final das contas, estar apoiadas na fé. Somente os seus atos pertencem ao grupo das coisas visíveis. Certeza com relação a estes pode ser obtida através da percepção dos sentidos. Mas certeza com relação à sua personalidade íntima, os seus pensamentos, suas afeições e a sinceridade delas, seu caráter e a dignidade do mesmo, e quaisquer outras coisas pertencentes à sua vida íntima, - certeza com relação a todos estes aspectos pode ser alcançada somente pela fé.
Se fôssemos adentrar mais profundamente neste assunto, deveríamos manter que toda certeza, mesmo com relação a coisas visíveis, apoia-se sempre e somente na fé; e deveríamos então relacionar as seguintes proposições: Quando você diz que você viu alguém na água e ouviu este alguém gritar por socorro, o seu conhecimento, a sua ciência apoia-se, primeiro, em sua crença de que você não sonhou mas que estava bem desperto, e que você não imaginou mas que na realidade viu a cena; segundo, na sua crença firme de que uma vez que você viu e ouviu algo, então deve haver uma realidade correspondente, a qual ocasionou aquele ver e ouvir; terceiro, na sua convicção de que ao ver alguma coisa, e.g., a forma de uma pessoa, os seus sentidos o capacitam a obter uma impressão correta daquela forma.
E, seguindo nesta maneira, poderíamos demonstrar que no final, toda certeza relacionada às coisas visíveis, tanto quanto às invisíveis, apoia-se, afinal, não na nossa percepção, mas na fé. É impossível para o meu ego obter qualquer conhecimento acerca de coisas situadas fora de mim sem uma certa dose de fé, a qual une-me a tais coisas. Eu devo sempre crer ou na minha própria identidade, isto é, de que eu sou eu mesmo; ou na clareza da minha consciência; ou na percepção dos meus sentidos; ou na realidade das coisas que encontram-se fora de mim; ou no axioma do qual eu, procedo.
Pode, portanto, ser declarado, sem o menor exagero, que nenhum homem pode jamais dizer, "Eu sei isto ou aquilo", sem que seja possível provar-lhe que o seu conhecimento, num sentido mais profundo e sob uma análise mais próxima, depende, tanto quanto refere-se à certeza do conhecimento, da fé, somente.
Mas preferimos não considerar esta concepção mais aprofundada do tema, porque ela confunde mais do que explica o ser da fé; pois deve ser lembrado que na Bíblia, o Espírito Santo sempre utiliza palavras tal como elas ocorrem na fala comum da vida diária, simplesmente porque do contrário os filhos do Reino não poderiam compreendê-las. E, na vida diária, as pessoas não fazem tal distinção mais detalhada, mas dizem, no caso do exemplo citado anteriormente: "Eu sei que há um homem na água, pois eu vi sua cabeça e o ouvi gritar". Enquanto que, por outro lado, é dito no linguajar comum da vida cotidiana: "Se você não crê em mim, eu não posso falar com você"; indicando o fato que, com relação a uma pessoa, a fé é o único meio pelo qual certeza pode ser obtida.
E, tendo isto em mente, nós então, pelo bem da clareza, apresentaremos o assunto desta maneira: que o Senhor Deus criou o homem de tal forma que ele pode obter conhecimento de dois mundos, do mundo das coisas visíveis, e daquele das coisas invisíveis; mas tanto que ele obtém tal conhecimento com relação a cada um, de uma maneira especial e peculiar. Ele obtém o conhecimento do mundo das coisas visíveis através dos sentidos, os quais são instrumentos designados para trazer a sua mente em contado com o mundo exterior. Mas os sentidos não o ensinam nada com relação ao mundo das coisas invisíveis, para o que ele precisa, inteiramente, de órgãos diferentes.
Não temos nenhum nome para estes outros órgãos, como os temos para os cinco sentidos; ainda assim nós sabemos que daquele mundo invisível nós recebemos impressões, sensações, emoções; nós sabemos perfeitamente bem que estas diferem mutuamente em duração, profundidade e poder; e nós também sabemos que algumas destas nos afetam como reais, e outras como irreais. Na verdade o mundo invisível, tanto quanto o mundo visível, exerce influências sobre nós; não através dos cinco sentidos, mas através de órgãos inomináveis. Esta influência do mundo invisível afeta a alma, a consciência, o mais íntimo do ego. Este operar causa impressões na alma, excita sensações na consciência, e provoca emoções no ego íntimo.
E isto é feito, no entanto, de forma tal que há sempre espaço para a pergunta: "Estas impressões são reais? Eu posso confiar nestas sensações? Existe uma realidade correspondente a estas sensações, impressões, emoções?" E para esta última questão, só a fé pode responder "sim", precisamente da mesma maneira como a questão, se eu obtenho certeza da minha própria consciência e dos meus sentidos e do axioma, recebe o seu "sim" exclusivamente e somente pela fé.
Para obter certeza com relação às coisas invisíveis, tais como amor, fidelidade, retidão, justiça, e santidade, o corpo místico do Senhor - numa palavra, com relação a todas as coisas que pertencem ao mistério da vida pessoal no meu próximo, em Emanuel, no Senhor nosso Deus, fé é a única e apropriada forma divinamente ordenada; não como algo inferior ao conhecimento, mas igual a ele, somente muito mais certa, e da qual todo conhecimento deriva sua certeza.
Com relação à objeção, de que a Sagrada Escritura declara que a fé será transformada em visão, nós dizemos que esta "visão" não tem nada em comum com a visão através dos sentidos. Deus vê e conhece todas as coisas, e todavia Ele não possui nenhum dos sentidos: Sua visão é um ato de penetração imediata, com o Seu Espírito; diretamente na essência e consistência de todas as coisas. A Adão, no Paraíso, foi concedido algo desta sabedoria e conhecimento imediatos; mas através do pecado ele perdeu aquela característica gloriosa da imagem de Deus. E a Bíblia promete que esta característica gloriosa será restaurada aos filhos de Deus, no Reino da Glória, em medida muito mais gloriosa que no Paraíso.
Mas, enquanto nós ainda nos encontramos temporariamente tal como peregrinos, não possuindo ainda o corpo glorificado não mais que a glória do nosso status íntimo; o nosso contato com o mundo invisível não consiste ainda de visão; à nossa mente ainda falta o poder de penetrar imediatamente nas coisas invisíveis; e nós ainda dependemos das impressões e das sensações produzidas por elas. Razão pela qual não podemos ainda ter certeza nenhuma relacionada a estas impressões e sensações, exceto através de fé direta. Ainda assim, vivendo e existindo juntos como peregrinos, nós cremos no amor de cada um, na boa fé e na honestidade de caráter; nós cremos em Deus o Pai, no nosso Salvador, e no Espírito Santo; nós cremos na Santa Igreja Católica; nós cremos no perdão do pecado, na ressurreição do corpo, e na vida eterna. E nós não cremos em todos estes com o pensamento posterior e secreto de que nós realmente preferiríamos sabê-los, conhecê-los, ao invés de crer neles; pois isto seria simplesmente tão absurdo quanto dizer, de um concerto de órgão: "Eu realmente preferiria ver a música". Música não pode ser vista, não mais que alguém torna-se cônscio de coisas invisíveis através dos sentidos. E como o sentido da audição é a única maneira apropriada para ouvir e apreciar música, assim também a fé é o meio único e peculiar, através do qual a certeza pode ser obtida, com relação ao nosso contato com o mundo invisível e não visto.
Isto estando inteiramente compreendido, não pode ser difícil enxergar que esta fé, com referência a coisas visíveis é muito inferior ao conhecimento; pois as coisas visíveis pretende-se que sejam confirmadas, cuidadosa e acuradamente, através dos sentidos. Uma observação imperfeita proporciona incerteza ao nosso conhecimento. Assim, com relação às coisas visíveis, nenhum outro conhecimento senão aquele obtido através dos sentidos precisa ser considerado confiável.
Mas num número de casos sem importância, o conhecimento acurado é desnecessário; e.g., na diferença com relação às respectivas alturas de dois campanários. Em tais casos utilizamo-nos da palavra "crer", como em, "Eu creio que este campanário é mais alto que o outro". E novamente, coisas visíveis imprimem sua imagem na memória, a qual no decorrer dos anos torna-se difusa. Ao encontrar-me com um cavalheiro ao qual eu já tenha sido apresentado anteriormente, em reconhecendo-o com certeza, eu digo, "Este é o Sr. 'B' "; mas estando incerto, eu digo, "Eu creio que este é o Sr. 'B' ". Neste caso parece que estamos lidando com coisas visíveis, pois uma pessoa, um cavalheiro encontra-se à nossa frente; todavia a imagem a qual o relembra pertence ao conteúdo interno, íntimo da memória. Daí a diferença das expressões.
Alcançamos, portanto, esta conclusão:
Primeiro, que toda certeza relacionada a coisas visíveis, tanto quanto às invisíveis, depende no sentido mais profundo, da fé.
Segundo, que na comunicação cotidiana, a certeza relacionada a coisas visíveis é obtida por intermédio dos sentidos, e com relação às coisas invisíveis, especialmente coisas que pertençam à personalidade, através da crença.
Por esta razão o esforço de Brakel para interpretar o verbo "crer", conforme os idiomas Hebreu e Grego, como significando "confiar", e não como uma maneira de obter certeza, foi um fracasso. Tais significados são o mesmo em todos idiomas, e não existe nenhuma diferença, porque eles são o resultado direto do organismo da mente humana, o qual, nas suas características fundamentais, é o mesmo em todas nações. "Confiança" é o resultado direto da fé, mas não é a própria fé.
"Crer" refere-se, em primeiro lugar, à certeza ou à incerteza da consciência com relação a algo. Se não houver tal certeza, eu não creio; estando conscientemente certo, eu creio. Quando alguém se apresenta a mim como um homem de integridade, a primeira pergunta é, se eu creio nele. Se eu não estiver certo de que ele é um homem de integridade, eu não creio nele. Mas se eu crer nele, a confiança é o resultado imediato. Então é impossível não confiar nele. Crer que ele é o que alega ser, e não confiar nele, é simplesmente impossível.
Por conseguinte "crer" sempre retém o significado primário de "assegurar à consciência"; e fé salvadora exige de mim "estar certo de que Cristo é para mim tal como Ele revela-Se e oferece-Se a Si mesmo na Sagrada Escritura".
XXXVI. Brakel e Comrie ( 1 )
"...e, se sentis alguma coisa de outra maneira, também Deus vo-lo revelará" - Filipenses 3:15
Chamamos a atenção dos nossos leitores para as duas linhas que no século passado foram mais corretamente traçadas por Brakel e Comrie respectivamente; e não negamos que destes dois, Comrie foi o mais correto.
A intenção não é ferir os amigos de Brakel, pois assim feriríamos a nós mesmos. No entanto, embora o título de "Pai Brakel" seja ainda precioso para nós; embora apreciemos seu protesto corajoso contra a tirania da igreja, e reconheçamos de coração o nosso débito para com os seus excelentes escritos; ainda assim isto não o faz infalível, nem altera o fato de que no assunto da fé Comrie julgou mais corretamente do que ele.
Para fazer justiça a ambos, citaremos os seus respectivos argumentos, e então mostraremos que Comrie, que tampouco nem sempre enxergou corretamente, era mais estritamente Bíblico; e portanto, mais estritamente Reformado do que Brakel.
No capítulo sobre Fé ["Rational Religion", tomo ii., página 776, edição 1757 (N.T.: "Religião Racional")], Brakel escreve:
"A questão é, O que é o ato fundamental, essencial, de fé? É a mente concordar com o Evangelho e com as suas Promessas, ou é o coração confiar em Cristo para a justificação, para a santificação e para a redenção? Antes de respondermos esta pergunta, queremos dizer que:
"Primeiro, que por "confiar" não entendemos uma confiança e certeza do Cristão, que ele está em Cristo e que é participante, de Cristo e de todas as Suas promessas; nem a paz e a confiança do Cristão em Cristo, pois tais são frutos da fé, a qual uns têm mais que outros; mas que por "confiar" entendemos o ato da alma, através do qual uma pessoa rende-se a Cristo e O aceita, confiando nEle de corpo e alma, como, por exemplo, alguém confia seus bens a outro, ou como alguém confia e agarra-se aos ombros daquele que o carrega, atravessando uma correnteza.
"Segundo, que tal confiança, necessariamente exige que se conheça previamente e que se concorde com a credibilidade da verdade evangélica; e que, após isto, a fé se exercite nas e através das suas promessas.
"Respondemos agora à pergunta já formulada, da seguinte forma: Verdade, a fé salvadora não é o ato da mente concordando com a verdade evangélica, mas o confiar do coração para ser salvo por Cristo, no terreno do Seu ofertar voluntário de Si Mesmo aos pecadores, e das promessas àqueles que confiarem nEle. E dizemos também que a fé tem seu lugar, não no entendimento, mas na vontade; não sendo a concordância com a verdade ela não pode estar no entendimento, e desde que ela é confiança, ela deve ter seu lugar na vontade.
"A verdade do que dissemos é evidente:
"Em primeiro lugar, do próprio nome. Aquilo que chamamos 'crer', a Bíblia chama 'confiar', 'fiar-se', 'ter em confiança'. Falando de coisas divinas a nós reveladas só na Palavra, não devemos estar confinados ao nosso próprio idioma, pois isto faria com que muitos caíssem em erro; mas deveríamos adaptar nossa linguagem e compreensão à natureza e ao caráter do Hebreu e do Grego originais. Pois no nosso idioma, 'crer' significa aceitar promessas e a narrativa de eventos no vigor da palavra de outra pessoa; mas de acordo com a força dos idiomas originais, os vocábulos manim troH SODS n0s1 1bD1 são traduzidas não somente 'crer', mas 'confiar', 'ter em confiança', 'apoiar-se'. Eles são utilizados, não para denotar a natureza da confiança, mas por confiando, rendendo-se a Cristo, dependendo dEle.
"Em segundo lugar, a Bíblia atribui o ato de fé ao coração: "Visto que com o coração se crê para a justiça..."[Romanos 10:10]; "...se crês de todo o coração. E, respondendo ele, disse: Creio que Jesus Cristo é o Filho de Deus"[Atos 8:37]. Confiar e crer são ambos atos do coração, a vontade. E se for dito que o coração também se refere ao entendimento, à compreensão, respondemos que muito raramente, e mesmo então ele refere-se não só ao entendimento, à compreensão, mas também à vontade, ou à alma, com todos os seus atos.
"Em terceiro lugar, se o ato de fé não consistisse no assentir, no concordar da mente com a verdade, seria impossível ter fé salvadora sem aceitar-se a Cristo, sem confiar nEle; e você pode muito bem conhecer e reconhecer a Cristo como o Salvador enquanto lhe convier, mas que união e comunhão com Cristo isto lhe proporciona? Aceitar a Cristo e confiar e depender dEle seria somente um efeito da fé, mas um efeito não completa o ser de algo que é completo antes do efeito; e a fé salvadora não seria diferente da fé histórica, mas o mesmo, em sua natureza. Pois fé histórica é também o concordar da mente com a verdade do Evangelho, e mesmo os demônios e os não convertidos têm esta fé. Se for dito que o conhecimento de alguém é espiritual e o de outro não é, respondemos: (1) Enquanto for verdade que o conhecimento dos convertidos é diferente daquele dos não convertidos, ainda assim o assunto permanece o mesmo. O seu conhecimento histórico, se concordado, é fé histórica tanto em um como no outro. (2) A Bíblia nunca faz da espiritualidade do conhecimento histórico a característica distintiva da fé salvadora. (3) É certo que o conhecimento de fé de uma pessoa não convertida não é espiritual. E a partir da fé em si mesma, alguém nunca pode se certificar que ele realmente creia; isto ele somente saberá pelos frutos, e tal estaria errado, por completo.
"Em quarto lugar, a fé salvadora crê em Deus, em Cristo; e não se detém na Palavra, mas através da Palavra alcança a Pessoa de Cristo e confia nEle. "E não rogo somente por estes, mas também por aqueles que pela sua palavra hão de crer em mim"[João 17:20]. Só isto já proporciona à fé o seu ponto, natureza e perfeição; portanto a Bíblia diz que fé salvadora é crer em Deus, em Cristo: "...Crê no Senhor Jesus Cristo e serás salvo, tu e a tua casa"[Atos 16:31]. Crer em Cristo é a própria fé, e não o fruto da fé. Seria fruto, se a fé fosse meramente conhecimento e concordância.
"Em quinto lugar, é a própria fé que une a alma a Cristo, apossa-se das promessas, satisfaz a consciência, dá acesso ao Trono de Graça e dá ousadia para chamá-Lo Pai (conforme Efésios 3;17, João 3:36, Romanos 5:1, Efésios 3:12). Mas o mero concordar com a verdade é incapaz de fazer qualquer uma destas coisas. Você pode concordar enquanto lhe convier, mas isto nunca fará com que uma única promessa seja sua; isso não unirá a alma a Cristo, nem tampouco lhe dará a ousadia de chamar 'Abba, Pai'. Portanto o mero concordar não é fé salvadora. Pode ser dito ser obra da mente que concorda, que assente, o aceitar a Cristo e o confiar nEle, e então os resultados como mencionados acima fluem da concordância com a verdade. Mas eu replico: (1) Que o mero concordar, como tal, não pode ter resultados tais, mas que eles são o seu fruto; que o assentir deve primeiro operar a aceitação e a confiança em Cristo; daí que é a forma da fé, e não a sua natureza. Ademais, a Bíblia atribui todas estas coisas à própria fé, e não aos seus frutos. (2) O mesmo pode ser dito do conhecimento dos mistérios do Evangelho, que tem o mesmo efeito, que também une a Cristo, apossa-se das promessas e etc.; mas uma vez que isto seria absurdo, também é absurdo dizer que o mero concordar opera todas estas coisas. E, portanto, é certo que a fé salvadora não é o concordar, mas sim o confiar.
"Em sexto lugar, o oposto da fé salvadora não é a rejeição da verdade do Evangelho, mas a falha em confiar em Cristo. "Aquele que crê no Filho tem a vida eterna . . . aquele que não crê ('obedece', na versão Holandesa - N.T.) no Filho...[João 3;36]; "Não se turbe o vosso coração; credes em Deus, crede também em mim"[João 14:1]; "Onde está a vossa fé?"[Lucas 8:25]. Nesta última passagem, o vocábulo "fé" contrasta com "medo". Assim é que fé verdadeira não é concordar, mas sim confiar."
A característica de Brakel é a de ele considerar fé não como um hábito herdado, mas como um ato exteriorizado do coração; e, em conexão com isto, que o órgão de fé e o seu lugar encontram-se não no entendimento, na compreensão, mas primordialmente na vontade.
Comrie, por outro lado, ensinou que fé é um hábito inato e inerente, a principal importância do qual é ser persuadido. Em sua "Explicação do Catecismo de Heidelberg" (tomo II, página 312), lemos:
"É muito importante a pergunta, 'O que é fé verdadeira?', merecendo a mais cuidadosa consideração; pois somente aqueles que têm verdadeira fé podem ser salvos. Pois embora na fé em si mesma não haja nenhum poder salvador inerente, Deus estabeleceu conexão tal entre a salvação e a fé concedida, que sem esta última ninguém, seja jovem ou velho, pode ser salvo. Crianças tanto quanto adultos devem portanto ser incorporados em Cristo, pois não existe salvação em nenhum outro.
"Esta questão é terrivelmente forçada e distorcida por aqueles que sempre falam de fé como sendo um ato ou um conjunto de atos. Ao lerem a definição de fé (Catecismo de Heidelberg, questão 21), eles dizem que ela descreve não a natureza e o caráter da fé, mas a sua perfeição e grau mais elevado. Agora veremos como os Reformadores definiram fé, como um instrumento de acordo com a verdadeira fundação da Palavra divina, em harmonia com a doutrina da graça livre e em sua relação com a justificação, e não conforme o princípio de obras dos semi-Pelagianos, como muitos agora o fazem; que também dizem que os autores da vigésima primeira questão não descreveram a verdadeira fé da qual a pergunta precedente tinha mencionado brevemente, mostrando que somente podem ser salvos aqueles que encontram-se enxertados, implantados em Cristo e que recebem todos os Seus benefícios através de uma fé verdadeira; mas que descreveram, sim, as obras da fé. Mas como é possível que os autores do Catecismo se esquecessem o que eles haviam recém declarado como a condição essencial para a salvação de cada ser humano, e falar de um grau perfeito e elevado de fé, o qual não é alcançado por cada um dos redimidos, se tomarmos as palavras do Catecismo no seu sentido real? Não; amados, a questão refere-se à mesma fé da qual temos falado, a fé essencial a todos, crianças tanto quanto adultos; i.e., a fé concedida, a qual temos definido como uma faculdade e hábito concedidos, operados nos eleitos pelo Espírito Santo com poder irresistível e re-criador, quando eles são incorporados em Cristo; poder através do qual eles recebem todas as impressões que Deus o Espírito Santo lhes concede através da Palavra (com relação às crianças, de forma que é desconhecida para nós), e pelo qual eles são ativos de acordo com a natureza e o conteúdo da Palavra, objetos da qual são revelados às suas almas. Portanto a realidade e a sinceridade da fé concedida não depende dos atos de fé, mas a sinceridade destes atos é que depende da realidade e da sinceridade da faculdade ou hábito que do qual eles provém; de forma que, muito embora nenhum ato dela proceda, como nas crianças eleitas que falecem, ainda assim elas possuem a verdadeira fé, da qual atos procederiam caso elas pudessem haver empregado suas faculdades racionais.
"Ademais, a fé concedida ao homem desenvolve todo seu poder, toda sua capacidade, não num instante, mas gradualmente, e embora o ato de alguém não apareça tão fortemente pronunciado como o de outro, isto não constitui nenhum sinal de falta de sinceridade; mas é o sinal de que tal ato ou atos não são aparentes. Por exemplo, o sentido do paladar em alguém pode ser perfeito, embora ele nunca tenha provado doce, e formular uma idéia de doçura lhe é então impossível; ainda assim, quando provar, a idéia não será produzida por uma nova faculdade de provar o sabor doce, mas por um novo objeto, o qual excita a faculdade já existente e produz a idéia que antes ele não tinha.
"O mesmo é verdade com relação à fé operada no indivíduo; com referência ao hábito de fé, ele é concedido e aperfeiçoado pela operação sobrenatural do Espírito Santo num momento, mas não age até que a alma se torne consciente dele. E é por isso que alguns homens, que em razão do cativeiro do medo da morte durante toda sua vida nunca estiveram seguros do seu estado em Cristo, puderam ainda ser salvos. Porém, não enfatizamos este ponto; desejamos somente dizer que a resposta descreve o caráter e a natureza reais da fé concedida como uma faculdade, através da qual recebemos o conhecimento de tudo o que Deus revelou a nós em Sua Palavra, e como uma confiança de que Cristo e Sua graça nos são dados livremente por Deus.
"Assim é evidente --
"Primeiro, que a fé consiste numa convicção, ou persuasão. Este é o gênero da fé. A fé, seja humana ou divina, é impossível sem uma convicção da mente quanto à realidade do assunto no qual se crê. Quando falta esta convicção não existe fé, mas somente um palpite, uma fantasia, ou uma suposição.
"Segundo, que esta convicção ou persuasão é produto ou ato, não da fé como tal, mas do testemunho, que é tão convincente e persuasivo, que não se pode duvidar da sua verdade. Esta é a natureza de toda persuasão; a alma, de modo a ser persuadida, não age, mas simplesmente, meramente recebe as provas do assunto em questão; e torna-se tão profundamente convencida que não mais tem a liberdade de rejeitar ou aceitar aquela convicção; mas deve render-se, com a maior boa vontade, à verdade.
"Terceiro, que conforme o grau de clareza com o que o testemunho divino, como que num argumento, grava a fé concedida com relação aos temas do nosso estado de perdição e do caminho da salvação; a convicção da verdade ou dos conteúdos do testemunho serão mais ou menos firmes e persuasivos.
"Por último, que como a fé é operada através de um testemunho, assim também ela é ativada por intermédio de um testemunho da Palavra de Deus, entregue por uma operação do Espírito Santo. Sendo, portanto, no adulto, a filha da Palavra (Bathkol, filia vocis), a fé é também do começo ao fim, sujeita à Palavra, em tudo obedecendo e seguindo-a. Pois isto é uma regra estabelecida entre os Reformados; que através da operação do Espírito Santo nós primeiro recebemos uma faculdade, da qual procedem atividades subseqüentes; e que esta faculdade a nós concedida não age de sua energia própria exceto que seja operada (acti agimus: sendo capacitados, agimos) pela Palavra e pelo poder onipotente do Espírito Santo acompanhando aquela Palavra, no qual e através do qual ela penetra na alma como um órgão e instrumento, para despertar a alma para agir e para fluir, naquele agir.
"Com referência à própria fé, deve ser lembrado --
"Primeiro, que quase que todas as confissões antigas e privadas, de vários mártires, desde o ano 1527, têm assim entendido a fé concedida, como os nossos teólogos de Heidelberg a descrevem, na resposta da vigésima questão em geral, e na resposta da vigésima primeira questão de forma mais particular.
"Segundo, devemos chamar a sua atenção Cristã para os atos que fluem da fé concedida. Teólogos têm opiniões diferentes com relação ao número desses atos de fé, e o que é o próprio ato de fé; uma só palavra referindo-se a ambos. Com relação ao número, Witzius menciona nove: três precedentes, três propriamente, e três que se seguem. Não objetamos; cada homem é livre para expressar-se como lhe agrade. Todavia nós preferimos o método antigo, que sustenta que a fé consiste de três coisas: conhecimento, assentimento, e confiança. Não temos dúvida de que tudo o que ensina a Palavra de Deus com relação à fé pode ser facilmente ordenado sob cada um desses três atos. Com referência ao próprio ato da fé, o qual é chamado de actus formalis fidei; ou seja, o ato formal da fé, as seguintes opiniões são sustentadas: (1) que trata-se do assentir, do concordar; (2) que é o vir até Cristo; (3) a aceitação de Cristo; (4) uma certa confiança em Cristo; e por último, que é amor. As discussões dos teólogos neste ponto são violentas, e muitos tratados são escritos pelas várias partes, seja para estabelecer suas próprias opiniões ou para refutar as opiniões de outros.
"Amados, nós julgamos que poderíamos deixar este assunto passar em branco, não fosse pelo fato de que esta definição pode favorecer os semi-Pelagianos neste aspecto, que sustentam que fé é um ato, e que ela recebe o seu ser formal através de um ato: "Forma dot esse rei" (a forma dá existência à matéria). E vendo que alguns começam a desviar-se, dizemos: Que nenhum ato ou atos podem dar à fé a sua forma ou o seu ser. Pois isto implicaria que a fé concedida, a qual o Espírito Santo opera nos eleitos é uma fé disforme, uma fé sem forma, à qual falta aquilo que é essencial ao seu ser. E isto é absurdo, desde que por este implícito "actus formalis" muito mais nos é atribuído do que ao Espírito Santo; sim, muito mais, considerando que a forma é mais excelente que o material. De acordo com esta suposição, Ele nos concede somente o material da fé, ainda disforme, sem forma; e através do nosso ato ou atos nós moldamos, damos forma àquela fé disforme."
O nosso objetivo principal ao fazer estas citações foi que o estudante possa receber o contraste dos próprios lábios destes dois homens, e então descobrir que o menor desvio de Amesius de Calvino e Beza em Brakel já inclina em muito para o subjetivo; e que o caráter objetivo da graça salvadora é suficientemente coberto somente pela linha de Agostinho, Tomás, Calvino, Zanchius, Voetius, Comrie. Brakel estava certo em opor-se ao dogmatismo petrificado do seu tempo. Mas quando ele sistematizou sua oposição ele foi longe demais naquela direção. Em exatamente da mesma maneira como Köhlbrugge estava certo quando, em oposição aos seus contemporâneos, ele manteve o objetivo tão rigidamente quanto possível, enquanto seus seguidores erram ao sistematizar sua então necessária oposição.
Está mais seguro, aquele que seguir a linha de Agostinho, de Calvino, de Voetius, de Comrie.
XXXVII. Fé Nas Sagradas Escrituras.
"Visto
que com o coração se crê para a justiça, e com a boca se
faz confissão para a salvação" -
Romanos 10:10
Diz Calvino, de maneira linda e compreensiva que o objeto da fé salvadora não é nenhum outro senão o Mediador, e invariavelmente nos trajes das Sagradas Escrituras. Isto deveria ser aceito incondicionalmente. A Fé Salvadora é possível, portanto, somente nos homens pecadores e enquanto eles permanecerem pecadores.
Supor que a fé salvadora já existia no Paraíso é destruir a ordem das coisas. Num sentido, não havia nenhuma necessidade de salvação no Paraíso, porque lá havia felicidade pura e imperturbada; e para o desenvolvimento desta felicidade numa glória ainda maior, não a fé, mas sim as obras, foi o instrumento apontado. A fé pertence ao "Pacto da Graça", e só àquele pacto.
Assim é que não pode ser dito que Jesus tinha fé salvadora. Pois Jesus não era pecador, e portanto não poderia ter "aquela confiança certa, que não somente a outros, mas a Ele também, havia sido dada a justiça do Mediador". Temos somente de conectar o nome de Jesus com a descrição clara e transparente da fé salvadora conforme o Catecismo de Heidelberg, para mostrar o quão tolo é para os Éticos explicarem as palavras, "Jesus, o Autor e Consumador da nossa fé", como se embora Ele tivesse fé salvadora como cada um dos filhos de Deus.
De modo que fé salvadora é inimaginável, no céu. A fé é salvadora; e aquele que está salvo alcançou o final da fé. Ele não mais caminha pela fé, mas pela vista. Deve, portanto, ser inteira e completamente compreendido que fé salvadora refere-se somente ao pecador, e que Cristo, nas vestimentas da Sagrada Escritura, é o seu único objeto.
Duas coisas devem, portanto, ser cuidadosamente distinguidas: fé no testemunho relativo a uma pessoa, e fé naquela própria pessoa.
Ilustremos. Um barco está pronto para zarpar, mas falta-lhe um capitão.
Dois homens apresentam-se ao armador, o dono do navio; ambos têm excelentes recomendações assinadas por pessoas dignas de confiança e de crédito. Da absoluta veracidade dessas recomendações, o armador está completamente convencido. E todavia, apesar deste testemunho, desta recomendação, um é empregado e o outro é dispensado. Entrevistando a ambos, o armador descobriu ser o primeiro uma pessoa muito razoável, pronto a permitir que ele, na qualidade de dono do barco, desse as ordens; na verdade, como capitão ele não teria nada a dizer. Mas o outro, um marinheiro de verdade, exigiu o controle absoluto da embarcação, caso contrário ele não se responsabilizaria. E, uma vez que o dono do navio gostava de dar ordens, ele preferiu o tímido e tratável capitão, e dispensou o marinheiro rude. Consequentemente, o comandante dócil, em obedecendo ordens, perdeu o navio na primeira viagem, enquanto que o barco rival, comandado por aquele marinheiro grosseiro retornou à pátria carregado com uma carga preciosa.
Aqui podemos enxergar dois tipos de fé. Primeiro, a fé ou falta dela, nas recomendações, nos testemunhos apresentados; segundo, fé ou falta dela, nas pessoas às quais as recomendações, os testemunhos se referem. Na ilustração, a fé do primeiro tipo era perfeita. Aquelas recomendações foram aceitas como genuínas; o armador teve perfeita fé nas assinaturas firmadas. E mesmo assim, não se seguiu que ele estivesse imediatamente pronto a confiar sua embarcação, sua propriedade a nenhum daqueles profissionais. Pois isto exigia um outro tipo de fé; não somente fé nos conteúdos daqueles documentos, mas fé também que estes conteúdos se provassem verdadeiros no tocante ao comando do seu navio. Assim é que ele cuidadosamente considerou ambos candidatos, e descobrindo que um não deixava nenhum espaço para os seus palpites, era natural que ele contratasse o outro, que bajulava a sua vaidade. E, influenciado pelo seu egotismo, ele não depositou aquele segundo tipo de fé na pessoa correta. Seu vizinho, não tão egoísta e vaidosamente inclinado, manteve o objetivo em vista, teve fé no marinheiro rude, e seus lucros foram quase que fabulosos. Assim é que ambos homens tiveram fé incondicional nas recomendações, nos testemunhos; mas um deles, negando-se a si mesmo, também teve fé no excelente capitão, e o outro, recusando negar-se a si mesmo, não a teve.
Aplique isto à nossa relação com Cristo. Aquela embarcação é a nossa alma. Ela está sacudindo-se por sobre as ondas e precisa de um piloto. A viagem é longa, e perguntamos: "Quem a pilotará em segurança?" Então um testemunho, uma recomendação é estendida à nossa frente, dando conta de Alguém maravilhosamente capacitado na arte de pilotar almas em segurança, na direção do céu almejado. Tal testemunho é a Bíblia Sagrada, a qual em todas as suas páginas oferece senão um, sempiterno, testemunho divino referente à excelência única de Cristo como piloto de almas até o seguro céu. Com este testemunho à nossa frente, cabe a nós decidir se o aceitaremos ou não. A sua rejeição finaliza o assunto, e Jesus não será nunca o Guia da nossa alma. Mas, aceitando-o, dizendo, "Nós cremos em tudo o que está escrito", podemos prosseguir. Esta confissão implica em: (1) fé na legitimidade do testemunho; (2) fé em Deus, que o deu; e (3) fé na verdade do seu conteúdo.
Mas isto não é fé salvadora, somente fé no testemunho. Acreditar que ele se provará verdadeiro no nosso caso, nas nossas próprias pessoas, é bem diferente. Isto depende, não do testemunho, mas de se nós nos subteremos Àquele de quem ele fala. Embora este Capitão pilote almas com segurança através de águas muito profundas, Ele não pilota todas as almas. Elas devem ser capazes e estarem prontas a submeter-se a Ele, de acordo com as Suas exigências. Aqueles que não estão preparados são deixados para trás, e, tentando guiarem-se a si mesmos, perecem miseravelmente. Então devemos nos submeter. E isto exige o deixar de lado todo o nosso auto conceito, o derrubar completo do "eu". Enquanto o "eu" estiver no caminho, nós recusamo-LO como o nosso Guia espiritual; nem tampouco acreditamos no Seu poder. Mas assim que o "eu" é derrubado, assim que o ego é silenciado, e que a alma abandona-se nEle, a fé desperta, e, joelhos dobrados, clamamos: "Meu Senhor e meu Deus!".
É exatamente como o nosso Catecismo de forma linda e compreensível o expressa: "Que a fé verdadeira consiste de duas coisas, primeiro um conhecimento certo ( 2 ) através do qual eu aceito como verdadeiro tudo o que Deus nos revelou em Sua Palavra; mas também uma confiança assegurada, que é uma confiança firme e leal, a qual o Espírito Santo cria em meu coração através do Evangelho; que não apenas aos outros mas também a mim, perdão de pecados, justiça eterna e salvação são livremente dados por Deus, exclusivamente pela graça, somente pelos méritos de Cristo."
Examinando mais cuidadosamente o que estes dois pontos têm em comum, vemos, não que um seja conhecimento e o outro confiança, mas que ambos consistem em serem persuadidos.
Com o testemunho perante si, o homem natural é inclinado a rejeitá-lo. Ele tem muitas objeções. "É genuíno?" "Não foi comprometido por alterações várias? Posso confiar na verdade do seu conteúdo?" Ele continua com sua resistência por um longo tempo. Ele diz: "Nenhum homem pode convencer-me; Eu creio muito, mas não naquela escritura impossível". Mas o Espírito Santo continua a Sua obra. Ele mostra-lhe que está errado; e, embora ainda resistente, inicia-se como que um fogo em seus ossos, até que a oposição torna-se impossível, e ele confessa que Deus é verdadeiro e Seu testemunho, genuíno.
Mas, porém, isto não é tudo. Ainda falta-lhe a segunda fé: se tudo isto se aplica a ele pessoalmente. Ele começa por negá-lo. "Isto não quer dizer eu", ele fala; "Jesus não salva um homem como eu". Mas aqui o Espírito Santo o encontra novamente. Ele o traz de volta à Palavra. Ele mantém a imagem do pecador salvo à sua frente até que ele reconheça a si mesmo naquela imagem. E embora ele ainda alegue, "Não pode ser assim; Eu somente me decepciono", todavia o Espírito Santo persiste em persuadi-lo até que, completamente convencido, ele se aproprie de Cristo e reconheça: "Bendito seja Deus, que salvou um pecador como eu ". Por conseguinte não é primeiro conhecimento e então confiança, mas ambos são uma persuasão interna, pelo Espírito Santo. E o homem assim persuadido, crê. Aquele que é persuadido da verdade do testemunho divino relacionado com o Guia de almas, crê em tudo o que encontra-se revelado na Bíblia. E estando também persuadido de que o pecador salvo descrito na Bíblia é ele mesmo, ele cré em Cristo como a sua Certeza.
Daí que a característica peculiar da fé em ambos seus estágios é ser persuadida. A fé salvadora é uma persuasão operada pelo Espírito Santo, que na Bíblia é um testemunho verdadeiro relativo à salvação de almas, e que esta salvação inclui a minha alma.
Então o Catecismo de Heidelberg está errado, ao falar de conhecimento e de confiança? Não; mas deve ser notado que ele fala, não da origem da fé, mas de seu fruto e exercício, a fé estando já estabelecida. Sendo persuadido de que a Bíblia é verdadeira, e crendo no testemunho divino relativo a Cristo; nós imediatamente possuímos a certeza, e conhecimento indubitável com relação a estas coisas. E sendo persuadido de que a salvação inclui a minha alma, eu possuo, em virtude desta persuasão, uma confiança firme e assegurada de que o tesouro da redenção de Cristo também é meu.
Portanto, a fé tem três estágios: (1) conhecimento do testemunho; (2) certeza das coisas reveladas; e (3) persuasão de que isto concerne a mim pessoalmente. Estes costumavam ser chamados de conhecimento, assentimento, e confiança; e estamos prontos a adotá-los, mas eles devem ser utilizados cuidadosamente. Pelo primeiro deve entender-se nada mais que o obter de conhecimento independentemente de fé. Daí que o Catecismo de Heidelberg o omite como não pertencendo à própria fé, e menciona somente assentimento e confiança. Pois aquele certo conhecimento do qual o Catecismo fala não é o que os acadêmicos colocam em primeiro plano como conhecimento; mas sim o que eles chamam de assentimento. A ênfase não está na palavra 'conhecimento', mas sim em certeza ( 3 ). Não é o conhecimento, mas sim a certeza do conhecimento que pertence à verdadeira fé.
Pelo que alguns costumavam distinguir entre conhecimento e assentimento, e tratá-los em separado. Pois deveria ser lembrado que os não convertidos não entendem a Bíblia, nem podem ler o seu testemunho. Não sendo nascidos da água e do Espírito, eles não podem ver o Reino de Deus. O homem natural não compreende as coisas espirituais. Assim é que dizemos enfaticamente, que o conhecimento precedendo à fé e com o qual a fé deve concordar implica na iluminação do Espírito Santo. Somente sob aquela ótica é que alguém pode enxergar a glória da Bíblia e captar sua beleza; sem isto ela lhe é nada senão uma pedra de tropeço. Mas todavia isto não é parte da fé, mas somente parte da obra do Espírito ao fazer com que a fé seja possível.
Uma verdade ou uma pessoa não é fé, senão o objeto da fé; a própria fé deve ser persuadida quando, ao findar toda oposição, a alma tenha obtido segurança. Daí a absoluta falta de lógica de falar-se de fé separada da Bíblia, ou direcionada a qualquer outra coisa senão Cristo; ou de chamar a fé de uma inclinação universal da alma, clamando por salvação, para saciar a sua sede. Tudo isto rouba da fé o seu caráter. Quando digo, "Eu creio", quero dizer que isto ou aquilo é para mim fato indubitável. Para crer, alguém deve estar seguro, convencido, persuadido - caso contrário não pode haver fé; e o fruto deste ser persuadido é um rico conhecimento, confiança gloriosa, e acesso ao Senhor.
No entanto, deveria ser notado que temos falado de fé somente tal como ela se mostra acima do solo. Mas isto não é suficiente. Devemos ainda examinar a raiz, as fibras da fé, na alma. Devemos examinar a faculdade que capacita a alma a crer. Isto no próximo artigo.
XXXVIII. A Faculdade da Fé.
"Porque todos os que são guiados pelo Espírito de Deus, esses são filhos de Deus" - Romanos 8:14
Fé salvadora deveria ser sempre entendida como uma disposição do ser espiritual do homem, através do qual ele pode vir a tornar-se seguro de que o Cristo da Bíblia, o único Salvador, é o seu Salvador.
Escrevemos propositadamente uma "disposição" através da qual ele pode "vir a tornar-se seguro". Como a água encontra-se na tubulação, embora não corrente agora mesmo, ou como gás nos cilindros, embora não queimando, assim também pela virtude da regeneração encontra-se presente a fé, como uma disposição no ser espiritual do homem, muito embora ele ainda não creia, ou tenha deixado de crer. Se a casa estiver conectada com o sistema municipal de fornecimento de água, a água pode jorrar; mas nem por isso ela jorra constantemente; nem tampouco o gás no fogão esteja sempre queimando. Que em sua casa a água possa jorrar da torneira, e o gás possa queimar no fogão, é a diferença entre a sua habitação e a do seu vizinho, cuja casa não esteja assim conectada.
Há uma diferença parecida entre o regenerado e o não regenerado; isto é, entre aquele que encontra-se unido com Jesus e aquele que não está assim unido. A diferença não é que aquele primeiro creia e creia sempre, mas somente isto, de que ele pode crer. Pois o não regenerado não pode crer; ele propositadamente destruiu a dádiva divina e preciosa, através da qual ele poderia haver se conectado com a vida de Deus. Deus lhe deus olhos para ver, mas ele propositadamente cegou-se a si mesmo. Assim é que ele não vê a Jesus. O Cristo vivo não existe para ele. Nem tampouco o filho regenerado de Deus. Verdade, ele também é um pecador; ele também cegou-se de propósito, mas uma operação é nele executada, restaurando sua visão, de forma que ele agora pode ver. E isto é a faculdade da fé nele implantada. Esta faculdade toca a consciência. E assim que o fato de que Cristo é o único Salvador e o meu Salvador, como uma verdade fundamental, indubitável, firmemente estabelecida e introduzida em minha consciência - a qual é a representação clara de todo o meu ser, e está perfeitamente adaptada e unida a ele - Eu creio.
Mas esta verdade não se encaixa à consciência do homem natural. Ele pode inseri-la uma vez ou outra, por intermédio de uma fé temporária ou histórica, mas somente como um elemento estranho, e a sua natureza imediatamente reage contra ela, precisamente da mesma maneira como o sangue e o tecido reagem contra uma farpa, uma lasca no dedo de uma pessoa. Por esta razão uma fé temporária nunca poderá salvar alguém, mas, ao contrário, ela o fere; pois causa a inflamação da sua alma.
A consciência humana como o é naturalmente, e Cristo conforme a Bíblia O apresenta, são em princípio diametralmente opostos. Um exclui o outro. Aquilo que se encaixa e se adapta à consciência do homem natural é a negação persistente de Cristo. Esta consciência natural é a representação da sua existência pecadora; e uma vez que um pecador não convertido pensa e declara-se salvável, e propõe-se a salvar-se a si mesmo, ele não consegue tolerar a Cristo. Cristo lhe é impensável; portanto ele não O reconhece. Não, não há necessidade dEle; ele também pode salvar-se, com Jesus, ou tão bem como Jesus, ou após o exemplo de Jesus; portanto este Jesus não é de jeito nenhum o único Salvador.
Mas se o Cristo conforme a Bíblia se encaixa à sua consciência, aquela consciência deve ter sido mudada do que era por natureza; e sendo o reflexo e a representação do seu ser e de tudo o que ele contém, segue-se que, para abrir espaço para Cristo, não para obrigá-LO, mas a partir da sua própria e absoluta necessidade, o seu ser deve primeiro se mudado. Daí uma mudança dupla:
Primeiro, o novo nascimento, modificando a posição do seu ser interior.
Segundo, a mudança afetando a sua consciência, ao introduzir a disposição para aceitar a Cristo. E esta disposição, sendo o órgão da sua consciência através do qual ele pode faze-lo, ele pode aceitar a Cristo, é a faculdade da fé.
Os pais observaram corretamente, que esta disposição se revela também à vontade. E não pode ser de outra forma. A vontade é como uma roda movendo as pás de um moinho. No Adão sem pecado, esta roda encontrava-se perfeitamente alinhada no eixo, podendo girar com a mesma facilidade, tanto para a direita como para a esquerda - i.e. movia-se tão livremente na direção de Deus, como na direção de Satã. Mas no homem pecador, esta roda de moinho está parcialmente desalinhada, empenada, somente podendo girar livremente para a esquerda. Quando o homem quer pecar, ele pode faze-lo. Nesta direção, na direção do pecado, a roda gira livremente; ele tem o poder de pecar. Mas esta mesma roda de moinho pode mover-se na outra direção; um pouquinho, talvez, com muita dificuldade e muito chiado, mas nunca suficientemente para moer os grãos. O agir, o operar da vontade do homem não pode nunca produzir nenhum bem salvador. Ele não pode fazer com que a roda da sua vida gire com a energia da sua vontade, na direção de Deus.
Mesmo após ele haver sido mudado internamente, e a faculdade da fé haver entrado na sua consciência, ela é inútil enquanto a vontade impotente entra também na consciência, para expulsar a sua confiança Cristã. Portanto, a vontade deve ser divinamente trabalhada para servir à consciência modificada. Assim é que a disposição de fé é concedida, é imputada não somente à consciência, mas também à vontade, para adaptar-se ao Cristo da Bíblia. A vontade do santo, a roda do moinho é então re-alinhada, para mover-se livremente de novo, na direção de Deus. Quando o ego é virado e a vontade modificada, somente então a nova disposição pode penetrar na consciência, para que esta esteja segura de que Cristo conforme a Bíblia é o único Cristo e o seu Cristo.
Portanto, a faculdade da fé é algo complexo. Ela não pode ser independente da consciência e do conhecimento; pois implica numa mudança do ser do homem e da liberdade da vontade, para mover-se na direção de Deus. Assim é que esta faculdade não é um crescimento espontâneo da vida implantada, nem tampouco é independente dela; mas como uma disposição, ela somente pode entrar em nós após a regeneração, e mesmo então ela deve nos ser dada pela graça de Deus.
É claro, o homem no qual a faculdade da fé começa a operar crê na Bíblia, em Cristo, e na sua própria salvação; mas sem ela, sem aquela disposição, ele continua até o fim, a opor-se contra a Bíblia, contra Cristo e contra a sua própria salvação. Ele pode ser quase convencido; inteira e completamente convencido ele nunca será. Isto é fé temporária, fé histórica, fé em ideais, mas nunca fé salvadora.
Mas se esta mesma pessoa recebeu esta disposição, é possível para ela crer imediatamente e crer sempre? Certamente que não, não mais do que uma criança normal possa ler, escrever, ou pensar logicamente. E quando aos dezesseis anos o jovem já pode fazer todas essas coisas, isto é devido não a novas faculdades recebidas a partir do seu nascimento, mas ao desenvolvimento daquelas com as quais ele nasceu. Um recém nascido filho de Deus possui a faculdade de crer; mas não existe nenhuma crença imediata e real. Isto exige algo mais. Como uma criança é incapaz de aprender e desenvolver-se sem que haja quem lhe ensine, professores que estejam em conexão com o seu meio ambiente, assim também a faculdade da fé não pode ser exercitada sem a direção do Espírito Santo, em conexão com o conteúdo da Bíblia.
Como isto se passou com aqueles
que faleceram enquanto pequeninos nós não podemos dizer; não porque o
Espírito Santo não possa operar neles tanto quanto em adultos,
mas porque eles não conhecem ainda a Bíblia. No entanto, desde
que as Escrituras testificam somente de Cristo, Ele pode ter uma maneira de
trazer a criança ainda sem raciocínio a uma conexão com
Cristo, da mesma forma como Ele proveu a Bíblia para pessoas com o raciocínio
já desenvolvido.
Em ambos casos, a faculdade da fé não pode produzir nada a partir
de si mesma, mas deve ser estimulada e desenvolvida pelo treinamento e exercício
do Espírito Santo, aprendendo gradualmente a crer - um treinamento contínuo
até o fim; pois até que morramos o operar da fé aumenta,
cresce em força, desenvolvimento, e glória.
Mas isto não é tudo. Um homem pode ter a faculdade da fé inteiramente desenvolvida e exercitada, mas não se segue que ele sempre creia. Ao contrário, a fé pode ser interrompida por um período. Portanto a fé não deveria, ser chamada de a respiração da alma; pois quando uma pessoa deixa de respirar ela morre. Não; a faculdade da fé é mais como o poder de uma árvore, de florescer e de dar frutos: aparentemente morta numa estação, e linda, florida e carregada na estação seguinte. Que eu possuo a faculdade do raciocínio, do pensamento, é evidente, não porque eu raciocine e pense ininterruptamente, pois quando estou dormindo não estou raciocinando nem pensando; mas ela é evidente a partir do meu raciocínio e do meu pensamento quando eu devo raciocinar e pensar. Assim também ocorre com a faculdade da fé, a qual ocupa a mesma posição como as faculdades do pensamento, da fala, e etc.
Com relação a estas faculdades, distinguimos três coisas: (1) a faculdade em si; (2) o seu necessário desenvolvimento; e (3) o seu exercício, quando suficientemente estimulada. Por conseguinte, notamos não somente a primeira operação do Espírito Santo, implantando a faculdade da fé no ser humano; nem somente a segunda, qualificando aquela faculdade para o exercício; mas também a terceira operação, estimulando e convocando o ato de crer, sempre quando Lhe aprouver.
Não há ninguém que seja possuidor da faculdade da fé, mas sim o Espírito Santo é que o tem favorecido com o mesmo. Não existe homem algum que seja capacitado por esta faculdade, mas sim o Espírito Santo é que também qualificou aquela faculdade. Nem existe alguém utilizando-se desta qualificação, crendo realmente, a menos que o Espírito Santo tenha operado isto nele.
A vida tem seus altos e baixos. Nós vemos isto no nosso amor. Você tem um filho a quem você ama ternamente. Mas na vida diária você nem sempre sente aquele amor, e algumas vezes você se acusa de ser frio e sem um apego caloroso para com a criança: Mas se alguém o ferir ou maltratá-lo, ou se ele cair doente - ou pior, se a sua vida correr perigo - e o seu amor latente imediatamente se levantará. Aquele sentimento, aquele amor não veio até você de fora, mas ele habitava nas profundezas da sua alma, latente, dormente até que completamente desperto pela lança afiada do sofrimento. O mesmo aplica-se à fé. Por dias e semanas nós podemos repreender-nos pela condição sem fé do nosso coração, quando a alma parece estar seca e morta, como se não houvesse nenhum vínculo de amor entre nós e o nosso Salvador. Mas veja!, o Senhor revela-SE a nós, ou a tristeza no engolfa, ou então os problemas da vida de repente nos envolvem, e de imediato aquela fé aparentemente morta é desperta e o vínculo do amor de Jesus é sentido fortemente.
E mais que isso: inspirado pelo amor, você está constantemente fazendo algo por quem lhe é querido, sem dizer: "Eu faço isto ou aquilo por ele (ou ela), porque eu o (a) amo tanto". Assim também com relação à fé: fé salvadora é uma disposição cuja atividade nem sempre notamos, mas como outras faculdades ela opera continuamente, suas funções não notadas. Assim é que nós freqüentemente exercitamos a fé sem estarmos especialmente conscientes dela. Nos preparamos especialmente para pensar ou falar, quando ocasião especial assim o requer; e assim agimos a partir da fé com um propósito consciente, quando em circunstâncias peculiares precisamos levantar-nos corajosamente para testemunhar ou para tomar uma decisão importante.
Mas o nosso conforto é este, que o poder da fé salvadora depende, não de um ato especial de crença, nem de atos menos conscientes; nem mesmo de uma habilidade de fé adquirida, mas unicamente do fato de que o germe da fé foi plantado na alma. Assim é que uma criança pode ter a fé salvadora, muito embora ela nunca tenha executado sequer um ato de fé. E assim continuamos salvos, muito embora o ato de fé possa estar latente, dormente, por um período. O homem, uma vez agraciado com a fé salvadora, está salvo e abençoado. E quando, após um pouco, o ato da fé aparece, não significa que ele tenha um grau mais elevado de salvação; mas é somente a evidência de que, por intermédio da misericórdia infinita de Deus, o germe da fé tem seus bulbos nele plantados.
XXXIX. Aprendizado Defeituoso.
"Eis que ponho em Sião a pedra principal da esquina, eleita e preciosa; E quem nela crer não será confundido" - I Pedro 2:6
São Paulo declara que a fé é o dom de Deus (Efésios 2:8). As suas palavras, "...e isto não vem de vós, é dom de Deus", referem-se à palavra "fé".
Uma nova geração, de jovens expositores, declara confiantemente que estas palavras referem-se a "pela graça vós sois salvos". A maioria deles é evidentemente ignorante da história da exegese do texto. Eles sabem somente que o pronome "isto" na cláusula "e isto não vem de vós" é um Grego neutro. E sem um exame mais profundo eles consideram que o pronome neutro não pode referir-se a "fé", que é um substantivo feminino, em Grego.
Permitam-nos alertar os nossos leitores contra a baboseira sem sentido de um aprendizado acadêmico inconsistente. Deveria ser lembrado que enquanto a nossa exegese é e sempre tem sido uma aceita quase que sem exceção, a opinião contrária é compartilhada somente por uns poucos expositores de tempos mais recentes. Quase que todas os pais da igreja e quase que todos os eminentes teólogos da erudição em Grego julgaram que as palavras "é dom de Deus" referem-se à fé.
1. Era esta a exegese, de acordo
com a tradição
antiga, das igrejas com as quais São Paulo trabalhou.
2. Daqueles que falavam o idioma Grego e estavam familiarizados com a peculiar
gramática Grega.
3. Dos pais da igreja Latina, que mantinham estreito contato com o mundo Grego.
4. De catedráticos eruditos tais como Erasmus, Grotius, e outros, que
como filologistas eram inigualáveis; e neles todos o mais notável,
que eram pessoalmente favoráveis à exposição de
que a fé é obra do homem.
5. De Beza, Zanchius, Piscator, Voetius, Heidegger, e mesmo de Wolf, Bengel,
Estius, Michaelis, Rosenmüller, Flat, Méier, Baumgarten-Crusius,
etc., que até hoje mantêm a tradição original.
E por último, Calvino, muito embora dele seja dito, que fosse favorável à outra exegese. Mas se ele tivesse apresentado a interpretação original, ele teria dado outra razão para tal, pois que com ela estava inteiramente familiarizado. E isto faz com que seja provável que ele nunca tivesse tido a intenção de discutir a questão. Que ele aderiu à exegese tradicional, está provado por suas próprias palavras, no seu "Antídoto Contra os Decretos do Concílio de Trento" (edição 1547, página 190): "A fé não é do homem, mas de Deus".
Mesmo os nossos leigos acadêmicos Reformados são familiarizados com o fato, se fosse somente do estudo do magnífico comentário sobre Efésios, escrito por Petrus Dinant, ministro em Rotterdam, cujo período de maior atividade foi na última parte do século dezessete. Ele publicou seu comentário em 1710, e o livro teve vendagem tão alta que foi re-editado em 1726; e mesmo agora é muito demandado. Daquele livro, citamos o seguinte (volume I, página 451): " 'E isto não vem de vós, é dom de Deus'. A palavra 'isto' (touto), refere-se tanto ao termo precedente 'sois salvos', ou à palavra 'fé'. Não pode ser àquela palavra, tendo São Paulo já declarado que a salvação é o dom de Deus. Deve referir-se, portanto, à fé. È verdade que o termo Grego touto é um neutro, enquanto que a palavra pistes, 'fé', é um termo feminino. Mas os eruditos Gregos sabem que o pronome relativo pode referir-se tão bem ao termo seguinte dooron, 'dom', que é um neutro, como ao precedente pistes, o qual é feminino, de acordo com a regra da gramática Grega que rege este ponto. Assim é que 'isto', a saber, 'a fé não vem de vós, é dom de Deus'. ".
Mas descobertas recentes podem ter transtornado esta exegese antiga. Se, portanto, os expositores modernos de Utrecht, Groningen e Leyden, que têm feito um hobby desta exegese moderna, nos mostrarem esta nova descoberta, ouvi-los-emos com atenção. Mas eles não o fazem. Ao contrário, dizem: "O assunto está resolvido, e tão plenamente que até mesmo um aprendiz de Grego pode vê-lo". E ao dizerem isso, eles a si mesmo se julgam. Pois cérebros incomparavelmente superiores, tais como Erasmo e Hugo Grotius, sabiam tanto de Grego que os rudimentos do Grego lhes eram familiares. E podemos aventurarmo-nos em dizer que todo a erudição do Grego, agora firmemente fixada nos cérebros dos nossos exegetas nas universidades há pouco mencionadas não encheriam até à metade do copo o qual Erasmo e Grotius juntos encheram até a borda. Razão pela qual nós, confiantemente, mantemos a exegese tradicional.
A segurança positiva com a qual estes jovens expositores fazem suas asserções não deve surpreender-nos. A explicação é facilmente encontrada. Quase todos eles foram preparados em universidades cujos professores de exegese do Novo Testamento buscam alienar seus alunos da interpretação tradicional da Bíblia, através de observações surpreendentes; como por exemplo, os alunos aprenderam em casa que "o dom de Deus", em Efésios 2:8 refere-se à fé; mas eles nunca haviam consultado o texto original. Então o mestre observou, com exatidão perfeita, que ali não estava escrito 'aute' mas 'touto', acrescentando: "Os senhores podem ver por si mesmos que este termo não pode referir-se à fé". E, não familiarizados com o assunto, seus inexperientes ouvintes supõem que nada mais há que ser dito. Se o seu aprendizado houvesse sido mais completo e extensivo; eles teriam sido capazes de julgarem de forma mais independente.
Com esta convicção é que eles entram na igreja; e quando um simples leigo repete a velha exegese, eles se deliciam, pelo menos em ocasiões tais, ao demonstrar o fruto do seu treinamento acadêmico; e ao leigo, simples, fazem compreender que ele não sabe nada de Grego, e que lê-se claramente ao contrário, no texto em Grego, e que portanto ele não pode mais sustentar, concordar com a exegese antiga.
Quando algumas vezes o "Heraut" ( 4 ) ousa repetir a velha, bem testada opinião, estes jovens sábios não podem deixar de pensar: "O Heraut não age de boa fé; o editor sabe perfeitamente bem que lê-se 'touto', e que 'pistes' é feminino". É claro, o Heraut sabe disso muito bem - tão bem como o sabiam Erasmo e Grotius - e, conhecendo um pouco mais de Grego do que estes rudimentos infantis; tomou a liberdade, amparado pela santa companhia dos eruditos recém mencionados, de considerar e manter uma opinião diferente daquela dos graduados de Utrecht.
Indubitavelmente cada homem tem o direito à sua própria opinião e de rejeitar a exegese tradicional. Ademais, em Filipenses 1:27-29 ("O que é mais importante, deveis portar-vos dignamente, conforme o Evangelho de Cristo. Então, quer vá e vos veja, quer esteja ausente, ouça acerca de vós que estais firmes em um mesmo espírito, combatendo juntamente com o mesmo ânimo pela fé do evangelho, sem serdes intimidados pelos adversários. Isso para eles, na verdade, é sinal de destruição, mas para vós de salvação-e isso da parte de Deus."), é declarado de maneira distinta que a fé é dom de Deus. Mas nós protestamos contra a superficialidade e a inabilidade de homens que, em sua ignorância posam como eruditos, e fazem parecer como se mesmo um aprendiz em Grego, se for somente alguém honesto, não pudesse por um momento suportar a opinião contrária. Pois isto é indesculpável em alguém que ouse pronunciar julgamento sobre outro que saiba do que fala, como ficará claro, no postscript deste artigo.
O leitor gentilmente nos tolerará por tratarmos este assunto algo como que extensivamente, pois ele toca um princípio. As nossas universidades negam a nossa confissão de fé. Elas podem até conceder que Deus é o Autor da salvação, mas fé (tal como eles a interpretam) é tomada no sentido de um meio que se origina da união do sopro da alma e o operar íntimo do Espírito Santo. Assim, sua preferência manifesta por tal exegese novelística, aparente também do esforço enérgico e persistente para popularizá-la.
E esta tendência é manifesta em muitas outras direções. Há pouca possibilidade para uma busca, uma pesquisa original, individual. Por conseguinte, a instrução recebida em Utrecht é a única fonte de informação. E isto é tão completamente enraizado no coração e na mente que o estudante não pode concebe-lo de outra forma. Ademais, os argumentos foram apresentados tão concisa e incessantemente que argumentos contrários convincentes parecem ser inteiramente impossíveis.
Sendo este o caso, os nossos jovens teólogos, honestos e leais às suas convicções, declaram tanto do púlpito como em conversas privadas que incerteza relacionada a vários pontos doutrinais está fora de questão; de modo que deve ser concedido e reconhecido que os expositores antigos estavam errados, decididamente. E esta é a causa da forte oposição contra muitas opiniões estabelecidas, mesmo entre os nossos melhores ministros e pregadores; não do amor à oposição, mas porque convicções sinceras os proíbem de seguir qualquer outra linha de conduta, pelo menos enquanto eles não forem melhor informados.
E isto não pode permanecer assim. Não há seriedade naquela posição. Ela é indigna do homem cientificamente treinado; ela é indigna do ministro. Há a necessidade de uma pesquisa, de uma busca e de uma investigação individual. Essas inovações de Utrecht deveriam ser recebidas com reserva considerável. Podem até mesmo ser livremente conjeturado que o aprendizado da faculdade de Utrecht, quando se opõem ao aprendizado da Igreja como um todo, deva ser desacreditado.
E assim os nossos jovens serão compelidos a retornarem à pesquisa, à busca original. Não somente isto, mas eles serão compelidos a adquirirem livros. As bibliotecas de quase todos os nossos jovens teólogos raramente contem obras que não sejam Alemãs, produtos da teologia da meditação; por conseguinte excessivamente parciais, não nacionais, estranhas à nossa Igreja, em conflito com a nossa história. Esta falta primeiro precisa ser sanada. E então esperamos que o tempo cedo virá, quando cada um dos ministros das nossas igrejas Reformadas possuirá pelo menos algumas obras melhores. E quando assim a oportunidade surgir, para um estudo mais correto e mais imparcial, a geração emergente de ministros deveria uma vez mais retomar os seus estudos, e obter a convicção através de experiência própria, mesmo como outros o fizeram, de que o trabalho de pesquisa e estudo, o qual trará bons frutos para a Igreja de Deus, ainda não acabou, mas na realidade somente começou. Então, uma geração de homens mais sérios e melhor treinados tratará as opiniões que temos proposto com um pouco mais de reconhecimento, e, o que é de muito maior importância, eles tratarão o ser da fé com mais respeito.
É de vital interesse vital que o exercício da fé e a faculdade da fé não sejam mais confundidos, e que seja reconhecido que a última possa estar presente sem a anterior. Do contrário haverá um desvio completo da linha da Bíblia, a qual é também a das igrejas Reformadas e fará a salvação dependente do exercício da fé, i.e., dos atos de aceitar a Cristo e todos os Seus benefícios; e uma vez que este ato é um ato não de Deus, mas do homem, nós imperceptivelmente perdemos o rumo nas águas do Arminianismo.
Portanto tudo depende da compreensão correta do texto em Efésios 2:8. Pois a fé não é o ato de crer, mas a mera possessão da fé, mesmo de fé no estado germinal. Aquele que possui tal semente ou faculdade de fé, e que no tempo de Deus também a exercitará, está salvo, salvo pela graça, pois a ele foi concedido o dom da fé.
Antigamente os teólogos costumavam falar do ser e do vigor, da saúde da fé; mas isto tinha referência a uma outra distinção, que não deve ser confundida com a até agora tratada. Algumas fezes a planta da fé parece mais vigorosa que em outras, e o seu desenvolvimento mais maduro e completo, com ramo, broto, folha, flor e fruto - o qual é evidência do vigor da fé. Pode também ser que, na mesma pessoa, a fé pareça passar pelas quatro estações do ano: primeiro há uma maré de primavera, na qual ela cresce; seguida de um verão, no qual ela floresce; mas há também um outono, durante o qual ela se enfraquece; e um inverno, quando ela adormece. E esta é a transição do vigor da fé ao mero ser da fé. Mas como uma árvore continua sendo árvore no inverno, e possuirá o ser de uma árvore muito embora tenha perdido o seu vigor, assim também a fé pode continuar sendo fé em nós, embora temporariamente sem folhas nem flores.
Para o conforto das almas, nossos pais sempre apontaram para o fato, e assim também nós o fazemos, que a salvação não depende do vigor da fé, desde que a alma possua o ser da fé. Embora, após o exemplo dos nossos pais, acrescentemos, que a árvore não vive no inverno, mas que move-se em direção à primavera, quando brotará novamente; e que o ser da fé dá evidência da sua presença na alma somente por mover-se na direção do sem vigor.
Postscript.
É necessário destacar duas coisas relacionadas à superficialidade da qual reclamamos.
Primeiro, que a construção de um pronome neutro com um substantivo feminino como seu antecedente não é um erro, mas sim excelente Grego.
Segundo, que a Igreja tinha razões porque até agora ela fez as palavras "e isto não vem de vós" referirem-se à fé.
Com relação ao primeiro ponto, referimo-nos não a uma exceção Helenística, mas à regra ordinária, a qual é encontrada em cada boa sintaxe Grega, e a qual cada exegeta deveria conhecer.
Uma regra a qual, dentre outras, foi formulada por Kühner, em seu "Ausführliche Grammatik der Griech Sprache", volume II, Capítulo I, página 54 (Hannover, 1870), e que é a seguinte: "Besonders häufig steht das Neutrum eines demonstrativen Pronomens in Beziehung auf ein männliches oder weibliehes Substantiv, indem der Begrif desselben gans allgemein als blosses Ding oder Wesen, oder auch als ein ganzer Gedanke aufgefasst wird". Que em Português: "Um pronome demonstrativo neutro é utilizado freqüentemente para referir-se a um substantivo precedente masculino ou feminino, quando o significado expressado por este vocábulo é tomado num sentido geral, etc.".
Os exemplos citados por Kühner dão um golpe mortal na exegese de Utrecht. Tome, por exemplo, estas citações de Platão e de Xenophon:
[Nota da Fundação Kuyper: As seguintes citações foram dispostas da melhor forma possível, utilizando-se a fonte "Symbol"]:
Platão, em "Protágoras",
357, C:
Omologoumen episthmhs mhden kreitton, alla touto aei kratein, opou an enh, kai
hdonhs kai twn allwn apantwn.
Platão, em "Menon," 73,
C.:
Epeidh toinun h auth areth pantwn esti, peirw eipein kai anamnhsqhnai, ti auto
fhsi Gorgias einai.
Xenophon, em "Hiero," IX.,
9.
Ei emporia wfelei ti polin, timwmenos an pleista touto poiwn kai emporous an
pleious ageiroi.
Aos quais acrescentamos três mais de Platão, e uma quarta de Demóstenes:
Platão, "Protag.," 352,
B.:
Pws exeis pros episthmhn ; poteron kai touto soi dokei wsper tois pollois anqrwpos,
h allws.
Platão, "Phaedo, "61,
A.:
Ypelambanov ; . . . kai emoi outw enupnion, touto epikeleuein, mousikein poiein,
ws filosofias men oushs megisths mousikhs, emou de touto prattontos.
Platão; "The?tetus," 145,
D.:
Sofia de g oimai sofoi oi sofoi; - nai - touto de nun diaferai ti episthmhs.
Demóstenes, "Contra Aphob.," 11:
Egw gar, w andres dikastai, peri ths marturias ths en tw grammateiw gegrammenhs
eidwsonta moi tov agwna, kai peri toutou thn jhfon umas oisontas epistamenos
whqhn dein ...
Por ora, adiamos por ora a discussão do segundo ponto para uma outra ocasião.
Mas é evidente que estas citações
perturbam, vão contra, derrotam todo o quase aprendizado desta erudição
errada; e que as palavras "E isto não é de vós, é
dom de Deus", simplesmente com o pronome neutro, no mais puro do idioma
Grego, podem referir-se à fé; daí que toda esta confusão
quanto à diferença de gênero, não somente é
sem qualquer fundamento, mas também deixa uma impressão muito
pobre com relação à erudição de homens que
levantaram a objeção inicial.
Ademais, devemos também mostrar não somente que a mensagem apresentada
no trecho do capítulo 2 da Epístola de Paulo aos Efésios
pode estar correto, mas também que não pode ser outra coisa a
não ser correto.
Pois ali lemos: "Porque pela graça sois salvos, mediante a fé; e isto não vem de vós; é dom de Deus; não de obras, para que ninguém se glorie. Pois somos feitura dEle". A idéia principal é o poderoso fato de que quem opera a nossa salvação é Deus. São Paulo expressa isto nos termos mais positivos e irresistíveis ao dizer: "Vocês são salvos a partir a graça, através da graça, e pela graça". E se então se seguisse que, "E isto não vem de vós, é o dom de Deus", teríamos uma sentença forçada de cláusulas supérfluas, por três vezes repetindo a mesma coisa: "Vocês receberam a salvação pela graça, não de si mesmos, ela é o dom de Deus". E teria o mesmo sentido, se estivesse escrito, "Vocês são salvos pela graça, e portanto não por si mesmos"; mas não está assim escrito. Simplesmente lê-se, "e isto não vem de vós". A conjunção "e" equivale a tanto.
Ou, soaria melhor se estivesse escrito, "Vós sois salvos pela graça, não por vós mesmos, ela é obra de Deus". Mas primeiro dizer "Vós sois salvos pela graça", e então sem acrescentar qualquer outra coisa repetir, "e isto não vem de vós", é rude, fere o ouvido e não é poético. E tudo o mais também, já que no nono e décimo versículos repete-se pela quarta e quinta vezes, "não de obras; somos feitura dEle". E enquanto toda a declaração seja desconfortável e forçada, elaborada e repetitiva, ao adotar-se a exegese dos antigos expositores da Igreja Cristã, ela torna-se de repente suave e vigorosa. Pois então ela diz: "Vocês são salvos pela simples graça, através da fé. (de modo algum, como se pelo pensar a fé a graça da sua salvação fosse parcialmente não pela fé; não mesmo, pois mesmo aquela fé não provém de vós, é o dom de Deus). E, portanto, salvos através da fé, não por obras, de modo que nenhum homem se glorie, pois somos feitura Sua".
Mas isto cria agora um parêntesis, o qual é perfeitamente verdadeiro; mas mesmo este é verdadeiramente Paulino. São Paulo ouve a objeção, e a refuta vez após vez, mesmo onde ele não formule o contrário.
XL. Fé Somente no Pecador Resgatado.
"...e creram na Escritura..." - João 2:22
A fé não é o operar de uma faculdade inerente no homem natural; nem um novo sentido acrescentado aos cinco; nem uma nova função da alma; nem uma faculdade primeiramente latente e agora ativa; mas uma disposição, um modo de ação, implantado pelo Espírito Santo na consciência e na vontade da pessoa regenerada, através da qual ela torna-se capacitada para aceitar a Cristo.
Disto segue-se que esta disposição não pode ser implantada no homem sem pecado, e que ela desaparece assim que o pecador deixa de ser um pecador. O santo crê até o momento em que morre, mas não mais. Ou mais corretamente: a fé desaparece assim que ele adentre ao céu, pois a partir de então ele não mais vive pela fé, mas pela visão.
A importância desta distinção é óbvia. Os teólogos Éticos, negando que a fé seja uma disposição especialmente implantada, e sim um sentido ou o seu órgão, primeiramente latente e depois desperta, não podem admiti-lo, mas repetem que a fé é perpétua, baseando sua opinião na passagem da primeira Epístola de São Paulo aos Coríntios - ["Agora, pois, permanecem a fé, ..."(13:13)]. De acordo com a sua teoria, não há absolutamente nenhuma diferença entre o pecador e aquele sem pecado; eles não crêem que para salvar o pecador o Espírito Santo introduza um expediente extraordinário na sua pessoa espiritual. Daí o seu esforço persistente para fazer-nos entender que Adão cria antes da queda, e que mesmo Jesus Cristo, o Comandante e Consumador da nossa fé, andava pela fé.
Mas toda esta representação é contradita pelas palavras apostólicas: "visto que andamos por fé e não pelo que vemos"[II Coríntios 5:7]. E, de novo, "...Agora, conheço em parte; então, conhecerei como também sou conhecido"[I Coríntios 13:12], em conexão com a declaração precedente: "Quando, porém, vier o que é perfeito, então, o que é em parte será aniquilado"[versículo 10]. E não menos pela palavra do nosso Senhor, que veremos a Deus assim que nossos corações estiverem limpos (vide Mateus 5:8 - "Bem aventurados os limpos de coração, porque verão a Deus").
E começando deste pondo, sabemos positivamente que a fé, no sentido de fé salvadora, não é perpétua; que ela não existia no Paraíso, mas que pode somente ser encontrada mais tarde, num pecador perdido. Para ser agraciado com a fé salvadora, ele precisa ser um pecador, tanto quanto alívio de dor pode ser dado somente se alguém estiver sofrendo dor.
"Muito bem", dizem os Éticos, "aceitamos isto. Mas quando o médico tenta melhorar a respiração do asmático ao faze-lo inspirar ar fresco, não significa que alguém saudável não o inspire também. Ao contrário, uma pessoa saudável inspira ainda mais forte e profundamente, e a função, o propósito do médico é assistir, é acompanhar a função normal da respiração. E o mesmo aplica-se à fé. Verdadeiro é que o Espírito Santo pode dar a fé somente a alguém que seja pecador, mas um santo saudável, puro, como Adão antes da queda e como Cristo, muito indubitavelmente cria, pois a fé é o respirar da alma. Em Adão e em Cristo este respirar era espontâneo; e em pecadores como nós ele é prejudicado. Assim é que necessitamos de ajuda para sermos curados. Mas quando as nossas almas uma vez mais inspiram livremente o ar da fé, é porque recebemos somente o que Adão e Jesus já tinham, antes de nós".
E a isto nos opomos. Fé salvadora não é o respirar normal da alma, primeiro prejudicado, e então restaurado. Não; trata-se do remédio específico, para alguém perdido em pecado; um expediente a ele estendido porque ele tornou-se um pecador; lhe oferecido enquanto ele continua um pecador, cessado assim que ele deixa o pecado. Quando o expediente, quando a medicação não mais é necessária, e a alma redimida do pecado pode respirar livremente e sem impedimento na direção de Deus sem o expediente da fé