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4 de março de 2012
 

Deus, o Autor

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Escrito por: Vincent Cheung
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Paulo, apóstolo de Cristo Jesus pela vontade de Deus, segundo a promessa da vida que está em Cristo Jesus,

a Timóteo, meu amado filho:

Graça, misericórdia e paz da parte de Deus Pai e de Cristo Jesus, nosso Senhor. (2 Timóteo 1.1-2)

Deus é soberano – a vontade de Deus é suprema. Isso significa não somente que ele pode controlar algo se desejar fazê-lo, mas significa que nada pode acontecer a menos que ele decida que isso deveria acontecer e então faça com que isso aconteça mediante um poder ativo e invencível. A distinção é crucial. A falha em reconhecê-la tem resultado em absurdo e inconsistência mesmo naqueles que se consideram defensores da soberania de Deus. Deus não somente pode ativa e diretamente decidir e controlar tudo – como se fosse possível ele metafisicamente deixar algumas coisas funcionarem por si mesmas – mas Deus de fato ativa e diretamente decide e controla tudo, incluindo todos os pensamentos e ações humanas, quer boas ou más. Isso é verdadeiro por necessidade lógica, pois Deus é o único e universal poder metafísico que existe.

Sem dúvida, isso significaria que Deus é o autor metafísico do pecado e do mal. Ele foi aquele que criou Satanás bom e perfeito, e então inclinou o seu coração para o mal. Ele foi aquele que criou Adão bom e perfeito, e então fez com que Satanás o tentasse (a Escritura diz que Deus mesmo não tenta ninguém, visto que tentar é persuadir a praticar o erro, e Deus persuadir diretamente alguém a fazer algo torna esse por definição um ato justo; portanto, é logicamente impossível Deus tentar alguém diretamente), fez Adão sucumbir, e fez com que o seu coração inclinasse para o pecado. Teólogos ficam horrorizados por essa ideia, e quase sempre tentam distanciar Deus do pecado. Contudo, se distanciamos Deus do mal metafisicamente, isso significa que há outro poder metafísico que causa o mal. E isso significa que Deus não está no controle de tudo, que por sua vez significa que esse “Deus” não é Deus coisa alguma. Em outras palavras, contrário à noção popular que é blasfêmia sugerir que Deus é o autor do pecado e do mal, é blasfêmia dizer que ele não o é. Deus deve ser o autor do mal, ou o mal jamais poderia vir à existência. Deus deve ser o autor do pecado, ou o pecado jamais poderia ter acontecido.

Isso é muito diferente de dizer que Deus é mal. Uma coisa não implica a outra. Antes, Deus é aquele que define bom e mal, e mal é aquilo que viola seus preceitos morais. Embora o mal tenha vindo à existência, a Bíblia ainda chama Deus de bom. Isso necessariamente significa que Deus nunca impôs um preceito moral sobre si mesmo declarando que ele nunca deve fazer com que criaturas violem os seus preceitos morais. Portanto, não é mal Deus fazer com que suas criaturas violem os seus preceitos morais, mas é mal para as criaturas, causadas por Deus, violar esses preceitos morais.

Quanto a porquê Deus criaria o mal, e fazer com que suas criaturas violem seus preceitos, e então redimir algumas delas, é surpreendente que mesmo aqueles teólogos que se vangloriam de se referir à história bíblica como o “drama” da redenção não podem ver a resposta para isso. Pergunte ao escritor porquê há tanta oposição ao herói em sua própria história. O escritor não tem pleno controle sobre o que acontece em seu mundo? Se seguirmos as teorias absurdas de quase todos os teólogos, teríamos que dizer que os vilões aparecem e escrevem espontaneamente suas próprias linhas no manuscrito do escritor, e esse tem que dirigir seu herói para vencê-los. Ou, talvez o escritor de alguma forma “permita” que os vilões apareçam e causem destruição, mas eles aparecem sem o envolvimento direto do escritor escrevendo sobre eles na história. Os vilões dentro da história tomam controle da caneta para se inscreverem na história, mesmo antes que eles existam na história! Ou, personagens justos dentro da história tomam controle da caneta e inserem o mal neles, mesmo antes que haja qualquer mal dentro deles para movê-los a fazer isso! Alguém pode se perguntar se os personagens são infinitamente mais poderosos que o escritor. Quanta coisa sobre o decreto “passivo” de Deus e a “permissão” do mal! Em todo caso, se a Bíblia registra o “drama’ da redenção, e se Deus é o escritor e diretor, então a razão, propósito e significado da existência do mal num mundo onde Deus possui controle direto e completo é automaticamente abordada, exceto para aqueles que não tenham nenhuma compreensão do drama. Romanos 9 diz que Deus deseja “tornar conhecidas as riquezas de sua glória” (v. 23).

Suponha que um escritor pense que é o momento de Richard, um personagem em sua história, morrer. Ele pode fazer isso acontecer de muitas formas. Ele pode escrever, sem nenhuma explicação, “Richard morreu”. E Richard morreria. Ele pode lançar uma pedra do céu e esmagar Richard no chão. Ele pode simplesmente parar de mencionar Richard, e embora os leitores e outros personagens na história poderiam não estar cientes disso, ele estaria morto na mente do escritor. Mas já que estamos num drama, tornemos isso mais interessante. O escritor pode introduzir Tom na história. Ele cobiça a esposa de Richard, e no decurso de uma trama complicada e improvável, Tom dá um tiro na cabeça de Richard e o mata.

Seria absurdo distanciar “metafisicamente” o escritor do mal nesta história usando Tom para explicar a coisa toda. O escritor é aquele que concebe Tom em sua própria mente e o introduz na história. O escritor é aquele que o faz cobiçar a esposa de Richard e então atirar na cabeça de Richard. Além disso, o escritor é aquele que faz Richard morrer. Essa é a parte que muitos teólogos e filósofos esquecem quando lidando com metafísica. Na verdade, não é Tom quem mata Richard. Na realidade, não é a bala que mata Richard. Numa história onde o escritor detém poder onipotente, Richard não precisa morrer simplesmente por alguém ter acertado um tiro na sua cabeça. E se Richard morre, o escritor pode ressuscitá-lo dentre os mortos. De fato, o escritor pode ressuscitar Richard dentre os mortos e fazê-lo matar Tom simplesmente mediante um olhar desaprovador.

Esse é o porquê, como explicações metafísicas, as chamadas causas secundárias não têm sentido. Quando a discussão é limitada às relações dentro da história, então é aceitável dizer que Tom mata Richard. Mas quando uma explicação metafísica é necessária, devemos dizer que o escritor faz Tom puxar o gatilho, faz a bala ser arremessada do revólver, e faz Richard morrer. Esses eventos são metafisicamente independentes, e estão relacionados somente no contexto da história. Isto é, a relação entre essas pessoas e eventos existe somente na mente do escritor, e é então registrada na história. Qualquer evento ocorre somente pela causa direta do escritor. Um objeto dentro da história não pode escrever suas próprias linhas e então produzir um efeito sobre outro objeto dentro da história.

É verdade que o escritor mata Richard usando Tom, e é verdade que Tom atira voluntariamente em Richard. Tom age sob o desejo mais forte do momento, e não é coagido por nenhum outro fator dentro da história. De fato, ele não é coagido nem mesmo pelo escritor, mas isso não significa que ele tenha livre-arbítrio, e seria tolo mencionar que seu desejo e ação são “compatíveis” com o controle do escritor, pois o escritor é aquele que, em primeiro lugar, insere o desejo e ação. O compatibilismo não é apenas falso mas também irrelevante, pois não compreende a questão. Ele não é coagido pelo escritor porque coerção requer resistência naquele que é coagido, mas Tom nem mesmo tem a liberdade para exibir qualquer resistência à vontade do escritor. Seu desejo é escrito em sua mente pelo escritor, e então uma ação que é consistente com esse desejo é escrita na história. Dizer que o desejo, escolha e ação de Tom são compatíveis com a autoria do escritor é dizer nada mais que o escritor é compatível consigo mesmo, ou que o exercício de seu controle é compatível com sua posse desse controle. Isso é irrelevante e inútil para a agenda do compatibilista.

A menos que Tom seja livre do escritor, Tom não é livre em nenhum sentido significante da palavra. Ele poderia ser livre de outros personagens da história, mas mesmo isso se dá somente porque o escritor decidiu assim. Dentro da história, há de fato uma relação aparente entre a ação de Tom, a física da arma e a bala, e a morte de Richard. Mas repetindo, isso acontece somente porque o escritor torna isso verdadeiro nessa ocasião particular. Em outras palavras, não existe nenhuma relação necessária entre a ação de Tom ou a bala, com a morte de Richard. A relação é estabelecida, aparentemente se você desejar, para o propósito da história, ou drama. Na realidade, a vontade do escritor é a única explicação para qualquer condição ou evento no romance.

Tom possui uma liberdade relativa – ele é livre do controle ou interferência de outros objetos e personagens na história na extensão em que o escritor decide que ele seja livre deles. Essa liberdade relativa não tem nada a ver com a responsabilidade moral de Tom para com o escritor. Se Tom é considerado responsável por algo, é porque o escritor decide mantê-lo responsável, não porque Tom possui algum tipo de liberdade. O escritor é capaz de mantê-lo responsável precisamente porque Tom não é livre. Se Tom fosse inteiramente livre, mesmo do escritor, então Tom não prestaria contas a ninguém. A responsabilidade moral de Tom reside inteiramente na soberania e decisão do escritor. Dessa forma, o escritor pode expressar sua desaprovação para com o adultério e assassinato arrumando um final extremamente sangrento para Tom. Se desejar introduzir uma dimensão espiritual, o escritor pode até mesmo enviar Tom direto para o inferno na história.

Embora o escritor seja a causa direta e ativa do adultério e assassinato de Tom, dificilmente seria correto acusar o escritor desses crimes, visto que o escritor mesmo não cometeu adultério e assassinato, e não existe nenhuma lei no mundo (fora da história) do escritor declarando que um escritor não pode narrar um adultério e assassinato em seu romance. Tom, contudo, cometeu ambos, visto que o mundo da história desaprova ambos e reforça leis contra ambos.

Você pode se queixar que tudo isso soa verdadeiro quando diz respeito a escrever um romance, mas nós não somos meros personagens numa história. Bem, Deus não é homem, e quando escreve uma história, ele não está limitado a tinta e papel. Todavia, se você resiste à minha analogia, você pode lidar com aquela usada por Paulo em Romanos 9, onde somos meros montes de barro. Isso te ajuda de alguma forma, ou nos compromete ainda mais à minha visão? Ele diz que Deus introduz pecado, mal e conflito contra si mesmo e o seu povo (v. 17-18), pois ele deseja “mostrar” (v. 22-23). Você diz: “O que? Tudo isso para uma demonstração? Por que Deus ainda nos culpa? Que personagem pode resistir à vontade do escritor?”. Mas quem é você para questionar a Deus? Acaso um personagem pode dizer ao escritor: “Por que me fizeste assim?” (v. 20). O escritor tem o direito e o poder para demonstrar seus valores e talentos da forma que desejar (v. 21).

Estou lhe dizendo o que aconteceu a Paulo. Ele escreve que era um apóstolo de Cristo Jesus “pela vontade de Deus”. A frase em si pode se referir ao decreto ou preceito de Deus. Isto é, pode se referir à decisão eterna de Deus que Paulo seria um apóstolo, ou ao mandamento temporal de Deus que Paulo deveria ser um apóstolo. Parece que a frase em nossa passagem refere-se ao decreto de Deus. Deus decretou todas as coisas antes da criação do mundo, e ele concebeu Paulo e pré-ordenou que ele seria um apóstolo. Paulo escreve que foi separado no nascimento (Gálatas 1.15), mas ele não nasceu um cristão. João o Batista foi cheio do Espírito enquanto ainda estava no ventre da sua mãe, mas Paulo viveu uma vida de assassinato até o Senhor Jesus confrontá-lo. Ambos foram ordenados pela vontade de Deus, mas Deus decretou vidas diferentes para eles.

Não é que Deus “permitiu” Paulo correr solto até Atos 9. Deus tinha tanto controle de Saulo o Fariseu como de João o Batista. Seu plano demandou que Paulo estiver no caminho que estava antes de sua conversão. E Paulo nos diz pelo menos parte da razão: “Mas por isso mesmo alcancei misericórdia, para que em mim, o pior dos pecadores, Cristo Jesus demonstrasse toda a grandeza da sua paciência, usando-me como um exemplo para aqueles que nele haveriam de crer para a vida eterna” (1 Timóteo 1.16). O drama da conversão de Paulo serve ao drama maior da redenção. Deus tinha pré-ordenado que Paulo se tornaria um exemplo de um grande pecador que receberia misericórdia, de forma que “Cristo Jesus demonstrasse toda a grandeza da sua paciência”. Repetindo, isso foi em prol da demonstração, do drama. Mas para isso acontecer – para Paulo se tornar um grande pecador que recebe misericórdia – ele deve primeiro viver como “o pior dos pecadores”. Não foi um acidente que Paulo tornou-se uma demonstração da misericórdia divina, nem podemos explicar isso mediante alguma teoria ridícula de concorrência ou compatibilismo. Nem, esse foi seu destino pré-ordenado. Deus planejou e Deus fez acontecer – tudo isso.

No tempo determinado, o Senhor Jesus apareceu a Paulo e o confrontou. Paulo finalmente percebeu que ele estava errado o tempo todo, e que Jesus era de fato o Cristo predito por todos os profetas. Então Cristo ordenou que ele mudasse todo o curso de sua vida, e o comissionou para se tornar um apóstolo. A vontade de Deus era que ele se tornasse o representante mais eficaz e prolífico da fé na igreja primitiva. Ora, o escritor não tem nenhuma necessidade de Tom se deseja matar Richard, mas a história é sua e ele pode escrevê-la da forma que desejar. No mesmo sentido, Deus não precisa de nenhum homem para cumprir os seus desejos, mas agradou-lhe em seu plano, sua “demonstração” se desejar, empregar instrumentos humanos e ordenar relações humanas neste drama de redenção. E quando algo é dito ser “a vontade de Deus” no sentido de decreto de Deus, então isso será feito, pois sua vontade não pode ser frustrada na história que ele mesmo escreve. Portanto, embora Paulo tenha sido criticado, abandonado e aprisionado durante o seu ministério, os propósitos de Deus em sua vida foram cumpridos. Ele deveria ser o instrumento chave em estabelecer a presença do evangelho de Cristo na Terra, em assegurar sua perpetuidade mediante extensas explicações escritas da fé. Isso ele realizou, e ainda temos os seus escritos hoje, pois a vontade de Deus nunca falha.

 

Fonte: Reflections on Second Timothy

Tradução: Felipe Sabino de Araújo Neto



Sobre o Autor

Vincent Cheung
Vincent Cheung é autor de trinta livros e centenas de palestras sobre uma gama de assuntos em teologia, filosofia, apologética e espiritualidade. Através dos seus livros e palestras, ele está treinando cristãos para entender, proclamar, defender e praticar a cosmivisão bíblica como um sistema de pensamento abrangente e coerente, revelado por Deus na Escritura. Vincent Cheung reside em Boston com sua esposa Denise.



 
 

 
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