A Obra do Espírito Santo

por

Abraham Kuyper, D.D., LL.D

 

VOLUME TRÊS

A Obra do Espírito Santo no Indivíduo

Capítulo Terceiro - Oração

 

 

 

A Essência da Oração.

“Com toda a oração e súplica, orando em todo tempo no Espírito e, para o mesmo fim, vigiando com toda a perseverança e súplica, por todos os santos ”. – Efésios 6:18.

Em último lugar consideremos a obra do Espírito Santo na oração .

É mostrado a partir das Escrituras, mais do que tem sido enfatizado, que no santo ato de orar há uma manifestação do Espírito Santo operando tanto em nós como conosco. Porém, isto parece claramente a partir da palavra apostólica: “ o mesmo modo também o Espírito nos ajuda na fraqueza; porque não sabemos o que havemos de pedir como convém, mas o Espírito mesmo intercede por nós com gemidos inexprimíveis. E aquele que esquadrinha os corações sabe qual é a intenção do Espírito: que Ele, segundo a vontade de Deus, intercede pelos santos ”. (Romanos 8:26,27). Cristo expressa isto com igual transparência quando Ele ensinou a mulher de Samaria que “ Deus é Espírito, e é necessário que os que O adorem O adorem em espírito e em verdade ”; porque, assim Ele acrescentou, “ o Pai procura a tais que assim O adorem ”. Em um sentido quase similar São Paulo escreve aos Efésios: “ Com toda a oração e súplica, orando em todo tempo no Espírito e, para o mesmo fim, vigiando com toda a perseverança e súplica, por todos os santos ”.

Eles já possuíam a antiga promessa para Zacarias: “ Mas sobre a casa de Davi, e sobre os habitantes de Jerusalém, derramarei o espírito de graça e de súplicas ” (Zacarias 12:10). E esta promessa foi cumprida quando o apóstolo pode testificar concernente a Cristo: “ Porque por ele ambos temos acesso ao Pai em um mesmo Espírito ” (Efésios 2:18). No “Aba, Pai” de nossas orações o Espírito Santo testifica com nossos espíritos que nós somos filhos de Deus (Romanos 8:15). E em seu desejo pela vinda do Noivo, não somente a Noiva, mas o Espírito e a Noiva oram: “Vem, Senhor Jesus, vem rapidamente”. Sob uma análise mais cuidadosa, parece que a oração não pode ser separada da regra espiritual de que devemos orar: “ Ora, nós não temos recebido o espírito do mundo, mas sim o Espírito que provém de Deus , a fim de compreendermos as coisas que nos foram dadas gratuitamente por Deus ”; uma oração que então oferecemos é: “ as quais também falamos, não com palavras ensinadas pela sabedoria humana, mas com palavras ensinadas pelo Espírito Santo , comparando coisas espirituais com espirituais ” (1 Coríntios 2:12,13).

Portanto, não pode haver dúvida de que mesmo em nossas orações devemos reconhecer e honrar uma obra do Espírito Santo; e o especial tratamento deste delicado assunto pode produzir frutos no exercício de nossas próprias orações. Nós não propomos, contudo, tratar aqui todo o assunto da oração, o qual pertence à explanação do Catecismo de Heidelberg neste ponto; mas desejamos simplesmente enfatizar a significância da obra do Espírito Santo para as orações dos santos.

Em primeiro lugar devemos descobrir o fio de prata que, na natureza do caso, conecta a essência de nossa oração com a obra do Espírito Santo.

Porque todas as orações não são iguais. Há uma grande diferença entre a oração sacerdotal do Senhor Jesus e a oração do Espírito Santo com gemidos inexprimíveis. As súplicas dos santos na terra diferem da daqueles santos no céu , aqueles que regozijam diante do trono e aqueles que choram sob o altar. Até mesmo as orações dos santos da terra não são a mesma nas várias condições espirituais que eles oram. Há orações da Noiva , isto é, de todos os santos na terra como um todo, e orações das assembléias locais de crentes, súplicas de círculos de irmãos quando dois ou três estão reunidos no nome de Jesus; e súplicas de crentes individuais derramadas na solidão do quarto. E distintas na origem destas orações dos santos são as orações dos ainda não convertidos , regenerados ou não, os quais clamam a um Deus que desconhecem e ao Qual se opõem.

A questão é se o Espírito Santo é ativo em algumas ou em todas estas orações. Ele afeta nossas orações somente quando, em raros momentos de elevada vida espiritual, temos íntima comunhão com Deus? Ou Ele afeta somente as orações dos santos, excluindo aquelas dos não convertidos ? Ou Ele afeta todas orações e súplicas, seja ela de um santo ou de um pecador?

Antes de respondermos esta questão, é necessário definir acuradamente oração. Porque oração pode ocorrer em um sentido limitado, como um ato religioso requerendo algo de Deus, em cujo caso é meramente a expressão de um desejo brotado de um consciente desejo, vazio, ou necessidade que pedimos para Deus suprir; um apelo ao poder e providência divina, na pobreza para ser enriquecido, em perigo para ser protegido, em tentação para ser mantido de pé. Ou ela pode ser tomada em um amplo sentido e incluir ação de graças . No Serviço de Oração da Igreja Reformada sempre inclui o Serviço de Ação de Graças. Neste sentido o Catecistmo de Heidelberg a trata, chamando a oração de a parte principal da ação de graças (q. ii6). De fato, quase que não podemos conceber a oração, em um alto sentido, ascendendo ao Trono da Graça sem ação de graças.

Demais, a oração também inclui louvor e todo derramar da alma. Oração sem louvor e ação de graças não é oração. Na súplica dos santos oração e adoração andam juntos. Oprimida com a multidão de pensamentos, a alma pode não ter nenhuma súplica definida, ou ação de graças, ou hino de louvor, todavia freqüentemente sente constrangida á derramar aqueles pensamentos diante do Senhor. Quando no Salmo 90, Moisés derramou sua oração, há: (1) uma súplica, “ Senhor!, até quando? Tem compaixão dos teus servos ”; (2) ação de graças, “ Senhor, tu tens sido o nosso refúgio de geração em geração ”; (3) louvor, “ Antes que nascessem os montes, ou que tivesses formado a terra e o mundo, sim, de eternidade a eternidade tu és Deus ”. E além disto há (4) um derramamento dos pensamentos que enchiam sua alma: “ Pois somos consumidos pela tua ira, e pelo teu furor somos conturbados. Diante de ti puseste as nossas iniqüidades, à luz do teu rosto os nossos pecados ocultos. Pois todos os nossos dias vão passando na tua indignação; acabam-se os nossos anos como um suspiro. A duração da nossa vida é de setenta anos; e se alguns, pela sua robustez, chegam a oitenta anos, a medida deles é canseira e enfado; pois passa rapidamente, e nós voamos ”.

E assim encontramos na oração sacerdotal de Cristo: (1) uma súplica, “ Agora, pois, glorifica- me tu , ó Pai, junto de ti mesmo, com aquela glória que eu tinha contigo antes que o mundo existisse ”; ou, “ Pai santo, guarda-os no teu nome, o qual me deste, para que eles sejam um, assim como nós ”; (2) ação de graças, “ Assim como Me deste poder sobre toda a carne, para que dê a vida eterna a todos aqueles que Me tens dado ”; (3) louvor, “ Pai justo, o mundo não te conheceu, mas eu te conheço; conheceram que tu me enviaste ”; (4) e além disto um múltiplo derramar da alma, o qual não é nem oração, nem louvor, nem ação de graças, “ Todas as minhas coisas são tuas, e as tuas coisas são minhas ”; “ Eu te glorifiquei na terra, completando a obra que me deste para fazer ”; “ Por eles eu me santifico, para que também eles sejam santificados na verdade ”.

Não designamos um lugar especial para a confissão de culpa e pecado, porque esta está inclusa na súplica, para a qual ela guia e da qual ela é a causa movedora; visto que a confissão da condição perdida da alma e da tendência natural para a condenação necessariamente devem guiar ao derramamento da alma.

Portanto, falando compreensivamente, entendemos por oração: cada ato religioso pelo qual começamos a falar diretamente com o Eterno Ser .

A única dificuldade está no Hino de Louvor. Porque não pode ser negado que em vários salmos há um direto falar a Deus em hinos de louvor; e, portanto, a distinção entre o Louvor e o Hino de Louvor pode confundir-se.

Há quatro passos no Hino de Louvor: ele pode ser um cântico de louvor a Deus diante de uma só alma ; ou diante os ouvidos dos irmãos ; ou diante do mundo e dos demônios ; ou por último, diante do próprio Senhor Deus .

Quando a chama da santa alegria queima livremente no coração do santo, embora ele esteja sozinho ou algemado no calabouço, ele se sente constrangido, pela sua própria satisfação aparentemente, à cantar em voz alta um salmo de louvor a Deus. Dessa forma que Davi cantou: “Amo ao Senhor porque Ele ouviu a minha voz e a minha súplica”. Diferente é o Hino de Louvor quando, com e para os irmãos, os santos cantam na companhia dele; porque então eles cantam, “ Bem-aventurado o povo que conhece o som festivo, que anda, ó Senhor, na luz da tua face” ; ou diretamente dirigido ao povo de Deus: “ Vós, descendência de Abraão, Seu servo, vós, filhos de Jacó, Seus escolhidos. Ele é o Senhor nosso Deus, os Seus juízos estão em toda a terra ”. E outra coisa é o Hino de Triunfo, que a Igreja canta aparentemente diante do mundo e dos demônios, então os santos cantam: “ Tu és a glória da nossa força; e em Teu favor nossos poder será exaltado; porque o Senhor é nossa defesa; o Santo de Israel é o nosso Rei ”.

Mas o Hino de Louvor sobe alto quando é dirigido ao Eterno; quando o santo não pensa em si mesmo, nem em seus irmãos, nem nos demônios, mas no Senhor Deus somente. Este é o louvor em seu mais solene aspecto. No cântico das sentenças de abertura do Salmo 51 ou Salmo 130, a diferença é imediatamente sentida:

“Compadece-te de mim, ó Deus, segundo a tua benignidade; apaga as minhas transgressões, segundo a multidão das tuas misericórdias”;

Ou:

“Das profundezas clamo a ti, ó Senhor. Senhor, escuta a minha voz, estejam os Teus ouvidos atentos à voz das minhas súplicas”.

Então, oração e canto se tornam realmente um: Para orar em voz alta, a Igreja deve cantar, embora mais pelo motivo da súplica do que do canto.


Tradução livre: Felipe Sabino de Araújo Neto
Cuiabá-MT, 19 de Março de 2003