Um Sermão sobre a Indulgência e a Graça

por

Martinho Lutero



“Ein Sermon von Ablass un Gnade. 1517”

Em meados de 1518, Lutero publicou “um sermão sobre a indulgência e a graça”, que resume os pensamentos centrais das 95 teses de 1517.

* * *

 

Pelo mui digno Doutor Martinho Lutero, agostiniano de Wittenberg


1. Em primeiro lugar cumpre que saibam que vários novos mestres, tais como Pedro Lombardo, Tomás de Aquino e seus sucessores, atribuem três partes à penitência, quais sejam: a contrição, a confissão e a satisfação. Esta distinção, em seu conceito, dificilmente ou de forma alguma até, pode ser fundamentada na Escritura Sagrada ou nos antigos santos mestres cristãos. Mesmo assim queremos admiti-la por ora e falar ao modo deles.

2. Dizem eles que a indulgência não elimina a primeira ou segunda parte - a contrição ou a confissão -, mas sim a terceira, a satisfação.

3. A satisfação também é subdividida em três partes: orar, jejuar, dar esmola, e isto da seguinte forma. “Orar” compreende todas as obras próprias da alma, como ler, pensar, ouvir a palavra de Deus, pregar, ensinar e similares; “jejuar” inclui todas as obras de mortificação da carne, como vigílias, trabalho, leito duro, vestes grosseiras, etc; “dar esmolas” abrange todas as obras elo amor e da misericórdia para com o próximo.

4. Para todos eles não resta duvida que a indulgência elimina as obras da satisfação devida ou imposta como necessária por causa do pecado Se ela de fato eliminasse todas estas obras, nada de bom restaria que pudéssemos fazer.

5. Para muitos uma questão muito importante e ainda controvertida, Se a indulgência elimina mais do que estas obras postas, ou seja, se ela também elimina o castigo que a justiça divina exige para os pecados.

6. Desta vez não questiono a opinião deles. Afirmo (entretanto) que não se pode provar, a partir da Escritura, que a justiça divina deseja ou exige do pecador castigos ou satisfação que vão além de sua contrição ou conversão sincera e verdadeira, com o propósito de carregar doravante a cruz de Cristo e de praticar as obras acima mencionadas (mesmo que não estejam prescritas por ninguém). Pois assim fala Deus, através de Ezequiel: “Se o pecador se converter e proceder bem, não mais me lembrarei do seu pecado” (Ez 18.21s, 14ss). Da mesma forma ele absolveu a todos estes: Maria Madalena, o paralítico, a mulher adúltera, etc. Gostaria de ouvir quem haveria de provar outra coisa, não levando em conta que alguns doutores julgaram poder fazê-lo.

7. O que se encontra (na Bíblia) é isto: Deus castiga a muitos segundo a sua justiça ou os leva à contrição através de castigos, como no Salmo 88: “Quando seus filhos pecarem, punirei com a vara o seu pecado, mas minha misericórdia não retirarei deles.” (Sl 88.31ss) Mas a dispensa deste castigo não está na mão de ninguém a não ser de Deus somente, sim, ele não o quer dispensar, mas promete que o imporá.

8. Por isso não se pode dar nome algum ao castigo imaginário, tampouco sabe alguém qual seria ele, visto que ele não é este castigo, nem mesmo o são as boas obras acima mencionadas.

9. Em nono lugar digo eu: Mesmo que a igreja cristã decidisse e declarasse hoje que a indulgência elimina mais do que as obras de satisfação, ainda assim seria mil vezes melhor que cristão algum comprasse ou desejasse a indulgência, mas praticasse preferivelmente as obras e sofresse o castigo. Pois a indulgência nada mais é, nem se pode tornar, do que uma dispensa de boas obras e de benéficos castigos, que seria melhor fossem preferidos do que abandonados (ainda que vários novos pregadores tenham descoberto dois tipos de castigo: medicativos e satisfatórios , isto é, uns para o aperfeiçoamento, outros para a satisfação). Nós, porém, temos liberdade maior para desconsiderar essa conversa e coisas semelhantes que eles não escondem (Deus seja louvado!); porque todo castigo, sim, tudo que Deus impõe é útil e contribui para o melhoramento do cristão.

10. Dizem eles: Os castigos e as obras seriam demasiadas para que a pessoa as pudesse realizar; para isso a vida é curta demais. Por isso precisam da indulgência. Isso nada vale e respondo que não tem funda mento e é pura invenção. Porque Deus e a santa igreja a ninguém impõem mais do que lhe é possível carregar, como também o diz Paulo: Deus não permite que alguém seja posto à prova acima do que ele pode carregar. (1 Coríntios 10.13). É grande vergonha para a cristandade ser acusada de impor mais do que podemos carregar.

11. Mesmo que ainda vigorassem as penitências fixadas no direito canônico, de impor sete anos de penitência para cada pecado mortal, a cristandade deveria deixar as mesmas de lado e nada mais impor acima do que cada um pode suportar. Como atualmente não mais vigoram estas determinações, tanto menos razão há para se cuidar que se imponha mais do que cada um tem condições de bem suportar.

12. Diz-se muito bem que o pecador deve ser remetido ao purgatório ou à indulgência com o castigo restante, mas dizem ainda outras coisas sem fundamentação e prova.

13. Engana-se redondamente quem pretende satisfazer por seus pecados, pois Deus os perdoa a toda hora grátis, por graça inestimável, e nada deseja em troca, senão que doravante se leve uma vida boa. A cristandade, esta sim, faz exigências; portanto, ela também pode e deve dispensá-lo e não ficar impondo coisas pesadas ou insuportáveis.

14. A indulgência é permitida por causa dos cristãos imperfeitos e preguiçosos, que não querem exercitar-se em boas obras ou não desejam sofrer. Pois a indulgência não promove o melhoramento de ninguém, e sim tolera sua imperfeição e a permite. Por esta razão não se deve falar contra a indulgência; mas também não se deve recomendá-la a ninguém.

15. Agiria melhor e com mais segurança quem desse algo para a construção da basílica de S. Pedro, ou o que mais é citado, por puro amor a Deus, ao invés de obter indulgência para tanto. Isso porque é perigoso fazer semelhante dádiva por causa da indulgência, e não por causa de Deus.

16. Muito melhor é a boa obra voltada para um necessitado, do que dar para dita construção; também é muito melhor do que a indulgência concedida em troca. Pois , como dissemos: Melhor é uma boa obra realizada do que obter muitas dispensas. Indulgência, porém, é dispensa de muitas boas obras, ou, senão, nada é dispensado.

Sim, e para que também os ensine corretamente, atentem bem: Antes de todas as coisas (sem preocupação com a basílica de São Pedro nem com a indulgência) você deve dar ao pobre que é seu próximo, se é que quer dar alguma coisa. Mas se chegar o momento em que, em sua cidade, não há mais ninguém que necessite de ajuda (o que jamais será o caso, se Deus quiser), então deve ofertar, se quiser, às igrejas altares, ornamentos, cálice, em sua cidade. E quando isso também não mais for necessário, então - se quiser - pode contribuir para a construção da basílica de São Pedro ou para alguma outra coisa. Mesmo assim, também não deve fazê-lo por causa da indulgência. Porque São Paulo diz: “Quem não faz o bem sequer aos de sua própria casa, não é cristão e é pior do que o descrente.” (1 Timóteo 5.8) E mantenha você sua liberdade para isso; quem lhe disser outra coisa, está seduzindo-o ou procura sua alma em seu bolso; e mesmo que ali só encontrasse centavos, isso lhe seria preferível a todas as almas.

Se agora você diz: “Então nunca mais comprarei indulgências”, replico eu: Isso eu já o disse acima, que minha vontade, desejo, pedido e conselho é que ninguém compre indulgência. Deixe que os cristãos preguiçosos e sonolentos comprem indulgência. Você, porém, siga seu caminho!

17. A indulgência não é nem prescrita nem recomendada, mas está entre o número de coisas permitidas e autorizadas. Por isso ela não é uma obra de obediência, nem é meritória, mas sim urna fuga da obediência. Se bem que a ninguém se deve impedir de comprá-la, dever-se-ia mesmo assim afastar dela a todos os cristãos e estimular e fortalecê-los para praticar as obras e penas que estão sendo negligenciadas.

18. Se as almas (realmente) são tiradas do purgatório através da indulgência, isso não o sei e também ainda não o acredito, mesmo que vários dos doutores mais modernos o afirmem. Mas não podem prová-lo, e também a igreja ainda não decidiu sobre o assunto. Por isso é muito mais seguro e melhor que você ore e atue por elas; porque isto está mais comprovado e certo.

19. Sobre esses pontos não tenho dúvida alguma, pois eles estão suficientemente fundados na Escritura. Por isso também vocês não devem ter dúvida alguma, e deixem os doutores escolásticos serem escolásticos; todos eles juntos não são suficientes, com suas opiniões (acadêmicas), para confirmar um sermão.

20. Ainda que alguns, para os quais esta verdade dá grande prejuízo material, agora me chamem de herege, não dou muita importância a semelhante palavrório; pois quem está a fazê-lo são alguns cérebros tenebrosos que nunca cheiraram a Bíblia, nunca leram os mestres cristãos, nunca entenderam aos seus próprios professores, e, sim, já estão quase a decompor-se em suas opiniões acadêmicas esburacadas e esfarrapadas. Pois se os tivessem entendido, saberiam que não devem difamar a ninguém sem antes ouvi-lo e tentar convencê-lo do seu erro. Que Deus dê a eles e a nós uma mente acertada! Amém.

 


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