A Obra do Espírito Santo

por

Abraham Kuyper, D.D., LL.D

 

VOLUME TRÊS

A Obra do Espírito Santo no Indivíduo

Capítulo Primeiro - Santificação

 

 

 

I. Santificação

"Mas vós sois dEle, em Cristo Jesus, o qual se nos tornou, da parte de Deus, sabedoria, e justiça, e santificação, e redenção" - I Coríntios 1:30

Santificação é um dos mais gloriosos dons, o qual, pelo Pacto da Graça, o Mediador concede ao santo. Ele cobre toda a sua natureza mental, espiritual e física. Deveríamos, portanto, compreende-lo de inteiramente, e aprender como obtê-lo, e cada crente, qualquer que seja a medida da sua fé, deveria estar plenamente cônscio de sua atitude para com ele; pois pontos de vista errôneos concernentes a isto certamente nos distanciarão do Cristo vivo.

É tolice pensar que, embora as heresias da atualidade tenham afetado as doutrinas de Cristo, Pecado e Regeneração, a Santificação é tão simples de forma a não ser afetada. Ainda assim mesmo ministros caem neste triste engano. Homens de fervor espiritual, eles opõem-se terminantemente a heresias relativas a estes outros, em suas instruções catequéticas e de púlpito, e em seus escritos; referindo-se a tais como erro fundamental; mas de alguma forma eles nunca se dão conta de que a doutrina da santificação possa correr perigo, e falham em colocar a Igreja em guarda.

Tal perigo era impossível; e então, de fato, eles dificilmente cuidam de ter a santificação distinguida como um dogma. “Ao contrário”, dizem eles, “A beleza da santificação é que ela é vida; por conseguinte inteiramente independente dos mistérios de um dogma. Na vida de santificação os crentes podem ser acusados de negligência, de viverem descuidadamente, de lento progresso em resumo, com um ‘fazer’ faltoso e um ‘trabalhar’ faltoso, pois o que é a santificação senão o melhorar a si mesmo e o crescer diariamente em santidade? mas nunca com um confessar faltoso; com pontos de vista faltosos quanto à doutrina; pois a santificação não é doutrina, e sim vida.” Desta forma eles passam a negar à santificação o valor e a dignidade de um dogma ou doutrina; faze-la quase que um sinônimo de melhoramento de vida; portanto fazer dela a propriedade comum de todos que tentam levar vidas honestas e pias.

Então a idéia cresceu naturalmente, que muitas pessoas de doutrina não sólida podiam levar vidas mais espirituais. Este suposto fato foi até mesmo fortalecido com a palavra de Jesus, de que publicanos e prostitutas vão para o Reino de Deus antes de nós; e as congregações muitas vezes receberam a impressão de que o próprio racionalismo pode levar a resultados melhores do que os que algumas vezes fluem de uma crença ortodoxa. E o resultafo foi que esta assim chamada santificação levou a um enfraquecimento da fé, a um considerar da pureza da doutrina como imaterial; até que finalmente assumir uma atitude hostil para com os mistérios da verdade. Este foi o esforço natural de confundir melhoramento próprio com santificação, e de opor-se vida à doutrina, como ouro a pedras sem valor.

A expansão destas idéias falsas de santificação não beneficiou o Cristianismo nestas províncias, mas, como nos dias da pré-Reforma, desviou o povo da doutrina do Cristianismo.

Roma sofreu uma vez e ainda sofre, do mesmo mal. Não como se ela se rendesse ou mesmo negligenciasse a sua doutrina; mas, mesmo nos dias em que a sua hierarquia floresceu, a necessidade de reforma de vida era sentida de maneira tão forte que resultou numa exortação parcial de santificação. Seu moto favorito era: “Boas obras.” Foram da maior importância: não palavras, mas poder; não a confissão, mas a seriedade e a voluntariedade para fazer o bem, não simplesmente em segredo, mas abertamente, de maneira que os homens o vissem! Isto foi levado a tal ponto que finalmente Roma deixou de satisfazer-se com boas obras como fruto de conversão, e até mesmo começou a olhar para as boas obras como uma causa primária e meritória de salvação; e assim ela acabou com o mistério da fé com uma falsa pregação de santificação. Como agora, não intencionalmente, com o clamor, “Não doutrina, mas vida”, homens são guiados, como se por uma necessidade férrea, a primeiro subestimar o valor da doutrina, então a desaprova-la, e finalmente a proclamá-la injuriosa, sim, perigosa até; assim também o clamor por boas obras gradualmente induziu Roma a divorciar o mistério do perdão do pecado da cruz do Calvário, não na confissão, mas na consciência dos seus membros.

Pelo bem de uma visão mais clara e um proceder mais seguro, devemos retornar ao ensinamento definitivo, de que a santificação é uma doutrina, uma parte integral da confissão, um mistério, tanto quanto a doutrina da reconciliação, e portanto um dogma. Na realidade, no tratamento da santificação nós penetramos no próprio coração da confissão, o dogma que cintila na doutrina da santificação.

É claro que não devemos divorciar a santificação da vida. Nenhum dos filhos de Deus nega que a doutrina tem a sua aplicação na vida; não existe verdade cuja operação não seja sentida em sua vida. Para ele cada doutrina é imbuída e cheia de vida, uma brasa viva, um fogo radiante, uma lâmpada sempre acesa, um poço de água viva jorrando para a vida eterna. O conteúdo de cada doutrina, de cada mistério, é alguma coisa no Deus vivo, ou na Sua criatura; a confissão de uma condição, um poder, um operar, alguém que realmente existe, que vive, que age. O sangue da expiação significa, não naquelas gotas específicas que fluíram, da cruz, e perderam-se no solo hostil do Calvário; mas um tesouro no Cristo vivo, operando incessantemente no céu, através do qual Ele enriquece os Seus filhos na terra; o poder glorioso o qual eles conhecem e do qual eles experimentam.

E isto é verdadeiro com relação a cada mistério, como mostra a nossa confissão da Trindade Santa, ao dizer deste mais profundo e mais incompreensível dogma: “Tudo isto sabemos tanto pelo testemunho da Sagrada Escritura1, como pelas obras das três Pessoas, principalmente por aquelas que percebemos em nós”[Confissão de Fé Belga — Referências: Jo 14:16; Jo 15:26; At 2:32,33; Rm 8:9; Gl 4:6; Tt 3:4-6; 1Pe 1:2; 1Jo 4:13,14; 1Jo 5:1-12; Jd :20,21; Ap 1:4,5.]

E isto aplica-se à doutrina da santificação assim como a todas outras doutrinas; pois não se trata, não mais do que os outros dogmas, a confissão de uma matéria inanimada, senão a confissão de um poder formidável, o qual em nós vive e opera efetivamente. Assim é que a santificação deve ser pregada uma vez mais como uma doutrina; deve ser confessada, examinada, e estudada como uma doutrina; ser seguida através de uma aplicação apropriada como a pregação de qualquer outra doutrina; e a santidade, a vida espiritual, e boas obras serão o resultado. Mas para obter este resultado, é necessária uma exposição clara da causa e do poder animador da santificação. Quando, numa fria manhã de inverno o fogo não arde o suficiente e a família sofre, é tolice dizer: “Já que o fogo não está queimando o bastante; removamo-lo, e nos aqueçamos sem ele”. Para evitar o congelamento exige-se mais fogo; e assim não o fogo, mas a causa de ele não ser suficiente é que deve ser removida. E isto aplica-se à santificação. Existe uma reclamação, geral e amarga, da frieza que tem se abatido sobre a Igreja; e exige-se a operação poderosa da santificação para salvar a Igreja.

Mas os métodos empregados mostram freqüentemente um julgamento pobre. Antigamente a Igreja confessava uma doutrina pura, pela qual ela mantinha perto de si a fonte do calor vital o qual nos é dado na palavra de Deus; e os poderes e as obras depositadas no Mediador pela Igreja irradiava em atividade gloriosa. A Igreja então florescia e a fé celebrava os seus maiores triunfos. Era extremamente frio sem ela, mas, enquanto o mundo morria envolto em sua mortalha, a verdade enchia a Igreja com luz e calor, e o fogo sagrado de uma doutrina pura crepitava e brilhava. Mas a luz perdeu o brilho, e apagou-se o fogo; e a Igreja de Deus tornou-se escura e fria. E os santos, meio frios e enrijecidos, tiveram profunda consciência da perda que haviam sofrido, e da necessidade de luz e calor. E agora, ao invés de avisá-los para acenderem a lâmpada da verdade e revitalizarem o fogo da confissão, para que suas almas possam reviver e serem confortadas, muitos dizem: “Queridos irmãos, não existe salvação em dogma ou confissão; estes são inteiramente inúteis; nada lhes resta a não ser acender luz e calor em suas almas, sem eles”, e assim a Igreja é ameaçada com morte e destruição.

Em serena certeza das bênçãos de Deus, caminhamos na direção oposta, e alertamos os irmãos para encher com óleo a lâmpada dos mistérios divinos, para por mais combustível no fogo da confissão; então haverá luz e calor, e a Igreja será salva. Assim será, desde que — e não é necessário enfatizar — a doutrina seja realmente confessada. Confessar, não é dizer meramente, “Existe um fogo confortável na casa”, e então permanecer fora, no frio; mas aceitar o conforto e beneficiar a outros, tanto quanto a nós mesmos.

Clamar, “Não dogma, mas vida”, é tolice e descrença. Antes, oponhamo-nos ao ensino superficial e ilógico da atualidade. A doutrina deveria ser uma expressão fiel do mistério; o mistério deveria estar na frente do olho espiritual e iluminar a alma, como irradia-se do Cristo vivo, de acordo com o desígnio da salvação. Ao invés de distanciar as pessoas da doutrina, nós deveríamos faze-las verem o quão pouco elas a compreendem; como elas tem flertado com ela , e não confessado-a; que o bem estar das suas almas exige o estudo sério da doutrina, de forma que o ato de confessar possa aprofundar e enriquecer sua vida espiritual. E imaginemos, então, não que o fruto da vida deva ainda ser importado de outro lugar, mas que a doutrina, corretamente confessada, venha a ser o próprio instrumento, para manifestar em nós o seu poder.

Assim é que a santificação deveria ser tratada.


II. Santificação É Um Mistério.

“Purifiquemo-nos de toda impureza, tanto da carne como do espírito, aperfeiçoando a nossa santidade no temor de Deus” — II Coríntios 7:1

A santificação pertence aos mistérios da fé; portanto não pode ser confessada a não ser como dogma.

Com esta declaração nossa intenção é eliminar de vez qualquer representação que faça “santificação” consistir do esforço humano de fazer com que alguém se torne santo ou mais santo.

Tornar-se mais santo é indubitavelmente tarefa de cada ser humano. Deus condenou toda falta de santidade, como algo amaldiçoado. Santidade inferior não pode existir perante Ele. Cada ser humano mais ou menos santo deve abandonar toda falta de santidade, deve renunciar a toda santidade inferior, e permitir que a perfeita santidade habite nele e nele se manifeste instantaneamente. O mandamento “Sede santos porque Eu sou santo”[Levítico 11:44-45; 19:2], não pode ser diminuído. O enfraquecimento da moral corrente exige que o direito absoluto de Deus para demandar santidade absoluta de cada ser humano seja incessantemente apresentado à consciência, ligado ao coração como um memorial, e proclamado a todos com firmeza.

Nos incontáveis territórios celestes onde Deus reúne os Seus redimidos, toda falta de santidade é excluída e santidade absoluta é a característica perene. E como é no céu, assim também deveria ser na terra. Deus, o Regente soberano de todos os reinos deste mundo, terminantemente proibiu a menor falta de santidade no coração, no lar, ou em qualquer outro lugar na terra, sob a pena de morte. Na verdade, não há na terra nenhuma falta de santidade, seja com qualquer nome ou sob qualquer forma, que não esteja em desafio à Sua expressa vontade.

Deve, portanto, ser concedido, que é a Sua vontade revelada e mandamento, que toda esta falta de santidade deva cessar imediatamente, e ser substituída diretamente pelo que é santo e bom. Muito mais puros são os Seus olhos, do que para aturar a iniqüidade.

Deve ser igualmente concedido que o dever de cada ser humano é remover a impiedade, a falta de santidade, e avançar nas coisas que são santas. Aquele que feriu deve também curar a ferida. Aquele que destruiu deve também restaurar o que destruiu. Aquele que profanou o que é santo deve também reconsagrá-lo. Homens que ainda vivem para um sentido de justiça não nos contradirão.

A obrigação de santificar novamente a vida deste mundo encontra-se, no sentido mais profundo, em Satã. Ele instilou em nossas veias o veneno que gera as doenças de nossas almas. A fagulha que ateou o fogo de paixões pecaminosas para explodir em natureza inumana foi acesa por ele. Que Satã está irremediavelmente perdido e condenado, não anula o direito eterno de Deus. Mesmo o próprio Satã, de acordo com este direito, deve imediatamente arrepender-se e comparecer perante Deus, santo como no princípio. E este mundo de homens, o qual ele corrompeu, não era seu, mas pertence a Deus. Ele nunca deveria tê-lo tocado. Por conseguinte a obrigação continua a estar sobre ele, não somente de parar este agir odioso, mas também de re-santificar perfeitamente o que ele de forma tão amarga e maliciosa profanou.

Que Satã não pode e nem o fará, justifica o seu julgamento terrível; mas isto não anula o direito de Deus e nem nunca o anulará. Se no Paraíso o homem tivesse involuntariamente caído vítima de Satã, a obrigação de re-santificar a vida deste mundo teria estado sobre Satã, e não sobre ele. Mas o homem caiu voluntariamente; o pecado deve a sua existência não somente à paternidade de Satã, mas também à maternidade da alma do homem; por conseguinte o próprio homem está envolvido na culpa e incluído no julgamento de morte, e portanto obrigado a restaurar o que arruinou.

Deus criou o homem santo, com o poder de continuar santo; santo também em virtude do desenvolvimento crescente do germe implantado. Mas o homem arruinou a obra de Deus no seu coração. Ele poluiu as vestimentas puras da santidade. E em fazendo-o ele violou o direito. Se ele pertencesse a si mesmo, se Deus houvesse permitido que ele fizesse consigo o que bem lhe parecesse, o direito não teria sido violado. Mas Ele não deu o homem a si próprio; Ele o reteve para Si como Sua propriedade privada. A mão que arruinou e profanou o homem destruiu a propriedade de Deus, invadiu o direito da soberania divina — sim, o Seu próprio direito de propriedade, e assim tornou-se passível (1) da penalidade por esta invasão, e (2) da obrigação de restaurar a propriedade arruinada ao seu estado original.

Daí a positiva e inegável obrigação da santificação própria do homem. Esta obrigação encontra-se, não sobre Deus, nem sobre o Mediador, mas sobre o homem e sobre Satã. A oração “Senhor, santifica-me” nos lábios do não convertido, ainda não sob o Pacto da Graça, é a mais inapropriada. Primeiro destruir propositalmente a propriedade de Deus, e então levar até Ele o que está arruinado demandando que Ele cure e restaure, antagoniza-se com o direito e inverte os mandamentos. Não, fora dos mistérios do Pacto da Graça, sob as obrigações da simples justiça, não nos encontramos em posição de pedir, “Senhor, santifica-nos”, mas Deus é quem está em posição de forçar sua justa demanda: “Santifica-te”.

‘Santifica-te’ não quer dizer que o homem devesse cumprir a lei. O cumprimento da lei e a santificação são duas coisas inteiramente diferentes. Que o pecador seja primeiro santificado, e então ele também observará a lei. Primeiro a santificação, então a observância, o cumprimento da lei.

É como uma harpa com cordas partidas. A harpa foi feita para produzir música através da vibração harmoniosa das cordas. Mas a produção de música não é o conserto da harpa. As cordas quebradas devem ser substituídas, as cordas novas devem ser afinadas, e então é possível tocar os acordes melodiosos. O coração humano é como aquela harpa: Deus o criou puro para que pudéssemos observar, cumprir a lei; o que um coração impuro não é capaz de fazer. Assim é que estando profanado e sendo blasfemo, ele deve ser santificado; então será capaz de cumprir, de observar a lei.

Pelo bem da clareza, dois fatos reconhecidos devem ser notados:

Primeiro, se o homem nunca tivesse sido profanado pelo pecado, nunca lhe passaria pela mente santificar-se; e ainda assim a lei teria sido cumprida e observada sem qualquer distúrbio. Isto mostra que a santificação e o cumprimento, a observância da lei são duas coisas inteiramente diferentes.

Segundo, a santificação continua até que uma pessoa morra e entre no céu. Aí, então, ela é santa. Por conseguinte, não existe nenhuma santificação no céu. Todavia, a única ocupação dos santos no céu é fazer aquilo que é bom. Portanto a santificação é um assunto por si só, não consiste do fazer boas obras, mas deve ser um fato consumado antes que uma única boa obra possa ser feita.

Uma vez que o homem profanou-se a si mesmo, ele é chamado por Deus para re santificar-se. Assim é que a demanda da santificação não contém nem mesmo a sombra de um mistério. Não tem nada a ver com os mistérios, portanto não é nenhum dogma. É o veredicto mais simples e mais natural, do direito de Deus, na consciência. Que falemos de falta de santidade, de impiedade, implica que estamos convencidos de que devemos ser santos.

Existe contradição, então, quando dizemos, primeiro, que a santificação por si só é um mistério, e que pode ser confessada somente no dogma; segundo, que a demanda da santificação não tem nada a ver com o dogma?

Nem um pouco. Pecadores de quem Deus demanda que se santifiquem são, individual e coletivamente, totalmente incapazes de satisfazer àquela demanda. Até certo ponto eles podem retirar-se do pecado e do mundanismo, e muitas vezes o fazem. Muitas pessoas não convertidas têm feito muitas obras dignas de louvor. Em muitos casos, vidas têm sido reformadas, todo o tom da existência tem sido melhorado a partir de um mero impulso, sem um traço de conversão real. E, visualizando que a santificação consista no praticar menos o mal e mais o bem, e isto a partir de um motivo melhorado, imaginou-se que o homem ímpio, embora incapaz de satisfazer perfeitamente esta demanda divina, podia satisfaze-la até certo ponto. Mas tudo isto não tem nada em comum com a santificação, e pode ser inteiramente alcançado sem ela. Com toda sua ‘auto melhoria’ ele, o homem não pode efetuar, não pode executar a menor parte dela; embora mil vezes dito para santificar-se a si mesmo, ele é ambos, incapaz e não desejoso de faze-lo.

Daí o questionamento: Como, então, a santificação é alcançada? E desde que a pergunta nunca recebeu uma resposta de qualquer dos sábios, mas somente de Deus através da Sua Palavra, portanto não a demanda, mas os meios de santificação, são para nós incompreensíveis e misteriosos. Por isso o caráter da santificação deve ser enfatizado como um mistério.

E qual é a razão, o motivo para negar que a santificação é um mistério, i.e., o conteúdo de um dogma? A suposição de que ela seja de origem humana, de que o homem não seja totalmente incapaz, e que a santificação seja a melhoria de caráter e de vida. Assim é que é equivalente a (1) uma desvalorização da santidade, para o ponto de vista humano; (2) uma oposição à santificação, como uma obra de Deus. E isto é um assunto muito sério. Deveríamos novamente tornarmo-nos claramente conscientes do fato de que a santidade sem a qual nenhum homem verá a Deus não é alcançada pelo desviar-se de algum mal e pelo fazer habitual de algum bem.

A demanda da santificação pertence ao Pacto de Obras; a santificação em si ao Pacto da Graça. Isto faz com que a diferença seja bem óbvia. Não como se o Pacto de Obras ordenasse ao homem que se santificasse; dado a homens santos, ele excluiu a santificação. Mas Deus deu o Pacto da Graça aos homens não santos. E a única conexão entre a demanda pela santificação e o Pacto de Obras é que este sempre persegue os homens caídos com esta demanda, e com o terror de Horebe. E a santidade destrói as fundações do Pacto de Obras e torna impossível a conformidade com suas condições. Daí a contradição absoluta entre ela e a vida pessoal do pecador. Uma tem de dar lugar à outra; elas não podem existir juntas.

Neste doloroso conflito nós muitas vezes somos tentados a perguntar se Deus não é injusto em Sua lei a demandar de nós o impossível, e jogar nEle a culpa; pois não foi Ele quem nos fez? E desta dificuldade o Arminiano nos nossos próprios corações tenta escapa, seja por negar que jamais houvera um Pacto de Obras; ou por substituir o cumprimento, a observância da lei pela santificação.

Razão pela qual é nosso objetivo, principalmente com referência a esta doutrina, escapar desta perigosa confusão de idéias, e chegar a uma correta compreensão e pureza de expressão. A pregação não deve acrescentar ao caos, mas levar-nos a uma clara compreensão e discernimento.

Ao invés de nos acalentarmos docemente na Palavra, devemos seriamente esforçar-nos por compreende-La. Na igreja da cidade tanto quanto na do campo, a Palavra deve ser pregada persistentemente, e com pureza sempre crescente, até que, convictos da sua falta de santidade pessoal, os homens comecem a enxergar que através de uma absoluta santificação, não uma mera auto melhoria; eles devem restaurar a Deus o Seu direito; até que, sentindo sua incapacidade, com corações quebrantados eles tornem-se para Deus para receberem o Mistério da Santificação dos tesouros do Pacto da Graça.


III. Santificação E Justificação.

“...oferecei, agora, os vossos membros para servirem à justiça para a santificação” — Romanos 6:19

Santificação deve permanecer santificação. Ela não pode ser arbitrariamente roubada de sua significância, nem ser trocada por alguma outra coisa. Ela deve sempre significar o fazer santo o que não é santo ou que é menos santo.

Cuidado deve ser tomado para não confundir santificação com justificação; um erro comum, freqüentemente feito por leitores descuidados das Escrituras. Daí a importância de uma compreensão completa desta diferença. Sendo negligenciada, ela pode levar a uma pregação confusa, a qual causa parcialidade; e homens ativos e de pensamento profundo, invariavelmente sistematizam sua parcialidade.

Qual, então, é a diferença? De acordo com os nossos teólogos do passado, ela tem quatro aspectos:

1. A justificação opera pelo homem; a santificação, no homem.

2. A justificação remove a culpa; a santificação, a mancha.

3. A justificação atribui a nós uma justiça que para nós é externa; a santificação, opera uma justiça inerente como nossa própria.

4. A justificação é completada de uma vez; a santificação, aumenta gradativamente; por conseguinte permanece imperfeita.

A resposta está correta no principal, porém insuficiente para contestar o erro presente. Ela é pouco profunda, é externa e incompleta; faz muito do fazer justo e do fazer santo, enquanto não considera justiça e santidade, uma idéia correta das quais é absolutamente necessária para a correta compreensão de justificação e santificação.

Examinemos estas idéias fundamentais, primeiro, no Próprio Deus. Torna-se evidente imediatamente que as palavras “Nosso Deus é justo”, impressionam-nos diferentemente do que “Santo, santo, santo é o Senhor!”

A última frase nos impressiona com o sentimento de que, o nome de Jeová é infinitamente exaltado acima do baixo nível desta vida pecadora e impura; descobrimos uma distância entre Ele e nós mesmos a qual, na medida em que se expande em santidade ainda mais transcendente, atira-nos de volta a nós mesmos como criaturas impuras, enquanto faz com que o Seu Ser resplandeça na luz da qual não se pode aproximar. Se os anjos cobrem suas faces com suas asas enquanto O exaltam, quanto mais devemos nós, homens pecadores, considerarmos com face coberta e em temor reverente! A verdade “Os Senhor tem os olhos mais puros do que para notar o mal”, nos impressiona com o profundo sentido da indizível sensibilidade de Deus, a qual é tão pungente que mesmo a menor sugestão de pecado ou impureza levanta nEle tão antipatia que Ele não pode suportar-lhe a visão.

Mas culpa está fora da questão. Na presença da santidade divina não nos sentimos culpados, mas somos sobrepujados pela consciência da nossa completa corrupção e maldade. Mesmo entre homens nós nem sempre nos sentimos bem satisfeitos conosco mesmos. O zelo e o amor mais cálidos do nosso irmão muitas vezes nos fazem sentir-nos envergonhados. Ainda assim o sentimento não equivale a auto aversão. Mas na presença da santidade de Deus nós sentimos de imediato a nossa impureza espiritual com Isaías, e somos inclinados a clamar por uma brasa viva do altar para santificar os nossos lábios; e a expressão “auto aversão” não é forte demais para expressar o nosso sentimento enquanto nos prostramos perante a santidade do Senhor Jeová.

Isto estabelece a antítese de uma vez. A santidade divina no seu aspecto mais exaltado nos afeta, não com medo de castigo, ou com agonia, porque nós somos devedores de um débito que não podemos pagar; mas, com dissatisfação para conosco mesmos, com horror e abominação da nossa sujidade, e despeito por nossas justiças as quais são como trapos imundos. Faz-nos sentir, não a nossa culpa, mas o nosso pecado; não a nossa condenação, mas a nossa infâmia sem esperança; não nos quebra sob o castigo da lei, mas nos faz sermos consumidos pela nossa impureza; não nos engolfa com justiça, com retidão, mas põe a descoberto a nossa falta de santidade, a nossa impiedade e corrupção interiores.

Mas a justiça divina nos afeta de modo completamente diferente. Ela não me impressiona com a transcendência do Seu nome exaltado do Pacto como a santidade divina; mas na mão de Deus ela me oprime, me persegue, não me dá descanso, me captura, e me quebra em pedaços sob o seu peso. Sua santidade faz com que a alma esteja sedenta por santidade, e com pesar nós vemos Sua majestade afastar-se. Mas a Sua justiça antagoniza a alma, a qual não a deseja, mas sim luta para escapar dela.

Algumas vezes parece ser diferente, mas somente aparentemente. Homens pios, tanto no Antigo como no Novo Pactos freqüentemente invocam a justiça divina. “Não fará justiça o Juiz de toda a terra?”[Gênesis 18:25] Este erguer do direito é a força, a certeza e a consolação do Seu povo oprimido: Isto é o porquê no artigo final da sua Confissão os nossos pais clamam pelo dia do julgamento, quando,como o reto Juiz, Ele destruirá todos os inimigos, Seus e nossos. Todavia a diferença é somente aparente. Neste caso, o direito divino é direcionado contra outros, não contra nós; mas o efeito é o mesmo. É a oração e a esperança do Seu povo, que o direito divino persiga aqueles inimigos, e lide consigo de acordo com os seus merecimentos.

Assim é que a justiça de Deus nos impressiona, primeiro, com o fato da Sua autoridade sobre nós, que não nós, mas Ele deve determinar o que é certo, e como nós devemos ser; que toda a nossa oposição é vã, pois o Seu poder imporá o direito; daí que devemos sofrer os efeitos daquela justiça.

Mas não é simplesmente o poder do direito que nos impressiona, nem tampouco a consciência de que somos tomados e julgados, mas muito mais, que somos tomados e julgados com justiça. E isto não arbitrariamente; ao contrário, sentimos intimamente que o poder divino é correto, e portanto pode e deve subjugar-nos.

Portanto a justiça divina inclui o reconhecimento da criatura: “A prerrogativa de determinar o direito não é minha, mas dEle”. E não somente isto, mas as nossa almas são profundamente conscientes de que as decisões de Deus não são somente corretas e boas, mas absolutamente justas e superlativamente boas.

A justiça divina nos traz face a face com um operar direto da soberania divina. Toda soberania terreal nada mais é do que um trêmulo reflexo da divina; mas suficientemente clara para mostrar-nos suas características fundamentais. Um soberano é considerado ser suficientemente sábio para enxergar como as coisas deveriam ser; e qualificado para determinar que assim elas o sejam; e poderoso para resistir a quem quer que ouse contrariá-lo. Isto também aplica-se ao Rei dos reis; ou, ainda, isto aplica-se não a Ele também, mas só a Ele. Ele sozinho é a Sabedoria com a certeza absoluta para escolher, e de acordo com esta escolha enxergar como tudo deve ser para ser o melhor. Ele sozinho é O Qualificado, de acordo com isto, para determinar como tudo deve ser. E Ele é o único Poderoso para condenar e destruir o que quer que seja que ouse ser diferente.

E isto revela as características mais profundas do contraste. A santidade de Deus reporta-se ao Seu Ser; a justiça de Deus à Sua Soberania. Ou, a Sua justiça toca a Sua relação e posição para com a criatura: Sua santidade aponta ao Seu próprio Ser interior.


IV. Santificação E Justificação (Continuação).

“...e o santo continue a santificar-se”—Apocalipse 22:11

A Justiça divina, tendo referência à divina Soberania, num sentido não se manifesta até que Deus entre em relacionamento com as criaturas. Ele era glorioso em santidade desde toda eternidade, pois a criação do homem não modificou o Seu Ser; mas a Sua justiça não podia ser manifesta perante a criação, porque direito pressupõe dois seres sustentando a relação jurídica.

Um exilado numa ilha deserta não pode ser justo nem agir com justiça; ele nem mesmo pode conceber a relação jurídica enquanto não haja ninguém presente cujos direitos ele deva respeitar, ou quem possa negar os seus direitos. A chegada de outras pessoas, necessariamente criará a relação jurídica entre ele e os demais. Mas enquanto ele permanecer sozinho, ele pode ser santo ou ímpio, mas dele não pode ser dito que seja justo ou injusto. De maneira similar, pode ser dito de Deus que antes da criação Ele era santo, mas não poderia demonstrar a Sua justiça simplesmente porque não haviam criaturas a sustentar para com Ele a relação jurídica. Mas imediatamente após a criação, a demonstração de justiça tornou-se possível.

Ainda, a ilustração pode ser aplicada a Deus somente até uma certa proporção. Essencialmente, Deus não está sozinho, mas Triúno em Pessoas; daí existir entre o Pai e o Filho e o Espírito Santo uma relação mútua. Esta relação, sendo a mais elevada, delicada, e mais íntima, contém desde a eternidade a mais completa expressão de justiça. E mesmo com referência à criatura, a justiça divina não originou-se até após a criação, mas encontra expressão perfeita no eterno conselho. Aquele conselho não somente determina cada possível relação jurídica entre as criaturas e o Criador, e entre as próprias criaturas; mas indica também os meios através dos quais esta relação deve ser restaurada quando quebrada ou desestabilizada.

Portanto a Sua justiça é tão eterna quanto o Seu Ser; todavia, para expressar claramente a diferença entre santidade e justiça, podemos dizer que como a Sua santidade era gloriosa desde a eternidade, assim é a Sua justiça demonstrada e exercida somente no tempo, i.e. desde que a criatura passou a existir. Ela não originou-se então, mas tornou-se, então, perceptível. O que quer que possa ser dito quanto a isto, a diferença fundamental permanece, de que Deus é Santo mesmo embora considerado sozinho em Si Mesmo; enquanto que a Sua justiça começa a irradiar-se quando Ele é considerado em relação às Suas criaturas.

Deus é essencialmente santo; antes que a menor impureza existisse, havia nEle pressão vital para repelir toda combinação estranha com o Seu Ser. Mas comente como Soberano podia Ele determinar o direito, manter o direito violado, e executar justiça no violador.

Em suas características fundamentais, isto aplica-se a nós como homens. Mesmo em nós a justiça é completamente diferente de santidade; aquela tem referência exclusiva à nossa relação e posição perante Deus, homem, e anjo; enquanto que santidade refere-se não a qualquer relação mas à qualidade do nosso ser interior. Falamos de justiça somente quando refere-se à nossa relação para com Deus ou homem. De Noé é dito haver sido um homem justo “...entre os seus contemporâneos...”[Gênesis 6:9], o que indica não a sua qualidade essencial, mas a sua relação para com outros.

Justiça implica em direito, o que é inimaginável senão como existente entre duas pessoas em conexão com a qualificação de qualquer uma delas ou de uma terceira, para determinar aquele direito. Assim é que a justiça do homem com relação a Deus tem um aspecto duplo:

Primeiro, implica no reconhecimento da qualificações soberanas de Deus para determinar a relação do homem para com Deus e homens.

Segundo, implica em reverência pelas leis e mandamentos divinos, instituídos com respeito às tarefas do homem para com Deus.

Um homem pode observar rigorosamente alguns desses mandamentos, não motivado pela reverência, mas porque ele é compelido a aceita-los. Em alguns aspectos ele dá a Deus o que Lhe é devido; mas sua posição é errada. Ele falha em honrar a Deus como o seu Governador soberano, em reconhecer a Deus como Deus, e a curvar-se perante a Sua majestade.

Ou ele pode reverenciar a autoridade divina no abstrato, mas na prática ele constantemente rouba de Deus o Seu direito.

Portanto, justiça ‘original’, que refere-se à condição do homem perante Deus como uma criatura, e justiça ‘derivada’, que refere-se ao ato de honrar os mandamentos divinos, são duas coisas diferentes. Ambas são justiça — i.e., o ato de ocupar a posição divinamente ordenada. Mas a primeira refere-se ao nos encontrarmos pessoalmente na posição determinada por Deus; a segunda ao ato de conformarmos os nossos pensamentos, palavras e atos às suas divinas exigências.

É desnecessário falar particularmente de justiça com referência a homens. O que quer que façamos com relação a eles é justo ou injusto de acordo com a conformidade ou não conformidade para com o mandamento divino, e cada transgressão contra o próximo torna-se pecado somente por estar em não conformidade para com a justiça de Deus.

Brevemente, a justiça do homem consiste de duas partes:

Primeira, que a sua condição seja o que Deus tenha determinado.

Segunda, que os seus pensamentos, idéias, e atos sejam conformes para com as ordenanças divinas. Assim é que a nossa justiça não precisa ser o produto da labuta da nossa própria alma. À justiça original de Adão e Eva não faltava nada, embora eles pessoalmente, em conjunto, não houvessem feito nada para tanto. Eles simplesmente permaneceram na posição correta perante Deus; posição não auto assumida, mas divinamente determinada. E assim pode o direito, após haver sido desestabilizado, ser restaurado independentemente do violador, por uma terceira pessoa. A questão não é como a relação de direito foi restaurada, mas se ela está novamente de acordo com a vontade soberana de Deus.

Aquele que livra um devedor da prisão pela quitação dos seus débitos restaura-o à sua correta relação para com os seus antigos credores, mesmo que o prisioneiro ele próprio não tenha pago um centavo sequer do débito. Porque a justiça tem referência a relações mútuas, o direito é satisfeito assim que a relação desequilibrada seja restaurada e a posição perdida, recuperada. Como tal foi conseguido, é imaterial.

Isto nos dá uma compreensão mais abrangente do profundo significado da cruz, e do porque é que a nossa justiça não pode ser aumentada ou diminuída, embora não afete o nosso caráter essencial.

Completamente diferente é a santidade da alma, a qual toca diretamente a qualidade de pessoa e de caráter; como os nossos antigos teólogos corretamente expressaram: “A justificação age pelo homem; a santificação é inerente ao homem”.

O ímpio é justificado, i.e. no exato momento em que ele crê; antes que a santificação tenha começado a operar nele; ele sabe que encontra-se perante Deus perfeitamente correto. Ele não está meramente começando a ser correto; parcialmente correto, a ser um pouquinho mais correto amanhã, e perfeitamente correto quando entrar no céu; mas perfeitamente correto agora, doravante, e para todo o sempre. Ele é restaurado não somente pelo presente e por toda a eternidade, mas também pelo passado. A ele é assegurado o comparecer perante Deus em irrefutável direito, como se ele nunca estivesse sido errado, nem nunca pudesse estar errado novamente.

Assim é que a consciência de ser justificado é instantânea e completa de uma vez, e não pode ser aumentada nem diminuída. E isto é possível porque esta justiça não tem nada a ver com o ser do justificado, mas tem referência exclusiva com a relação na qual ele se vê colocado. Esta relação era miserável e inteiramente injusta; mas um outro, fora dele próprio, restaurou aquela relação e a fez o que ela deveria ser. Ele portanto encontra-se correto, justificado, sem qualquer referência que seja ao seu ser pessoal. Este é o profundo significado da confissão de que ele que é justificado é sempre uma pessoa pecadora.

Mas não é este o caso com relação à santidade do homem; que toca a sua pessoa e não pode ser concretizada fora do seu ser interior.


V. Vestimenta Santa, de Tecelagem Própria.

"...Habito no alto e santo lugar..." - Isaías 57:15

A santidade existe no ser do homem.

Existe santidade externa, e.g., aquela da ordem Levítica, resultado da lavagem ou da borrifação com sangue sacrificial; ou santidade oficial, denotando separação para o serviço divino, sentido no qual os profetas e apóstolos são chamados santos, e membros da igreja são chamados santos e amados. Mas estes não têm nada a ver com a santificação ora em discussão.

Santificação como uma dádiva da graça refere-se à santidade pessoal do homem. Como a santidade divina é a exaltação de Deus acima, e o afastar-se irado de toda impureza e profanação, assim também a santidade humana disposição essencial, através da qual ele espontaneamente ama a pureza e odeia o sujo. Vitória sobre tentação após um longo e penoso conflito, no qual os nossos pés quase que escorregaram, não é santidade.

Santidade quer dizer uma disposição, uma qualidade inerente, ou, falando de outra forma, um tom de cor ou sombreado adotado pela alma, de forma que as manifestações maléficas do coração e os sussurros demoníacos de Satã nos enchem positivamente de horror. Como o ouvido musicalmente treinado é dolorosamente afetado por uma dissonância à medida em que ela vibra ao longo do nervo auditivo que se contorce, enquanto que o ouvido não treinado nunca percebe a ofensa praticada contra a pureza do som, assim é a diferença entre o santificado e o não santificado. Quaisquer que sejam as dissonâncias morais do mundo, elas falham em afetar o ímpio, que até mesmo agrada-se da música; mas elas estressam o santo cuja alma deleita-se na harmonia de santos acordes.

Esta disposição, seja santa ou seja ímpia, inclui todo o nosso ser interior: ela existe na mente, na consciência, no entendimento, na vontade, nos sentimentos e inclinações. Discurso maléfico ou impuro proporciona prazer, ou dor, a todos estes.

Ainda assim este não é o último sinal de ser santo ou ímpio. Algo mais ainda é exigido. Muitos dos não regenerados não tremem convulsivamente contra muito do que é mal, e deleitam-se em muito do que é bom? Simpatia pelo bem pode ser chamada de santidade somente quando possuir a característica essencial, que queira o bem somente para o benefício de Deus. Deus sozinho é Santo. Não existe santidade a não ser a que descende dEle, a Fonte de todo o bem, por conseguinte de toda santidade. Mera santidade humana é uma fraude, um ataque contra a honra de Deus, de ser a única e única Fonte de todo o bem. ‘O esforço da criatura é ser um igual com Deus, e como tal pecado essencial’. Não, a santidade do homem deve ser a disposição divinamente implantada, excitando todo o seu ser para amar o que Deus ama, não do seu próprio gosto, mas pelo benefício do Seu Nome.

Sendo planejados à imagem divina, Adão e Eva possuíam esta santidade; daí que discórdia entre eles e o seu Criador era impossível. Sua santidade não estava meramente no germe, mas era completa, pois tudo neles encontrava-se em perfeito acordo com Deus. E os redimidos no céu são santos; eles na morte são completamente separados da fonte interna de pecado; eles estão essencialmente em cálida e completa simpatia com a santidade divina, cuja cada característica os atrai.

Mas o pecador perdeu a sua santidade. É sua a miséria que cada expressão do seu ser encontra-se naturalmente em rota de colisão com a vontade de Deus; cuja santidade não o atrai, mas sim repele. E a mera regeneração não santifica a sua inclinação e disposição; nem é capaz em si mesma de germinar a disposição santa. Mas ela requer o ato adicional e muito peculiar do Espírito Santo, através do qual a disposição do pecador convertido e regenerado é gradualmente trazida em harmonia com a vontade divina, e esta é a dádiva graciosa da santificação.

Mas isto não implica que um homem que morre imediatamente após a conversão entre no céu sem a santificação. Tal seria uma doutrina muito pouco confortadora, e não intencionalmente encorajaria o Antinomianismo. Um filho de Deus adentrando ao céu está completamente santificado; não nesta vida, mas após ela.

De acordo com a Bíblia, existe no céu uma diferença entre os espíritos dos redimidos; eles não se assemelham uns aos outros como o são duas gotas de água. Na parábola dos talentos, Cristo ensina claramente que no céu existe uma diferença na distribuição de talentos. Aquele que nega isto, rouba de si mesmo a promessa positiva que o “...Pai, que vê em secreto, te recompensará”[Mateus 6:6]. O estado celestial que pregamos não está baseado nos princípios da Revolução Francesa; ao contrário, na assembléia de homens justos feito perfeitos, nós nunca ascenderemos ao grau de apóstolo ou profeta, provavelmente nem mesmo ao de mártir. Não obstante, não existe nenhum santo no céu cuja santificação esteja incompleta. Neste aspecto são todos idênticos.

Mas haverá espaço para desenvolvimento. A santificação completa da minha personalidade, corpo e alma, não implica que a minha disposição santa esteja agora em contato real com toda a plenitude da santidade divina. Ao contrário, à medida em que eu ascendo de glória em glória, eu encontrarei nas profundezas infinitas do divino Ser o objeto eterno do mais rico deleite em medida sempre crescente. Neste aspecto os redimidos no céu são como Adão e Eva no Paraíso, que, embora perfeitamente santos, estavam destinados a entrar mais completamente na vida do amor divino, através de desenvolvimento sem fim.

Deveria portanto ser cabalmente compreendido que no momento da sua entrada no céu, nada falta à santificação dos redimidos. Não obstante, a sua santificação receberá a mais inteira consumação quando, levantados do túmulo, na glória da ressurreição do corpo, eles entrarem no Reino da Glória após o dia do julgamento. Até aquela hora eles estão num estado de separação do corpo, descansando em paz, esperando pela vinda do Senhor.

Desde que a santificação inclui corpo e alma, um tratamento exaustivo exige que chamemos a atenção para este ponto. Não como se este estado intermediário fosse pecador, uma espécie de purgatório; pois a Bíblia ensina claramente que na morte nós somos separados do corpo. O fato de o corpo permanecer impuro até o dia da glorificação não afeta o estado sagrado do santo que parte. Estando livre do corpo, este não mais o afeta. E, quando no notável dia do Senhor, o corpo lhe for restaurado; este estará perfeitamente santo, puro, e glorificado.

Aquele que pertence a Jesus entra no céu perfeitamente santo. A menor falta indicaria algo pecaminoso internamente; aniquilaria a confissão gloriosa de que a fé é um morrer para todo pecado, assim como a declaração positiva da Escritura; de que nada que mancha, que corrompe, adentrará aos portões da cidade. Assim é a inalterável regra de santificação, que cada alma redimida que entrar no céu está perfeitamente santificada.

Isto aplica-se ao infante que, sendo regenerado no berço, é carregado dali para o túmulo, no qual, portanto, exercício consciente de santidade está fora de questão; e para cada pessoa convertida que falece repentinamente; e ao homem que, incorrigível durante toda a sua vida, na hora da morte arrepende-se perante Deus, e parte um dos redimidos do Senhor.

Os que apóiam a doutrina Arminiana regular, consideram impossível esta representação. Eles crêem que a santificação é um efeito do esforço, da diligência, do exercício, do conflito do próprio santo. É como uma linda vestimenta de linho fino, muito desejável, mas deve ter sido tecida pela própria pessoa que a usa. Este trabalho começou imediatamente após a conversão do santo. O tear está montado, e ele começa a tecer. Ele continua com a sua labuta espiritual com senão umas poucas interrupções. A peça de linho aumenta gradualmente de tamanho sob suas mãos, e assume forma e aparência. Se não for ceifado cedo na vida, ele espera termina-la mesmo antes da hora da sua partida.

O púlpito deve opor-se a esta teoria, a qual provém, não dos livros de Arminius, mas do coração ardiloso do homem. Pois não é somente destituída de conforto, mas também ímpia.

Esta teoria não tem qualquer conforto: pois, se verdadeira, então todos aqueles nossos preciosos pequeninos que morreram no berço encontram-se perdidos, pois eles ainda não podiam costurar um ponto sequer, nesta vestimenta da sua glória; sem qualquer conforto: pois se o santo se encontrasse atrasado com o seu serviço de tecelagem e costura, ou se fosse levado na juventude dos seus dias, antes que pudesse chegar à metade do seu trabalho, certamente ele estaria perdido. Nem tem ela conforto maior para aquele cuja conversão no leito de morte é inútil por completo, pois ela chegou tarde demais para a tecelagem e a confecção desta vestimenta da santificação.

E esta teoria também é ímpia: pois então Cristo não é nenhum Salvador suficiente. Ele pode executar a nossa justificação e abrir os portões do Paraíso, mas a tecelagem e a confecção das nossas próprias vestes matrimoniais, Ele deixa a nosso encargo, sem assegurar-nos tempo suficiente para termina-las. Sim, ímpia de fato ela o é; pois isto faz da tecelagem e da confecção do linho fino a nossa obra, faz da santificação a realização do homem, e Deus não mais é o único Autor da nossa salvação. A salvação, então, não é mais graça, e a própria obra do homem está de novo, de pé.

Em assim subvertendo a própria fundação, o próprio alicerce das coisas santas; teólogos Éticos descuidados deveriam considerar a destruição que trazem por sobre a Igreja de Cristo. Nossos pais nunca acreditaram nesta doutrina, e sempre se opuseram a ela. “Não há nenhum Evangelho nisto”, disseram eles. É o despedaçar do Pacto da Graça; jogando sobre os santos de Deus o temor e o constrangimento do Pacto de Obras.


VI. Cristo, Nossa Santificação.

"...Cristo Jesus, o qual Se nos tornou, da parte de Deus . . . santificação..."-I Coríntios 1:30

A alma redimida possui tudo em Cristo. Ele é um Salvador completo. Nada Lhe falta. Tendo-O, estamos salvos ao máximo possível salvos; sem Ele, estamos inteiramente perdidos e anulados.

Devemos manter este ponto com toda seriedade, especialmente no que refere-se à nossa santificação; e repetir com clareza crescente que Cristo nos é dado de Deus não somente para sabedoria e justiça, mas também para santificação.

Lê-se, distintamente, que Cristo é a nossa justiça e santificação. Esta tradução é perfeitamente correta. No idioma Grego não se lê, "dikaiōsis”, que significa justificação, mas sim “dikaiosúnē”, que nunca refere-se ao ato de tornar justo, mas à condição de ser justo, portanto justiça. Assim também não se lê “hágios” ou “hagiosúnē”, o que pode referir-se a santidade, mas lê-se distintamente, “hagiosmós”, o que aponta para o ato de tornar santo.

O que o apóstolo distinguiu de forma tão clara, não deveria ser confundido.

São Paulo e a Igreja de Corinto são crentes. Eles já estão justificados em Cristo, de uma vez por todas; pois Cristo foi feito justiça para com eles. Mas este não é o caso com a santificação. “...Não, pois mesmo os mais santos deles conseguem apenas um pequeno início de obediência nesta vida. Entretanto, começam com o sério propósito de se conformarem não só com alguns, mas com todos os mandamentos de Deus.”[Catecismo de Heideilberg, resposta à questão 114 — “Mas, podem os que se converteram a Deus guardar perfeitamente estes mandamentos?”]. Mas a obra somente começou. Comparado com tempos anteriores, existe neles um amor e espírito mais santos, mas eles são de forma alguma inteiramente santificados. Eles encontram-se sob o tratamento do Espírito Santo, o seu Santificador. Eles tornam-se mais e mais conforme à imagem de Deus [vide a resposta à questão 115 do Catecismo de Heidelberg (“Por que, então, quer Deus que os dez mandamentos sejam pregados tão rigorosamente, já que ninguém pode guardá-los nesta vida?”) — “...para podermos ser mais e mais renovados segundo a imagem de Deus, até atingirmos o alvo da plena perfeição depois desta vida.”]. Assim é que existem degraus de progresso em santidade. Naqueles convertidos senão recentemente, a santificação progrediu somente um pouco; em outros ela tem feito progresso glorioso. Pelo que há na Igreja pessoas santas, mais santas e mais santas ainda [vide um outro trecho da resposta à questão 114 do Catecismo de Heidelberg (“Mas, podem os que se converteram a Deus guardar perfeitamente estes mandamentos?”)—“...pois mesmo os mais santos deles...”].

Desde que a justificação do ímpio é completada de uma só vez; e a santificação do regenerado procede senão vagarosa e gradualmente, São Paulo escreve aos Coríntios com precisão perfeita que Cristo é para ele e para eles não mais criador de justos, mas sim justiça; do contrário, Ele não teria Se tornado santidade para eles, mas somente criador de santos.

Isto estando bem compreendido, é impossível estar errado. Se a intenção do apóstolo tivesse sido enumerar no abstrato tudo o que um pecador perdido possui em Cristo, ele teria dito: “Criador de sábios, criador de justos e criador de santos”; pois um pecador perdido que ainda caminha em sua estultícia, ainda não foi feito justo, etc. Mas ele descreve a sua própria experiência, dizendo que, como uma estrela a sabedoria de Deus nasceu na sua alma escura; que pelo benefício de Cristo ele obteve perdão e satisfação, razão pela qual ele encontra-se perfeitamente justo perante Deus: e que agora ele está sendo feito santo e sendo redimido. Ele ainda não está redimido por completo; o termo em Grego “apolutrósis” denota aqui também uma ação continuada de ser livrado de miséria tanto interior como exterior.

O Catecismo de Heidelberg (questão 60) descreve o posicionamento justo da alma perante Deus da seguinte maneira contundente:

“Pergunta: Como és justo perante Deus?

“Resposta: Somente pela verdadeira fé em Jesus Cristo. Apesar das acusações de minha consciência de que tenho pecado gravemente contra todos os mandamentos de Deus e não ter observado nenhum deles, e ainda de eu ser sempre propenso a tudo que é mau, todavia Deus, sem nenhum mérito realmente meu, ele me concede, apenas por sua graça, os benefícios da perfeita expiação de Cristo, imputando-me sua justiça e santidade, como se eu nunca tivesse cometido um simples pecado ou jamais tivesse sido pecador, tendo cumprido, eu mesmo, toda a obediência que Cristo executou por mim, se somente aceito tal favor com um coração confiante.”

O fato de que esta resposta faz com que a justiça inclua a santidade tem levado homens menos pensadores a inferirem que santificação e justificação são a mesma coisa. Discutido no Sínodo de Dort, esta questão foi resolvida pela inserção no artigo 22 da Confissão a cláusula: “Mas Jesus Cristo, atribuindo-nos todos os seus méritos e tantas obras santas, que fez por nós e em nosso 1ugar, é nossa justiça.”[Confissão Belga – art. 22 (“A Justificação Pela Fé Em Cristo”) Referências: Jr 23:6; Mt 20:28; Rm 8:33; 1Co 1:30,31; 2Co 5:21; 1Jo 4:10]. O que, então, a justificação inclui? Não a santificação de nossas pessoas, mas a soma total das obras santas as quais nós devemos a Deus, de acordo com a lei. A questão 60 do Catecismo de Heidelberg chama isto de “nossa santidade”.

A diferença entre os dois é vista claramente em Adão e Eva no Paraíso. Eles foram criados pessoalmente santos; não havia nada ímpio com relação a eles. Mas eles não tinham todavia observado, cumprido a lei. Eles não possuíam obras santas. Eles não haviam adquirido um tesouro de santidade. Pessoalmente, alguém pode ser santo sem contudo ter um grão de santidade alcançada ou adquirida; e, por outro lado, alguém pode ter uma lei perfeitamente observada, cumprida, sem contudo ter a menor função de santidade pessoal. Cristo na manjedoura era perfeitamente santo, mas Ele ainda não havia cumprido a lei, daí que Ele não havia ainda adquirido santidade para apresentar em nosso lugar. Mas na hora da justificação, o filho de Deus recebe (1) a remissão completa do seu castigo, baseado na expiação de Cristo; (2) a remissão completa do seu débito, baseado na satisfação de Cristo. E esta satisfação nada mais é do que um perfeito cumprimento, uma perfeita observância da lei; uma completa apresentação de todas boas obras; por conseguinte uma perfeita manifestação de santidade. Não existe, portanto, entre as questões nºs 114 e 115 do Catecismo de Heidelberg, o menor conflito que seja.

Santificação e santidade são duas coisas diferentes. Santidade, na sexagésima questão do Catecismo de Heidelberg, tem referência não a disposições e desejos pessoais, mas à soma total de todas as obras santas exigidas pela lei. Santificação, ao contrário, refere-se não a qualquer obra da lei, mas exclusivamente à obra de criar santas disposições no coração.

Se alguém perguntar, ‘É Cristo a sua santidade tanto e no mesmo sentido quanto Ele é a sua justiça?’, respondemos: Sim, realmente, glórias ao Senhor; Ele é a minha santidade completa perante Deus, tanto quanto a minha perfeita justiça. Uma é simplesmente tão certa e absoluta quanto a outra. A execução de todas as obras santas exigidas de cada ser humano pela lei, de acordo com o Pacto de Obras, é um ato vicário de Cristo no sentido mais completo da palavra. Razão pela qual nós confessarmos que as obras santas as quais Cristo fez por nós são também tão positivamente uma santidade imputada, tanto quanto nós comparecemos perante Deus por intermédio de uma justiça imputada. Nada pode ser acrescentado a isto. É fato integral, perfeito, e completo em cada aspecto.

E aquilo que por nós é feito em nosso lugar, não nos é exigido novamente, o que seria algo moralmente absurdo. De acordo com o Pacto de Obras, nem a lei nem o legislador tem o que quer que seja para demandar de nós. Trata-se de obra consumada. O castigo é sofrido, e a santidade exigida pela lei é apresentada. Encontramo-nos perfeitamente justos perante Deus e nossa própria consciência, considerando o fato de que recebemos este benefício indizível com um coração crente.

Mas tudo não tem nada a ver com a nossa santificação. Adicionalmente à justiça imputada e às obras santas, a nossa santificação vem em seguida, na seqüência.

Do pecado procedem a culpa, o castigo, e a mancha. Desses três nós devemos ser livrados. Do castigo através da expiação de Cristo; da culpa através da Sua satisfação; e da mancha, por intermédio da santificação. Depois que Deus nos redimiu do castigo eterno, encontramo-nos ainda ímpios, oprimidos em nosso sangue impuro. A santa disposição e o desejo inerentes a Adão ainda não nos foram restaurados. Ao contrário, a mancha do pecado ainda está ali. Deleitamo-nos na lei de Deus no nosso homem interior, mas também encontramos o pecado presente, sempre e em todo lugar, nas manchas de pecado, no corpo e na alma. E a vontade de Deus é que isto não continue assim. Ele substituirá a mancha do pecado por uma disposição santa. Ele resolve nos reformar interiormente, renovar-nos conforme a imagem do Seu Filho amado, i.e., santificar-nos.

E é somente agora que Ele começa a fazer-nos pessoalmente santos. Como seus filhos, nós Lhe somos tão queridos como a menina dos Seus olhos; Ele tem nossos nomes gravados nas palmas de Suas mãos. Nós não prestamos atenção a coisas indiferentes, mas polimos a jóia preciosa. Uma roupa velha é jogada de lado, mas limpamos caprichosamente e removemos a mancha daquele vestido caro de seda. A dona de casa adorna a propriedade que lhe é querida; e o jardineiro, remove as ervas daninhas dos seus canteiros. De maneira similar, compelido por Seu amor, Deus quer que o Seu filho, corpo e alma, brilhe até que a mancha do pecado seja completa e inteiramente removida.

Esta é a obra da santificação, direcionada exclusivamente à nossa santificação pessoal, para restaurar-nos a santidade que Adão tinha, antes que ele tivesse executado qualquer obra santa.

Em Adão, a santidade pessoal veio primeiro, em seguida a santidade consistindo do cumprimento, da observância da lei; mas para o filho de Deus, esta última, imputada a ele por Cristo, lhe é concedida primeiro, e então segue-se a sua santidade pessoal. Como Adão foi criado santo, assim também o regenerado é feito santo.

A santificação pessoal do pecador regenerado e convertido começa após o despertar da fé; continua mais ou menos ininterruptamente até que se acabem os dias da sua vida; é completada, tanto quanto refere-se à alma, na morte, e; com relação ao corpo, quando da vinda do Senhor. E desde que isto é operado por Cristo, através do Espírito Santo, a Bíblia confessa que Cristo não é somente a nossa Justiça, mas também a nossa Santificação.


VII. Aplicação de Santificação.

“...aos que de antemão conheceu, também os predestinou para serem conformes à imagem de Seu Filho, a fim de que Ele seja o primogênito entre muitos irmãos” — Romanos 8:29

No Seu próprio tempo, e com graça irresistível, Deus translada os Seus eleitos desde a morte para a vida. Ele lhes dá a fé e a consciência de serem justificados em Cristo; e pela conversão ele põe os seus pés no caminho da vida. Assim eles são livres da culpa. Não há, para eles, condenação alguma. Nem o inferno nem o diabo, podem prevalecer contra eles. Daí o brado de vitória do apóstolo: “Quem intentará acusação contra os eleitos de Deus? É Deus quem os justifica. Quem os condenará? É Cristo Jesus quem morreu, ou, antes, quem ressuscitou, o qual está à direita de Deus e também intercede por nós”[Romanos 8:33 – 34].

O filho de Deus tem prova formal da sua justificação, não somente na Palavra, mas também no Próprio Cristo, quem, continuamente, apresenta Seu sacrifício perante o Trono. Se ele tem ou não consciente alegria disso, é irrelevante. Enquanto dorme, ou em delírio febril, privado da razão devido a causas físicas, ele continua sendo filho de Deus. Independente de sensações, experiências e recordações da mente; sim, embora ele nunca tenha derramado uma lágrima sequer de arrependimento, ele possui seu tesouro sob todas circunstâncias. Até mesmo débeis mentais o possuem. Por que não deveria Deus ter nenhum filho entre eles? É claro, em circunstâncias normais a fé consciente é a regra; mas a salvação não depende da experiência real da alma. Quando você caminha num dia ensolarado, sua sombra é visível; mas a sua existência não depende da sua sombra.

Deveria ser enfatizado que a santificação não implica em esforços e perseveranças humanos para complementar a obra de Cristo: mas a graça adicional de criar, sobrenaturalmente, no santo, uma disposição santa.

O pecado causa poluição, i.e., não pode haver pecado sem que se gere mais pecado: o Pecado gera pecado; causa pecado, é sempre a mãe do pecado. Se este processo gerador de pecado não fosse paralisado nos nossos corações, a cadeia do pecado permaneceria inquebrada, elo após elo, e somente pecado seria o resultado.

Mas este não é o propósito divino. Deus quer que os homens vejam as nossas boas obras e glorifiquem o Pai que está no céu. Portanto, Deus preparou-nos boas obras para que andássemos nelas. Mas se fosse para a mancha do pecado continuar a agir em nós sem qualquer interrupção, nós não poderíamos caminhar naquelas boas obras. Nenhum de nós poderia jamais fazer uma boa obra que fosse. A luz jamais brilharia nos filhos da luz, e não haveria ocasião nenhuma para glorificar o Pai no céu. Boas obras operadas em nós pelo Espírito Santo independentemente de nós não podem oferecer tal oportunidade. As obras do Espírito Santo são sempre santas; nisto não há nada de surpreendente. Mas quando Ele faz com que boas obras procedam de nós de maneira tal que elas sejam verdadeiramente nossas, então existe a ocasião para louvor [“Assim brilhe também a vossa luz diante dos homens, para que vejam as vossas boas obras e glorifiquem a vosso Pai que está nos céus”—(Mateus 5:16)]. Os homens, então, perguntarão surpresos, “Quem operou estas coisas neles?” e elevando os olhos glorificarão o Pai. E então a continuidade de pecado, chamada de “mancha”, é quebrada; então a lei que rege que o pecado gera pecado, i.e., cultiva, a disposição pecadora; é substituída por uma outra lei, a qual introduz gradualmente a disposição santa.

Esta disposição santa não pode surgir do homem, nem tampouco de regeneração. Uma criança faminta não pode crescer, desenvolver-se; assim como também o filho de Deus não pode proceder à santificação, se deixado à sua própria sorte. Embora a santificação esteja organicamente conectada com a vida implantada, ainda assim ela não germina sem as chuvas constantes da graça. Razão pela qual ela é a dádiva gratuita do Pai de Luzes.

O Espírito que habita em nós é, na verdade, o Operador. Ele executa esta obra em todos os santos, não parcialmente, mas de maneira completa, tanto na vida como na morte, ou só na hora da morte. Esta última, aplica-se às crianças eleitas, a idiotas e pessoas insanas, e àqueles que se convertem no seu leito de morte. Em todos os outros Ele a executa durante sua vida na terra, e na hora da sua partida.

Mas existe uma diferença em pessoas diferentes. Em alguns o Espírito Santo começa a santificação já na infância; em outros, na idade madura. Em alguns, a santificação procede quase que sem qualquer interrupção; em outros, é obstruída por conflito ou apostasia. Mas em todos Ele age conforme Lhe apraz. A santificação é uma ornamentação artística operada na alma, a qual Ele assegura que estará terminada no momento apontado, na hora designada para a nossa entrada na Nova Jerusalém: mas a maneira e a medida do progresso dependem só e exclusivamente do Seu prazer e do Seu propósito.

Primeiro, a santificação está intimamente relacionada a Cristo, e é parte do Pacto da Graça o qual Ele assegura a nós como a nossa Certeza. Não se trata meramente de obra Sua, mas de uma graça inerente à Sua Pessoa, e de tal modo identificada conSigo, que o apóstolo exclama: “...em Cristo Jesus, O qual se nos tornou, da parte de Deus, sabedoria, e justiça, e santificação...”[I Coríntios 1:30]. Ela está relacionada com a “unio mystica”: Ele vitalmente em nós, e nós vitalmente nEle; Ele a Vide, e nós os ramos: “...já não sou eu quem vive, mas Cristo vive em mim...”[Gálatas 2:20]; Ele a Cabeça, e nós os membros. Todos estes exemplos indicam a união vital entre o crente e o Mediador. O feto no ventre materno, pode ser dito que ele respira através da respiração da mãe, e que a mãe respira no filho. O mesmo é verdadeiro aqui, embora a comparação ilustre, sem contudo exaurir o assunto.

Assim é que o filho de Deus não pode existir, senão em Cristo. Não que ele seja sempre consciente disto. Ele muitas vezes sente como se Cristo se encontrasse longe dele, e, iludido por este pensamento, ele muitas vezes desvia-se para tão longe que o elo de união parece estar completamente dissolvido. Isto não é realmente assim, pois Cristo nunca perde o Seu controle sobre o filho; mas ao filho assim se parece. E esta é a causa da dificuldade. Nesta condição, só a sua natureza pecadora é nele deixada; todo o seu tesouro de graça encontra-se com e em Jesus. Por este motivo, a liturgia diz: “Fora de Cristo nos encontramos prostrados no meio da morte”. Quando, com Diná, deixamos a tenda patriarcal e enveredamo-nos no caminho para Siquém (N.T. Gênesis 33:18 — 34:31); fazemo-lo por nossa própria conta e risco, nada tendo conosco senão a herança de Adão, a saber, uma alma morta e uma natureza corrupta. Imaginar, então, que possuímos em nós qualquer coisa que seja aceitável a Deus é equivalente a uma negação de Emanuel. Com Köhlbrugge dizemos: “Considerados fora de Cristo, os convertidos e os não convertidos são exatamente o mesmo”.

Mas, muito embora nós O abandonemos, Ele nunca nos abandona; entre o convertido em mais profundo desvio e o não convertido, existe esta diferença imensurável, que a alma daquele encontra-se inseparavelmente ligada a Jesus; enquanto que a alma do segundo, não está.

Segundo, a santificação do santo é inimaginável sem Cristo, porque a implantação da disposição divina pelo Divino Espírito é: “...para podermos ser mais e mais renovados segundo a imagem de Deus, até atingirmos o alvo da plena perfeição depois desta vida.”[Catecismo de Heidelberg, questão 115). E não é isto a imagem de Cristo?

Ser santificado, então, significa ter Cristo obtido estatura em nós. Não se trata de uns poucos sinais confusos de santidade, mas um todo orgânico de puro desejo e inclinação estampado na alma, envolvendo todos os poderes do espírito e da disposição humanos. Assim é, que o seu progresso não pode ser medido ou enumerado, dez degraus agora e outros quinze no próximo ano. Trata-se do reflexo da forma de Cristo na superfície do espelho da alma; primeiro em contornos difusos, gradualmente mais distintos, até que o olho experiente reconheça ali a forma de Jesus. Mas, mesmo nos mais avançados, não é mais do que uma imagem como que se num negativo fotográfico; a perfeita imagem de Emanuel será revelada em nós somente e através da morte.

A disposição santa é um “homem perfeito”, i.e., uma forma envolvendo a personalidade por completo; expressão da imagem completa de Cristo, e portanto cobrindo todo o nosso ser humano:

Quão tolo, então, é falar de santificação como um resultado do esforço humano. Quando a pessoa desaparece, será que a sua sombra vai consigo? Como, então, poderia a imagem, forma ou sombra de Cristo permanecer em nós quando em nossas perambulações, quando nos encontramos desviados, a nossa alma está separada dEle? O brilho desaparece com a luz. Não se pode reter uma sombra. É por isso que Emanuel é a nossa santificação, no sentido mais completo da palavra. Sua forma, refletindo-Se na alma e a alma retendo aquele reflexo, é do que se trata toda a obra da santificação.

Finalmente, quanto à questão, ‘Como a santificação pode implantar uma disposição santa, se ela depende do reflexo da forma de Jesus na alma, uma vez que uma negação ou apostasia temporária nos afasta dEle?’, respondemos: Pode uma disposição inerente não existir e continuar sem ser exercitada? Alguém pode ter adquirido a disposição (o hábito) de falar Inglês com fluência, mas não falar o idioma por um ano inteiro. Assim também pode a disposição ou o hábito do desejo santo penetrar na alma, mesmo embora a corrente de impiedade a cubra por um período. E a alma está inteiramente consciente disto pelo ataque íntimo, da consciência. Se Jesus pudesse perder o Seu controle sobre nós, sim, então a disposição santa não perduraria. Mas, uma vez que em meio a mais profunda queda, a alma permanece inconscientemente em Sua mão, a objeção não tem nenhum peso.


VIII. Santificação em Companhia com Emanuel.

“...tendes o vosso fruto para a santificação e, por fim, a vida eterna” — Romanos 6:22

A terceira razão porque a nossa santificação está em Cristo é: que Ele a obteve, ela flui dEle, e Ele a garante.

Estando a sua mente completamente destituída da falsa idéia de que a santificação é fruto do seu próprio trabalho, sua criação própria; atendo-se firmemente à clara doutrina de que trata-se de uma dádiva da graça, esta terceira razão lhe apelará. Se a santificação é um dom, uma dádiva, um favor, surge a pergunta: Para que? Trata-se de uma recompensa pelo trabalho da sua alma? Fruto da sua oração? Encorajamento na jornada? É por conta da sua beleza, da sua piedade, da sua bondade? Será por qualquer coisa em você? Pois deve haver um motivo. Que Deus devesse conceder a dádiva preciosa e irrevogável da santificação a pessoas que, com ambas as mãos se opõem a ela, e com os seus dedos arranham a sua beleza, é inconcebível. O que foi, então, que moveu o Senhor Deus em seu favor? Você diz: “Seu insondável beneplácito, o qual é a mais profunda base de toda a nossa salvação”. Muito bem; mas o divino conselho não age como se, por mágica. Tudo aquilo que procede daquele conselho segue o seu curso, e mostra os elos que lhe dão consistência.

Por conseguinte a pergunta deve ser feita: “Quem é que obteve para você a dádiva graciosa da santificação?” E a resposta é: “O nosso Redentor; a santificação é o fruto, o resultado da Cruz.”

Não existe nenhuma divisão de trabalho na obra redentora. Cristo não obteve, na cruz, somente a nossa justiça; deixando que obtivéssemos a nossa santificação através de conflito e auto negação; mas há somente Um que labuta, os demais adentram ao Seu descanso; Ele pisoteou sozinho o mosto no lagar, e do povo que estava ali, nenhum deles estava conSigo.

Deus ordenou a nossa santificação para fluir diretamente de Cristo. O Espírito Santo é o Operador, todavia o que quer que seja que Ele nos conceda, Ele o traz diretamente de Cristo. “Ele me glorificará, porque há de receber do que é meu e vo-lo há de anunciar”[João 16:14]. Esta não é nenhuma frase vazia, mas a sóbria realidade.

O que uma alma redimida precisa, é de uma santidade humana. Um homem, não um anjo, deve ser santificado. O segundo não pode ser santificado. Uma vez caído, ele está para sempre perdido. Criado e caído como Adão; ele não pode ser restaurado como Adão. Nada sabendo acerca da redenção, os anjos desejam conhecer sobre ela. Por conseguinte quando, apesar do pecado, Deus traz uma companhia inumerável de homens e de anjos para a vida eterna, Ele assim o faz ao santificar os eleitos entre os homens ímpios; enquanto que os anjos eleitos não necessitam de santificação, pois eles nunca se tornaram ímpios. A santificação refere-se, portanto, exclusivamente a homens; proporciona uma santidade feita possível e ordenada somente para homens; cria uma disposição com forma e caráter humanos, calculada para as necessidades peculiares do coração humano.

O Espírito Santo encontra esta disposição santa na sua forma requerida, não no Pai, nem em Si Mesmo, mas em Emanuel, que como o filho de Deus e o Filho de homem, possui santidade naquela peculiar forma humana.

Cristo também garante a nós esta dádiva graciosa. A justificação sendo de imediato um fato consumado não o requer; mas a santificação é gradual.

A falta de tal garantia nos encheria de dúvida e incerteza com relação à nossa própria santificação, vendo que o seu começo é pequeno e que o seu progresso é lento; e com relação àquela santificação de crianças que falecem enquanto crianças e de pessoas convertidas muito tarde na vida. Tais dúvidas fariam com que temêssemos, e nos roubariam o conforto da obra terminada.

Cristo diz: “Vinde a Mim, todos os que estais cansados e sobrecarregados, e Eu vos aliviarei”[Mateus 11:28]; todavia a experiência ensina que para muitos crentes a santidade inerente causa agitação constante, uma constante falta de sossego. Eles sabem que em Cristo eles são justos, ainda assim não estão confortados; pois Deus diz em Sua Palavra: “Sede santos, porque Eu sou santo”. Se pelo menos estivesse escrito: “Ajam de maneira santa”, os méritos de Cristo poderiam ser suficientes; mas está escrito: “Sede santos”, e isto quer dizer santidade inerente, disposições santas. Ou, se estivesse escrito: “Tornem-se santos”, a aproximação gradual até o ideal lhes inspiraria esperança. Mas, está inexoravelmente escrito: “Sede santos”, e isto faz sofrer as suas almas feridas.

Não é que cada crente seja atribulado desta forma. Pena que muitos raramente, e a grande maioria nunca, dá ao assunto qualquer consideração. Enquanto eles têm a reconciliação e a satisfação, incluindo a execução de boas obras, pregadas a eles, eles se satisfazem. Sua natureza carnal encontra-se bem contente com isto. Mas há outros, de pensamento mais aprofundado e de consciência mais ardente, que não aceitam “a porta larga e o caminho espaçoso” assim aberto às suas almas, mas que crêem na palavra: “... estreita é a porta, e apertado, o caminho”. Para eles, está escrito: “Sede santos”; e não pode haver descanso ou conforto para a consciência, até que estejam reconciliados com aquela palavra.

Daí dizermos que não é bastante que Cristo tenha obtido a santificação, que o Espírito Santo a conceda, mas também que Cristo a garanta para nós, não somente uma vez, mas para sempre; de modo que quando quer que seja que nos apresentemos diante dAquele que é Santo, nós possamos estar realmente santos em Cristo.

E este é o conforto abençoado da Palavra, que Cristo Ele mesmo é a nossa santificação. Como no Adão caído os seus descendentes têm a terrível certeza de que a sua natureza é totalmente impura, assim também no Cristo ressurreto, os Seus redimidos têm a garantia gloriosa de que nEle eles serão completamente santos.

Este é o mistério da Videira e os ramos, e a palavra profunda: “Vós já estais limpos pela palavra que vos tenho falado”[João 15:3]. Como a nossa Certeza, Ele desta forma nos assegura: (1) que a disposição santa uma vez criada em nós, embora temporariamente engolfada pelo pecado, nunca pode ser perdida; (2) que a forma de Cristo, da qual há somente um pequeno começo em nós, alcançará perfeição completa antes que adentremos à Nova Jerusalém; (3) que como a nossa Certeza, ele apresenta-se perante o Pai em nosso lugar, havendo depositado nos tesouros dos Seus méritos tudo aquilo que nos falta, em nosso nome. No conhecimento disto é que a alma atribulada encontra descanso.

Cuidemos para que o vaso precioso no qual Deus nos apresenta esta graça permaneça intacto, pois o pecador não pode satisfazer-se com nada menos.

Mas deveríamos também sermos cuidadosos para evitar o outro extremo, o qual, sob o apelo de que Cristo é a nossa santificação, nega a obra do Espírito Santo na alma. Aqueles que suportam este ponto de vista concedem que Cristo é a nossa santificação, que o Espírito Santo opera em nós, e que as boas obras são o resultado, mas, de maneira tal que a nossa própria pessoa, como tal, permanece tão ímpia e inútil como o fora até então. Ser ou não regenerado, crente ou não crente, é tudo o mesmo. A única diferença entre ambos é que, independentemente da nossa própria pessoa, e contra a nossa vontade, o Espírito Santo nos faz caminhar, inconscientemente, no caminho da vida.

Este ensinamento pernicioso opõe-se ao capítulo 7 da Epístola de São Paulo aos Romanos, e à Confissão das igrejas Reformadas. O apóstolo não diz que os seus desejos e inclinações são ainda ímpios, e que o Espírito Santo executa boas obras independentemente dele e ainda assim através dele; mas ele lamenta que, enquanto o seu desejo encontra-se em simpatia com a vontade divina e deseja o bem, o mal ainda encontra-se presente. Em sentido similar, o Catecismo ensina que o homem é inclinado para todo o mal, enquanto ele não nascer de novo, mas não após. Pois a vitalização do novo homem consiste em uma “Alegria de coração em Deus através de Cristo e um forte desejo de viver segundo a vontade de Deus em todas as boas obras.” [Catecismo de Heidelberg — questão 90 (“Que é o nascimento do homem novo?”)].

E a alma do não convertido não é assim tão disposta. Daí a diferença entre os dois ser tão grande que o golfo do céu e do inferno se abre entre eles.

Pode, portanto, ser proveitoso para os nossos leitores apresentarmos perante eles uma vez mais a Confissão dos teólogos Reformados das igrejas da Suíça, da Alemanha, da Inglaterra e dos Países Baixos, com relação a este ponto.

Eles confessaram que: “...pela operação eficaz do mesmo Espírito regenerador, Deus também penetra até os recantos mais íntimos do homem. Ele abre o coração fechado e enternece o que está duro, circuncida o que está incircunciso e introduz novas qualidades na vontade. Esta vontade estava morta, mas ele a faz reviver; era má, mas ele a torna boa; estava indisposta, mas ele a torna disposta; era rebelde, mas ele a faz obediente, ele move e fortalece esta vontade de tal forma que, como uma boa árvore, seja capaz de produzir frutos de boas obras (I Cor 2.14)”. [N.T. — Cânones de Dort: Artigo 11 — “Como Ocorre A Conversão” — 3º e 4º Capítulos da Doutrina: “A Corrupção do Homem, A Sua Conversão A Deus E Como Ela Ocorre”].

E esta obra gloriosa é, de acordo com a Confissão Unânime das igrejas Reformadas, executada da seguinte maneira: “...a graça divina da regeneração não age sobre os homens como se fossem máquinas ou robôs, e não destrói a vontade e as suas propriedades, ou a coage violentamente. Mas a graça a faz reviver espiritualmente, traz-lhe a cura, corrige-a e a dobra de forma agradável e ao mesmo tempo poderosa. Como resultado, onde dominava rebelião e resistência da carne, agora, pelo Espírito, começa a prevalecer uma pronta e sincera obediência. Esta é a verdadeira renovação espiritual e liberdade da vontade...”. [N.T. — Cânones de Dort: Artigo 16 — “A Vontade Do Homem Não É Eliminada Mas Vivificada” — 3º e 4º Capítulos da Doutrina: “A Corrupção do Homem, A Sua Conversão A Deus E Como Ela Ocorre”].


IX. Disposições Implantadas.

“...aperfeiçoando a nossa santidade no temor de Deus” — II Coríntios 7:1.

Negar que o Espírito Santo cria nova disposições na vontade é equivalente a um retorno ao erro Romano, muito embora os Romanos discutam o assunto numa maneira diferente.

Roma nega a corrupção total da vontade pelo pecado; que a disposição da vontade seja má por completo. Por conseguinte, a vontade do pecador não sendo inteiramente inútil, segue-se: (1) que o regenerado não necessita to implante de uma nova disposição; (2) que neste aspecto não há nenhuma diferença entre o regenerado e o não regenerado. Aqueles que introduzem nas igrejas Reformadas este ensino e outros ensinos similares, deveriam considerar que, em fazendo-o, danificam um dos alicerces da Reforma, e, conquanto não intencionalmente, levam-nos de volta a Roma.

A principal questão nesta controvérsia é: se o homem é alguma coisa ou se ele é nada.

Se o homem for absolutamente nada, como alguns gostam de proclamar; então Deus não pode operar nele; pois Ele não pode agir em nada. No nada, ninguém pode fazer nada. No nada, nada pode ser implantado. Nada pode penetrar no nada. O nada não pode ser um canal para coisa alguma. Se o homem é nada, não pode haver nem pecado nem justificação, pois o pecado de nada é nada; e o nada não é nenhum pecado. Nada pode nascer de novo, ou ser convertido, ou compartilhar a glória dos filhos de Deus. E se não há pecado, não há a necessidade de um Salvador para expiar o pecado; pois expiar nada não é nenhuma expiação. Então não há a necessidade de discutir a santificação. Isto mostra que a idéia de que o homem é nada não pode ser considerada no sentido absoluto. Uma vez que o homem é um ser, ele deve ser alguma coisa; e aqueles que mantêm que ele é nada mostram, com suas ações, que eles consideram a si próprios como muito longe de serem nada.

Mas se colocarmos que: “O homem é nada perante Deus”, a expressão torna-se imediatamente inteligível. Então cada bom Cristão a ela subscreve incondicionalmente; ele lamenta somente que é tão difícil tornar-se nada perante Deus; e com todos os santos ele ora para que ele possa mais sinceramente negar-se a si mesmo, morrer para si mesmo, e conhecer a si próprio como nada perante Deus. Medido por Deus, o homem não tem valor algum. Todo o seu esforço para ser alguma coisa perante Deus é um absurdo ridículo. Cada púlpito deveria derrubar, como se com troar de trompetes, cada montanha de orgulho, e humilhar o homem perante Deus, de modo que, sentindo-se como uma mera gota num tambor — sim, menos que nada — ele possa encontrar descanso na adoração da Majestade divina.

Perante Deus o homem não é coisa alguma, nem mesmo o homem regenerado; mas na Sua mão, por meio da Sua ordenança, e na Sua consideração, ele é tão grande que “Deus o coroa com honra e glória”, ama-o como Seu filho, faz dele um herdeiro do gozo celestial, e o convida para passar a eternidade com Ele.

Estes dois nunca podem ser confundidos; a absoluta insignificância do homem perante Deus nunca pode ser aplicada ao homem como um instrumento na mão de Deus. E a grandiosa significância do homem como instrumento de Deus não pode nunca tender a fazer dele o mais mero o que quer que seja perante Deus, como um ser.

Então, opomo-nos ao Misticismo panteísta e ao mortal Pelagianismo.

O erro essencial deste último é que ele dá ao homem como tal uma certa posição perante Deus, e recusa-se a reconhecer que mesmo o mais erudito e mais excelente, aquele cuja respiração está em suas narinas, “Sim, onde está ele, para ser considerado?”, é menos que nada perante Deus. E o falso Misticismo é aquela tendência injuriosa da mente humana que, em todas as épocas e entre todas as nações, pelo argumento de ser nada perante Deus, nega a significância do homem mesmo como um instrumento de Deus. Nos seus escritos é reiterado que perante Deus o homem nada é, que em Deus ele desaparece e se perde, que Deus o absorve. E este ser absorvido é tão empurrado que nada resta, ao que o pecado e a culpa possam ser atribuídos. E assim a consciência da responsabilidade e a concepção da imputabilidade se perderam. Homens Cristãos, levados pela fascinação de serem nada, têm cantado hinos e pregado sermões muito aceitáveis aos Budistas da Índia, mas completa e inteiramente fora do domínio do Cristianismo.

O homem como instrumento de Deus é, de fato, significante. Ao cria-lo do nada, Ele criou, não um nada, mas sim algo; e aquele algo era tão importante que todas as criaturas feitas antes dele a ele apontavam; no Paraíso só ele era o portador da imagem divina. Domínio sobre toda a terra lhe foi dado; ele inclusive julgará os anjos. “O Filho assumiu a forma, não de anjos, mas de homem”.

Dizer que isto significa que o homem é somente um espelho refletindo a natureza divina é o esforço vão desde misticismo doentio, para reconciliar a significância do homem com as suas próprias teorias panteístas. A Bíblia ensina, não que Deus reflete algo em nós, mas que Ele concede este algo a nós. O amor de Deus através do Espírito Santo é irradiado abundantemente nos nossos corações. O Senhor faz de nós o Seu templo e entra nele. Uma semente divina é colocada na alma. Água pura é borrifada por sobre nós. A Escritura utiliza-se de muitas outras imagens para alertar-nos contra a falsa teoria que nega a disposição inerente na alma e que reduz o homem a um mero pedaço de vidro que reflete. O ramo não é um reflexo da vide, mas cresce a partir do tronco, do caule, portando folha e cacho. Um filho não é um mero espelho do pai, mas um ser, possuído de vida e qualidades. Um inimigo não é alguém que meramente falha em refletir corretamente, mas um ser dotado com existência real.

Fazer do homem, mesmo como um instrumento de Deus, um mero espelho é, em princípio, negar o pecado, destruir o sentido de responsabilidade, e transformar a vida real nas fantasias de um sonho.

A Bíblia ensina, neste ponto, que perante Deus o homem não é nada; que somente por Deus o homem é alguma coisa; e que toda a bondade inerente e adquirida provém somente da Fonte de todo o bem. E, seguindo os passos dos pais Reformados, nós devemos sustentar esta doutrina. Mas negar o ser real e peculiar do homem é inconsistente com a Escritura e com a Confissão.

Escapando assim do caos de um misticismo falso, e retornando à verdade ordenada e purificada, nós não mais encontramos dificuldade na santificação. É claro, se o filho de Deus não passar de um espelho polido, então estão corretos aqueles que negam a disposição inerente, santa; e tal disposição está fora de questão. Como um espelho, o homem encontra-se morto, e tudo o que pode ser visto nele nada mais é senão um reflexo fraco e passageiro da imagem de Deus. Mas se o homem, como instrumento de Deus, tiver um ser de sua própria espécie, então é natural que além daquele ser, Deus também deu-lhe qualidades. Um ser sem qualidades é inimaginável. Existem qualidades em cada esfera: no mundo material, pois o homem come, bebe, caminha, e dorme; no mundo intelectual, pois ele pensa, julga, e decide; nas questões de gosto, pois ele considera coisas serem bonitas, feias, ou indiferentes; e no mundo moral, pois os seus desejos são justos ou injustos, nobres ou baixos, bons ou maus.

E estas qualidades diferem em diferentes homens. Um ama um tipo de comida que um outro detesta. O julgamento de um é confuso, e o de outro é claro. Um chama de bonito o que outro chama de não atraente; de bom, o que outro considera mau. Assim é que deve haver uma diferença nas condições essenciais dos homens, as quais podem surgir dos seus respectivos temperamentos, educação, ocupações, etc. Alguns homens têm essas diferenças em comum. Homens de um grupo não consideram pecaminoso o amaldiçoar, mas antes parecem divertir-se com isso; enquanto que aqueles de um outro grupo abominam e protestam contra isso. Isto prova que entre estes dois grupos deve haver uma diferença de algum tipo; pois sem uma causa diferente hão pode haver efeitos diferentes. E esta diferença que faz com que alguns homens divirtam-se em proferir maldições e que outros abominem o costume, é chamada a disposição da personalidade do homem.

Ela pode ser santa ou ímpia, mas nunca indiferente. Sendo corrupta e ímpia na natureza não regenerada do homem, ela não pode ser santo nos regenerados, a não ser que Deus assim a crie neles. Aquilo que é nascido da carne é carne. Todo o nosso correr e competir, todo o nosso trabalho exaustivo e toda a nossa labuta quase que escrava, não podem criar em nós uma santa disposição. Só Deus é quem pode faze-lo. Como Ele tem o poder, pela regeneração, de mudar a raiz da vida, assim Ele pode também, pela santificação, mudar a disposição das afeições. E Ele poderia haver feito isso de uma só vez, tal como na regeneração, fazendo a nossa natureza perfeita de imediato, em todas as suas disposições; mas não aprouve à Ele, Aquele que não dá conta de nenhum dos Seus assuntos, assim faze-lo.

É claro, Ele livra o Seu filho imediatamente, da escravidão do pecado; mas como uma regra, a santificação das suas disposições é gradual, exceto no caso de crianças eleitas que falecem, e de homens convertidos no leito de morte. Em todos os demais o implantar das disposições santas progride passo a passo, algumas vezes até mesmo com um lapso temporal. Sem este aumento em Cristo, não pode haver nenhuma santificação; e a alma que se encontra sem a santificação, que bases tem ela para gloriar-se em sua eleição?

Of course, He delivers His child at once from the bondage of sin; but as a rule the sanctification of his dispositions is gradual except in deceased infants elect, and men converted on their deathbed. In all others the implanting of holy dispositions goes step by step, sometimes even with temporal relapse. Without this increase in Christ there can be no sanctification; and the soul that falls short of sanctification, what ground has it to glory in its election?



X. Perfeito em Partes, Imperfeito em Graus

“O mesmo Deus da paz vos santifique em tudo; e o vosso espírito, alma e corpo sejam conservados íntegros e irrepreensíveis na vinda de nosso Senhor Jesus Cristo” — I Tessalonissenses 5:23

A doutrina Bíblica de que a santificação é um processo gradual aperfeiçoado somente na morte deve ser mantida clara e sobriamente: primeiro, em oposição ao Perfeccionista, que diz que os santos podem ser “inteiramente santificados” nesta vida; segundo, àqueles que negam o implante de disposições santas e inerentes nos filhos de Deus.

Deve ser notado, portanto, que as Sagradas Escrituras distinguem a santificação, imperfeita em degraus, e a santificação, perfeita em partes. Um bebê normal, embora pequeno, é um ser humano perfeito. É claro que ele deve crescer, mas já tem todas as partes do corpo humano. As faculdades mentais não podem ser examinadas, mas os membros do corpo são obviamente perfeitos e completos. A cabeça pode não estar coberta com cabelo, muitos membros podem ainda estar incompletos, mas isto não diminui, não prejudica a sua perfeição: num pequeno começo as partes e membros constituintes encontram-se presentes. Por conseguinte, a criança é chamada perfeita em partes.

Todavia, o bebê não é perfeito em degraus, i.e., ele ainda não atingiu o seu completo desenvolvimento e crescimento em cada aspecto. E este é um processo lento, um progresso imperceptível. Uma vestimenta que lhe sirva perfeitamente à noite, nunca será pequena demais ao amanhecer. O crescimento que ocorre durante uma noite é imperceptível. Ainda assim nós crescemos e nos desenvolvemos; e até a hora da morte o nosso corpo muda, constantemente. E este aumento, e a subseqüente diminuição, quando da idade avançada, afeta todas as partes do corpo, igualmente. Nunca acontece de crescer o braço de uma criança, mas não sua perna; de o seu pescoço expandir, enquanto que a cabeça permanece pequena. Este aumento, este crescimento gradual é a força expansiva de um princípio vital inerente, permeando todos os membros e cada parte do corpo.

Isto aplica-se aos filhos de Deus no seu segundo nascimento, ainda mais poderosamente, pois no reino divino não existem deformidades; todos procedem da mão do seu Criador como criação perfeita. Esta perfeição está nas partes, i.e., elas têm o que essencialmente lhes pertence. E cada membro é interiormente animado e nele operado, a partir de um princípio vital, por intermédio do Espírito Santo, de forma tal que todas as partes são por tal princípio afetadas espontaneamente. Assim é que na santificação, inclinações e desejos santos devem surgir daquele princípio vital, interior, nas partes, e permear cada membro.

Neste sentido a santificação é uma obra perfeita; não exteriormente, mas na parte de Deus, naquilo em que Ele faz com que o princípio santificador venha a afetar cada membro. Ele não santifica primeiro a vontade, e depois o entendimento, ou primeiro a alma, e então o corpo; mas a Sua obra envolve, inclui o novo homem inteiramente, de uma só vez.

Mas a santificação é imperfeita no grau do seu desenvolvimento: Quando Deus já tenha operado, já tenha agido em nós por dez anos, o desejo santo deve ser muito mais forte do que era no começo. Este é o resultado do crescimento, de aumento gradual, a