Suficiente e Proveitosa

por

Vincent Cheung


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Texto: 2 Timóteo 3:14-17


Título
: Suficiente e Proveitosa


Subtítulo
: A Autoridade, Suficiência e Utilidade da Escritura


Esboço
:

Introdução

1. Autoridade

a. Soprada por Deus
b. Transmitida pelo Espírito

2. Suficiência

a. Suficiente pra que?
b. Suficiente pra quem?

3. Utilidade

a. Modos de Aplicação
b. Esferas de Aplicação

 

2 TIMÓTEO 3:14-17

Quanto a você, porém, permaneça nas coisas que aprendeu e das quais tem convicção, pois você sabe de quem o aprendeu. Porque desde criança você conhece as Sagradas Letras, que são capazes de torná-lo sábio para a salvação mediante a fé em Cristo Jesus.

Toda a Escritura é inspirada por Deus e útil para o ensino, para a repreensão, para a correção e para a instrução na justiça, para que o homem de Deus seja apto e plenamente preparado para toda boa obra.
[1]


INTRODUÇÃO

Esse capítulo em Segundo Timóteo começa com a advertência de Paulo: “Nos últimos dias sobrevirão tempos terríveis”. Ele prossegue para descrever “homens de mentes depravadas” que “resistem à verdade” (v. 8), “homens maus” que “irão de mal a pior, enganando e sendo enganados” (v. 13), e aqueles que “se recusarão a dar ouvidos à verdade, voltando-se para os mitos” (4:4).

Por outro lado, Paulo declara que Timóteo deveria e poderia ser diferente dessas pessoas perversas, enfatizando o contraste com três ocorrências de “mas você” (3:10, 14, 4:5). Para parafrasear, Paulo diz:

Timóteo, está vindo problemas. Haverá pessoas más – egoístas, traidoras, impuras. Elas terão uma aparência de piedade, mas negam o seu poder. Elas sempre estarão aprendendo, mas nunca reconhecerão a verdade (v. 1-9). Mas você, Timóteo, conhece todo o meu ensino, meu modo de vida, meu propósito, e meu caráter (v. 10-11).

Essas pessoas são impostores, e elas irão de mal a pior, enganando os outros e sendo enganadas (v. 13). Mas você, Timóteo, continue no que aprendeu e creu desde o princípio, assim como sua mãe e sua avó lhes ensinou as Sagradas Letras enquanto você ainda era um infante (v. 14-15).

Essas pessoas não suportarão a sã doutrina. Elas reunirão para si mesmas mestres que digam somente coisas que elas querem ouvir. Elas se afastarão da verdade e se voltarão para os mitos e fábulas (4:3-4). Mas você, Timóteo, mesmo quando o tempo for desfavorável, deve permanecer firme, pregue a palavra, e cumpra o seu ministério (4:5).


Essas três ocorrências de “mas você” são mais ou menos obscurecidas por algumas traduções, mas recebem grande atenção em outras, tais como a NKJ, NCV, GNT, REB, e HCSB. Wuest e Lattimore traduzem as três ocorrências como “quanto a você”, que é uma boa tradução. A NLT traduz todas as três ocorrências como “mas você”, e sempre começa um novo parágrafo em cada caso.

Uma tradução adequada deveria mostrar que Paulo está fazendo contrastes rígidos, consistentes e repetidos entre o “homem de Deus” [2] e os homens perversos. Jay Adams traduz as três ocorrências como “você, em contraste”, “você, contudo” e “mas você”. Isso reflete o significado e até o mesmo o contraste que Paulo tenta fazer, mas obscurece sua linguagem consistente. Assim, eu sugiro que todas as três ocorrências deveriam ser traduzidas como “mas você” ou “quanto a você”. [3]

Nossa passagem começa com a segunda ocorrência de “mas você”. O contraste é feito contra “perversos e impostores” que “irão de mal a pior, enganando e sendo enganados” (v. 13). Paulo quer que Timóteo seja diferente dessas pessoas, mas continue no que ele aprendeu e creu. E o que ele tem aprendido e crido é a Escritura.

Assim, discutiremos a autoridade, suficiência e utilidade da Escritura, sendo esses os atributos enfatizados na passagem.

Visto que o versículo 16 diz, “Toda a Escritura é inspirada por Deus”, alguém poderia pensar que a nossa ênfase deveria ser “inspiração” ao invés de autoridade. A inspiração certamente está em vista, mas ela é mencionada aqui para fornecer o fundamento para algo mais, e assim, “autoridade” é apropriada.

A idéia de suficiência é proeminente no versículo 17. Ela também representa amplamente uma ênfase da passagem. A Escritura é a resposta suficiente contra as situações e os homens maus que Timóteo deve enfrentar, e aquele que permanece firme na sã doutrina é também aquele permanece em contraste rígido contra aqueles que “vão de mal a pior, enganando e sendo enganados” (v. 13).

A utilidade da Escritura está intimamente relacionada com sua suficiência em nossa passagem. Paulo diz que a Escritura é “útil” ou “proveitosa”. Ela não é apenas eficaz, mas adaptável também — não que seu padrão e significado sejam flexíveis, mas que sua verdade pode ser aplicada com diferentes e vários métodos, com completa rigidez no conteúdo, mas com perfeita relevância ao mesmo tempo. Assim, consideraremos seus modos e esferas de aplicação. Para isso, não nos limitaremos à nossa passagem, mas tomaremos seus versos circunvizinhos e até mesmo toda a Bíblia em conta.

 

1. AUTORIDADE

O versículo 16 assevera a inspiração divina da Escritura, e embora ela seja mencionada como se de passagem para introduzir outro pensamento, ela é, todavia, fundacional para todo o propósito da passagem. Sem a inspiração da Escritura, o resto seria vazio e fútil.

Começaremos, então, considerando o significado de inspiração divina, e como ela torna a Escritura suficiente e proveitosa.


a. Soprada por Deus

Embora estejamos acostumados a afirmar a “inspiração” (KJV, ARC, ARA, NVI)) da Escritura, a palavra composta theopneustos literalmente significa “sopro de Deus ” (NIV), e visto que a terminação -tos indica um significado passivo, uma tradução ainda mais precisa seria “soprada [ou expirada] por Deus” (ESV).

A implicação é tremenda. A Escritura não contém mera opinião humana e nem mesmo a interpretação humana da revelação divina, mas ela veio “diretamente” de Deus, por assim dizer, e dessa forma, não há diferença entre o que a Escritura diz e o que Deus pensa ou o que Deus diz. A Escritura é o que Deus pensa e o que Deus diz.

Esse sendo o caso, não há diferença entre a autoridade de Deus e a autoridade da Escritura. Entender a Escritura é entender a mente e a vontade de Deus, e desobedecer a Escritura é desobedecê-lo. Assim como alguém não pode permanecer diante de Deus e dizer: “Eu te obedecerei, mas não obedecerei ao que tu dizes” — visto que obedecer ou desobedecer um é obedecer ou desobedecer o outro — ninguém pode dizer: “Eu obedecerei a Deus, mas não a Bíblia”, pois não há diferença.

Alguns nos ridicularizarão como seguindo um “papa de papel”, mas eu preferiria o aparentemente insulto maior de seguir um “Deus de papel”, visto que somente então o insulto corresponderia à posição realmente sustentada. A resposta é que não estamos seguindo um papa ou Deus de papel, mas seguindo a Deus, visto que, novamente, há diferença zero entre obedecer a Bíblia e obedecer a Deus. Assim, o insulto “papa de papel” não é nem de perto forte o suficiente. De fato, de acordo com o arranjo soberano de Deus, obedecer a Bíblia é a única forma de obedecer a Deus. Que os nossos oponentes, então, nos insultem por obedecer a Deus, e em fazendo isso condenem o próprio desafio deles.

Porque a palavra theopneustos significa “soprada [ou expirada] por Deus”, há uma objeção legítima contra traduzi-la como “inspiração”. A palavra “inspiração” vem do latim e é usada na Vulgata, e até mesmo no inglês ela tem o significado de inspirar — o oposto do que é transmitido por theopneustos.

O perigo é supor a partir dessa tradução que a Escritura é um produto meramente humano para o qual Deus soprou em seu espírito, ou que Deus meramente exerceu sua influência no processo de escrita, enquanto o produto permaneceu essencialmente ou primariamente humano na origem. Por outro lado, a tradução “soprada [ou expirada] por Deus” dificilmente permitiria tal mau entendimento.

A objeção é tecnicamente correta; contudo, o mau entendimento não parece provável ou comum. Sob “inspiração”, a idéia de “influência divina” [4] aparece como a primeira definição no Merriam-Webster, mas como a quinta no Webster's New World. Mas mesmo no último caso, o perigo de alguém aplicar as quatro primeiras definições antes de considerar a quinta é mínima, pois a quinta definição é claramente designada como “Teol.— isto é, teológica — de forma que ela seria a primeira considerada em tal contexto.

Devido ao uso e entendimento comum, a palavra inglesa [N.T.: o mesmo é verdadeiro no português] “inspiração” se tornou há muito tempo um termo teológico amplo para o que a Escritura realmente ensina sobre sua origem — que ela é o “sopro de Deus” — e assim também infalível, inerrante e carrega autoridade absoluta . Por essa razão, eu não me oporei ao uso da palavra “inspiração” aqui no versículo 16 por causa de um possível mau entendimento, visto que o significado teológico é geralmente reconhecido.

Contudo, eu me oporia a tal tradução pela simples razão de que ela não é verdadeiramente uma tradução, mas uma (correta) inferência ou interpretação do que o versículo afirma. Isto é, mesmo que concordemos que a palavra não significa “inspirar” quando usada no sentido teológico — mas amplamente se refira ao que a Escritura ensina sobre sua própria origem — ela ainda não é o que é declarado aqui nesse versículo. Antes, o versículo diz que a Escritura é o “sopro de Deus”, e é a partir dessa e outras passagens relevantes que derivamos a doutrina da inspiração divina.

Paulo escreve que “Toda Escritura é o sopro de Deus”. Há algum debate sobre a tradução correta de “Toda Escritura”. Certamente, devemos sempre aspirar a tradução mais precisa, mas os perigos de outras traduções para a frase têm algumas vezes sido exagerados. Que traduzamo-la como “toda Escritura” ou “cada Escritura” não faz nenhuma diferença essencial — a primeira declara que a Escritura como um todo é inspirada, e a última declara que cada parte da Escritura é inspirada. De qualquer maneira, tudo da Escritura e cada parte dela é o sopro de Deus.

É verdade que traduções tais como “cada escritura inspirada por Deus é também proveitosa” e toda Escritura inspirada tem sua utilidade” enfraquecem grandemente o versículo, visto que elas procuram permitir a possibilidade de que pelo menos algumas partes da Bíblia não sejam inspiradas. Traduzir “o que é Escritura” similarmente debilita o versículo como um texto claro em suporte da inspiração plenária da Bíblia.

Mesmo com esse problemas potenciais, nenhuma dessas traduções realmente contradizem a inspiração divina da Escritura. Portanto, embora o problema seja sério, o perigo real é limitado. Então, considerando o fato de que a doutrina da inspiração não depende desse versículo somente, mas é atestada por uma grande quantidade de passagens bíblicas, não devemos pensar que a própria verdade da inspiração permanece ou cai na tradução precisa desse versículo.

Ainda, algumas opções são melhores do que outras, e algumas tentativas são claras distorções. Podemos oferecer argumentos gramaticais mostrando que “Toda Escritura” (NIV, ESV) é o mais exato, e já observamos que mesmo traduzir como “cada Escritura” não mina a inspiração divina de forma alguma.

Embora as outras opções não contradigam a inspiração nem a tornam impossível, elas não deveriam ser consideradas sérias concorrentes. Isso é verdade se por nenhuma razão além dessa, dado o contexto histórico e cultural, e mais a confiança da evidência interna da Bíblia, é impossível para Paulo ter em mente os significados fracos. De fato, a principal ênfase do versículo não é nem mesmo afirmar a inspiração divina da Escritura, como se Timóteo precisasse ser convencido; antes, Paulo meramente declara a suposição para introdução seus comentários e admoestações subseqüentes.

Não gastaremos mais tempo sobre isso, visto que, como observado, a inspiração não está em perigo, e isso é suficiente para o ponto que estou para estabelecer. Mas há mais um passo a se tomar antes disso.

Por “Toda Escritura”, é certo que Paulo está se referindo pelo menos ao Antigo Testamento, visto que, como um judeu, essa era a sua “Escritura”. Também, ele tinha acabado de mencionar “as Sagradas Letras” que tinham sido ensinadas a Timóteo por sua mãe e avó — que eram judias —, que da mesma forma eram pelo menos o Antigo Testamento. A questão é se ele tinha em mente o Novo Testamento também, ou a partir de outra perspectiva, se o que ele está dizendo sobre “Toda Escritura” pode ser diretamente aplicado ao Novo Testamento em particular.

Aqui novamente iremos recordar que a inspiração da Escritura, e agora o Novo Testamento em particular, não depende desse versículo apenas. Jesus diz que ele enviaria aos apóstolos o Espírito da verdade, que então os guiaria a toda verdade (João 16:13). E Pedro escreve que pessoas ignorantes e instáveis distorcem as cartas de Paulo, “como também o fazem com as demais Escrituras” (2 Pedro 3:15-16). A implicação necessária é que as cartas de Paulo já eram consideradas como parte das Escrituras. Isto é, ele diz que essas pessoas distorcem as cartas de Paulo, que são Escrituras, assim como eles fazem com as demais Escrituras.

Quanto a Paulo, ele estava ciente de que as próprias palavras que ele falava eram “ensinadas pelo Espírito” (1 Coríntios 2:13), e não apenas as idéias gerais. Ele se introduz como um apóstolo, pré-ordenado e chamado para ser tal por Deus e o Senhor Jesus. E ele repetidamente defende sua identidade e autoridade como um apóstolo em seus escritos. Ele diz aos coríntios: “reconheçam que o que lhes estou escrevendo é mandamento do Senhor” (1 Coríntios 14:37). Então, em Timóteo 5:18, ele prefacia tanto Deuteronômio 25:4 como Lucas 10:7 com a expressão “a Escritura diz”, efetivamente chamando o Evangelho de Lucas de “Escritura” e atribuindo a ele a mesma inspiração e autoridade divina de Deuteronômio.

É, portanto, irracional assumir que Paulo deve se referir somente ao Antigo Testamento quando ele diz “Toda Escritura”. Como Robert Reymond escreve, Paulo estaria disposto a incluir e “quase certamente incluiu, dentro da categoria técnica de ‘toda Escritura' os documentos do Novo Testamento, incluindo os seus, também”. [5] Visto que os documentos do Novo Testamento são considerados como inspirados e até mesmo chamados de “Escritura”, podemos com completa certa considerá-los como o “sopro de Deus”. Tanto o Antigo Testamento como o Novo Testamento são “Escritura”, e eles constituem um livro que é a nossa Bíblia. Portanto, não há problema em se considerar o versículo como afirmando: “A Bíblia inteira é o sopro de Deus”. De fato, não há escusa para pensar de outra forma.

Agora chegamos ao ponto que eu queria estabelecer. Isto é, dado que toda a Bíblia é soprada por Deus — tudo a partir de uma única fonte divina — não há razão para considerar uma parte da Bíblia como mais autoritativa do que outra, ou para considerar uma pessoa inspirada falando na Escritura como mais inspirada do que outra.

De fato, se por inspiração queremos dizer o sopro de Deus, então um texto ou é inspirado ou não é inspirado, e textos inspirados são igualmente o sopro de Deus. Assim, Moisés não é mais confiável que Jeremias, ou David mais autoritativo do que Malaquias. Deus é a fonte de cada parte da Escritura, e não Moisés, Jeremias, Davi, ou Malaquias. Portanto, não há diferença na confiabilidade e autoridade entre os vários livros bíblicos e seus escritores.

Aqui eu tenho em mente a mentalidade “Bíblia com letras vermelhas”. Algumas pessoas tratam as palavras de Jesus como se elas formassem uma Bíblia dentro da Bíblia, ou como se elas fossem especialmente confiáveis e autoritativas. Se estão conscientes ao fazer isso, eles podem assumir que isso é correto e bom, e que representa uma atitude de reverência especial por nosso Senhor. Contudo, dado que o ensino da própria Bíblia é que “Toda Escritura é o sopro de Deus”, honrar de uma maneira especial as palavras de Jesus é na realidade uma negação da inspiração da Escritura.

Provavelmente mais do que umas poucas pessoas acharão essa afirmação perturbante. Alguém pode dizer: “Ele está negando que Jesus é maior do que os profetas e apóstolos? Mas Jesus é Deus, não um mero homem! Ele é maior do que Abraão e Salomão, e até mesmo Davi o chamou de Senhor”. É verdade que Jesus é maior do que todos os homens, mas levantar esse ponto nesse contexto é denunciar uma tendência para o erro sobre o qual estou falando.

Ao afirmar a inspiração da Escritura, não há lugar para comparar os méritos de locutores e escritores individuais, visto que a doutrina da inspiração é que “Toda Escritura é o sopro de Deus”, isto é, a Bíblia inteira vem de Deus. Em outras palavras, quando estamos comparando as palavras de Jesus com as palavras de Paulo, o fato de que Jesus é infinitamente maior do que Paulo é irrelevante. Toda Escritura é o sopro de Deus, de forma que a menos que neguemos a inspiração de Jesus ou de Paulo, estamos comparando as palavras de Deus com as palavras de Deus; assim, há diferença zero em inspiração e autoridade entre eles. Se as palavras de Paulo na Bíblia são menos autoritativas do que as palavras de Jesus, então elas não são inspiradas de forma alguma — elas não são o sopro de Deus.

Algumas vezes as pessoas tentam parecerem sábias. Referindo-se ao que considera um ensino surpreendente, um pregador diz: “Se Jesus não tivesse dito isso, eu não teria crido!”. Ele provavelmente não percebe a implicação do que ele diz, mas o significado é que se o mesmo ensino fosse afirmado somente pelos profetas e pelos apóstolos, ele teria declarado o mesmo como sendo falso. Isso implicaria que ele não crê na inspiração da Escritura de forma alguma, pelo menos em tudo o que não está em vermelho. Os escritos não-inspirados podem ser algumas vezes corretos e algumas vezes errados, mas uma parte do escrito ser inspirada significa que o mesmo é sempre e completamente inspirado.

Quando discutindo o assunto da revelação divina, até mesmo estudiosos evangélicos têm dito: “Os profetas e apóstolos foram inspirados por Deus, e eles falaram pelo Espírito, mas Jesus era o próprio Deus”. O ponto em si é verdadeiro, mas novamente, levantar essa questão aqui é denunciar uma tendência de pensar nas palavras de Jesus na Bíblia como sendo superiores ao resto da Bíblia, o que equivale a uma negação da inspiração divina, ou seja, que toda a Escritura é soprada por Deus. [6]

Essa negação implícita da inspiração bíblica está de fato presente em muitas pessoas do que alguém assumiria, e isso pode impedir algumas pessoas de entenderem minha preocupação. O que poderia estar errado em se dar honra especial às palavras de Cristo? Pode parecer para eles que eu estou rebaixando Jesus ao nível dos profetas e apóstolos. Alguém que interpreta assim o que estou dizendo não entendeu o ponto da questão.

Se toda Escritura é o sopro de Deus, então todos os escritos dos profetas e apóstolos já carregam a autoridade máxima, e as palavras de Jesus não podem ser mais autoritativas porque não há lugar para algo mais alto — cada parte da Escritura carrega a própria autoridade de Deus. De fato, se cada parte da Escritura é revelada por Deus, então cada parte da Escritura é também, nesse sentido, as palavras de Jesus, a segunda pessoa da Trindade. E a palavra de Deus falada através do corpo humano de Jesus não pode ser superior àquela palavra de Deus falada através de Davi ou Paulo. Se um “documento” inspirado é um documento que é o “sopro de Deus”, então não pode haver graus de inspiração, mas algo deve ser inspirado ou não inspirado, e se inspirado, então é a própria palavra de Deus.

Outro ponto que é frequentemente perdido é que, enquanto o assunto for inspiração e não os méritos de indivíduos, não estamos comparando Jesus com os profetas e apóstolos, mas Mateus, Marcos, Lucas e João com os outros escritores da Escritura. Sem hesitação, reconhecemos a superioridade absoluta de Cristo sobre todos os homens, mas a questão é se Mateus, Marcos, Lucas e João eram inspirados. Visto que eles eram, então os documentos que eles produziram, que incluem as palavras de Jesus, carregam a autoridade máxima, assim como os escritos dos profetas e apóstolos carregam a autoridade máxima, e assim como qualquer outra palavra da parte de Deus carregaria a autoridade máxima. Não há espaço para um ser superior ao outro. Visto que todos carregam a autoridade de Deus, nenhum pode ser maior ou menor em autoridade.

Podemos até conceder que, se a “inspiração” se aplicasse a ele, ela ocorreria diferentemente em Jesus do que nos profetas e apóstolos. Entre outras coisas, ele não tinha nenhum pecado, cujos efeitos o Espírito deveria ter sobrepujado ou suspendido para assegurar a perfeita comunicação da mente de Deus. E ele poderia falar por sua própria autoridade divina em harmonia com a vontade do Pai. Assim, o modo de operação era certamente diferente. Todavia, o produto é o mesmo — palavras infalíveis e inerrantes que são o “sopro de Deus”. O ponto é que fazer qualquer distinção entre Deus e a Escritura, ou Jesus e a Escritura, é também negar a inspiração da Escritura.

Desconsiderando por ora as ramificações dessa verdade para a teologia, hermenêutica, e outras disciplinas, ela tem relevância imediata para o nosso texto. Paulo diz que toda Escritura é o sopro de Deus e é “útil” ou “proveitosa” para os propósitos que ele enumera. Segue-se que não devemos considerar as palavras de Jesus na Bíblia como mais úteis ou proveitosas do que as palavras de escritores humanos inspirados no resto da Bíblia.

De fato, uma exposição do nosso texto não requer estritamente de nós a menção dos escritores humanos de forma alguma, ou o considerar como a inspiração divina ocorreu neles. Isso porque a palavra “sopro de Deus” não tem referência a nenhum papel ou agência humana na produção da Escritura. O termo enfatiza a natureza da Escritura — dada por Deus —, e que ela é diretamente dada por Deus em termos de conteúdo. Deus escreveu sobre as tábuas de pedra quando ele deu os Dez Mandamentos, mas o resto da Bíblia veio dele tanto quanto aqueles, de forma que não haveria nenhuma diferença essencial se Deus tomasse uma caneta e escrevesse toda a Escritura sem usar escritores humanos. A palavra “sopro de Deus” nos proíbe de formar uma conclusão mais fraca.

Todavia, a maioria das porções da Escritura de fato veio através de escritores humanos inspirados antes do que por uma voz do céu, por ditação, ou pelo dedo de Deus, e é frequentemente observado que as várias partes da Bíblia refletem as diferentes circunstâncias, panos de fundo, e personalidades dos escritores inspirados. Nosso texto não menciona ou explica isso sobre a Bíblia, mas ao chamá-la de o sopro de Deus, ele enfatiza a divindade da fonte e a pureza do produto. Aprender sobre como Deus escreveu seus pensamentos através de escritores humanos inspirados, e duma forma que a Bíblia pode ser chamada de o sopro de Deus sem qualificação, exigirá que façamos um breve desvio para outra passagem bíblica.

b. Transmitida pelo Espírito

Ao explicar a verdadeira origem e natureza da Escritura, Pedro escreve: “Antes de mais nada, saibam que nenhuma profecia da Escritura provém de interpretação pessoal, pois jamais a profecia teve origem na vontade humana, mas homens falaram da parte de Deus, impelidos pelo Espírito Santo” (2 Pedro 1:20-21).

Essa importante passagem é tão rica quanto o nosso texto principal de 2 Timóteo, e tomaria muita atenção fazê-la justiça. Mas como isso é algo como uma digressão, todos os detalhes fascinantes terão que esperar outro momento. Por ora tomarei tempo para extrair não muito mais do que é necessário para tratar do assunto mencionado acima — isto é, o papel dos escritores humanos na formação da Escritura, ou a relação entre os escritores humanos e a inspiração divina.

Para começar, Pedro se refere à “profecia da Escritura”. Ele poderia estar falando sobre porções específicas do Antigo Testamento que são num sentido estrito consideradas como profecias. Mesmo se esse fosse o caso, isso ainda incluiria muito mais da Bíblia do que muitas pessoas percebem, visto que profecias não se referem somente a predições, mas o termo se refere às expressões e escritos inspirados pelos quais Deus comunica através de seus agentes, quer essas expressões e escritos sejam preditivas em conteúdo ou não.

Contudo, é provável que Pedro tivesse em mente algo mais amplo, de forma que pela expressão ele pretenda colocar a ênfase sobre a natureza profética da Escritura (como em “a palavra profética” no v. 19, NASB), que é uma revelação de Deus. Dado o contexto, isso não seria surpresa, visto que ele está combatendo falsos mestres e falsos profetas que reivindicavam falar a verdade, quando eles poderiam oferecer somente suas próprias opiniões e especulações.

Mesmo se essa visão mais estreita fosse verdadeira — embora o oposto pareça ser o caso — a aplicação não pode ser limitada a somente certas porções da Escritura. Temos estabelecido a partir de Paulo que toda Escritura é inspirada, e Pedro está nos falando aqui algo sobre como a inspiração ocorreu; portanto, o princípio deve se aplicar à tudo da Escritura. De fato, embora Pedro esteja escrevendo contra “falsos mestres” e “falsos profetas” (2:1), ele não diz: “nenhuma profecia verdadeira provém de interpretação pessoal do profeta”, mas “nenhuma profecia da Escritura provém de interpretação pessoal do profeta” (NIV). Seu foco é sobre o produto escrito.

À primeira vista, a última parte do versículo 20 parece oferecer vários significados possíveis. As várias traduções e comentários favorecem significados diferentes e os perpetuam.

A Bíblia de Jerusalém traduz: “a interpretação da profecia escriturística nunca é uma questão para o indivíduo”, e isso tem sido usado para ensinar a doutrina católica de que indivíduos ordinários não podem simplesmente pegar a Bíblia e entender o que ela diz — somente a Igreja pode interpretá-la para eles. Os Reformadores lutaram contra essa falsa doutrina, e defenderam o direito dos indivíduos de ler a Bíblia.

Então, a KJV diz, “nenhuma profecia da escritura é de interpretação privada de alguém”. Isso poderia ser construído como acima também, mas os Protestantes tendem a pensar que essa é um repúdio de um entendimento subjetivo e relativista da Escritura. De fato, muito dano tem vindo da maneira americana de pensar, de que cada pessoa tem sua opinião, e de que cada pessoa tem o direito de contribuir para uma determinada discussão, até mesmo na igreja. A Bíblia nega ambos — cada pessoa deve afirmar o que a Palavra de Deus diz, e qualquer um que ignore a Palavra de Deus deve ser ignorado (1 Coríntios 14:38).

Em muitas igrejas, os estudos bíblicos são realizados permitindo-se que os participantes dêem suas interpretações privadas da Escritura. Eles começam dizendo: “Eu penso que isso significa...” ou “Para mim isso significa...”. Ninguém nunca está errado e nenhuma visão é denunciada como herética, mas o moderador constrói todas as visões apresentadas, de forma que elas são todas corretas e estão todas em concordância umas com as outras. [7] Mas então eles poderiam muito bem escrever a própria Escritura deles, visto que em efeito é o que eles já estão fazendo. Em todo caso, os Reformadores defenderam o direito de indivíduos lerem a Bíblia, mas não de violar o texto e atribuir significados a ele.

Assim, essa segunda opção é verdadeira o suficiente em si mesma. Cada passagem da Escritura tem um significado pretendido e fixado, de forma que uma abordagem subjetiva e relativista ao se ler a Bíblia deve ser denunciada como um assalto à palavra de Deus. Todavia, é improvável que seja isso o que o versículo 20 transmite.

A palavra “interpretação” pode significar “explicação”, mas pode significar também “desprender”, “soltar” ou “liberar”. No Novo Testamento, o substantivo é usado somente aqui, enquanto o verbo aparece em Marcos 4:34 e Atos 19:19. Em Marcos 4, o verbo significa “expor” ou “explicar”, e em Atos 19, ele significa “decidir”. Seu significado em nosso versículo deveria ser determinado pelo contexto.

O contexto imediato tem a ver com como a “Escritura provém” (v. 20), e Pedro insiste que “jamais a profecia teve origem na vontade humana ” (v. 21). A questão é a origem da Escritura e sua relação com a vontade do homem, e não a interpretação do produto da inspiração. Portanto, a “interpretação” está se referindo aos escritores da Escritura e não aos leitores da Escritura.

Quanto ao contexto mais amplo, Pedro afirma no versículo 16: “De fato, não seguimos fábulas engenhosamente inventadas , quando lhes falamos a respeito do poder e da vinda de nosso Senhor Jesus Cristo”. Ele está contrastando sua própria pregação e as palavras dos profetas na Escritura com a dos “falsos profetas” e “falsos mestres” (2:1) que exploravam pessoas “com histórias quem eles tinham inventado ” (2:3).

Com o acima exposto em mente, podemos parafrasear Pedro (1:20): “Os falsos profetas e falsos mestres explorariam vocês com histórias que eles inventaram, mas nós não inventamos o que lhes dissemos sobre a transfiguração de Cristo e a voz de Deus dos céus. Da mesma forma, nada na Escritura proveio de decisão ou entendimento pessoal do homem. A Escritura foi produzida de uma forma muito diferente de como esses falsos profetas e falsos mestres operam, visto que eles inventam suas doutrinas e histórias, mas tudo na Escritura provém de Deus”.

A. T. Robertson escreve: “Nenhuma profecia da Escritura proveio de descoberta privada, nem de interpretação privada”. [8] Gordon Clark sugere a tradução: “Nenhuma profecia escrita jamais veio à existência por qualquer liberação do indivíduo [ou, mais literalmente] por comunicação privada” [9]. A ênfase seria que a Escritura não veio por decisão do homem (“nunca teve sua origem na vontade do homem”, v. 21), ou simplesmente porque uma pessoa “queria profetizar” (NLT).

Eu deveria adicionar que até mesmo se a palavra “interpretação” for tomada como significando “explicação” aqui, isso não faria nenhuma diferença essencial. A ênfase mudaria levemente para o fato de que a Escritura não proveio do entendimento humano sobre eventos históricos e assuntos atuais, ou da especulação humana sobre o futuro. Wuest toma essa perspectiva e traduz: “nenhuma profecia da escritura se originou de alguma interpretação privada [sustentada pelo escritor]”. [10]

Ambas as idéias são encontradas no versículo 21, que diz que “jamais a profecia teve origem na vontade humana” (não pela iniciação humana), mas que “homens falaram da parte de Deus, impelidos pelo Espírito Santo” (não por interpretação humana).

Assim, ao declarar a inspiração da Escritura, Pedro primeiro faz uma importante negação. Ele nega que a Escritura seja um produto de iniciação e interpretação humana, diferentemente de todas as religiões e filosofias não-cristãs. Mas então, ele faz uma afirmação sobre a origem da Escritura que nos diz algo sobre a natureza da inspiração. A Escritura “proveio” (v. 20), ele explica, à medida que “homens falaram da parte de Deus” (v. 21). As palavras da Escritura vieram de Deus, e não dos próprios homens.

Nós podemos aprender algo sobre a natureza das verdadeiras expressões proféticas notando como as falsas profecias são descritas e condenadas na Escritura. Por exemplo, Jeremias 23:16 diz: “Não ouçam o que os profetas estão profetizando para vocês; eles os enchem de falsas esperanças. Falam de visões inventadas por eles mesmos, e que não vêm da boca do Senhor”. Os falsos profetas falam coisas “inventadas por eles mesmos”, mas os verdadeiros profetas falam o que “vêm da boca do Senhor”. O Novo Testamento diz que “Deus... falou através de Davi” (Hebreus 4:7), e que “o Espírito Santo falou a verdade... por meio do profeta Isaías” (Atos 28:25).

Foi Deus quem falou, não os homens — ele falou por meio de homens. A implicação é clara — as palavras da Escrituras são tanto “da parte de Deus” que é como se elas tivessem vindo diretamente “da boca do Senhor”, e de fato, elas vieram. Portanto, não devemos fazer nenhuma distinção entre as palavras da Escritura e as palavras de Deus.

De fato, nós podemos— nós devemos — regularmente e em vários contextos usar Deus e Escritura como termos intercambiáveis, pois essa é também a prática da própria Bíblia. Gênesis 12:1-3 diz, “O SENHOR disse...”, mas referindo-se à mesma ocasião, lemos em Gálatas 3:8: “Prevendo a Escritura... anunciou”. Êxodo 9:13-16 diz “Então o SENHOR disse... apresente-se ao faraó e diga-lhe...”, mas referindo-se ao mesmo acontecimento, lemos em Romanos 9:17: “Pois a Escritura diz ao faraó... ”.

Na Bíblia, “Escritura” é personificada e algumas vezes usada no lugar de “Deus”. Isso é somente correto e natural se a Escritura for exatamente a palavra de Deus, de forma que haja diferença zero entre elas em pensamento e autoridade. E é apenas correto que nós como cristãos adotemos a mesma prática. Ela reflete nossa crença na inspiração divina da Escritura para pensar de Deus e a Bíblia como intercambiáveis. Nós nos referimos à ambas como poderosa, penetrante, justa, pura e santa. Gálatas 3:8, citado acima, atribui presciência à Escritura. Podemos até mesmo nos referir à Escritura como o juiz da humanidade: “Se alguém ouvir as minhas palavras e não as guardar, eu não o julgo; porque eu não vim para julgar o mundo, e sim para salvá-lo. Quem me rejeita e não recebe as minhas palavras tem quem o julgue; a própria palavra que tenho proferido, essa o julgará no último dia” (João 12:47-48, ARA).

Tudo isso não se aplica somente ao Antigo Testamento, como se o Antigo e o Novo fossem dois livros separados reunidos de maneira forçada, ao invés de um todo orgânico pré-ordenado, desenvolvido e preservado por Deus. Como Pedro escreve: “Para que vos recordeis das palavras que, anteriormente, foram ditas pelos santos profetas, bem como do mandamento do Senhor e Salvador, ensinado pelos vossos apóstolos” (2 Pedro 3:2, ARA). Os apóstolos também “falaram da parte de Deus”. Suas palavras inspiradas não vieram deles, mas da boca do Senhor, e assim carregam a autoridade de Deus (1 Coríntios 2:13, 14:37).

A Escritura “proveio” quando “homens falaram da parte de Deus”, de forma que a Escritura carrega autoridade absoluta, e o termo pode ser até mesmo personificado para ser usado intercambiavelmente com Deus. As ramificações para a suficiência e utilidade da Escritura deveriam ser tão óbvias quanto elas são numerosas. Mas antes de tomar esse próximo passo, devemos recordar, antes de tudo, o propósito para esse retorno à 2 Pedro, que é explicar o papel humano na inspiração divina e a composição da Escritura.

Pedro de fato diz que a Escritura veio à medida que “homens falaram da parte de Deus”, de forma que ela não veio por iniciação ou interpretação humana. Mas ele diz também que “homens falaram da parte de Deus”, de forma que os homens estavam envolvidos na composição da Escritura. Qual era esse papel? O que eles fizeram? Em que sentido e de que forma eles estavam envolvidos? Pedro continua para nos dizer. Ele escreve: “Homens falaram da parte de Deus, impelidos pelo Espírito Santo” (v. 21).

A tradução “movidos” (KJV, NASB, ARA) pelo menos indica que os homens foram passivos, de forma que eles agiram de acordo com o Espírito, e essa é certamente uma ênfase principal aqui. Mas a tradução “impelidos” (NIV, ESV, NVI) pinta um retrato melhor do que a palavra significa. Ela é uma metáfora tomada do mundo náutico, e descreve como um navio é impelido e compelido pelo vento. Assim, em Atos 27:15 e 17, a palavra é traduzida como “arrastado” (NIV, ESV, NVI). Nessa passagem, o navio não é auto-movido, nem ele coopera ativamente, mas ele é passivo — agindo de acordo e sendo influenciado pelo vento, que é ativo.

Da mesma forma, quando homens falaram da parte de Deus e escreveram a Escritura, eles eram passivos e o Espírito era ativo. De fato, os homens eram tão passivos com relação ao Espírito que eles foram descritos como sendo “impelidos”, como se o Espírito estivesse debaixo deles, levantando-os e carregando-os para os seus próprios propósitos. Eles foram os objetos passivos carregados inteiramente pelo poder do Espírito, e esse foi o papel e envolvimento deles.

Como Edward J. Young escreve: “Se uma pessoa levanta algo e a sustenta, ela o faz pelo seu próprio poder. O que é levantado e sustentado, contudo, é absolutamente passivo. Assim, os escritores da Escritura que falaram da parte de Deus foram passivos. Foi o Espírito de Deus quem os sustentou. Era ele quem estava ativo, e eles passivos”. [11]

Alguns comentaristas insistem que as palavras “homens falaram” concede um papel ativo aos profetas, mas em que sentido eles foram ativos? Se eu tomar uma caneta e escrever uma carta, certamente a “caneta escreve”, mas seu papel é ativo somente com relação a si mesma e com relação a quando ela não está escrevendo de forma alguma. Com relação a mim, a caneta é inteiramente passiva, e não pode nem mesmo ser dito que ela está cooperando ativamente. Para aqueles que parecem sempre interpretar incorretamente analogias, eu não estou dizendo que um homem é exatamente como uma caneta, [12] mas estou dizendo que nós não podemos inferir muito das palavras “homens falaram” em si mesmas, mas o sentido e a extensão dessas palavras são restringidos pelo contexto.

Pedro qualifica “homens falaram” dizendo que o Espírito os impeliu, de forma que até mesmo o falar deles foi realizado sob essa condição passiva. Assim, os homens falaram, mas somente à medida que eles eram impelidos pelo poder ativo de Deus. Isto é, o ato de falar deles era ativo somente com relação a não falar nada, mas eles não eram em nenhum sentido auto-movidos ou auto-capacitados quando falavam, nem eles tinham um “livre-arbítrio” do qual Deus devia obter cooperação. Assim, o verso inteiro fala de homens como passivos, e Deus como ativo.

Talvez motivado por seu preconceito teológico, à medida que ele oferece sua exposição sobre esse mesmo versículo, Michael Green escreve: “Pois revelação não é uma questão de recepção passiva: ela significa co-operação ativa”. Contudo, isso é o próprio oposto do que Pedro enfatiza no versículo. Green não faz nenhuma menção do sentido obviamente passivo de “impelidos”, ou como ele pode derivar cooperação humana a partir do texto. Certamente, Green serve somente como uma ilustração aqui em nossa discussão, visto que muitos outros descrevem a inspiração divina de tal maneira.

Que crenças e suposições Green está tentando proteger, de forma que ele as afirmaria mesmo quando elas não sejam encontradas no versículo, nem ao redor do mesmo? Ele continua: “O fato da inspiração não significa uma supressão dos funcionamentos mentais normais do autor humano… Além do mais, ele não usou qualquer homem, mas homens santos , aqueles que eram dedicados e comprometidos com o seu serviço. E mesmo com tais homens, ele não violentou suas personalidades…”.

Green está preocupado em preservar os “funcionamentos mentais” e as “personalidades” dos escritores humanos, e também o fato de que eles eram homens santos. E a partir disso ele infere que a revelação não pode ser “uma questão de recepção passiva”, mas demanda a “cooperação ativa” do homem. Para colocar isso de outra forma: ele quer prevenir o mau entendimento de que os escritores humanos estavam inconscientes, sem pensar, desapercebidos ou em transe quando eles falaram e escreveram da parte de Deus.

Contudo, a inferência de Green não se segue de sua preocupação. Quando eu escrevo, certamente a “caneta se move”, e quando eu jogo tênis, certamente a “raquete balança”. Num sentido, tanto a caneta como a raquete são ativas, mas elas são ativas somente em relação a si mesmas, e em relação à condição anterior de descanso delas. Com relação a mim, elas são completamente passivas, sendo impelidas pela minha força e meu objetivo, para cumprirem a minha ordem. Elas “cooperam”? Certamente! Mas isso não é por que eu cortesmente requeira a assistência delas, para que me permitam canalizar meu pensamento e energia através delas. Elas “cooperam” porque eu tenho controle sobre elas.

Tal analogia provocará muita indignação: “Quão maior é um homem do que uma caneta, e um ser inteligente pensante é de uma categoria inteiramente diferente comparado a uma raquete de tênis!”. Antes do que forçar uma visão correta do homem, essa objeção denuncia uma falsa visão de Deus. Pois se você pensa que Deus precisa que você esteja num transe ou algo parecido para tirar sua mente do caminho, e assim exercer controle exaustivo sobre você, então sua visão de Deus é pequena demais.

Certamente a “mente pensa”, mas o que a faz pensar? E o que a faz pensar certo pensamento de certa forma em cada momento da vida do homem? Você pensa que Deus não controla os estados de consciência mental do homem? Certamente Deus falou através de homens santos, mas o que fez com que eles fossem santos? Eles se criaram ou se fizeram santos, ou Deus, como diz a Escritura, a partir do mesmo barro criou alguns para propósitos nobres e outros para uso comum? “Pois é Deus quem efetua em vocês tanto o querer quanto o realizar , de acordo com a boa vontade dele” (Filipenses 2:13). É Deus quem opera no homem para produzir decisões e ações santas.

Além do mais, embora ele raramente o faça, Deus poderia falar tão facilmente suas palavras através de um homem ímpio, exercendo controle exaustivo sobre ele assim como ele o faz sobre todas as suas outras criaturas, incluindo os santos profetas, de forma que ele falaria suas palavras tão infalivelmente como os profetas o fizeram. Balaão é um exemplo de tal caso. Porque a inspiração não é uma questão de cooperação do homem, mas o poder do Espírito para impelir a pessoa a fazer e dizer tudo o que Deus quer. E o controle de Deus sobre o homem é tão exaustivo que ele não precisa suspender o pensamento e a personalidade da pessoa para falar através dela exatamente o que ele quer, visto que até mesmo o pensamento e a personalidade da pessoa estão debaixo do seu controle direto e contínuo.

Portanto, o fato de que os profetas retiveram seus “funcionamentos mentais” (na maioria das vezes), suas personalidades, e de que eles eram santos homens, não tem relevância imediata com o fato de se eles ofereceram cooperação ativa — Deus teve acesso direto e controle total sobre todos esses fatores. Antes, devemos perguntar a Pedro o que aconteceu à medida que os profetas falavam, e ele nos diz que eles estavam sendo “impelidos pelo Espírito Santo”, como se fossem navios passivamente levados pelo vento.

Agora, porque os cristãos afirmam que Deus inspirou cada palavra na Bíblia e não apenas as idéias gerais, os críticos algumas vezes alegam que isso equivale a reivindicar que Deus deu a Escritura por ditação , enquanto os profetas serviram como secretárias e as transcreveram. Então, sobre essa base, os críticos atacam a inspiração da Escritura apontando que tal teoria da ditação é inconsistente com as características reais da Escritura. E isso porque os vários documentos na Bíblia aparentemente refletem diferentes panos de fundos, personalidades, condições, e circunstâncias dos escritores humanos. Mas se a Escritura veio por ditação de Deus, então supostamente não deveria haver essas variações.

Teólogos rapidamente negam essa teoria de inspiração por ditação, acusando os críticos de atacar um espantalho. Muitos deles abordariam a questão a partir de uma perspectiva similar à de Michael Green, declarando que a inspiração não implica em ditação, mas embora ela tenha requerido a cooperação ativa dos escritores humanos, somente Deus “supervisionou” os escritos deles, de forma que o produto é tanto humano como divino, e ao mesmo tempo exatamente o que Deus pretendeu que fosse escrito.

Contudo, isso fica longe de uma resposta bíblica, e é em si, cheia de falsas suposições. Nós já temos dito algo sobre isso acima, quando interagimos com Michael Green, mas aqui aplicaremos e estenderemos o que dissemos para trata com a teoria da ditação em particular.

Mas antes de explicar o porquê devemos rejeitar a teoria, devemos apontar que não há nada inerentemente errado, repugnante ou impossível sobre a ditação. Se Deus tivesse escolhido falar suas palavras aos profetas e fazer com que eles escrevessem o que ouviam, então isso seria como a Bíblia teria sido escrita, e não haveria nada errado nisso. De fato, algumas partes da Bíblia foram aparentemente escritas dessa forma. Os profetas diriam algo sobre os contextos e as circunstâncias, e então relacionariam uma citação literal do que Deus lhes disse.

Mesmo se fossemos aplicar a ditação à toda Bíblia, ainda não haveria nenhuma dificuldade inerente. A objeção se origina a partir do fato de que a Bíblia reflete uma variedade de estilos e personalidades. Contudo, Deus não é um homem, e não tem as limitações e estreitezas da mente de um homem. Ele poderia ter ditado diferentes partes da Bíblia de diferentes formas para refletir sua imensidão intelectual. A questão essencial é se essa revelação multifacetada, todavia, exibe uma harmonia interna perfeita. Se não, então se Deus deu a Escritura por ditação é o menor dos nossos problemas; mas se sim, então essa variedade harmoniosa encontrada na Escritura não pode ser usada para se argumentar contra uma teoria de ditação da inspiração.

Embora não haja nenhum problema inerente com a ditação, há de fato vários razoes definitivas para se rejeitá-la como uma descrição ou explicação da inspiração bíblica. Nós discutiremos somente três — a teoria é falsa, irrelevante e fraca. Qualquer uma dessas razões seria suficiente como uma base para rejeitá-la.

Primeiro, devemos rejeitar a teoria da ditação simplesmente porque ela é falsa. Não que a ditação seja impossível em princípio, mas ela não é a forma como a Escritura foi escrita — ela não é a forma como a escrita aconteceu. Nós mencionamos que algumas partes da Escritura forma escritas quando os profetas registraram literalmente o que eles ouviram de Deus, mas o todo da Bíblia não foi escrito dessa forma, de forma que a teoria falha em descrever ou explicar a inspiração de toda a Bíblia. Contudo, mesmo que toda a Bíblia fosse escrita dessa forma, a ditação ainda falharia em descrever ou explicar a inspiração, pelo menos por causa das duas razões seguintes.

Segundo, a teoria da ditação é irrelevante. Embora ela seja chamada de a teoria de ditação da inspiração , ditação tem pouco ou nada a ver com inspiração. Ditação descreve como Deus fala a uma pessoa ou transmite que Deus fala a uma pessoa, mas inspiração refere-se ou deve incluir o que Deus faz para uma pessoa à medida que essa pessoa fala e escreve as palavras de Deus para produzir um produto preciso. Paulo refere-se à Escritura como soprada por Deus — algo que veio diretamente de Deus. E Pedro fala que homens falaram da parte de Deus à medida que eles foram impelidos. Em outras palavras, Deus não levou simplesmente os profetas a ouvirem suas palavras, e então deixou que eles relatassem o que ele disse da melhor forma que a capacidade humana deles permitiu, mas Deus os conduziu à medida que eles estavam falando e escrevendo suas palavras.

Deus poderia ditar suas palavras para um indivíduo não-inspirado e a pessoa poderia escrever o que ela ouviu, mas o produto ainda seria um documento não-inspirado , visto que sem inspiração no momento da escrita, a autenticidade e autoridade do documento dependeria da capacidade humana da pessoa não-inspirada de relembrar, arranjar e registrar o que ela pensava ter Deus revelada. E não há nenhuma garantia de que ela não subtrairia ou adicionaria algo do que ela ouviu. [15] De fato, Deus poderia falar dos céus, e alguns diriam que foi um trovão (João 12:29). Paulo diz que a Escritura é soprada por Deus, e não que os profetas ouviram as palavras sopradas por Deus, as quais eles tentaram então relatar sem qualquer garantia divina de sucesso ou perfeição.

Por essa razão, eu escrevi anteriormente:” Se Deus tivesse escolhido falar suas palavras aos profetas e fazer com que eles escrevessem o que ouviam, então isso seria como a Bíblia teria sido escrita, e não haveria nada errado nisso. De fato, algumas partes da Bíblia foram aparentemente escritas dessa forma”. Eu disse “aparentemente” porque a verdade é que, quando o assunto é inspiração, nenhuma parte da Bíblia foi realmente escrita por mera ditação. Mesmo quando a ditação esteve envolvida, se formos associar “inspiração” com o que Paulo e Pedro estão falando nas passagens que examinamos, então inspiração deve pelo menos se referir a como Deus conduziu os escritores humanos à medida que eles estavam falando e escrevendo as palavras de Deus, e não apenas quando eles estavam ouvindo a ditação. [16]

Portanto, se a Escritura não foi nada mais do que ditada, então ela não é inspirada. E mesmo que a ditação original fosse soprada por Deus, a menos que Deus tenha assegurado por sua onipotência que suas palavras foram fielmente registradas à medida que os escritores humanos escreveram, ainda não podemos dizer que o produto escrito é soprado por Deus. A teoria da ditação é irrelevante porque ela trata de outra coisa que não a questão sob consideração, isto é, se o produto escrito é a revelação infalível e inerrante de Deus. Como temos visto, a resposta de Paulo é que “Toda Escritura é soprada por Deus”, a despeito de que ela seja ditada ou não, ou se estamos nos referindo às narrativas, profecias ou genealogias.

Terceiro, a teoria da ditação é muito fraca para descrever ou explicar a inspiração divina da Escritura. Isso poderia surpreender algumas pessoas, visto que elas pensam que a ditação teria sido o método mais forte possível para Deus produzir a Bíblia através de escritores humanos. Contudo, temos mostrado que, se a Bíblia não fosse nada mais do que ditada de Deus para os homens, então ela não seria inspirada de forma alguma. Pois se tal fosse o caso, embora a ditação seria de fato soprada por Deus, e assim infalível e inerrante, nós não seríamos capazes de dizer o mesmo sobre o produto escrito.

As pessoas geralmente se opõem à teoria da ditação porque elas pensam que a ditação pura teria obscurecido as características pessoas dos escritores humanos, mas visto que a Bíblia exibe essas características, é dito que as Escrituras não foram dadas por ditação. A inerrância não está em questão aqui, como essas pessoas poderiam também afirmá-la, mas estamos tentando certificar o que aconteceu na inspiração, e a implicação dessa perspectiva é que a ditação é muito “forte” para descrever ou explicar a inspiração.

Contudo, o oposto é verdadeiro. O exposto acima falha em considerar de onde essas características humanas vieram antes de tudo. Elas não foram auto-criadas, e os escritores humanos não eram autônomos. A ditação não é falsa porque ela minimiza o papel humano, embora o papel humano foi meramente ser “impelido”, mas a teoria é falsa porque ela mina a soberania de Deus. Ela é falsa não porque dá pouca liberdade ao homem, mas porque ela atribui um controle muito pequeno a Deus.

Considere o relacionamento entre um empregador e sua secretária, não somente no nível interpessoal, mas no nível metafísico também. Em primeiro lugar, eles têm se que se encontrar. O empregador coloca um aviso de vaga, e uma pessoa interessada solicita o trabalho. Após examinar suas qualificações, o empregador aceita ou rejeita o candidato. Isso continua até que o empregador encontra uma candidata satisfatória e a contrata.

À medida que ela começa a trabalhar para esse empregador, a secretária traz para o seu trabalho sua educação, experiência, personalidade, sistema de crença, e até mesmo sua saúde – o empregador não tem nenhuma influência sobre esses fatores previamente determinados. Ele atribui várias tarefas para ela fazer, e um dessas é provavelmente escrever sua ditação. Ele ditaria à secretária memorandos, cartas e vários documentos. Para o nosso propósito, podemos até mesmo assumir que a sua ditação é sempre perfeita, de forma que toda a necessidade da secretária é escrever suas palavras exatamente como faladas. O produto escrito, certamente, deveria refletir somente a personalidade, vocabulário, e outras características do empregador, e não daquela secretária.

Após o trabalho, a secretária vai para casa. O empregador não tem acesso à sua vida privada, aos seus pensamentos internos, decisões pessoais e condição física. Ele não tem o direito ou poder de determinar quantos filhos ela tem, onde elas irão estudar, onde o seu marido trabalha, quais amigos ela faz, e quando a mãe dela morrerá. Tudo o que ele pode fazer é ditar suas palavras para ela, mas ela tem que escrever de sua própria vontade (o empregador humano não tem controle direto sobre a vontade dela) [17] e de acordo com sua capacidade.

A relação entre Deus e os escritores humanos da Escritura é totalmente diferente. Em primeiro lugar, Deus não encontrou os escritores humanos, como se eles fossem criados e desenvolvidos aparte de Deus, somente para descobri-los mais tarde, mas ele os fez de acordo com suas especificações. Comentando sobre um assunto relacionado, Geerhardus Vos escreve: “A revelação não brotou do caráter; pelo contrário, o caráter foi pré-determinado pelas necessidades da revelação”. [18]

Alguns teólogos são encontrados usando “propagação natural” para explicar as características humanas, incluindo a pecaminosidade universal do homem. [19] Contudo, a propagação natural é, na melhor das hipóteses, relativa — isto é, descreve a relação entre as gerações passadas e a atual — ela não funciona como a explicação metafísica da propagação dessas características, a relação entre Deus e os seres humanos, ou a relação entre Deus e a depravação humana.

De qualquer forma, Romanos 9:21 poderia se referir somente a Adão e Eva na melhor das hipóteses, mas certamente isso é impossível — o contexto imediato, bem como toda a Bíblia, proíbe tal interpretação, nem eu alguma vez li alguém propor tal absurdo. Aqueles que fazem da propagação natural quase uma explicação absoluta das características humanas, parecem ignorar totalmente esse versículos e outros como ele, e dão sua teoria; isto é, de fato, o que eles precisariam fazer. Também, essa perspectiva nunca foi capaz de explicar a origem do pecado. Seus proponentes devem relegá-la ao mistério completo.

Antes, esse versículo, bem como toda a Bíblia, afirma o controle direto e total de Deus sobre as características e destinos de todas as criaturas humanas. [20] E isso é tanto a explicação imediata como a última de todas as características humanas, e para a origem e a perpetuação da depravação humana. Como Lutero escreve: “os filhos da ira ” são “criados assim pelo próprio Deus”, segundo o padrão de Adão. [21]

Portanto, as várias características humanas exibidas na Escritura nunca podem minar sua inspiração, pois essa variedade é parte do desígnio de Deus. Deus não ditou a Escritura usando somente uma série de características (personalidade, vocabulário, etc.), nem ele a ditou usando várias séries de características. Antes, se desejamos falar em termos de ditação, toda a criação é “ditação” de Deus, incluindo esses escritores humanos que exibiram características diferentes, visto que essas próprias características foram “ditadas” por Deus. Ele não somente ditou as palavras da Bíblia, mas ele “ditou” as próprias pessoas que falaram suas palavras e usaram suas canetas para escrevê-las. E ele até mesmo os “impeliu” à medida que eles o faziam.

Este é o porquê uma teoria de mera ditação verbal é muito fraca para descrever ou explicar a inspiração bíblica, visto que por detrás da produção da Escritura está o controle exaustivo e abrangente de Deus sobre toda a história e toda a humanidade, incluindo a ascensão e queda de nações, cada ato bom, cada pensamento mal, o curso de cada gota de água, e o comprimento e número preciso dos cabelos de uma pessoa. E mesmo agora ele sustém todas as coisas por sua palavra (Hebreus 1:3).

Que insulto, então, seria dizer que ele ditou as palavras para escritores humanos, ou que esses escritores humanos “ativamente cooperaram” com Deus. Não, Deus primeiro “escreveu” os próprios profetas e então “impeliu-os” a escrever a Bíblia. Ele criou, causou, e impeliu os homens a escreverem suas palavras. Nenhuma descrição ou explicação mais fraca pode fazer justiça à inspiração da Bíblia.

Para sumarizar nossa posição sobre a inspiração e autoridade da Escritura, Edward Young está correto quando ele diz que a Bíblia “não é um livro mágico que caiu do céu”; [22] contudo, o resultado é o mesmo. A Bíblia que temos agora é tão absolutamente infalível, inerrante e autoritativa que ela é como se Deus tivesse tomado uma caneta e escrito ele mesmo todo o livro, e então jogasse ela dos céus para nós. Mas nós já fizemos a declaração mais forte possível sobre isso bem antes, isto é, quando nos referimos à Bíblia num sentido personificado, Deus e a Escritura são intercambiáveis.


2. SUFICIENTE

Embora não seja o foco principal da nossa passagem (2 Timóteo 3:14-17), gastamos muito tempo sobre a inspiração da Escritura pois, além de sua importância inerente, ela é o fundamento para uma visão apropriada da suficiência e da utilidade da Escritura. Dada suas reivindicações e propósitos, a Bíblia pode ser suficiente e proveitosa somente à extensão em que ela é autoritativa, de forma que uma visão falsa da inspiração limitaria e distorceria todos os aspectos de nossa relação com a Escritura — isto é, todos os aspectos de nossa vida e relacionamento cristão com Deus.

A Escritura é a própria palavra e mente de Deus, e assim como é uma contradição dizer que amamos uma pessoa, mas odiamos tudo sobre ela (visto que tudo sobre ela é ela), nosso amor, fé, e reverência para com Deus nunca pode ser mais alto do que nosso amor, fé e reverência para com a Bíblia. Assim, somente a visão mais alta e mais extrema da inspiração pode servir como um fundamento apropriado para a nossa vida cristã. À medida que procedermos, tornar-se-á evidente como a suficiência e utilidade da Escritura são dependentes de sua inspiração divina e autoridade absoluta.

Agora, quando diz respeito à suficiência da Escritura, não podemos simplesmente dizer que “a Escritura é suficiente”, e parar nesse ponto. E isso porque a idéia de suficiência permanece vazia e sem significado, a menos que perguntemos: “Para o que a Escritura é suficiente?” e “Para quem a Escritura é suficiente?”. Algo que é “suficiente” é suficiente para alguma coisa, e não “suficiente” em geral ou de forma abstrata. A Bíblia contém as respostas, mas quais são as perguntas?

Isso trás à mente um problema pastoral comum. Os cristãos freqüentemente fazem perguntas que, antes de tudo, eles nem mesmo deveriam fazer, ou que estão latentes com falsas suposições e preocupações anti-bíblicas, de forma que, desde o início, a abordagem deles cega-os para o que a Escritura está realmente dizendo.

Por exemplo, alguém poderia se queixar: “Eu entendo que a Bíblia é suficiente, mas ela não me diz quais ações devo comprar”, ou menos reverentemente: “Você diz que a Bíblia é suficiente, mas ela não me diz quais ações comprar”. Certamente, as pessoas fazem perguntas sobre todos os tipos de assuntos. Outra poderia ser: “A Bíblia não me diz com quem devo casar, assim, supõe-se que eu devo decidir”. Dessa forma, eu não estou somente pensando sobre ações, mas há problemas comuns com essas perguntas; assim, com as adaptações apropriadas, a seguinte resposta se aplicará a todas elas.

Primeiro, como a maioria das pessoas, essa pessoa provavelmente nunca leu toda a Bíblia, assim, ela está apenas assumindo que a Bíblia não especifica, até mesmo por nome, quais ações ele supostamente deve comprar. E mesmo se ela leu toda a Bíblia, ela não pode dizer que já derivou tudo o que é possível dela. Na maioria dos casos a Bíblia tem algo muito específico para dizer sobre a pergunta, e uma pessoa pode sempre derivara alguns princípios definidos que lhe fornecerão a escolha correta óbvia ou pelo menos limitará grandemente as opções admissíveis. O problema é que essa pessoa tem um conhecimento muito pequeno do que a Bíblia diz.

Segundo, a pessoa assume um objetivo e os meios para esse objetivo que ela provavelmente não derivou da Bíblia, e então espera que a Bíblia a instrua sobre como conseguir esse objetivo por tais meios. Ela deseja um lucro financeiro, e pensa que comprar as ações certas seria o modo instantâneo de alcançar esse objetivo, e visto que a Bíblia é infalível, ele se aproxima dela para encontrar a resposta. Mas a Bíblia aprova ou ordena tal objetivo? Se sim, ela diz que esse é o modo instantâneo correto de alcançá-lo? O que dizer sobre loteria? A Bíblia é insuficiente se ela não disser quais números você deve escolher?

Muitas pessoas primeiro definem o que elas querem ou necessitam aparte da Bíblia, e então vão à Bíblia para encontrar as respostas. Numa situação financeira, eles pensariam: “A Bíblia é supostamente suficiente para toda a situação que eu enfrentar na vida, e para me relatar a opinião de Deus sobre o assunto. Com esse problema que estou enfrentando, o que eu devo fazer para conseguir um lucro ou para não sofrer prejuízo?”.

Eles parecem buscar direção a partir da Bíblia, mas eles já assumiram o resultado apropriado que a Bíblia deve supostamente ajudá-los a alcançar. Contudo, eles nunca perguntam à Bíblia se Deus deseja que eles obtenham lucro ou que eles sofram perdas. Seu respeito e dependência da Bíblia não começam a partir do topo de suas prioridades e do processo de raciocínio deles, mas somente quando eles já fizeram suposições suficientes aparte da Bíblia, a qual eles estão dispostos a considerar agora para satisfazer aquelas suposições.

Mas a Bíblia poderia não lhes oferecer as respostas que eles procuram, visto que, antes de tudo, ela provavelmente nunca aprovou o que gerou as perguntas. Ou, em nosso exemplo, mesmo que a Bíblia declarasse o lucro como um objetivo apropriado, ela poderia o fazer por uma razão diferente, ou a partir de outra perspectiva, adicionando diferentes motivos e suposições antecedentes. [23]

O ponto é que a Bíblia nos fala sobre seus próprios propósitos e poderes, para o que ela é e o que ela pode fazer. A Bíblia nos diz quais são as coisas importantes na vida e quais perguntas devemos fazer sobre elas, e então ela responde essas perguntas. E visto que a Bíblia é a própria palavra e mente de Deus, é Deus quem está dizendo essas cosias para nós.

Portanto, a Bíblia deve definir tanto as perguntas como as respostas. Ela é autoritativa e suficiente para nos dizer quais perguntas fazer e então responder essas perguntas. A Bíblia é suficiente pois ela é ao mesmo tempo a revelação de Deus das perguntas corretas e a revelação de Deus das respostas corretas para essas perguntas. Se a Bíblia não trata de alguma coisa, então quem disse que precisamos saber tal coisa? Mas se há necessidade de conhecê-la, então como a Bíblia pode ser insuficiente por não tratar dela? Em contraste, a filosofia humana faz as perguntas erradas, e então ela não pode nem mesmo responder essas perguntas erradas.

Aqueles que vão para a Bíblia somente para as respostas e não para as perguntas, revelam uma reverência fingida Eles não estão tratando Deus como Deus, mas como um mero expert que eles desejam consultar para obter seus próprios objetivos. Por detrás de tudo isso está a rebelião e incredulidade deles — eles recusam deixar Deus definir seus objetivos ou eles duvidam que a vontade de Deus seja melhor, ou ambas as coisas.

Em nosso exemplo, o objetivo de obter um lucro é tão precioso para o coração da pessoa que ao invés de deixar a Escritura desafiá-lo ou modificá-lo, ela até mesmo defendê-lo-ia da Escritura. O objetivo é sustentado tenazmente, e não aberto para discussão — a pessoa apenas deseja saber como alcançá-lo. Esse objetivo dirige tanto a sua agenda que a pessoa pensa em até mesmo perguntar se a Bíblia está certa, ou se ela está pensando sobre a Bíblia da maneira correta.

Novamente, aqui não estão considerando o que a Bíblia diz sobre riqueza e ações, mas estamos estabelecendo o ponto de que a Bíblia deve definir tanto as nossas perguntas como as nossas respostas desde o próprio início do nosso pensamento. Nós também mencionamos uma pergunta sobre com quem se casar. Aplicando nosso ponto a essa pergunta, estamos dizendo que ao invés de levar para a Bíblia tudo o que a pessoa pensa que ela sabe sobre casamento e então demandar que ela lhe diga com quem se casar sobre tal base, a pessoa deve começar estudando o que a Bíblia ensina sobre Deus e o homem, então sobre homens e mulheres, sobre Cristo e a Igreja, e sobre o pacto do casamento em geral. Então, ao invés de demandar que a Bíblia responda uma pergunta que ela nunca faz, ou pelo menos na forma e com as suposições que essa pessoa faz sua pergunta, a resposta sobre com quem ele deveria se casar deve ser uma aplicação lógica do que a Bíblia ensina sobre casamento.

Uma pessoa que não presta atenção quando a Bíblia fala sobre o que é casamento não pode esperar derivar corretamente uma resposta a partir da Bíblia sobre com quem ela deveria se casar. Mas para alguém que começa com a Bíblia sobre o assunto, a resposta é fácil — aplicando o que a Escritura diz sobre casamento ao que a providência arranjou em volta de uma pessoa, frequentemente elimina todas as outras possibilidades, exceto uma. [24] Pastores e conselheiros algumas vezes assumem que a Bíblia oferece somente direção geral sobre um assunto, mas isso não é verdade. A Bíblia dá muitas instruções e critérios específicos, e a providência nunca nos confunde com muitas opções.

De forma consistente com o que ensinamos aqui, até mesmo a idéia de suficiência a seguir é derivada de nossa passagem, e as perguntas “Suficiente pra que?” e “Suficiente pra quem?” também surgem dela. Paulo nos diz que a Escritura é soprada por Deus, e por causa disso, ela é útil ou proveitosa, e também suficiente. Mas ele nos diz mais do que isso, ao afirmar também para o que e para quem a Escritura é suficiente.

Certamente, para aprender tudo para o que a Escritura é suficiente, a pessoa deve ler a Bíblia toda e observar todos os assuntos, situações e pessoas que ela trata. Mas nosso projeto e muito mais modesto — nos limitaremos a 2 Timóteo 3 e 4.


a. Suficiente pra que?

Paulo diz que os “escritos sagrados” (NASB, ESV) são “capazes de te fazer sábio para salvação através da fé em Cristo Jesus” (2 Timóteo 3:15). A salvação é uma das principais preocupações da Escritura, e Paulo afirma que ela é “capaz” de nos dar a resposta para esse assunto totalmente importante. Ela faz a pergunta: “Se tu, Soberano Senhor, registrasses os pecados, quem escaparia?” (Salmo 130:3). E então ela responde: “Mas contigo está o perdão para que sejas temido” (v. 4). Ela nos diz como Deus pode ser ao mesmo tempo “justo e aquele que justifica” pecadores (Romanos 3:26).

A declaração de Paulo sobre a Escritura é feita em contraste contra as pessoas descritas em 3:1-13. Entre outras coisas, essas pessoas são “homens de mentes depravadas” (v. 8). Eles são “homens perversos e impostores” que estão “enganando e sendo enganados” (v. 13), “tendo uma forma de piedade mas negando seu poder” (v. 5). Portanto, à medida que Paulo afirma a suficiência da Escritura quando diz respeito à salvação, ele está ao mesmo tempo condenando qualquer forma de religião e estilo de vida que não é derivado dela. É a Bíblia que nos leva à salvação, e é isto que nos faz diferente desses homens perversos.

A Escritura é a luz da salvação. A Bíblia nos fornece as categorias e conceitos de bom e mal, lei e pecado, salvação e condenação, e então nos dá a verdade sobre esses assuntos. Aparte dela, o homem permanece envolto em trevas. Sem ela, o homem permanece preso por sua própria especulação tola, de forma que não há salvação para aqueles que rejeitam seus ensinos.

A filosofia humana tem sido uma fracasso lúgubre. Mesmo que o homem produza as perguntas corretas, ele certamente não tem as respostas consigo mesmo, e todo seu esforço é nada mais do que cegueira e rebelião, levando ao desespero, morte e condenação. Consequentemente, é uma traição espiritual que cristãos professos admitam que há alguma sabedoria em toda religião e filosofia. Ter uma mente dúbia sobre esse assunto é enfraquecer e confundir a mensagem de salvação.

Essa mensagem é clara, específica e exclusiva, pois Paulo diz que a sabedoria da Escritura nos leva à salvação "através da fé em Cristo Jesus" (v. 15). E por todas as suas cartas, Paulo não deixa dúvida sobre o que ele quer dizer por “fé em Cristo Jesus”. Uma pessoa não deve somente crer na graça de Deus e na expiação de Cristo, mas essa fé deve excluir a dependência de qualquer outra coisa. Em adição, essa é uma fé que Deus soberanamente dá aos seus escolhidos — ela não é algo que uma pessoa ímpia e incrédula possa simplesmente decidir de repente gerar por si mesma.

A sabedoria humana tentará adicionar à essa fé as boas obras, os rituais sagrados, a graça infundida, e tudo o mais que eles possam imaginar, mas então eles retornam ao “tendo uma forma de piedade, mas negando seu poder”. Qualquer mensagem de salvação que demande mais ou menos do que a “fé em Cristo Jesus” soletra a condenação para aqueles que a pregam e a seguem (veja Gálatas 1:8-9). É a “vida e doutrina” bíblica que “salvará tanto a si mesmo quanto aos que o ouvem” (1 Timóteo 4:16).

De acordo com alguns, o caminho para salvação é tão simples, mesmo de uma perspectiva humana e natural, que “até mesmo os loucos, nele não errarão” (Isaías 35:8, ARA), no sentido de que até mesmo os loucos podem entender o evangelho e não cometer engano sobre ele. Contudo, o versículo está dizendo exatamente o oposto: “E ali haverá uma grande estrada, um caminho que será chamado Caminho de Santidade. Os impuros não passarão por ele; servirá apenas aos que são do Caminho; os insensatos não o tomarão” (NVI). Isto é, “o Caminho” (Atos 9:2, 19:9, 23, 24:14, 22) é reservado para aqueles a quem Deus escolheu e Cristo redimiu, de forma que os impuros e os loucos não entrarão nele, e nem mesmo tropeçam sobre ela ou vagam por ela por engano.

Os loucos espirituais nunca podem encontrar a salvação por si mesmos. Eles estão tão longe do seu alcance que nem mesmo tropeçam nela. Todos são loucos espirituais por natureza, mas a Bíblia pode tornar uma pessoa sábia para a salvação através da fé em Cristo Jesus. [25] Assim, a Bíblia é suficiente para a salvação.

Então, Paulo escreve “Toda Escritura…é útil…para que o homem de Deus seja apto e plenamente preparado para toda boa obra” (v. 16-17). A NIV obscurece a tripla ênfase sobre a suficiência da Escritura nesse versículo. A NKJ é melhor — ela diz, “para que o homem de Deus possa ser completo, plenamente preparado para toda boa obra”.

A palavra “completo” pode significar “adequado”, “preparado”, e “capaz” (ESV: “competente”). A KJV tem “perfeito”, que carrega o mesmo significado no inglês antigo. A palavra traduzida “plenamente preparado” ou “completamente equipado” é ainda mais descritiva no original. Juntas com “toda boa obra”, Paulo está obviamente fazendo um esforço especial para enfatizar a suficiência da Escritura. Ela é suficiente. Ela é completa. Você não precisa de mais nada.

O versículo 17 está principalmente se referindo a Timóteo em sua capacidade como um ministro — isto é, como um “homem de Deus”. Assim, a Escritura é suficiente para equipar completamente Timóteo para toda “boa obra” que ele precisaria realizar no ministério. Contudo, não devemos isolar essa declaração dos versículos ao redor. Paulo também faz um contraste entre Timóteo e os homens perversos que ele tinha estado descrevendo. Nos versículos 1-13, Paulo menciona pessoas que são, entre outras coisas, “amantes de si mesmas”, “amantes de dinheiro”, “amantes mais do que prazer do que de Deus”, “tendo uma forma de piedade, mas negando seu poder”, “homens perversos e impostores”, que estão “enganando e sendo enganados”. E é contra esse pano de fundo que Paulo diz a Timóteo: “Quanto a você, porém, permaneça nas coisas que aprendeu e das quais tem convicção”, e por isso ele quer dizer “as Sagradas Letras” (v. 15) e “Toda Escritura” (v. 16).

Portanto, Paulo não está somente dizendo a Timóteo que a Bíblia é suficiente para equipá-lo como um ministro para efetuar a santificação em outros, mas ele está dizendo também que a Bíblia pode torná-lo o oposto daquelas pessoas más que ele tinha acabado de descrever. Isto é, se Timóteo persistisse em seguir seus ensinos, a Bíblia o tornaria um amante de Deus mais do que um amante do mundo, e ele teria o poder e realidade da piedade, ao invés de uma mera aparência dela. Ao invés de ficar “enganando e sendo enganado”, ele seria capaz de salvar a si mesmo, bem como aqueles que o ouvissem (1 Timóteo 4:16).

Paulo aplica a suficiência da Escritura para o “treinamento na justiça” e “toda boa obra”. A Escritura é, assim, uma revelação completa e suficiente da vontade de Deus pelo fato dela poder sempre nos mostrar o caminho certo, isto é, o caminho que leva à justiça. Muitas pessoas lutam com a suficiência da Escritura, constantemente se queixando sobre o que a Bíblia não lhes diz, pois eles querem-na para apontar o caminho para a prosperidade, um resultado favorável, ou alguns outros efeitos que eles desejam. Mas o ponto de Paulo é que se a Escritura for perfeitamente seguida, então nós nunca faremos algo que é pecaminoso, e tudo o que fizermos será uma “boa obra” aos olhos de Deus.

Certamente, com a pecaminosidade remanescente nos crentes, a perfeita obediência à Escritura não é alcançada nessa vida, mas o ponto é que a informação necessária para definir a justiça perfeita para cada situação, e cada área da vida e pensamento, está de fato contida na Escritura. A Bíblia é suficiente para santificação. Isso significa que ela pode nos fazer crescer em conhecimento e santidade, e nos proteger do engano e contaminação. Se pecamos, se falhamos, e se não conhecemos o caminho certo, nunca é porque a Bíblia carece de advertências e instruções relevantes.


b. Suficiente pra quem?

Visto que a Bíblia é a palavra de Deus, e visto que Deus tem o direito, o poder e a sabedoria para definir nossas necessidades e satisfazer essas necessidades, os cristãos corretamente assumem que a Bíblia é para todos. Por isso queremos dizer que toda pessoa deve aprender a partir da Bíblia quais são suas necessidades e então derivar a partir dela a sabedoria para satisfazer essas necessidades, e que ela deve aprender a partir da Bíblia quais são os seus deveres e extrair dela a força para cumpri-los.

A despeito de tempos e culturas, a Bíblia exerce autoridade absoluta sobre todo ser humano. Toda pessoa deve crer nela, obedecê-la, e então ser julgado por ela. Nela está a mensagem que salva alguns para o céu e condena todos os outros para um inferno sem fim. Qualquer que se aproxime de Deus deve vir até ele através da fé na Bíblia. Ela governa a humanidade, e nela está escrito o destino do mundo. Quer estejamos nos referindo a crentes ou incrédulos, eles estão agindo exatamente da maneira que a Bíblia diz que eles iriam agir, e seus respectivos destinos também serão exatamente aqueles que a Bíblia prediz. Ninguém está isento, e ninguém pode escapar — você cairá sobre a Rocha e será despedaçado, ou a Rocha cairá sobre você e te reduzirá ao pó.

Os pecadores zombam da noção de que a humanidade possa ser governada por um livro, mas como a Escritura diz, a sabedoria de Deus soa como loucura para aqueles que estão em direção à condenação, não que Deus seja louco, mas são os pecadores que são muito estúpidos e ludibriados para reconhecerem a verdadeira sabedoria. Além do mais, como já temos mencionado mais de uma vez, visto que a Bíblia é a revelação exata e direta de Deus, dizer que a Bíblia governa o mundo é dizer que Deus governa o mundo. Não há diferença.

Com tal poder e relevância, certamente a Bíblia é suficiente para todas as pessoas. Por que, então, ainda fazemos a pergunta: “Suficiente pra quem?”. Mesmo que fosse necessário responder antes, agora que já temos declarado uma resposta geral que abrange toda pessoa, precisamos ir mais adiante?

Para os propósitos mais gerais, podemos de fato parar nesse ponto, visto que não há nenhuma exceção para o que temos dito. Contudo, a própria Bíblia reconhece diferentes categorias de pessoas, e fornece informação específica sobre elas e instruções direcionadas para elas. Ela se dirige a reis, juízes, e outros em autoridade, delineando tanto seus poderes como seus deveres. Ela fala a maridos e esposas, distinguindo seus papéis e posições no lar. Ela menciona diferentes tipos de pecadores, tais como assassinos, ladrões, homossexuais, ordenando-lhes que se arrependam dos seus atos maus, creiam no evangelho, e então mudem seus comportamentos.

Em outras palavras, embora a Bíblia seja suficiente para toda pessoa, e embora toda pessoa precise da Bíblia, prestar atenção a instruções específicas na Escritura sobre diferentes grupos de pessoas nos capacita a fazer aplicações deliberadas e eficazes. Agora, para listar todos os diferentes grupos especificados na Bíblia requereria abordar toda a Bíblia. Trataremos apenas com aqueles mencionados e implicados em nossa passagem e versículos circunvizinhos.

No versículo 15, Paulo diz a Timóteo: “desde a infância você conhece as sagradas Escrituras” (NIV). Outra boa tradução seria “desde um infante”. A palavra refere-se a uma criança em gestação em Lucas 1:41 e 44, onde ela é traduzida por “bebê” ou “neném”. Em Lucas 2:12 e 16, a palavra refere-se a alguém que acabou de nascer.

Ela é traduzida como “recém-nascidos” em Atos 7:19. Ali o contexto é a ordem de Faraó para matar todas as crianças do sexo masculino nascidas dos Hebreus (Êxodo 1:16). A ordem parecia demandar ação imediata, visto que supostamente as parteiras deveriam observar o sexo dos bebês nos próprios “assentos” (ARC). A mãe de Moisés o escondeu por três meses após ele nascer (2:2). O texto é claro que, com relação à ordem de Faraó, não lhe era permitido esperar esse tempo. É possível que a palavra inclua levemente uma criança mais velha em Lucas 18:15, mas permanece que a palavra refere-se a uma criança muito pequena.

Ao invés de “desde a infância” ou “desde um infante”, várias traduções dizem “desde a meninice” ou “desde uma criança”. A primeira definição no Merriam-Webster para “criança” é “uma pessoa em gestação ou recentemente nascida”, e a segunda é “uma pessoa jovem, especialmente entre a infância e a adolescência”, mas não exclui o infante. Usar “criança”, portanto, não é necessariamente errado, mas a menos que seja entendido que o significado é uma criança muito jovem; é mais claro e preciso usar “infância” ou “infante” em nosso versículo (2 Timóteo 3:15).

As crianças judias aprendiam a Escritura numa idade muito precoce, provavelmente tão logo elas pudessem entender o idioma. De fato, é provável que elas aprendessem o próprio idioma a partir da Escritura. É sugerido que a frase incomum para a Escritura, traduzida como “as sagradas letras” em nosso versículo, poderia significar que Timóteo aprendeu a ler e escrever com a Bíblia como o seu livro-texto. Mas quer isso seja o que o versículo implica ou não, é claro a partir do Antigo Testamento que os judeus eram ordenados a educar diligentemente seus filhos na Escritura.

Desde o princípio, o povo de Deus tem sempre enfatizado o transmitir a sua fé para as gerações futuras. Como Deus diz com respeito a Abraão em Gênesis 18:18: “Pois eu o escolhi, para que ordene aos seus filhos e aos seus descendentes que se conservem no caminho do SENHOR, fazendo o que é justo e direito, para que o SENHOR faça vir a Abraão o que lhe prometeu”.

Os judeus enfatizavam veementemente a educação religiosa precoce das crianças. Há várias características essenciais sobre o método deles. Primeiro, ela envolve imersão completa:

“Ouça, ó Israel: O SENHOR, o nosso Deus, é o único SENHOR. Ame o SENHOR, o seu Deus, de todo o seu coração, de toda a sua alma e de todas as suas forças. Que todas estas palavras que hoje lhe ordeno estejam em seu coração. Ensine-as com persistência a seus filhos. Converse sobre elas quando estiver sentado em casa, quando estiver andando pelo caminho, quando se deitar e quando se levantar. Amarre-as como um sinal nos braços e prenda-as na testa. Escreva-as nos batentes das portas de sua casa e em seus portões” (Deuteronômio 6:4-9; veja também 11:18-20)

Cada situação e cada momento do dia fornece o contexto para ensinar às suas crianças a Escritura.

Além do mais, elas não eram encorajadas a serem originais e criativas, a produzirem suas próprias respostas às coisas espirituais, ou a explorar as várias opções oferecidas pelas nações pagãs ao redor delas. Pelo contrário, elas eram ensinadas sobre o que crer, como se comportar, e o que evitar e se opor. Elas não eram ensinadas a “pensarem por si próprias”, [26] como se crianças pecadoras pudessem responder às questões últimas aparte da revelação, ou como se elas pudessem ditar a Deus como Deus deveria ser adorado. Não, elas eram ensinadas a pensar o que Deus lhes dizia para pensar.

Esse método de educação é extremamente uma transmissão de fatos precisos e conhecimento, um método que a mente ocidental contemporânea detesta, que é também o porquê o conhecimento e inteligência mediana da mente ocidental contemporânea parece ter mergulhado num nível baixo irrecuperável.

Como Hendriksen escreve:

Quando à metodologia, como regra geral, os israelitas não tinham aversão pela memorização. Até certo ponto, a necessidade exigia e o senso comum ditava que a memorização recebesse um lugar de proeminência no sistema educativo (Is 28:10). Às vezes esse método podia receber uma ênfase indevida, assim como na atualidade se põe bem pouca ênfase sobre ele.

A noção de que educadores só deviam fazer aquelas perguntas que ninguém senão a criança deve responder (!) só era favorecida por homens como Eli (“Por que fazem tais coisas?”, 1Sm 2:23), que fracassou miseravelmente na tarefa de criar seus filhos. Deus exigia que, ao fazer perguntas, fossem dadas respostas definidas (Êx 13:8; Dt 6:7; 6:20-25; 11:19; Js 12:26-28); que aos filhos fossem ensinados os estatutos de Jeová; que se transmitisse de geração em geração um corpo de verdade em relação às palavras e aos feitos de Jeová. [27]

A força e a fraqueza desse método é a mesma — ele é somente tão bom quanto os conteúdos que são ensinados. Mas quando o que é tão rigidamente ensinado é, de fato, a própria palavra e mente de Deus, nenhum outro método e nenhuma perspicácia humana pode rivalizar seu poder e excelência. Ele é o único método apropriado para ensinar um livro perfeito. Assim, a Bíblia deve ser dogmaticamente impressa sobre as crianças, tanto em programas sistemáticos como em conversações diárias, antes do que criativamente subvertida por teorias modernas, que encorajam as crianças a darem plena expressão aos seus corações perversos e tolos. [28] Isso não precisa ser feito de uma maneira forçada e maçante, mas quando propriamente realizada, pode ser feito de uma forma muito natural e agradável.

Contra esse método de imersão religiosa dogmática precoce, muitos cristãos professos dizem que eles preferem esperar até que suas crianças se tornem mais velhas, de forma que elas possam estudar as várias religiões e filosofias, e então “decidir por si mesmas”. Esse tipo de pensamento, certamente, tem sido adotado da filosofia de criação de filhos dos incrédulos, embora ela nunca seja realmente praticada por eles. Antes, as crianças são imersas em suas crenças e valores anti-bíblicos. E quando os pais “cristãos” tentam evitar o ensino da religião às suas crianças, o que essas crianças acabam aprendendo? Quer certo ou errado, bíblico ou anti-bíblico, é impossível que as crianças não aprendam nada até que se tornem adolescentes ou adultas elas não viverão na suspensão espiritual.

Os pais que evitam a doutrinação bíblica das suas crianças estão em direto desafio contra os mandamentos de Deus. Isso deveria ser suficiente para condenar a negligência, que é uma forma de abuso espiritual infantil. E como mencionado acima, isso é muitas vezes praticado deliberadamente, e até mesmo crido como sendo uma forma superior de criar os filhos. Assim, eles não somente desobedecem a Deus, mas esses pais pensam que sabem mais do que ele sobre como amar e criar as suas crianças.

Essa prática de reter os ensinos bíblicos das crianças denuncia outro problema. Tão claramente como o exposto acima, isso também questiona a fé pessoal dos pais. Parte do método bíblico de total imersão religiosa tem a ver com responder as perguntas das crianças sobre a fé dos pais. Como Deus declara em Êxodo:

“Obedeçam a estas instruções como decreto perpétuo para vocês e para os seus descendentes. Quando entrarem na terra que o SENHOR prometeu lhes dar, celebrem essa cerimônia. Quando os seus filhos lhes perguntarem: ‘O que significa esta cerimônia?’, respondam-lhes: É o sacrifício da Páscoa ao SENHOR, que passou sobre as casas dos israelitas no Egito e poupou nossas casas quando matou os egípcios”. Então o povo curvou-se em adoração. (12:24-27; veja também 13:14-16)

Se os pais praticam sua fé de alguma forma, as perguntas religiosas das crianças são inevitáveis. Os pais vão à igreja, recebem comunhão, lêem a Bíblia, fazem petições a Deus, pregam o evangelho aos seus vizinhos? Se eles fazem qualquer uma dessas coisas, então as crianças irão lhes fazer perguntas sobre isso. Elas dirão: “Que lugar é esse? Por que vamos à igreja? O que você está lendo? Eu posso ler? Com quem você conversa quando abaixa sua cabeça assim? E quem é esse Jesus sobre quem você estava falando com o Tio Bob?”.

E esses pais alguma vez exibiram uma integridade que intrigou suas crianças? “Mãe, por que você devolveu o dinheiro quando a pessoa do armazém te deu um troco a mais?”. Ou, o que esses pais dizem quando eles falam para suas crianças não mentir, e elas perguntam: “Por que?”. A resposta será teocêntrica ou antropocêntrica. Ela será baseada na revelação bíblica e nas leis morais absolutas, ou em preocupações pragmáticas e em mera conveniência. As crianças serão doutrinadas de uma forma ou de outra.

Pais que pensam que a religião é muito difícil ou entediante para as crianças denunciam uma ignorância fundamental tanto de religião como de crianças. Deus declara que a religião é um assunto apropriado de conversação todo o tempo. Era esperado que essas crianças aprendessem sobre Deus, o Egito, a escravidão, liberdade, graça, poder, oração, e rituais, bem como as proibições contra coisas tais como homossexualidade de bestialidade. Se ensinado propriamente a partir da Bíblia, e se ensinado dentro da estrutura da cosmovisão cristã, nenhum assunto é muito adulto para as crianças ouvirem.

Quanto aos pais cujas vidas nunca geram perguntas religiosas em suas crianças de forma alguma, muito provavelmente eles não são cristãos em primeiro lugar. Eles são apenas falsos conversos tentando evitar agir como crentes verdadeiros. Porque se eles de fato percebessem a religião como uma questão de salvação ou condenação, antes do que uma questão de mera preferência e bem-estar mental, então sem dúvida eles ensinariam seriamente todo o conselho de Deus às suas crianças, e a praticar a fé diante delas.

Agora, mesmo que as crianças tenham sido propriamente instruídas desde a infância, haverá um tempo quando o mundo as desafiará e se oporá ao que lhes tem sido ensinado. A fé delas será testada. Como Paulo escreve em nossa passagem: “todos os que desejam viver piedosamente em Cristo Jesus serão perseguidos” (2 Timóteo 3:12). A solução é simplesmente “permaneça nas coisas que aprendeu e das quais tem convicção” (v. 14). A Bíblia é suficiente para ensinar até mesmo infantes, e se eles continuarem no que aprenderam, isso será visto através de perseguição e tempos desfavoráveis.

Finalmente, o fato da Bíblia ser suficiente para ensinar crianças também implica que os materiais extra-bíblicos são desnecessários para alcançar o resultado desejado. É desnecessário suplementar as instruções verbais dogmáticas com desenhos, fantoches, brinquedos e todos os tipos de acessórios. O método correto é imergir as crianças nos ensinos bíblicos, e lhes impor com disciplina.

Como mencionei anteriormente, o “homem de Deus” no versículo 17 está se referindo principalmente a Timóteo como um ministro ou pregador, ao invés de a um cristão em geral. Certamente, muito do que se aplica a um ministro também se aplica a qualquer cristão, e o que é suficiente para um pregador deveria ser suficiente para qualquer crente. Todavia, Paulo está de fato tratando de alguns problemas prementes com relação à situação de Timóteo como um ministro, e visto que não podemos reservar tempo para dar uma exposição completa, podemos considerar somente a ênfase primária do versículo.

Observe novamente os problemas e a pessoas que Paulo tem mencionado até aqui. Ele menciona pessoa que são “antes de si mesmas”, “amantes de dinheiro”, “não amantes do bem”, “mais amantes dos prazeres do que amigos de Deus”, e “tendo aparência de piedade, mas negando o seu poder”, eles são “perversos e impostores” que estão “enganando e sendo enganados”.

Contra os “tempos terríveis” (3:1) nos quais Timóteo deve viver, Paulo lhe lembra que seria suficiente se ele “permanecer nas coisas que aprendeu e das quais tem convicção” desde a infância. Quando Paulo diz isso, certamente ele tinha em mente os deveres e as dificuldades ministeriais de Timóteo. Assim, “as sagradas letras” que Timóteo tinha aprendido desde que ele era um infante seria suficiente para sustentá-lo, como um cristão e como um ministro, nesses “tempos terríveis”. A Escritura é suficiente para sustentar o ministro como um crente individual, de forma que ele se torne e permaneça o oposto desses homens perversos que Paulo tinha acabado de descrever.

Então, Paulo adiciona que pela Escritura “o homem de Deus pode ser plenamente equipado para toda boa obra” (v. 17). Embora a Escritura seja certamente suficiente para uma santificação individual, aqui a “boa obra” se refere principalmente ao que Timóteo deve fazer como um ministro. Paulo está dizendo que a Escritura é suficiente também para equipar Timóteo para sue ministério entre outras pessoas.

Assim, a Bíblia não é somente suficiente para treinar e sustentar o ministro, mas é também suficiente para ser usada pelo ministro. Agora, como ele deveria usar a Escritura no ministério entre outras pessoas é um assunto que reservaremos para a seção sobre a utilidade da Escritura (veja v. 16). Por ora, consideraremos brevemente as implicações da Escritura como sendo suficiente para equipar o ministro para toda boa obra.

Nossa passagem e seus versículos subseqüentes (3:16-4:5) mostram que a tarefa de Timóteo é de forma muito proeminente um ministério da palavra de Deus. Uma das formas principais pelas quais Deus alcança o mundo através dos seus ministros é pela pregação, e em nossa passagem, a pregação é evidentemente a solução primária para ser aplicada contra todos os problemas e pessoas que Paulo já tinha descrito. A questão, então, é se a Bíblia fornece os materiais necessários que o ministro necessita em seu ministério de pregação.

Quando a isso, Paulo escreve que “Toda a Escritura é soprada por Deus e útil... para que o homem de Deus possa ser plenamente equipado para toda boa obra” (v. 16). O versículo não apresenta nenhuma exceção, e a afirmação inquestionável é que a Bíblia é suficiente para tudo o que o ministro precise realizar. Isto é, seja qual for o dever do ministro, ele pode tomar a Bíblia a aplicá-la a essa necessidade, e ela será uma solução adequada.

Segue-se, portanto, que materiais extra-bíblicos são desnecessários. Em seu ministério, nunca é necessário que o ministro tenha estudado as disciplinas de psicologia, sociologia, física, biologia, astronomia ou até mesmo história secular e cultura contemporânea. Nesse ponto, não estamos dizendo nada se essas disciplinas podem ser úteis ao ministro, mas ecoamos a tríplice ênfase de Paulo de que a Bíblia é suficiente para o ministro, de forma que ele possa ser completo, e plenamente equipado para toda boa obra. E isso significa que nenhum conhecimento suplementar é necessário. Afirma outra coisa é negar a suficiência do equipamento que a inspiração divina insiste ser suficiente.

Em seu ministério, Timóteo teria que tratar com muitas pessoas que eram inimigas da fé cristã. Visto que já temos nos referido a isso várias vezes, não repetiremos a descrição de Paulo desses “homens de mentes depravadas” (3:8). Mas além do que ele disse em 3:1-13, Paulo adiciona em 4:3-4 à sua descrição do tipo de pessoas que Timóteo teria que enfrentar: “Pregue a palavra, esteja preparado a tempo e fora de tempo, repreenda, corrija, exorte com toda a paciência e doutrina. Pois virá o tempo em que não suportarão a sã doutrina; ao contrário, sentindo coceira nos ouvidos, juntarão mestres para si mesmos, segundo os seus próprios desejos. Eles se recusarão a dar ouvidos à verdade, voltando-se para os mitos”.

É em tal contexto que Paulo intima Timóteo a “Pregar a Palavra” (4:2). Ele deve fazê-lo “a tempo e fora de tempo”, quer os tempos sejam favoráveis ou desfavoráveis. Essa é uma intimação considerável, e muito instrutiva para o nosso tempo. Você não pode ver o que Paulo está dizendo? Ele diz a Timóteo que a Escritura é útil e suficiente para equipar o ministro para “toda boa obra”. E então ele adiciona que a Bíblia é suficiente, que ela é a resposta, mesmo quando as pessoas recusam escutar o que a Bíblia diz!

Para parafrasear, Paulo está dizendo a Timóteo: “Tempo terríveis estão chegando, quando todos os tipos de pessoas perambularão pela terra e pela igreja. Quando isso acontecer, Timóteo, apenas continue no que você tem aprendido e se torne convicto disso. Eu estou me referindo à Escritura que você tem conhecido desde quando era um infante. Ela lhe conduzirá através desses tempos terríveis; ela assegurará sua fé em Deus e manterá seu caráter santo. Além do mais, a mesma Bíblia funcionará como um equipamento adequado com o qual você pode ensinar e corrigir outros. Agora, chegará o tempo quando as pessoas não desejarão ouvir o que a Bíblia tem para dizer. Mas você deve pregar a palavra de Deus, quer os tempos sejam favoráveis ou desfavoráveis. Mesmo quando as pessoas recusam escutar o que a Bíblia diz, pregue a Bíblia ainda mais — ‘seja moderado em tudo, suporte os sofrimentos, faça a obra de um evangelista, cumpra plenamente o seu ministério' (4:5). Mesmo quando seu ministério de pregação não é bem recebido, apenas continue fazendo o que você supostamente deveria fazer”.

Mas Paulo não diz: “Se as pessoas recusarem escutar a pregação da Bíblia, então você deve acomodá-las e alcançá-las onde elas estão. Você deve diluir a mensagem de certa forma, para que você não as ofenda diretamente. Você deve fazer sua busca de novos membros amigavelmente, de forma que até mesmo aqueles que odeiam a Bíblia venham e se sintam confortáveis, e que até mesmo aqueles que reúnem mestres para si, os quais dizem o que eles querem ouvir, te aceitarão de certa forma. Se eles não gostam da Bíblia, talvez você possa tornar seus sermões mais curtos, ou não pregar de forma alguma. Talvez você possa tocar um tipo de música que eles desfrutarão. E se você oferecer um café dentro da igreja, então isso tornará a experiência com a igreja ainda mais agradável para as pessoas”.

Muitas igrejas têm se desviado do que o apóstolo prescreve. Ele diz: “Se as pessoas não querem ouvir a Bíblia, continue pregando-a. Cumpra todos os deveres do seu ministério”. A Bíblia é suficiente para todos — para ensinar crianças, para equipar ministros e para confrontar apóstatas endurecidos e detratores hostis.


3. UTILIDADE

A utilidade da Escritura não pode ser separada de sua suficiência. Como veremos, a Escritural é útil porque ela é inspirada e suficiente, e ela é suficiente porque ela é inspirada. Por utilidade da Escritura, temos em mente o fato da prestimosidade da Escritura bem como as formas que ela é usada e aplicada. Temos em mente a questão de como esse livro suficiente se torna eficiente em nossas vidas e ministérios.

A essa questão, Paulo escreve: “Toda a Escritura é soprada por Deus e útil para o ensino, para a repreensão, para a correção e para a instrução na justiça” (2 Timóteo 3:16). No contexto, Paulo está dizendo a Timóteo que a Escritura é capaz para acompanhá-lo durante os “tempos terríveis” e é “útil” para equipá-lo plenamente para o ministério. Certamente, a inspiração da Escritura não é um ensino novo para Timóteo, mas Paulo a menciona aqui para explicitamente basear a prestimosidade da Escritura sobre sua inspiração e autoridade. Consideraremos porque ele faz isso e o que isso significa brevemente.

A palavra traduzida como “útil” aqui significa “útil”, “proveitosa”, “benéfica”, “vantajosa” e assim por diante. Ela também aparece em 1 Timóteo 4:8 e Tito 3:8, e é consistentemente traduzida como “proveitosa” na KJV e na NASB [N. do T.: Bem como na ARA e ARC). Em 1 Timóteo, ela se refere ao “valor” duradouro e abrangente da piedade, “tendo a promessa da vida presente e da que há de vir”. Em Tito, parece que a palavra refere-se a um caráter santo, à sã doutrina, e a “fazer o que é bom”, com Paulo dizendo que “estas coisas são excelentes e proveitosas aos homens”. Não há problemas interpretativos com essa palavra em 2 Timóteo. O que precisamente “útil” e “proveitosa” significa aqui é definido pelo contexto.


a. Modos de Aplicação

Além do que podemos derivar do contexto mais amplo, Paulo imediatamente lista várias coisas para as quais a Escritura é útil e proveitosa. [30] Ele diz: “Toda a Escritura é soprada por Deus e útil para o ensino, repreensão, correção e instrução na justiça, para que o homem de Deus possa ser completo e plenamente equipado para toda boa obra”. A palavra “para” ( pros ) aparece antes de cada um dos itens listados no versículo 16, mas a NIV omite isso [N. do T.: A versão brasileira, ou seja, a NVI, não apresenta esse “problema”]. Essa parte do versículo literalmente diz: “ proveitosa para o ensino, para a repreensão, para a correção e para a instrução na justiça” (NASB).

Já temos tratado com a ênfase tríplice sobre a suficiência da Escritura no versículo 17 - é uma declaração inequívoca que a Bíblia é uma ferramenta todo-suficiente para o ministro. Ela é suficiente para tratar cada uma das necessidades. Aqui, voltaremos nossa atenção para os quatro itens na segunda parte do versículo 16.

A Escritura é útil “para o ensino ”. A palavra aparece também em 1 Timóteo 4:6, 13, 16, e 6:3. Como ela é “um termo técnico nas [Epístolas Pastorais] para a formulação doutrinária da Escritura”, [31] outra boa tradução é “doutrina”, que é como a palavra é frequentemente traduzida. Aqui ela se refere à tarefa positiva de ensinar as doutrinas bíblicas, ou o sistema de verdade que Deus revelou na Escritura. Ela é a exposição positiva de todo o conselho de Deus. Como Gordon Fee observa, essa é a “responsabilidade primária” [32] do ministro.

Se a Escritura é meramente “útil” para o ensino, então permanece a possibilidade de que ela precise ser suplementada com algo mais que também seja útil para o ensino. Mas Paulo não permite tal inferência, visto que nesse versículo ele declara que a Escritura é útil para o ensino e outras coisas, para que o homem de Deus possa ser completo , e plenamente equipado para toda boa obra. Em outras palavras, a Bíblia não é apenas “útil” para o ensina, mas ela é também suficiente e completa, contendo tudo o que é necessário para o ministério de ensino.

Há também um relacionamento essencial entre a utilidade e a suficiência da Escritura com sua inspiração e autoridade. A Escritura é útil para o ensino não somente porque ela contém informação doutrinária suficiente, mas ela é suficiente também em outro sentido, a saber, que ela é “soprada pode Deus”, e, portanto, fala com autoridade última. Assim, a Escritura é útil e suficiente para o ensino porque, se a Bíblia afirma algo, ela é a palavra de Deus sobre o assunto, e isso determina a questão. Nenhuma confirmação adicional é requerida, e qualquer evidência extra-bíblica citada como suporte carregaria, de fato, uma autoridade infinitamente inferior, de forma que seu valor racional seria insignificante.

Então, a Escritura é útil “para repreensão”. Várias traduções inglesas favorecem “para reprovar”. Essa tradução pode ser enganosa, e, na melhor das hipóteses, transmite somente parte do que a palavra significa. O original tem o sentido de processar um caso contra erro, de forma que Jay Adams a traduz como “acusação”. [33] Isso deve ser tomado primeiro no sentido objetivo, como acusar alguém no tribunal de justiça. [34] Somente num sentido secundário, ou como um subproduto da acusação objetiva, a palavra se refere a um sentimento de culpa subjetivo ou admissão de delito.

Aqui a palavra refere-se principalmente a oposição do ministro contra os falsos mestres e suas doutrinas, ao invés do comportamento pecaminoso de pessoas (que é abordado pelo próximo item). Paulo está dizendo que, além de oferecer um sistema construtivo de verdade, a Bíblia também é suficiente para “a acusação de falsa doutrina”. [35] Portanto, Lenski sugere a palavra “refutação”. [36]

Assim como a Bíblia é tanto suficiente como proveitosa para o ensino, ela é também suficiente e proveitosa para refutar o erro. Lattimore até mesmo oferece a tradução “útil... para argumentar”. Guardando em mente que Paulo a considera “útil” na extensão de ser “completa”, ele está dizendo que a Escritura supre tudo o que é necessário para realizar tal tarefa, de forma que o ministro não requer nenhum material extra-bíblico.

Também, visto que ele baseia a utilidade e suficiência da Escritura para refutar o erro sobre o fato de que a Escritura é “soprada por Deus”, isso significa que uma vez que uma posição tem sido refutada pela Escritura, ela tem sido declarada falsa por Deus. Nada mais pode ser adicionado à autoridade de Deus, e assim, nada mais pode reforçar a refutação. Qualquer crença que tem sido rejeitada pela Escritura é uma posição morta. Possuindo uma autoridade infinitamente inferior, ou nenhuma, a filosofia humana e as ciências naturais não podem ressuscitar nenhuma posição que tem sido refutada pela Bíblia, nem podem torná-la mais falsa ou absurda. A palavra de Deus é verdadeira e final, e assim, a Escritura é suficiente e proveitosa para refutação, para o combate doutrinário.

Paulo então passa do doutrinário para o ético. A Escritura, ele diz, é útil “para corrigir ”. A palavra significa restaurar a uma posição correta , e denota reforma moral. “Corrigir” algo implica na existência de um delito , e assim, essa palavra refere-se ao aspecto negativo da autoridade e orientação moral da Escritura.

Porque a Escritura é “soprada por Deus”, ela carrega a autoridade do próprio Deus sobre as questões morais. Portanto, quando a Escritura expõe o pecado e corrige o erro, o próprio Deus está falando. Isso dá fim a todos os debates e especulações morais. Se a Bíblia diz que algo é bom e correto, então ele algo é bom e correto. Se a Bíblia diz que algo é mau e errado, então ele é mau e errado. Nada pode adicionar ou tirar algo da autoridade e certeza das declarações da Escritura sobre as questões morais. A Bíblia é suficiente e proveitosa para correção.

A Escritura é útil também “para treinamento na justiça”. A palavra para “treinamento” é paideia . Ela pode se referir a instrução [N. do T.: como na NVI], disciplina ou a todo o programa de treinamento para o jovem, de forma que alguma traduções preferem a palavra “educação”. Mas Paulo está falando sobre um treinamento e educação “na justiça”, e assim, a frase denota a instrução ética positiva, ou o outro lado da “correção”.

Novamente, visto que Deus é a única autoridade moral, visto que suas declarações morais são absolutas e finais, e visto que a Bíblia é a própria palavra e mente de Deus em todas as questões reveladas através dela, isso significa que os ensinos morais da Bíblia são autoritativos, absolutos e finais. Não há diferença de forma alguma entre o que a Bíblia diz e o que Deus pensa com respeito às questões morais.

Além do mais, a Bíblia contém informação suficiente para que o homem de Deus possa ser plenamente equipado para toda boa obra. Em outras palavras, a Bíblia contém um sistema moral completo. Ela é suficiente e proveitosa para fornecer instrução e orientação moral, e para definir o bem e o mal. Ela é a primeira e a última palavra em todas as considerações morais, e ela deve ser a primeira e última corte de apelo para todos os debates e discussões morais.

Reunindo tudo o que foi exposto acima, o versículo nos ensina que a Escritura é soprada por Deus, e, portanto, ela é proveitosa para tratar dos aspectos positivos e negativos tanto do credo como da conduta. Além do mais, ela é proveitosa numa extensão extrema, de forma que com ela, o homem de Deus é completo e plenamente equipado para o ministério. Ele não precisa de nada mais.

Isso nos fornece discernimentos essenciais para um ministério fiel e eficaz, embora os princípios sejam também relevantes para qualquer cenário no qual a palavra de Deus é aplicada. O ponto óbvio, que temos repetidamente enfatizado, é a suficiência da Escritura, e temos notado também o que essa suficiência significa. Mas Paulo é mais específico, e as instruções específicas nos capacitam a sermos mais precisos e deliberados em nosso uso da Escritura. Ele nos diz que a Escritura pode de ser usada para tratar tanto do credo como da conduta, não simplesmente de um dos dois. Então, quer estejamos tratando de credo ou conduta, ele nos diz que a Escritura tem tanto usos construtivos como destrutivos.

Deveríamos examinar como estamos usando a Escritura à luz dessa informação, e alinhar o foco e a agenda do nosso ministério com ela. Para ilustrar, alguns ministros se focam quase que exclusivamente em refutar erro doutrinário, seitas ou falsas religiões. Eles estão fazendo um serviço importante ao Corpo de Cristo, mas ao mesmo tempo, esse desequilíbrio pode infligir grande prejuízo e impedir o progresso completo do evangelho.

Dos quatro itens listados no versículo, o primeiro é o fundacional — isto é, o ensino construtivo da Escritura. Hendriksen concorda que “isso é sempre básico a tudo mais”. [37] O erro doutrinário é discernido e refutado somente com relação a um padrão absoluto de verdade doutrinária. Da mesma forma, tanto os aspectos positivos como os negativos dos princípios éticos na Escritura são encontrados sobre a autoridade da revelação positiva de Deus. Sem o ensino positivo e construtivo da Escritura, os outros itens careceriam do ponto de referência necessário a partir do qual eles devem operar.

Mesmo assim, os usos negativos da Escritura não devem ser negligenciados. Certamente o homem de Deus deve confrontar heresias e pecados com a Bíblia, mas isso somente porque elas desvirtuam ou vão contra os ensinos positivos da Escritura. Como Paulo escreve: “E apegue-se firmemente à mensagem fiel, da maneira como foi ensinada, para que seja capaz de encorajar outros pela sã doutrina e de refutar os que se opõem a ela” (Tito 1:9). O ministro deve refutar aqueles que se opõem à sã doutrina, mas isso significa que a sã doutrina deve ser previamente definida, e é a sã doutrina que buscamos sustentar, mesmo quando estamos refutando.

Assim, quer estejamos nos referindo à nossa pregação, ao exercício da nossa paternidade, ou ao nosso crescimento espiritual individual, nossa obra é inferior e incompleta se aplicamos a Bíblia somente para refutar erros e negligenciamos fornecer ensinos construtivos, ou vice-versa. Da mesma forma, devemos fazer os ajustes apropriados se observarmos que estamos tratando apenas de assuntos de conduta, e não de credo, ou vice-versa (veja também Jeremias 1:10). Então, estaremos bem em nosso caminho tendo o que Spurgeon chama de um “ministério abrangente” [38] [39].


b. Esferas de Aplicação

Quando diz respeito à suficiência da Escritura, temos dito que a própria Escritura deve definir tanto as questões como as respostas. A Escritura nos diz quais assuntos são importantes e então nos diz o que crer sobre eles. E embora ela seja suficiente para todos, ela especifica várias categorias de pessoas, de forma que podemos ser mais cônscios e deliberados em nossa aplicação dos ensinos bíblicos.

O mesmo é verdade com a utilidade da Escritura. Porque a Escritura nos diz sobre seus próprios e variados usos — tais como ensinar, refutar, corrigir e educar — podemos ser muito mais deliberados em nossa aplicação, e nos tornaremos, com uma probabilidade muito maior, cientes da nossa negligência e desequilíbrio.

Por essa razão, nos beneficiaria considerar também as diferentes esferas nas quais a Escritura pode ser aplicada. Por “esferas”, nos referimos aos contextos ou círculos sociais nos quais as pessoas agem. Uma definição simples no dicionário seria “lugar na sociedade” ou “modo de vida”. Por exemplo, a escola e o trabalho representam duas esferas ou círculos sociais diferentes.

As várias esferas acomodam diferentes tipos de relacionamentos e funcionam por regras diferentes, e elas apresentam diferentes oportunidades bem como dificuldades, desafios e tentações. Certamente elas se sobrepõem, e o que acontece a uma pessoa numa esfera social implica na outra. Todavia, elas são frequentemente bem definidas o suficiente para serem discutidas separada e especificamente. Novamente, isso nos capacita a nos tornarmos mais deliberados em nossa aplicação da Escritura, e também mais cientes da nossa negligência.

Embora já tenhamos afirmado que a Escritura tem aplicação universal, e que ela demanda a atenção e obediência de toda pessoa, bem como categorias de pessoas, ela também reconhece diferentes esferas sociais. Aqui discutiremos as três principais, mas somente em resumo, e levantaremos somente alguns dos assuntos que devem ser tratados. Esses devem ser tratados aplicando-se o que já temos discutido acima, e refletindo sobre todo o ensino da Bíblia com respeito a cada uma dessas áreas da vida.

As esferas sociais que discutiremos são o lar, a igreja e o mundo. É dentro desses contextos que devemos usar a Escritura para ensinar, refutar, corrigir e educar a nós mesmos e aos outros, e para promover a salvação e a santificação.

O lar, ou a família, é o menor círculo em nossa lista, mas ele é também o elemento fundamental dos outros. A Escritura é autoritativa, suficiente, e proveitosa para definir a relação da família com Deus, a igreja, e o mundo, a estrutura autoritária entre os membros, o relacionamento entre o marido e a esposa, o relacionamento entre pais e filhos, a autoridade e as responsabilidades dos pais, como viúvas dentro de uma família devem ser tratadas, e todas as outras questões relacionadas. Ela deve regular também a família nas áreas da educação, trabalho, dinheiro, sexo, alimento, saúde, tempo, recreação e entretenimento.

Em outras palavras, a autoridade e utilidade da Escritura toca cada aspecto da vida familiar. A maioria das famílias não fazem quase nada para reforçar os ensinos bíblicos no lar. Há muito mais do que ir à igreja juntos, orar juntos e ler a Bíblia juntos. Por exemplo, a maioria dos homens provavelmente não sabe nada sobre tratar com os sogros ímpios, exceto praticar os princípios bíblicos mais gerais tais como o amor, perdão, ou “uma resposta suave desvia a ira”, e geralmente, até esses são entendidos e aplicados de maneira errônea por eles. Esse é o porquê as famílias devem deliberadamente estudar e aplicar o que a Bíblia tem para dizer sobre como o lar deve funcionar.

Embora a família seja o fundamento da igreja, ela geralmente funciona em conexão com e até mesmo debaixo da influência e autoridade da igreja. Sim, a família pode funcionar em independência relativa da igreja como uma unidade auto-suficiente, de forma que uma igreja que procura exercer autoridade absoluta sobre uma família é realmente uma seita, mas a ordem da Bíblia para obedecer líderes da igreja e servir aos interesses da comunidade do pacto se aplica às famílias individuais que compõem tal comunidade.

Além do mais, a igreja é onde a palavra de Deus é autoritariamente pregada e reforçada. Certamente, a palavra de Deus deve ser pregada e reforçada também na família, mas a igreja é uma instituição maior que prega e reforça a palavra de Deus para a família. Enquanto o marido é a corte final de apelo no lar, se surgir a necessidade, apelos especiais podem ser feitos à igreja, de forma que sob a autoridade da Escritura, a igreja pode oferecer conselho ou lançar um veredicto, e em casos extremos, até mesmo excomungar o ofensor.

Por exemplo, o marido pode apelar à igreja se sua esposa persistentemente recusa lhe obedecer, ou a esposa pode apelar se seu marido abusa dela — isto é, não como ela define abuso, mas como a Bíblia o definiria. Famílias hostis que não podem resolver suas disputas por si mesmas podem também apelar à igreja. Isso pode funcionar muito bem até mesmo quando as famílias envolvidas pertencem a igrejas diferentes, isto é, se ambas as igrejas são comprometidas em reforçar os princípios bíblicos da disciplina eclesiástica. Contudo, é difícil para muitas famílias encontrar alguma igreja que sequer saiba o que a Bíblia ensina sobre o assunto, para não dizer uma que reforce tal ensino. Isso contribui para a forma como os cristãos frequentemente desonram o reino de Cristo diante dos tribunais do mundo, como se a igreja não pudesse resolver nem mesmos as questões triviais entre os seus membros.

Então, como mencionado, a tarefa primária da igreja é pregar e reforçar a palavra de Deus, isto é, a Bíblia. Ela é “o pilar e o fundamento da verdade” (1 Timóteo 3:15). Sob essa descrição geral, há muitas tarefas que ela deve realizar. O sermão de Domingo é óbvio, e ela deve fornecer também conselho individual, aulas de teologia e treinamento no ministério.

Há maneiras diferentes de aplicar a suficiente palavra de Deus em contextos diferentes, sob níveis diferentes, e para pessoas diferentes. Mas a suficiência e utilidade da Escritura não somente implica que essas coisas devem ser feitas pela igreja, mas também como elas devem ser feitas. Por exemplo, porque a Bíblia é suficiente para equipar completamente o homem de Deus para toda boa obra, as teorias e métodos seculares são desnecessários e até mesmo indesejáveis ao conselheiro da igreja. Se o filé mignon fosse perfeito, espalhar estrume de cavalo nele não tornaria o seu gosto melhor.

Além do mais, visto que a própria Bíblia reivindica que ela torna o homem de Deus completo, e plenamente equipado para toda boa obra, então a igreja deveria ser capaz de treinar seus próprios ministros sem mandá-los para o seminário. Se o seminário serve um propósito legítimo é uma questão separada, mas ele não deveria ser necessário. Se o seminário é necessário para equipar plenamente o homem de Deus, isso pode significar apenas que a igreja não ensina eficazmente toda a palavra de Deus.

Nesse caso, a solução é reparar a igreja, e não construir um seminário. E isso não é dizer que se deve tomar uma pessoa treinada no seminário para reparar a igreja, visto que esse argumento funcionaria por uma geração, na melhor das hipóteses — se o ministro treinado no seminário reparasse o problema, essa deficiência na igreja não deveria existir mais na próxima geração.

Agora, se o seminário é apenas uma extensão da igreja, então eu não tenho problema com ele. Contudo, seria desnecessário então chamá-lo de um seminário — ele seria apenas parte do que a igreja está fazendo para treinar seus próprios ministros. Também, ele deve então funcionar realmente como parte da igreja. Ele não deveria cobrar mensalidade, [40] e deveria ser supervisionado por presbíteros da igreja, não por deãos e diretores. As pessoas que ensinam nele devem ser ministros de verdade, não simplesmente professores. Ao invés de conceder graus, ele deveria emitir cartas de recomendação personalizadas, atestando tanto a ortodoxia como o caráter dos discípulos, para promovê-los ao presbiterato ou enviá-los para outros lugares. Em adição, a disciplina eclesiástica deveria ser reforçada, e não deveria ser permitido que aqueles que afirmam heresias ou persistem em vícios conhecidos se “graduassem”. Ele deve ser um programa de discipulado (com o mais rigoroso treinamento acadêmico), não um programa acadêmico. A verdade é que a maioria dos seminários não são assim, mas o sistema inteiro deles é padronizado de acordo com instituições seculares, e a maioria dos seus graduados são inadequados para o ministério. [41]

Uma esfera ainda maior do que a igreja é o mundo. Por mundo, podemos nos referir a todos os seres humanos em geral, incluindo tanto cristãos como não-cristãos, ou não-cristãos em particular. Algumas vezes podemos estar nos referindo a um círculo que está fora da igreja, mas que pode incluir tanto cristãos como não-cristãos, tais como a escola, o trabalho, ou o governo.

A Bíblia traça uma linha clara separando a igreja e o mundo. Ela nos diz para permanecermos no mundo, mas não sermos contaminados por ele. Reagindo contra o hermetismo, muitos crentes se lançam no mundo, participando de quase tudo o que ele tem para oferecer. Como resultado, eles terminam no outro extremo, aquele de ser amigo do mundo, e usando com uma escusa a reivindicação de que eles estão abraçando a criação de Deus e funcionando como sal e luz do mundo. Se isso é o que eles estão realmente fazendo, então o mundo ou mudaria, ou vomitá-los-ia. Mas o mundo é confortável com eles, pois eles são o mundo. Não nos enganemos. A Bíblia diz que devemos permanecer no mundo para que possamos pregar para ele, ser uma testemunha contra ele, levar as pessoas para fora das suas trevas, mas não de forma que possamos brincar com ele.

A Bíblia é suficiente para se dirigir a todas as pessoas, mesmo incrédulos, escarnecedores e apóstatas hostis. Ela fornece materiais suficientes para um sistema completo de apologética, e um método e uma mensagem completa para evangelismo. Mas quando estamos falando de todas as coisas fora da igreja, a Bíblia não é somente boa para apologética e evangelismo, mas ela define e regula sobre todos os aspectos de todas as pessoas. Isso significa que ela é o padrão definidor para arte, ciência, comércio e até mesmo governo.

Falando do governo, há muita discussão e debate sobre a separação da igreja e o Estado. A controvérsia nesse país tem muito a ver com o significado e interpretação da Primeira Emenda da Constituição dos Estados Unidos. Sobre esse ponto, eu concordo que a Primeira Emenda pretende proteger a igreja do Estado, ou na melhor das hipóteses um do outro, mas não eliminar a religião de todos os programas e atividades patrocinadas pelo governo, tais como o sistema de escola pública.

Contudo, a Primeira Emenda tem apenas uma relevância local, legal e prática. Ela não tem nenhuma relação com se algo é certo ou errado a partir da perspectiva do padrão revelado absoluto de Deus. A questão prévia é, antes de tudo, se a Primeira Emenda é bíblica. Se ela for anti-bíblica, então ela é errada, e os crentes devem se opor a ela. Mas se ela é bíblica, então ela é correta, e os crentes devem advogar o que ela diz, mesmo que não houvesse tal emenda na constituição. A despeito do que a lei humana realmente diz e significa, a questão mais importante, universal e espiritualmente relevante é o que a Bíblia ensina sobre o relacionamento apropriado entre a igreja e o Estado.

Agora, suponha que concordemos que a igreja e o Estado são duas instituições diferentes com funções diferentes, e que uma não deve usurpar a autoridade da outra. Por exemplo, a igreja tem o poder pra excomungar um assassino, mas ela não tem o direito de executá-lo. Isso realmente responde algumas questões, mas algumas vezes as pessoas perdem o ponto mais amplo, e, portanto, chegam a conclusões errôneas sobre como o governo deveria funcionar.  Elas tendem a esquecer que simplesmente porque a igreja não pode controlar ou substituir o governo não significa que o governo está livre da autoridade de Deus, ou do que é equivalente nesse contexto, a autoridade da Bíblia.

Legisladores, políticos, juízes, oficiais de polícia, e assim por diante, são todos indivíduos humanos, e como tais, eles nunca estão isentos de crer no evangelho e se comportarem como cristãos. Eles não são moralmente livres para serem ateístas, para ignorar preceitos bíblicos, ou para seguir religiões e filosofias não-cristãs simplesmente porque eles trabalham para o Estado. Toda lei anti-bíblica e toda opinião anti-bíblica é pecaminosa quando encontrada em qualquer contexto e em qualquer pessoa, e será julgada por Deus de acordo com o padrão que ele tem revelado na Escritura.

Assim, um governo ou está por Cristo ou contra ele. Assim como nenhum indivíduo humano pode ser neutro para com Cristo, nem pode um governo, que consiste de indivíduos humanos, ser neutro. Qualquer governo que reivindica ser religiosamente neutro já tem se colocado contra Cristo. De fato, como é verdade com indivíduos humanos, qualquer governo que falha em explicitamente prometer fidelidade a Cristo é um inimigo de Cristo.

Portanto, pelo menos dessa perspectiva, é irrelevante que o Estado seja uma instituição separada da igreja, e que a igreja não tenha nenhuma autoridade sobre ele ─ o governo está diretamente sob a ameaça da maldição divina para seguir tudo o que a Bíblia ordena em tudo o que ele faz. O fato de que ele não é responsável diante da igreja não faz nenhuma diferença, visto que ele ainda é diretamente responsável diante de Deus, e Deus condena todas as leis, todas as opiniões, e todas as ações que não sejam aquelas que ele aprova e permite através da Escritura. Assim, se o governo não aprende suas obrigações para com Deus a partir da igreja, ele ainda deve aprendê-las diretamente a partir da Bíblia.

Muitos cristãos são cautelosos quanto à teonomia, mas como o Estado pode racionalmente justificar as leis contra assassinato, roubo, estupro, perjúrio ou qualquer coisa semelhante, sem apelar à Escritura? De fato, como o governo pode justificar sua própria existência aparte da Bíblia? Aqui não temos que discutir os acertos e os erros da Teonomia Reformada, mas não há como negar o fato de que o governo não pode justificar sua própria existência, entender seu próprio propósito e mandato, ou definir os vários crimes e a severidade de cada crime sem a Bíblia. [42] Se devemos chamar isso de uma forma de teonomia, então que seja.

Muitos cristãos não têm nenhuma idéia de pelo o que eles estão lutando. Eles reivindicam rejeitar todas as formas de teonomia, e eles querem liberdade religiosa total para todo mundo, mas então eles desejam lutar para que o governo sancione a exibição pública dos Dez Mandamentos. Eles não vêem que não há tal coisa como os “Dez Mandamentos” de forma abstrata? O que são esses dez mandamentos? Se eles estão lutando pela direito de exibir duas tábuas de pedra com dez letras romanas gravadas nelas, então eles não estão lutando pelos dez mandamentos bíblicos de forma alguma. Eles frequentemente falam de como nossas leis são baseadas em “valores judaico-cristãos”. Mas não há nenhum valor em “I, II, III, IV….”.

Os Dez Mandamentos não são apenas as palavras “Dez Mandamentos”, mas há realmente dez mandamentos que Deus revelou a Israel no meio de uma exibição espetacular de poder e glória. Citar o primeiro mandamento seria suficiente para estabelecer o ponto: “Não terás outros deuses além de mim” (Êxodo 20:3). Lutar pela permissão ou sanção do governo para exibir publicamente os Dez Mandamentos não é lutar pelo direito de exibir duas tábuas brancas de pedra ou as palavras “Os Dez Mandamentos”, mas os dez mandamentos reais, incluindo esse primeiro. Lutar por “valores judaico-cristãos” não é lutar por uma expressão sem sentido, mas lutar pelas leis morais reveladas na Bíblia, incluindo o primeiro mandamento.

Qual é o significado de tudo isso? Significa que se você está lutando pelos Dez Mandamentos como uma mera abstração, ao invés de lutar pela sanção do governo para declarar e reforçar os dez mandamentos reais, então o esforço não é digno, visto que você está lutando por uma causa que não tem significado nem conteúdo, e que não tem nada a ver com o Cristianismo.

Por outro lado, se você está exigindo que o governo sancione e patrocine uma declaração pública dos Dez Mandamentos como os dez mandamentos reais, começando com “Não terás outros deuses além de mim”, então entenda que você não está simplesmente lutando para criar um espaço para o Cristianismo como uma opção entre muitas, mas você está lutando pelo direito ─ pela sanção do governo, sobre a propriedade do governo ─ de publicamente condenar todas as religiões não-bíblicas, todas as filosofias não-bíblicas, e todos os seus aderentes, para exaltar o Cristianismo como a única religião verdadeira e a única base legítima para a civilização humana. Agora, essa sim é uma causa que eu posso apoiar.

O fato do governo admitir que ele é fundado sobre princípios cristãos é também declarar que seu próprio fundamento condena todas os princípios não-cristãos, tal como uma condenação é fundamental para o Cristianismo.  E embora tal governo possa não persegui-los ativamente, todos os não-cristãos que vivem sob tal governo são, todavia, governados e julgados por princípios explicitamente cristãos. Isso é o que demandamos que nosso governo diga ao mundo quando exigimos que ele reconheça suas raízes cristãs. E que monstro grotesco nosso governo pareceria, se a partir de raízes cristãs ele produzisse não somente frutos cristãos, mas também muçulmanos e budistas. A Bíblia é suficiente e proveitosa para edificar uma nação, e se o fundamento é verdadeiramente cristão, então exclusão deve ser parte desse fundamento.

(fim da série)

 

NOTAS:

[1] - Uma obra anterior, Pregue a Palavra, trata com a passagem que se segue (2 Timóteo 4:1-3). A presente porção, então, pode ser considerada como uma introdução. Estaremos discutindo a autoridade, suficiência e utilidade da Escritura — Pregue a Palavra considera os princípios de pregação e educação, e assim estende e sobrepõe com a seção final. Todavia, não haverá nenhuma tentativa deliberada de relaciona um artigo com o outro.

[2] - Veja o versículo 17, mas também 1 Timóteo 6:10-11: “Pois o amor ao dinheiro é a raiz de todos os males. Algumas pessoas, por cobiçarem o dinheiro, desviaram-se da fé e se atormentaram com muitos sofrimentos. Mas você, homem de Deus, fuja de tudo isso e busque a justiça, a piedade, a fé, o amor, a perseverança e a mansidão”.

[3] - “Você, contudo” e “você, em contraste” são de fato traduções boas. O ponto é que todas as três ocorrências deveriam ser traduzidas da mesma forma.

[4] - Sem dúvida, falar da Escritura como um produto de “influência divina” é muito fraco, a menos que esteja claro que essa “influência” é absoluta e exaustiva. Contudo, nesse momento a questão não é se os dicionários fornecem uma definição precisa da doutrina bíblica, mas se a palavra inspiração deve significar “inspirar”, ou se ela é facilmente construída como tal num contexto teológico.

[5] - Robert L. Reymond, A New Systematic Theology of the Christian Faith (Thomas Nelson, 1998), p. 34

[6] - Hebreus 1:1-2 diz: “Há muito tempo Deus falou muitas vezes e de várias maneiras aos nossos antepassados por meio dos profetas, mas nestes últimos dias falou-nos por meio do Filho, a quem constituiu herdeiro de todas as coisas e por meio de quem fez o universo”. A ênfase aqui é que Deus falou-nos, e o fez através da pessoa superior de Cristo, e não que as palavras de Cristo eram de alguma forma mais inspiradas. Se os profetas falaram da parte de Deus, então nada poderia ser mais inspirados. Também, nosso tópico é a inspiração e autoridade da Escritura, mas isso não é o que essa passagem de Hebreus está tratando. Nada na passagem indica que as palavras de Cristo eram mais verdadeiras ou inspiradas do que as dos profetas, ou que as palavras dos profetas na Escritura tinham algo menos do que a autoridade de Deus.

[7] - Veja Vincent Cheung, The Parables of Jesus para comentários adicionais.

[8] - A. T. Robertson, Word Pictures in the New Testament, Vol. 6 (Broadman Press, 1960), p. 158.

[9] - Gordon H. Clark, New Heavens, New Earth: A Commentary on First and Second Peter (The Trinity Foundation, 1993), p. 192-193. Parênteses no original.

[10] - Kenneth S. Wuest, The New Testament: An Expanded Translation. Parênteses no original.

[11] - Edward J. Young, Thy Word is Truth (The Banner of Truth Trust, 1957), p. 25.

[12] - Veja Vincent Cheung, “More Than a Potter”.

[13] - Michael Green, 2 Peter and Jude (William B. Eerdmans Publishing Company, 1987), p. 103.

[14] - Ibid.

[15] - Certamente, a pessoa ainda não é autônoma nesse caso, mas seria Deus quem o controlaria para produzir um documento falho. Mas se esse é o caso, então o documento não é corretamente descrito como inspirado, e ainda menos infalível, inerrante ou soprado por Deus. Ele seria apenas outro pedaço de escrito produzido sob a providência ordinária de Deus.

[16] - Poderia ser que eles foram “impelidos” por Deus à medida que eles estavam ouvindo suas palavras, mas permanece que a única questão de relevância imediata é se eles foram impelidos à medida que estavam falando e escrevendo.

[17] - Aqui não estamos falando da relação dela com Deus, que exerce controle direto, total e contínuo sobre sua vontade.

[18] - Geerhardus Vos, Biblical Theology (The Banner of Truth Trust, 1975), p. 91.

[19] - Por exemplo, veja William G. T. Shedd, Dogmatic Theology (P & R Publishing, 2003).

[20] - Veja Vincent Cheung, “More Than a Potter.” [em português]

[21] - Martin Luther, The Bondage of the Will (Fleming H. Revell, 1957), p. 314. Lutero não trata aqui do que causou Adão cometer o primeiro pecado, visto que ele está discutindo Efésios 2:3 e não Adão, mas ele afirma que todos os descendentes de Adão são criados como pecaminosos por Deus. Teólogos inferiores preferem se ocultar atrás da “propagação natural”, de forma que eles podem distanciar Deus do mal.

[22] - Young, Thy Word is Truth , p. 25.

[23] - Veja Vincent Cheung, “Biblical Guidance and Decision-Making” em Godliness with Contentment.

[24] - Veja Vincent Cheung, “Unfading Beauty” in Renewing the Mind .

[25] - Em conexão com 2 Timóteo 3:15, veja também meu livro On Good and Evil , onde eu corrijo uma interpretação anti-intelectual de João 5:39-40.

[26] - Incrédulos têm influenciado os cristãos a ensinarem dessa forma quando diz respeito à religião, mas não é assim que eles ensinam a evolução.

[27] - William Hendriksen, Exposition of The Pastoral Epistles (Baker Books, 1957), p. 298.

[28] - Para mais sobre as teorias de educação, veja Vincent Cheung, Preach the Word , e Gordon Clark, A Christian Philosophy of Education .

[29] - Veja Vincent Cheung, Preach the Word.

[30] - Veja também 2 Timóteo 4:2: “corrija, repreenda e encoraje”. Eu dei uma exposição disso em Preach the Word .

[31] - William D. Mounce, Pastoral Epistles (Thomas Nelson, Inc., 2000), p. 570.

[32] - Gordon D. Fee, 1 and 2 Timothy, Titus (Hendrickson Publishers, 1988), p. 279.

[33] - Jay E. Adams, The Christian Counselor's New Testament and Proverbs (Timeless Texts, 2000).

[34] - Jay E. Adams, How to Help People Change (Zondervan Publishing House, 1986), p. 113-115.

[35] - Mounce, p. 570. Also, Fee, p. 280, and Donald Guthrie, The Pastoral Epistles, Revised Edition (William B. Eerdmans Publishing Company, 1999), p. 176.

[36] - R. C. H. Lenski, The Interpretation of St. Paul's Epistles to the Colossians, to the Thessalonians, to Timothy, to Titus, and to Philemon (Hendrickson Publishers, 2001), p. 846.

[37] - Hendriksen, p. 303. Também, Fee, p. 279.

[38] - Charles H. Spurgeon, An All-Round Ministry (The Banner of Truth Trust).

[39] - Nesse ponto, o plano original para essa exposição continua para discutir várias formas ou modos pelos quais a Escritura é apresentada — a saber, falando, escrevendo e lendo. Contudo, devido à falta de tempo, esqueceremos esses itens e nos moveremos para a próxima e última seção.

[40] - Contudo, a igreja poderia requerer um padrão fiel de oferta de seus estudantes como parte do treinamento de caráter deles e ajudá-los a se tornarem bons exemplos para os outros.

[41] - Veja Vincent Cheung, “Church and Seminary”, em Doctrine and Obedience .

[42] – Para defender essa declaração, precisamos apenas aplicar nossa posição usual da apologética pressuposicional bíblica na área da política. Se todas as cosmovisões não-cristãs falham desde o início, então não pode haver nenhuma justificação racional para nenhuma teoria não-cristão sobre qualquer coisa, e isso inclui política. Veja Vincent Cheung, Ultimate Questions, Presuppositional Confrontations, e On Good and Evil. 

 


Nota sobre o autor: Vincent Cheung é o presidente da Reformation Ministries International [Ministério Reformado Internacional]. Ele é o autor de mais de vinte livros e centenas de palestras sobre uma vasta gama de tópicos na teologia, filosofia, apologética e espiritualidade. Através dos seus livros e palestras, ele está treinando cristãos para entender, proclamar, defender e praticar a cosmovisão bíblica como um sistema de pensamento abrangente e coerente, revelado por Deus na Escritura. Ele e sua esposa, Denise, residem em Boston, Massachusetts. [http://www.rmiweb.org/]

 


Traduzido por: Felipe Sabino de Araújo Neto
Cuiabá-MT, 23 de Novembro de 2005.

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