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26 de dezembro de 2011

Anabatismo, o movimento mais radical e mais perseguido da Reforma Protestante

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Escrito por: Raneire Menezes
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Por que o movimento anabatista atraiu tão grande oposição, tanto por parte dos católicos como dos protestantes?

Os anabatistas originais não revolucionários

O anabatismo foi um movimento religioso protestante radical do período da Reforma Protestante do século XVI na Europa, caracterizado pela discordância das reformas realizadas por Lutero e Zuínglio. Ele pode ser considerado protestante, mas não reformado. Essencialmente, os anabatistas protestaram contra as reformas que não realizavam aprofundamentos e mudanças como idealizavam. Tal movimento, então, opôs-se a católicos e reformadores.

Ele basicamente reivindicava separação entre Igreja e Estado, a não aceitação do batismo infantil e pregava o próprio afastamento e isolamento da sociedade de modo pacífico. Esses elementos combinados causaram uma das maiores perturbações na Europa do século XVI.

A época da Reforma foi um período de grandes incertezas e agitações sociais. Desafiar radicalmente toda a estrutura social de uma vez só era como colocar a ordem social política e religiosa de cabeça para baixo. E as ideias políticas dos anabatistas causavam terror em todos, do povo (católicos e protestantes) aos reis. Não por acaso foi o movimento mais perseguido do período da Reforma.

Os anabatistas foram acusados de heresia e subversão. O primeiro crime era de ordem religiosa, o segundo, civil. Por razões teológicas, os anabatistas decidiam batizar novamente adultos já batizados por não considerarem o batismo infantil dos católicos válido, — daí foram chamados de “anabatistas” ou os que rebatizavam. Mas como se originou tamanha controvérsia? É o que veremos a seguir de modo breve e introdutório.

Estado e Igreja, uma combinação cheia de conflitos

O Estado e a Igreja são temas que se intercalam ao longo da história da cristandade, ora se atraem, ora se repelem com imãs. A Reforma Protestante surgiu num momento de grandes incertezas e perturbações sociais, e de modo geral, os movimentos reformados não eram pacifistas. Era preciso, muitas vezes, decidir a ferro e fogo de que lado ficar – de um lado, os católicos romanos, de outro, o nascente movimento protestante. Em paralelo a esta divisão clara do cristianismo, havia ainda a preocupação com os avanços territoriais empreendidos pelos turcos.

As divisões eram claras e bem aquinhoadas e estabelecidas, os grupos religiosos não poderiam ser neutros em absoluto. O protestantismo muitas vezes foi chamado a pegar em armas para afirmar seu posicionamento anticatólico. Neste contexto apresentado pelos historiadores, em especial por Justo González, é que os anabatistas devem ser analisados.

Quando diversos grupos e movimentos tentaram encontrar outra vertente de protesto sem apoio do Estado, como os camponeses rebeldes e os anabatistas, logo eram considerados subversivos e sofriam fortes retaliações de todas as partes. As autoridades civis estavam tão interligadas com os movimentos religiosos da Europa do século XVI que se tornava inconcebível separar a vida civil e religiosa da vida política. E esta aproximação durou vários séculos após a Reforma.

Lutero recebeu apoio dos príncipes da Alemanha e apoiou os mesmos a tomarem medidas repressivas contra qualquer movimento que tentasse afastar o Estado da Igreja. As consequências dessa posição foram negativas e até hoje a causa nobre da Reforma foi manchada (os príncipes da Alemanha, com o aval de Lutero, mataram mais de 100 mil camponeses rebeldes). Porém, é necessário entender que as reformas religiosas não eram pacíficas e eram implantadas em termos territoriais e estatais.

A reclamação anabatista resultou em grande perseguição e contabilizou muitas mortes à história da cristandade. A sociedade nos moldes romano e medieval não podia aceitar nem tolerar uma tentativa de retorno ao cristianismo anterior a Constantino. Desde a conversão do Imperador Constantino, no século III, o cristianismo primitivo encontrava-se abandonado. E os reformadores aceitaram naturalmente essa filosofia eclesiástico-estatal de Constantino.

A raiz do protesto contra o batismo infantil e suas consequências

Da ruptura inicial anabatista supracitada se desenrolou outra ruptura. Se a Igreja deveria ser entendida como uma sociedade inseparável com do Estado, então, logicamente, todas as pessoas nascidas nele eram automaticamente consideradas cristãs. Os anabatistas, em contrapartida, defendiam a não imposição estatal, mas uma decisão pessoal para que uma pessoa fizesse parte da Igreja (separada do Estado). E havendo essa decisão pessoal deveria ser rebatizada.

Para os anabatistas, a Igreja era uma comunidade voluntária e não fruto da vontade estatal. Consequentemente o batismo infantil foi rechaçado pelos anabatistas. Isso provocou indignação e revolta geral de católicos e protestantes.

Como se não bastasse a exigência da separação entre a Igreja e o Estado (tendo como consequência a negação do batismo infantil), outro resultado no desenrolar do movimento anabatista foi a posição pacifista radical – relacionada ao não uso de armas para defender a própria vida, a família e a Igreja, e muito menos a sociedade e a pátria. Nem mesmo quando ameaçada pela invasão turca. – Estas ideias não foram bem recebidas nos países onde a ameaça muçulmana era constante, tampouco nos países vizinhos dos inimigos católicos.

De modo geral, a posição protestante reformada assumia a conexão política Igreja-Estado, batizava crianças nascidas nesta sociedade cristianizada e defendia a pátria com armas. Tais fatores eram necessários no seu contexto histórico de grandes e bem definidas divisões geográfico-religiosas. Pelo não enquadramento político, os anabatistas atraíram terríveis oposições e pagaram o preço. Foram perseguidos por todos os grupos religiosos da época. Caçados por oposições teológicas (rebatismo, negação do batismo infantil e pacifismo radical), mas principalmente por serem considerados subversivos, inimigos do Estado, e não só da Igreja.

A maior queixa anabatista é que os reformadores continuaram aceitando os fundamentos de Constantino (a relação intrínseca entre cristianismo e sociedade).

É importante observar que a posição anabatista de pacifismo extremo e separação entre Igreja e Estado, naquele momento histórico não conseguiria manter a ordem social necessária alcançada pelos reformadores. A instabilidade da época exigia que a tradição política medieval fosse mantida durante a Reforma. As fronteiras eram bem definidas religiosamente.

Hoje em dia quase todos os evangélicos concordam com os anabatistas quanto à separação entre Igreja e Estado. O Estado não deve se envolver nos assuntos da Igreja. Porém o conflito em certas interferências ainda permanece, apesar de o Estado laico prevalecer na maioria dos países cristãos.

Todos contra os anabatistas

Em 1525 as regiões católicas da Suíça condenavam os anabatistas à pena de morte. A Confissão de Augsburgo não incluía os anabatistas aos reformadores, marginalizando-os à Reforma. Em 1526 o Conselho do governo de Zurique decretou também a pena de morte para quem rebatizasse qualquer pessoa. Aos poucos, todos os territórios protestantes na Suíça adotaram a mesma opinião. Na Alemanha eram aplicadas aos anabatistas as mesmas leis contra os hereges. Em 1528, Carlos V decretou a pena de morte aos anabatistas –, lei baseada numa antiga lei romana criada para combater o donatismo. A Dieta de Espira de 1529, que condenava a todos os chamados “protestantes” incluía os anabatistas.

Considerados hereges e subversivos por todos, os anabatistas foram acusados de crime religioso e civil. As cortes eclesiásticas e as civis tinham jurisdição para punir quem se atrevesse a repetir o batismo, e também a quem se negasse a apresentar os filhos pequenos para receber o batismo.

O número de anabatistas mortos foi muito alto e incontável, provavelmente maior do que o número de mortos nos três primeiros séculos da Igreja. Estimam-se dezenas de milhares. O modo de aplicação da pena de morte variava de região para região. Com cruel ironia, em certos lugares, condenavam-se os anabatistas a morrer afogados. Outras vezes eram queimados vivos (segundo o costume dos séculos anteriores). Muitos foram mortos, após torturas, como por exemplo, o esquartejamento. Os líderes eram queimados e os seguidores decapitados, as mulheres anabatistas sofriam a terrível sorte de serem enterradas vivas. Porém quanto mais perseguido, mais crescia o movimento.

Posteriormente o movimento anabatista ganhou outros formatos e tornou-se mais radical e não pacifista, empunhando as armas e desenvolvendo revoltas populares e armadas violentas. Porém, o presente texto tem caráter introdutório e não trata dos anabatistas revolucionários nem dos menonitas, ficando restrito aos primeiros anabatistas e as causas de tanta perseguição ao movimento original.

 

Referência:

Justo L. González. Historia del Cristianismo, Tomo 2, Desde la era de la reforma hasta la era inconclusa. Publicado por Editorial Unilit, Miami, Fl, USA, 1994.



Sobre o Autor

Raneire Menezes
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